domingo, 28 de setembro de 2014

Aécio: informações de corrupção na campanha de Dilma em 2010 são 'assustadoras'

• O candidato, que corre contra o tempo para angariar votos e chegar ao segundo turno, ainda classificou como "indecoroso" o modo de o PT administrar a corrupção

Bruna Fasano – Veja

O candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, classificou de "assustadora" a informação de que a campanha que elegeu Dilma Rousseff em 2010 pediu dinheiro ao esquema do 'petrolão'. "É assustador o que vem acontecendo no Brasil. A cada semana, a cada dia, uma nova denúncia de corrupção. É extremamente grave", afirmou o candidato na manhã deste sábado. Reportagem publicada na edição desta semana de VEJA informa que Paulo Roberto Costa, no processo de delação premiada, disse às autoridades que, no fim do governo Lula, o ex-ministro Antonio Palocci o procurou para pedir 2 milhões de reais para a disputa de então à Presidência da República.

"É urgente que essas investigações sejam aprofundadas", disse Aécio, que prometeu, caso eleito, "tirar a Petrobras das garras desse grupo político que se apoderou da nossa maior empresa pública para fazer negócios".

O candidato, que corre contra o tempo para angariar votos e chegar ao segundo turno, ainda classificou como "indecoroso" o modo de o PT 'administrar a corrupção'. "Vamos estabelecer um combate sem tréguas à corrupção. No meu governo, independente de partidos políticos, se alguém for pego tendo cometido qualquer irregularidade não será tratado como herói nacional, como gosta de fazer o PT, será tratado com o rigor da lei", afirmou Aécio.

Durante entrevista na associação de jornais do interior de São Paulo, em Osasco, região metropolitana da capital paulista, o tucano afirmou que pretende "reestatizar e profissionalizar" a administração da Petrobras e tirá-la das "mãos de aliados políticos que usam os recursos do povo brasileiro para sustentar a base de apoio do governo".

Questionado sobre a importância da família para a sua formação, Aécio lembrou a influência do avô, o ex-presidente Tancredo Neves. E afirmou que na noite deste sábado irá "dormir em seu berço", a cidade mineira de São João Del Rei, para "buscar energias" e enfrentar a reta final da campanha. "Tudo que nós aprendemos nas nossas casas, com nossos pais e avós, como não roubar e não mentir, ter decência, respeitar os mais velhos e os próximos, tudo isso o PT está jogando pela janela pela sua sanha e obsessão pelo poder e pelo dinheiro", afirmou.

Acompanhado pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), que tenta a reeleição, e pelo ex-jogador de futebol Ronaldo Fenômeno, Aécio reforçou que está confiante de que chegará ao segundo turno da disputa presidencial. Ronaldo fez coro com o presidenciável: "Vamos chegar lá e mostrar que de virada é mais gostoso. E a gente vai virar esse jogo".

Na última pesquisa de intenção de voto, divulgada pelo instituto Datafolha nesta sexta-feira, o tucano aparece com 18% das intenções, em terceiro lugar. A presidente Dilma abriu treze pontos de vantagem sobre a adversária do PSB, Marina Silva. Dilma tem 40% dos votos válidos e Marina, 27%.

Dilma sai pela tangente ao comentar informação sobre campanha de 2010
• Reportagem de VEJA informa que o ex-diretor da Petrobras disse em seu depoimento às autoridades ter sido procurado por Antonio Palocci em 2010 para abastecer caixa da campanha

A presidente Dilma Rousseff deu uma resposta evasiva neste sábado ao comentar a revelação de que o esquema de desvios na Petrobras pode ter abastecido o caixa de sua campanha em 2010. Como VEJA mostrou, o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa revelou à Polícia Federal que Antonio Palocci, o todo-poderoso da campanha presidencial de quatro anos atrás, pediu uma "doação" de pelo menos 2 milhões de reais à campanha da petista. Os recursos viriam do petrolão, o esquema de corrupção da estatal, operado por Costa e integrado também pelo doleiro Alberto Yousseff.

Dilma disse que a reportagem é um “factoide”, mas não apresentou qualquer explicação convincente. Ela afirmou que o tesoureiro de sua campanha, José de Filippi, apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) todos os detalhes sobre as doações e os gastos eleitorais de 2010. “A minha campanha tinha um tesoureiro que se chama José de Filippi. Foi ele quem apresentou as minhas contas para a Justiça Eleitoral. Assinou, arrecadou, prestou contas e teve as contas aprovadas”, disse ela.

A resposta de Dilma nada explica, já que recursos desviados da Petrobras dificilmente seriam doados pelas vias oficiais – e não constariam, portanto, da contabilidade entregue ao TSE. Além disso, Dilma quis dar a entender que Antonio Palocci não tinha ascendência sobre a parte financeira da campanha. E a verdade é que o petista era muito mais poderoso e influente do que o tesoureiro, inclusive na hora de buscar verbas para o comitê.

A afirmação de Dilma foi dada antes de uma visita ao Expresso DF, um corredor de ônibus construído no Distrito Federal com recursos federais. A presidente falou à imprensa também sobre mobilidade urbana e defendeu a expansão do sistema de transporte público para que a classe média deixe se usar o carro diariamente. “A classe média no Brasil usa carro. Nós temos que fazer a classe média usar transporte público, dar qualidade para o transporte.”

'Acusações de Paulo Roberto Costa fazem estremer essa República', diz Marina

Felipe Frazão - Veja

A candidata do PSB à Presidência da República, Marina Silva, cobrou neste sábado o aprofundamento das investigações do escândalo da Petrobras, que ganhou contornos eleitorais após VEJA revelar na edição desta semana que a campanha de Dilma Rousseff procurou o ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa para pedir "ajuda" de 2 milhões de reais na campanha de 2010, conforme disse o ex-diretor da estatal em seu depoimento às autoridades. Marina exigiu medidas "urgentes e severas contra os que causaram dolo aos cofres públicos".

"Eu quero ter as informações. Queremos que os autos atestem o que ele está dizendo. Ele está fazendo acusações muito graves que fazem estremecer essa República", disse Marina. "Que a Justiça faça a investigação, que seja concluído o trabalho da Polícia Federal, do Ministério Público e de todas as instituições que estejam envolvidas [na apuração] desse lamentável episódio, para que se tenha o veredito de culpar os culpados e puni-los ou inocentar quem for inocente. Não costumo fazer política utilizando a corrupção, qualquer que seja ela e contra quem quer que seja, como forma de me promover", disse.

Marina voltou a dizer que Dilma tem "responsabilidade política" pela indicação dos diretores da Petrobras e afirmou que a empresa deixou as páginas econômicas e científicas dos jornais e revistas para aparecer nas páginas policiais. "Quero que as investigações sejam feitas, porque não costumamos nos promover enlameando a honra das pessoas. Poucos políticos têm coragem de dizer isso, porque usam da corrupção para se promover. Eu quero combater a corrupção. Isso é um discurso de toda uma vida em relação ao PT e ao PSDB, a todos os mensalões que apareceram". afirmou.

Pesquisas - Em queda constante nas pesquisas de intenção de voto, Marina tentou passar confiança durante a entrevista e chegou a dizer que sua candidatura é "ascendente" e "quebrou a polarização" partidária no Brasil e acabou com "plebiscito" entre PT e PSDB. "Nunca imaginei que eles fossem se juntar. Elas gostam tanto da polarização que pela primeira vez na história desse país o PT e o PSDB estão juntos fazendo na mesma artilharia nos combatendo."

A presidenciável minimizou a perde de mais três pontos no Datafolha divulgado nesta sexta-feira: Marina caiu de 30% para 27%, enquanto Dilma Rousseff subiu de 37% para 40% e abriu treze pontos de vantagem. Aécio Neves (PSDB), subiu de 17% para 18%.

"O mais importante nas pesquisas é aquilo que nelas é constante, que o povo quer mudança", disse, ignorando que desde 3 de setembro o instituto também verifica a tendência de queda de sua intenção de voto. Marina aproveitou para alfinetar Aécio, cujos ataques, somados à artilharia petista, influenciaram em sua queda.

"Nós somos a candidatura ascendente, tanto a Dilma quanto o Aécio sabem disso. E nós já sabemos quem é a candidatura descendente, que não disputa o primeiro lugar e está disputando o segundo lugar há 12 anos", disse. "Talvez fosse melhor o Aécio se preocupar com o PSDB envelhecido".

Marina comparou a contrapropaganda do PT a "um batalhão de Golias com artilharia pesada que a ataca dia e noite, sem parar". Marina disse que não fará "embate" no próximo debate na TV Record, mas criticou o endividamento de três em cada cinco famílias brasileiras e empregos "desaparecendo na indústria".

"Quem está preocupado com as pesquisas é aquele que gostaria de estar no segundo lugar e ir para o segundo turno e até agora continua no terceiro lugar [Aécio], e quem está no primeiro lugar [Dilma] gostaria de não ter segundo turno e sabe que vai ter. Um sabe que já está concorrendo ao segundo lugar e outro sabe que com esse o primeiro lugar será seu".

Candidato a vice-presidente na chapa de Mariana, o deputado federal Beto Albuquerque (PSB-RS), classificou como "leviana" a citação ao ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, morto em agosto, que aparece na lista de Costa como um dos beneficiários do "petrolão". "Contra a Dilma há uma acusação e contra o Eduardo há uma citação sem qualquer contexto", disse Albuquerque. O deputado disse que o PSB apoia a CPI sobre a refinaria Abreu e Lima, construída em Pernambuco.

PF - Segundo reportagem do jornal Folha de S. Paulo, o secretário nacional de Justiça, Paulo Abrão, subordinado ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo (PT), foi até a sede da Polícia Federal buscar informações sobre um inquérito aberto para apurar indícios de corrupção e prevaricação no Ministério do Meio Ambiente, no período em que Marina comandou a pasta no governo Lula, entre 2003 e 2008. Ao jornal, o ministério informou que Abrão apenas checou o andamento e o estágio atual do processo. O inquérito foi arquivado em 2012 pelo Ministério Público por falta de provas contra funcionários da pasta. Ao comentar o caso, Marina defendeu sua gestão e disse que integrantes de sua campanha já tinham recebido denúncias similares - as informações seriam que a documentação do inquérito foi acessada de forma clandestina. Ela "repudiou a manipulação dos documentos".

"Repudiamos que estejam sendo usados os órgãos do Estado brasileiro para promover qualquer tipo de crime para acusar uma pessoa que está participando do processo político. Não achamos que o Estado brasileiro deva ser utilizado lançando mão de meios ilegais para prejudicar qualquer que seja o candidato", afirmou. "Para ser sincera, algumas pessoas da minha campanha receberam algumas denúncias anônimas de que estava sendo feito esse tipo de prática e que inclusive documentação estava sendo movimentada sem passar pelo sistema."

O núcleo atômico da delação

• Paulo Roberto Costa, no processo de delação premiada, disse às autoridades que a campanha de Dilma em 2010 pediu dinheiro ao esquema de corrupção que ele liderava na Petrobras

Robson Bonin e Hugo Marques - Veja

Desde o fim de agosto, quando começou a revelar os detalhes do megaesquema de corrupção montado no coração da Petrobras, a maior estatal brasileira, o engenheiro Paulo Roberto Costa já deu aos policiais federais e procuradores informações suficientes para abrir dezenas de inquéritos contra políticos e empresários com culpa no cartório. Paulo Roberto passou oito anos à frente da diretoria de Abastecimento. Chegou ao posto em 2004, no governo Lula, e lá permaneceu após a posse de Dilma Rousseff. Ficou até 2012. Paulinho, como era carinhosamente chamado por Lula, foi indicado para a diretoria pelo PP, um dos partidos da base governista. Ele se mostrou tão eficiente aos olhos dos políticos que logo passou a ser apoiado também pelo PT e pelo PMDB.

Há três semanas, VEJA revelou que o ex-diretor da Petrobras havia dado às autoridades o nome de mais de trinta políticos beneficiários do esquema de corrupção. A lista, àquela altura, já incluía algumas das mais altas autoridades do país e integrantes dos partidos que dão sustentação ao governo do PT. Ficou delineada a existência de um propinoduto cujo objetivo, ao fim e ao cabo, era manter firme a base aliada.

O esquema foi logo apelidado de "petrolão", o irmão mais robusto mas menos conhecido do mensalão, dessa vez financiado por propinas cobradas de empresas com negócios com a Petrobras. À medida que avançava nos depoimentos,

Paulo Roberto ia dando mais detalhes sobre o funcionamento do esquema c as utilidades diversas do dinheiro que dele jorrava. Era tudo tão bizarro, audacioso, inescrupuloso e surpreendente, mesmo para os padrões da corrupção no mundo oficial brasileiro, que alguém comparou o esquema a um "elefante voador" — algo pesadamente inacreditável, mas cuja silhueta estava lá bem visível nos céus de Brasília.

A reportagem de VEJA estampada na capa da edição de 10 de setembro passado revelou a mais nítida imagem do bicho. Ninguém contestou as informações. Agora, surge mais um "elefante voador" originário do mesmo ninho do anterior. Paulo Roberto Costa contou às autoridades que, em 2010, foi procurado por Antonio Palocci, então coordenador da campanha da presidente Dilma Rousseff. O ex-diretor relatou ter recebido do ex-ministro um pedido de pelo menos 2 milhões de reais para a campanha presidencial do PT. A conversa, segundo ele, se deu antes do primeiro turno das eleições. Antonio Palocci conhecia bem os meandros da estatal. Como ministro da Fazenda, havia integrado seu conselho de administração. Era de casa, portanto, e como tal tinha acesso aos principais dirigentes da companhia. Aos investigadores, Paulo Roberto Costa contou que a contribuição que o ex-ministro pediu para a campanha de Dilma sairia da "cota do PP" na Petrobras.

Para fecharem negócios com a estatal, as empreiteiras repassavam aos políticos um porcentual que chegava a até 3% do valor do contrato. As comissões eram divididas entre os partidos que apadrinhavam os diretores das áreas com as quais os contratos eram fechados. Cada sigla recebia a sua parte. No caso da diretoria de Abastecimento, o caixa era controlado pelo PP e administrado pelo doleiro Alberto Youssef. Como VEJA já revelou, as propinas arrancadas por Paulo Roberto Costa das empresas eram entregues a Youssef disfarçadas de pagamentos por serviços prestados pelo doleiro, que atuava também como pagador, fazendo o dinheiro chegar aos políticos brindados pelo esquema. A polícia já tem provas contundentes sobre o envolvimento de algumas das maiores empreiteiras do país.

Quando as autoridades quiseram saber se o dinheiro chegou ao caixa de campanha de Dilma em 2010, Paulo Roberto limitou-se a dizer que acionou o doleiro Youssef para providenciar a "ajuda". O ex-diretor disse aos investigadores que não poderia dar certeza de que Youssef repassou o dinheiro pedido pela campanha de Dilma, mas que "aparentemente" isso ocorreu, pois Antonio Palocci não voltou a procurá-lo.

Como diretor, Paulo Roberto era responsável por administrar contratos vultosos da Petrobras. Sob sua alçada estavam, por exemplo, obras de construção de refinarias, aluguel de navios e plataformas e manutenção de oleodutos. Eram negócios que, muitas vezes, passavam em muito a casa do bilhão. Aos policiais e procuradores, o delator contou que não punha a mão na massa. Embora tenha se beneficiado pessoalmente com dinheiro do esquema — que agora, com o acordo de delação premiada, terá de devolver —, ele garante que apenas negociava as comissões e administrava as "demandas" — como a do ex-ministro Antonio Palocci. A operacionalização da propina, em si, era feita por pessoas destacadas por cada um dos partidos envolvidos. Só para se ter uma ideia do volume de dinheiro movimentado pela quadrilha, em apenas uma conta que o ex-diretor da Petrobras mantinha no exterior havia um saldo de 23 milhões de dólares, fruto das chamadas "comissões".

Mesmo que em seu depoimento o ex-diretor não chegue a confirmar se os 2 milhões de reais pedidos foram de fato repassados à campanha presidencial de Dilma Rousseff, a revelação que ele fez às autoridades é de alta gravidade. Independentemente de o dinheiro ter sido repassado ou não. Fica evidente que o PT e o coordenador da campanha presidencial sabiam do esquema de corrupção na Petrobras e tentaram se valer dele.

Os depoimentos foram enviados ao gabinete do procurador-geral da República, Rodrigo Janot. A revelação de Paulo Roberto que liga o esquema de corrupção na Petrobras ao caixa da campanha presidencial agora depende do depoimento de outro envolvido. O doleiro Alberto Youssef, o operador da "cota do PP", poderá dizer o que se passou a partir do momento em que o ex-diretor o incumbiu de repassar o dinheiro. O caminho para isso está pavimentado. Na quarta-feira, seguindo os passos de Paulo Roberto, Youssef acertou com o Ministério Público os termos de um acordo de delação premiada, em que pretende contar o que sabe em troca da redução de pena. A decisão do doleiro aumentou ainda mais o nível de apreensão entre os políticos envolvidos no esquema. No papel de responsável pelo caixa clandestino do PP, também cabia a Youssef entregar a propina.

Em junho passado, VEJA mostrou que o escritório do doleiro em São Paulo era um ponto de peregrinação de políticos do PP. Youssef também pode ajudar a polícia a estabelecer outras conexões do esquema. Segundo Paulo Roberto Costa, a diretoria de Serviços, ocupada durante quase dez anos por Renato Duque, ligado ao PT, recolhia comissões que abasteciam exclusivamente o caixa dois do partido e eram administradas por João Vaccari Neto, o tesoureiro oficial. Por meio de sua assessoria, Antonio Palocci disse que conhece Paulo Roberto Costa, mas "em momento algum fez a ele pedido de qualquer natureza". Garante que, em 2010, nem sequer se encontrou com o então diretor da Petrobras e que também "não tinha responsabilidade sobre a área financeira" da campanha. A presidente Dilma, informada sobre as revelações do delator, disse, por meio de sua assessoria, que o tesoureiro da campanha presidencial de 2010 era o deputado federal licenciado José de Filippi: "Todas as doações eleitorais recebidas pela campanha foram relacionadas na prestação de contas dirigida ao TSE. Essa prestação de contas foi aprovada e está à disposição de quaisquer interessados na Justiça Eleitoral". Enquanto isso, os elefantes voadores riscam o céu azul da capital em elegantes manobras aéreas.

Acima de qualquer suspeita
Caso a Justiça homologue o acordo de delação premiada com o doleiro Alberto Youssef, novas e curiosas histórias envolvendo poder e dinheiro deverão eclodir. Em 2011, no primeiro ano de mandato da presidente Dilma, Mário Negromonte chefiava o poderoso Ministério das Cidades, que tinha um orçamento de 22 bilhões de reais. Ninguém nunca prestou muita atenção no que o ministro fazia depois do expediente. Como servidor público, ele implementava programas de construção de casas populares, viabilizava projetos de saneamento e propunha normas para facilitar a vida dos brasileiros. Exemplo: no fim de 2011, o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), órgão subordinado ao ministério, editou uma portaria que obrigava as montadoras a instalar sistemas de localização em todos os carros. Bom para os consumidores, bom para as seguradoras, melhor ainda para as empresas credenciadas a realizar o trabalho de monitoramento de veículos. E excelente para Mário Negromonte, que fazia um bico como consultor de investimentos.

Nessa segunda atividade, pouco antes de a portaria do Denatran ser editada, ele procurou o doleiro Alberto Youssef, seu amigo, e lhe deu uma dica valiosa: o governo estava prestes a editar uma norma que valorizaria muito as empresas de rastreamento de carros. Por acaso, o ministro também conhecia o dono de uma delas - a Controle, sediada em Goiânia - e sabia que ele, embora credenciado a prestar o serviço, enfrentava dificuldades financeiras. Estava à procura de um sócio com dinheiro para investir. Com um conselho tão qualificado, Youssef não pensou duas vezes. Meire Poza, a contadora do doleiro, foi encarregada de viabilizar o negócio. Ela confirma que o ministro deu todas as orientações: "O Negromonte chamou o Beto (Youssef) e disse que tinha uma empresa que tinha a licença do Denatran, só que estava quase quebrada: "Vai lá e compra que nós estamos com o negócio na mão"".

O doleiro investiu 3 milhões de reais na Controle e comprometeu-se a colocar outros 17 milhões. Com dinheiro em caixa, a empresa chegou a abrir uma filial em São Paulo para atuar no maior mercado do país. O investimento, porém, até agora não deu lucro. Atendendo a pedidos das montadoras, o governo ainda não fixou a data para que os carros novos saiam da fábrica com o equipamento, o que deve ocorrer apenas no ano que vem. Procurado, o empresário Luciano Mendes, um dos sócios da Controle, confirmou que esteve com Alberto Youssef e Mário Negromonte durante a negociação da sociedade: "Estive com o ministro no escritório do Youssef duas vezes em 2011". Seu sócio, Celso Secundino, lamenta o desfecho do negócio: "Fomos vítimas de um bandido". Mário Negromonte admite que conhece o doleiro, mas garante que nunca ouviu falar da Controle nem de seus sócios. Ele diz que contrariou muitos interesses quando era ministro e que por isso estaria sendo alvo de ataques.

Dilma Rousseff e a corrupção: O Estado de S. Paulo - Editorial

Nunca antes na história deste país se viu tanta corrupção no governo. O mensalão e o mais recente escândalo do desvio de dinheiro da Petrobrás para o bolso de políticos governistas, exemplos mais luzidios do mar de lama em que o Brasil oficial chafurda, dão a medida de até que ponto os 12 anos de governos do PT degradaram a moral pública. Enquanto isso, Dilma Rousseff proclama na ONU e na propaganda eleitoral os "valores" que transformaram o Brasil num mundo encantado, enfatizando "o combate sem tréguas à corrupção", mediante "o fim da impunidade com o fortalecimento das instituições que fiscalizam, investigam e punem atos de corrupção, lavagem de dinheiro e outros crimes financeiros".

Punir a corrupção? Recorde-se a tentativa do PT de desclassificar como "manipulação política" a condenação, pelo STF, dos dirigentes do partido que urdiram e executaram o até então maior escândalo de corrupção no governo - a compra de apoio de parlamentares para a formação da "base aliada". Os maiorais petistas condenados por uma corte integrada em sua esmagadora maioria por ministros nomeados nos governos de Lula e de Dilma foram transformados pelo lulopetismo em injustiçados "guerreiros do povo brasileiro".

Já quanto ao "fortalecimento das instituições que fiscalizam, investigam e punem", trata-se de mentira ainda mais escandalosa, até por ser uma das mais insistentemente repetidas no ininterrupto discurso eleitoral do PT no poder.

Fiscalizar e investigar? Dilma declarou recentemente o que pensa: não é função da Imprensa investigar o governo, mas apenas divulgar notícias. Em outras palavras, só deve ser divulgada a notícia que chega pronta na mão do jornalista, não importa a credibilidade da fonte, pois, se tentar verificar se a fonte tem credibilidade, o jornalista já estará fazendo o que não pode: investigando. 

Depois Dilma tentou se explicar, dizendo que não era bem o que todo mundo havia entendido, mas já havia deixado clara uma de suas afinidades com a ditadura cubana e o bolivarianismo chavista.

No âmbito do poder público, investigação é o trabalho, por exemplo, da Controladoria-Geral da União, da Advocacia-Geral da União e do Ministério Público (MP). As duas primeiras estão vinculadas ao Poder Executivo.

Mas o MP é constitucionalmente autônomo, ou seja, uma potencial fonte de aborrecimentos para o Poder Executivo, em particular quando resolve meter o bedelho em malfeitos dos poderosos de turno. Não é por outra razão que têm sido recorrentes no Congresso as tentativas de impor limitações constitucionais à atuação investigativa do Ministério Público.

Dilma tem repetido que em seu governo a Polícia Federal (PF) tem ampla autonomia para trabalhar. Mais do que isso, que se hoje é aparentemente muito grande o número de casos de corrupção que chegam ao conhecimento público é porque os governos petistas ampliaram os quadros, forneceram equipamentos e garantiram autonomia à PF para cumprir sua missão. Mais uma vez, há confusão.

De acordo com dados oficiais do Ministério do Planejamento, conforme informou o Estado dias atrás, está havendo uma redução do número de delegados, peritos, escrivães e agentes da Polícia Federal. Segundo a Federação Nacional dos Policiais Federais, há hoje cerca de 4 mil cargos vagos, quando o ideal seria triplicar o número de servidores da PF. O mesmo Ministério do Planejamento informou, depois, que, no mês passado, foram admitidos nos quadros da Polícia Federal 541 servidores - ou seja, pouco mais de 10% dos cargos que estariam vagos.

Investigação e fiscalização são frequentemente sinônimos. No âmbito do poder público - sem falar do Poder Legislativo, hoje de joelhos diante do Executivo -, o Tribunal de Contas da União (TCU), órgão auxiliar do Congresso Nacional, tem a responsabilidade constitucional de exercer a fiscalização contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial da União. Mas durante seus governos Lula deixou bem claro o que pensa do TCU: só serve para criar obstáculos à execução dos projetos e programas oficiais.

Em resumo: o PT não gosta de ser fiscalizado e, muito menos, investigado. Qual a credibilidade de Dilma Rousseff, portanto, para falar em "combate sem tréguas à corrupção"?

Ferreira Gullar: A mentira como método

• Eles sabem que estão mentindo e, sem qualquer respeito próprio, repetem a mentira por décadas

- Folha de S. Paulo / Ilustrada

Tenho com frequência criticado o governo do PT, particularmente o que Lula fez, faz e o que afirma, bem como o desempenho da presidente Dilma, seja como governante, seja agora como candidata à reeleição.

Esclareço que não o faço movido por impulso emocional e, sim, na medida do possível, a partir de uma avaliação objetiva.

Por isso mesmo, não posso evitar de comentar a maneira como conduzem a campanha eleitoral à Presidência da República. Se é verdade que os candidatos petistas nunca se caracterizaram por um comportamento aceitável nas campanhas eleitorais, tenho de admitir que, na campanha atual, a falta de escrúpulos ultrapassou os limites.

Lembro-me, como tanta gente lembrará também, da falta de compromisso com a verdade que tem caracterizado as campanhas eleitorais do PT, particularmente para a Presidência da República.

Nesse particular, a Petrobras tem sido o trunfo de que o PT lança mão para apresentar-se como defensor dos interesses nacionais e seus adversários como traidores desses interesses. Como conseguir que esse truque dê resultado?

Mentindo, claro, inventando que o candidato adversário tem por objetivo privatizar a Petrobras. Por exemplo, Fernando Henrique, candidato em 1994, foi objeto dessa calúnia, sem que nunca tenha dito nada que justificasse tal acusação.

Em 2006, quem disputou com Lula foi Geraldo Alckmin e a mesma mentira foi usada contra ele. Na eleição seguinte, quando a candidata era Dilma Rousseff, essa farsa se repetiu: ela, se eleita, defenderia a Petrobras, enquanto José Serra, se ganhasse a eleição, acabaria com a empresa.

É realmente inacreditável. Eles sabem que estão mentindo e, sem qualquer respeito próprio, repetem a mesma mentira. Mas não só os dirigentes e o candidato sabem que estão caluniando o adversário, muitos eleitores também o sabem, mas se deixam enganar. Por isso, tendo a crer que a mentira é uma qualidade inerente ao lulopetismo.

Quando foi introduzido, pelo governo do PSDB, o remédio genérico --vendido por menos da metade do preço do mercado-- o PT espalhou a mentira de que aquilo não era remédio de verdade. E os eleitores petistas acreditaram: preferiram pagar o triplo pelo mesmo remédio para seguir fielmente a mentira petista.

Pois é, na atual campanha, não apenas a mesma falta de escrúpulo orienta a propaganda de Dilma, como, por incrível que pareça, conseguem superar a desfaçatez das campanhas anteriores.

Mas essa exacerbação da mentira tem uma explicação: é que, desta vez, a derrota do lulopetismo é uma possibilidade tangível.

Faltando pouco para o dia da votação, Marina tem menos rejeição que Dilma e está empatada com ela no segundo turno --e o segundo turno, ao que tudo indica, é inevitável.

Assim foi que, quando Aécio parecia ameaçar a vitória da Dilma, era ele quem ia privatizar a Petrobras e acabar com o Bolsa Família.

Agora, como quem a ameaça é Marina, esta passou a ser acusada da mesma coisa: quer privatizar a Petrobras, abandonar a exploração do pré-sal e acabar com os programas assistenciais. Logo Marina, que passou fome na infância.

E não é que o Lula veio para o Rio e aqui montou uma manifestação em defesa da Petrobras e do pré-sal? Não dá para acreditar: o cara inventa a mentira e promove uma manifestação contra a mentira que ele mesmo inventou! Mas desta vez ele exagerou na farsa e a tal manifestação pifou.

Confesso que não sei qual a farsa maior, se essa, do Lula, ou a de Dilma quando afirmou que, se ela perder a eleição, a corrupção voltará ao governo. Parece piada, não parece? De mensalão em mensalão os governos petistas tornaram-se exemplo de corrupção, a tal ponto que altos dirigentes do partido foram parar na cadeia, condenados por decisão do Supremo Tribunal Federal.

Agora são os escândalos da Petrobras, saqueada por eles e por seus sócios na falcatrua: a compra da refinaria de Pasadena por valor absurdo, a fortuna despendida na refinaria de Pernambuco, as propinas divididas entre o PT e os partidos aliados, conforme a denúncia feita por Paulo Roberto Costa, à Justiça do Paraná.

Foi o Lula que declarou que não se deve dizer o que pensa, mas o que o eleitor quer ouvir. Ou seja, o certo é mentir.

Merval Pereira: De cabeça para baixo

- O Globo

O candidato tucano Aécio Neves entra na última semana da campanha eleitoral enfrentando um dilema que coloca suas necessidades imediatas à frente de um projeto político maior, o de tirar o PT do poder.

Ele foi talvez a maior vítima colateral do trágico acidente que matou o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, colocando de cabeça para baixo a corrida pela presidência da República e desconstruindo os parâmetros de sua disputa.

Guiado por Aécio, seu presidente nacional, o PSDB armou-se para disputar a presidência baseado na sua organização partidária, em diversos acordos políticos formais e informais e na possibilidade de sair com grandes votações de Minas e São Paulo, dois dos maiores colégios eleitorais do país que domina há muito tempo.

Isso tudo deixou de ter importância quando a ex-senadora Marina Silva entrou em cena e conseguiu, com quase nenhuma estrutura partidária e pouco mais de dois minutos de propaganda eleitoral no rádio e televisão, sair na frente em todas as regiões do país, jogando Aécio para o terceiro lugar.

Diante do fato novo, a campanha do PSDB, mas, sobretudo, a da presidente Dilma, partiram para a desconstrução do programa e da própria figura de Marina, que se mostrou frágil, tanto pessoal quanto partidariamente, para reagir à altura da necessidade. Ela no momento enfrenta três fortes adversários: a falta de escrúpulos da propaganda do PT, a tentativa dramática do PSDB de retomar o lugar na disputa no segundo turno, e a crise aberta no PSB por seu presidente interino Roberto Amaral, velho aliado do PT que, em meio a uma campanha acirrada como essa, resolveu cuidar de seu pirão primeiro, convocando uma extemporânea eleição para formalizá-lo na presidência do partido.

Querendo ou não, os dois, Aécio Neves e Roberto Amaral, estão ajudando o PT a fortalecer a reeleição da presidente Dilma Rousseff. Mais compreensível do que a atitude de Amaral é a de Aécio, que vê ainda uma possibilidade de superar Marina pelas últimas pesquisas, embora tenha sido aconselhado já há algum tempo pelo ex-presidente Fernando Henrique a centrar seu ataque em Dilma, e não em Marina, a fim de preservar a possibilidade de montar um acordo partidário entre PSB e PSDB no segundo turno.

O auge das “afinidades” entre as campanhas de Aécio e Dilma foi a acusação irônica de que o programa de Marina havia sido escrito a lápis, tais foram as alterações feitas. O marqueteiro João Santana gostou tanto da frase de Aécio que a transformou em um filmete da campanha de Dilma.

Outra boa sacada de Aécio acabou saindo pela culatra, pois Aécio disse de suas adversárias que “uma mente e a outra desmente”. Acabou tendo que se desmentir ele próprio, que prometeu e depois voltou atrás no fim do fator previdenciário.

O maior problema de Aécio Neves, a esta altura da eleição, é a disputa em Minas, que surpreendentemente está perdendo. Os 3 milhões de votos que pretendia tirar na frente de Dilma no estado dos dois agora se tornaram poucos milhares numa disputa em que tem que se desdobrar para chegar à frente, quando já esteve em terceiro lugar.

Para o governo do Estado enfrenta uma eleição dificílima, que até o momento está perdida já no primeiro turno. Como o número de indecisos continua alto, em torno de 20%, Aécio e seu grupo ainda têm esperanças de virar o jogo, mesmo que seja apenas no segundo turno. Mas se esse esforço excessivo, em Minas e no plano nacional, levá-lo ao segundo turno, ele pode até ganhar o governo de Minas para seu partido, mas dificilmente terá condições de derrotar a presidente Dilma.

No norte e no nordeste, regiões em que Dilma abriu na eleição de 2010 cerca de 12 milhões de votos de frente para Serra, o PSDB hoje com Aécio tem uma votação minúscula: 15% no norte e 8% no nordeste segundo o mais recente levantamento do Datafolha.

Quem está impedindo, a duras penas, que Dilma abra vantagem nessas regiões onde predominam os eleitores mais ajudados pelos programas sociais do governo, especialmente o Bolsa Família, é Marina, que tem, 27% de votos no norte e 23% no nordeste, e mesmo assim está em queda.

Entre os eleitores de renda familiar de 2 a 5 salários mínimos, Dilma e Marina estavam empatadas em 34% há uma semana. Agora, a presidente supera a candidata do PSB por 37% a 30%. No Nordeste, Dilma já chegou a 55% e vai a 59% na disputa com Marina, que teria 33% num eventual segundo turno.

Contra Aécio Neves, tudo indica que a presidente poderá repetir os 70% que obteve em 2010 nessas regiões, e o candidato do PSDB não tem condições práticas de reduzir essa diferença com votações expressivas em Minas e São Paulo, como era o plano inicial.

Dora Kramer: Caso de política

- O Estado de S. Paulo

Logo agora que Dilma Rousseff engrenou no discurso incisivo sobre o combate à corrupção, levando ao centro da campanha um assunto evitado até que o ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa inaugurou o que já se configura o início de uma fila para firmar acordos de delação premiada com a Justiça, a própria presidente e seus aliados começam a pôr em dúvida suas palavras.

Ao menos no que tange à atuação da Polícia Federal, celebrada como independente e apontada por ela como uma das razões pelas quais há tantos escândalos. Sempre que se toca no assunto, Dilma explica: não há mais corrupção, o que há é mais controle. Como se descobre mais, os crimes aparecem mais. Portanto, os instrumentos de fiscalização estão funcionando direito. PF inclusive. Acima de interesses dessa ou daquela natureza.

Pois na última semana a instituição já foi alvo de suspeita de agir mediante motivação eleitoral por políticos que, embora atuem no campo da presidente, não compartilham da opinião dela sobre a conduta republicana da PF nem ela parece acreditar nas próprias palavras.

Por ordem de importância dos porta-vozes, comecemos pelo ex-presidente Luiz Inácio da Silva. Na opinião dele, a divulgação do fato de a polícia tentar há sete meses ouvi-lo (como testemunha) sobre a acusação feita pelo operador do mensalão de que teria intermediado um repasse ilegal de R$ 7 milhões da Portugal Telecom para o PT tem objetivo "eleitoral". A informação é da PF que, por deferência, atua com diplomacia tentando por intermédio do advogado Márcio Thomaz Bastos que Lula atenda ao convite.

Uma "pessoa comum" - para usar expressão do ex-presidente - já teria sido intimada. O uso eleitoral aí não teria razão para entrar no seu radar caso tivesse atendido à solicitação em fevereiro. Lula alega não ter recebido convite. De fato, pois a PF o está tratando com reverência, mas fazendo o seu trabalho. Não recebe, no entanto, a mesma colaboração.

No segundo caso temos a inusitada reação do vice-presidente da República, Michel Temer e do presidente do Senado, Renan Calheiros, protestando em nota oficial e mobilizando a presidente da República e o ministro da Justiça para que tomem providências contra a equipe da PF em Imperatriz (MA), que ousou averiguar uma denúncia anônima de que haveria transporte de dinheiro irregular no avião do senador e candidato ao governo do Estado, Edison Lobão Filho.

A alegação foi a de que a operação visava a prejudicar a candidatura. Ocorre que os policiais não encontraram nada de errado e, assim, deram por encerrado o episódio. Não foram negligentes e não prejudicaram ninguém. Ao contrário. Pode-se dizer até que o senador recebeu um bom atestado e a PF fez o seu trabalho. Mas a cúpula do PMDB interveio em prol de tratamento privilegiado.

O terceiro personagem é o petista Alexandre Padilha, candidato ao governo de São Paulo. A Polícia Federal iniciou uma operação para investigar fraudes em licitação na secretaria especial de saúde indígena, ligada ao Ministério da Saúde. O caso ocorreu quando Padilha era ministro e, embora não esteja entre os investigados, já foi logo tratando de dizer que a investigação só pode ter "motivo eleitoral".

Em xeque. Se as pessoas que estão no governo e conhecem como as coisas funcionam lançam com tanta facilidade suspeitas de que a regra não é a adoção de boas práticas, estão pondo em xeque as garantias que têm dado a presidente ao público e, ao mesmo tempo, levantando desconfiança sobre o trabalho realizado pela Polícia Federal.

A corporação sabe em que fogueira a jogaram quando o governo diz, para atender aos parceiros, que vai "investigar a fundo" a origem da denúncia anônima, e a PF responde em sóbria nota que é um órgão de Estado que não "persegue, não intimida, nem se deixa intimidar".

Agora, para agradar ao PMDB, a presidente se contradiz e deixa a Polícia Federal à exposição mais insidiosa do sol e da chuva.

Eliane Cantanhêde: Cambalhotas

- Folha de S. Paulo

Resumo do Datafolha: Dilma acelera para a vitória, Marina vai desmilinguindo e Aécio caminha com dificuldade, mas não está morto.

O dado mais contundente do Datafolha, além dos 13 pontos de vantagem de Dilma sobre Marina no primeiro turno, é a cambalhota no segundo. Em 10 de setembro, Marina tinha 47% e agora caiu para 43%. Dilma tinha 43% e, invertendo posições, está com 47%.

Assim, Dilma supera a principal rival pesquisa a pesquisa. Na última, ultrapassou Marina no primeiro turno. Nesta, passou à dianteira no segundo. Ela tem a força (dinheiro, máquina, estrutura e "o" marqueteiro), e Marina pode ter sido um sonho de verão.

A campanha sonhática teria de ter trunfos, garra, um pulo do gato. Por que não? Toda hora, um novo gato pula na de Dilma e, à noite e durante eleições, todos os gatos são pardos. De nada adianta o alerta de que a campanha de Dilma faz o diabo, mente, inventa, manipula. O importante é que os fins justificam os meios, lembra?, e o medo vai vencendo a esperança.

Para piorar, o eleitor de Dilma é mais fiel, decorou o número 13 e sabe manejar a urna eletrônica, ao contrário do de Marina. Ou seja, às dificuldades nas pesquisas de intenções de voto, Marina tende a somar uma "quebra" de votos na eleição real.

Onde Aécio entra nisso? A diferença dele para Marina é de nove pontos a uma semana. Para uma reviravolta, ele teria de atingir seu potencial máximo e ela cair ao seu mínimo. É muito difícil, mas o tucano demonstra alguma recuperação em eleitorados chaves, como São Paulo. Além disso, nas últimas eleições, o PSDB teve alguns pontos a mais nas urnas do que tinha nas pesquisas.

A melhor aposta é de Dilma e Marina no segundo turno e mais um mandato para o PT. Porém... Dilma vencer no primeiro turno, Marina encorpar no segundo e Aécio surpreender no final são todas hipóteses improváveis, mas nenhuma delas é impossível.

Luiz Carlos Azedo: Casa grande e senzala (ou a Sinhá e a negrinha)

• Existe um fator mais antropológico do que político nesta eleição, que é uma das razões de Marina Silva (PSB) resistir como uma das protagonistas da disputa

- Correio Braziliense

Um aspecto relevante da disputa eleitoral é o posicionamento do velho patriarcado do Norte e Nordeste, formado a partir do período colonial. Essas oligarquias mantêm incrível capacidade de sobrevivência, graças ao controle das vilas e das pequenas cidades do interior e à grande influência nos negócios regionais que dependem da União. A formação desse patriarcado e seus métodos de controle social foram descritos por Gilberto Freyre em Casa grande e senzala. Sobrevivem até hoje, como está demonstrado nestas eleições.

O velho patriarcado preserva sua secular influência política no Senado e serve de reserva estratégica para as forças do Sudeste e do Sul que estão no poder. Além disso, contamina toda a política com seus métodos fisiológicos e práticas patrimonialistas, a ponto de fazer com que forças mais modernas e até progressistas sejam subjugadas pelo “transformismo” partidário e acabem sucumbindo ao toma lá da cá que domina o nosso parlamento.

A propósito da obra de Gilberto Freyre sobre o patriarcado brasileiro, um parêntese sobre a relação entre a Sinhá e a negrinha: a primeira vive na casa grande e, vez ou outra, visita a senzala; a segunda frequenta a casa grande e volta para dormir na senzala todos os dias. (É piada pronta, mas qualquer semelhança com as candidatas a presidente da República será mera coincidência)

“Desconstrução” e identidade
Agora, falando sério, existe um fator mais antropológico do que político nesta eleição, que é uma das razões de Marina Silva (PSB) resistir como uma das protagonistas da disputa, apesar da enorme desvantagem de sua campanha em termos de tempo de televisão, estruturas de poder, apoios partidários e recursos financeiros. E do processo de “desconstrução” de sua candidatura, que está em pleno curso e é facilitado pela ausência de um estado-maior de campanha experiente em pleitos presidenciais.

Por que, a uma semana do pleito, a candidata do PSB não sucumbiu à polarização Dilma Rousseff (PT) versus Aécio Neves (PSDB), o que ainda pode acontecer no decorrer desta semana? Por causa dos segmentos negros, pardos e mulatos dos grandes centros urbanos sem representação política que com ela se identificam. Uma espécie de voto étnico que se soma a parcelas dos votos ético, evangélico e de protesto que compõem as outras três vertentes eleitorais à margem das estruturas de poder e dos partidos de sua candidatura. Trata-se de um universo político mais virtual do que orgânico.

Vivemos a crise de identidade do chamado “sujeito moderno”, cujo mundo de origem era a sociedade industrial e suas ideologias. A busca de nova identidade na sociedade pós-moderna — cujo sujeito é “desconstruído” — passa por questões novas, que estão muito ao largo do espectro político-partidário e do conceito de nação: a emancipação feminina e as mudanças de gênero, por exemplo.

Essa crise tem também aspectos de caráter regressivo, como o ressurgimento do fundamentalismo religioso e do radicalismo ideológico. Além disso, ocorre outro fenômeno global: a reconstrução da identidade a partir da origem étnica, seja por via do “chauvinismo”, como em algumas regiões em conflito no mundo, inclusive na Europa; ou de forma “traduzida”, que é aquela que predomina no Brasil, principalmente no caso das populações meridionais de origem europeia ou asiática.

Pardos e mulatos, durante muito tempo, porém, buscaram a simples “assimilação”, assim como os descendentes dos povos indígenas nos centros urbanos, em consequência das políticas de “branqueamento” da população (a partir da segunda metade do século 19) e da carga de preconceito e discriminação raciais que herdamos do regime escravocrata, embora mitigados pela miscigenação.

Entretanto, essa identidade étnica nunca deixou de existir e sempre se manifestou de forma vigorosa — mesmo antes dos movimentos de inclusão dos afrodescendentes e de reconhecimento dos direitos indígenas —, por meio da cultura, principalmente da gastronomia, da dança e da música. Na política, porém, nunca teve grande expressão.

É possível que uma parcela da população mestiça, como diria Darcy Ribeiro, esteja se expressando “epidermicamente” pela via eleitoral — à margem das questões partidárias ou programáticas. Seria esse, como hipótese, o motivo da sobrevivência de Marina Silva, uma ex-seringueira negra, aos duros ataques dos adversários. A cada dia, porém, ela perde terreno para Dilma e Aécio.

Denise Paiva: Fome de verdade

- Gramsci e o Brasil

A chegada da primavera, neste domingo, 21 de setembro, no Rio Janeiro, foi inesperadamente chuvosa, com o poder de nos deter em casa, nos impelindo a ler e refletir. Chamou minha atenção o artigo de Flávia Oliveira, no Globo, ”Valeu, Betinho”, e também a informação da ONU de que o Brasil está excluído do Mapa da Fome. Não consegui deter a “traição dos meus dedos” e toquei alguns telefones. Sim, precisei compartilhar e constatar o sentimento de que há de fato, no Brasil, uma grande fome: a fome de verdade.

Não temos mais aquela realidade que o Presidente Itamar fez questão de divulgar numa histórica reunião ministerial em fevereiro de 1993, através de uma socióloga de carreira, sua conterrânea de Juiz de Fora, chamada Ana Peliano. Tiramos, até com certo receio (eu participei deste trabalho), das prateleiras quase extintas do Ipea um estudo lá existente que passou a se chamar Mapa da Fome, para efeitos de divulgação, tendo sido, posteriormente, adotado pela FAO.

Tal estudo revelou a estimativa de que 32 milhões de brasileiros passavam fome. Esta fome foi debelada, nos últimos 20 anos, por esforço conjunto de governo e sociedade, distribuição de cestas básicas, reforma agrária, Lei Orgânica da Assistência Social, universalização da alimentação escolar, programas de transferência de renda — como bolsa escola, bolsa alimentação e depois bolsa família —, mas especialmente pelo combate à inflação.

Em particular, merece ser assinalada e reconhecida a grande mobilização social chamada Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, liderada pelo Betinho, que teve seu auge e existência vigorosa apenas no governo Itamar, na medida em que o próprio Presidente ordenava a todo o governo, ministérios e empresas públicas, que se engajassem na luta contra a fome e a miséria e assegurava instrumentos e mecanismos necessários para tal.

Todavia, a expressão maior, política e institucional, da politica de combate à fome foi o Consea, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar, instalado em 13 de maio de 1993 com a presença e as bênçãos de Dom Helder Câmara. O Conselho inaugura um modelo inédito de participação, com hegemonia da sociedade civil: 21 personalidades indicadas pelo Movimento pela Ética na Politica, principal protagonista do afastamento do ex-Presidente Collor, se organizaram ao lado de oito ministros de estado.

Foi uma época pungente de percepção da realidade, mudança de paradigmas, quebra de preconceitos, realizações em parcerias, mediação de conflitos. Imaginem o agronegócio, representado por Ney Bittencourt, da Agroceres, ao lado de Plínio Arruda Sampaio. Imaginem CNA, CNC, CNI conversando e definindo pautas comuns com a Contag, MST, CUT. Construímos no governo Itamar, especialmente no âmbito do Consea, um espaço de convivência democrática, respeito às diferenças, explicitação e superação de contradições, espaço que elevou, no início dos anos 1990, o padrão civilizatório do Brasil, a autoestima dos brasileiros, bem como o desejo e a experiência de participar direta e ativamente da construção da cidadania e do futuro do Brasil, embalado no sonho real da participação popular.

Tive a honra e o desafio, por decreto presidencial, de acumular minha função de Assessora de Assuntos Sociais da Presidência da República com a de coordenadora do Consea, ao lado de seu presidente, o incansável e competente bispo católico Dom Mauro Morelli — um ícone na luta pelos direitos humanos e inclusão social na Baixada Fluminense.

Vivi tão intensamente esta experiência que escrevi um livro, Era outra história, contando com o incentivo e o apoio de Itamar para sua realização e lançamento em 2009, na Universidade Federal de Juiz de Fora, por ocasião do aniversário de 15 anos do Plano Real. O livro, editado pela Fundação Astrojildo Pereira, retrata os principais personagens dessa ”aventura democrática” e ainda pode ser encontrado na livraria da referida Universidade.

A figura do Betinho foi central e até muito mais do que simbólica, como alguns preferiam definir. Ele foi, de fato, o que restou como emblema, embora devamos lembrar que alguns faleceram em profunda mágoa, como nosso querido Jamil Haddad, um dos personagens influentes no Consea, como ministro e como parlamentar.

O Governo Itamar, breve e integro, foi para o limbo da história, se não para o lixo da história. Seus feitos não foram atribuídos a ele nem aos seus auxiliares mais próximos, chamados pejorativamente de República do Pão do Queijo ou de “pífios”.

Na verdade, Betinho entra na história, quando a história já tinha um intenso desenrolar. Este desenrolar teve início com a Frente Nacional de Prefeitos, liderada pela então Prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, ainda em novembro de 1992, que traz para o governo propostas concretas e emergenciais de combate à fome e de inclusão social.

Ainda na interinidade, Itamar se contrapôs ao discurso neoliberal da modernidade e indagou: “Que modernidade é esta que produz tanta fome e tanta miséria?”. Fez uma convocação instigante e agregadora pelo impeachment da fome e pela ética nas prioridades das politicas públicas, como proposto por Cristovam Buarque.

Cristovam, então reitor da UnB e depois integrante do Consea, trouxe para nós a experiência do Núcleo de Combate à Fome na UnB, traduzida num jornal em que, em grandes letras, estava escrito: “Fome, vergonha nacional”.

Entretanto, faz-se importante recordar o fato político antecedente mais importante, que se deu ainda em janeiro de 1993: o encontro Itamar e Lula. Este encontro, precedido de alguns percalços, só aconteceu pelo empenho e habilidade política de Pedro Simon, que contou com a colaboração de Eduardo Suplicy. Suplicy, autor da Lei de Renda Mínima, recém-aprovada no Congresso, lutava para que ela se tornasse de fato politica pública governamental de combate à fome.

Naquela histórica reunião, Lula apresentou a Itamar a proposta de combate à fome do governo paralelo do PT, coordenada por José Graziano, hoje na FAO. Itamar, por sua vez, apresentou um documento sobre aquilo que já vinha sendo feito, inclusive com a incorporação das propostas da Frente Nacional de Prefeitos, já em andamento e coordenadas com seu ministério.

Daquela reunião resulta a decisão da elaboração de um Plano de Ação contra a Fome e a Miséria, a ser formulado por um pequeno grupo com representantes do governo e da sociedade, sob a coordenação da ministra do Planejamento Yeda Crusius. Lula indica Betinho como representante da sociedade civil, e Itamar indica minha pessoa. Iniciamos os trabalhos. Betinho indica Dom Mauro Morelli, e eu indico Ana Peliano, coordenadora de Politica Social do Ipea, e Josenilda Caldeira Brant, presidente do Inan (Instituto de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde).

Itamar convida Betinho para presidir o Consea. Betinho alega problemas de saúde e pede apoio para articular e animar a ação da sociedade civil, que Dom Luciano Mendes de Almeida batiza de Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida.

Em 24 de junho de 1993, é lançada oficialmente, em rede nacional de rádio e TV, a Ação da Cidadania. Em horário reservado pela Radiobrás para uma fala do Presidente da Republica, surgem, inédita e inesperadamente, dois representantes da sociedade, Betinho e Dom Mauro, convocando a cidadania brasileira a se engajar na luta contra a fome e a miséria. Tal quebra da liturgia do poder gerou muitas tensões internas e solavancos juntos aos que a defendiam nos próprios desvãos palacianos.

Ações tipicamente de governo; ações em parceria, articuladas e efetivadas pelo Consea; e ações autônomas e suprapartidárias da cidadania, animadas por Betinho com suporte em organizações como Ibase, Fase, Inesc e tantas outras, formaram um tripé, que mereceu o aplauso e se tornou o modelo de intervenção não só para a FAO, mas todos, repito, todos os organismos da ONU, em moção divulgada ao final do mandato de Itamar.

Itamar, o breve, deixa o governo sob um clima de indignação de muitos que desejavam que ele devesse ter buscado a reeleição em função dos altos e inesperados índices de aprovação. Itamar, em pouco tempo, foi reconhecido pelo exemplo de governabilidade sem barganha, lisura, simplicidade, combate à inflação e politicas sociais que colocaram o ordenamento social previsto na Constituição de 1988 na ordem do dia para todos os brasileiros.

Até hoje fico a me indagar: a polarização entre PSDB e PT, que tomou conta do Brasil nos últimos 20 anos, terá jogado a experiência do governo Itamar no limbo da história? Esta polarização insidiosa é que nos mata dia a dia? Esta pergunta eu compartilho com alguns ministros e representantes da sociedade civil partícipes daquela experiência, testemunhas e protagonistas daquele tempo que foi, de fato, um tempo de “Nova Política”. Com eles, a palavra!

Se fomos capazes de enfrentar e debelar a fome de “pão” e a inflação, podemos e devemos debelar a fome de verdade para que não sejamos canibais da nossa própria história!

Rio de Janeiro, 21 de setembro de 2014.
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Denise Paiva é assistente social e ex-Assessora de Assuntos Sociais da Presidência da República no Governo Itamar Franco.

João Bosco Rabello: Marina mais frágil

- O Estado de S. Paulo

A chegada da candidata Dilma Rousseff à casa dos 40% de intenção de votos traz duas indicações que se correlacionam - a vulnerabilidade de Marina Silva ao discurso do despreparo para governar e a consequente necessidade de a candidata do PSB se abrir a um acordo político tradicional no 2.º turno, congelando o tema da "nova política".

Pela pesquisa Datafolha de anteontem, a candidatura Dilma Rousseff foi a beneficiária dos ataques a Marina Silva, o que fica claro com a permanência de Aécio Neves no patamar de 18%. Esses votos, que parecem fiéis ao PSDB, serão decisivos no 2.º turno.

Um dado que reforça a conclusão é o índice de aprovação do governo, que se mantém nos 37%, em contraste com os 10 pontos a mais que Dilma obteve na simulação de 2.º turno. Isso pode significar que houve uma migração de eleitores reconquistáveis que repensaram seu voto em Marina apesar de considerar ruim o governo Dilma.

Apesar do insistente recurso de Aécio Neves à comparação de Marina com o PT, o fato é que o eleitorado de oposição parece convencido de que a ex-senadora é a candidata com mais condições de enfrentar o seu ex-partido.

Por enfrentar, deve-se entender não apenas o combate eleitoral, mas o contexto pós-eleição. A rede de minorias que o ex-presidente Lula organizou ao longo dos 12 anos de poder do PT, dando-lhe organicidade e poder através de ministérios específicos, será acionada pelo partido se for para a oposição.

É de se imaginar a dificuldade do PSDB, em hipotética vitória de Aécio Neves, de conduzir um mandato de ajustes difíceis e impopulares, sob ataque intensivo do PT à frente desses grupos.

Marina Silva teoricamente é blindada ao tipo de ataque que atinge o PSDB. Seria a primeira a conjugar gênero e raça - negra e mulher - na Presidência do País, com uma história de vida muito mais difícil e dramática que a de Lula - ex-seringueira, pobre, migrante, que compõe um perfil de superação invulnerável ao discurso que o PT utiliza historicamente contra o PSDB.

O que falta a Marina - pelo menos é a crítica que o eleitor parece absorver - é a experiência para governar e quadros de elite que assegurem o êxito de seu governo.

Por isso, Marina já deve estar atenta à necessidade de construir alianças com visão realista de que a ponte entre a velha e a nova política impõe uma transição. E, nesse contexto, o apoio do PSDB é imprescindível, não só pelos seus quadros, mas também por ser uma legenda em que a corrupção é pontual e não sistêmica.

O PSDB, nesse momento, já raciocina nessa direção, embora a circunstância eleitoral não permita admitir.

Gaudêncio Torquato: O Brasil que chega ao porto eleitoral

- O Estado de S. Paulo

O Brasil que chega às eleições do próximo dia 5 se assemelha ao navio que chega ao ancoradouro, com instalações precárias, motor quase parando, depois de realizar uma travessia cheia de borrascas no giro por três grandes oceanos. Os passageiros, cansados e famintos, querem desembarcar o mais rápido possível para recuperar as energias e, quem sabe, tentar, mais adiante, embarcar num desses transatlânticos confortáveis, onde poderão viajar por águas mais calmas, viver momentos aprazíveis e ancorar em portos seguros. A longa viagem não foi em vão. Passadas três décadas, o país que se aproxima de um novo pleito presidencial, com desfecho previsto para 26 de outubro, se mostra disposto a fechar um ciclo que pode ser registrado com o selo da "mesmice" e abrir uma era de "efetivas" mudanças.

As aspas no adjetivo objetivam realçar o propósito mudancista clamado pela imensa maioria da população e indicar que, doravante, promessas de candidatos nessa direção não ficarão no papel. Pois a sociedade descobriu "o caminho das pedrinhas" para fazer valer o jogo.

Esse é o primeiro traço do desenho que se faz do gigante que, como se percebe, deixou de dormir em berço esplêndido. O povo nas ruas sinaliza o encontro do cidadão com a pertinência que lhe dá o direito de se achar o legítimo dono do poder. A descoberta não é obra do acaso. Desenvolveu-se ao longo de anos a fio de convivência social com práticas depravadas na política, promessas nunca cumpridas por representantes do povo, escândalos em profusão envolvendo políticos, burocratas e grupos privados e partidos assemelhados em atitudes. O senso crítico ganhou forma, avolumou-se, espraiando-se por um tecido social mais orgânico e agora disposto a cobrar a fatura dos governantes. 

O Brasil apresenta-se hoje como uma sociedade moderna, organizada em núcleos, setores e categorias, alterando, portanto, a antiga feição que flagrava multidões sem direção, contingentes desorganizados, massas amorfas. Explica-se assim a redistribuição do poder, saindo do centro para as margens, da esfera institucional em direção aos novos polos de força que se multiplicam no território. São essas as alavancas das mudanças.

A descrença na política e em seus atores, expandida na esteira de escândalos, sinaliza a emergência de outros fenômenos, como a fragmentação partidária, o fim da polarização entre PT e PSDB e a inviabilidade de projetos de hegemonia. A pulverização partidária chegará ao ápice na próxima legislatura, quando no Senado, por exemplo, 18 legendas se farão representar (hoje são 16), o maior número de toda a História. Já na Câmara dos Deputados, pesquisas apontam para a presença de 28 legendas (hoje são 22) e uma renovação que pode chegar a 50% - em 2010 foi de 44%. Essa dispersão torna mais difícil a meta de grandes partidos de se sentarem no trono da hegemonia, tornando-os cada vez mais peças do jogo de parcerias.

A polarização entre tucanos e petistas, que se desenvolveu ao longo das últimas duas décadas, indica cansaço. Só em Mato Grosso do Sul e Minas Gerais se vê ainda um debate entre os nomes dos dois partidos. Como se pode aduzir, esses fenômenos sugerem maior repartição de poder entre os entes, esforço redobrado na estratégia de formação de coalizões e, por conseguinte, maior sujeição do Executivo ao espectro partidário.

Que outros matizes se fixam no mapa do Brasil eleitoral? Seria possível afirmar, por exemplo, que o País está dividido?

Sob o prisma aritmético, levando em consideração as preferências eleitorais entre candidatos, a resposta é positiva. Tal divisão aponta, de um lado, para a substituição e, de outro, para a continuidade do mandatário-mor da Nação. Mas, como já se disse, a ampla maioria da população concorda com a necessidade de mudanças na gestão e na política, seja com a candidata à reeleição, Dilma Rousseff, seja com os opositores Marina Silva (PSB)ou Aécio Neves, tucano. Não se pode negar, porém, que os ânimos estão acirrados também em função do recorrente discurso do PT, que teima em separar os habitantes do território em "nós" e "eles", na defesa do apartheid que azeda relações de grupos e classes. A situação agrava-se quando o PT, teimando em se dizer inocente, se torna fonte central de casos de corrupção. Não é por outra razão que o PT, mesmo que ganhe de novo a cadeira maior do Palácio do Planalto, não terá a força de outrora. Construiu uma imagem que se esboroou, perdeu coerência ideológica, abriu querelas internas e perdeu entusiasmo das bases, tornando-se sigla identificada com desmandos e desvios.

Também o PSDB, mesmo continuando à frente de Estados importantes, como São Paulo, terá uma fatia menor no bolo do poder, perdendo envergadura. Trata-se também de partido desgastado, porque não soube canalizar forças em seu papel de oposição ao governo federal.

O conjunto de fenômenos que marcam a atual quadra política se completa com uma leve guinada conservadora. Seria exagero defender a hipótese de que o País faz uma curva forte à direita. Mas é possível divisar tênue marca conservadora a partir de um PT empacotado na pasteurização, apesar de manter o bolorento discurso de luta de classes, sempre brandido por Lula. O exemplo e o discurso do partido dão empuxo a uma onda contrária. Sob outro ângulo, o próprio perfil da candidata do PSB parece ser um corpo estranho ao hábitat da sigla. Marina, evangélica, defende posições duras em matérias que ferem postulados da fé religiosa (ou batem no intocável e sagrado templo ambientalista), ganhando de críticos o epíteto de fundamentalista, expressão próxima do conservadorismo.

Este é o Brasil sociopolítico que aporta no ancoradouro das eleições. Sem mudar o casco o velho navio não suportará novo e longo trajeto. O próximo comandante, seja quem for, terá de levá-lo ao estaleiro para fazer nele uma boa reforma e garantir aos passageiros uma viagem sem sustos.

Miriam Leitão: História e marketing

- O Globo

Ninguém tira do governo do PT o mérito do Bolsa Família, a universalização de uma renda básica para os mais pobres. Ninguém tira do PSDB a estabilização da economia, passo fundamental que tornou outros avanços possíveis. Ninguém tira de Marina Silva ter revertido a curva de desmatamento com instrumentos que fizeram efeito mesmo depois de sua saída do governo.

A ação dos marqueteiros embaralha tudo e faz uma simplificação grosseira do que se passou no país. Justiça seja feita, o marketing da candidata à reeleição tem sido o mais lesivo à compreensão do que há de verdade nas transformações do Brasil nos últimos anos e de quais são os novos riscos. A sociedade brasileira fez escolhas civilizatórias, e as travessias foram conduzidas por líderes diferentes, cada um em uma etapa do processo.

O passo sem o qual outros passos não seriam possíveis foi a vitória sobre a hiperinflação, em 1994, no governo Itamar Franco. Naquele momento, foi o PSDB que atendeu ao chamado do vice-presidente que assumia em situação de caos econômico e desmonte da base parlamentar montada pelo presidente que caíra. Itamar quis fazer um governo de união nacional, mas o PT foi contra. Luiza Erundina que o diga, suspensa, e depois tendo que sair do partido por integrar o governo que garantiu a governabilidade em momento de extremo risco.

Foi Fernando Henrique, como se sabe, que convocou, mobilizou e liderou os economistas que deram a mais importante contribuição para a organização da economia brasileira das últimas décadas; que conseguiu limpar entulhos econômicos deixados pela ditadura, como a superindexação da economia. Foi após o real que os governantes, as famílias e as firmas puderam se organizar. Com a inflação descontrolada, o país andava em zigue-zague num nevoeiro.

O PT foi contra tudo aquilo que se fez para modernizar o país: o Plano Real, o saneamento dos bancos através do Proer, a Lei de Responsabilidade Fiscal, a privatização de empresas e as concessões, o sistema de metas de inflação. Foi até contra o Fundef e o início do sistema de avaliação da educação implantado pelo então ministro Paulo Renato. Isso é história do Brasil. Está registrado nos anais políticos do país.

No poder, como todos sabem, o PT adotou parte do programa que repudiou. Manteve de início as bases da estabilização, que hoje mina com erros sucessivos. Transformou o Fundef em Fundeb, mudou os sistemas de avaliação da educação e hoje atribui a si a existência dos indicadores. Paulo Renato, quando iniciou seu projeto de testar a qualidade da educação, enquanto universalizava o ensino fundamental, foi combatido pela então oposição.

Os projetos de Bolsa Escola foram importantes como testes de políticas públicas, mas a amplitude que ele assumiu através do Bolsa Família foi uma política implantada pelo PT. Há correções a fazer, nenhuma política pode ficar estagnada, mas ela criou a grande rede de resgate dos pobres e extremamente pobres do Brasil. O PT ouviu o clamor da sociedade - que começou com Betinho, como bem lembrou Flávia Oliveira - de ter vergonha de ser um país com tantas riquezas e tantos pobres. O Bolsa Família nem sempre foi entendido pela elite, mas essa política pública nos levou a novo patamar de respeito ao cidadão. A queda dos pobres e miseráveis começou após o real, mas ganhou velocidade com as novas políticas sociais. Só a educação pública de qualidade, no entanto, nos levará ao futuro almejado de sólido desenvolvimento social.

Quando Marina Silva assumiu o Ministério do Meio Ambiente, a devastação do nosso maior bioma era dramática. Avanços haviam ocorrido no governo de Fernando Henrique, em ações que Marina apoiou mesmo sendo oposição. Foi, no entanto, a capacidade dela no Ministério de mobilizar esforços de uma infinidade de atores que queriam combater o desmatamento, e as decisões que tomou, que mudaram o quadro da floresta. O Brasil também tinha se envergonhado de tanto desmatamento e foi ela a líder que conduziu o país neste processo ainda inconcluso.

O fato é que o Brasil avançou na democracia por força de líderes diferentes. Há riscos, distorções e novas urgências. Quando a eleição passar, talvez haja espaço para um balanço racional do que conquistamos e, mais importante, do que falta fazer.

Zander Navarro, Eliseu Alves: A ebulição econômica das regiões rurais

- O Estado de S. Paulo

Entre 1940 e 1980 os Estados Unidos perderam 61% dos seus imóveis rurais, pois as famílias migraram para as cidades. Em uma geração tudo mudou, emergindo a agricultura mais poderosa do mundo, embora produzindo num interior esvaziado. Ainda que a população rural residente seja maior, menos de 2% trabalham diretamente nas atividades agrícolas. A literatura intitulou aqueles anos de "a grande transformação". Contudo ninguém bradou contra essa fuga populacional, sendo mudança espacial que quase passou despercebida.

No Brasil, é preciso alertar o novo governo que surgirá das urnas para as profundas transformações rurais em curso, pois as similaridades com o caso estadunidense são nítidas. Três grandes processos reconfiguram o campo em nossos dias, repetindo a história rural daquele país.

Primeiramente, chegamos à fase financeira de um ciclo de modernização da produção, cujas raízes foram lançadas no final dos anos 1960. A atividade agropecuária saltou para um nível financeiro bem mais elevado, em função dos investimentos necessários. Em segundo lugar, ampliam-se as inovações em todo o sistema agroindustrial, introduzindo impressionante densidade tecnológica nas operações produtivas, além de inúmeras mudanças organizacionais. Se não incorporar essas inovações, também o produtor se arrisca a perder o seu lugar.

O terceiro vetor ativa dramáticas implicações sociais: ante os impactos decorrentes do acirramento concorrencial, está em operação um inédito processo seletivo, e os produtores despreparados estão sendo rapidamente alijados.

Tudo somado, interpretar o atual desenvolvimento agrário e agrícola tornou-se um grande desafio. E para a vasta maioria das famílias rurais surgiu um ameaçador mundo novo de espantosa complexidade.

Não surpreende, portanto, que quase todos os mitos do passado estejam sendo demolidos pela crueza dos fatos e, cada vez mais, os processos econômicos e financeiros estejam encurralando os produtores de menor porte. Não é fenômeno apenas nosso: praticamente 90% do total da produção, em valor, se originou em apenas 12% a 14% dos estabelecimentos, no Brasil e nos Estados Unidos, mas também na União Europeia dos atuais 27 países que a formam. Ou seja, a forte concentração da produção agropecuária é apanágio do capitalismo avançado. No caso brasileiro, metade do valor da produção decorre de apenas 27 mil estabelecimentos, de um total de 4,4 milhões!

É por isso que um estudo recente demonstrou que a agricultura familiar responde, de fato, por apenas 22% do total dos alimentos produzidos.

A extrema assimetria de resultados econômicos decorre do também desigual acesso à melhor tecnologia existente, sendo essa uma faceta que se espalha por todo o território. São tendências que pressionam os produtores mais pobres, mais descapitalizados e com escassos recursos, os quais se tornaram demasiadamente frágeis para se integrarem às cadeias agroindustriais e são presas fáceis das imperfeições dos mercados. Sob este contexto, ao contrário do passado, o acesso à terra tornou-se variável menor, pois outros recursos têm sido mais decisivos.

Tome-se o caso do semiárido nordestino. É bioma que engloba 9 Estados e 1.134 municípios, habitado por pouco mais de 21 milhões de brasileiros em 2010. A população rural, mesmo sob o sol cada vez mais inclemente, é ainda de quase 40% do total, mas vai também caindo - nos últimos 20 anos 1,2 milhão de pessoas deixaram o campo.

As famílias tornaram-se envelhecidas e vivem especialmente de transferências sociais e das aposentadorias rurais.

A análise dos dados censitários mostra que hoje o fator terra é marginal, pois a principal característica no mundo rural do semiárido é a pobreza generalizada, até entre os moradores dos estabelecimentos de maior tamanho. O que faz a diferença é o acesso à água, pois uma seca destrói com a renda do ano. Já a seca prolongada liquida o patrimônio acumulado em animais, que vão sendo vendidos, e, assim, qualquer iniciativa de reconstrução produtiva se torna quase impossível.

Por isso o semiárido irrigado dedicado à fruticultura é um caso de sucesso na agricultura brasileira. Promove a prosperidade das cidades vizinhas, emprega mais de 1 milhão de pessoas somente nas atividades agrícolas e está consolidado. O que falta é uma ação ousada na ampliação dos sistemas de irrigação. Atualmente, aproximados 150 mil hectares estariam com suas obras "em andamento", mas com conclusão sempre adiada.

São evidências e contextos que comprovam o sufocamento econômico e financeiro da vasta maioria dos pequenos estabelecimentos rurais e, por decorrência, a falência da ação governamental a eles dirigida. Desde a criação de programas específicos de financiamento para os pequenos produtores, em 1995, os resultados têm sido magros e insuficientes, realçando a necessidade de mudanças na forma como o Estado brasileiro interpreta o desenvolvimento agrário e formula suas políticas. É urgente um cardápio de ações mais inteligentes, que garantam maiores chances de sobrevivência a quase 3 milhões de estabelecimentos rurais (66% do total), cuja renda bruta média mensal não passa de meio salário mínimo. São famílias rurais condenadas à desistência, sem mudanças urgentes na política governamental.

Ao contrário dos Estados Unidos, a nossa "grande transformação" não está articulada a um período de expansão da economia, nem vem propiciando empregos urbanos de qualidade à enorme população que vai abandonando as regiões rurais. Mas é transição que se associará à inacreditável concentração da riqueza que vai fincando suas raízes no vasto interior do País. Por que não somos capazes de discutir essas tendências com grandeza de espírito, desprendimento político e pluralidade analítica?

*Zander Navarro e Eliseu Alves são pesquisadores da Embrapa (Eliseu foi presidente da empresa de 1979 a 1984).

Adriana Calcanhotto - Mais Perfumado


Charles Baudelaire: Perfume Exótico

Quando eu a dormitar, num íntimo abandono,
Respiro o doce olor do teu colo abrasante,
Vejo desenrolar paisagem deslumbrante
Na auréola de luz d'um triste sol de outono;

Um éden terreal, uma indolente ilha
Com plantas tropicais e frutos saborosos;
Onde há homens gentis, fortes e vigorosos,
E mulher's cujo olhar honesto maravilha.

Conduz-me o teu perfume às paragens mais belas;
Vejo um porto ideal cheio de caravelas
Vindas de percorrer países estrangeiros;

E o perfume subtil do verde tamarindo,
Que circula no ar e que eu vou exaurindo,
Vem juntar-se em minh'alma à voz dos marinheiros.

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"