Folha de S. Paulo
Filho 01 fugiu ao debate para não ter de
enfrentar a fúria de Renan Santos
Campanha presidencial de 2026 mistura cansaço
e descrédito
Um espetáculo caricato, desmoralizado pelos
próprios participantes e não raro violento. Com a concorrência dos discursos
sedutores e mentirosos veiculados nas redes e aplicativos e o domínio do
marketing sobre as propostas de governo, os debates eleitorais na televisão
estão em xeque.
Desde 2002 nenhum pleito presidencial havia registrado menos de três encontros na primeira rodada. Neste ano houve apenas um, o da Band, em agosto, transcorrido num clima melancólico: três homens tristes falando ao vento. O da Globo nem isso. Cancelado à última hora, após a desistência de Flávio Bolsonaro, entra na categoria de mico histórico.
Com a ausência já anunciada de Lula —deu
entrevista no mesmo horário com 10 milhões de visualizações no podcast Flow,
fenômeno da internet cuja audiência é predominantemente de jovens das classes B
e C—, o filho 01 estava diante de um cenário de sonho.
Ao lado de três satélites —Caiado,
Zema
e Cury—, preparou-se para massacrar o petista. Divulgada duas horas antes, a
pesquisa Datafolha
favorável a Lula fez com que Flávio repensasse a estratégia. Sem impacto
eleitoral expressivo, ele teria mais a perder ao enfrentar Renan Santos,
autorizado a participar do debate e a perguntar sobre os milhões de Vorcaro, as
orgias, a ligação com milícias, o entreguismo aos EUA.
Para justificar a fuga, o 01 culpou a decisão
da ministra do TSE
Estela Aranha, que determinou à Globo a retirada do púlpito vazio com o nome de
Lula. Ao estilo bolsonarista, aproveitou para fomentar o golpismo, pedindo
"eleições
limpas". Um caso raro de "censura" em que o
"censurado" poderia dizer tudo o que quisesse, mas preferiu calar-se.
O debate não ajuda mais o eleitor a tomar uma
decisão. O maior problema, contudo, não é o meio, mas a mensagem. A campanha de
2026 mistura cansaço e descrédito. Os dois líderes nas pesquisas têm altíssimo
rechaço e temem uma abstenção recorde.
No mano a mano do segundo turno, a televisão
até pode ter uma sobrevida. Quem sabe alguém desmaia diante das câmeras?
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