sábado, 3 de outubro de 2026

Eleição diferente, por José Casado

Revista Veja  

Reta final com guerrilha religiosa no palanque e esgrima de vaidades no STF

É uma eleição diferente. Delineia o fim de um ciclo com a despedida da geração que se mantém hegemônica na política desde o fim da ditadura.

Dois candidatos encarnam esse epílogo: Lula, 80 anos, e Ronaldo Caiado, 77 anos, ajudaram a fazer a Constituição (1988), disputaram a primeira presidencial com voto direto (1989) e estão aí nas urnas, de novo, quase quatro décadas depois.

O sujeito oculto desta eleição é Jair Bolsonaro, 71 anos. Ele ascendeu na política cultuando o saudosismo do regime militar, que o renegara no Exército. Está inelegível e condenado à prisão até os 97 anos de idade, porque tentou construir a própria ditadura depois de ter perdido a reeleição para Lula (2022).

Uma das peculiaridades desse processo eleitoral é o desalento desenhado em diferentes pesquisas nos últimos doze meses. Predomina um clima de apatia que, talvez, tenha origem na longa transição geracional, onde a permanência do antigo limita ou simplesmente impede a emergência do novo aos olhos dos 158 milhões de eleitores.

Lula e Jair Bolsonaro conduziram o país a uma armadilha, resumiu Marcus André Melo, professor da Universidade Federal de Pernambuco: “Quanto maior a rejeição a cada um dos polos, mais necessário o outro parece aos seus seguidores. O desgaste não os expulsa do jogo; torna-os reciprocamente indispensáveis. A competição democrática deixou de produzir renovação.”

Favoritos nas pesquisas sobre a votação de domingo (4/10), Lula e Flávio Bolsonaro, o candidato escolhido pelo ex-presidente, resolveram empurrar o Estado laico para um conflito religioso de palanque. Chegaram à reta final da eleição devotados à manipulação eleitoreira de símbolos religiosos, apenas para reafirmar a velha ciranda de repúdio ao adversário — votar em Lula para impedir Bolsonaro, votar em Bolsonaro para impedir Lula. Essa discussão bizantina sobre o padroado nacional de Nossa Senhora Aparecida, celebrado há 309 anos pelos católicos, revela muito sobre os desertos de ideias em que foram plantadas as duas candidaturas presidenciais.

Outra singularidade é a transformação de Brasília numa usina de insegurança institucional.

“Reta final com guerrilha religiosa no palanque e esgrima de vaidades no STF”

Quem deveria proteger a estabilidade criou inédita instabilidade. A sentença judicial de hoje, baseada em leis aplicadas a situações similares no passado, tem grande chance de ser revogada amanhã e reformada outra vez na semana seguinte — e assim, sucessivamente… Vale no STF e, também, nos demais tribunais cujas decisões estão sujeitas a revisão no Supremo.

Juízes de tribunais superiores são políticos vestidos de toga, mas é anômala a presença deles na paisagem política nacional dando motivos para se duvidar da estabilidade institucional. Parte do Supremo resolveu aderir à guerrilha religiosa estimulada por Lula e Flávio Bolsonaro na reta final das eleições apenas porque viu nela bom pretexto para o acirramento da crise interna.

Há nove meses o conflito consome o STF, inflamado pelas revelações sobre envolvimento de alguns dos juízes e familiares em estranhas transações com o Banco Master. O antigo dono do banco, Daniel Vorcaro, completou seis meses de prisão preventiva por fraudes bilionárias no mercado financeiro. O relator do caso, juiz André Mendonça, pediu ao tribunal para decidir se vai investigar o juiz Alexandre de Moraes. Motivo: a banca da família Moraes manteve um contrato de 131 milhões de reais em serviços de advocacia ao ex-banqueiro Vorcaro enquanto o Master afundava nas próprias maracutaias. A resolução do caso talvez aconteça depois do segundo turno eleitoral.

Teólogo, pastor e indicado por Jair Bolsonaro ao STF sob a justificativa de que é “terrivelmente evangélico”, Mendonça se tornou alvo preferencial dos juízes aliados a Moraes, entre eles Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin.

Vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral, na semana passada ele proibiu publicações em redes sociais que associavam o candidato Flávio Bolsonaro a um bizarro movimento para retirada do título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. A decisão de Mendonça foi revisada no STF, numa suposta interferência indevida na autonomia da Justiça Eleitoral.

A esgrima de vaidades entre juízes do Supremo produziu uma crise de consequências imprevisíveis, condimentada por ameaças ao Estado laico. É a autofagia da toga.

Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015

Nenhum comentário: