segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Uma virada surpreendente numa história improvável, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Virada inédita é mais um capítulo na carreira extraordinária do político mais bem-sucedido da história brasileira

No dia 30 de outubro de 2022, Luiz Inácio Lula da Silva parecia ter completado a sua jornada do herói. Depois de amargar um calvário de 580 dias na prisão, derrotar seu arquirrival Jair Bolsonaro surgia como o capítulo final de uma história ao mesmo tempo improvável e extraordinária.

Lula foi o primeiro presidente brasileiro de origem humilde. Nascido no agreste de Pernambuco, conviveu com a fome e a falta de água potável e saneamento básico. Como milhões de seus conterrâneos, migrou para São Paulo e foi criado apenas pela mãe.

Num país sempre governado por bacharéis ou militares, Lula é o único que emergiu das classes trabalhadoras. Torneiro mecânico, formou-se politicamente no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. A liderança das grandes greves no ABC lhe deu projeção nacional e a força para criar o Partido dos Trabalhadores (PT).

A longa travessia dos palanques nas Diretas Já até as derrotas nas eleições presidenciais de 1989, 1994 e 1998 foram moldando o caráter do personagem. Enquanto crescia em popularidade, Lula e seu partido acumularam decisões radicais e equivocadas: abstiveram-se na eleição de Tancredo Neves que pôs fim à ditadura, posicionaram-se contra o texto final da Constituição de 1988 e fizeram uma oposição ferrenha ao Plano Real.

Após três reveses seguidos, a lição foi apreendida e, em 2002, um Lula de discurso muito mais moderado finalmente foi recompensado com a vitória nas urnas. Em termos de aprovação popular, seus dois mandatos foram os mais bem-sucedidos desde a redemocratização - 83% de ótimo/bom, segundo o Datafolha.

É bem verdade que o boom de commodities ajudou a economia a entregar um crescimento médio bem superior ao de anos anteriores. Mas a elevada aprovação da primeira passagem de Lula pela Presidência da República se deve a políticas sociais que fizeram jus à sua origem popular: Bolsa Família, valorização do salário-mínimo, expansão das vagas em universidades e institutos federais, Prouni, Luz para Todos, transposição do Rio São Francisco, entre muitas outras.

Os méritos da sua gestão entre 2003 e 2010, porém, pagaram um preço elevado no campo ético. Os escândalos da compra de votos de deputados da base aliada no mensalão e os esquemas de pagamentos de propinas e de caixa dois de campanha ao PT e a partidos aliados - que vieram à tona posteriormente, com a Operação Lava-Jato - macularam de forma definitiva a imagem do petismo.

E foi aí que Lula viveu seu inferno na Terra. Eleito como o alvo preferencial de Deltan Dallagnol e dos demais integrantes da força-tarefa comandada pelo Ministério Público Federal em Curitiba, o então ex-presidente foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro pelo juiz Sergio Moro. Com a confirmação da sentença pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região, Lula foi conduzido à carceragem da Polícia Federal em 7 de abril de 2018.

Mesmo cumprindo pena, o líder petista não deixou de influenciar a política brasileira. Fez de sua prisão um movimento (“Lula livre”) e manteve até a última hora seu nome como candidato à Presidência em 2018. Impedido de concorrer pela Lei da Ficha Limpa, fez de Fernando Haddad seu avatar, mas Jair Bolsonaro foi eleito na onda da antipolítica que cresceu na esteira da Lava-Jato.

Tudo parecia caminhar para o fim melancólico do lulismo, porém o roteiro continha um plot twist. A nomeação de Moro como ministro da Justiça de Jair Bolsonaro e o vazamento da troca de mensagens entre os integrantes da Lava-Jato levaram à revisão do entendimento do STF sobre a prisão em segunda instância e posteriormente à anulação de sua condenação.

Reabilitado eleitoralmente, Lula foi para a batalha contra Jair Bolsonaro em 2022 com o Brasil dividido como nunca havia sido visto ainda. O petista encarnou a defesa da democracia e das políticas públicas perante uma população ainda traumatizada pelas milhares de mortes evitáveis durante a pandemia - e isso foi decisivo para atrair o voto de eleitores não petistas.

Renascido das cinzas aos 77 anos, esperava-se que o último capítulo de sua história seria uma busca da união, ainda mais depois dos atos antidemocráticos bolsonaristas de 8 de janeiro de 2023. Além disso, o script tradicional indicava que Lula deveria preparar um sucessor, para quem passaria o bastão em 2026.

Nada disso aconteceu. A prometida frente ampla não foi concretizada, sua nova administração não foi bem avaliada e desde o início ficou claro que Luiz Inácio desejava ele mesmo um quarto mandato.

A vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro indicava que este seria o triste fim de Lula da Silva. A virada inédita de ontem, porém, comprova que nada funciona como o esperado na vida do líder político mais importante da história recente.

Frente a um bolsonarismo mais forte do que nunca no Congresso, com Flávio Bolsonaro questionando o resultado das eleições e diante de um STF desacreditado perante boa parte da população e com enormes restrições, Lula viverá a partir de 05 de janeiro um dos maiores desafios de sua surpreendente carreira.

 

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