quinta-feira, 12 de junho de 2014

Ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa é preso no Rio

• Suíça bloqueou US$ 23 milhões que estariam em contas do ex-dirigente da estatal. Advogado afirma que seu cliente não possui contas no exterior

Cássio bruno, Germano Oliveira, Julianna Granjeia e Antonio Werneck – O Globo

SÃO PAULO e RIO — O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa foi novamente preso preventivamente na tarde desta quarta-feira. A decisão foi proferida pelo Juiz Federal Sérgio Moro, da 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba, com base em novas provas trazidas pelo Ministério Público Federal (MPF) de que o ex-diretor da estatal tem milhões de dólares em contas no exterior, bem como pelas razões que já haviam determinado a anterior prisão dele. As novas informações foram obtidas mediante cooperação internacional entre o MPF e o Ministério Público da Suíça.

Paulo Roberto Costa foi preso em casa, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, por volta das 16h. Escoltado, ele foi encaminhado para a Superintendência da Polícia Federal, na Praça Mauá. Sem falar com a imprensa, permaneceu por 20 minutos no local, e foi encaminhado para o Instituto Médico Legal para exame de corpo de delito, praxe nestes casos, e voltou à superintendência por volta das 18h. De acordo com a PF, o ex-diretor da Petrobras passará a noite no local, numa cela improvisada para casos de emergência, e será transferido nesta quinta-feira para Curitiba, onde o caso tramita.

Em entrevista ao GLOBO, o advogado de defesa Nélio Machado afirmou que entrará nesta sexta-feira com recurso para que seu cliente responda o processo em liberdade, já que nesta quinta o judiciário não vai funcionar devido ao jogo do Brasil. Segundo Machado, o caso não deveria estar correndo pela justiça federal do Paraná, e sim pelo Supremo Tribunal Federal, por envolver parlamentares, como o deputado André Vargas (sem partido-PR), e Cândido Vacarezza (PT-SP). O advogado criticou a iniciativa do STF de transferir os processos para a justiça federal do Paraná:

— Eu até me sinto desconfortável pela forma que o Supremo atuou. Havia uma petição pendente do julgamento, uma petição da defesa protestando por ter conhecimento da data do julgamento. Até porque permite ao advogado fazer a sustentação oral, usar a tribuna. Isso foi julgado pela segunda turma (do STF), no mesmo momento em que o meu cliente dava a declaração à CPI (da Petrobras), sem que o advogado fosse informado direta ou indiretamente pelo STF. Essa decisão do Supremo é totalmente questionável — disse o advogado.

Ele também negou que Paulo Roberto Costa tenha contas no exterior e alegou também que o cliente não oferece perigo de fuga, já que seus passaportes brasileiros e portugueses foram entregues de forma voluntária:

— Essa prisão é açodada, é uma precipitação. Meu cliente vai apresentar sua defesa. A alegação de existir conta no exterior nada significa, mas meu cliente não tem conta no exterior — declarou Machado, que disse ter sido informado da prisão do ex-diretor da estatal no velório do ex-governador Marcello Alencar.

A Justiça do Paraná confirmou hoje o bloqueio, feito pela Suíça, de US$ 23 milhões em contas que seriam movimentadas no exterior por Costa. Além disso, foram bloqueados mais US$ 5 milhões, em contas que estariam em nome de familiares de Costa e também do doleiro Alberto Yousseff.

A Justiça do Paraná começou a despachar hoje os processos que foram devolvidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF), com exceção dos autos referentes ao deputado petista André Vargas, que tem foro privilegiado.

Segundo a Justiça paranaense, o bloqueio das contas no exterior foi feito no início dessa semana, de acordo com documentos enviados pelo Ministério Público da Confederação da Suiça. A organização da Suíça informou que identificou 12 contas bancárias em cinco bancos daquele país, sob controle de Paulo Roberto Costa, de suas duas filhas, dois genros e de um funcionário do doleiro Youssef, somando os valores de US$ 28 milhões, sendo que US$ 23 pertenceriam ao ex-diretor da Petrobras. Ainda segundo o Ministério Público Suíço, os valores bloqueados são mantidos em nomes de contas de off-shores. Segundo as investigações, tais contas seriam alimentadas com recursos desviados durante as obras de construção da refinaria Abreu Lima.

Costa, que ficou preso na superintendência da Polícia Federal por conta da Operação Lava Jato, foi solto no último dia 19, beneficiado por uma decisão do ministro do STF, Teori Zavascki. Yousseff também foi beneficiado com a decisão do ministro, que voltou atrás e manteve em liberdade apenas o ex-diretor da Petrobras.

*José Serra: Governo apaga uma má ideia e copia uma boa

• A Lei Antifumo não é nova. De todo modo, cabe-me dar boas-vindas aos neoantitabagistas

- O Estado de S. Paulo

O governo federal anunciou, com a retumbância com que habitualmente se apropria do que não lhe pertence, a regulamentação da Lei Antifumo. Nunca foi tão verdadeira a frase segundo a qual as gestões petistas têm ideias boas e novas. Só que as novas não são boas e as boas não são novas. A proibição da publicidade (enganosa) de cigarros foi feita há 14 anos, no governo FHC, ao lado da proibição do fumo em aviões e de alertas sobre os perigos para a saúde estampados nos maços do produto.

Mais ainda, no Estado de São Paulo, há muitos anos enviei à Assembleia Legislativa um projeto banindo o fumo dos locais fechados de uso coletivo, públicos ou privados, e proibindo os famigerados "fumódromos".

Na vida pública travamos certas batalhas que são apenas necessárias porque constituintes mesmo da tarefa: organizar a administração, dinamizar a burocracia, lidar com a escassez de recursos em face de demandas sempre crescentes, encurtar as atividade-meio para que a gestão possa dedicar-se a seus fins. E há as batalhas volitivas, que são escolhas, as quis têm o potencial de mudar para sempre a realidade, instituindo-se, então, uma nova cultura. Na minha trajetória política, orgulho-me, em particular, de três opções - contrariando, muitas vezes, algumas vozes até sensatas, movidas pela prudência, que me alertaram de que poderia estava mexendo em vespeiro. E estava mesmo.

A estruturação de uma política nacional de combate à aids custou-me, sim, muitas dores de cabeça. A quase unanimidade das pessoas reconhecia que era preciso dar uma resposta de Estado à epidemia, mas havia um grande mal-estar porque a campanha educativa sobre o assunto mexia com certos tabus comportamentais envolvendo a sexualidade. Passados tantos anos, não nos damos conta das barreiras que foram quebradas.

A distribuição gratuita de remédio para as pessoas contaminadas também se afigurava custosa e complicada, de logística difícil. Mas insistimos. E o País teve reconhecido pela ONU seu papel de vanguarda na luta contra esse terrível mal. Em razão dos preços exorbitantes dos medicamentos contra a aids, protegidos por patentes, que tornavam inviável nosso programa, intimamos os fornecedores: ou reduziam os preços ou imporíamos a licença compulsória para sua fabricação. Ganhamos essa batalha aqui, em nosso país, e na Organização Mundial do Comércio, que, por nossa iniciativa, aprovou o direito de o Brasil e outros países em desenvolvimento adotarem tal medida.

Outra luta difícil foi a implementação dos medicamentos genéricos. Uma leitura torta - que nem direi "fundamentalista" porque, parece-me, era mais burra que de princípio - via na sua produção uma afronta à Lei de Patentes, apesar de os genéricos serem clones mais baratos de medicamentos com patentes vencidas. Desde o começo do bom combate deixei claro que não se tratava de opor uma suposta luta humanista a dogmas de mercado. Era essa uma falsa oposição. E se era de lei de mercado que se falava, o que vi foi o florescimento da indústria farmacêutica no País.

Nos governos petistas, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) foi loteada entre partidos e facções de partidos, voltando-se à prática de criar dificuldades para vender facilidades. Quando deixamos o Ministério da Saúde, um remédio genérico era aprovado em quatro ou cinco meses. No governo petista chega-se, em média, a 30!

A terceira escolha que nem sempre me rendeu simpatias e da qual poderia ter declinado foi o combate ao cigarro. Erra feio quem imagina que decidi transformar em política pública uma intolerância pessoal. Era preciso dar início a um trabalho de educação que implicasse a redução da aceitação social do cigarro, desestimulasse os jovens a experimentá-lo, dificultasse o acesso ao produto, rompesse a bolha de glamourização de uma prática nefasta e preservasse a saúde dos fumantes passivos.

A Lei Federal 10.167, de dezembro de 2000, baniu a propaganda de cigarro de TVs, rádios, jornais e eventos esportivos. A pressão foi gigantesca. Se a questão dos genéricos mexia com um dogma, a proibição da propaganda de cigarro tocava em outro: muitos chegaram a ver uma agressão explícita a direitos individuais, como se estivéssemos tentando fazer escolhas em lugar dos cidadãos. Em fevereiro de 2002 os maços de cigarro passaram a ostentar fotos que alertam para os males do tabaco.

Compreendo, sim, as críticas de que não há Estado autoritário o bastante que proíba o suicídio - afinal, as pessoas podem alegar que têm o direito de se matar. É verdade. Mas também desconheço Estado que seja tão liberal a ponto de permitir que se crie e institua uma verdadeira indústria da morte. Há documentos em penca demonstrando que a indústria tabagista, em passado nem tão distante, se concentrava na conquista da adesão dos jovens - os adultos são clientes cativos, pois dificilmente conseguem largar o vício. E o caminho era exatamente a propaganda enganosa, ligando o cigarro à beleza, à vida saudável e à virilidade. Chegou-se mesmo a estampar no produto advertência como "consuma com moderação", sugerindo que pudesse haver níveis seguros de consumo de tabaco.

Diga-se que o sucesso das medidas antitabagistas foi espetacular: o consumo per capita de cigarros no Brasil caiu cerca de 33% entre a década de 1990 e a passada. Só entre 2006 e 2012 o número de fumantes caiu 20%. Hoje, 87% dos fumantes dizem que se arrependeram de ter adquirido o hábito!

A lei federal que vai entrar em vigor em seis meses há muito está em curso no Brasil; uma parte dela, em São Paulo e alguns outros Estados. Não é nova, mas é boa. Aliás, quando o petismo se limita a repetir experiências bem-sucedidas, deve ser aplaudido. O problema é que essa turma prefere errar sempre de modo muito original - a total falta de iniciativa nessa área há 11 anos e a demora em regulamentar a lei, aprovada há dois anos, são parte desses erros.

De todo modo, cabe-me dar boas-vindas aos neoantitabagistas. Aplaudo o PT quando apaga uma má ideia e copia uma boa.

*Ex-prefeito e ex-governador de São Paulo

Merval Pereira: Pão e circo

- O Globo

A Copa do Mundo de futebol começa hoje em São Paulo sem que dois personagens centrais de sua organização possam sequer aparecer no telão do Itaquerão, ou terem suas presenças no estádio anunciadas, justamente os que pensavam em retirar do evento dividendos políticos, cada qual à sua maneira: a presidente Dilma, candidata petista à reeleição, e o presidente da Fifa, Joseph Blatter, também almejando mais uma recondução ao cargo.

Outro grande ausente da cerimônia de abertura será o ex-presidente Lula, responsável pela construção do novo estádio e torcedor fanático de futebol, mas sem condições de se expor ao público sem correr o risco de uma vaia. Aliás, é de se notar que nenhum candidato à Presidência da República pretende dar as caras no estádio.

Situação distinta da que passou o então governador de Alagoas, Fernando Collor, que escolheu o desfile de escolas de samba de 1988 para testar sua popularidade, e foi amplamente vitorioso na ocasião, pavimentando o caminho para sua eleição à Presidência da República no ano seguinte.

Aconselhados pela vaia que levaram na abertura da Copa das Confederações, Blatter e Dilma preferiram o anonimato, ambos utilizando-se de cerimônias em recinto fechado para fazerem seus pronunciamentos oficiais. A presidente Dilma usou a prerrogativa do cargo para se defender das críticas em cadeia nacional de televisão, sem possibilidade de reação da plateia.

Blatter enfrentou a oposição europeia à sua permanência no cargo ao comandar a cerimônia oficial da assembleia da Fifa, e não contou com a solidariedade da presidente Dilma, que pretextou uma providencial gripe para não comparecer à reunião como prometera a ele.

O fato é que as acusações de corrupção contra a direção da Fifa vêm aumentando de tom à medida que se descobrem indícios fortes de que a escolha do Qatar para sede da Copa de 2022 teve interferências indevidas e subornos dos delegados. O que deveria ser a apoteose do projeto iniciado há sete anos, quando a Fifa escolheu o país do futebol para sediar a Copa do Mundo, transformou-se em um pesadelo para o governo e para a Fifa, e mostrou que o povo brasileiro não é exatamente o que pensavam que era: acrítico diante da possibilidade de ver os principais craques do mundo da bola ao vivo em suntuosos estádios.

A confirmação da intenção eleitoreira do governo brasileiro está na escolha de 12 sedes para a Copa, em vez das tradicionais oito. E na tentativa, revelada recentemente, de termos nada menos que 17 sedes, para que a miríade de partidos da coalizão governamental pudesse tirar proveito político do campeonato.

O povo brasileiro vai dando um exemplo de como é possível separar o joio do trigo sem perder a naturalidade. Adora futebol, está apoiando a seleção brasileira, mas não está com ânimo de esquecer seus problemas apenas por causa do futebol.

Fora os vândalos, que se perderam na ameaça de “não vai ter Copa”, e os aproveitadores sindicais, que se utilizam do momento para chamarem a atenção para suas reivindicações sem pensar no coletivo, não há quem não saiba separar os jogos das jogadas políticas como a da presidente Dilma — que utilizou um instrumento de comunicação do Estado para defender seu governo das críticas, como se a maioria que vê abusos e desarranjos na organização da Copa possa ser classificada apenas de “pessimistas”.

A tentativa de “transformar em motivo de orgulho nacional obras inacabadas, gastos superfaturados e a absoluta falta de capacidade de gestão deste governo”, como disse em nota oficial o PSDB, deve ter se transformado em um tiro no próprio pé, pois é difícil acreditar que a “bronca” da presidente nos “pessimistas” os faça mudar de opinião.

Da mesma maneira que Joseph Blatter tentou calar as vaias no estádio de Brasília na Copa das Confederações dando uma lição de educação aos torcedores, a presidente na noite de terça-feira tentou convencer a população de que não há motivos para desencantos.

Não entenderam até agora que, em vez do folclórico e dócil povo brasileiro que se encantaria com a magia da Copa do Mundo, há uma sociedade inquieta em busca de um futuro que não se resuma a pão e circo.

Dora Kramer: Aliados em fuga

• Ambiente interno no PSD é de pressão para que Kassab rompa com Dilma

- O Estado de S. Paulo

Depois de 40% dos convencionais do PMDB explicitarem sua discordância com a renovação da coalizão com o PT para a reeleição da presidente Dilma Rousseff, significando que parte robusta da mão de obra do partido não fará campanha para ela, agora é a vez de o PSD se rebelar contra a aliança.

O desconforto vem crescendo na mesma proporção da queda dos índices de intenção de votos e do aumento do grau de rejeição da presidente nas pesquisas.

Os dados apurados pelo Datafolha sobre São Paulo foram considerados definitivos: no maior colégio eleitoral do País, ela aparece praticamente empatada com o tucano Aécio Neves no primeiro turno e no segundo perderia tanto para ele quanto para Eduardo Campos por larga margem.

Em uma conversa marcada para ontem com o ex-prefeito Gilberto Kassab, o secretário-geral do PSD, Saulo Queiroz, seria o porta-voz da cobrança por uma definição imediata e radical. Quer dizer o seguinte: não apenas por uma aliança com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, assumindo o lugar de vice na chapa pela reeleição, mas um rompimento no plano nacional.

Uma volta atrás na palavra empenhada de que o partido estaria com a presidente em quaisquer circunstâncias. Em São Paulo a união com o PSDB seria uma mera "soma de conveniências", com suspensão temporária da antipatia mútua entre Alckmin e Kassab.

Em relação à eleição para a Presidência, o argumento para a ruptura é o seguinte: o compromisso do PSD nunca foi com o PT e sim com Dilma Rousseff; na medida em que sua candidatura "derrete" (sim, essa é a expressão usada), o partido não pode nem deve se sentir obrigado a derreter junto.

O ambiente interno no PSD é de rebelião contra a aliança, sentimento que pode vir a se expressar na convenção do partido marcada para o fim do mês.

O cenário ideal na avaliação dos pessedistas seria Kassab aceitar romper com Dilma e negociar uma aliança formal com o PSDB e a indicação do ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles para vice na chapa de Aécio Neves.

Pelo sim, pelo não, fato é que o tucano havia decidido anunciar seu vice antes da convenção do partido marcada para o próximo sábado. Mas agora faz suspense e deixa no ar a possibilidade de deixar o anúncio para depois, a fim de avaliar se insiste na chapa puro-sangue ou se consegue atrair algum aliado que acrescente capital eleitoral.

Fonte segura. Defensor do financiamento público de campanha, o PT já arrecada boa parte desse tipo de recurso por meio do dízimo que os filiados empregados na máquina pública são obrigados a pagar ao partido.

Ao fim e ao cabo, significa transferência do dinheiro do contribuinte - petista ou não - para os cofres da agremiação. No início do primeiro governo Lula, a oposição levantou essa questão, mas estavam todos tão encantados com o "governo operário", ao qual tudo era permitido, que ninguém deu atenção.

Faca no peito. A ex-senadora Marina Silva tem todo o direito de não gostar da decisão do PSB de São Paulo de apoiar o governador Geraldo Alckmin.

Só não dispõe da prerrogativa de tentar impor sua vontade à resolução de seção regional de um partido ao qual escolheu se filiar quando sua própria legenda não obteve registro na Justiça Eleitoral.
Marina ameaça não participar da campanha de Eduardo Campos em São Paulo se a convenção do PSB não mudar a resolução do diretório para seguir a orientação dela.

Se a ideia da ex-senadora era comandar, deveria ter-se filiado a um partido que lhe desse a legenda para concorrer à Presidência, e não se oferecer ao PSB, aceitando a condição de coadjuvante de luxo. Pela ordem natural das coisas, protagonista será, assim que a Rede Sustentabilidade obtiver o registro.

Aí terá legitimidade para mandar e desmandar.

Murillo de Aragão: Nostalgia e desconfiança ameaçam Dilma

- O Tempo (MG)

Em queda há meses nas pesquisas de intenção de voto para as eleições presidenciais de outubro, a presidente Dilma Rousseff (PT) começa o mês de junho com diversos problemas. O primeiro é a desconfiança crescente entre as bases governistas de que ela não consiga se reeleger. Ainda que os candidatos oposicionistas não cresçam, a queda de Dilma e o aumento do número de indecisos são preocupantes.

O segundo problema se refere à questão econômica. Com o PIB andando de lado e o espectro da inflação rondando o país, Dilma corre risco na única área em que o insucesso será fatal para o seu projeto de reeleição. Se o ambiente econômico continuar piorando, ela chegará ao segundo turno bastante enfraquecida e terá de fazer uma campanha pesada para assegurar o favoritismo.

O que fica patente é que, no campo econômico, Dilma perdeu a confiança dos principais agentes. Mercado e empresários não confiam no governo. E ela nada fez de concreto para recuperar a confiança que mereceu no início de sua gestão.

O terceiro problema é o que o jornalista Josias de Souza indica como deterioração estética do governo. Nesse sentido, vejo que o mais grave é a ausência de uma narrativa própria de Dilma. A ponto de existirem vários “movimentos retrôs”: o “volta, Lula” no mundo petista; o reconhecimento do eleitorado de que Lula é o mais capacitado para fazer mudanças; e a propaganda partidária que sugere a perda de ganhos conquistados pelas classes populares, caso a oposição vença as eleições.

Sem uma narrativa própria, Dilma se vê às voltas com o que ela mesma reconhece como a sua maior ameaça: os movimentos da base governista contra a sua candidatura. O que é irônico é o fato de chegarmos às portas das eleições com uma tônica constante nas eras Lula e Dilma: os maiores obstáculos são causados pelo próprio governo e sua base.

Josias de Souza aponta que o governo acredita que a participação de Lula na campanha é suficiente para remediar as dificuldades. Josias diz ainda que tal crença é ilusória. Pois bem, Lula continua sendo o agente político de maior potência eleitoral e certamente pode definir a eleição a favor de Dilma.

Mas o Planalto deveria ajudar. É verdade quando Josias afirma que Dilma depende muito mais dela própria do que de Lula para ganhar as eleições. Para isso, três pontos são fundamentais: recuperar a imagem da equipe econômica, melhorar a comunicação com os aliados e o eleitorado e trabalhar para que a Copa do Mundo não seja um fracasso.

É impressionante como o governo, mesmo em tempos de escassez de boas notícias, não consegue ter uma visão estratégica do que comunicar nem tampouco de como comunicar. Por exemplo, o governo Dilma conseguiu baixar significativamente os índices de miséria no Brasil. Em três anos, a extrema pobreza foi dramaticamente reduzida: mais de 22 milhões de brasileiros deixaram essa condição.

Apesar da relevância dos fatos, o Planalto não os comunica adequadamente e acaba ficando refém de uma lógica publicitária ultrapassada e ineficiente. Além de não ter uma estratégia de comunicação com stakeholders da sociedade, não lança mão do imenso potencial das realizações sociais da era Lula-Dilma nem abre canais diretos de comunicação com os grandes agregados de eleitores.

Dilma deveria falar especificamente para mulheres, jovens, minorias, empresários, trabalhadores. Para tanto, deveria segmentar as mensagens e os meios. Fala-se muito em democratização das comunicações no governo e nas esferas políticas do PT, mas o universo governista demonstra incapacidade de se comunicar em tempos de abundância de meios e existência, ainda que pequena, de boas notícias.

Ao se decompor a atividade do governo, encontram-se diversas medidas positivas que beneficiam parcelas importantes do eleitorado. Falta o trabalho de identificar o quê e como comunicar a quem deve receber a mensagem. No campo econômico, não é necessário falar muito. O governo flerta perigosamente com o fracasso. O resultado é o decréscimo na confiança da população quanto ao futuro, o que ficou evidente na pesquisa Datafolha divulgada na semana passada: 36% dos brasileiros entrevistados estão pessimistas com o futuro; e 68% creem que a inflação vai subir.

Apesar das mensagens preocupantes das pesquisas, tanto no que se relacionam à preferência eleitoral quanto em termos de expectativas e, ainda, em relação à clara preferência por Lula pela maioria do eleitorado, nada de novo está acontecendo. Para o governo, a Copa, dependendo de seu resultado, pode fazer tudo piorar ou melhorar. Pode fazer piorar se nada for feito e se a Copa for confusa ou redundar em fracasso. Pode fazer melhorar se mudanças de rumo forem tomadas e a Copa for positiva.

É “se” demais para quem poderia estar liderando as pesquisas com folga.

Murillo de Aragão é cientista político.

Jarbas de Holanda: A candidatura à reeleição e a Copa

De um lado a persistência de queda das avaliações da presidente/candidata, registrada nas pesquisas de junho do Datafolha e do Ibope. De outro, uma sequência de projeções negativas sobre o comportamento da economia (PIB, inflação e outros indicadores), por parte de lideranças das diversas atividades produtivas, de analistas e de instituições financeiras internas e externas, inclusive o Banco Central. Tal combinação está reavivando os receios com os resultados da disputa presidencial num 2º turno, dado como certo, no PT e nos partidos da base governista. E gerando a retomada de pressões em bases e parlamentares petistas e nos aliados em favor do “volta Lula”.

De par com o aumento das resistências, nestes, à confirmação do apoio à candidata nas convenções partidárias. Resistências que se manifestaram ontem na do PMDB (por meio de 41% de votos contrários), com a redução do apoio convencional basicamente à cessão de tempo de propaganda eleitoral “gratuita”. Que se expressarão em palanques estaduais em que esses aliados terão posturas contrapostas à negociada nacionalmente. E que poderão levar legendas como o PP e o PSD à neutralidade ou troca de alianças.

Novas pesquisas que não reverterem as tendências das mais recentes (que incluem forte crescimento da rejeição a Dilma) vão potencializar uma cobrança do “volta Lula” bem mais intensa do que a que foi contida entre abril e maio por enorme esforço do ex-presidente e pela expectativa de efeitos “positivos” do desencadeamento de caríssima e agressiva ofensiva de marketing. Que se mantém, mas sem produzir tais efeitos. Neste quadro, o que poderá salvar a candidatura de Dilma será a capitalização de uma vitória final de nossa seleção na Copa da Fifa. O que, ocorrendo, melhorará suas condições para manter-se na disputa. Sem que, entretanto, represente qualquer garantia de sucesso eleitoral.

A derrota do grevismo insurrecional
Por parte do governo paulista, a combinação de sensibilidade política (chegando à oferta de um reajuste salarial de 8,7%, bem acima da inflação, num contexto de dois anos sem atualização da tarifa) com firmeza na manutenção da oferta, no enfrentamento de ações ilegais utilizadas pelo sindicato dos metroviários e, por fim, após reiterada qualificação da greve como ilegal e abusiva, demissão por justa causa de parcela dos grevistas que se recusaram a voltar ao trabalho. E, da parte do TRT/SP, sério tratamento institucional da demanda trabalhista (avaliação técnica das propostas de reajuste e respaldo à da Cia. Do Metrô), apelos recusados para cessação do movimento, declaração dele como ilegal e abusivo e determinação de multas pelo insistente e ostensivo desrespeito às restrições de paralisações de serviços essenciais.

O grupo de dirigentes e filiados ao PSTU que comanda o sindicato não contava com essas reações do governo Alckmin e do judiciário trabalhista em seu plano de, propondo e manipulando um reajuste inviável, aproveitar a conjuntura eleitoral e as vésperas da Copa da Fifa com objetivos bem identificáveis. Entre os imediatos, gerar um prolongado caos do transporte público capaz de desacreditar política e administrativamente o governo paulista e pôr em xeque a abertura da Copa, tornando o Palácio do Planalto refém da greve e induzindo-o a negociar com ele, passando por cima do governador, o fim do movimento. 

Entre os objetivos “estratégicos”, a desmoralização de leis e instituições “burguesas”, em aliança com outros “movimentos sociais organizados”, como o das invasões de terras e imóveis urbanos e o Passe Livre.

São bons os dividendos institucionais, político-administrativos e sociais da derrota do grevismo insurrecional tentado pelo PSTU. Derrota antecipada pela montagem de piquetes do sindicato para impedir a volta de metroviários ao trabalho. E pela “suspensão temporária” da greve para evitar a evidência do amplo esvaziamento dela, de segunda para terça-feira. Esta também dissimulada pela ameaça de retorno do movimento amanhã.

Jarbas de Holanda é jornalista

João Bosco Rabello: Dissidência do PMDB reflete tamanho do risco de Dilma

- O Estado de S. Paulo

Com uma variação para mais, o resultado da convenção do PMDB foi o esperado: o partido renovou o apoio à aliança com o PT para a disputa da presidência da República, reservando-se o direito de não estender o compromisso às estruturas regionais que cuidarão de seus cenários como lhes convier.

Alguns aspectos desse processo são reveladores do distanciamento do partido em relação à presidente da República, com origem na difícil convivência com o PT. A naturalidade com que os dirigentes avalizaram a renovação do crédito em contraste com a falta de garantias, é uma síntese da fragilidade do contrato político.

A começar pela cédula de votação. Nela, o nome do vice-presidente Michel Temer, como a referência do evento, do PT, como beneficiário da aliança, sem qualquer menção ao nome da presidente.

Significa que o partido apoia Temer para manter-se como vice da chapa que surgir – que poderá ter Dilma na cabeça, se a convenção do PT, daqui a 20 dias, confirmá-la.

Poucos acreditam na possibilidade de Dilma vir a ser substituída pelo ex-presidente Lula, mas também poucos se dispõem a apostar uma mariola de padaria no contrário. A queda da presidente nas pesquisas, consistente e gradual, tornou inseguro o ambiente da reeleição, sobretudo porque a ampla exposição de Dilma na mídia – espontânea e oficial – não alteram os maus índices.

Ainda ontem, depois do longo pronunciamento da presidente em rede nacional de televisão, uma peça de campanha escancarada com dinheiro do contribuinte, a reação da oposição era mais para marcar posição do que de incômodo. O espaço na televisão já não garante à presidente melhora nas pesquisas.

Ao contrário, os candidatos de oposição, especialmente o senador Aécio Neves (PSDB) dão indicações de crescimento após a primeira inserção na televisão, o que autoriza a expectativa otimista com o início da fase de propaganda gratuita. Já Eduardo Campos parece ter sua dificuldade mais localizada em erros de campanha do que nos recursos que possam lhe expor mais ao público.

A principal dificuldade para a troca de Dilma por Lula está em seu condicionamento à renúncia da presidente à candidatura. Depois de confirmada na convenção, sua saída só será possível por essa via.

E, antes, seria preciso atropelá-la, diante da manifestação já feita por ela de que “irá até o fim”.

O tema deixou de ser objeto de movimento público, com a dose de agressividade que exibiu durante meses, quando a perspectiva de vitória era maior. Mas passou a frequentar as conversas em qualquer mesa política – do governo e da oposição. O risco concreto da derrota, trazido pela última pesquisa Data Folha, acendeu o sentido de sobrevivência dos que buscam a renovação de seus mandatos.

Especialmente o dado secundário da pesquisa, que mostra a derrota de Dilma em São Paulo, numa simulação de segundo turno, para qualquer um dos candidatos de oposição, assustou o PT. Por ele, Aécio venceria Dilma por 46% a 34%. Campos, por 43% a 34%. Nesse último caso, o drama aumenta: o candidato do PSB tem apenas 6% da intenção de votos do eleitorado paulista, mas na simulação vai a 43%.

Equivale a dizer que o eleitor vota ater no candidato que não conhece, mas não na presidente. Reflexo da fragilidade do PT no Estado, onde o prefeito Fernando Haddad não somou votos para o candidato ao governo, Alexandre Padilha – que, por sua vez, estagnou nas pesquisas desde o envolvimento de seu nome na operação do ministério da Saúde com o laboratório de fachada, Labogen, do doleiro Alberto Youssef.

Para alguns, o PT paulista vive drama semelhante ao do PSDB nos anos 90, quando sofreu fragorosa derrota de todos os seus ícones e perdeu o governo para Orestes Quércia e Luis Antonio Fleury. Mesmo os que discordam da comparação concordam que o partido vive seu momento mais difícil no Estado.

O mapa da queda de Dilma guarda outro aspecto importante para a oposição: ela é maior na região sudeste que abriga os três maiores colégios eleitorais do país – São Paulo, Minas e Rio, nessa ordem, o chamado Triângulo das Bermudas.

É nele que Aécio Neves apostou suas fichas, convicto de que Dilma não repetirá as votações anteriores nas regiões Nordeste e sul, como mostram os cenários de Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, mais Bahia, Pernambuco e Ceará.

Era preciso, então, tirar-lhe votos no sudeste e transferi-los para o candidato de oposição, o que vem sendo sinalizado nas pesquisas. A dissidência de 40% na convenção do PMDB indica que o partido recorreu ao velho esquema de manter-se pronto para alterar rumos, conforme os ventos soprem após a Copa do Mundo, quando efetivamente a campanha decola.

Adelson Vidal Alves: O nome da esquerda, segundo Safatle

• SAFATLE, Vladimir. A esquerda que não teme dizer seu nome. São Paulo: Três Estrelas, 2012.

- Gramsci e o Brasil

O presente livro é uma espécie de apelo para o resgate daquilo que o autor considera como elementos centrais que compõem a essência histórica da esquerda. Uma essência que deve ser recuperada como forma de resposta às crises atuais, que estariam demonstrando o fracasso do capitalismo liberal e trazendo a exigência de uma esquerda renovada e pronta para assumir a tarefa da construção de outra ordem social.

Para isso, invoca dois princípios básicos: o igualitarismo e a soberania popular. O primeiro, entendido como o reconhecimento de um Estado intervencionista na redistribuição de renda, um Estado que combata as desigualdades. A segunda, como sugere o termo, seria a autoridade suprema da vontade popular, esta que poderia até mesmo suspender, em nome da justiça, o Direito que qualifica os atuais Estados modernos.
Safatle se mostra simpático às rebeliões populares quando estas miram governos e “Estados ilegais”. A rebelião não só seria um recurso, mas um direito que estaria presente na tradição política. De Locke e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, até Constituições modernas que vigoram em alguns países. Seu apoio a enfrentamentos, até mesmo com violência, como veremos, não se resume a governos ilegítimos, mas também abrange os que pertencem à forma do Estado democrático de direito. A resistência popular justa estaria, assim, acima das leis.

No primeiro capítulo, o filósofo da USP defende que o igualitarismo exige, da esquerda, um comportamento “indiferente às diferenças”. Safatle percebe que o mundo atual apresenta novas formas de conflitos, distribuídos nas categorias de gênero, raça, cultura e nacionalidade. Tais diferenças deveriam ser tratadas com desinteresse pela esquerda. Esta deveria preocupar-se com o internacionalismo, que comporia seu DNA inicial. Os debates identitários precisariam ser ignorados em nome da recuperação da universalidade como eixo da construção das políticas de esquerda.

O acerto do autor se dá na percepção de que o multiculturalismo chega para fragmentar, tirar do horizonte qualquer perspectiva de totalidade. Ao trazer a cultura, a política e a sociedade para campos cada vez mais fatiados da vida coletiva, o universal acaba por desaparecer, abrindo espaço para uma sociedade de corporativismos e segregação. Não se pode deixar de perceber que, de certo modo, Safatle parece acreditar que as disputas modernas ainda se concentrem nas classes sociais. Mostra-se, assim, certo economicismo em seu pensamento — quem sabe o dogmatismo que contamina grande parte da intelectualidade de esquerda, ainda com vícios esquemáticos do século XIX e início do XX?

O autor não parece se preocupar com as profundas mudanças no interior do mundo do trabalho, na perda de relevância da luta de classes, na metamorfose da consciência do sujeito social moderno. Parece insistir na “indiferença com as diferenças” sem atentar para a necessidade de um diálogo atual com a realidade concreta.

Não soa de bom senso desconsiderar que as identidades nacionais permaneçam fontes de conflitos que movem a história. Que ainda há a necessidade de uma esquerda nacional. Mesmo diante da globalização, que internacionaliza não só os mercados, mas também a cultura e a política, há de se ficar atento à vitalidade não só de nação e sua ideia de pertencimento, mas também à forma político-institucional em que se expressa esta identidade, isto é, o Estado nacional.

O segundo capítulo, já por seu enunciado, é um convite à polêmica. Sobretudo, porque vivemos numa época em que o Estado democrático de direito representa forma superior de organização social, que progressivamente vem substituindo conflitos abertos e violentos por resoluções consensuais — consensos, aliás, sempre renováveis.

Porém, para Safatle, o Estado de direito poderia às vezes ser anulado, desde que a soberania popular e sua justiça entrem em confronto com o ordenamento jurídico vigente. A ocupação de prédios públicos, a invasão de propriedades ditas improdutivas, a violação da liberdade de ir vir através de piquetes, etc., seriam perfeitamente toleráveis, mesmo sendo ilegais, já que a causa pelo qual falam seria justa. Há, em Safatle, a dissociação entre a justiça e o Direito.

Obviamente, podemos discutir o quanto uma lei é justa, mas a grande questão, que o filósofo ignora, é o valor subjetivo que a palavra “justiça” pode trazer. Expropriar uma determinada extensão de terra particular, para fins de reforma agrária, para uns soa como justo, para outros, seria um roubo.

A forma moderna de resolver estes impasses tornou-se concreta nas instituições democráticas que surgiram nos séculos XIX e XX. As leis já não são o fruto de decisões de um só soberano, mas o resultado de um amplo e complexo conjunto de debates e lutas políticas que em vários órgãos institucionais ganham corpo na forma de ordenamento jurídico. Mas, para Safatle, todo este processo responde apenas pelo caráter parlamentar da democracia, que excluiria formas diretas de participação, e assim, cancelaria o verdadeiro espírito democrático.

A democracia parlamentar, cuja superação Safatle vai exigir, é parte importante no combate a corporativismos e assembleísmos, que, nos casos mais graves, levam a riscos de totalitarismo plebiscitário
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A tentação de trazer o povo diretamente para os debates faz com que o autor desconsidere o parlamento como mecanismo precioso para produção de sínteses democráticas no campo das divergências, que emergem na sociedade através dos atores coletivos. Faz, também, que desconsidere que, bem longe de ser um empobrecimento da democracia, a representatividade parlamentar é vitória civilizatória, para a qual a luta dos trabalhadores contribuiu muito. Apoiar a rebeldia contra as leis, suspendendo o Estado de direito, pertence a uma esquerda a que Safatle deu este nome, bem longe de ter nela o que se exige de uma esquerda genuinamente democrática.

O terceiro capítulo inicia questionando a relação de esquerda e passado. Mostra a forma superficial como foram tratadas as revoluções do século XX e corretamente propõe uma análise crítica que supere o simplismo de rotular como fracassos totais estes processos revolucionários (tidos por muitos como cruéis e sanguinários), assim como o de tratá-los como momentos gloriosos da humanidade. Há de se acolher acertos e repensar os erros, que não foram poucos, e entender que a revolução não vem com garantia para suas consequências. O futuro de uma revolução quase sempre é incalculável

Neste aspecto, nosso autor introduz a discussão sobre a atualidade da dicotomia “revolução/reformas”. Os revolucionários, segundo a crítica de Vladimir, mantêm o hábito de desqualificar como morto todo tempo histórico em que transformações profundas encontram-se em falta. Só consideram momentos úteis aqueles nos quais as estruturas sejam sacudidas pela força das mudanças.

Da mesma forma, prossegue Safatle, deve-se criticar o medo de revoluções, como se essas viessem sempre banhadas de sangue. Ainda que não sendo claro em suas observações, o filósofo parece apontar para um novo olhar sobre a concepção estratégica do reformismo. Mesmo sempre demonstrando apreço por revoluções do tipo clássico, Safatle sinaliza para a opinião de que reformas têm força para promover mudanças importantes, ainda que não mostre com clareza a espera de transformações substanciais pela via reformista. Positivamente convencido das vantagens reformistas, Safatle não parece apostar nelas como via para a construção de novas realidades. Tem-se a impressão de que o autor ainda aguarda revoluções como assalto ao poder.

Finalizando, o capítulo aborda o que tem se chamado de “teoria de governo”. Para o autor, a esquerda trabalhou bem, e de forma sofisticada, a teoria do poder, mas não a de governo. Isto é, não foi capaz de ir além da “vontade política” como instrumento para uma política de governo.

Safatle tem razão. Não se pode negar que parcela muito limitada das esquerdas conseguiu assumir vocação de governo, uma vocação que supere discursos e seja sustentada por um claro programa de governo. No entanto, mais uma vez, Safatle se furta de posições mais claras, pois parece oscilar entre visões modernas da esquerda e retornos estranhos ao vocabulário bolchevique.

Uma teoria de governo que se proponha coerente com a esquerda e as reais possibilidades conjunturais exige discutir o tema das alianças, o que sequer foi citado por Safatle. Neste aspecto, há motivos fora da obra que nos permitem pensar que sua concepção de alianças não tem nada de renovadora. Dá-se a impressão que Safatle faz perguntas atuais, mas suas respostas estão fora do nosso tempo.

A esquerda que não teme dizer seu nome traz questões importantes para o debate entre as esquerdas.

Mostra a necessidade de reformular a atividade deste campo político, para que esteja à altura dos desafios modernos. Não constrói nenhuma grande contribuição conceitual, é verdade, e suas propostas são rasas. Porém, a provocação que faz é de se levar a sério, principalmente porque o autor se mostra insatisfeito com o atual ordenamento institucional, que tem no Estado de direito sua maior expressão.

Ao proclamar a superação do Direito em nome da justiça e da soberania popular, mantendo firme a convicção da necessidade de uma nova democracia, direta, popular e para além do Estado de direito, Safatle distancia-se da esquerda democrática e constitucional, que a duras penas vem tentando se construir com a ambição de ingressar de vez em um tempo no qual não haja caminhos civilizatórios seguros senão pela democracia e seu Estado de direito. Vladimir Safatle, pelo jeito, continua com a visão instrumental da democracia.
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Adelson Vidal Alves é professor de História, pós-graduado em História Contemporânea.

César Felício: Brasil na Copa: 'Welcome to the jungle'

• Para o comando da reeleição, o que importa é o relato

- Valor Econômico

Com o retrato do país feito pela mídia estrangeira que predominou às vésperas da Copa, o viajante que chegar ao Brasil nos próximos dias poderá ter a sensação de penetrar no coração das trevas, como o protagonista do romance do inglês Joseph Conrad, que se dedicava à navegação fluvial na África do século passado.

A sensação de perda de tempo começa antes mesmo de sair dos aeroportos, segundo a revista "The Economist", em função da caótica estrutura de transportes. Para o mexicano "El Universal", o Brasil não se destaca em nada fora do gramado. "Nem a prosperidade é tanta, nem a infraestrutura é moderna, nem as comunicações avançadas, nem a beleza colonial impressiona", garantiu um articulista do jornal. "Motins, greves e engarrafamentos encobrem a abertura em São Paulo", registrou o inglês "The Independent".

O clima está pesado, de acordo com o "Wall Street Journal" e o "New York Times", que citam a falta de enfeites na rua e de empolgação popular em São Paulo. "O país está blindado como se tratasse de uma guerra", observou o chileno "El Mercurio". Organizadores de manifestações contra a Copa ganharam lugar de destaque no noticiário do inglês "Financial Times" e do francês "Liberation", que classificou a greve dos metroviários em São Paulo como um "movimento de cólera geral".

O francês "Le Monde" e a revista alemã "Der Spiegel" se preocuparam com questões de fundo e recorreram às estatísticas. Uma em cada dez pessoas assassinadas no mundo é brasileira e o trabalho infantil persiste no país. O tom negativo em relação à Copa consegue até coisas impossíveis, como unir a imprensa oposicionista e a governista na Argentina. O "Pagina 12", alinhado à Casa Rosada, destacou que a Copa de 2014 custará mais que as duas últimas somadas e que torneios como esse "começam a deixar de ser percebidos como encontros de prestígio para serem vistos como o que são, fenomenais oportunidades para o desperdício". No polo oposto, o oposicionista "Clarín" criticou "a enorme massa de cimento no meio da selva", uma referência à Arena de Manaus.

A presidente Dilma Rousseff jantou com os correspondentes estrangeiros no último dia 3, em um encontro marcado pela amenidade. "Sua informalidade com pessoas que acaba de conhecer é cativante, sua compreensão dos detalhes de questões de política pública é convincente", escreveu sobre ela por exemplo o correspondente da britânica BBC. Mas dos 21 meios de comunicação que escreveram sobre o país nos últimos dias, mesmo depois do exercício de sedução de Dilma, 19 publicaram análises negativas.

Em apenas um caso, o do "USA Today", o ponto de vista do governo foi registrado. Segundo o jornal, o ministro da Comunicação Social Thomas Traumann avaliou que tudo indica que não haverá protestos massivos durante a Copa. De acordo com a declaração do ministro transcrita no jornal, depois de junho de 2013 nenhum ato no Brasil reuniu mais de 10 mil manifestantes. Receberam credenciamento da Fifa para acompanhar o torneio cerca de 18,8 mil jornalistas de 163 países. Somente 20% do Brasil.

O desenho de um país atormentado com a realização do evento esportivo contrasta com a percepção sobre o Brasil registrada pela maioria dos pesquisados do instituto norte-americano Pew Research, feita em 37 países, que constatou que 66% dos franceses, 51% dos britânicos e 49% dos alemães têm opinião favorável sobre o país. O mesmo relatório do instituto de pesquisas, entretanto, indica que a imagem brasileira no exterior está em declínio, nos quatro países em que sondagens anteriores foram feitas. Na Argentina, a percepção favorável em relação ao Brasil caiu de 69% em 2010 para 56% na pesquisa concluída em maio. Nos Estados Unidos, a queda foi de 57% em 2009 para 51% agora. No México, a percepção favorável se manteve em 41% entre 2010 e 2014, mas a desfavorável cresceu de 20% para 32%. Apenas no Chile houve estabilidade nos últimos anos e 74% dos pesquisados naquele país avaliam o Brasil de forma positiva.

No alto comando da campanha de reeleição da presidente Dilma Rousseff, o bombardeio exterior é visto como um clássico caso de contágio da visão estrangeira pela local. Por esta visão, a necessidade de se apresentar a toque de caixa o Brasil a seus leitores fez com que a mídia internacional se pautasse pelo noticiário dos grandes grupos de imprensa brasileiros, que estariam, com diferentes gradações, tacitamente comprometidos com as oposições na eleição presidencial de outubro. É uma análise que parte do pressuposto de que não existe um olhar estrangeiro, mas somente uma caixa de ressonância dos tambores que por aqui batem.

As exceções, de acordo com este integrante da cúpula governista, estariam no jornalismo inglês, que estaria empenhado, por interesse próprio, em enfraquecer o governo Dilma. É uma referência velada ao jornal "Financial Times", ácido crítico da política econômica dos últimos anos.

O problema central desta visão que atribui à partidarização da imprensa a gênese do mau humor social e das dificuldades de imagem do governo é a aposta que se faz no relato. Por esta perspectiva, os fatos em si nada significam. Tudo depende de como são narrados e de quais são os interesses de quem faz esta narrativa.

A partir de hoje, o protagonismo do Brasil na mídia internacional tende a esmaecer, com a atenção voltada para o que acontecer dentro dos gramados. Uma nova conquista brasileira será um episódio rotineiro na história do futebol, já que o país ganhou cinco das 14 últimas Copas, sem qualquer conexão visível com a conjuntura política de cada vitória. Segundo o argentino "La Nacion" e o "Financial Times", que replicaram análises já publicadas na mídia brasileira, uma derrota do Brasil pode tornar o ambiente social ainda mais rarefeito e afetar Dilma. De acordo com este integrante da cúpula governista, este é mais um erro de avaliação da imprensa: somente uma catástrofe ligada à infraestrutura, como um desabamento de uma obra ou um colapso nos aeroportos, poderá atingir a reeleição.

Eliane Cantanhêde: Tristes espetáculos

- Folha de S. Paulo

Bem que nós, brasileiros, poderíamos passar sem os tristes espetáculos do Senado da República e do Supremo Tribunal Federal bem na semana da Copa.

Na terça (10), o cinismo do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa ao depor na CPI de mentirinha, com o beneplácito de um punhado de senadores governistas.

Entre outras barbaridades, ele disse: 1) os R$ 762 mil em dinheiro vivo encontrados pela polícia na sua casa eram para "pagamento de consultorias"; 2) os US$ 180 mil (R$ 400 mil) eram só "por garantia"; 3) sua filha e seu genro não foram à sua casa para sumir com papéis comprometedores, mas para reunir documentos de suas próprias empresas.

Acredite quem quiser, e não é que os senadores governistas acreditaram?! Não dá para entender. Por que a base aliada ao Planalto tem de proteger um réu que foi preso sob suspeita de desviar recursos da minha, sua, nossa Petrobras? O que Paulo Roberto tem a ver com o governo?

Segundo o líder do PT, Humberto Costa, o depoimento dele foi "satisfatório". Para quem, cara pálida? Menos de 24 horas depois veio a notícia de que a Suíça bloqueou a bagatela de US$ 23 milhões (R$ 51,3 milhões) que seriam do mesmo Paulo Roberto.

Seriam para "pagamento de consultorias"? Ou só "por garantia"? Ele reuniu tudo isso com o suor do próprio rosto, ou com o petróleo da Petrobras e com o suor da nação?

O fato é que Paulo Roberto Costa, preso em 17 de março, foi solto pelo ministro do STF Teori Zavascki dois meses depois e voltou para a cadeia nesta quarta (11), um dia depois de fazer os senadores parecerem bobos e o Senado, uma Casa pouco séria.

O Judiciário não ficou atrás. Enquanto o ex-diretor da Petrobras voltava para a cadeia, o já quase ex-presidente do Supremo Joaquim Barbosa, aos gritos, expulsava o advogado de Genoino da corte. Inacreditável.

Por favor, Felipão, Neymar, Hulk, Fred e Júlio César, mostrem ao mundo um espetáculo bem melhor.

Diário do Poder – Cláudio Humberto

- Jornal do Commercio (PE)

• Diplomatas driblam ‘lei seca’ no mercado negro
O Itamaraty poderá ser obrigado a discutir a relação com diversos países do Oriente Médio, em razão de atitude até inevitável dos funcionários de embaixadas, inclusive diplomatas, que naqueles países vira caso de polícia. É que, para enfrentar a “lei seca” muçulmana, os brasileiros – como muitos outros diplomatas ocidentais – recorrem ao comércio ilegal de bebidas alcoólicas, em países do mundo árabe.

• Garrafa de ouro
Uma garrafa de uísque Black Label vale mais que ouro e petróleo, em países muçulmanos: chega a ser vendida a US$ 400.

• Hipocrisia na seca
Curiosamente, a “lei seca” não passa de hipocrisia em países muçulmanos: às escondidas, cidadãos locais costumam beber até cair.

• Por que não te calas?
“Nunca antes neste país”, presidente foi à TV antecipar discurso para fugir da Copa. Resultado: #calabocaDilma” em 1º no Twitter, ontem.

• Doentes do pé
O Ministério da Saúde meteu a mão no nosso bolso para comprar 2 mil TVs LCD de 40 polegadas. Para ver a Copa?

• Aécio aguardará PTB e PR para definir seu vice
O racha na convenção nacional do PMDB reforçou o entendimento na cúpula do PSDB de que o melhor caminho agora é adiar a escolha do vice do presidenciável Aécio Neves (MG) para o fim de junho. O partido avalia que ainda é possível compor com partidos da base aliada da presidenta Dilma, como o PTB e o PR, que ficaram órfãos após a prisão dos mensaleiros Roberto Jefferson e Valdemar da Costa Neto.

• Por partes
O PSDB acertou de oficializar apenas a candidatura de Aécio Neves na convenção, no sábado (14), e delegar à executiva a decisão do vice.

• Dobradinha
O tucanato acha difícil, mas não impossível, cooptar o PSD de Gilberto Kassab devido à provável aliança com Geraldo Alckmin, em São Paulo.

• Linha de frente
Em caso de chapa pura, são cotados o ex-governador José Serra (SP), além de Tasso Jereissati (CE), Ellen Gracie (RJ) e Aloysio Nunes (SP).

• Tarefa ingrata
Nem o presidente da Fifa, Joseph Blatter, nem Dilma discursarão na abertura da Copa, nesta quinta-feira. Coube ao ministro Aldo Rebelo (Esporte) a ingrata tarefa de ser vaiado, na cerimônia de abertura.

• Amigo é pra essas coisas
O sindicato dos servidores do Legislativo (Sindilegis) dá uma força na recuperação da imagem de Renan Calheiros: criou campanha de rádio atacando o presidente do Senado por cortar os salários de marajá.

• Privilégio
O ex-presidente da Câmara Marco Maia (PT-RS) mantém dois funcionários lotados na Presidência da Casa em cargo de natureza especial, para cuidar de emendas e receber prefeitos.

• Puro sangue
A vice-prefeita de Salvador, Célia Sacramento, aceitou o convite do presidente do PV, José Penna, para disputar a vice de Eduardo Jorge à Presidência. A chapa será formalizada em convenção sábado, no DF.

• Infidelidade
Aliado da ex-senadora Marina Silva, o deputado Alfredo Sirkis (RJ) está na iminência de perder o mandato na Câmara. Fundador do PV, Sirkis deixou partido no ano passado após divergências, e se filiou ao PSB.

• Põe na conta
Apesar de terem aparecido e votado na convenção nacional do PMDB, os senadores Luiz Henrique e Vital do Rêgo foram responsabilizados na sigla pela ausência de dez convencionais da Paraíba, e oito de SC.

• Só agora?
Alguns cronistas apostavam que os protestos impediriam ou fariam da Copa um fracasso. Agora que começa com pinta de que será um sucesso, alegam que o povo “sabe distinguir” evento da manifestação.

• Tem pai que é cego
O coronel Manoelito tem dito a quem encontra que o filho deputado Luiz Argôlo (SDD-BA), envolvido com doleiro Alberto Youssef, só está em evidência por ser um “político graúdo, que ainda vai dominar Brasil”.

• Pensando bem…
…se pesquisa é “retrato do momento”, como diz candidato que aparece mal nos números, Dilma está precisando urgente de Photoshop.

Painel - Bernardo Mello Franco (interino)

- Folha de S. Paulo

Melhor sem eles
A campanha do petista Alexandre Padilha ao governo de São Paulo pretende manter em segundo plano os apoios de Dilma Rousseff e Fernando Haddad. O motivo são as pesquisas que mostram a irritação de boa parte do eleitorado paulista com a presidente e com o prefeito da capital. Até o momento, a ordem é apostar todas as fichas no prestígio do ex-presidente Lula, que bancou a candidatura do ex-ministro. A Dilma e Haddad, sobrariam papéis de discretos coadjuvantes.

Sem pânico Aos petistas mais alarmados com seus 3% no Datafolha, Padilha continua a repetir o mantra de que o partido nunca fica abaixo dos 30% no Estado. Ele diz que só estará fora do segundo turno se "errar demais".

Em campo O ex-governador José Serra (PSDB) fez uma rodada de consultas a prefeitos do interior do Estado. O objetivo: medir os riscos de derrota caso decida se candidatar ao Senado.

Na arquibancada O governador Geraldo Alckmin (PSDB) decidiu na última hora assistir à estreia do Brasil na Copa, no Itaquerão. Sua equipe ficou dividida sobre a decisão de ir ao estádio.

Balança Para alguns aliados, o governador deveria manter distância de uma possível vaia a Dilma. Para outros, seria pior ser acusado de se esconder. O Palácio dos Bandeirantes só confirmou sua presença às 23h.

No sofá Paulo Skaf (PMDB), o segundo colocado nas pesquisas, assistirá ao jogo em casa. Prometeu à mulher que vai preparar o almoço do Dia dos Namorados.

Torcida discreta Com o pronunciamento na TV e a carta aos jogadores, a equipe de Dilma quis compensar a linha discreta que ela deve adotar hoje no Itaquerão.

A propósito A presidente também evitou visitar a Granja Comary, ideia que foi discutida no Planalto.

No aquecimento De um parlamentar do PT que jantou com Lula há poucos dias: "Ele é o nosso melhor jogador e está no banco de reservas. Se o time continuar perdendo, vai pedir para entrar".

Na vontade E o ex-presidente quer voltar? "Ele está mordendo os calcanhares", diz o mesmo petista.

Tudo acabado Aécio Neves (PSDB) disse a amigos estar surpreso com Eduardo Campos (PSB), que não o parabenizou pelo nascimento dos gêmeos Julia e Bernardo, no sábado passado.

Baile encerrado Em janeiro, Aécio telefonou para o rival no dia em que nasceu seu caçula, Miguel. Na semana seguinte, foi ao Recife visitar a família Campos.

Atordoado fiquei Os dois presidenciáveis, que conversavam quase todo dia por telefone, já não se falam há cerca de um mês.

Plim-plim Em empate técnico com Campos, o nanico Pastor Everaldo (PSC) tem dito a aliados que vai cobrar das emissoras de TV aberta espaço igual ao do ex-governador de Pernambuco em debates e telejornais.

Também quero Claudia Lyra, a poderosa secretária-geral do Senado, vai se candidatar a deputada distrital em Brasília pelo PMDB.

Cofre fechado O governo indicou a líderes no Congresso que não permitirá a aprovação de mais uma bomba orçamentária: o projeto que cria bônus salarial para juízes por tempo de serviço.

Plano B O Planalto admite discutir com os magistrados uma outra proposta que altere as carreiras e crie uma diferença de 35% entre o piso e o teto da magistratura.

Tiroteio
"Ao expulsar um advogado, o ministro Joaquim Barbosa resumiu a forma ditatorial com que comandou o STF nos últimos anos."
DO VICE-PRESIDENTE DO PT ALBERTO CANTALICE, sobre a ordem para seguranças retirarem o advogado do petista José Genoino do plenário do STF.

Contraponto
Noventa milhões em ação
Na estreia na Copa de 1970, os presos do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) carioca se dividiram entre torcer contra ou a favor do Brasil. Muitos achavam que o tricampeonato fortaleceria a ditadura. Outros diziam que a seleção era do povo, não dos militares.
--A divisão foi mais ou menos ao meio --lembra o ex-preso político Cid Benjamin, no livro "Gracias a la Vida".
No fim, o Brasil bateu a antiga Tchecoslováquia: 4 a 1.
--Alguns dos que não queriam torcer para a seleção viraram casaca e também festejaram a vitória --entrega Benjamin, que vibrou desde o início com o time de Pelé.

Brasília-DF - Denise Rothenburg

- Correio Braziliense

Copa & ética
Para não atrasar tanto os processos envolvendo os deputados André Vargas (PR), o Conselho de Ética da Câmara ouvirá na semana que vem o presidente do PT, Rui Falcão, o líder do partido na Câmara, Vicentinho, e o deputado Cândido Vaccarezza. Os três deveriam depor esta semana, mas, a pedido de Sibá Machado (PT-AM), ficou combinado para a semana que vem, com o compromisso da presença de todos.

Copa e ética II
Explica-se tanto empenho dos deputados em comparecer ao Congresso em semana de recesso branco: em meio à Copa, são poucos os brasileiros que vão perceber a presença deles ali, prestando depoimento sobre o antigo colega petista enroscado nas tramas do doleiro Alberto Youssef.

Dos males...
Um peemedebista ligado ao governo foi direto ontem quando se referiu àqueles que não gostaram do resultado da convenção: "Michel tem que estar é muito feliz. Se demorasse um pouco mais, não aprovava!"
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"A cúpula do partido precisa parar com essa história de nos medir pela régua deles. Em vez de,dizer que o resultado foi uma traição, deveria, sim, divulgar por que houve esse resultado pífio."
Do deputado Lúcio Vieira Lima/referindo-se ao fato de o PT tratar o PMDB como aliado de segunda classe.
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Sabendo usar, nas vai faltar
É assim que os petistas têm se referido à mistura de política e Copa do Mundo. Ou seja, toda a presença do governo na Copa, depois do pronunciamento da terça-feira, deve ocorrer de forma discreta, sem qualquer estardalhaço. A avaliação é a de que o recado já está dado.

Uma resolução sob encomenda
Discretamente, a convenção do PDT em Brasília aprovou tuna resolução feita sob medida para mais à frente tirar a legenda de quem descumprir. Por ordem de Carlos Lupi, apenas três estados estão livres para fazer campanha a outros candidatos a presidente que não Dilma Rousseff: Rio Grande do Sul, Amapá e Mato Grosso. Os demais vão depender de autorização do comando partidário nacional. A decisão pode representar uma armadilha para José Antonio Reguffe, que fechou uma coligação no Distrito Federal com o senador Rodrigo Rollemberg, do PSB, pré-candidato a governador. A ordem é deixar Reguffe numa corda bamba, uma vez que, de acordo com os pedetistas, se eleito senador, o deputado vai compor a Rede Sustentabilidade de Marina Silva.

Em tempo: Lupi já havia deixado tanto o deputado quanto o senador Cristovam Buarque livres para seguir outros caminhos em Brasília. Afinal, é de conhecimento geral que tanto Reguffe quanto Cristovam eram contra à reedição da aliança nacional com Dilma Rousseff.

CURTIDAS
Copa & degustação:
A discussão ontem nas rodas gastronômicas de Brasília era qual o vinho que a presidente Dilma Rousseff servirá às autoridades convidadas para o almoço hoje em São Paulo. Há dois tipos produzidos especialmente para a Copa do Mundo pela vinícola gaúcha Iidio Carraro: o Faces, que reúne 11 variedades de uva (mesmo número de jogadores em campo numa Seleção), custa em tomo de R$ 35.O ícones, um tinto mais elaborado, em tomo de R$ 300. Ambos serão oferecidos nos camarotes. O champanhe é Taittinger.

E no território da oposição.../O PTB, do ex-deputado Benito Gama, definiu Salvador como palco da convenção nacional que selará o apoio à reeleição da presidente Dilma Rousseff. A cidade é administrada por ACM Neto, do DEM. Dilma Rousseff prometeu comparecer à festa petebista "Nós estamos tranquilos, sem muitas dissidências" diz Benito (foto), como que comparando seu partido ao PMDB, que, na Bahia, é Aécio.

Última chamada II
O deputado Júlio Delgado, por exemplo, que tinha comprado há meses uma passagem barata para Belo Horizonte, gastaria R$1,8 mil pela mesma viagem num voo de última hora no dia da abertura do Mundial. E, ainda assim, teria dificuldades em conseguir uma vaga.

Amor na Copa/ Feliz Dia dos Namorados! BrasiiiilllUlllli

Última chamada II
Durante todo o depoimento de Graça Foster na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da Petrobras era um tal de deputado olhando preocupado para o relógio. A maioria estava irada porque gastaria uma fortuna para viajar ao estado natal hoje. Era isso e não outro o motivo da ira com o relator Marco Maia, que fez 139 perguntas à presidente da empresa, algumas com jeitão de quem estava em campo fazendo cera para gastar o tempo.

Panorama político – Ilimar Franco

- O Globo

Alguém tem que ceder
A força que o PMDB do Rio demonstrou na convenção do partido, anteontem, pode comprometer a candidatura da presidente Dilma à reeleição mais do que o previsto pelo PT. O ministro Moreira Franco (Aviação Civil) afirma que é "inconcebível" o ponto a que chegou a relação entre os dois partidos. "A falta de convivência adequada pode se tornar um impeditivo e afetar Dilma", disse.

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“A presidente Dilma levou o tempo de TV, mas não levou o PMDB como um todo. A convenção mostrou que 40% do partido não está à venda”
Leonardo Picciani
Deputado federal PMDB-RJ
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A questão é matemática
O PSB do Rio tenta escapar da aliança com o PROS ao governo estadual por um problema objetivo: a manutenção de sua bancada na Câmara. O deputado Glauber Braga (PSB) avançou o sinal anunciando a desintegração da candidatura de Miro Teixeira (PROS), por saber que seu partido pode sair perdendo. Com PSB e PROS coligados, e sem Romário (PSB) à reeleição, as vagas afunilam. Hugo Leal (PROS) e Alfredo Sirkis (PSB) são considerados os mais fortes pelas votações de 2010, e será difícil para a aliança fazer mais cadeiras. Deputados pressionam Romário a desistir do Senado, sem sucesso.

Osso duro
Não é simples acabar com a candidatura de Miro Teixeira (PROS) ao governo. Sua manutenção é parte do acerto de Eduardo Campos e Marina Silva para ela engolir o apoio do PSB à reeleição de Geraldo Alckmin em São Paulo.

#cansei
Farto de esperar a decisão do governador Cid Gomes (PROS-CE) sobre quem apoiará à sucessão, o senador Eunício Oliveira (PMDB) negocia com o PR a indicação de Roberto Pessoa para candidato a vice e de Inácio Arruda (PCdoB) à reeleição ao Senado. SDD e PSD, que estavam com Cid, conversam agora com Eunício para o governo.

Menor ainda
A cúpula do PMDB calcula que a presidente Dilma tem menos de 40% do apoio do partido. Pelos números da convenção, a reedição da chapa foi aprovada por 59%. Desses, 20% votaram em consideração ao vice, Michel Temer.

A conferir
A procura por aviões da FAB por autoridades para a Copa do Mundo diminuiu em relação à Copa das Confederações. Pegou mal fotos de deputados, senadores e ministros em redes sociais no ano passado fazendo tour pelo país com amigos e familiares para acompanhar os jogos. Tiveram que ressarcir os cofres públicos.

Dando uma forcinha
A obstrução feita pela oposição às votações na Câmara até que seja cancelado o decreto da presidente Dilma que regulamenta os conselhos populares impulsionou o recesso branco imposto pelos deputados durante a Copa do Mundo.

Ganhando tempo
O governo respira aliviado com o cancelamento das sessões do Senado e da aproximação do recesso branco. Temia que os parlamentares não conseguissem suportar a pressão que vem do STF para aprovar a PEC da Magistratura.

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O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) acabou sendo convidado pela presidente Dilma para a abertura da Copa, hoje, no Itaquerão.

Fernanda Torres: O Bode

• Agora, o fantasma de 1950 pode trazer consequências bem maiores do que o silêncio sepulcral

- Folha de S. Paulo

A ditadura militar fez muita gente se esforçar para torcer contra o Brasil na Copa-70. Mas o talento do escrete foi mais forte que a causa, e até o mais aguerrido dos guerrilheiros sucumbiu aos dribles dos canarinhos.

Quarenta e quatro anos depois, a política volta a se imiscuir no amor pela camisa. O cenário é menos radical, mais democrático, mas a conjunção astral que alinhou Copa e eleição acabou por acirrar as tensões comuns aos dois eventos.

No Rio, os meses que antecedem as urnas são propícios a assaltos, chacinas e trocas de tiro no asfalto. Já começou, e não se vê uma faixa verde e amarela pintada na rua.

O clima anda tenso. Ronaldo tem razão quando diz que o futebol não tem culpa de terem creditado ao Mundial o fim das nossas mazelas. Mesmo assim, os custos exorbitantes dos estádios muniu a insatisfação popular.

Se cairmos nas quartas ou nas oitavas, corremos o risco da ira do Não Vai Ter Copa se juntar à dos black blocks, às greves, aos interesses das facções criminosas e ao uso político das manifestações de massa, culminando num quebra-quebra difícil de ser controlado.

Os que defendem a permanência do PT no poder acendem velas para Felipão. A oposição reza por uma colocação xoxa. Mas todos anseiam por, pelo menos, um honroso terceiro lugar que apazigue os maus humores.

A proximidade da eleição atiça a consciência extremada e censura a alegria mundana do torcedor. Ciente de nossa corrupção endêmica, quem se orgulharia de ter o álbum da Copa-14 completo? Mas a política, muitas vezes, gera uma impotência que leva à paralisia. Não defendo a alienação, mas alguma redenção é necessária.

Na minha área, já vi colegas trocarem o palco pelo palanque. De uma maneira geral, eles se tornaram artistas menos interessantes em cena do que fora dela.

O esporte é mais pragmático. O perde e ganha não deixa espaço a subjetividades. O atleta tende a fazer a sua parte, independente das convicções partidárias.

O espírito cívico é importante, mas ele não pode tirar a beleza de tudo. Se a seleção de 70 fosse medíocre, a derrota não nos livraria da linha dura.

Em meio a tanta indignação, resta esperar dos jogadores a lição simples de dominar com mestria o que se faz.
E nem sempre isso é suficiente, vide 1982. Agora, o fantasma de 1950, no Maracanã, pode trazer consequências bem maiores do que o silêncio sepulcral no estádio.

Que a força esteja conosco.

À partir de hoje, e por um mês, pretendo me dedicar ao carisma de Neymar, à lordose do Hulk, ao pomo de Adão do Cristiano Ronaldo e àqueles quadríceps maravilhosos, de rapazes vindos dos mais diversos cantos do planeta.

Sou moça, a testosterona me distrai à beça. Cada dia a sua agonia. Em outubro, decido meu voto.

Edu Lobo: O trenzinho caipira (Villa Lobos / Ferreira Gullar

Ascenso Ferreira – Carnaval do Recife

Meteram uma peixeira no bucho de Colombina
que a pobre, coitada, a canela esticou!
Deram um rabo-de-arraia em Arlequim,
um clister de sebo quente em Pierrô!

E somente ficaram os máscaras da terra:
Parafusos, Mateus e Papangus...
e as Bestas-Feras impertinentes,
os Cabeções e as Burras-Calus...
realizando, contentes, o carnaval do Recife,
o carnaval mulato do Recife,
o carnaval melhor do mundo!

- Mulata danada, lá vem Quitandeira,
lá vem Quitandeira que tá de matá!

- Olha o passso do siricongado!
- Olha o passo da siriema!
- Olha o passo do jaburu!
E a Nação-de-Cambinda-Velha!
E a Nação-de-Cambinda Nova!
E a Nação-de-Leão-Coroado!

- Danou-se, mulata, que o queima é danado!
- Eu quero virá arcanfô!
Que imensa poesia nos blocos cantando:
"Todo mundo emprega
grande catatau,
pra ver se me pega
o teu olho mal!"
- Viva o Bloco das Flores! Os Batutas!
Apois-fum!
(Como é brasileira a verve desse nome: Apois-fum!)
E o Clube do Pão Duro!
(É mesmo duro de roer o pão do pobre!)

- Lá vem o homem dos três cabaços na vara!
"Quem tirar a polícia prende!"

- Eh, garajuba!
Carnavá, meu carnavá,
tua alegria me consome...
Chegô o tempo das muié largá os home!
Chegô o tempo das muié largá os home!
Chegou lá nada...

Chegou foi o tempo delas pegarem os homens,
porque chegou o carnaval do Recife,
o carnaval mulato do Recife,
o carnaval melhor do mundo!

- Pega o pirão, esmorecido!