O Globo
O presidente tem dado sinais de que está
disposto a descer aos pântanos da política para buscar os votos de que precisa
Em abril, o presidente Lula dizia não ter certeza se disputaria a reeleição. No fim daquele mês, seu ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, foi autorizado a testar potenciais substitutos em pesquisas. O entorno do presidente descrevia seu estado de alma: de forma alguma Lula encerraria a biografia com uma derrota para o filho de Jair Bolsonaro. Naquele momento, Flávio Bolsonaro — que havia tirado de campo a candidatura Tarcísio de Freitas, ao ser ungido em dezembro candidato a presidente pelo pai — surpreendia com o crescimento nas pesquisas, tecnicamente empatado com Lula nos dois turnos.
Seis meses e muitos escândalos depois — além
de uma fieira de programas e bondades do governo —, o Datafolha mostrou na
quinta-feira um novo empate técnico entre Lula e Flávio no segundo turno e uma
vantagem reduzida do presidente no primeiro. Desde sua primeira vitória, em
2002, o petista nunca chegou às portas da eleição com tão pouca folga. Naquele
ano, a poucos dias da votação, Lula estava a olímpicos 24 pontos à frente de José Serra;
em 2006, confortáveis 16 à frente de Geraldo
Alckmin; em 2022, tinha 14 sobre Jair Bolsonaro. Agora, são minguados 4
pontos sobre Flávio, em votos totais. Na disputa por seu quarto mandato, Lula
chega à boca da urna menor do que nunca.
A situação não pode ser atribuída à estatura
do adversário. Flávio é um político de segundo escalão que o sobrenome promoveu
a presidenciável. Seu currículo é modesto nos feitos e pródigo nas suspeitas:
de rachadinhas na Assembleia do Rio a lucros inconvincentes numa loja de
chocolates e amizades com milicianos e matadores de aluguel. Desde o governo do
pai, acrescentou à lista a compra de uma mansão no Lago Sul em Brasília, de
valor aparentemente incompatível com seus ganhos, e um pedido de R$ 134 milhões
ao ex-banqueiro e atual presidiário Daniel Vorcaro, o “irmão” universal da
República.
Não existe grandeza no adversário, mas uma
redução do mito Lula — na cédula pela sétima eleição presidencial, das dez
realizadas desde a redemocratização. Pesquisas qualitativas da Quaest feitas
com eleitores independentes que votaram em Lula em 2022 revelam perda de
empolgação com o petista e desejo de renovação. Nos levantamentos
quantitativos, tanto da Quaest quanto do instituto Ideia, mais da metade dos
entrevistados diz considerar que o presidente não merece outro mandato. O
próprio PT
reconhece: o maior adversário de Lula é o desejo de mudança de eleitores que
veem no presidente o símbolo da continuidade.
Premido por um aperto eleitoral nunca antes
experimentado desde 2002, Lula tem dado sinais de que está disposto a descer
aos pântanos da política para buscar os votos de que precisa para vencer. Em
entrevista ao Canal Livre, disse, sem constrangimento, ter dúvidas se era mesmo
falsa a falsa notícia de que Flávio retiraria de Nossa Senhora Aparecida o
título de padroeira do Brasil. Seguiu em comícios explorando a mentira já
desmentida, mesmo ao custo de jogar católicos contra evangélicos. Anteontem,
sua campanha pediu ao TSE
que o eleitor não pudesse ver na TV o lugar que ele deixou vazio no debate a
que escolheu não comparecer.
A decisão da juíza Estela Aranha, indicada
por Lula, de suspender uma regra que a própria campanha petista havia aceitado
entrou para o rol dos casuísmos que ameaçam a legitimidade das Cortes e promete
deixar sequelas para muito além do debate cancelado.
Com um provável segundo turno pela frente,
Lula ainda terá de decidir até onde aceita ir para vencer o filho de Bolsonaro.
Em abril, temia apequenar a biografia com uma derrota. Corre o risco de obter o
mesmo resultado com uma vitória.

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