quinta-feira, 19 de novembro de 2015

MP pede quebra de sigilos de Carvalho

• Pedido da Operação Zelotes é extensivo às empresas de Luis Claudio Lula da Silva

Jailton Carvalho - O Globo

-BRASÍLIA- Procuradores que estão à frente da Operação Zelotes endossaram sugestão da Receita Federal e pediram a quebra dos sigilos bancário e fiscal do ex-secretário-geral da Presidência Gilberto Carvalho e também da LFT Marketing Esportivo e mais duas empresas de Luis Claudio Lula da Silva, um dos filhos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O pedido foi apresentado no mês passado. Caberá ao juiz da 10ª Vara Federal, Vallisney Oliveira, decidir se os argumentos são suficientes para autorizar uma devassa nas contas do ex-ministro e das empresas do filho do expresidente. A Receita Federal sugeriu a quebra do sigilo bancário e fiscal a partir de investigação sobre a atuação de um grupo de lobistas supostamente chefiado pelo ex-vice-presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) Mauro Marcondes.

O grupo é acusado de receber mais de R$ 32 milhões da Caoa e da MMC, representantes da Hyundai e Mitsubishi, para comprar trechos de uma medida provisória favoráveis às duas montadoras. A medida foi editada em 2009 pelo então presidente Lula e aprovada pelo Congresso. O texto foi reeditado em 2011 e 2013.

A PF identificou diversos políticos e servidores públicos que tiveram contato com Mauro Marcondes
durante as negociações da medida provisória de isenção fiscal para as montadoras. Entre essas pessoas está Carvalho. Em depoimento à PF em 26 de outubro, Carvalho disse que agendou reunião de Marcondes com Lula.

Carvalho argumenta que Marcondes era vice-presidente da Anfavea e, portanto, era natural que fosse recebido pelo presidente. Segundo ele, vários outros empresários do setor se reuniram com Lula para tratar da MP.

Os investigadores da Zelotes querem aprofundar a apuração sobre pagamentos de R$ 2,4 milhões de uma empresa de Marcondes para a LFT Marketing Esportivo, em 2014.

Em depoimento à PF, Marcondes disse que contratou a LFT para fazer pesquisas e consultorias relacionadas ao marketing esportivo. A PF acha as explicações insuficientes. A empresa de Luis Claudio não tem funcionários.

Carvalho disse que não vê problema na quebra do sigilo bancário e fiscal dele. Afirmou que, quando compareceu a PF para depor, colocou a disposição dos investigadores as contas bancárias, fiscais e telefônicas. Ele só não concorda com a proposta inicial da Receita de estender a quebra dos sigilo aos contas de um restaurante que a filha tinha em Brasília. O restaurante faliu:

— Da minha parte estou tranquilo. Sou homem público, não tenho problema em ser investigado. Só espero que excluam a minha família. O restaurante faliu. Vai ser uma exposição pública desnecessária.

Dilma teme passar imagem de que ‘entregou’ governo

Vera Rosa - O Estado de S Paulo

BRASÍLIA - A resistência da presidente Dilma Rousseff a substituir o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, vai além do inconveniente de fazer mudanças em plena votação das medidas do ajuste fiscal. Dilma avalia que trocar Levy pelo ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles é o mesmo que entregar o governo para Luiz Inácio Lula da Silva, seu padrinho político.

Após muita insistência, na linha “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, Lula conseguiu tirar os superpoderes de Aloizio Mercadante e encaixar no núcleo duro do Palácio do Planalto os ministros Jaques Wagner (Casa Civil) e Ricardo Berzoini (Secretaria de Governo), dois petistas de sua inteira confiança.

Dilma sabe que, se ceder agora o comando da economia, passará a imagem de que virou uma rainha da Inglaterra, justamente no momento em que busca recuperar popularidade.

Diante da rebeldia da afilhada, que disse não concordar com tudo o que seu padrinho diz, Lula começou a negar com mais ênfase que tenha indicado Meirelles para o lugar de Levy. O desmentido em público, porém, não condiz com suas ações nos bastidores para emplacar o ex-presidente do Banco Central na cadeira hoje ocupada pelo ex-executivo do Bradesco.

Meirelles ficou envaidecido com a lembrança de seu nome por Lula, com quem trabalhou oito anos, mas não foi convidado por Dilma. Ela até admite que, se a economia degringolar, terá de dispensar Levy em 2016, mas não tem afinidade com o preferido do ex-presidente.

Há nove dias, porém, no auge dos rumores sobre a troca na Fazenda, Meirelles não escondeu a satisfação com o impacto da boataria no mercado. Ao ser flagrado conferindo uma notícia no seu celular, minutos após aparecer ao lado de Levy na Confederação Nacional da Indústria (CNI), em Brasília, ele exclamou: “Oh, o dólar está caindo!”.

PSDB lança documento com propostas anticrise e rivaliza com PMDB

Por Painel – Folha de S. Paulo

Para chamar de seu O PSDB também prepara um documento para se posicionar como alternativa de poder e apresentar saídas para a crise. O texto, que será lançado na segunda semana de dezembro, terá foco na área social e servirá de trampolim para tentar recolocar o partido como protagonista da cena nacional, palco até aqui ocupado pelo PMDB. Presidente da legenda, o senador Aécio Neves dirá que “o PT fracassou na última bandeira que lhe restava como discurso”.

Notáveis Aécio pediu a economistas ideias para contornar a crise. O grupo é organizado por Armínio Fraga. O PSDB também prepara a revisão de pontos de seu programa partidário. Para tucanos, o PMDB não pode conquistar o papel de salvador da pátria.

PSDB reage e chama documento do PMDB de peça de ficção

Daniela Lima – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - A cúpula do PSDB no Senado reagiu nesta quarta-feira (18) à tentativa de setores do PMDB ligados ao vice-presidente Michel Temer de se credenciar como porta-voz de uma agenda austera na economia para tirar o país da crise.

Presidente nacional dos tucanos, o senador Aécio Neves (MG) disse que "levaria mais a sério" a proposta do PMDB se o partido "deixasse os sete ministérios que ocupa no governo para defender" ao lado da oposição asideias que apresenta no documento intitulado "Ponte para o futuro".

Ele insinuou ainda que o PMDB se apropriou de propostas feitas pelos tucanos durante a última eleição presidencial, quando foi o candidato da sigla ao Planalto. "Levaria mais a sério se o PMDB deixasse os sete ministérios que ocupa para defender ao nosso lado essas propostas, muitas convergentes com as nossas, que defendemos na campanha eleitoral", afirmou o tucano.

Aécio afirmou ainda que "enquanto o PMDB integrar o governo, esse programa passa a ser algo secundário", como uma peça de marketing.

Questionado se havia risco de os tucanos verem seu discurso roubado pelos peemedebistas, respondeu: "Não vou nem considerar séria essa pergunta. O PSDB dá as boas-vindas ao PMDB no debate das questões do Brasil, mas o partido majoritariamente ainda prefere os cargos que têm no governo", concluiu.

Do nada para lugar nenhum
Líder da bancada tucana no Senado, Cassio Cunha Lima (PB) foi mais longe e disse que o documento apresentado pelo PMDB é "uma ponte que liga o nada para lugar nenhum".

"O PMDB é muito inovador e agora quer fazer oposição estando dentro do governo. A peça é uma ficção política", concluiu.

Para Cunha Lima, a repercussão do documento é um reflexo do "vazio" que domina o cenário atual e representa uma "humilhação" para a presidente Dilma Rousseff. "O maior partido da aliança apresenta propostas na direção contrária que eles pregam. Só um governo muito fragilizado... é a humilhação suprema."

Documento do PMDB dá oportunidade para Dilma – Editorial / O Globo

• À parte análises e especulações em torno dos propósitos do vice Michel Temer com o documento econômico do partido, ele serve de base a uma ampla negociação com o governo

Fritura de ministro da área econômica pelo núcleo do poder é parte da crônica política do país toda vez que a economia entra em pane. Compreensível. Mas a situação se agrava quando esse tipo de conspirata degrada ainda mais o próprio cenário econômico, num certeiro tiro no pé. Louve-se, portanto, a coragem da presidente Dilma de, antes de embarcar de volta na Turquia, depois da reunião do G-20, respaldar o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, o qual figuras estreladas do PT desejam debilitar. “Fica onde está", enfatizou a presidente.

Assim, Dilma concede ao ministro a força de que ele necessita para avançar na direção correta num imprescindível ajuste fiscal. Sem ele, insista-se, os horizontes da economia não se desanuviarão, as pressões inflacionárias se manterão e investidores e consumidores continuarão recolhidos, enquanto o PIB encolhe e persiste a onda de desemprego. Uma queda livre no princípio profundo de uma recessão poucas vezes vista no país.

Terça-feira, no dia seguinte ao da declaração de Dilma de respaldo a Levy, o PMDB, formalmente o segundo maior partido da base do governo, lançou, em um congresso da legenda, de forma oficial, o documento “Uma ponte para o futuro”. Trata-se de um texto bem articulado, com propostas consistentes para o Brasil sair do atoleiro para onde foi levado desde que a partir do segundo mandato de Lula e no primeiro de Dilma o programa do velho PT foi aplicado sob o nome fantasia de “novo marco macroeconômico”.

O PMDB não pode ser comprado pelo valor de face, sabe-se. Nunca é de fato o que parece, porque se trata de uma federação de tendências, mantidas no mesmo barco pela proximidade dos cofres públicos e pela perspectiva de se manter neste mesmo lugar, independentemente de quem esteja no Planalto. Foi assim nos governos do PSDB, é assim nos do PT, será assim sempre.

Mas é certo que o partido, por meio do vice-presidente da República, Michel Temer, e presidente da legenda, conseguiu, com este documento, firmar um referencial na crise política que permite negociações sobre um projeto de efetiva solução da séria crise econômica.

Há diversas especulações e análises sobre o objetivo peemedebista com o lançamento das propostas. Seria a plataforma para Temer negociar o apoio a seu governo, na eventualidade de Dilma sucumbir a um impechment.

Importa é que Dilma precisa do apoio do PMDB para fazer o necessário ajuste fiscal, incluindo reformas como a da Previdência, além de outras mudanças em leis e na própria Constituição, para impedir que as despesas públicas continuem a crescer mais que as receitas, fórmula infalível de uma debacle fiscal já em curso.

Este é o ajuste imprescindível. O documento do PMDB, baseado na visão correta de um ajuste estrutural, não deixa de ser um convite ao entendimento com Dilma. Ela deveria aceitá-lo.

O PMDB como ele é – Editorial / O Estado de S. Paulo

Nada é mais tristemente representativo da realidade política brasileira do que esse poderoso partido-ônibus – porque nele cabem todos – chamado PMDB. Sua liderança mais expressiva – Michel Temer, não por acaso vice-presidente da República – é a figura emblemática desse fenômeno político-partidário que sintetiza a lógica segundo a qual o que justifica a existência de um partido político é a luta pelo poder. No caso peculiar do PMDB, contudo, é preciso esclarecer: qualquer poder. Não há outra explicação, por exemplo, para a legenda comandada por Michel Temer ser há anos a principal aliada de um governo fortemente estatizante – no qual ocupa hoje nada menos do que sete ministérios – e simultaneamente defender um programa de governo, a “ponte para o futuro” proposta pela Fundação Ulysses Guimarães, que, entre outras coisas, contém propostas para reduzir o papel do Estado.

Essa é uma contradição admissível no caso de coalizões de emergência destinadas a superar crises graves que colocam em risco a estabilidade institucional. Poderia até ser o caso no Brasil. Mas não é – pelo menos por enquanto – seja porque as instituições fundamentais de nosso sistema democrático se têm demonstrado suficientemente sólidas, seja porque as principais lideranças políticas, especialmente as que estão no poder, revelam-se incapazes de compartilhar de fato esse poder para tirar o País do impasse político e do atoleiro econômico. Ninguém demonstra desprendimento ou disposição de colocar em risco seus ativos políticos em favor do bem comum.

E foi exatamente isso que fez o PMDB no curioso encontro que promoveu na terça-feira em Brasília, no qual foi tudo montado para mostrar que o partido é exatamente aquilo que cada uma de suas muitas facções quer que ele seja. Na fala principal, Michel Temer exercitou a retórica da conciliação do inconciliável, colocando-se suficientemente distante de Dilma Rousseff para manter animados os defensores do rompimento com o governo petista, mas também minimamente fiel à aliança com o Planalto para tranquilizar os muitos correligionários que desfrutam das benesses do poder.

Temer recorreu a uma sucessão de clichês: “Nós estamos juntos procurando soluções para o País. Não é de hoje que temos falado em reunificar o pensamento nacional e pacificar a Nação. Não é da índole do brasileiro a disseminação do ódio”. E ainda se permitiu um rasgo de modéstia – “por enquanto não, obrigado” – quando grupos entoaram o coro “Brasil/Pra frente/Temer presidente”. E estendeu-se na explicação: “Vamos esperar 2018. Vamos lançar um grande nome do PMDB. Estou encerrando minha vida pública”. Acredite quem quiser, até porque ele já contratou um advogado especialista em legislação eleitoral para tentar desvincular sua candidatura a vice em 2014 da candidatura de Dilma Rousseff, de modo a impedir que eventual cassação do mandato da presidente pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) atinja também seu mandato de vice-presidente, impedindo-o de assumir a chefia do governo.

Em resumo, o “congresso” peemedebista, que chegou a ser visto como primeiro passo para a formalização do rompimento com Dilma, resumiu-se a uma encenação da qual o PMDB saiu exatamente como entrou: confortavelmente instalado no governo e à espera da melhor oportunidade para assumir o papel político a que se considera destinado diante da falência do projeto de poder do PT. Essa oportunidade parece estar reservada para o meio do próximo semestre, quando os previsíveis agravamentos da crise econômica e do enfraquecimento político de Dilma e do PT coincidirão com a Convenção Nacional do PMDB, agendada para o mês de março.

Até lá – certamente Temer torce também para isso – o partido pode ter-se livrado do constrangimento de ostentar como uma de suas principais lideranças o mendaz presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, alvo de hostilidades na reunião de Brasília. E, acima de tudo, o País estará a apenas sete meses das eleições municipais, estratégicas para o fortalecimento da hegemonia política de um partido que fará o possível para poupar seus candidatos de qualquer tipo de associação com tudo o que o PT representa.

Por um triz – Editorial / Folha de S. Paulo

Após meses de agonia, o governo federal debelou uma das principais ameaças ao ajuste das contas públicas. Em votação realizada na terça-feira (17), o Congresso manteve o veto da presidente Dilma Rousseff (PT) ao reajuste dos servidores do Poder Judiciário. Estimava-se em R$ 36 bilhões até 2019 o impacto dessa medida.

"Foi por um triz", disse o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE). Referia-se ao fato de só 132 deputados terem se mostrado fiéis à presidente, ao passo que outros 251 votaram contra o governo, incluindo nove petistas e 26 peemedebistas. A demagogia precisava de apenas seis votos a mais.

Na sessão desta quarta-feira (18), o Planalto obteve nova vitória. Com 160 votos favoráveis à canetada presidencial e 211 contrários, a Câmara dos Deputados preservou o veto ao dispositivo que estendia a aposentados e pensionistas do INSS os aumentos do salário mínimo acima da inflação –com custo anual calculado em R$ 9,2 bilhões.

Mesmo dispondo de uma base frágil e descoordenada, o Planalto tem conseguido sobreviver ao campo minado em que se transformou o Congresso. Desarmou a "pauta-bomba" do Legislativo e, ao menos por ora, viu reduzirem-se as chances de ser aberto processo de impeachment contra Dilma.

Foi igualmente por um triz. O deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), investigado na Operação Lava Jato, terminou alvejado no exato momento em que parecia disposto a dar encaminhamento favorável aos pedidos da oposição.

Enfraquecido pelas denúncias de corrupção e por ter mentido a respeito das contas bancárias na Suíça, o presidente da Câmara perdeu o apoio do PSDB. Na semana passada, Cunha confidenciou a aliados sua decepção com os tucanos e disse que a deflagração do impeachment, já não tendo o mesmo apelo, ficou para 2016, no mínimo.

O próprio PSDB, desgastado pela falta de coerência doutrinária exibida nos últimos meses, sinaliza a intenção de dialogar com o governo quando estiverem em questão projetos de interesse do país.

O cenário de arrefecimento das tensões políticas se refletiu no encontro do PMDB, na terça-feira (17). O evento, que chegou a ser anunciado como marco da ruptura com o Planalto, transcorreu sem críticas mais incisivas à gestão da presidente Dilma Rousseff –e coube ao vice, Michel Temer, desautorizar gritos pró-impeachment.

Claudicante como tem sido ao longo de todo este ano, o governo pelo menos ampliou sua vexatória lista de vitórias no campo político. Conhece agora um arremedo de calmaria –mas decerto receia que seja apenas o prenúncio de novas tempestades.

Levy defende proposta que fixa teto para dívida da União

• Projeto de José Serra, porém, é criticado pela equipe econômica no Senado

Martha Beck – O Globo

-BRASÍLIA- A audiência pública da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, realizada ontem, para debater o projeto que fixa tetos para as dívidas líquida e bruta da União, acabou se tornando o retrato da falta de sintonia na equipe econômica. Em cima da hora, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, decidiu ir à CAE para defender a proposta, alegando que ela é um instrumento importante para disciplinar os gastos públicos. No entanto, logo em seguida, técnicos da própria Fazenda e do Planejamento fizeram uma série de ressalvas ao texto, que é relatado pelo senador José Serra (PSDB-SP).

Os sinais trocados chegaram a confundir aliados. O senador Lindbergh Farias (PT-RJ) ouviu a fala de Levy e logo em seguida perguntou ao ministro qual era exatamente sua posição em relação ao projeto. Ele lembrou que foram feitas consultas ao Tesouro Nacional e ao Banco Central sobre o assunto e que as duas áreas se manifestaram contra a ideia:

— Eu sou da base e estou confuso. Conversei com o Banco Central e com o Tesouro e todos foram contra o projeto. Não estou entendendo a posição do ministro.

Levy respondeu que quis se posicionar sobre o espírito do projeto e não necessariamente sobre os limites nele fixados. O ministro definiu o texto como “disciplinador” e afirmou que o Tesouro iria apresentar uma série de cenários alternativos aos do texto de Serra, com soluções para a trajetória de crescimento da dívida nos próximos anos:

— Esse é um projeto disciplinador. Ele pode nos servir bem se for acompanhado de outras medidas que vão enfrentar a questão do gasto corrente. Se essa questão for devidamente tratada, vai fazer os juros caírem. Temos que dar passos audaciosos. 

Para planejamento limite não funciona 
Pela proposta de Serra, durante os primeiros cinco anos da nova regra, as duas dívidas poderiam subir. Assim, o endividamento bruto, que hoje equivale a 5,6 vezes a receita corrente líquida (RCL), teria autorização para chegar a 7,1 vezes. Já a dívida líquida poderia passar de 2,2 vezes a RCL, como é hoje, para 3,8 vezes. No entanto, a partir do sexto ano, teria de haver uma queda linear das dívidas, e os limites de 4,4 (dívida bruta) e 2,2 (dívida líquida) deveriam ser atingidos até o 15 º ano.

O subsecretário de Planejamento e Estatísticas Fiscais do Tesouro, Otávio Ladeira, fez uma apresentação na qual afirmou que a proposta do senador cria riscos para a gestão da dívida, podendo se tornar inviável a médio e longo prazos. De acordo com o técnico, “deixar de fazer a boa gestão, para alcançar limites definidos sem debate mais aprofundado, não é uma boa prática e não se justifica. Significaria apenas deteriorar as condições de financiamento público, isto é, elevar o custo e o risco da dívida pública, confrontando-se com o propósito defendido pelo senador na justificativa do projeto”. No modelo da Fazenda, mesmo que o governo fizesse um superávit primário (economia para o pagamento de juros da dívida pública) de 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país) de 2019 a 2030, não seria possível fazer a dívida convergir para os 2,2 propostos por Serra.

O chefe da assessoria econômica do Ministério do Planejamento, Manoel Pires, foi ainda mais crítico. Em linha com o que defende seu chefe, o ministro Nelson Barbosa, Pires afirmou que limites para a dívida pública não têm se provado eficazes. Para ele, o foco devem ser as metas de superávit primário e o controle dos gastos:

— Limites para a dívida pública não têm se mostrado mecanismos eficazes de controle fiscal. E sanções, tais como as que limitam o financiamento da dívida, tendem a aumentar a percepção de risco.

Interlocutores de Levy procuraram minimizar a falta de sintonia nas posições da Fazenda durante a audiência pública. Segundo eles, o ministro foi à CAE para substituir o secretário do Tesouro, Marcelo Saintive, que teve de despachar no Rio de Janeiro, e sua missão seria diferente da dos demais integrantes da equipe. Levy foi falar sobre a importância dos instrumentos de controle de gastos num momento em que o Congresso discute limites para a dívida pública. Já o papel do Tesouro seria mostrar o quadro atual da dívida e alertar para os parâmetros propostos. Quem participou do debate, porém, não entendeu dessa forma.

Levy: ‘pedaladas’ são metade do déficit
No início da audiência, o presidente da CAE, Delcídio Amaral (PT-MS), disse que Levy havia se convidado para o debate.

— O ministro Levy se convidou. Ele quis participar do debate. Não sou eu quem vai dizer não. Está mais fácil trazer o ministro da Fazenda aqui na CAE do que o presidente da Petrobras (Aldemir Bendine). Parece até que a Petrobras é maior que o Estado — alfinetou.

Na saída da comissão, Levy voltou a ser perguntado sobre sua permanência no cargo.

— Estou sempre tranquilo, calmo. Eu não estou tranquilo é com vocês aqui com medo (risco) de tropeçar. Esse negócio de esses caras andarem de costas é que me deixa extremamente intranquilo — brincou o ministro, referindo-se aos cinegrafistas que o filmavam na saída da CAE.

Na audiência, Levy destacou que metade do déficit de mais de R$ 100 bilhões nas contas públicas estimado pelo governo para este ano se deve à necessidade da União de pagar passivos de anos anteriores. O Ministério da Fazenda estimou rombo de até R$ 60 bilhões para o setor público consolidado este ano, caso haja frustração de receitas de concessões. Outros R$ 57 bilhões, referentes às “pedaladas” fiscais, ainda poderiam complementar o resultado negativo.

— Metade disso (do deficit) se deve a uma tentativa que estamos construindo de dar solução a passivos anteriores, com intuito de criar medidas de estímulo e crescimento — afirmou Levy.

Desemprego alcança 7,9% em outubro, o maior para o mês desde 2007

Por Robson Sales | Valor Econômico

RIO - (Atualizada às 9h48) A taxa de desemprego de seis grandes regiões metropolitanas do país aumentou para 7,9% em outubro, de acordo com dados da pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É o pior resultado para o mês desde 2007, quando o índice havia ficado em 8,7%.

Em setembro, o desemprego alcançou 7,6%. Em outubro do ano passado, o nível de desocupação estava em 4,7%.

O indicador de desocupação ficou acima da média de 7,6% apurada pelo Valor Data junto a 18 consultorias e instituições financeiras.

O IBGE mostrou que a população desempregada aumentou 3,2% em setembro, ou 60 mil pessoas a mais, e saltou 67,5% perante outubro de 2014, alta recorde para a série, iniciada em 2002, ou 771 mil pessoas a mais em busca de trabalho. O contingente de desempregados ficou em 1,9 milhão.

Ainda na comparação com outubro de 2014, o crescimento da população desocupada também foi o maior da série nas regiões metropolitanas de São Paulo (avanço de 86,2%, mais 383 mil pessoas) e em Belo Horizonte (alta de 82,4%, incremento de 76 mil pessoas).

Com relação à população empregada, de 22,5 milhões, houve queda de 1% (230 mil pessoas) ante setembro e redução de 3,5% (825 mil pessoas) ante outubro do ano passado.

Renda
O rendimento médio real habitual ficou em R$ 2.182,10 em outubro, o que representou recuo de 0,6% perante setembro e de 7% na comparação com outubro de 2014.

A massa de rendimento médio real habitual alcançou R$ 49,6 bilhões, valor 1,7% menor que o total observado em setembro e 10,4% mais enxuto que o verificado em outubro do ano passado.

A pesquisa abrange as regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife, Salvador e Belo Horizonte.

Roberto Freire: Uma ponte para o futuro

- Blog do Noblat / O Globo

Enquanto as forças políticas do país e a sociedade brasileira procuram saídas para uma das mais graves crises de nossa história republicana, em meio à total incapacidade da presidente Dilma Rousseff de conduzir o atual governo em busca de soluções, é sintomático que tenha sido o PMDB, um dos maiores partidos da base aliada, a apresentar propostas para que o Brasil retome o caminho do desenvolvimento. No documento intitulado “Uma ponte para o futuro”, lançado durante o congresso da Fundação Ulysses Guimarães, está traçado um conjunto de ideias que merecem ser debatidas e podem servir como ponto de partida para um possível e necessário governo de união nacional.

Diante do agravamento das crises econômica, política e moral, além da absoluta incompetência de Dilma e do PT para comandar o país, é fundamental que os atores políticos comprometidos com o futuro do Brasil se unam em torno de um programa centrado, sobretudo, no ajuste da máquina pública e nas reformas estruturantes do Estado como introdução de uma política de desenvolvimento. Por outro lado, a mobilização popular em defesa das propostas desse governo de transição reforçará sua legitimidade para avançar sem maiores percalços.

No documento do PMDB, as reformas que o PT não levou adiante em 13 anos de governo são citadas como preponderantes para a superação da crise. O texto lembra que “o Estado brasileiro vive uma severa crise fiscal, com déficits nominais de 6% do PIB em 2014 e de inéditos 9% em 2015, e uma despesa pública que cresce acima da renda nacional, resultando em uma trajetória de crescimento insustentável da dívida pública que se aproxima de 70% do PIB, e deve continuar a se elevar, a menos que reformas estruturais sejam feitas para conter o crescimento da despesa”.

Além do apoio majoritário da população ao impeachment de Dilma, constatado por levantamentos recentes dos principais institutos de pesquisa, é nítido que até mesmo setores do mercado financeiro, antes refratários a esta legítima e democrática intervenção constitucional, já reconhecem publicamente que o impedimento se apresenta como o passo inicial e talvez mais importante para destravar o país. É exatamente o que defendemos: o afastamento da presidente da República, votado pelo Congresso Nacional com base na lei, na democracia e no respeito à Constituição, e uma ampla discussão que gere um consenso sobre os principais pontos de um verdadeiro projeto nacional de desenvolvimento.

Com Dilma, Lula e o PT, estaremos fadados a mais três longos anos de inflação, queda da renda, endividamento das famílias, desemprego, falta de investimento e de credibilidade, além da interminável série de escândalos de corrupção que enxovalharam a esquerda e enlamearam o país como nunca antes em nossa história. A ponte para o futuro proposta pelo PMDB, que deve ser discutida especialmente pelas oposições, pode ser um norte para que o país comece a superar a crise e alcance um novo patamar econômico, político e moral. A travessia não será fácil, mas o Brasil é muito maior que o lulopetismo e está pronto para escrever um novo capítulo de sua história. O futuro pede passagem.

-----------------
Roberto Freire é deputado federal por São Paulo e presidente nacional do PPS

Bolívar Lamounier: Que raio de país é este, afinal?

- O Estado de S. Paulo

Deixo provisoriamente de lado o assunto corrupção para recapitular um pouco dos últimos anos e suscitar algumas questões que suponho sejam do interesse de todos os leitores.
Em 2009-2010, em dobradinha com Luiz Inácio Lula da Silva, o dr. Henrique Meirelles manteve a economia brasileira superaquecida; o objetivo, mais que evidente, era garantir a eleição da sra. Dilma Rousseff e proporcionar-lhe uma boa bancada de apoio no Congresso Nacional.

Iniciado o governo da sra. Dilma em janeiro de 2011, a retração econômica viriapar la force des choses, como se costuma dizer. Mas a sra. Dilma Rousseff e seu bravo escudeiro no Ministério da Fazenda, o dr. Guido Mantega, não receberam com alegria a ideia de serem atropelados pela força das coisas. No entender deles, a saída estava ao alcance da mão: bastava turbinar o consumo, dando rédea solta ao crédito, achatando os juros e despejando uns tantos bilhões em alguns setores-chave, a começar pelo automobilístico. Essa fórmula tão simples – que Dilma Rousseff até tentou explicar à primeira-ministra alemã, Angela Merkel... – reporia o Brasil na trajetória do crescimento e impediria o aumento do desemprego, preocupação socialmente bondosa e eleitoralmente mais que louvável.

Cortar gastos de custeio ou investimentos que ela mesma, a presidente da República, considera urgentes e de alta qualidade equivaleria a passar recibo de herege, logo ela, que, em tais assuntos, parece sentir-se diretamente inspirada por uma luz divina. De sua boca não sairiam as seis heréticas letras da palavra “ajuste”; que as pronunciasse o cavalheiro que ousou enfrentá-la na disputa presidencial de 2014. A “força das coisas” deu finalmente o ar de sua graça: milhões de brasileiros antes estimulados a ascender ao paraíso da “classe média” de lá retornaram com muitos carnês para pagar e o rabo entre as pernas.

E eis senão quando, nesse cenário concebido para não ter defeitos, de repente irrompeu um pequeno problema: certos “malfeitos”, como o Lula costuma dizer, escapuliram do local onde haviam sido ocultados, nos porões da Petrobrás. A força das coisas não é de aparecer a qualquer momento, mas consegue ser bem cruel quando aparece. Não foi preciso fuçar muito para se determinar que os “malfeitos” na Petrobrás foram meticulosamente urdidos durante o governo Lula e executados, em sua maior parte, quando a sra. Dilma Rousseff, uma competência administrativa cantada em prosa e verso, presidia o Conselho de Administração da grande estatal brasileira.

Do restante da história todos se lembram, não cometerei o despropósito de o relembrar. Passo, pois, às indagações a que me referi no início – e de antemão peço desculpas pelo aborrecimento que elas possam causar a meus eventuais leitores.

A primeira eu tomo emprestada de Francelino Pereira, um piauiense que governou Minas Gerais: “Que país é este?”. Ou, para ser mais preciso, que raio de país é este onde a sociedade inteira assiste passivamente ao sr. Lula e à sra. Dilma, movidos por sua gana de poder e pela busca da vitória eleitoral a qualquer preço, fazendo e desfazendo o que bem entendem?

Escrevi “a sociedade inteira”, mas apresso-me a fazer uma correção. A obrigação de dar um basta a disparates, ao desprezo pelos alertas que os economistas não se cansaram de fazer e a não poucas ilegalidades – essa obrigação cabe, em primeiro lugar, ao Congresso Nacional, aos partidos políticos e às elites. Sobre a inépcia do Congresso Nacional e dos partidos no período a que me estou referindo, creio que nada mais há a dizer. Digamos só que foi (tem sido) patética.

E as elites do País?

Os petistas que me perdoem: não posso desperdiçar o espaço de que disponho discutindo o sexo dos anjos, como eles gostam de fazer a propósito desse conceito. Qualquer pessoa alfabetizada e disposta a argumentar honestamente sabe que não há no Brasil uma elite aristocrática, inacessível, muito menos uma elite fechada, oculta, permanentemente ocupada em conspirar contra sabe-se lá o quê.

Elite, no Brasil, é o ápice para o qual convergem os indivíduos que mais se destacam na sociedade, uns poucos em razão de sua renda ou seu patrimônio, a vasta maioria por exercer funções hierárquicas elevadas em diferentes instituições ou organizações: empresários e líderes sindicais, desde logo, mas também a alta administração civil e militar, os principais jornalistas e editores, os professores universitários, os intelectuais mais produtivos, os clérigos mais altos das diferentes denominações e outros mais.

O que pergunto é, pois: que raio de país é este em que os integrantes de tais grupos não percebem ou aceitam passivamente o aviltamento da democracia, a dilapidação de recursos públicos numa escala astronômica e uma operação cuidadosamente planejada para subtrair recursos de uma empresa respeitada, por pouco não a levando à bancarrota?

A passividade dos grupos mencionados, o fato de levarem a vida como se habitassem um arquipélago, cada um em seu pequeno paraíso tropical; o desinteresse pela destinação dos impostos que pagam – tudo isso causa espanto.

Salta aos olhos que a imensa maioria fala de menos. E uns poucos, convenhamos, falam demais.

Onde é que já se viu, numa democracia, um integrante da Suprema Corte – falo do ministro Ricardo Lewandowski – se dirigir aos cidadãos como conselheiro político: “Devagar com o andor, minha gente, esse negócio de impeachment pode levar a um golpe!”.
----------------------
Bolívar Lamounier é sócio-diretor da Augurium Consultoria, é autor de ‘Tribunos, profetas e sacerdotes’ (Companhia das Letras, 2014)

Merval Pereira: Falsa disputa

- O Globo

O senador e ex-presidente eleito Tancredo Neves tinha uma premissa que fazia questão de destacar nas negociações políticas: existe um programa para ganhar a eleição, e outro para governar. Premissa semelhante à prática de partidos de esquerda, que “tocam violino”: pegam o governo com a esquerda, mas governam com a direita.

Nada a ver, diga-se, com estelionatos eleitorais como os de Dilma, que simplesmente colocaram de cabeça para baixo tudo o que defendeu na campanha. A frase de Tancredo propõe apenas certa cautela nos arroubos eleitorais. É uma falsa controvérsia, portanto, essa entre PMDB e PSDB, que estariam disputando entre si o nicho de eleitores liberais para as próximas eleições.

A diferença entre os dois é que o PSDB se prepara para uma disputa eleitoral nas urnas nos próximos meses, caso a chapa Dilma-Temer seja impugnada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por abuso de poder econômico, ou em 2018. E o programa do PMDB visa exclusivamente ter o apoio de setores econômicos na eventualidade de o impeachment tirar Dilma do governo.

O PMDB não está em busca, neste momento, de votos, mas de apoios políticos. O documento lançado pela Fundação Ulysses Guimarães como um projeto para o país é, de fato, mais liberal do que se poderia esperar de um partido que é a principal sustentação quantitativa do governo Dilma, pelo número de prefeitos e vereadores, e por dominar o Congresso.

E até surpreende ao defender, por exemplo, a fixação de uma idade mínima para a aposentadoria, medida urgente para equilibrar a Previdência Social, mas polêmica, que tira mais votos do que dá. Outras medidas diametralmente opostas ao pensamento predominante no PT constam do programa do PSDB, inclusive o apresentado durante a campanha presidencial do ano passado.

O texto da Fundação Ulysses Guimarães defende uma política que já foi definida por Dilma como “rudimentar”, isto é, o estabelecimento de um limite para as despesas de custeio que seja inferior ao crescimento do PIB. Mas o PSDB não chega a defender, embora possa adotar uma vez no governo, o fim das vinculações orçamentárias para Saúde e Educação, por exemplo.

O apoio às privatizações e concessões não é diferente do PSDB, e nem a volta do modelo de concessão para a exploração de petróleo. São temas que têm apoio de um eleitorado liberal, mas não retiram votos dos partidos que os defendem. Os eleitores que discordam já estão decididos a votar em partidos de esquerda.

O PMDB, apesar de sua postura pragmática e de valorizar os cargos governamentais como instrumentos de fazer política, tem pontos em comum com o PSDB que podem fazer com que atuem juntos em eleições vindouras, já que as diferenças com o PT estão ficando cada vez mais explícitas.

Essas diferenças não se referem a questões éticas, mas à valorização da democracia representativa e a defesa das instituições, que estão no DNA do partido. Além dessa tradição, vinda dos tempos gloriosos do MDB de Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, há ainda aqui um aspecto pragmático: o PMDB sabe que num governo autoritário do PT não terá força política.

A ideia de que ninguém consegue governar sem o apoio do PMDB está se provando verdadeira nos dias de hoje, e pressupõe um governo democrático. Por isso, qualquer tentativa do PT de ultrapassar os limites de um governo democrático esbarra sempre no PMDB.

O primeiro caso de predominância do espírito autoritário no partido deu-se agora com a aprovação de uma legislação de direito de resposta que na prática é um cerceamento da liberdade de expressão. Foi proposta por um senador peemedebista, e não chamou a atenção até que estivesse aprovada, e agora caberá ao Supremo Tribunal Federal dar um tom de equilíbrio a essa legislação.

Esse cochilo dos democratas do PMDB pode significar que o partido, enfraquecido pelas acusações a suas principais lideranças, está precisando fazer concessões, o que é um mau sinal.

José Roberto de Toledo: A barragem de Dilma

- O Estado de S. Paulo

Não fossem epidemias, desastres ambientais e crise econômica, o governo comemoraria. No Congresso, neutralizou bombas fiscais armadas pelos deputados e vetadas por Dilma Rousseff.

Avançou para relaxar a meta fiscal, diminuindo o risco imediato de impeachment. Na Câmara, aprovou taxação de dinheiro brasileiro no exterior, cuja receita pode ajudar a equilibrar seu caixa. No fim, juntou mais de 200 deputados - talvez 250 - que, se não votam todos sempre a favor de Dilma, ao menos não votam contra.

É menos da metade da Câmara, mas, ainda assim, trata-se de um avanço para quem, até poucos meses atrás, mal tinha 171 votos para barrar o processo de impeachment. As últimas votações sugerem que, além de bloquear as tentativas da oposição para derrubá-la, a presidente também pode vir a conseguir governar. Ainda que governar signifique arrochar salários, diminuir gastos sociais, cortar investimentos e deixar o desemprego crescer.

Desde a reforma ministerial, a articulação política do governo melhorou. Em parte, porque rachou o PMDB e reconquistou partidos menores. Mas também porque Eduardo Cunha concentrou-se em não cair ao invés de empurrar Dilma. Ela escorou-se em Renan Calheiros no Senado e Leonardo Picciani na Câmara. Peemedebistas que querem fazer “uma ponte para o futuro” sem Dilma nem o PT viram suas obras embargadas. Pelo menos até o Carnaval, talvez até a Semana Santa. Vão esperar a crise desempregar mais gente.

A esperteza que aliados de Michel Temer fizeram chegar a banqueiros e empresários de que as contas de campanha do vice-presidente são diferentes das contas de campanha da titular não colou. O ministro Gilmar Mendes - que não pode ser acusado de dilmista - declarou que o Tribunal Superior Eleitoral nunca separou o presidente de seu vice em cassações de mandatos.

Para a tese prosperar na corte, necessitaria mais do que de um novo entendimento dos magistrados. Precisaria de clamor popular, de pressão externa: manifestações volumosas, com objetivo específico e persistentes. Não é algo que esteja sobrando em qualquer esquina - só nos canais de sempre das redes sociais.

Nas últimas semanas, Dilma também se safou do lado de fora dos palácios. O locaute de caminhões fracassou. Quase ninguém viu os protestos contra a presidente marcados para 15 de novembro. Quem viu não ligou o nome à pessoa. Bonecos gigantes murcharam: manifestantes da ala militar-policial foram presos praticando tiro ao alvo na Esplanada e podem ser obrigados a levantar acampamento. A cada trapalhada, retrocedem ao seu nicho.

Ao mesmo tempo, protestos contra outros políticos e políticas começaram a ganhar ruas e escolas. Não é refresco para Dilma, que continua mais impopular do que mineradora entre moradores do Vale do rio Doce, mas dilui a pressão. Se ela não chamar a atenção para si, 2016 pode ser mais parecido com 2013 do que com 2015. A insatisfação da opinião pública está se dividindo entre outros alvos em vez de se concentrar contra o governo federal.

Esse cenário, porém, é mais instável do que uma barragem de rejeitos de minério. A qualquer momento pode sangrar e levar de enxurrada a presidente e outros governantes. Especialmente porque, tudo indica, a perda de poder de compra das famílias tende a aumentar antes de, eventualmente, vir a arrefecer. A recessão acumula novas pressões atrás do dique de contenção.

De alguma forma essa pressão vai acabar liberada. Eleições têm esse poder, mas só quando entregam esperança. Não é algo que esteja no horizonte. Planos econômicos são válvulas de escape. Nada indica, porém, que Joaquim Levy vá dar um Real para Dilma. Por isso, articulações pró-Henrique Meirelles só tendem a crescer. Quando não se troca a presidente, troca-se o ministro. Fusível serve para isso.

Jarbas de Holanda: Economia e a governabilidade de um novo presidente podem juntar PMDB e PSDB, acima de projetos eleitorais

A erosão da perspectiva de impeachment via desencadeamento pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que perdeu as condições políticas, além das éticas, de fazê-lo, ao invés de ultrapassagem das demandas de impedimento da presidente Dilma dá lugar, neste final de ano, a uma reafirmação delas por meio de cobranças distintas das anteriores, e com horizonte de março ou abril próximos. Decorrentes, basicamente, da percepção pela maioria dos agentes econômicos da incapacidade do governo Dilma de dar respostas, conjunturais e estruturais, ao agravamento da recessão e ao cenário de longa persistência dela e de seus agudos efeitos sociais. E refletidas na disposição da executiva do PMDB de colocar-se como alternativa para viabilização de tais respostas, através da pauta liberal e antiestatizante da “ponte para o futuro”.

Iniciativa da direção do partido – do qual depende a sustentação do Executivo no Congresso – que adensa a possibilidade de troca de governo. E que, até pela ampla repercussão favorável que teve nos círculos empresariais e na mídia, apressou uma reorientação tática do comando do PSDB. De um lado, substituindo o respaldo à bancada da Câmara na tentativa do impeachmentreclamado pelas manifestações de rua, e liderado pela oposição, por um entendimento com a cúpula peemedebista em torno de um governo chefiado por Michel Temer. De outro lado, na perspectiva desse governo, apoiando algumas medidas do ajuste fiscal, como a ampliação negociada, de 20% para 25%, da Desvinculação das Receitas da União, a DRU. Sem que isso implique necessariamente participação no mesmo, nem abandono das prioridades eleitorais no pleito municipal à vista e no presidencial de 2018, que estarão presentes na atualização do programa partidário a ser tornada pública no início de dezembro. Prioridades que devem incluir a afirmação dos tucanos como a força política que se contrapôs aos três governos petistas e se considera capaz de liderar um novo ciclo de crescimento econômico e desenvolvimento social sustentado. Contraposição e promessa que passarão a ser disputadas por um PMDB que consiga substituir o fisiologismo que o tornou principal aliado e cúmplice desses governos pela respeitável pauta da “ponte para o futuro”.

O entendimento entre os dirigentes dos dois partidos poderá encaminhar a troca de governo através de um ou mais dos vários processos que apuram possíveis crimes eleitorais e de irregularidades e abusivos gastos do Tesouro (pedaladas) e das estatais – no TSE e nas duas casas do Congresso. Uns e outros (processos) apoiados nas investigações das operações Lava-Jato, Zelotes e Acrônimo. E estimulados pela paradeira do conjunto das atividades produtivas, por juros extorsivos, por aumento da carga tributária, por inflação e desemprego no patamar dos dois dígitos. De par com o impacto na sociedade da sequência das investigações da Lava-Jato e das demais operações anticorrupção.

É em meio à emergência desses novos riscos de interrupção do mandato de Dilma, que o ex-presidente Lula enfrenta dois desafios: preservá-lo (assumindo plena tutela sobre a sucessora, ao que ela está resistindo) e, ao mesmo tempo, reverter ou ao menos conter o enorme desgaste político e eleitoral do PT. Para preservar o governo, comandou uma “reforma ministerial” cujo propósito básico foi – e se tornou ainda maior agora – impedir o descolamento do PMDB. Ao que se segue a busca do controle de indicação de novo ministro da Fazenda, na tentativa de uma impossível quadratura do círculo: que o Executivo federal recupere um mínimo de credibilidade junto a investidores internos e externos e que retome rapidamente estímulos fiscais e creditícios (dos bancos públicos) ao consumismo. Isto constituindo peça-chave para que os candidatos petistas não sejam destroçados nas eleições municipais de 2016. O que pode, ao contrário, piorar muito com os resultados das investigações do Ministério Público e da Polícia Federal, que se aproximam cada vez mais do próprio Lula. Num contexto resumido assim por Merval Pereira, em sua coluna de anteontem no Globo: “O roteiro está escrito detalhadamente à medida em que as delações se sucedem, e caberá à Justiça juntar as peças desse quebra-cabeças no final, em que a efígie de Lula já surge como o protagonista”.

---------------------
Jarbas de Holanda, jornalista

Bernardo Mello Franco: Lula, o eterno traído

- Folha de S. Paulo

Em 2005, o então presidente Lula afirmou ao país que não sabia do mensalão. "Eu me sinto traído por práticas inaceitáveis, das quais nunca tive conhecimento", disse, em pronunciamento oficial.

Nesta quarta, o agora ex-presidente Lula afirmou que também não sabia do petrolão. "Foi um susto para mim", disse, em entrevista a Roberto D'Ávila. "Muitas vezes, aquele cara que parece um santo na verdade é um bandido", acrescentou.

Acreditar que Lula não sabia de nada é um ato de fé. Os dois escândalos foram gestados em seu governo e tiveram seu partido como beneficiário. No mensalão, a Justiça mandou para a cadeia um tesoureiro e dois ex-presidentes do PT. No petrolão, já foram presos um tesoureiro e um ex-presidente do PT. Por enquanto.

Quando o assunto é corrupção, Lula não costuma se preocupar com a coerência do que diz. Depois de pedir desculpas pelo mensalão, ele passou a sustentar que o esquema nunca existiu. Daqui a alguns anos, é possível que comece a negar os desvios bilionários na Petrobras.

Na entrevista à Globo News, o ex-presidente também negou fatos relatados por políticos e empresários com quem conversa. Disse que não quer derrubar Joaquim Levy da Fazenda, que não quer emplacar Henrique Meirelles em seu lugar e que não tenta influir no governo Dilma.

Faltou acrescentar que seu nome não é Luiz Inácio, que ele não mora em São Bernardo do Campo e que não deseja voltar ao Planalto. A última parte ele até ameaçou dizer, mas foi traído pela própria língua.
*
Eduardo Cunha é vingativo e acaba de escolher outro alvo. Nesta segunda, ele tirou da gaveta e enviou à corregedoria da Câmara uma representação contra o desafeto Glauber Braga. O deputado do PSOL é acusado de quebrar o decoro ao chamar de "matador" um colega que integra a bancada da bala. Detalhe: a discussão ocorreu há mais de seis meses.

Luiz Carlos Azedo: A face perversa da crise

• O Estado gastou mais do que a sociedade suportava, a sociedade gastou mais do que a riqueza que criava. Agora chegou a hora da verdade

- Correio Braziliense

Análises políticas em tempos cascudos correm o sério risco de cair no “economicismo”, que nada mais é do que a redução de todos os fatos sociais à dimensão econômica.

Os marxistas são os mais propensos a incorrer no equívoco, segundo a máxima de que “a política é a economia concentrada”. Mas o “economicismo” não é um privilégio da esquerda tradicional. Os liberais e conservadores também incorrem nesse erro ao concluir que oferta e demanda são os únicos fatores importantes na tomada de decisões, o que é ainda mais frequente em momentos de crise econômica.

O “economicismo” sempre tem um viés ideológico e, no seu determinismo, considera tudo o mais acessório ou secundário. Parte da incapacidade de a presidente Dilma Rousseff superar a crise decorre de uma mistura atávica de “economicismo” com “populismo” — cuja característica principal é o exercício do poder em contato direto com as massas, sem a intermediação dos partidos e das instituições. Durante o governo Lula, isso foi possível mediante adoção bem-sucedida de políticas públicas e a métodos de aliciamento da população de baixa renda e da chamada “nova classe média”.

Dilma nem de longe tem o mesmo carisma do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, embora no começo de seu primeiro mandato tenha alcançado altos índices de popularidade, graças a programas sociais como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida. Com o agravamento da crise econômica, que foi ocultada durante a campanha eleitoral, a popularidade da presidente foi à lona. Além disso, o “populismo” petista foi nocauteado pela Operação Lava-Jato. Restou o “economicismo”, que leva o partido a se opor ao ajuste fiscal e às reformas estruturais que a economia exige.

Agora, estão em risco todos os ganhos sociais obtidos com a expansão do crédito e da massa salarial com a chamada “nova matriz econômica”, que entrou em colapso. A perda no rendimento das famílias é consequência direta do aumento do desemprego, que tende a se intensificar no próximo ano, ficando em torno de 10% — em setembro estava em 7,6% nas metrópoles. Quem está empregado tende a receber reajustes anuais abaixo da inflação, que está em 9,9% no acumulado de 12 meses encerrados em outubro; com mais trabalhadores desempregados, a soma dos rendimentos de quem está ocupado fica menor.

Duras escolhas
No início, os trabalhadores da construção civil e da indústria de transformação foram os mais atingidos; agora, os demais profissionais também temem o desemprego. E o enfraquecimento da economia reduz o poder de barganha dos trabalhadores. A mão de obra mais cara é trocada pela mais barata. Os aumentos salariais tendem a ficar abaixo da inflação. Mesmo os servidores públicos, que não correm risco de ficar desempregados, terão seus salários achatados porque o Estado brasileiro está quebrado.

Onde está a contradição principal do “populismo” petista? Na relação entre o que acontecia dentro de casa e na rua. A grande verdade é que a vida dos mais pobres, nos anos de bonança, havia melhorado da porta pra dentro, graças à transferência direta de renda e ao aumento do consumo via endividamento das famílias. Da porta pra fora, porém, as políticas públicas universalistas foram subinvestidas e capturadas pelos grandes interesses privados. Isso aconteceu na saúde, na educação, nos transportes, na segurança pública e até mesmo na habitação, a grande marca da presidente Dilma na área social.

A situação mais grave não está na crise da saúde, na precariedade dos transportes ou na violência urbana. São os números da educação, que puxam pra baixo a produtividade do país e a consciência social, embora o slogan do governo Dilma no segundo mandato seja “Pátria educadora”. Segundo o Pnad 2014, o país tem 13,2 milhões de pessoas com 15 anos ou mais, o equivalente a 8,3% da população. O analfabetismo funcional, considerado pelo IBGE como a parcela de pessoas com 15 anos ou mais de idade e com menos de quatro anos de estudo, afligia 17,6% da população. Além disso, o percentual de jovens de 15 a 17 anos na escola está estagnado em 84,3% há três anos. O que melhorou nessa área foi o aumento de 77,4% para 82,2% das crianças de 4 a 5 anos na escola.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em sua retórica, ainda pode brandir indicadores favoráveis ao seu governo, mas a presidente Dilma Rousseff não tem a menor condição de manter esses ganhos sociais. Não é porque seu governo seja uma ruptura com o anterior, mas porque a estratégia de concessão de subsídios, oferta de crédito e transferência direta de renda de Lula não tinha sustentabilidade e se esgotou. O Estado gastou mais do que a sociedade suportava, a sociedade gastou mais do que a riqueza que criava. Agora chegou a hora da verdade. Só a política pode achar uma saída, que implica em fazer duras escolhas.

Roberto Freire: Luto sem fronteiras

O Brasil e o mundo estão de luto. Duas tragédias de grandes proporções, embora com particularidades que as distinguem, abalaram o país e todo o planeta nas últimas semanas e estenderam o sentimento de tristeza para além das fronteiras das cidades onde aconteceram os desastres. Os bárbaros atentados terroristas do Estado Islâmico em Paris e o rompimento de duas barragens de uma mineradora em Mariana, Minas Gerais, uniram povos diferentes na dor e também na solidariedade.

Os brutais ataques em Paris, que levaram à morte de mais de uma centena de inocentes, atingiram o coração da Europa e o berço da liberdade, da igualdade e da fraternidade - palavras que jamais serão compreendidas pelo terror, mas dizem muito sobre a sociedade francesa. Os grupos radicais que se proliferam, desgraçadamente, em várias partes do mundo, não aceitam a democracia como valor universal e se lançam a uma guerra odiosa que ameaça conquistas sociais, a emancipação da humanidade e a paz mundial.

O ódio e a intolerância que alimentam esses assassinos surgem a partir de uma crença religiosa fundamentalista que lembra os piores momentos da história mundial, com morticínios perpetrados supostamente em nome de um deus, seja ele qual for. Trata-se da face perversa do mesmo terrorismo que vitimara Paris no início do ano, no fatídico atentado ao jornal satírico "Charlie Hebdo", e também Beirute, no Líbano, há alguns dias.

Tais forças regressivas pregam o fim do Estado laico, da liberdade de expressão e da democracia e, para tanto, eliminam aqueles que apreciam esses valores ou mesmo que não comungam de sua interpretação destrutiva da fé. A resposta a esses ataques contra a humanidade deve ser dada por todos os países democráticos do mundo, por meio do combate incessante à barbárie e à regressão de valores civilizatórios que ela representa.

O luto pelos ataques na França se estende, naturalmente, ao desastre em Minas Gerais, que deixou 11 mortos e dezenas de desaparecidos. O rompimento das barragens praticamente varreu do mapa o distrito de Bento Rodrigues, localizado entre Mariana e Ouro Preto, e a lama destruiu e arrastou casas e carros.

Se, em Paris, o fanatismo e a intolerância religiosa causaram a tragédia, o que levou ao desastre em Mariana foram a ganância desenfreada das empresas responsáveis pelas barragens que se romperam. A busca pelo lucro fácil sem nenhum comprometimento com o meio ambiente e, principalmente, com os cidadãos que vivem naquela região, diz muito sobre a tragédia.

Para agravar uma situação que já é crítica, o governo de Dilma Rousseff continua inerte, assistindo a tudo passivamente, sem nada fazer de concreto. Ao contrário: o Departamento Nacional de Produção Mineral, vinculado ao Ministério de Minas e Energia, repassou apenas 13,2% do valor previsto pela Lei Orçamentária de 2015 para o programa de fiscalização de atividades minerárias - que monitora as condições de segurança de minas, garimpos e barragens de rejeitos, como as que romperam em Minas. Segundo dados do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal, o valor investido em fiscalização foi de R$ 1,3 milhão neste ano, menos da metade dos R$ 3,6 milhões desembolsados até outubro de 2014. À presidente da República, não basta sobrevoar os locais afetados pelo desastre – é preciso trabalhar com seriedade e investir na prevenção antes que seja tarde demais.

Enganam-se aqueles que imaginam haver uma diferenciação entre o peso atribuído a cada uma das tragédias, no Brasil e na França. Apesar de os fatos terem natureza completamente distintas, a vida humana tem o mesmo valor em qualquer parte do mundo. As pessoas são capazes de ter mais de uma única preocupação e podem se mobilizar legitimamente por diversas causas, sem que isso signifique comoção seletiva. Nosso luto se estende de Mariana a Paris porque, de alguma forma, todos também somos vítimas da barbárie, do terror, da ganância e do descaso.

---------------
Roberto Freire é deputado federal por São Paulo e presidente nacional do PPS

Marisa Monte e Adriana Calcanhoto:Beijo sem

Vinicius de Moraes: A perdida esperança

Paris
De posse deste amor que é, no entanto, impossível
Este amor esperado e antigo como as pedras
Eu encouraçarei o meu corpo impassível
E à minha volta erguerei um alto muro de pedras.

E enquanto perdurar tua ausência, que é eterna
Por isso que és mulher, mesmo sendo só minha
Eu viverei trancado em mim como no inferno
Queimando minha carne até sua própria cinza.

Mas permanecerei imutável e austero
Certo de que, de amor, sei o que ninguém soube
Como uma estátua prisioneira de um castelo
A mirar sempre além do tempo que lhe coube.

E isento ficarei das antigas amadas
Que, pela Lua cheia, em rápidas sortidas
Ainda vêm me atirar flechas envenenadas
Para depois beber-me o sangue das feridas.

E assim serei intacto, e assim serei tranqüilo
E assim não sofrerei da angústia de revê-las
Quando, tristes e fiéis como lobas no cio
Se puserem a rondar meu castelo de estrelas.

E muito crescerei em alta melancolia
Todo o canto meu, como o de Orfeu pregresso
Será tão claro, de uma tão simples poesia
Que há de pacificar as feras do deserto.

Farto de saber ler, saberei ver nos astros
A brilharem no azul da abóbada no Oriente
E beijarei a terra, a caminhar de rastros
Quando a Lua no céu contar teu rosto ausente.

Eu te protegerei contra o Íncubo
Que te espreita por trás da Aurora acorrentada
E contra a legião dos monstros do Poente
Que te querem matar, ó impossível amada!

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Opinião do dia – Armínio Fraga

Folha - A possibilidade de o Lula voltar é um problema?

“Qual Lula que vai voltar, né? Depois de tudo o que aconteceu, tudo o que está exposto Ele decepcionou muito, em muitas dimensões. É muito hábil, se defende, mas é tanta coisa que aconteceu...

Se dependesse de mim, preferia que fosse alguém do PSDB, ou de algum outro partido, alguma liderança que surja. É melhor. Chegou a hora. O PT teve a sua chance, fez essa lambança toda, mais até política e ética do que econômica.

A econômica é uma pena, mas o resto é imperdoável.

Seria bom uma mudança.

Uma área em que a oposição perdeu o debate até agora é mostrar que uma proposta alternativa mais transparente e mais liberal, com um Estado melhor, é muito mais progressista que o que tivemos aqui. Esse debate até agora foi perdido, mas a chance agora existe.

Tem coisa melhor aqui. Bem melhor.

O modelo atual é um modelo saturado, um Estado que no fundo não atende aos mais pobres. Eles foram beneficiados, sim, com melhorias importantes, mas há um dinheiro enorme indo para outros lugares e sendo desperdiçado. Essa é uma boa briga política.”

--------------------
Armínio Fraga, ex- presidente do BC. Entrevista: ‘Impeachment poderia, sim, destravar crise’. Folha de S. Paulo, 17 de novembro de 2015.

Temer e a presidência: ‘Por enquanto não’

Temer diz ‘por enquanto’ não querer Planalto, mas já prepara defesa no TSE

• Ao ser interrompido por manifestantes que pediam impeachment da presidente durante encontro do PMDB, vice cometeu ato falho, mas depois contemporizou: ‘Vamos esperar 2018’; ele trabalha para que Justiça Eleitoral julgue suas contas separadas das de Dilma

Vera Rosa, Adriano Ceolin, Isadora Perón - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O vice-presidente Michel Temer foi interrompido nesta terça-feira, na abertura do Congresso do PMDB, por manifestantes que pregavam o impeachment da presidente Dilma Rousseff e a ascensão dele ao poder. Aos gritos de “Brasil/Pra Frente/Temer Presidente”, os militantes, que carregavam bonecas de Dilma, vestida com a faixa “mãe do petrolão”, pediram mais de uma vez que ele assumisse a Presidência. “Por enquanto, não, obrigado”, respondeu o vice. “Vamos esperar 2018.”

À plateia, Temer ressalvou, porém, que não será ele o candidato do PMDB na disputa de 2018.

 “Vamos lançar um grande nome do PMDB. Estou encerrando minha vida pública”, garantiu. Apesar da declaração, o vice se prepara para o caso de ter de assumir a Presidência e já contratou até mesmo o advogado Gustavo Guedes, especialista em Direito Eleitoral, para conduzir sua defesa no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

É no TSE que tramita a ação do PSDB pedindo a impugnação dos mandatos de Dilma e Temer. Os tucanos alegam que houve abuso de poder econômico na campanha de 2014 e, se o TSE julgar a ação procedente, a presidente e o vice podem ser cassados. Advogado constitucionalista, Temer argumenta que sua prestação de contas foi feita separadamente do balanço apresentado por Dilma. Além disso, em conversa recente com interlocutores, invocou vários artigos da Carta para sustentar que ninguém pode ser responsabilizado por atos de outras pessoas.

Foi nesse ambiente de distanciamento entre Dilma e Temer que ocorreu nesta terça-feira o congresso do PMDB, o principal partido da coalizão governista, em Brasília. Mesmo escancarando divisões entre as várias alas do partido, e até divergências quanto ao programa “Uma Ponte Para o Futuro”, com propostas antagônicas às do PT para a retomada do crescimento - como o fim dos gastos mínimos previstos na Constituição para despesas com educação e saúde -, o encontro foi marcado por críticas ao governo. Tratou-se ali do primeiro passo para o divórcio com o Planalto.

Na prática, o PMDB já havia adiado a decisão sobre o rompimento com Dilma para março de 2018, quando haverá a convenção da legenda, mas manteve o congresso promovido pela Fundação Ulysses Guimarães para dar um sinal de força.

Ao lado do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), Temer disse ser preciso “coragem para não fugir da verdadeira luta”, mas fez discurso tentando equilibrar sua posição de vice com o desejo de pavimentar o afastamento do PMDB do governo.

“Nós estamos juntos procurando soluções para o País. Não é de hoje que temos falado em reunificar o pensamento nacional e pacificar a Nação. Não é da índole do brasileiro a disseminação do ódio”, discursou Temer, que também preside o PMDB. Em agosto, no auge da crise política, ele provocou a fúria de Dilma ao apelar para a necessidade de “alguém capaz de reunificar a todos”. À época, a frase foi interpretada no Planalto como tentativa de Temer de se cacifar como alternativa para ocupar o lugar da presidente.

Sob os ecos de “Rompe, PMDB”, os manifestantes que pediam o impeachment ergueram cartazes com os dizeres “Temer, vista a faixa já!”. O vice falava sobre a necessidade de mudanças profundas na economia, e não apenas “cosméticas”, quando foi surpreendido pelo protesto.

Após responder “por enquanto não” aos apelos para assumir o poder, ele prosseguiu com o discurso:

“Para não encolhermos diante de demagogias fáceis, não podemos colocar os interesses pessoais na frente dos interesses do País”.

Para o ex-ministro Geddel Vieira Lima, o PMDB precisa sair logo do governo. “O impeachment não depende da gente, mas tem algo que depende. Não é o afastamento de Dilma da Presidência, mas o afastamento do PMDB dela, para que possamos construir um partido com discurso”, insistiu Geddel.

Claque do PMDB pede Temer presidente

Por Thiago Resende e Raymundo Costa – Valor Econômico

BRASÍLIA - Aos gritos de "Brasil prá frente, Temer presidente", o PMDB deu a largada ontem no projeto para lançar uma candidatura presidencial própria em 2018 ou voltar ao Palácio do Planalto antes disso, na eventualidade do impeachment da presidente Dilma Rousseff. O vice-presidente respondeu aos militantes: "Ainda não, em 2018".

Mais tarde Temer ainda tentou consertar, mas sem muita convicção: "Vamos esperar 2018. Vamos montar um candidato, um grande nome do PMDB. [...] Estou encerrando minha vida pública", afirmou. Segundo ele, o candidato do PMDB para a corrida presidencial será conhecido apenas no ano eleitoral. "2018 só em 2018", declarou.

O lançamento do nome de Temer ocorreu durante a divulgação do documento "Uma Ponte para o Futuro", que servirá de base para a candidatura presidencial. Encarado com desconfiança pelo Palácio do Planalto, pode-se afirmar que o encontro foi uma espécie de "batalha de Itararé". O governo fez o que pode para esvaziar o encontro do PMDB, mas todos os diretórios mandaram representantes para a reunião.

Na última hora, os dirigentes do PMDB também suavizaram o tom dos discursos, Segundo os organizadores, havia 44 representantes de movimentos pró-impeachment de Dilma - alguns deles ligados ao presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha.

Mesmo com baixos índices de aprovação, o governo mostrou sua força: os sete governadores do partido não compareceram ao encontro. Mas dos sete ministros, apenas três deixaram de comparecer: Kátia Abreu (Agricultura), Eduardo Braga (Minas e Energia) e Celso Pansera (Ciência e Tecnologia). Dos presentes, apenas Eliseu Padilha (Aviação Civil) discursou, mas sem as críticas ao governo que deram o tom à reunião.

O objetivo do PMDB é começar a se desgarrar do PT na eleições municipal de 2016 e disputar com nome próprio em 2018. No meio do caminho há o impeachment, um assunto sobre o qual seus líderes não evitam comentar, inclusive por estar às vésperas de decisões na Câmara dos Deputados e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Na véspera do encontro, a senadora Marta Suplicy (SP), que recentemente trocou o PT pelo PMDB, ofereceu um jantar em sua casa ao vice-presidente Michel Temer, àquela altura presidente da República, pois Dilma ainda não reingressara em território nacional. No PT, Marta liderou o movimento "Volta, Lula". No PMDB, não esconde sua simpatia pelo impeachment. O assunto circulou de mesa em mesa, mas sempre contornado com habilidade por Michel Temer.

O PMDB, no entanto, está preparado para assumir a presidência da República, na hipótese de vagar a cadeira de Dilma. Uma das possibilidade é via um processo de impeachment no Congresso Nacional, cuja abertura está nas mãos do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (RJ). Ao chegar ao encontro do PMDB, o deputado não foi propriamente hostilizado, mas houve um constrangedor início de vaia.

Isso em um ambiente dominado por militantes que carregavam um boneco de Dilma e faixas com os dizeres "Temer Vista a Faixa Já". Nenhum dos outros mencionados na Lava-Jato, como o presidente do Senado, Renan Calheiros, foi constrangido pela plateia como Cunha. Seu antigo aliado, o líder do partido na Câmara, Leonardo Picciani, não compareceu.

A outra hipótese de Dilma ser impedida de continuar no cargo é a impugnação da chapa eleita em 2014. Neste caso, o PMDB deve recorrer até o Supremo Tribunal Federal (STF), se for o caso, pois o entendimento de seus advogados é que a presidência e a vice são figuras jurídicas distintas, cada qual com suas contas e campanhas. Além disso, a sigla pretende argumentar que ninguém pode ser punido por um crime cometido por outro pessoa. Se a chapa for impugnada, o primeiro recurso do PMDB será para que sejam mantidos os diplomas dos dois.

O tom crítico ao governo no encontro pode ser medido por uma frase do deputado Lúcio Vieira Lima (BA): "O PMDB não tem dono", disse, repetindo um dos slogans da reunião, "mas está alugado", acrescentou, numa referência a que o partido é parte governo e parte oposição. "O afastamento não será aqui. Hoje é o caldo de cultura que engrossa um pouco mais", disse o ex-ministro Geddel Vieira Lima, irmão de Lúcio.

O presidente da Fundação Ulysses Guimarães, Moreira Franco, resumiu em uma frase as críticas tanto aos opositores internos do PMDB como as queixas feitas pelo PT contra seu parceiro. "Nosso documento tem os mesmos fundamentos macroeconômicos da carta aos brasileiros", que Lula lançou em 2002 para acabar com as desconfianças que o empresariado à época tinha sobre sua candidatura. "Entre ela e o documento 'Uma Ponte Para o Futuro' há vários traços em comum", disse Moreira. "Ambos surgiram para dar resposta a crises de confiança e, em decorrência delas, a escolhas equivocadas e crises econômicas, ambos trabalham com as mesmas premissas para retomar o desenvolvimento do país.

Prudente, Temer procurou evitar um tom de disputa com o Planalto: o PMDB "não vai sair para lançar um candidato próprio na eleição presidencial de 2018. "Queremos fazer do PMDB um partido. Partido que vem de parte. Uma parcela da opinião pública que pensa de uma maneira e quer chegar ao poder. Então nós estamos fazendo algo que não se fez, penso eu, ao longo do tempo", afirmou.

Temer classificou como "natural" uma ala da sigla pedir o rompimento com o governo da presidente Dilma Rousseff. " Mesmo essas pessoas que querem a saída do governo, querem colaborar com o país e este programa que estamos fazendo é um programa para o país", observou. o deputado Eduardo Cunha também defendeu a elaboração doo projeto. "O PMDB não pode se furtar de debater seu destino", disse. "O partido terá candidato próprio em 2018. Isso é inevitável".

No PMDB, atos pró-impeachhment

Em congresso do PMDB, grupos que defendem o impeachment criticaram a presidente Dilma e houve também gritos de “Fora Cunha”.

Manifestantes pró-impeachment constrangem congresso do PMDB

  • Grupos criticam Dilma e levam cartazes com inscrição ‘Temer, veste a faixa já’

Maria Lima e Simone Iglesias - O Globo

-BRASÍLIA- Ao aceitar no congresso da Fundação Ulysses Guimarães a presença de integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL) e da Aliança Nacional dos Movimentos Democráticos, o PMDB, maior aliado do governo, e o vice-presidente Michel Temer passaram ontem por constrangimento diante de manifestações agressivas contra a presidente Dilma Rousseff e de cartazes com a inscrição “Temer, veste a faixa já”.

Apesar de ter se mostrado envaidecido com as manifestações iniciais de apoio de peemedebistas, o vice-presidente ficou visivelmente constrangido com os manifestantes pró-impeachment, que levaram bonecas infláveis da presidente com uma máscara preta e a inscrição “mãe do petrolão”. Os manifestantes e parte da juventude do PMDB também vaiaram e gritaram “Fora, Cunha” para o presidente da Câmara, que esteve o tempo todo ao lado de Temer e de outros líderes do partido na Mesa.

Só três ministros foram ao congresso
O mote do Congresso foi “O PMDB tem voz e não tem dono”. Apesar do clima belicoso do evento em relação ao Planalto, o vice-presidente afirmou que qualquer ruptura com o governo, como pregaram nos discursos integrantes da ala rebelde do partido, só ocorrerá em 2018, quando o PMDB pretende disputar a eleição para presidente da República. Ainda assim, a cúpula do partido considerou que esse foi o primeiro gesto oficial de descolamento do governo e da aliança com o PT. Temer afirmou considerar “natural” que peemedebistas queiram deixar o governo Dilma, mas disse que isso é assunto para depois.

— Isso vai ser discutido em 2017, 2018. Só em 2018 mesmo. Temos que colaborar com o país, mesmo as pessoas que querem sair do governo querem colaborar com o país — afirmou, retomando mais tarde: — Para não encolhermos diante de demagogias fáceis, não podemos colocar os interesses pessoais na frente dos interesses do país.

Um assessor palaciano, porém, admite que Temer está distanciado de Dilma e que a confiança mútua está abalada desde que ele deixou a articulação política do governo. Mas diz que a petista não vislumbra o agravamento da relação. Para o governo, a hipótese do impeachment há tempos não parece tão remota quanto agora. Um interlocutor da presidente diz que ela refuta, veementemente, a tese de que Temer trama, nos bastidores, um plano para assumir a Presidência.

Dos sete ministros do PMDB, apenas três compareceram ao congresso: Eliseu Padilha (Aviação Civil); Helder Barbalho (Portos) e Henrique Alves (Turismo). Temer disse que o programa feito pelo PMDB está à disposição do governo:

— Esse programa pode ser uma colaboração ao governo. Nos sentiremos extremamente gratificados e recompensados. É um documento democrático, transparente e mira os interesses do Brasil.

Logo que entrou no plenário ao lado de Temer, Cunha foi alvo de discreta vaia. Após a execução do Hino Nacional, foram ouvidos alguns gritos de “Fora, Cunha”. E quando seu nome foi anunciado para discursar, a vaia foi um pouco mais intensa, comandada pelos manifestantes do MBL e da Aliança Nacional dos Movimentos Democráticos. No discurso, Cunha disse que o PMDB não participa e não tem compromisso com os rumos do governo:

— Ninguém tem mais dúvida que o PMDB terá que buscar seu caminho próprio. Inevitável que tenha candidato em 2018. Essa voz não pode ser calada por quem tem meia dúzia de carguinhos.

À tarde, ao encerrar uma sessão promovida pela deputada Benedita da Silva (PT-RJ) no plenário da Câmara, Cunha voltou a ser vaiado, desta vez pelas participantes de um debate sobre a realidade das mulheres negras no país.

O presidente do Conselho de Ética, José Carlos Araújo (PSD-BA), convocou para amanhã a sessão para leitura do parecer preliminar do relator Fausto Pinato (PRB-SP) que pede a continuidade da investigação contra Cunha. (Colaboraram Isabel Braga e Catarina Alencastro)

Partido mantém um pé em cada canoa

• PMDB aumenta sua participação no governo, enquanto tenta se descolar para voo solo em 2018

Fernanda Krakovics - O Globo

Essa não é a primeira vez que o PMDB critica a política econômica de um governo do qual faz parte e ameaça desembarcar. O partido divulgou oficialmente ontem o documento “Uma ponte para o futuro”, na contramão do que vem sendo implementado pela presidente Dilma Rousseff.

Os peemedebistas fizeram o mesmo em março de 2004, no início da gestão Lula. O pano de fundo era a pressão por mais ministérios. Agora, o partido tenta o malabarismo de aumentar sua participação no governo, ao mesmo tempo em que deseja se descolar de uma administração impopular e preparar candidatura própria para 2018.

Um dos personagens centrais continua sendo o presidente do PMDB, Michel Temer, dessa vez com atuação pública mais discreta, devido ao cargo de vice-presidente da República. Há 11 anos, quando a Executiva Nacional do partido divulgou uma nota com críticas à política econômica, Temer foi um dos porta-vozes da ameaça de rompimento.

O texto “Uma ponte para o futuro” foi gestado quando um processo de impeachment contra Dilma parecia iminente, e Temer seria o beneficiário imediato. Esse clima político refluiu, e o PMDB amenizou o tom beligerante.

O ensaio de independência feito ontem acontece 46 dias depois de o partido ter conquistado o disputado Ministério da Saúde. É dessa contradição e da divisão interna entre governistas e oposicionistas que o PMDB tira sua força, ficando com um pé em cada canoa.