segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Antipetismo é central, mas eleição confirmou força do antibolsonarismo, por Jorge Chaloub

Folha de S. Paulo

Ruas e redes foram determinantes para o aumento da rejeição a Flávio Bolsonaro

Vitória histórica de Lula no 2ºturno garante a sobrevivência da Constituição de 1988

O resultado do primeiro turno indicava uma provável eleição de Flávio Bolsonaro (PL), não tanto pela vantagem de pouco mais de 2 milhões de votos quanto pelo perfil dos outros candidatos, muito mais próximos do senador de ultradireita. Com o resultado do PL no Congresso e a expectativa de um bom número de vagas no STF, o cenário parecia apontar não apenas para uma mudança de governo, mas para uma transformação do regime político.

O filho de Jair teria a possibilidade de cumprir a promessa, feita nos primeiros dias do segundo turno, de romper com a Constituição de 1988. Esse propósito, aliás, é um dos grandes projetos políticos do bolsonarismo, já explicitado diversas vezes por membros da família do presidente.

A corrosão da democracia muitas vezes começa nos discursos e chega rapidamente às instituições. Depois de décadas em que os procedimentos eleitorais funcionaram regularmente no Brasil, vivemos neste domingo (25) um dia triste para a democracia brasileira. Ações destinadas a impedir que eleitores fossem às urnas, antes restritas à atuação da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em 2022, não apenas se alastraram, como também passaram a integrar, aparentemente, o repertório rotineiro da disputa política.

Do outro lado estava, porém, um dos maiores líderes populares da história do Brasil, cuja trajetória se confunde com a própria República de 1988. A vitória de Lula não apenas indica sua continuidade na Presidência, mas também garante a sobrevivência da ordem democrática vigente.

O triunfo conjugou velhas táticas petistas, como a militância de rua e as grandes mobilizações sociais, com novos repertórios das redes sociais. Depois de um primeiro turno morno, emergiram algumas das maiores manifestações de rua da história das eleições brasileiras, com multidões até em estados que não costumam ser redutos lulistas.

Nas redes, a atuação do deputado André Janones ajudou a transformar um território central para a ultradireita brasileira, com a criação de um grupo de WhatsApp, o Exército do Lula, que reuniu mais de 10 milhões de pessoas. Não é possível separar ruas e redes neste segundo turno, já que um terreno inflamava o outro, criando uma espiral de entusiasmo e mobilização. Os dois movimentos foram centrais para o aumento da rejeição a Flávio e para a melhora da imagem positiva de Lula. Sem dúvida, o antipetismo é central na política brasileira, mas a atual eleição confirmou a força do antibolsonarismo.


Por fim, é necessário enfatizar que, desde o final do primeiro turno, o governo tomou algumas das medidas mais audaciosas do mandato —como a proibição das bets e o fim da jornada 6x1—, o que lhe permitiu recuperar a agenda depois de um primeiro turno ofuscado pela ênfase no STF e no tema da corrupção.

O horizonte aponta para um mandato muito duro, no qual o questionamento da legitimidade do governo deve começar nesta segunda-feira (26). O discurso golpista é um elemento central da prática política da coalizão bolsonarista, que seguirá forte nos próximos quatro anos, com articulações que ultrapassam as fronteiras brasileiras. É necessário destacar, contudo, que, mesmo com todos os seus problemas, a continuidade da ordem de 1988 é uma conquista inegável da história democrática brasileira.

 

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