sábado, 21 de fevereiro de 2015

FHC rebate Dilma e diz que ela 'encobre suas responsabilidades'

• Ex-presidente lembrou da polêmica compra da refinaria de Pasadena e disse que lamenta o caráter 'de tsunami que a corrupção tomou' na Petrobrás

Carla Araújo - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) rebateu as afirmações da presidente Dilma Rousseff de que se os escândalos de corrupção na Petrobrás tivessem sido investigados durante a gestão de FHC alguns dos funcionários corruptos não estariam mais praticando atos ilícitos.

"A Excelentíssima Presidente da República deveria ter mais cuidado. Em vez de tentar encobrir suas responsabilidades, jogando-as sobre mim, que nada tenho a ver com o caso, ela deveria fazer um exame de consciência. Poderia começar reconhecendo que foi no mínimo descuidada ao aprovar a compra da refinaria de Pasadena e aguardar com maior serenidade que se apurem as acusações que pesam sobre o seu governo e de seu antecessor", afirmou o tucano, em nota.

FHC disse ainda que lamenta o caráter "de tsunami que a corrupção tomou no caso do "Petrolão" e que espera o pronunciamento da Justiça e o resultado das investigações para dar opiniões sobre possíveis culpados. O tucano disse, no entanto, que se sente "forçado" a reagir uma vez que "a própria Presidente entrou na campanha de propaganda defensiva, aceitando a tática infamante da velha anedota do punguista que mete a mão no bolso da vitima, rouba e sai gritando "pega ladrão"!", escreveu.

O tucano lembra ainda as declarações do ex-gerente de Serviços da Petrobrás Pedro Barusco que admitiu, em delação premiada, que desde o governo FHC há corrupção na estatal e ainda revelou que houve uma transferência de US$ 200 milhões de recursos desviados da Petrobrás para o Partido dos Trabalhadores. O PT nega.

Para FHC, o delator foi explícito em suas declarações à Justiça. "Disse que a propina recebida antes de 2004 foi obtida em acordo direto entre ele e seu corruptor; somente a partir do governo Lula a corrupção, diz ele, se tornou sistemática", afirma FHC. "Como alguém sério pode responsabilizar meu governo pela conduta imprópria individual de um funcionário se nenhuma denúncia foi feita na época?", questiona.

O ex-presidente rebate ainda as declarações de Dilma que "quem praticou malfeitos foram funcionários da Petrobras, que vão ter de pagar por isso". Para FHC, "não se trata de desvios de conduta individuais de funcionários da Petrobras, nem são eles, empregados, em sua maioria, os responsáveis".

"Trata-se de um processo sistemático que envolve os governos da Presidente Dilma (que ademais foi presidente do Conselho de Administração da empresa e Ministra de Minas e Energia) e do ex- presidente Lula", destaca o tucano, citando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Foram eles ou seus representantes na Petrobrás que nomearam os diretores da empresa ora acusados de, em conluio com empreiteiras e, no caso do PT, com o tesoureiro do partido, de desviar recursos em benefício próprio ou para cofres partidários", completou.

Leia a íntegra da nota:

"Até agora, salvo lamentar o caráter de tsunami que a corrupção tomou no caso do "Petrolão", não adiantei opiniões sobre culpados ou responsáveis, à espera do resultado das investigações e do pronunciamento da Justiça. Uma vez que a própria Presidente entrou na campanha de propaganda defensiva, aceitando a tática infamante da velha anedota do punguista que mete a mão no bolso da vitima, rouba e sai gritando "pega ladrão"!", sou forçado a reagir.

1. O delator a quem a Presidente se referiu foi explícito em suas declarações à Justiça. Disse que a propina recebida antes de 2004 foi obtida em acordo direto entre ele e seu corruptor; somente a partir do governo Lula a corrupção, diz ele, se tornou sistemática. Como alguém sério pode responsabilizar meu governo pela conduta imprópria individual de um funcionário se nenhuma denúncia foi feita na época?

2. do mesmo modo, a delação do empreiteiro da Setal Engenharia reafirma que o cartel só se efetivou a partir do governo Lula.

3. no caso do "Petrolão" não se trata de desvios de conduta individuais de funcionários da Petrobras, nem são eles, empregados, em sua maioria, os responsáveis. Trata-se de um processo sistemático que envolve os governos da Presidente Dilma (que ademais foi presidente do Conselho de Administração da empresa e Ministra de Minas e Energia) e do ex- presidente Lula. Foram eles ou seus representantes na Petrobras que nomearam os diretores da empresa ora acusados de, em conluio com empreiteiras e, no caso do PT, com o tesoureiro do partido, de desviar recursos em benefício próprio ou para cofres partidários.

4. diante disso, a Excelentíssima Presidente da Republica deveria ter mais cuidado. Em vez de tentar encobrir suas responsabilidades, jogando-as sobre mim, que nada tenho a ver com o caso, ela deveria fazer um exame de consciência. Poderia começar reconhecendo que foi no mínimo descuidada ao aprovar a compra da refinaria de Pasadena e aguardar com maior serenidade que se apurem as acusações que pesam sobre o seu governo e de seu antecessor."

Diretoria que era cota do PT na Petrobrás arrecadou R$ 640 mi em propina, diz Lava Jato

• Cinco ações por improbidade apontam que área de Serviços da estatal recebeu 2% de valor de contratos da Diretoria de Abastecimento, sob controle do PP.

Fausto Macedo, Ricardo Brandt e Julia Affonso – O Estado de S. Paulo

O valor pago em propina para a Diretoria de Serviços da Petrobrás – cota do PT no esquema de corrupção desbaratado pela Operação Lava Jato - em contratos que eram da área de Abastecimento alcançou R$ 640 milhões. É o que aponta o primeiro pacote de cinco ações cíveis por improbidade administrativa ajuizado contra seis empreiteiras do cartel e 28 executivos. As ações foram apresentadas nesta sexta-feira, 20, à Justiça pelo Ministério Público Federal. A Procuradoria da República cobra das empreiteiras R$ 4,47 bilhões por prejuízos causados à estatal petrolífera.

Ao todo, as ações revelam que houve pagamento de propina de R$ 960 milhões para agentes públicos da Petrobrás em 33 contratos assinados pelo ex-diretor Paulo Roberto Costa, na Diretoria de Abastecimento. Como o primeiro pacote de ações cíveis engloba apenas a cobrança pelos desvios gerados a partir de contratos assinados pela Diretoria de Abastecimento – cota do PP no esquema -, as ações do Ministério Público Federal consideraram a propina que dizia respeito ao 1% que o partido tinha direito no esquema. Outros 2% eram arrecadados pela Diretoria de Serviços, cota do PT.

“Se fossem considerados os 2% de propina vinculados à Diretoria de Serviços, os quais serão objeto de ação própria, o valor total da propina chegaria a aproximadamente R$ 212 milhões”, informa, por exemplo, a ação de improbidade movida contra a OAS e seis executivos do grupo.

Para chegar ao montante de R$ 640 milhões, o Estadão somou os valores apontados como total de propina pago nos 33 contratos citados nas primeiras ações e subtraiu de cada um o montante do PP arrecadado na Diretoria de Abastecimento.

A Diretoria de Serviços arrecadava até 2% de propina nos contratos da demais diretorias por ser a responsável pelas licitações e fiscalizações contratuais, explicaram os delatores. O ex-gerente de Engenharia Pedro Barusco confessou em sua delação premiada que arrecadava valores em nome do então diretor da área Renato Duque. Esse valor era dividido entre ele, o diretor e o PT – representando pelo tesoureiro do partido, João Vaccari Neto.

O ex-diretor de Serviços é alvo da Lava Jato, mas ainda não foi denunciado formalmente à Justiça, nem acionado na área cível. Tanto o PT como o tesoureiro do partido negam propina e o esquema de arrecadação político na estatal. Duque, que já foi preso preventivamente e está solto por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), nega irregularidades.

Com a palavra, o grupo Sanko-Sider.
Nota Oficial Grupo Sanko-Sider

Sobre o noticiário que informa sobre o ajuizamento, pelo MPF, no dia de hoje (20/02) de ações de improbidade administrativa, na qual aparecemos listados ao lado de construtoras, informamos que:

1. A empresa não recebeu até o momento qualquer citação, sendo informada apenas pelo noticiário de imprensa. Não pode, portanto, avaliar o conteúdo da ação, já que desconhece o seu inteiro teor;

2. No entanto, reafirma mais uma vez alguns pontos importantes para sua defesa e elucidamento de dúvidas que ainda parecem não ter sido ser percebidas e entendidas completamente:

- A Sanko-Sider não é empreiteira; Vende insumos, tubos, conexões e flanges; atende apenas empresas privadas e não fez vendas diretas à Petrobras.

- Fundamental recordar, ainda, que em todos os depoimentos prestados pelo ex-diretor Paulo Roberto Costa, seja no âmbito da delação premiada, junto ao Ministério Público, à Justiça Federal, Polícia Federal, CPMI, este afirmou e reafirmou inúmeras vezes não ter recebido qualquer centavo ilícito da Sanko-Sider.

Com a palavra, a Engevix.
“Assim que notificada, a empresa, por meio de seus advogados, tomará as devidas providências.”

Com a palavra, a Camargo Corrêa.
“A companhia não foi citada na referida ação e desconhece seu teor. Assim que houver possibilidade de defesa, a companhia apresentará sua contestação às acusações.”

Com a palavra, a OAS.
“A OAS refuta veementemente tais alegações e, quando for notificada da ação, irá defender-se nos termos da lei.”

Com a palavra, a Galvão Engenharia.
Os pagamentos feitos resultaram de extorsão e concussão, mediante ameaça de retaliações nos contratos em vigor. Não há correlação de datas nem de valores extorquidos com a assinatura de contratos. Sobre ações de improbidade, não houve notificação e a empresa não irá se pronunciar.

Com a palavra, a Mendes Júnior.
Até o presente momento, a Mendes Júnior não foi notificada com relação à citada ação do Ministério Público Federal.

Nos 33 contratos que embasam as primeiras ações cíveis há obras da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, da Refinaria Getúlio Vargas, no Paraná, do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, e em outros estados como Minas, São Paulo e Maranhão.

Governo Dilma 'perdeu controle', afirma Aécio sobre a Petrobrás

• Senador tucano rebate declarações da presidente, que atacou a falta de investigações na estatal durante o governo FHC, e diz que petista 'zomba' dos brasileiros

Daiene Cardoso e Ricardo Brito - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG), disse nesta sexta-feira, 20, ter ficado surpreso com a superficialidade do diagnóstico feito pela presidente Dilma Rousseff em relação ao esquema de desvios envolvendo contratos da Petrobrás. Para o tucano, o governo federal "perdeu o controle" e a petista "zomba" dos brasileiros. 

Mais cedo, Dilma afirmou que, se os envolvidos tivessem sido investigados e punidos na década de 90, período do governo Fernando Henrique, um funcionário não teria permanecido 20 anos na estatal "praticando atos de corrupção".

"O governo perdeu o controle sobre o processo, mas as coisas vão surgir. Não há como segurar isso", afirmou Aécio, em entrevista coletiva no Senado com integrantes do PSDB.

O tucano condenou o que considera como institucionalização da corrupção na Petrobrás em nome de um projeto de poder. "A presidente zomba da inteligência dos brasileiros", disse Aécio. "Dilma errou em seu comportamento ético", completou.

Aécio Neves disse que Dilma dá crédito às declarações do ex-gerente de Serviços da Petrobrás Pedro Barusco. O ex-funcionário da estatal admitiu, em delação premiada, que desde o governo FHC há corrupção na estatal e ainda revelou que houve uma transferência de US$ 200 milhões de recursos desviados da Petrobrás para o Partido dos Trabalhadores. O PT nega.

Na avaliação do tucano, o discurso da presidente sofre a influência de seu marqueteiro de campanha, João Santana. Aécio fez questão de ressaltar que Dilma estava em silêncio havia dois meses depois de o governo dela ter tomado medidas que, para ele, contradizem o que a petista dizia na campanha eleitoral.

Aécio: Dilma mostra ‘dose de desespero’ e zomba do país ao falar de corrupção na Petrobras

• PSDB anunciou que vai convocar Dirceu e Vaccari para depor na CPI que trata das denúncias que envolvem estatal

Cristiane Jungblut – O Globo

BRASÍLIA — O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (PSDB-MG), disse nesta sexta-feira que a presidente Dilma Rousseff demonstra certo "desespero" e zomba do país e dos brasileiros ao falar apenas de denúncias de corrupção na Petrobras relativas à década de 1990, quando os tucanos comandavam o Brasil na gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele disse que Dilma — que falou sobre o assunto nesta manhã — deveria fazer mea culpa pelos erros éticos cometidos pelo seu governo. Aécio disse que o governo do PT "institucionalizou a corrupção".

O tucano disse que a presidente Dilma deveria aceitar também como fato a parte do depoimento de Pedro Barusco que trata de repasses provenientes do esquema de corrupção ao PT. Ao seu lado, o líder do PSDB na Câmara, Carlos Sampaio (SP), anunciou que o partido vai pedir na CPI da Petrobras da Câmara a convocação do ex-ministro José Dirceu, do tesoureiro do PT João Vaccari Neto, e dos ex-diretos da Petrobras Pedro Barusco e de Renato Duque.

Aécio montou uma reação da máquina do PSDB às declarações da petista, convocando a tropa de choque para uma reunião no Senado, em plena sexta-feira. O tucano primeiro evitou em falar em desespero de Dilma, mas depois disse que há sim.

— Acho que tem sim uma dose de desespero da presidente, porque o governo perdeu, de certa forma, o controle do processo. As coisas vão surgir, não há como segurar isso. A presidente zomba da inteligência dos brasileiros. Esse assunto é de extrema gravidade e não é possível que a presidente o trate de forma tão simplista e tão incorreta. — disse Aécio, depois de encerrar a entrevista coletiva.

Irônico, Aécio disse que as declarações de Dilma deveriam ser consequência de conselhos do marqueteiro João Santana. Na verdade, a presidente Dilma não citou diretamente Barusco, mas a corrupção na década de 90. Em depoimento, ele disse que recebeu dinheiro nessa época.

— Provavelmente essa declaração é fruto das últimas conversas que a presidente teve com seu marqueteiro. A presidente, mais uma vez, tenta levar os brasileiros à ilusão de que vivemos num país que não é real. Tudo isso aconteceu de forma institucionalizada. Quem diz isso são os depoimentos, os delatores, porque isso beneficiava um projeto de poder. Era hora sim, e falo isso de forma muito franca, de a presidente da República fazer sua mea culpa: olhar nos olhos do seu governo e dizer que seu governo errou e errou muito. Errou na condução da economia, durante a campanha eleitoral ao pregar a mentira, o terrorismo como arma de campanha. E errou, principalmente, no seu comportamento ético. Enquanto não houver a mea culpa do governo, os brasileiros continuarão a se sentir iludidos e lesados pela presidente da República e pelo seu governo.

Aécio disse que o PT criou uma estrutura de poder para se beneficiar.

— Mas o que é grave, o que estamos assistindo no Brasil é algo que jamais havia acontecido na nossa história, que é a institucionalização da corrupção em benefício de um projeto de poder. E se seu Pedro Barusco tem credibilidade, segundo a presidente, para dizer o que fez em 1997 e 1998, é preciso que a presidente e o governo deem credibilidade ao que ele disse que fez ao longo dos últimos 12 anos — disse ele.

— Vejam depois de um conveniente silêncio que durou cerca de dois meses certamente para se distanciar das medidas econômicas tomadas por seu governo (...), a presidente reaparece parecendo querer zombar da inteligência dos brasileiros ao atribuir o maior escândalo de corrupção da nossa história patrocinado pelo PT a um governo de 15 anos atrás. Na verdade, parece que a presidente volta a viver no país da fantasia, que conduziu sua campanha e que tanta decepção trouxe inclusive a seus eleitores.

Quanto à convocação do ex-presidente Lula, Aécio foi evasivo. Ele disse que não tomaria essa iniciativa, mas acrescentou que a CPI da Petrobras está aberta a "todas as possibilidades". O PPS e do DEM já defendem a convocação de Lula.

— Não vou tomar iniciativa individual nessa direção, mas a CPI deve estar aberta a todas as possibilidades. Vamos atuar em conjunto com os partidos de oposição, no sentido de termos uma ação coordenada, conjunta e estratégia bem traçada. Não temos postos de comando — disse Aécio.

O senador disse ainda que o PSDB não teme investigação sobre o passado.

— Mas a presidente só dá valor a um parágrafo, a um lado do depoimento de Pedro Barusco. O PSDB não tem qualquer receio que se investigue o que quer que seja. Mas é é preciso que ela dê crédito (ao depoimento de Pedro Barusco) e venha a público dizer o que acha do centro de seu depoimento, onde ele afirma que US$ 200 milhões de dólares foram transferidos para o PT nos últimos 12 anos, boa parte disso entregue ao tesoureiro de seu partido. Acredito que ele, no governo do PSDB, por iniciativa própria, e é ele quem diz, fez sim um entendimento com um dirigente de uma empresa, a qual havia beneficiado, e recebeu uma propina individualmente, transferindo para uma conta em seu nome. Isso é triste, lamentável e ele será punido também por isso — disparou Aécio.

No caso de Lula, Aécio criticou o fato de as empresas investigadas na Operação Lava-Jato estarem procurando o ex-presidente e pedindo ajuda.

— Custo crer que isso possa ser verdade. É algo tão acintoso à própria democracia: num país, onde as instituições são sólidas e funcionam de forma independente, recorrer a um ex-presidente como se o Brasil fosse uma republiqueta, onde a interferência política pudesse mudar o rumo das investigações, é desconhecer a realidade de um país que, se não avançou em seus procedimentos éticos, avançou na solidez das instituições. Cabe a nós políticos estarmos vigilantes para impedir que haja manipulação ou qualquer tentativa de politizar algo que deve continuar caminhando estritamente na esfera judicial e obviamente policial — disse Aécio.

O líder Carlos Sampaio anunciou que serão apresentados os requerimentos para as convocações. E, no caso do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, ele será ouvido apenas na Comissão de Constituição e Justiça do Senado (CCJ), como anunciou o PSDB do Senado nesta semana.

— Dilma ficou por dois meses calada. Para vir a público dizer a bobagem que disse, melhor que continuasse calada — disse Carlos Sampaio.

O líder do PSDB no Senado, Cássio Cunha Lima (PB), foi na mesma direção.

— É uma tentativa de transferir responsabilidades. A casa caiu, e o Palácio está para ruir — resumiu Cássio Cunha Lima.

Aécio descarta pedido de ouvir Lula em CPI

• Para presidente do PSDB iniciativa de empreiteiras da Lava Jato de buscar ex-presidente a é tratar o Brasil como se fosse 'uma republiqueta'

Daiene Cardoso e Ricardo Brito - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG), afirmou nesta sexta-feira, 20, que a decisão de emissários de empreiteiras envolvidas na Operação Lava Jato de recorrer a uma interferência política do ex-presidente Lula é tratar o Brasil como se fosse "uma republiqueta". O tucano, contudo, descartou em um primeiro momento, um eventual pedido de ida do ex-presidente a CPI da Petrobrás que será instalada na próxima semana.

Reportagem do Estado publicada nesta sexta revelou que Lula e seu sócio Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula, têm recebido emissários de empreiteiros que são alvos da Operação Lava Jato desde o fim do ano passado. Eles querem a ajuda do ex-presidente para evitar o colapso econômico das empresas.

"Recorrerem a um ex-presidente como se o Brasil fosse uma republiqueta onde a interferência política pudesse mudar o rumo de investigações é desconhecer a realidade de um País que, se não avançou nos seus procedimentos éticos em razão do que aconteceu nos últimos 12 anos, felizmente avançou do ponto de vista da solidez das instituições", afirmou Aécio, em entrevista coletiva no Senado.

Ao contrário do que defendeu esta manhã outros integrantes da oposição, o presidente do PSDB descartou, em um primeiro momento, um eventual pedido de ida do ex-presidente a CPI da Petrobrás que será instalada na próxima semana. Aécio disse que não vai tomar uma "iniciativa individual" na direção de chamar Lula para depor na CPI, embora tenha ressaltado que a comissão tem de estar aberta a "todas as possibilidades".

O tucano disse que o PSDB vai atuar em conjunto com os partidos de oposição na CPI, sob a coordenação do líder da bancada na Câmara, Carlos Sampaio. Ele ressalvou que é preciso ter uma estratégia bem traçada. "Como vocês sabem, nós somos minoria na comissão e não temos os postos de comando, mas nós certamente podemos, amparado, na realidade dos fatos e com a opinião pública, fazer com que esta CPI efetivamente funcione", disse.

CPI. Logo após a declaração de Aécio, Carlos Sampaio explicou a tática da oposição na CPI. A intenção é apresentar logo no início dos trabalhos pedidos de quebras de sigilo bancário, telefônico e fiscal e de convocação dos ex-ministros José Dirceu e Antonio Palocci, do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, do ex-diretor de Serviços da Petrobrás Renato Duque, do ex-gerente de Engenharia Pedro Barusco, entre outras pessoas. Também defendeu a criação de três sub-relatorias - uma de Sistematização, outra Operacional e uma terceira sobre o Núcleo Político - com o objetivo de aprofundar as investigações.

Para justificar a criação de sub-relatorias, o líder do PSDB disse que as CPIs que funcionaram para valer no Congresso, como a dos Correios e a dos Sanguessugas, que investigou o mensalão, se valeram desse expediente. Assim como Aécio, Sampaio disse que uma eventual ida do ex-presidente à comissão não está entre as prioridades da oposição.

Segundo ele, ainda não há uma "conexão direta" de que ele está interferindo politicamente no processo, uma vez que Lula negou ter recebido as empreiteiras envolvidas na Lava Jato. Foi o sócio do ex-presidente Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula, quem confirmou ao Estado as tratativas com emissários de envolvidos na operação. "Se tivermos uma ligação que ele (Lula) está tentando fazer alguma conexão política, aí é o momento para ele depor", disse.

Ex-governador Agnelo tem seus bens bloqueados

Folha de S. Paulo

O juiz da 2ª Vara da Fazenda Pública do Distrito Federal Álvaro Ciarlini determinou o bloqueio de bens do ex-governador do DF Agnelo Queiroz (PT) e de mais quatro pessoas suspeitas de irregularidades na contratação de uma etapa da Formula Indy e na reforma do autódromo Nelson Piquet, em Brasília. Cabe recurso.

Ao todo, a Justiça tenta bloquear até R$ 37,2 milhões, dividido entre os cinco suspeitos. De acordo com o Ministério Público, os contratos firmados foram ilegais, antieconômicos e imorais. Os promotores pedem a suspensão dos direitos políticos de Agnelo por cinco anos.

Não está claro quanto dinheiro já foi gasto no evento, cancelado pelo atual governador, Rodrigo Rollemberg (PSB). Segundo o Ministério Público, ao menos R$ 17,5 milhões teriam sido pagos à emissora que transmitiria o evento.

O advogado de Agnelo, Paulo Guimarães, disse que não foi notificado da decisão e, que tão logo isso aconteça, deve analisar os fundamentos e apresentar recurso ao tribunal.

Inserções do PMDB na TV desagradam a petistas

• Programa a ser exibido no dia 26 não cita o PT nem a presidente Dilma Rousseff

Simone Iglesias – O Globo

BRASÍLIA — O programa partidário do PMDB ainda nem foi ao ar e já provoca mais atritos na relação com a presidente Dilma Rousseff. Programado para ser divulgado dia 26, ele está sendo anunciado desde quinta-feira em inserções de 30 segundos na TV aberta. “Dia 26, às 20h30, em rede nacional, você vai saber o que o PMDB tem a dizer ao Brasil”, diz a última frase das vinhetas, em que aparecem os seis ministros do partido, os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Eduardo Cunha, e o vice-presidente Michel Temer.

Segundo o publicitário Elcinho Mouco, responsável pela direção e produção, o conceito do programa, intitulado “O Brasil é a nossa escolha”, é mostrar que o PMDB estará sempre do lado da sociedade.

— É um programa partidário, não é um programa governista. Somos um partido dos oito que integram o governo, e temos seis dos 39 ministérios. O PMDB tem compromisso com o povo brasileiro — disse Mouco, revelando que não há no programa menção ao PT ou à presidente Dilma Rousseff.

Segundo ele, os peemedebistas falam em governabilidade, assuntos de interesse da sociedade e também na reforma política, cujo debate vem sendo liderado na Câmara por Eduardo Cunha. No programa, Michel Temer defenderá a necessidade de aprovação das medidas provisórias do ajuste fiscal do governo, que restringem o acesso a benefícios trabalhistas e previdenciários.

Ministros veem descolamento
As inserções que estão no ar desagradaram a ministros de Dilma, que interpretaram o conceito “O Brasil é a nossa escolha” como um descolamento do governo. Peemedebistas minimizam as críticas, alegando que os seis ministros fazem defesa enfática do Executivo em seus pronunciamentos.

O formato do programa, segundo o próprio publicitário, foi inspirado na série “House of Cards” e no filme “Birdman”, que concorre ao Oscar de melhor filme. A série americana tem como personagem principal o congressista americano Frank Underwood, um deputado que chega à Presidência cometendo crimes e derrubando adversários com chantagens. Cunha já foi comparado por várias publicações, inclusive a revista inglesa “The Economist”, a Underwood.

A locação foi o Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, com um cenário de fundo preto e luzes do teatro.

Instituto confirma que empreiteiras recorreram a Lula

• Aécio Neves diz que procurar interferência política de ex-presidente é comportamento de "republiqueta"

- O Globo

SÃO PAULO- Executivos das construtoras investigadas da Operação Lava-Jato têm recorrido ao ex-presidente Lula para tentar evitar um colapso financeiro. A informação, divulgada pelo jornal "O Estado de S. Paulo", foi confirmada ontem pelo presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto. Segundo ele, as empreiteiras querem ajuda para superar suas dificuldades, sobretudo junto à Petrobras, que vem cancelando contratos.

João Santana, diretor da Constran, do grupo UTC, marcou encontro com Lula, mas foi recebido por Okamotto. Ricardo Pessoa, presidente da UTC, foi um dos presos na operação. Segundo o jornal, na conversa, de clima tenso, Santana buscou orientação de Lula.

Nas eleições de 2014, a UTC doou R$ 21,7 milhões para campanhas do PT, dos quais R$ 7,5 milhões para a de Dilma.

Okamotto disse que Santana "queria explicar as dificuldades que as empresas estão enfrentando", e que "estava sentindo que as portas estavam fechadas e que tudo estava parado no governo, nos bancos".

— Não conversei com os empresários sobre a Lava-Jato em si, mas sobre as dificuldades das empresas. Estou falando com muitas empresas do setor de engenharia, de montagem, de caldeiraria e de estaleiros, que estão tendo dificuldades com a Petrobras, com contratos cancelados, problemas com financiamentos em bancos. Nesse contexto, me reuni com João Santana — disse Okamotto.

A assessoria da empreiteira confirma a reunião, mas nega que ela tenha sido para cobrar "interferência política" de Lula.

"João Santana falou apenas sobre dificuldades que empresas começavam a enfrentar diante da decisão do governo federal de atrasar pagamentos devidos por serviços já realizados", diz nota da Constran.

O senador Aécio Neves (PSDB-MG) criticou o fato de Lula ter sido procurado por empreiteiras. Para ele, é um comportamento de "republiqueta":

— Recorrer a um ex-presidente como se o Brasil fosse uma republiqueta, onde a interferência política pudesse mudar o rumo das investigações, é desconhecer a realidade de um país que, se não avançou em seus procedimentos éticos, avançou na solidez das instituições.

Planalto escala Levy para a defesa de pacote fiscal

• Mentor do ajuste, titular da Fazenda vai participar de jantar com o PMDB e tentar convencer partido aliado a não barrar medidas que cortam gastos

Débora Bergamasco, Tânia Monteiro e Adriana Fernandes - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Na tentativa de driblar negociadores que querem “suavizar” seu plano de ajuste fiscal, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, está assumindo pessoalmente a articulação com o Congresso para emplacar seu projeto de corte de gastos e aumento de receitas. Na segunda-feira, ele terá um jantar com a cúpula do PMDB no Palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente Michel Temer.

O ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, que completam a equipe econômica do governo, não foram convidados para a reunião. Além de Temer, participarão do encontro pelo PMDB os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (RJ), e do Senado, Renan Calheiros (AL), além dos líder do partido na Câmara, Leonardo Picciani (MG), e no Senado, Eunício Oliveira (CE). Por ora, Levy tem agenda apenas com os peemedebistas, mas negociará com outros partidos.

Cunha reconheceu que será “mais fácil” discutir o ajuste fiscal com Levy, autor do plano. O PMDB quer perguntar ao ministro qual será o verdadeiro impacto das medidas nas contas públicas, o cenário para os próximos meses se o Congresso não aprovar as medidas e a margem de negociação com a qual o governo trabalha.

Para o Planalto, no entanto, não há margem de negociação em discussão, pois as medidas já estariam no limite do absolutamente necessário. Um ministro, sob anonimato, explicou que, sem a aprovação do pacote e a subsequente economia de quase R$ 20 bilhões necessária nos cofres públicos, o governo teria de endurecer o contingenciamento de recursos do Orçamento de 2015, afetando outros programas oficiais.

O ministro lembrou que, desde que começou a trabalhar com o governo, Levy tem dito que é preciso cortar pelo menos R$ 66 bilhões nos gastos públicos deste ano - ou seja, as medidas provisórias representam parte do ajuste necessário para equilibrar os números fiscais.

Preocupações. As preocupações com o PMDB, que já mandou recado ao Planalto de que vai derrubar o veto de Dilma ao reajuste de 6,5% da tabela do Imposto de Renda, foram discutidas nesta sexta-feira, 20, em uma reunião da coordenação política do governo. Um dos ministros que integram o núcleo político aposta que Cunha vai chegar a um bom termo com o Planalto, embora reconheça que o presidente da Câmara também criará muitas dificuldades para o governo.

O Planalto também está preocupado com a articulação política no Senado. O PMDB resiste a indicar um líder para o governo na Casa. Por ora, o líder do PT, Humberto Costa (PE), ficará à frente dessa tarefa.

Maduro supera Chávez em abusos contra opositores

• Antonio Ledezma é o nome mais recente na lista de presos políticos do regime venezuelano

Janaína Figueiredo – O Globo

BUENOS AIRES — As imagens da violenta detenção do prefeito de Caracas, o opositor Antonio Ledezma, na noite da última quinta-feira, mostraram aos venezuelanos e ao mundo que o governo do presidente Nicolás Maduro decidiu assumir, abertamente, seu perfil autoritário e militarista. Essa é a opinião de analistas e representantes de ONGs locais ouvidos pelo GLOBO, que admitiram ter ficado surpresos pela gigantesca operação montada para prender Ledezma, levado por mais de cem agentes à sede do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin), onde ficou detido até sexta-feira. Estimativas calculam que, hoje, existem mais de 60 presos políticos na Venezuela, entre eles dirigentes opositores, estudantes, policiais e militares.

Um dos principais líderes da ala mais radical da oposição, o prefeito ainda não foi acusado formalmente pela Justiça. Na madrugada desta sexta-feira, ele reuniu-se com sua mulher e seu advogado e enviou uma clara mensagem à população:

— A única maneira de recuperar a democracia é estar na rua.

No ano passado, quando o país viveu uma onda de protestos que acabou com 41 pessoas mortas, o Programa Venezuelano de Ação e Educação em Direitos Humanos (Provea) divulgou relatório apontando que, desde que chegou ao poder, em abril de 2013, o presidente Maduro foi 480% mais repressor do que seu antecessor, Hugo Chávez, em seu pior momento. Foram comparados números de presos políticos, pessoas assassinadas em manifestações e denúncias de torturas.

— Maduro apelou para um Estado militarista, policial e repressor para resolver os conflitos — disse Rafael Uzcátegui, do Provea. — Nem mesmo em 2007, ano em que Chávez enfrentou fortes resistências internas, o chavismo cometeu abusos como os de hoje. Os militares estão nas ruas do país, querem intimidar a população, impedir protestos, limitar as liberdades e, com tudo isso, tornar invisíveis os problemas.

A nova onda repressora acontece a poucos meses das próximas eleições legislativas, previstas para meados do ano, e com o país mergulhado numa dramática crise econômica. No momento em que a oposição tenta rearmar-se para um novo desafio eleitoral, Ledezma foi acusado de estar por trás de um plano conspiratório, em parceria com os EUA, para derrubar o governo. O presidente - que costuma chamar o opositor de "vampiro" — usou como argumento um recente comunicado assinado pelo prefeito, pela deputada cassada María Corina Machado e pelo dirigente opositor Leopoldo López, preso há um ano, no qual se exige a renúncia de Maduro como única saída para uma "transição democrática".

A acusação foi rechaçada pelos EUA, que manifestaram "profunda preocupação pela escalada de intimidações" contra opositores. Nesta sexta-feira, em uma manifestação que reuniu diversos nomes da oposição em Caracas, María Corina assegurava que "a ditadura de Maduro foi desmascarada". Henrique Capriles, principal líder da oposição, apresentou a última pesquisa do Datanálisis, que indica que 73,7% dos entrevistados avaliam mal o governo. Dentre os chavistas, 51,3% deles acreditam que a situação do país está ruim.

— Eles pretendem prender todos os opositores e todos os lideres da oposição. E estamos dispostos a ir presos — disse. — A Venezuela vive a pior situação econômica e social da nossa história.

Com uma crise cada vez mais profunda, Maduro está, na opinião da socióloga Margarita López Maya, buscando mostrar-se forte, no momento de mais fragilidade.

— A popularidade do presidente não passa de 20% e hoje todas as pesquisas mostram que 80% dos venezuelanos estão insatisfeitos. E o que o presidente faz? Prende os opositores.

Para ela, as detenções devem continuar. O próprio Maduro mencionou em sua última cadeia de rádio e TV os próximos nomes da lista: María Corina e o deputado Julio Borges, figura de proa do partido Primeiro Justiça.

Na quinta-feira, Maduro anunciou que pedirá ao presidente da Assembleia Nacional, o militar Diosdado Cabello, e ao procurador-geral que preparem um conjunto de propostas legislativas contra grupos que "fazem política armada e logo depois aparecem com cara de cordeiros para participar das eleições".

— A prisão foi uma jogada para conseguir apoio dentro e fora do governo — opinou Ignácio Ávalos, do Observatório Eleitoral Venezuelana. — Maduro está entrando num terreno muito perigoso. O governo aprovou medidas de controle social inéditas, permitiu o uso de armas de guerra em algumas circunstâncias, criou os patriotas cooperantes, uma espécie de agentes de inteligência civis, enfim, reforçou mecanismos militaristas e autoritários para preservar o poder — explicou ele, que não descartou a possibilidade de que as eleições sejam adiadas.

Capriles compartilha da opinião.

— O governo está derrotado e não quer eleições este ano. Mas elas serão a chave para libertar os presos. — disse.

Governos de Chile e Colômbia condenam prisão de prefeito de Caracas

• No Brasil e no Uruguai, silêncio de presidentes é criticado por opositores

O Globo / com agências internacionais

CARACAS — Os governos do Chile e da Colômbia se manifestaram nesta sexta-feira sobre a prisão do prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, acusado pelas autoridades locais de participar de uma tentativa de golpe.

Através de seu porta-voz, Alvaro Elizalde, o Ministério chileno das Relações Exteriores afirmou que entrou em contato com o embaixador chileno para Caracas para reunir informações sobre a prisão do prefeito.

— Há uma preocupação de que o cenário de polarização na Venezuela torne-se um obstáculo significativo para o diálogo entre o governo e a oposição na busca pelo fortalecimento da democracia — afirmou o porta-voz, que destacou as iniciativas promovidas pelo Chile na União das Nações Sul-Americanas (Unasul) para fomentar o diálogo político na Venezuela.

A presidente do Senado chileno, Isabel Allende, escreveu no Twitter que o governo da presidente Michelle Bachelet “deve manifestar sua preocupação pela detenção de Ledezma”. Já o ex-presidente nacional Sebastián Piñera, classificou como “brutal” a prisão do prefeito, e afirmou que a ação “deve ser repudiada por todos os democratas, incluindo os governo, em especial, o chileno”.

Na Colômbia, o presidente Juan Manuel Santos pediu que os direitos dos membros do posição venezuelana sejam respeitados.

“Já manifestamos nosso desejo de que os opositores tenham seus direitos respeitados, e inclusive pedimos a libertação de Leopoldo López. No caso do prefeito Antonio Ledezma, também esperamos que ele conte com todas as garantias para um devido processo legal”, afirmou o presidente colombiano em comunicado.

Silêncio no continente
No resto da América do Sul, os governos não se manifestaram publicamente sobre a prisão de Antonio Ledezma. Logo após receber as credenciais da nova embaixadora da Venezuela no Brasil, Maria de Lourdes Urbaneja Durant, a presidente Dilma Rousseff se negou a fazer julgamento sobre a prisão do prefeito de Caracas, que é da oposição ao governo Nicolás Maduro.

— Eu não posso receber um embaixador com base nas questões internas do país. Eu recebo os embaixadores com base nas relações que eles estabelecem com o Brasil. Então, o foco nosso é, fundamentalmente, nessas relações. E é isso que explica o fato da gente ter postergado o recebimento das credenciais da Indonésia. Não é nenhuma questão interna da Indonésia — disse Dilma em rápida entrevista coletiva após a cerimônia diplomática no Palácio do Planalto.

Já o PSDB condenou a prisão e criticou o silêncio dos governos do Mercosul sobre o caso.

“É com indignação e crescente preocupação que assistimos à escalada de violência praticada pelo governo da Venezuela contra aqueles que divergem democraticamente do regime do presidente Nicolás Maduro”, diz uma nota assinada, entre outros líderes, pelo senador Aécio Neves, presidente do PSDB e ex-candidato presidencial. “Consideramos inconcebível que um país-membro do Mercosul continue a desrespeitar as cláusulas democráticas que regem o bloco sem que os demais integrantes, como é o caso do Brasil, sequer se pronunciem a respeito”.

No Uruguai, o Partido Nacional (PN), principal força da oposição criticou hoje o fato do governo não ter se pronunciado sobre a prisão do prefeito de Caracas.
“O Uruguai deve adotar uma posição firme no Mercosul e em outros órgãos sobre a situação na Venezuela. E não olhar para o lado!”, afirmou em sua conta na rede social Twitter o senador e ex-candidato à presidência Luis Lacalle Pou.

“Vergonha da Venezuela. Os criminosos são aqueles que pensam de forma diferente. Governo uruguaio em silêncio!!”, exclamou, também no Twitter, o senador do PN, Jorge Larrañaga, ex-candidato a vice-presidente.

O ex-presidente do Uruguai, Jorge Batlle, do Partido Colorado (PC), disse que o governo venezuelano “todos os dias dá um passo além para consolidar seu poder ditatorial sobre o povo. Na Venezuela, a Justiça, bem como a Justiça Eleitoral, controlada e gerida pelo governo, destruiu os princípios essenciais da democracia”.

Até agora não houve um pronunciamento da Organização de Estados Americanos (OEA) sobre a prisão de Ledezma, embora o secretário-geral, José Miguel Insulza, tenha afirmado na segunda-feira que a libertação de líderes da oposição ajudaria a criar um ambiente propício para o diálogo que a Venezuela precisa para sair de sua crise. A líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, pediu que o órgão convoque uma reunião em caráter de emergência para discutir a prisão de Ledezma, que classificou como “um golpe brutal aplicado contra a democracia”.

O diretor para as Américas da Human Rights Watch (HRW), José Miguel Vivanco, disse nesta sexta-feira “que frente à arbitrariedade do governo venezuelano, a única esperança são reações "fortes" da comunidade internacional”.

A secretaria-geral da União das Cidades Capitais Iberoamericanas (UCCI) pediu nesta sexta-feira que as autoridades venezuelanas respeitem os direitos constitucionais do prefeito de Caracas.

Merval Pereira - Confronto à vista

- O Globo

A provocativa declaração da presidente Dilma tentando atribuir ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso a culpa pretérita pelos crimes cometidos na Petrobras no período de governos petistas, de 2003 a 2014, de tão tosca só pode fazer parte de uma ação coordenada de enfrentamento.

Tudo indica que o governo e seu entorno decidiu agir de maneira coordenada para o enfrentamento público das acusações, que logo serão conhecidas em sua integralidade. Estão agindo em várias frentes. A CUT, braço sindical do petismo, está convocando uma ridícula marcha em favor da Petrobras, não contra aqueles que a saquearam nos últimos anos, mas contra quem denuncia os desvios.

O pretexto é o de sempre, mas ainda funcional em determinadas áreas: tudo não passaria de um golpe para enfraquecer a Petrobras com o objetivo de privatizá-la. Sabe-se agora que o ex-presidente Lula tem sido acionado por donos das empreiteiras para uma intervenção impossível.

Também o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo foi acionado, deixando o flanco aberto para ser acusado de estar agindo em defesa das empreiteiras. Na ação governamental, a Controladoria Geral da União (CGU) armou uma legislação prêt a porter que transforma o Tribunal de Contas da União (TCU) em seu órgão auxiliar no exame de acordos de leniência, e não fiscalizador, auxiliar do Poder Legislativo.

Tudo para garantir que as empreiteiras saiam da enrascada em que se meteram o menos prejudicadas possível, sem perder a condição de continuar fazendo obras para o governo.

Como não somos, ainda, uma república bananeira em que o Executivo domina os demais poderes, como alguns de nossos vizinhos e aliados de primeira linha, a resposta da sociedade está sendo vigorosa.

Numa reação à tentativa de limitar os danos das empreiteiras, e como consequência lógica da Operação Lava Jato, o Ministério Público Federal ajuizou ontem cinco ações de improbidade administrativa contra seis empreiteiras acusadas de envolvimento no esquema de desvio de recursos da Petrobras: Camargo Correa, Engevix, Galvão Engenharia, Mendes Júnior, OAS e Sanko, num total R$ 4,48 bilhões.

A ação de improbidade tem elementos até de direito penal, mas é um desdobramento cível do processo. O acordo de leniência da CGU com as empreiteiras está sob o crivo do Judiciário, e pode ser anulado. Se for o ministro que o assina, o processo será no Supremo Tribunal de Justiça. Se for um funcionário qualquer, será do juízo federal de Brasília.

Mas também o Legislativo está vigilante quanto a essa dobradinha do CGU com o TCU, sob as bênçãos do Advogado-Geral da União Luiz Adams da Silva, que também é candidato ao STF juntamente com José Eduardo Cardozo. (Acho que a atuação dos dois no episódio lhes tira qualquer possibilidade de serem indicados ou de serem aprovados pelo Senado).

Há diversos movimentos no Legislativo para anular essa nova legislação da CGU, e tanto do Advogado-Geral da União quanto o ministro da CGU e o presidente do TCU podem ser convocados para explicarem seus papéis nessa que se assemelha a uma manobra para salvar as empreiteiras da punição mais rigorosa.

O Ministério Público Federal quer que elas sejam impedidas de assinar novos contratos com o governo. Já o acordo de leniência da CGU/TCU determina expressamente que elas poderão continuar concorrendo às licitações, assim como não perderão o direito de receber empréstimos dos bancos públicos, notadamente do BNDES.

Na definição de uma velha raposa política, “estamos diante de uma situação política nova que vai engendrar comportamentos políticos inusitados”. A começar pela situação inusitada de o Executivo, depois de ter armado uma maioria absolutíssima à base de expedientes como os do mensalão e do petrolão, ter ficado isolado politicamente, dependente do presidente da Câmara, o deputado Eduardo Cunha, figura política ambígua que manobra a seu bel prazer.

Qual será seu próximo passo?

Renato Andrade - Questão de exemplo

- Folha de S. Paulo

Agenda opaca não é um problema exclusivo do ministro da Justiça. Falta de transparência é um costume da Esplanada dos Ministérios e o mau exemplo vem de cima.

A expressão mais clássica encontrada nas agendas de ministros é o enigmático "despachos internos". Cabe tudo sob essa denominação. Desde conversas com secretários e subalternos, até encontros com presidentes de empresas e políticos.

A situação do ministro José Eduardo Cardozo é apenas um dos exemplos desse hábito da capital federal.

Joaquim Levy, que comanda a equipe econômica, também "esqueceu" de contar nesta semana que iria participar de um encontro com empresários, representantes do governo americano e integrantes de organismos multilaterais em Washington em plena terça-feira de Carnaval.

Mas a situação é um pouco mais complexa. A titular da cadeira mais importante do país também é adepta da política de divulgação parcial (às vezes nula) de sua agenda.

Na Quarta-Feira de Cinzas, Dilma se encontrou com vários ministros no Palácio da Alvorada. Na comunicação oficial, entretanto, a petista estava "sem compromissos oficiais".

Assessores têm um argumento clássico para justificar essas situações. Os encontros de trabalho da presidente acontecem no Planalto. No Alvorada, a "casa" de Dilma, o compromisso seria "pessoal".

É difícil imaginar, entretanto, que a petista levou seus ministros para a cozinha do palácio para falar sobre o feriado ou acompanhar a apuração das escolas de samba do Rio.

Os encontros de Dilma e Lula também seguem esse roteiro do sigilo. Da última vez em que os dois estiveram juntos, o Planalto disse apenas que a presidente iria para São Paulo. Horas depois da conversa entre criador e criatura, a agenda oficial foi alterada para comunicar que a reunião acontecera no meio da tarde.

A turma do poder precisa entender que transparência é obrigação.

Cristovam Buarque - Pedagogia da catástrofe

• Parecemos estar num tempo em que argumentos não têm papel pedagógico

- O Globo

Chama-se “pedagogia da catástrofe” o conjunto de lições tiradas de tragédias geralmente anunciadas e desprezadas. A população de São Paulo está passando por um aprendizado desse tipo. Depois de anos desperdiçando água e sujando rios, investindo em asfalto e estádios, em vez de reservatórios, sem incluir nas escolas o respeito à água e demais preocupações ambientais, a população começou a conservar água.

A pedagogia da catástrofe funcionou para o povo, mas os governos, aparentemente, não aprenderam e continuam resistindo a fazer as necessárias políticas de investimento e de educação, e a população segue de olhos fechados para outros problemas.

Estamos esperando a destruição da Petrobras para só então aprendermos o risco do aparelhamento do Estado e da corrupção ligada ao financiamento de campanha por empreiteiras. Por anos, o governo federal caminhou a passos firmes na direção da atual crise fiscal e a estagnação econômica. Muitos alertamos para os riscos da baixa poupança, do excesso de gastos, da preferência pelo consumo, da falta de base educacional, mas o governo preferiu caminhar até o ponto da pedagogia da catástrofe. Para conseguir a reeleição, o governo federal prometeu o que não ia cumprir, sem considerar as consequências da desconfiança criada pelo divórcio entre o discurso do marqueteiro na campanha e a fala dos ministros depois da posse.

Tudo indica que precisaremos da catástrofe de um engarrafamento absoluto para percebermos o erro da opção da indústria e do transporte com base no automóvel privado; e de uma guerra civil em todas as ruas das cidades para admitirmos a violência que criamos com um modelo de desenvolvimento centrado no crescimento econômico, concentrando a renda, relegando a busca de educação da cidadania e a construção de harmonia social. A crise ecológica talvez só seja enfrentada quando o aquecimento global já tiver provocado todos os desastres planetários que se avizinham, mas que população e líderes se negam a ver.

Aparentemente estamos em um tempo em que argumentos não têm papel pedagógico; só as catástrofes convencem. O mundo parece ter apenas duas cores e estar parado no tempo; as análises que procuram mostrar as diferentes nuances dos problemas e prever suas consequências são recusadas. Há uma clara preferência pelas ilusões instantâneas no lugar da realidade em movimento, até que a pedagogia da catástrofe desperte a consciência, corrigindo os erros quando o preço já é muito alto.

É pouco provável que as próximas eleições mostrem que o povo aprendeu com seus erros eleitorais e consequentes opções de desenvolvimento, tanto quanto a população de São Paulo aprendeu com o desprezo pela água. Mesmo assim, é preciso insistir nos alertas, ainda que não sejam ouvidos, porque não tentar convencer seria uma catástrofe pessoal.
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Cristovam Buarque e senador (PDT-DF)

Dilma vs. Dilma – Editorial / O Estado de S. Paulo

A presidente Dilma Rousseff voltou de seu retiro de carnaval no litoral da Bahia aparentemente cheia de ideias para reverter a agenda negativa que a atormenta desde que assumiu o segundo mandato. Já no fim da tarde da Quarta-Feira de Cinzas reuniu-se no Palácio da Alvorada com os ministros de seu círculo mais íntimo para alinhavar iniciativas em dois âmbitos: o político e o da comunicação. Em ambos, porém, Dilma vai ter de se entender primeiro consigo mesma, se alimenta realmente a esperança de dissipar o ambiente carregado de más notícias e péssimas perspectivas que ela própria se encarregou de criar para o País.

Dilma enfrenta hoje, no plano político, problemas com a governabilidade agravados pelo peso de uma imagem extremamente negativa, especialmente para quem acaba de se reeleger. Recapitulando: dias atrás, uma pesquisa Datafolha apurou que 47% dos brasileiros a consideram desonesta e 54% a julgam falsa. A avaliação de seu governo despencou em dois meses de 42% para 23% de ótimo/bom e aumentou substancialmente de 24% para 44% de ruim/péssimo. Ou seja: a presidente da República está com a credibilidade gravemente comprometida. Culpa de quem?

Basicamente, da soberba que a impede de admitir os próprios erros e de procurar ajuda onde quer que possa ser encontrada. Reeleita, Dilma poderia ter-se fortalecido chamando para o diálogo e o entendimento todas as forças vivas da Nação - afinal, ela é a presidente de todos os brasileiros - de modo a oxigenar o debate sobre novos e melhores caminhos para o País. O máximo de concessão que foi capaz de fazer foi designar, sem nenhum entusiasmo, uma equipe econômica com respaldo no mercado para a tarefa de colocar em ordem as contas do governo. Na área estritamente política, em vez de se abrir, fechou-se. Afastou a corrente majoritária de seu próprio partido e se cercou de ministros com os quais tem maior identificação ideológica, além de tentar, inutilmente, enfraquecer seu maior aliado, o PMDB.

O resultado é que hoje a presidente da República não tem apoio popular e tampouco pode confiar em parte do PT e no PMDB.

No âmbito da comunicação Dilma também vai encontrar dificuldades para criar uma agenda positiva. E a razão é muito simples: sua falta de credibilidade perante a opinião pública. Promover a imagem do governo não é uma tarefa que se esgote na sedução da militância profissional, paga, aquela que pode não ter gostado, mas também não deu grande importância ao fato de Dilma ter desmentido, logo ao tomar posse, suas promessas de campanha. A dificuldade é convencer quem se sente ludibriado em sua boa-fé. E estes certamente integram a maioria de 54% que acha que Dilma é falsa ou os 47% mais radicais que a consideram desonesta.

Recentemente, a presidente teve uma conversa de mais de duas horas em São Paulo com seu criador - a primeira desde sua segunda posse - e como de hábito Lula tentou lhe ensinar o caminho das pedras: reunir-se - e prestar atenção no que têm a dizer - com governadores, lideranças da base aliada, do movimento sindical, das organizações sociais. E conceder mais entrevistas à imprensa, comparecer a um maior número de eventos oficiais dentro e fora do Palácio, falar diretamente aos brasileiros por meio de cadeias de rádio e de televisão. Enfim, mostrar-se e conversar com as pessoas, seduzi-las.

Para Lula tudo isso pode parecer muito óbvio e fácil. É exatamente o que ele próprio sabe fazer melhor. Mas talento não se ensina. E a arte da sedução, definitivamente, não é a especialidade de Dilma, que não tem a menor paciência para ouvir o que não lhe interessa e não consegue disfarçar contrariedades. Ouvir a opinião de terceiros e dialogar é algo que Dilma só faz como último recurso. Não é por outra razão que se cerca apenas de pessoas que pensam como ela.

Se está, portanto, realmente decidida a construir uma agenda positiva para o governo, a Dilma Rousseff não bastará anunciar novos pacotes de bondades ou fingir que dá ouvidos a gente em quem nunca prestou atenção. Antes de mais nada, vai ter de enfrentar o desafio de superar a si mesma.

O silêncio cúmplice da repressão na Venezuela – Editorial / O Globo

• Prisão do prefeito de Caracas se soma a de outros membros da oposição e empresários, numa escalada repressora proporcional ao descontentamento geral

A prisão do prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, um dos principais líderes da oposição ao governo de Nicolás Maduro, revela, no recrudescimento da crise venezuelana, a escalada da ação truculenta do Estado. Ledezma foi preso na quinta-feira por cerca de 50 agentes do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin) que invadiram seu gabinete e o levaram para um centro militar, acusando-o de conspirar para derrubar o regime. Segundo a mulher do prefeito, Mitzy, a prisão foi realizada aos empurrões e com disparos de arma de fogo, numa ação em que Ledezma foi agredido.

Como fez Hugo Chávez, seu mentor, Maduro recorre a tramas conspiratórias e ações subversivas para justificar atos de violência institucional. Em cadeia de TV após a prisão, ele acusou Ledezma de fomentar um golpe de Estado. “Chega de vampiros conspirando contra a paz”, disse o presidente venezuelano, referindo-se ao apelido com o qual se refere ao prefeito. Maduro também voltou a acusar o governo americano de ingerência nos assuntos internos do país. Este mês, Washington apresentou sanções contra altos funcionários do governo venezuelano, acusados de reprimir violentamente os protestos do ano passado, que deixaram 45 mortos. Além disso, investiga militares venezuelanos acusados de participar do cartel Los Soles, responsável pelo transporte, no país, de drogas da Colômbia para os EUA.

Não é por acaso que o prefeito de Caracas se une a uma longa lista de opositores presos, entre os quais Leopoldo López, ex-prefeito de Chacao, detido há um ano, durante os protestos; Enzo Scarano, ex-prefeito da cidade de San Diego, um dos epicentros dos protestos; e Daniel Ceballos, ex-prefeito de San Cristóbal. Além destes, María Corina Machado foi cassada da Assembleia Nacional após denunciar na OEA a repressão do regime nos protestos; o governo venezuelano também prendeu empresários, acusados de estocar alimentos, e jovens do movimento estudantil.

A repressão cresce à proporção que a popularidade de Maduro despenca, inclusive em redutos bolivarianos, sob o peso de uma economia em crise aguda, com graves sequelas sociais. A queda dos preços do petróleo e uma política econômica populista geraram uma inflação acima de 60%, a queda do PIB, a desvalorização do bolívar e a escassez de produtos de primeira necessidade. Associada a altos índices de criminalidade, essa situação motivou os protestos do ano passado.

Acuado, o regime se torna cada vez mais intolerante a qualquer situação que possa gerar manifestações. Recentemente, por exemplo, o Parlamento autorizou o uso de armas letais em protestos. A subsecretária de Estado americana para a América Latina, Roberta Jacobson, disse que os EUA estão “profundamente preocupados” com o aumento da repressão. Em contraste, a reação de Unasul, OEA e até do Brasil, tem sido, até agora, desproporcional à escalada da violência do regime. Tal silêncio, se perdurar, corre o risco de transformar esses atores, de mediadores a cúmplices.

Despotismo maduro – Editorial / Folha de S. Paulo

• Afundado em problemas econômicos, governo da Venezuela recorre a medidas autoritárias para se proteger; Brasil não pode ficar calado

Incapaz de reconhecer os erros que lançaram a Venezuela em um círculo vicioso de violência e crise econômica, o presidente Nicolás Maduro recorre à escalada autoritária para blindar seu governo.

O alvo da vez é o prefeito da área metropolitana de Caracas, Antonio Ledezma, preso na quinta-feira (19) dentro de seu gabinete por agentes do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin).

O nome de Ledezma amplia uma lista de políticos detidos que inclui, entre outros, Leopoldo López, ex-prefeito de Chacao, e Raúl Baduel, ex-ministro da Defesa (2006-2007, gestão de Hugo Chávez). Com variações sutis, todos são acusados de conspirar contra o país.

Mesmo que Ledezma quisesse arquitetar um golpe, como alega Maduro (sem provas), ele dificilmente teria força para tanto. Perseguido pelo chavismo, o oposicionista eleito em 2008 comanda um governo apenas no papel.

Em represália a sua vitória, o então presidente Hugo Chávez retirou atribuições da prefeitura metropolitana de Caracas. Saíram de seu guarda-chuva escolas, hospitais, cartórios públicos e até o Palácio do Governo. As prerrogativas foram transferidas a um governo biônico, e Ledezma passou a despachar de um escritório privado.

A prisão de um líder oposicionista com poucos poderes revela o grau de desespero e extremismo a que chegou Maduro. Oprimindo críticos de sua administração, procura não só silenciar protestos mas também atribuir a terceiros a culpa pela penúria da Venezuela.

A situação do país é grave. Sofrendo com elevadíssimas taxas de violência e inflação, registrou queda de 2,8% do PIB no ano passado. Sua população pobre foi de 25,4% para 32,1% de 2012 a 2013, e hoje escasseiam produtos básicos.

São as consequências das escolhas do chavismo, que desmantelou o setor privado, no campo econômico, e enfraqueceu as instituições, no político.

Ridículo enquanto retórica, o diversionismo de Maduro constitui preocupante ameaça quando se traduz em ações práticas --ameaça diante da qual o Brasil não pode permanecer calado.

Por ironia da história, Antonio Ledezma veio ao Brasil em outubro de 2009. Defendeu, no Senado, a entrada da Venezuela no Mercosul. Recebeu acolhida o argumento de que, dessa forma, seu país poderia ser instado a cumprir a cláusula democrática do bloco.

Contudo, misturando afinidades ideológicas e interesses comerciais, o Mercosul --e o Brasil-- finge que não vê a Venezuela violar preceitos básicos em qualquer democracia.

Uma nota do Itamaraty nem basta nesse caso. É preciso empreender esforços para fazer valer a cláusula democrática do Mercosul. A comunidade internacional com razão entenderá como cumplicidade a eventual omissão do Brasil.

Sergio Fausto - Brasil e Argentina, inquietantes semelhanças

- O Estado de S. Paulo

Dilma Rousseff apenas inicia, ao passo que Cristina Kirchner está por terminar seu segundo mandato presidencial. Apesar disso, Brasil e Argentina parecem, ambos, viver o encerramento de um ciclo político de mais longa duração. Em que pesem claras diferenças, há inquietantes semelhanças nos processos políticos experimentados pelos dois países sob o lulopetismo e o peronismo kirchnerista. A maior delas reside em que, a despeito de quase tudo indicar o esgotamento dos respectivos projetos políticos, não se verifica a articulação clara de alternativas à altura das melhores aspirações de renovação das instituições políticas e da cultura democrática nos dois países.

No Brasil, depois de quase vencer as eleições de outubro, o PSDB mostra-se até aqui incapaz de imprimir diretriz consistente à oposição democrática e menos ainda de estabelecer interlocução mais ampla com os atores sociais insatisfeitos com o status quo. Na Argentina, a oposição segue fragmentada e são grandes as chances de vitória, nas eleições de outubro, de um candidato que apenas atenue o pathos confrontacionista e discricionário do kirchnerismo. Não é improvável que no país vizinho ocorra a reconciliação pós-eleitoral da "família peronista", com Cristina e seus próximos em posição subalterna, mas sem ruptura com as práticas que caracterizaram seu governo e o de seu marido.

Em ambos os países se acumularam problemas econômicos decorrentes de erros de concepção e implementação de políticas públicas. Eles têm magnitudes diferentes porque na Argentina o "experimento desenvolvimentista" teve mais tempo e menores freios para seguir em frente. O Brasil encontra-se estrutural e conjunturalmente em melhor situação, mas não cabe ter ilusões: há pelo menos um ano a deterioração da economia brasileira surpreende pela velocidade e a tendência por ora não foi estancada, muito menos revertida.

Os problemas políticos, se não produzidos, ao menos agravados sob o lulopetismo e o kirchnerismo, são ainda maiores: personalismo da liderança, beirando o culto à personalidade; aparelhamento do Estado para fins partidários; entrelaçamento promíscuo de interesses políticos e empresariais.

Ao início, o kirchnerismo exibiu feições de uma versão moderna e progressista do peronismo. O governo de Néstor Kirchner deu resposta eficaz às expectativas de recomposição da capacidade de governo na esteira da crise brutal que atingiu a Argentina em 2001/2002. No plano econômico, com Roberto Lavagna no Ministério da Fazenda, reestruturou a impagável dívida externa do país e definiu uma política econômica apta a controlar a inflação e retomar o crescimento, aproveitando o vento de cauda soprado pela alta das commodities. No social, lançou programas de transferência de renda para reduzir a pobreza então crescente, ao passo que o mercado de trabalho começava a se beneficiar da retoma da economia. No político, buscou alianças fora de seu grupo político e colocou no topo da agenda o acerto de contas judicial com as violações dos direitos humanos durante a ditadura militar.

Em 2006, porém, o kirchnerismo sofreu uma mutação ativando genes presentes em seu DNA peronista, até então atenuados: o "transversalismo político" dos primeiros anos cede lugar à lógica do "nós" contra "eles"; a necessária recomposição da capacidade de governar, esfacelada pela crise, transforma-se em obsessiva procura por concentrar poderes na presidência e exercê-los de forma cada vez mais intrusiva e discricionária; com a saída de Lavagna, a condução da economia e dos negócios do Estado passa a submeter-se a objetivos políticos e eleitorais de curto prazo e a subordinar-se à estratégia de perpetuação do kirchnerismo no poder, sob Néstor ou Cristina. Cresce a manipulação de dados públicos sobre a economia e o Estado é posto a serviço do governo e do grupo político dominante, sob uma ideologia nacional-estatista.

Adeptos veem nessa "mutação" uma resposta necessária a um suposto "cerco conservador" que se armava contra o governo à medida que se revelavam a extensão e a profundidade das mudanças "progressistas" pretendidas pelo kirchnerismo. Além de se apoiar num "erro cronológico" - a "mutação" se dá antes do conflito com os produtores rurais, que a mesma narrativa assinala como o marco inaugural do suposto "cerco conservador" -, o argumento mostra a carga genética potencialmente antidemocrática de um certo "progressismo" em voga na América Latina.

Nos limites deste artigo é impossível uma comparação cuidadosa do lulopetismo com o kirchnerismo. Mas ao leitor atento não escaparão semelhanças inquietantes, entre elas o recurso insistente ao argumento do "cerco conservador" e seus derivados, como "o golpe da mídia", agora desdobrado, lá e cá, no "golpe do Judiciário", para justificar o que é injustificável sob uma ótica política progressista (sem aspas). Como pode ser progressista uma força política cuja ação solapa as bases institucionais e culturais de vida democrática?

Há diferenças significativas entre as forças que dominaram a política no Brasil e na Argentina nos últimos 12, 13 anos. Em favor do lulopetismo, reconheça-se sua maior racionalidade e capacidade de composição. A diferença principal, porém, não é intrínseca, é extrínseca às duas forças políticas. Ela reside em especial na maior qualidade das instituições brasileiras. Vamos precisar delas agora, mais que nunca, para navegar e superar a crise em que o País se encontra.

Todavia, se nos oferecem as regras para a solução pacífica dos conflitos, as instituições não podem, por si mesmas, suprir a falta de uma liderança política coletiva que defina novos caminhos. Com o governo enredado nas mentiras da campanha eleitoral e no escândalo da Petrobrás, cabe fundamentalmente às forças de oposição indicar e construir esses caminhos.

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Sergio Fausto, superintendente executivo do IFHC, colaborador do Latin American program do Baker Institute of Public Policy da Rice University, é membro do Gacint-USP.

Demétrio Magnoli - A democracia contra o ajuste fiscal

• Os parlamentares trairão seus eleitores se oferecerem um cheque em branco para Dilma, aprovando o pacote

- Folha de S. Paulo

Na campanha eleitoral, Dilma Rousseff garantiu que não daria um "cavalo de pau" em sua desastrosa política econômica. Logo depois, convocou Joaquim Levy para promover um severo ajuste fiscal. Na campanha, acusou Aécio Neves e Marina Silva de cercarem-se de "banqueiros" para conspirar contra as "conquistas do povo". Agora, como parte do ajuste concebido por seu "banqueiro", dirige ao Congresso um pacote de cortes de benefícios trabalhistas e previdenciários. Num editorial (15/2), a Folha pede que, em nome da credibilidade das finanças nacionais, o Congresso aprove o arrocho. A mensagem subjacente é que a política pode ser o reino da irresponsabilidade, com a condição de que a economia seja o da responsabilidade. Ou, em outra versão, que a função patriótica dos parlamentares é arcar com os custos do estelionato eleitoral praticado pela presidente.

Em nota oficial, o PT condenou os cortes almejados pelo governo. Em princípio, isso significa que o Congresso é chamado a convalidar o pacote contra os votos do principal partido governista. Há algo de divertido nessa ideia, que forma o núcleo oculto do editorial. O PMDB e os demais partidos da base, junto com o PSDB e os outros partidos de oposição, exerceriam o "patriotismo" de aprovar medidas impopulares, enquanto o PT seria oportunamente "derrotado", mas permaneceria na trincheira da defesa do "povo". Há um modo melhor de virar a democracia pelo avesso?

Dilma jamais admitiu a falência da política econômica de seu primeiro mandato. No discurso da segunda posse, cantou as delícias do país de suas fantasias, lançou a culpa pela recessão no cordeiro sacrificial da crise externa e reiterou as acusações contra a malvada oposição "neoliberal". Seus auxiliares esclareceram que Levy é um desvio de rota circunstancial, um curativo na ferida exposta, não o sinal de uma mudança de rumo. O BNDES prepara um socorro de US$ 3,5 bi à Sete Brasil. A Petrobras continua sob a direção de um "companheiro". Por qual motivo os parlamentares devem se associar à política da negação, que articula uma austeridade sem reformas de fundo?

Ontem, o governo dizia que os benefícios trabalhistas e previdenciários representavam um patrimônio intocável de conquistas sagradas do povo. Hoje, argumenta que o pacote de cortes destina-se a corrigir desvios, evitando fraudes. Ficamos sabendo, portanto, que os governos lulopetistas iludiram o país durante 12 anos, que a gerente implacável conviveu pacificamente com os abusos ao longo de todo o seu mandato --e que os patriotas do Planalto descobriram, repentinamente, as malversações de dinheiro público bem na hora do inadiável aperto das contas! Por que os parlamentares têm o dever de colocar suas assinaturas no pé da página desse discurso farsesco?

Não estamos em guerra ou sob o impacto de alguma catástrofe natural. O Brasil ainda se encontra longe do abismo da inadimplência que ronda a Argentina e a Venezuela. O apelo à "salvação nacional", pilar subterrâneo do editorial da Folha, é mais um sintoma da erosão de sentido da linguagem política nessa era de lulopetismo. Os governantes que recorrem à mentira para alcançar triunfos eleitorais devem pagar o preço de suas escolhas. Os parlamentares trairão seus eleitores se oferecerem um cheque em branco para Dilma, trocando o pacote do arrocho pelas tradicionais prebendas na administração pública. No lugar disso, têm a oportunidade de exigir que o governo comece a reconhecer a verdade, condição indispensável para enfrentar a crise.

O fracasso de Dilma 1, multiplicado pelo escândalo na Petrobras, abriu uma fresta para a entrada de uma lufada de ar puro na câmara de nossa democracia. O nome desse ar despoluído é a promessa de independência do Congresso. O voto sobre o corte de benefícios será o primeiro teste real dessa promessa.
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Demétrio Magnoli é sociólogo

.Perseverar com o ajuste econômico é a única saída – Editorial / O Globo

• Inflação alta, herança dos equívocos da política do primeiro governo Dilma, já levou a classe C a reduzir as compras nos supermercados

Especializado em acompanhar os hábitos de consumo da chamada nova classe média brasileira (principalmente a que é conceituada na classe C, com renda mensal em torno de R$ 2,9 mil), o Instituto Data Popular constatou uma queda nas compras de supermercado agora no início do ano, nessa faixa de consumidores.

Na avaliação do Instituto, a inflação alta e o endividamento elevado fizeram a classe C dar alguns passos atrás em relação ao que consumira nos últimos seis meses de 2014. Cerca de 47% das pessoas entrevistadas em 150 diferentes cidades disseram que estão comprando menos nos supermercados, e apenas 12% responderam que passaram a encher mais os carrinhos.

Era inevitável que isso acontecesse devido à combinação de baixo crescimento da economia com inflação acima do que seria aceitável. Daí a necessidade de se pôr em prática um ajuste na política econômica que volte a colocar nos eixos as finanças públicas e restabeleça condições que sustentem o crescimento.

Os críticos de tal ajuste, antes os defensores da política que se revelou um tremendo fracasso, o contestam sob a alegação de que a conta será paga pelos mais pobres. Ora, as pessoas que supostamente eram defendidas pela antiga política perderam poder de compra em decorrência do descaso com a inflação naquele período, um aspecto dessa mesma política. Sabia-se que os artificialismos e outros erros acabariam pesando no bolso do consumidor, e é o que ocorre.

A nova equipe econômica, consciente desse quadro grave, não perdeu tempo, e, já nas primeiras horas do segundo mandato da presidente Dilma, várias medidas de conserto das finanças públicas entraram em vigor, o que incluiu o corte de subsídios do Tesouro, sem que houvesse recursos para tal, nas tarifas de energia elétrica. A inflação represada veio à tona nos índices de preços de janeiro, mas, se a correção de rumos continuar, não levará muito tempo para os resultados começarem a aparecer, mostrando recuperação da economia.

A nova equipe econômica precisa que o Congresso ratifique a correção de rumos e não se deixe engabelar por discursos que tentam transformar em vítimas os assalariados e as camadas mais humildes da população. A inflação alta não decorre desse ajuste, pois é uma herança da política equivocada do primeiro governo Dilma. A deflação que ocorre no resto do mundo favorece o atual ajuste, pois a elevação dos índices de preços no Brasil logo esbarrará em uma pressão baixista vinda do exterior, e que somente não teve ainda efeito imediato devido à outra necessidade interna, o realinhamento do câmbio, com o real se desvalorizando frente ao dólar.

Não existe outra saída para essa crise a não ser perseverar com a política de correção de rumos, a única forma de se defender de fato os programas sociais, os pobres.

Alberto Dines - Nosso Leviatã

- Gazeta do Povo (PR)

Provavelmente traduzido do inglês, o bordão “mais do mesmo” frequenta os que assistem ao filme que está passando no telão da atualidade. Ou da história. Avaliação nada edificante, claramente restritiva, relutante. Como é impossível não se envolver com o infindável seriado em cartaz, não ler sobre ele, não ouvir seus sons, ignorar a fisionomia e o caráter dos protagonistas, resta torcer para que a continuação seja melhor.

Negativo: além de começar como sempre atrasada por causa do carnaval, a nova temporada está levando os críticos a se impacientar e subir de tom. No lugar de “mais do mesmo”, reclama-se, agora, do “mais, porém pior”.

O pedaço de filme a que nos cabe assistir em 2015 chegou com cara de fiasco e assim deve terminar: o triunfo nas urnas foi pífio, os vencedores dilacerados pelos aliados e, com esta superposição de rancores – que os escândalos, a crise econômica, a falta de pulso e um ministério de nulidades só tendem a agravar –, ficamos sem outra alternativa senão deletar os capítulos deste ano e pular para 2016 ou 2018.

Cada cultura e cada civilização tem um Leviatã particular. O nosso monstro não é marinho, mas subterrâneo – imensa e infinita tristeza que nossos caciques há séculos teimam em sepultar ou disfarçar. Decepções ou angústias são formas de energia que não se deve desperdiçar. Delas podem resultar prodígios, desde que assumidas. As nossas aflições são cinicamente proibidas, desterradas de convívio cotidiano. Tenta-se distraí-las com promessas de milagre, não se sustentam – o pré-sal mal começou e já ameaça ir embora. Inventam-se festas custosas, enganosas, não satisfazem – a conta do dia seguinte é exorbitante.

“Numa terra radiosa vive um povo triste”: com estas sete palavras Paulo Prado começou o seu Retrato do Brasil em 1928, mas sua extraordinária descoberta raramente é compartilhada. O ensimesmado é antissocial, não é boa praça; ao contrário, é um perturbador do sistema, agente subversivo, desagregador, que a sociedade deve rejeitar. Todo o empenho dos governantes, independentemente de suas ideologias, gira em torno da sumária eliminação dos melancólicos.

O carnaval recém-encerrado oferece um exemplo cabal do nosso horror à tristeza. O tríduo original foi expandido; o domínio do Rei Momo estendido por uma semana agora ultrapassa as Cinzas e chega à Quaresma. A folia de rua foi maximizada, mesmo que as estruturas urbanas fiquem ainda mais estressadas; o colapso hídrico está sendo varrido para debaixo do tapete; e o desfile no Sambódromo carioca – espetáculo-patrimônio nacional –, canibalizado por sucessivas camadas de malfeitores: torturadores do regime militar, contraventores, mafiosos, milicianos e ditadores bilionários. Irrelevante a origem dos recursos, vale o sucesso em convocar euforias.

Sabia-se do aporte de R$ 10 milhões da ditadura da Guiné Equatorial à tradicional escola de samba Beija-Flor para cantar a africanidade. Sabia-se, mas ninguém o questionou. E, no exato momento em que os carnavalescos de Nilópolis são eleitos como campeões, aquilo que seria o ponto de partida numa sociedade democrática – um debate sobre legitimidade dos patrocínios – é convertido em castigo, vingança dos perdedores.

O conluio entre regras frouxas, elites arrogantes e a contumaz aversão ao debate criou um território de ambiguidades onde se torna mais cômodo dissimular e apelar para a hipocrisia do que permitir o quieto rolar de lágrimas.
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Alberto Dines é jornalista.

Beth Carvalho - Tristeza-Madureira chorou-Barracão-Firme e forte

Carlos Drummond de Andrade - Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.