sábado, 3 de outubro de 2026

Nenhuma hipótese é absurda, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

É tão urgente preocupar-se com o risco de interferência estrangeira no processo eleitoral quanto seria alarmar-se com a interferência interna – intervenção tocada por ministros do Supremo – que se desenvolve, concretamente, já.

Atenção à blitz autoritária – para minar a confiança no TSE – imposta por quem, na eleição passada, fora defensor-mor da Corte Eleitoral, em função de cuja proteção chancelou-se toda sorte de arreganho censor. Era defesa do TSE mesmo, ou do monopólio sobre o instrumental xandônico por meio do qual, em nome de salvar a democracia, exercia-se o poder?

(A censura que André Mendonça baixou contra o humorista Tabet, e que estenderia por arrastamento a outras centenas de publicações, tinha fundamento na jurisprudência do TSE legada por Xandão.)

Era defesa mesmo do TSE, ou do ferramental que beneficiaria um candidato?

Fosse 2022, Alexandre de Moraes presidente do TSE, e fossem Nunes Marques e André Mendonça a investir – nos termos correntes de Gilmar Mendes e Flávio Dino – contra a legitimidade do tribunal, já estariam ambos metidos no inquérito das fake news.

Em 2026, Xandão no time, investem contra a credibilidade do comando da Justiça Eleitoral – investem contra a credibilidade da Justiça Eleitoral – como forma de constituir um TSE paralelo. Obra da bancada do STF que, quatro anos atrás, criminalizava a crítica (ataque!) ao tribunal, para cuja blindagem criou e aplicou um arsenal de censuras.

Dino acaba de fundar um inquérito de natureza xandônica, com vocação à eternidade, em que tudo caberá. De ofício, ordenou à PF que investigue uma tal onda de ataques a imagens religiosas. Onda inexistente, inventada para influir no voto. Onda forjada – forjada uma guerra medieval entre católicos e protestantes – de modo a fazer ecoar a mentira de que um candidato apoiaria a destituição da padroeira do Brasil.

Foi nessa mesma Reclamação transtornada que Dino se fez juízo universal para seus partidários que queiram escolher o próprio juiz. Está valendo tudo. Ou não teria Gilmar Mendes pervertido outra Reclamação – sem qualquer relação com o tema – a que o dono do Solidariedade peticionasse para que candidato a presidente de outro partido participasse de debate. Gilmar reconheceu que a forma era errada – e, dane-se, acolheu o vício e mandou que Renan Santos tivesse lugar no evento.

Todo mundo sabia que Flávio Bolsonaro era fujão e não debateria com o adversário do Missão. Um presente para Lula. Renan servindo de escada também a que derrubasse decisão daquele a quem quer derrubar: Nunes Marques.

Todos somos informados sobre o que, derrotado Flávio, poderia ser a reação bolsonarista, aditivada ainda pelo rondar da intervenção trumpista. Será também o caso de refletir sobre se o sistema gilmarmendista aceitaria a vitória de Bolsonaro. 

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