O Estado de S. Paulo
É tão urgente preocupar-se com o risco de interferência estrangeira no processo eleitoral quanto seria alarmar-se com a interferência interna – intervenção tocada por ministros do Supremo – que se desenvolve, concretamente, já.
Atenção à blitz autoritária – para minar a confiança no TSE – imposta por quem, na eleição passada, fora defensor-mor da Corte Eleitoral, em função de cuja proteção chancelou-se toda sorte de arreganho censor. Era defesa do TSE mesmo, ou do monopólio sobre o instrumental xandônico por meio do qual, em nome de salvar a democracia, exercia-se o poder?
(A censura que André Mendonça baixou contra o
humorista Tabet, e que estenderia por arrastamento a outras centenas de
publicações, tinha fundamento na jurisprudência do TSE legada por Xandão.)
Era defesa mesmo do TSE, ou do ferramental
que beneficiaria um candidato?
Fosse 2022, Alexandre de Moraes presidente do
TSE, e fossem Nunes Marques e André Mendonça a investir – nos termos correntes
de Gilmar Mendes e Flávio Dino – contra a legitimidade do tribunal, já estariam
ambos metidos no inquérito das fake news.
Em 2026, Xandão no time, investem contra a
credibilidade do comando da Justiça Eleitoral – investem contra a credibilidade
da Justiça Eleitoral – como forma de constituir um TSE paralelo. Obra da
bancada do STF que, quatro anos atrás, criminalizava a crítica (ataque!) ao
tribunal, para cuja blindagem criou e aplicou um arsenal de censuras.
Dino acaba de fundar um inquérito de natureza
xandônica, com vocação à eternidade, em que tudo caberá. De ofício, ordenou à
PF que investigue uma tal onda de ataques a imagens religiosas. Onda
inexistente, inventada para influir no voto. Onda forjada – forjada uma guerra
medieval entre católicos e protestantes – de modo a fazer ecoar a mentira de
que um candidato apoiaria a destituição da padroeira do Brasil.
Foi nessa mesma Reclamação transtornada que
Dino se fez juízo universal para seus partidários que queiram escolher o
próprio juiz. Está valendo tudo. Ou não teria Gilmar Mendes pervertido outra
Reclamação – sem qualquer relação com o tema – a que o dono do Solidariedade
peticionasse para que candidato a presidente de outro partido participasse de
debate. Gilmar reconheceu que a forma era errada – e, dane-se, acolheu o vício
e mandou que Renan Santos tivesse lugar no evento.
Todo mundo sabia que Flávio Bolsonaro era
fujão e não debateria com o adversário do Missão. Um presente para Lula. Renan
servindo de escada também a que derrubasse decisão daquele a quem quer
derrubar: Nunes Marques.
Todos somos informados sobre o que, derrotado Flávio, poderia ser a reação bolsonarista, aditivada ainda pelo rondar da intervenção trumpista. Será também o caso de refletir sobre se o sistema gilmarmendista aceitaria a vitória de Bolsonaro.

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