sábado, 28 de novembro de 2015

Cunha diz que é possível decidir sobre impeachment até a próxima semana

Gustavo Uribe, Ranier Bragon – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), afirmou nesta quinta-feira (26) que é possível que decida até a próxima segunda-feira (30) autorizar ou arquivar os pedidos de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff.

No início do mês, o peemedebista havia garantido que teria uma resposta formal em relação aos requerimentos protocolados até o final de novembro. Em conversas com aliados e correligionários, no entanto, ele já admitiu que deve tomar uma decisão apenas em 2016.

Segundo Cunha, estão prontos todos os pareceres em relação aos pedidos de impeachment, incluindo o assinado pelo ex-petista Hélio Bicudo e pelo ex-ministro da Justiça Miguel Reale Júnior, considerado o principal deles.

"Quem sabe segunda-feira (30)? Novembro acaba na segunda-feira e eu ainda não estou inadimplente. É possível (que eu decida sobre os pedidos)", disse.

Os aliados do peemedebista procuraram no início da semana os partidos de oposição propondo a deflagração do processo de impeachment em troca da preservação do mandato de Cunha na Conselho de Ética da Câmara dos Deputados.

A ideia é de que a oposição daria os votos suficientes para que o Conselho de Ética arquive sumariamente o pedido de cassação, decisão que será tomada na próxima terça-feira (1º). Atualmente, a tendência é de que a maioria dos integrantes do Conselho de Ética vote pela admissibilidade do pedido.

No início de outubro, o Palácio do Planalto havia firmado um acordo de trégua com o peemedebista. Em troca de ele segurar o impeachment da presidente, o governo federal faria a bancada petista não causar problemas a Cunha no Conselho de Ética.

Os três deputados federais do PT que compõe o colegiado parlamentar, no entanto, pretendem votar pela admissibilidade do pedido, o que irritou o peemedebista.

Orçamento
O peemedebista afirmou ainda que, apesar de haver apenas três semanas para o início do recesso parlamentar, há possibilidade do governo federal votar o projeto orçamentário para 2016. Ele avaliou, contudo, que não sabe se ele será aprovado.

"O Poder Executivo terá de tomar uma decisão. Ou vão continuar executando o orçamento normalmente ou vão paralisar até aprovar. É uma decisão dele. E paralisa significa paralisar tudo", disse.

A prisão de Delcídio preocupou o governo federal sobre as votações das medidas do ajuste fiscal no Congresso Nacional, incluindo a aprovação da nova meta fiscal deste ano. Se não aprovada, obrigaria a contingenciar R$ 100 bilhões até dezembro.

Se não fechar as contas do ano em ordem, a presidente começa o próximo ano com maior vulnerabilidade para um processo de impeachment.

Vice-líder do governo na Câmara diz que PT não aceitará pressão para votar a favor de Cunha

• Paulo Teixeira disse que a análise dos pedidos de impeachment não deve ser vinculada ao andamento da ação contra o presidente da Casa no Conselho de Ética

Daiene Cardoso - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Ao defender que não há embasamento jurídico para abertura de um processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, o vice-líder do governo na Câmara dos Deputados, Paulo Teixeira (PT-SP), disse nesta sexta-feira, 27, que os petistas não vão ceder a pressões no Conselho de Ética em favor do presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

O peemedebista deve deliberar sobre os pedidos mais consistentes de impeachment só após terça-feira, 1º de dezembro, dia da votação do parecer prévio que pede a admissibilidade de seu processo por quebra de decoro parlamentar no colegiado. Pelo menos um dos pedidos tem parecer técnico favorável à abertura de processo contra Dilma.

Parlamentares da oposição avaliam que ao anunciar previamente que despachará os requerimentos no início da semana, Cunha joga para pressionar petistas no Conselho de Ética, uma vez que hoje só teria o apoio de nove dos 21 titulares do grupo.

Teixeira disse que a análise dos pedidos de impeachment não deve ser vinculada ao andamento da ação no Conselho. Para o petista, os três membros titulares do partido no colegiado - Valmir Prascidelli (SP), Léo de Brito (AC) e Zé Geraldo (PA) - já amadureceram os votos e não vão mudar de opinião.

Ele descartou a possibilidade do Palácio de o Planalto agir para interferir em favor de Cunha. "Não vamos aceitar esse jogo. Princípios são inegociáveis", afirmou.

Para oposição, Cunha deve avaliar pedidos de impeachment após sessão do Conselho de Ética

• Para oposicionistas, o anúncio prévio do presidente da Câmara de que poderia deferir os requerimentos no início da semana, é uma pressão para que membros petistas do colegiado revejam suas posições e ajudem a arquivar o processo contra o peemedebista

Daniel Carvalho e Daiene Cardoso - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Na avaliação de parlamentares de oposição ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ele deve deliberar sobre os pedidos mais consistentes de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff só após a terça-feira, 1º, dia da votação do parecer prévio que pede a admissibilidade do processo por quebra de decoro parlamentar contra ele no Conselho de Ética.

Apesar de ter dito nessa quinta-feira, 26, que poderia despachar sobre os sete pedidos de afastamento da petista pendentes na segunda-feira, 30, Cunha sinalizou que decidirá sobre os requerimentos esperados pela oposição depois desse dia. Ao menos um dos pedidos tem parecer técnico favorável pela abertura do processo contra Dilma.

Embora o peemedebista negue a relação, a oposição acredita que ele só despachará os pedidos de impeachment relevantes após a sessão do Conselho de Ética. A expectativa é que o início do processo de impeachment da presidente Dilma e a votação da admissibilidade da ação contra Cunha abram a semana no Congresso Nacional.

Hoje o peemedebista disse que vai estudar os processos no final de semana e que na segunda-feira vai debatê-los com sua assessoria técnica. Ele afirmou que pode adotar, parcialmente ou integralmente, a recomendação dos técnicos ou simplesmente não seguir os pareceres. "A decisão é sempre minha. A responsabilidade também", declarou.

Na avaliação da oposição, ao anunciar previamente que pode deferir os pedidos de impeachment logo no início da semana, Cunha coloca pressão sobre os petistas para que os três membros titulares do partido no Conselho de Ética revejam suas posições e ajudem a arquivar o processo disciplinar. "Ele quer fazer pressão para o PT não vacilar", concluiu um tucano.

Desde que romperam com o peemedebista, os oposicionistas têm defendido abertamente que é preciso garantir a continuidade da ação contra Cunha no Conselho de Ética. Se o processo de impeachment for deflagrado, dizem os tucanos, será bem-vindo. "Não vamos renunciar ao processo contra Dilma porque o Eduardo passou a caneta", enfatizou um deputado do PSDB.

"Efeito Delcídio". A prisão do ex-líder do governo no Senado, Delcídio do Amaral (PT-MS), gerou um clima de apreensão na Câmara e parlamentares acreditam que Cunha pode ser o próximo a cair. "O negócio do Delcídio piorou as coisas para ele (Cunha). É o efeito Orloff: eu sou você amanhã", concluiu um parlamentar, se referindo a uma propaganda dos anos 80 da vodka.

Membros do Conselho de Ética afirmam que a prisão de Delcídio coloca mais pressão sobre o colegiado para que os integrantes ajam com "razoabilidade e respeito". "O momento político, econômico e jurídico conspiram para ações mais responsáveis", disse o deputado Marcos Rogério (PDT-RO).

Se a votação da admissibilidade fosse hoje, 27, a avaliação de conselheiros e aliados de Cunha é que o placar seria 11 votos pela continuidade da ação e nove contra. Os aliados do peemedebista contam com dois votos do PP, dois do PR, dois do PMDB, um do PSC, um do PSD e um do Solidariedade.
O voto do deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP) ainda não é uma garantia. Interlocutores de Cunha dizem que Sá andou se desentendendo com ele e sua tropa do choque corre contra o tempo para reverter o voto.

Voto do PT contra Cunha no Conselho de Ética pode estimular impeachment

Por Natuza Nery / Folha de S. Paulo - Painel

Quem com ferro fere… O Planalto trata a próxima terça como o dia D. A possível abertura do processo de cassação de Eduardo Cunha com os votos do PT pode levá-lo a aceitar o pedido de impeachment contra Dilma Rousseff. O governo, porém, diz duvidar da vingança. Enquanto ministros apostam na aprovação imediata da nova meta fiscal, o presidente da Câmara tem afirmado nos bastidores que, se o projeto não for votado na semana que vem, será “obrigado” a aceitar a tese de que as pedaladas continuaram.

Sinal amarelo Aliados do peemedebista mandam recados: “De que vale manter Dilma no cargo se ela não mostrar que está disposta a trabalhar em conjunto?”, questiona um escudeiro de Cunha, em referência à conexão entre os três votos petistas no Conselho de Ética e a abertura do impeachment.

Pôquer Alguns auxiliares palacianos acham que Cunha está blefando, outros afirmam não ser possível viver sob chantagem. “Será que ele vai atirar e gastar toda a sua munição?”, questiona um petista influente.

Esperança O governo conta com a promessa de líderes partidários de aprovar a revisão da meta até quinta-feira. Ministros avaliam que, se isso não ocorrer, o cenário político, de fato, se complica.

Orelha vermelha Os senadores do PT vão chamar Rui Falcão para a reunião da bancada na próxima terça-feira. Consideraram que a nota assinada pelo presidente do partido na quarta “rifou” todos os parlamentares, e não só o ex-líder na Casa.

Governo vai parar

• Sem meta fiscal aprovada, decreto bloqueará R$ 10 bi • Dilma cancela viagem para não descumprir lei • Na terça-feira, pagamentos serão suspensos

Sem a nova meta fiscal deste ano aprovada pelo Congresso, a presidente Dilma decidiu seguir a orientação do TCU, fazer novo corte no Orçamento e suspender, a partir de terça-feira, todos os pagamentos não obrigatórios do governo. Com isso, pela primeira vez, o país entrará numa situação de paralisia administrativa. Apenas gastos constitucionais, como saúde e educação, serão mantidos. A presidente teve de cancelar a viagem que faria ao Japão na quartafeira porque até despesas com diárias serão suspensas. O Congresso tentará votar a nova meta na terça.

Sem dinheiro para funcionar

• Para não contrariar TCU, Dilma decide suspender pagamentos e parar máquina pública

Martha Beck, Simone Iglesias e Júnia Gama - O Globo

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff decidiu seguir a orientação do Tribunal de Contas da União (TCU) e vai fazer um novo contingenciamento do Orçamento de 2015, o que na prática vai paralisar a máquina pública a partir do dia 1º. Na segunda-feira, o governo editará um decreto de programação financeira com corte de R$ 10,7 bilhões nas despesas. Com isso, pela primeira vez, o país terá um quadro que os técnicos chamam de shutdown, ou seja, a suspensão de todas as despesas discricionárias. Isso significa adiar o pagamento de contas de água, luz, telefone, bolsas no Brasil e no exterior, fiscalização ambiental, da Receita e da Polícia Federal.

O bloqueio também atingirá gastos com passagens e diárias e, por isso, a presidente Dilma decidiu cancelar sua ida ao Japão e ao Vietnã, marcada para o período de 1º a 4 dezembro. Na tarde de ontem, a Secretaria de Imprensa da Presidência da República (SIP) confirmou que Dilma cancelou as viagens “porque a partir de 1º de dezembro o governo não pode mais empenhar novas despesas discricionárias, exceto aquelas essenciais ao funcionamento do Estado e ao interesse público".

A presidente, no entanto, manteve o compromisso de ir a Paris para conferência sobre mudanças climáticas. Isso porque esse evento está marcado para o dia 30, e o bloqueio dos gastos só entrará em vigor no dia seguinte. Ela ficará fora no final de semana, mas retorna a Brasília na segunda-feira.
O bloqueio pode atingir até mesmo atividades preparatórias para as Olimpíadas. No entanto, serão preservadas as despesas obrigatórias: pessoal, Previdência, o programa Bolsa Família e as vinculações constitucionais das áreas de saúde e educação, entre outras.

Como esse é um quadro inédito, ontem em Brasília, funcionários públicos e até ministros se perguntavam o que devem fazer a partir do dia 1º. Entre as dúvidas, estavam se seria preciso dispensar servidores terceirizados e deixar de usar carros oficiais. Outros também queriam saber se precisam cancelar viagens ou ter de pagar deslocamentos com recursos do próprio bolso.

Argumento para impeachment
A decisão de fazer o shutdown não era consenso na equipe econômica. O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, defendia a medida para evitar o agravamento de problemas com o TCU, o que poderia fragilizar ainda mais a imagem do governo junto ao mercado. Já o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, se opunha à medida, lembrando o Planalto de que uma ação desse tipo poderia trazer danos à prestação de serviços públicos importantes. O Palácio do Planalto optou pela estratégia de Levy. Dilma tenta evitar uma fragilização ainda maior de seu mandato. A ideia foi não dar argumentos para mais um possível pedido de impeachment.

Sem fazer o contingenciamento, o governo indicaria que não está trabalhando com a meta fiscal vigente, mas com uma meta que ainda não foi aprovada pelo Congresso. Isso também ocorreu em 2014 e foi uma das razões que levou o TCU a rejeitar as contas da presidente. Hoje, a única forma de sinalizar um compromisso com a meta oficial é fazer um contingenciamento de todas as despesas discricionárias. Como a maior parte delas já foi cortada ao longo do ano, só restam agora R$ 10,7 bilhões.

Ontem, ao analisar os efeitos do shutdown, o Planalto temia que o decreto passe para a população a imagem de que o governo está quebrado. Por isso, em sua nota, o SIP também destacou que “não se trata de um problema financeiro, mas sim orçamentário". O plano do governo é ficar com o bloqueio até que a nova meta seja aprovada pelo Congresso.

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), mantém a disposição de votar na terça-feira a nova meta fiscal. No entanto, comentou com aliados que é preciso sentir o clima entre os senadores, especialmente da oposição, na semana que vem, para avaliar o quanto a prisão do líder do governo Delcídio Amaral (PT-MS) afetará as votações. Até o recesso, o Senado tem pela frente apenas seis sessões plenárias.

O senador Romero Jucá (PMDB-RR), que integra a base aliada, está conversando com a oposição para tentar fechar um acordo para a votação.

— Tem que votar porque não é uma questão política, é de país — disse Jucá.

A cúpula do PMDB no Senado tenta convencer a oposição a aprovar a nova meta com o argumento de que o seu descumprimento pelo governo no ano não representaria crime de responsabilidade da presidente Dilma Rousseff. Ou seja, a meta não seria um motivo jurídico para um eventual pedido de impeachment da presidente. Na avaliação de peemedebistas, ela só responde pelo descumprimento da meta ao fim do mandato e pelo conjunto dos quatro anos.

Entre os deputados da oposição, entretanto, existe a avaliação de que a não aprovação da meta pode reforçar a tese do impeachment, já que o governo sofreria o desgaste de estar descumprindo a Lei Orçamentária. O líder da Minoria na Câmara, Bruno Araújo (PSDB-PE), disse que a obstrução será “total e plena".

—Éo segundo ano consecutivo que Dilma gasta muito mais do que as rubricas autorizam, não é uma excepcionalidade — afirmou.

Na hipótese de a meta não ser aprovada antes do recesso parlamentar, o governo avalia a possibilidade de ingressar no Supremo Tribunal Federal (STF) com um pedido de liminar contra a determinação do TCU. O argumento seria de que os gastos são de interesse público.

Colaboraram Catarina Alencastro, Washington Luiz e Geralda Doca

Decreto de Dilma contigencia R$ 10 bi em novas despesas

Por Andrea Jubé – Valor Econômico

BRASÍLIA - O Palácio do Planalto informou que a presidente Dilma Rousseff decidiu cancelar as visitas oficiais que faria ao Vietnã e ao Japão na próxima semana porque, a partir de terça-feira, dia 1º, o governo não poderá mais empenhar novas despesas discricionárias, exceto aquelas essenciais ao funcionamento do Estado e ao interesse público.

Na segunda-feira será publicado um decreto contingenciando o valor de R$ 10 bilhões do Orçamento federal. O anúncio foi feito pela Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República.

A Secom explicou que não se trata de um problema financeiro, "mas orçamentário". Argumentou, ainda, que a medida atende ao último posicionamento do Tribunal de Contas da União (TCU), de que a não aprovação da meta fiscal obriga o governo a contingenciar as verbas discricionárias.

A revisão da meta fiscal de 2015 para um déficit primário estimado em R$ 110 bilhões seria votada em sessão conjunta do Congresso Nacional na quarta-feira, mas a prisão do líder do governo no Senado, Delcídio Amaral (PT-MS), levou ao cancelamento da votação.

Dilma decola hoje às 23h para Paris, onde participa da conferência internacional de meio ambiente, a COP 21, e retorna ao Brasil na segunda-feira à noite, de acordo com a agenda da presidente.

PIB vai encolher 8% entre 2015 e 2017, prevê Credit Suisse

Por Flavia Lima – Valor Econômico

SÃO PAULO - Em meio a uma série de referências à Olimpíada de 2016, o Credit Suisse (CS) apresentou ontem a clientes seu 'Brasil em Números', amplo painel com as perspectivas para os próximos anos. Quando o assunto é economia, no entanto, as chances de medalhas para o Brasil se limitam ao setor externo. Na corrida para uma inflação mais próxima da meta estaremos entre os últimos colocados e a expectativa é que não se consiga vencer os obstáculos na política fiscal. A derrota mais acachapante, no entanto, virá do Produto Interno Bruto (PIB), que terá pelo menos três anos consecutivos de baixa.

No cenário traçado pela equipe liderada por Nilson Teixeira, o recuo da atividade será de cerca de 8% entre 2015 e 2017 - a maior contração em três anos desde o início da série histórica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 1901.

Após cair 3,6% neste ano, o PIB vai recuar outros 3,5% em 2016 - número bem acima das expectativas de mercado, que apontam queda de 2% para a atividade no ano que vem, segundo o boletim Focus, do Banco Central. Em 2017, haverá nova queda, mas menor, de 0,5%. "Dependendo da revisão que será publicada dia 1º, podem ser quatro anos seguidos de retração", alerta Nilson Teixeira, economista-chefe do banco, que falou com exclusividade ao Valor. Teixeira se refere à primeira revisão do PIB de 2014, a ser divulgada pelo IBGE junto com os dados do terceiro trimestre.

Em um exercício que dá a dimensão dos desafios colocados à economia brasileira, Teixeira diz que, confirmadas as suas projeções, se o PIB de 2018 tiver alta inferior a 2%, todos os ganhos obtidos com a maior expansão da atividade no período entre 2004 e 2010 terão sido perdidos, com retorno aos níveis de 2003.

Na parte do consumo das famílias, o pior deve ficar para o ano que vem: a queda de 3,5% neste ano vai ser seguida de uma contração ainda mais expressiva, de 4,4% em 2016 e nova baixa em 2017, de 1,1%. Segundo Teixeira, a trajetória de queda do consumo está associada à deterioração do mercado de crédito e, especialmente, do mercado de trabalho. Em percentual do PIB, o crédito bancário cai de 51,8% neste ano para 49,4% em 2017. Já a inadimplência, em percentual do crédito livre, subirá de 5,2% em 2015 para 6,7% em 2017.

"As linhas de crédito bancárias que tem crescido mais no país são as associadas a juros mais altos e inadimplência maior, o que é um fator desfavorável para a renda disponível das famílias", diz Teixeira.

A taxa média de desemprego esperada para 2016 é de 11,2%, após 8,3% neste ano. Em 2017, ela encostará nos 13%. Já a deterioração da massa salarial ocorrerá com força no próximo ano: a leve alta de 0,5% neste ano se transformará em uma queda de 4,7%, com mais uma baixa de 1,5% em 2017.

São negativas também as expectativas do Credit Suisse para a formação bruta de capital fixo, que é o total investido em máquinas e equipamentos, construção e propriedade intelectual, Nas contas do banco, após queda de 4,4% em 2014, os investimentos devem registrar baixa de 14,6% neste ano, seguida por outra, de 12,6%, em 2016. Em 2017, o horizonte ainda é de declínio, embora menor, de quase 3%.

Segundo Teixeira, os modelos não indicam isso, mas se o ritmo de crescimento observado em 2015 fosse mantido em 2016, a contração do PIB no ano que vem chegaria a 5,3%. Só de carregamento estatístico, já é possível esperar para 2016 queda superior a 2%.

No caso da inflação, os preços devem passar longe do teto da meta estabelecida pelo BC, de 6,5%, pelo segundo ano seguido. Nas contas do Credit Suisse, a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) encerrará o próximo ano em 8%, após alta de 10,7% neste ano. Segundo Teixeira, o teto da meta não será atingido nem em 2017, quando a expectativa do banco é de inflação de 6,5%, mas como estará valendo a nova banda de flutuação, de 1,5 ponto para mais e para menos, o teto será de 6%, portanto.

Mesmo em meio a esse cenário, Teixeira avalia que a autoridade monetária deve optar por manter a taxa Selic estável em 2016 e também em 2017 - e nem mesmo a última reunião do Copom, quando dois diretores discordaram da maioria e votaram pela alta da Selic, faz o economista mudar de ideia ainda. Segundo Teixeira, o BC deve continuar argumentando que haverá convergência da inflação, embora em ritmo mais lento.

Para o economista, a estratégia do BC é arriscada. Os modelos do Credit Suisse sinalizam que, tudo o mais constante, seria necessário elevar os juros para nada menos do que 18% para que a inflação voltasse aos 4,5% apenas em 2018. Mas o que é importante, alerta o economista, é que ano após ano alcançar 4,5% ou algo próximo a isso está cada vez mais distante.

A leitura desfavorável, diz Teixeira, se explica porque os preços administrados desaceleram, mas devem se manter altos no ano que vem. Após avanço esperado de 18,2% em 2015, os preços de tarifas públicas subirão 10,9% em 2016. Já o repasse cambial à inflação tem sido mais contido, em parte em razão do ambiente recessivo, explica, mas o impacto maior deve ficar para 2016. O dólar deve encerrar o ano em R$ 4, chegando em R$ 4,70 no fim de 2016 e em R$ 5 em 2017.

Nas contas públicas, o déficit primário inaugurado no ano passado (-0,6% do PIB) só se ampliará. Para 2015, a projeção é de um déficit primário de 1,6% do PIB - com um déficit nominal de 10,5% do PIB. Sem refresco nem da CPMF nem da Cide, o próximo ano registrará um déficit de 1,4% do PIB, com déficit nominal de 8%.

Os dois impostos não entram na conta porque o banco atribui baixa probabilidade de serem aprovados. Mais do que isso, diz Teixeira, a avaliação é que a aprovação da CPMF contribuiria para redução ainda maior dos investimentos. "Seria mais adequado reduzir renúncias tributárias exageradamente concedidas nos anos anteriores", recomenda. "Dá para reduzir muita coisa". Nas contas do Credit Suisse esse "muita coisa" soma quase R$ 264 bilhões em renúncias de receitas tributárias em 2016.

No bolo, há coisas como o Simples, que explicará R$ 73 bilhões das renúncias no próximo ano, a desoneração da folha de salários, com R$ 14,9 bilhões, ou o desconto do Imposto de Renda com despesas médicas, com R$ 11,5 bilhões.

Segundo Teixeira, há benefícios, como por exemplo para a indústria automobilística e para o setor de aço sobre os quais "não é certo que tenham trazido benefícios de longo prazo para a sociedade brasileira". Sem fugir da polêmica, diz que outros, como o desconto no Imposto de Renda para despesas médicas deveriam ser rediscutidos. "É justo mantê-lo no atual contexto mesmo que beneficie certamente a todos nós?", questiona.

Diante desse quadro, prossegue, a dívida bruta do governo alcançará 72% do PIB em 2016, chegando a 77% do PIB em 2017. Com isso, o país perde o grau de investimento em todas as agências de risco a partir de 2016 ou 2017.

A reversão desse quadro, diz o economista, começaria com um pacote de reformas que oferecesse uma visão de sustentabilidade e solvência fiscal. Teixeira avalia que o espaço para a eficiência é grande. Em suas contas, seria possível manter o mesmo tipo de qualidade, reduzindo os gastos com saúde em 70%. "Parece absurdo", diz. Entre outras reformas, sugere medidas que reduzam custos de fazer negócio no Brasil, custos previdenciários e subsídios, além da aceleração das privatizações.

Marco Aurélio Nogueira*: Fogo no circo

- O Estado de S. Paulo

Não são somente Dilma e Cunha, o PT, o PMDB e o PSDB, a esquerda e a direita, o Executivo e o Legislativo. É tudo.

Tal qual o mar de lama com que a incúria e a busca do lucro fácil destruíram a vida de milhares de pessoas, comprometendo o meio ambiente por décadas, uma lava corrosiva está se espalhando pelo País, a ameaçar o futuro. Há algo de podre no reino. A política simplesmente não funciona.

Para começar, não há governo. O problema não é a presidente, mas o sistema e o modo como se deseja governar. Sua mais perfeita tradução é o Ministério pífio que há em Brasília, sem cabeças talentosas, sem liderança e coordenação, composto só para agradar ao baixo clero do Congresso e fortalecer a base governista. Não é um Ministério com perfil técnico ou político: ele simplesmente não tem perfil. Também não tem um plano de voo para seguir, já que não há programa de governo. O que havia antes, no primeiro mandato de Dilma, e que não era grande coisa, foi literalmente reduzido a pó após as eleições, quando a crise econômica encorpou e passou a ser reconhecida como um castigo dos céus. Jamais se admitiu que a economia desandou porque as opções governamentais foram ruins. A culpa seria das estrelas, e dos outros. Por isso, que se pague a penitência do ajuste fiscal.

Neste cenário de horrores, seria de esperar que o Congresso Nacional se enchesse de brios e fizesse sua parte. Que os melhores se destacassem nele. Que pressionassem o governo, o obrigassem a agir, nutrindo-o com críticas e ajudando-o a enfrentar com determinação os problemas. É para isso que existem deputados e senadores. Mas o Congresso se encolheu miseravelmente. Passou a assistir impassível, com alguns arroubos de indignação seletiva, à sua própria conversão numa instituição desprezada pela população, que não se sacrifica pela Nação, pouco faz de produtivo. Chegou ao ponto de permitir que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, sujo até o último fio de cabelo, pose como um Maquiavel de província e deboche da Nação, equilibrando-se na indiferença das oposições e no apoio mal disfarçado de Lula e do governo.

O cenário seria perfeito para as oposições mostrarem sua cara e seus recursos, suas propostas, sua “narrativa”. E o que se viu? Silêncio total, entremeado por algumas vozes isoladas, impotentes, que não se fazem ouvir. As oposições simplesmente se entregaram ao jogo do poder – à pequena política –, deixando por terra sua identidade, suas glórias e tradições.

Cidadãos foram às ruas protestar. Encheram algumas praças e avenidas de diversas capitais, mas foram a pouco e pouco perdendo fôlego. Ressentiram-se precisamente da ausência da política. Foram “liderados” por pequenos grupos de ativistas e por alguns políticos verborrágicos, sem talento, com a faca nos dentes. Os cidadãos perceberam que naquele festival de bobagens reacionárias – em que não faltaram pessoas armadas e apelos patéticos aos militares – não encontrariam nenhuma saída.

Sem política – cabeça política, educação política, articulação política –, as ruas não puderam levar uma palavra de lucidez para o sistema político e a Presidência da República.

Enquanto isso transcorria nos vértices inoperantes do sistema, as reformas de que o País necessita foram sendo travadas, travando o conjunto. É muito mais que ajuste fiscal. A questão urbana é lancinante, em termos de habitação, segurança e mobilidade. A questão energética atingiu nível emergencial e a manutenção da matriz atual produz tragédias sucessivas, destrói florestas e prejudica populações inteiras. Ninguém mais fala de reforma política. A desigualdade lateja. O SUS, nosso maior patrimônio na área da saúde, parece abandonado. E estamos longe de ter conseguido equacionar a mais importante de todas as questões, a educação. O ensino deixa a desejar, a privatização avança, a escola pública derrapa e não recebe tratamento à altura da parte dos governos, que preferem tratá-la pelo lado do custo. A educação não se converte em causa nacional, suprapartidária, em questão de Estado, para prejuízo de milhões de jovens e o represamento da inteligência nacional.

Nesta última semana, o circo pegou fogo de vez. É provável que continue a queimar até 2018, pois o sistema está tão em crise que não consegue gerir nenhuma crise. Mas o ineditismo dos últimos acontecimentos, a gravíssima prisão de um senador, líder do governo, autorizada pelo STF, tem força para fazer com que os melhores políticos se movimentem. Foi uma bofetada.

Quando as coisas atingem grau máximo de degradação, espera-se que comecem a ser forjadas as soluções. O PSDB já está a rever sua conduta. O Senado consegue discutir e avaliar sem corporativismo a prisão de um de seus cardeais e por esmagadora maioria autoriza a continuidade das investigações contra ele. Reposiciona-se, corta na própria carne. Na Câmara, o Conselho de Ética aperta o cerco em torno de Eduardo Cunha, que se desmoraliza. Um banqueiro e um pecuarista – íntimos dos altos círculos políticos da República – são presos, acusados de corrupção e tráfico de influência. Ministério Público, Polícia Federal e Poder Judiciário dão sinais seguidos de que o círculo continuará a se fechar.

Não é pouca coisa para um único ano. Eppur si muove? Não dá para saber, mas a dinâmica alucinante do quadro está a criar sucessivas oportunidades para reformulações.

Pode ser que alguma luz se acenda no Planalto, vinda, quem sabe, de algum juiz ou dos pequenos partidos de oposição, o PSOL, a Rede, o PPS, o PSB. Pode até mesmo acontecer de alguns morubixabas se reunirem para estender a mão a Dilma e apoiá-la numa recomposição governamental séria. Os partidos não estão mortos. Podem render mais, recuperar sua vocação e sair da letargia.

Não é razoável que da gravíssima crise em que está o País não surja uma bandeira para que se reorganizem a sociedade e o Estado.

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* Marco Aurélio Nogueira é professor titular de teoria política e coordenador do núcleo de estudos e análises internacionais (Neai) da Unesp

Merval Pereira: FH cobra explicação de Lula

- O Globo

FH diz que só aceita conversar com Lula se o petista explicar seu papel nos escândalos. O ex-presidente Fernando Henrique decidiu radicalizar sua posição em relação a um eventual diálogo com o ex-presidente Lula sobre a crise política brasileira. Diante de uma plateia de empresários do país todo, e tendo ao lado a ex-senadora Marina Silva, disse que só conversaria com Lula depois que ele esclarecesse qual foi o seu papel nos escândalos que estão sendo revelados pelas operações Lava-Jato e Zelotes, da Receita: “Sempre me dispus a conversar com o Lula, mas agora não há mais condições. No momento, ele não merece o meu respeito. Só depois de se explicar, e se me convencer”.

Fernando Henrique disse que não é mais possível haver um diálogo institucional com Lula, pois a cada dia surgem mais indícios que o aproximam dos escândalos. “Não quero conversar com quem pode estar envolvido nisso. Quero ver primeiro quem vai sobrar, quem vai ficar em pé. Aí, sim, podemos conversar”, disse o ex-presidente, sendo muito aplaudido.

No mesmo movimento, Fernando Henrique disse que já passou da hora de a presidente Dilma assumir o comando de uma grande união nacional para superar a crise, e que, se ela não tiver condições de fazê-lo, “outros farão”.

A senadora Marina Silva havia falado anteriormente na necessidade de unir os melhores de todos os partidos para uma tentativa de superar a crise, que, segundo ela, demonstra ser “um poço sem fundo”. Afirmando que não há quem saiba como sair da crise, Marina disse que estamos os brasileiros em uma sensação de vertigem, atônitos e sem rumo: “E, quando estamos nessa situação, procuramos logo uma borda para nos ampararmos, para não cairmos. É o que podemos fazer agora, nos unindo para uma tentativa de encontrar a saída”.

Fernando Henrique lembrou os meses que antecederam o impeachment do ex-presidente Fernando Collor, e disse que a situação naquele momento era menos grave que agora. Mas, com o agravamento daquela crise, houve um momento em que as grandes lideranças do país se uniram informalmente para trocar informações, e estavam prontos quando a situação mostrou-se incontornável.

FH citou, além de políticos, empresários, líderes religiosos, setores da academia, formadores de opinião, que deveriam também agora unir forças para buscar caminhos dentro da Constituição para enfrentar a crise. Marina também destacou que a trilha a ser seguida obedece necessariamente à Constituição, e disse que o impeachment não é uma saída que se busque; ele se constrói por conta própria à medida que as revelações vão sendo feitas e tornam impossível a permanência do presidente no Planalto.

Marina deu o exemplo da aproximação de seu grupo político com o então presidente Fernando Henrique no Acre, no combate ao crime organizado que dominava o estado, para afirmar que é possível juntar forças políticas adversárias em torno de pontos comuns em momentos de crise.

Ambos defenderam a reformulação do nosso sistema político-partidário e a necessidade de formar-se um governo em torno de programas comuns, abandonando a prática de troca de favores para apoios políticos que buscam apenas a manutenção do poder. Marina citou a sua área, onde o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, “não conhecia nada de energia”, como exemplar desses acordos políticos espúrios que acabam nos escândalos que estamos vivendo.

Diante da convergência de opiniões sobre as dificuldades de superação da crise, mas também concordando com o potencial do país, Marina e Fernando Henrique ensaiaram um começo de entendimento, como o próprio ex-presidente ressaltou, citando também o grupo de empresários que estavam presentes: “Estamos começando aqui esse entendimento nacional de que falamos. Quem sabe a Marina não resolve isso? Eu ajudo”. Ao que Marina comentou, entre sorrisos: “Muy amigo”.

Igor Gielow: No limite

- Folha de S. Paulo

O desânimo que tomou conta dos círculos mais altos do governismo é boa régua da fragilidade do terceiro ciclo de Dilma Rousseff na Presidência, iniciado na reforma ministerial de outubro.

Ainda sofrendo o choque das prisões da semana pela Lava Jato, os remanescentes na cidadela de Dilma estão sem reação, como moradores intramuros sitiados pela peste.

Os termos do acordo da Andrade Gutierrez no escopo da operação, admitindo corrupção em vistosas vitrines dos anos do PT no poder, vieram como prego de caixão luxuoso. Como diz um governista graúdo, "agora é rezar em dobro".

As preces até estavam funcionando. O arco narrativo da crise sugeria um respiro tático a Dilma, jogando alguns de seus problemas centrais para 2016. Não mais: os sortilégios insinuados na delação de Nestor Cerveró e numa eventual fala de Delcídio do Amaral se unem à vitória progressiva da entropia na vida real.

A gravidade da situação é mensurável no terrorismo feito por Joaquim Levy em entrevista ao "Estado". O ministro da Fazenda sugeriu uma variante bananeira do "shutdown" americano. Não acabou bem assim, mas indica a extensão do efeito das forças destrutivas na economia.

Como escreveu o senador tucano José Serra, só uma solução política, qualquer que seja, pode fazer a roda girar. Dada a geleia em que o Parlamento se transformou e o fato de que o Executivo é um senhorio ausente, os olhos se voltam para o conglomerado jurídico-policialesco para que o desejado "algo" aconteça.

Há riscos evidentes nesse cenário, como um ativismo judicial que seja confundido com asseveração de autoridade. A esta altura, contudo, são preferíveis interpretações legais draconianas à estarrecedora sem-cerimônia explicitada na trama hollywoodiana contra a Lava Jato.

É o melhor que temos agora, e sinaliza algum limite para a esgarçadura institucional do país.

Míriam Leitão: Além da imaginação

- O Globo

País chega ao fim do ano vivendo um enredo que supera a ficção na política e na economia. A decisão de congelar R$ 10 bilhões, parar a máquina pública, fazer o shutdown da administração é tardia e insuficiente porque o rombo do país é 10 vezes maior. O governo deveria ter tomado providências há mais tempo para aprovar uma meta fiscal realista. Mas deixou para o fim do ano e aí aconteceu o terremoto de quarta-feira que paralisou o Congresso Nacional.

O país chega ao último mês do ano em situação lastimável, em grande parte por culpa de quem nos governa. Tudo o que pesa sobre esta administração é resultado dos seus atos passados e das escolhas que fez. O governo Dilma se transformou em um morto-vivo que pesa sobre o país. Ele ainda tem três anos pela frente e nenhuma perspectiva de melhora.

O governo desgovernou na largada deste segundo mandato. O espanto que nos acompanhou durante todo o ano chegou ao auge na quarta-feira, com a prisão do líder do governo no Senado. A sessão histórica da Casa foi um retrato da tensão institucional. O país acompanhou cada minuto da sessão que começou com tudo preparado para ser uma votação secreta que relaxaria a prisão preventiva e terminou sendo aberta e mantendo o senador preso.

A ficção não seria tão caprichosa. Pareceria inverossímil para um roteirista de série ter tantos investigados no mesmo processo naquele plenário, inclusive um ex-presidente da República que já sofrera impeachment. Nem colocaria na presidência daquela sessão um dos investigados. E o senador Renan Calheiros equilibrou-se entre seu desejo explícito de votação secreta e relaxamento da prisão e a maioria que foi se formando, no balanço das horas, pela votação aberta e manutenção da prisão.

Durante a maior parte do ano a base parlamentar ficou à deriva, tendo apenas alguns momentos de aglutinação. A presidente Dilma mostrou toda a sua incapacidade de liderar os políticos da coalizão. O líder do Senado era um dos poucos pontos de apoio. Sua prisão deixou o governo diante do fato de que perdeu o último prazo para a aprovação da meta fiscal de 2015 e isso cria um impasse institucional. O governo entrou em segundo desrespeito às leis orçamentárias. A primeira foi com as pedaladas de 2014 e agora com o descumprimento do prazo de aprovar a autorização para ter um déficit de R$ 120 bilhões.

No primeiro mandato, a presidente Dilma gastou demais, concedeu subsídios a empresários, erodiu as finanças públicas e manipulou as estatísticas fiscais através das pedaladas que levaram o TCU a recomendar a rejeição das contas de 2014. Como isso virou um risco político ao seu mandato, a presidente precisa quitar as dívidas com os bancos estatais e evitar, a qualquer custo, ficar novamente em conflito com a lei orçamentária. Se o risco era tão alto, por que a presidente não fez esforços mais cedo e mais enérgicos pela aprovação? Foi assim que se chegou ao último mês do primeiro ano deste mandato: com a administração podendo fechar para balanço.

O primeiro governo Dilma começou com a fantasia de que ela faria uma faxina ética. Depois das demissões de sete ministros, a presidente desistiu do projeto limpeza. Tudo voltou a acontecer como sempre ocorrera nos governos petistas, mesmo após o julgamento dos acusados do Mensalão ter dado o sinal de que poderosos podem ir para a cadeia.

O mais revelador da impressionante conversa gravada por Bernardo Cerveró é a confirmação de como se conspira, dentro dos poderes da República, contra a Operação Lava-Jato. O planejamento da fuga de Nestor Cerveró e a tentativa de interferir nas investigações, suprimindo partes da delação premiada do ex-diretor da Petrobras, foram os fatos que os levaram à prisão. Mas o que ainda ecoa é o momento em que Delcídio Amaral revela que teria falado com ministros do STF e que, se recebesse o habeas corpus, outros também conseguiriam. E assim se desmontaria a operação em andamento. A prisão do senador foi tão forte que saiu do foco a prisão do amigo do expresidente Lula, José Carlos Bumlai.

Se tudo isso fosse ficção, algum crítico diria que é exagero. E nós, que no Brasil vivemos, concordamos: os acontecimentos deste ano, que ainda não terminou, estão além da imaginação.

Demétrio Magnoli: A voz do Planalto

- Folha de S. Paulo

O relógio marcava 19h59, na quarta (25), quando Renan Calheiros tomou o microfone para qualificar como "oportunista e covarde" a nota oficial na qual o PT tentava se desvincular dos atos de gangsterismo de Delcídio do Amaral. Depois, como a confirmar o diagnóstico de Calheiros, o líder petista Humberto Costa encaminhou o voto de sua bancada, contrário à prisão determinada pelo STF. Um a um, com apenas duas exceções, os senadores do PT expuseram-se ao escárnio público, votando pela libertação do celerado. Uma análise apressada indicaria a cisão entre a direção partidária e a bancada no Senado. De fato, não foi isso: os senadores petistas inclinaram-se à voz do Planalto. Delcídio é um fio desencapado.

A voz do Planalto soou três vezes na sessão do Senado. Na primeira, às 19h06, o deputado José Pimentel, líder do governo no Congresso, propôs que, violando a Constituição, os senadores escondessem seus votos na urna do segredo. Na segunda, pela boca alugada de Calheiros, o governo rasgou a nota petista assinada por Rui Falcão. Na terceira, às 20h59, quando tudo já estava perdido, Humberto Costa chamou seus pares a praticarem o gesto de autoimolação destinado a conquistar o silêncio do companheiro preso. Delcídio nunca foi um "soldado do partido", como Delúbio ou Vaccari. Mas, como eles, sabe demais.

O personagem que tramava melar a Lava Jato, organizando a fuga de Nestor Cerveró, um colaborador sentenciado, não é um senador petista qualquer. Desde abril, desempenhava o papel de líder do governo no Senado. Ele representava Dilma Rousseff na Câmara Alta, condição que não perdeu mesmo após a delação de Fernando Baiano, na qual figura como destinatário de US$ 1,5 milhão em propina pela compra da refinaria de Pasadena. Delcídio tem algo a dizer sobre o único documento do "petrolão" que leva a assinatura da presidente da República.

Pasadena ocupa um lugar político especial. O "petrolão" adquiriu dimensão explosiva em 18 de março de 2014, quando Dilma afirmou que, como presidente do Conselho de Administração da Petrobras, aprovou a aquisição com base em "informações incompletas" de um "relatório falho" produzido por Cerveró. Naquele dia, tentando insular-se, a presidente rompeu o cristal da confiança que a ligava a Lula: as relações entre ambos nunca mais foram as mesmas. Os blogs chapa-branca reverberaram a fúria do ex-presidente, vociferando contra a "traição". Dilma lançava Cerveró ao mar, desatando um nó invisível no trançado da malha do "petrolão". Hoje, tantos nós depois, só o incerto silêncio de Delcídio pode evitar a exposição do capítulo faltante na história oculta da Petrobras.

"No caso da Dilma, ele [Cerveró] diz: a Dilma sabia de tudo de Pasadena." São palavras de Delcídio, gravadas no smartphone do filho de Cerveró. Só néscios duvidam de que "Dilma sabia de tudo", mas um processo exige mais que uma delação premiada. Delcídio, um dos padrinhos da indicação de Cerveró à diretoria da Petrobras, sabe "de tudo" –e é por isso que a voz do Planalto contrariou a do PT na tensa sessão do Senado.

Diversos fios conectam Delcídio a Bumlai, preso um dia antes. Foi o senador que apresentou o pecuarista a Lula, intermediando uma bela e proveitosa amizade. Segundo duas delações premiadas, a de Baiano e a do banqueiro Salim Schahin, Bumlai também operou na esfera da Petrobras, influenciando a bilionária licitação de um navio-sonda. Dilma "sabia de tudo" sobre Pasadena, mas talvez não soubesse de toda a extensão da pilhagem organizada na estatal. "Não é o meu governo que está sendo acusado atualmente", disse a presidente há um mês, colocando o acento no pronome "meu" para enviar uma mensagem óbvia.

O Planalto assustou-se com a prisão de Delcídio. Mas o outro Planalto, o Planalto do B, tem motivos ainda maiores para acender a luz de alerta vermelho.

Cristovam Buarque: Pátria limpa

• PIB não considera destruição ambiental

- O Globo

No final deste ano, quando o PIB de 2015 for divulgado, a lama que matou o Rio Doce não vai aparecer. As cenas do Rio Doce sendo engolido pelo lixo da mineração, de famílias soterradas, trabalhadores sem meio de vida e praias destruídas são a face mais visível das depredações provocadas e ignoradas pela economia brasileira. Os desastres sociais e ecológicos não aparecem nas estatísticas.

A economia brasileira não leva em conta a sujeira que provoca a destruição da biodiversidade, nem as “monstrópoles” que criou com sua violência descontrolada, nem o agravamento da desigualdade. Nossos rios estão morrendo pelo mau uso de suas águas ao longo de décadas, explorados como depósitos de lixo industrial e urbano, e para geração de energia, sem consideração por sustentabilidade.

Prometemos deixar um país mais rico para nossos filhos e netos, e conseguimos fazer do Brasil a sexta economia do mundo, mas não estamos deixando um país mais limpo: da corrupção que rouba dinheiro público, que envergonha a sociedade, destrói nossas estatais, desvia dinheiro de nossas necessidades, desmoraliza a política, mata nossas esperanças; limpo da burocracia que barra a eficiência na aplicação dos recursos; do corporativismo, que se apropria da máquina pública e a utiliza mais para tirar vantagens do que para servir ao público.

Queremos um país limpo ao assegurar igualdade no acesso de cada criança brasileira a uma escola de qualidade, independentemente da riqueza dos pais e da cidade onde mora; uma pátria limpa da insensatez e da indecência de jogar fora a maior de nossas riquezas: desperdiçando o talento de qualquer brasileiro. Limpo da violência que assassina nossos jovens e rouba nossas ruas, tanto quanto a lama rouba o rio; sem filas para atender direitos básicos como vaga em creche ou escola; e atendimento médico necessário.

Não basta continuar prometendo fazer um país rico, precisamos de uma nação limpa: da vergonha dos ricos e das necessidades dos pobres; de sermos o oitavo mais rico e o sexto com pior distribuição de renda; do acanhamento de termos 13 milhões da população adulta que não conhecem a própria bandeira por não saber ler “ordem e progresso”, e outros 40% que sabem ler apenas pouco mais que isso. Um país onde a riqueza seja construída com absoluto respeito ao equilíbrio ecológico e à preservação da biodiversidade; usada não apenas para reproduzir a riqueza, mas sobretudo para abolir o quadro de pobreza da nossa população, assegurando bolsa para quem precisar, mas emancipando as pessoas da necessidade de bolsas. Para isso, o Brasil precisa de uma economia que seja sustentável ecologicamente, distributiva socialmente, moderna cientifica e tecnologicamente; uma economia limpa, criativa, inovadora, com elevada produtividade e competitividade; sem lama. E todos sabem que o caminho para isto é um presidente, um governo e uma base parlamentar que conduzam o Brasil na marcha para ser uma Pátria Limpa.

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Cristovam Buarque é senador (PDT-DF)

ITV: A cartilha do PT

• O partido tornou a corrupção prática corrente, transformou o assalto ao Estado em método de gestão e dispensou a bandidos de carteirinha o tratamento de deuses

Lula não tem dúvidas sobre o episódio que resultou na prisão do líder do governo da presidente Dilma no Senado: foi uma "burrada". Não tivesse a trama urdida por Delcídio Amaral junto ao advogado de Nestor Cerveró sido flagrada, gravada e exemplarmente punida, é possível que o ex-presidente petista e seus comandados dispensassem ao senador tratamento bem distinto, o de herói.

O líder do governo no Senado não terá o mesmo destino de outros tantos petistas apanhados nos muitos escândalos de que o partido foi protagonista nos últimos anos. Não será um dos "guerreiros do povo brasileiro". Simplesmente porque seu plano não deu certo. Tivesse conseguido silenciar Cerveró e tirá-lo do país numa fuga espetacular, teria feito o serviço dos sonhos dos petistas mais estrelados.

Não se viu até agora nenhuma voz petista se insurgir contra a afronta e o escárnio que a atitude do líder da presidente Dilma no Senado representa. Não se viu do governo que até anteontem ele representava no Congresso - e do qual tinha carta branca para agir - nenhuma manifestação pública repudiando sua iniciativa. O partido ao qual serviu nos últimos 15 anos apenas lavou as mãos.

Na nota que divulgou sobre o assunto, o PT diz que as tratativas de Delcídio não tinham "qualquer relação com sua atividade partidária". Do que se depreende que todos os demais petistas apanhados em flagrante delito - ou seja, roubando recursos públicos, como ficou claro no mensalão e fica cada dia mais evidente no petrolão - atuavam em nome da causa partidária.

Relembrando: o PT tem dois ex-presidentes - um deles duplamente preso - e um ex-tesoureiro condenados por corrupção ativa; um ex-presidente da Câmara condenado por corrupção passiva e peculato. Tem um ex-dirigente condenado e preso por lavagem de dinheiro. Tem também encarcerado aquele que cuidou das finanças da campanha da atual presidente da República.

Vira e mexe, estes presidiários são saudados publicamente por petistas em suas celebrações partidárias. Na semana passada mesmo, ganharam faixas laudatórias estendidas em encontro da juventude petista ao qual Lula compareceu. O ex-presidente não apenas não os repreendeu pela atitude, como deu aos petistas mirins uma aula de como distorcer a realidade. É esta a cartilha pela qual reza o PT.

A experiência de 13 anos de governo petista vai deixando um legrado deplorável para o país. Assistimos não apenas a depauperação do Brasil, com a erosão diária das condições de vida da população. A maior vítima das atitudes petistas é a ética. O partido passará para a história como quem tornou a corrupção prática corrente, transformou o assalto ao Estado em método de gestão e dispensou a bandidos de carteirinha o tratamento de deuses.

O PT nas cordas – Editorial / O Estado de S. Paulo

A prisão do senador petista Delcídio Amaral, líder do governo na Câmara Alta, teve sobre o PT o efeito do golpe direto que deixa o pugilista zonzo, momentaneamente sem saber onde está e o que faz. A “grande burrada” que, segundo Lula, foi cometida por Delcídio parece ter contaminado o partido e o governo, a começar pela nota oficial em que o presidente nacional da legenda, Rui Falcão, afirma que o PT “não se julga obrigado a qualquer gesto de solidariedade” em relação ao prisioneiro porque as acusações que sobre ele pesam “não têm qualquer relação com sua atividade partidária”.
Para Lula, numa atitude típica de capo mafioso, o errado não é a tentativa de Delcídio de salvar a própria pele subornando um condenado no escândalo da Petrobrás, mas o fato de ter-se deixado flagrar com a prova indesmentível da gravação em áudio de sua proposta indecorosa. Para Falcão, que quer convencer o distinto público de que o PT não tem nada a ver com a história, o condenável é Delcídio ter agido em benefício próprio.

Disso se pode deduzir que, na judiciosa opinião do alto comissário petista, se estivesse praticando o mesmíssimo delito como uma “atividade partidária”, o senador estaria automaticamente inscrito na galeria dos “guerreiros do povo brasileiro”.

Como é de seu feitio, Lula evita os jornalistas em situações críticas nas quais é pego de surpresa, mas na quinta-feira – depois de, segundo se apurou, ter dado sinal verde a Rui Falcão para se manifestar em nota oficial –, no ambiente protegido de um almoço com dirigentes da CUT e do PT, embora reticente, mostrou-se extremamente contrariado com os fatos – como era de esperar – e limitou-se a exclamações do tipo “loucura” e “absurdo”. E teria deixado claro que apenas na hipótese de Delcídio Amaral apresentar uma “defesa consistente” ele teria condições de manifestar algum tipo de apoio. Não seria, com toda certeza, com base na risível alegação do senador de que agiu “por razões humanitárias”.

A atitude de Lula é compreensível, seja porque é coerente com seu histórico de não meter a mão em cumbuca, seja porque as evidências contra o ex-líder do governo no Senado são sólidas e dificilmente contestáveis.

De qualquer modo, esse novo episódio do calvário petista dividiu o partido, principalmente porque Rui Falcão, embora tenha, como sempre, agido de acordo com Lula, não se deu ao trabalho de consultar as bancadas petistas no Congresso. Assim, submeteu os senadores do partido ao constrangimento de tomar conhecimento da nota oficial do PT por intermédio do oposicionista Ronaldo Caiado, líder do DEM, que a leu da tribuna.

A reação mais forte à atitude de Falcão partiu das bancadas petistas também porque o texto indica claramente a tendência da direção nacional de agir duramente contra Delcídio. Tudo isso deixou alarmados os deputados e senadores petistas que têm o rabo preso em investigações da PF, pela razão óbvia de que podem esperar o pior no caso de a direção do partido decidir que é hora de marcar posição clara no combate à corrupção.

É sintomática, nesse sentido, a declaração do presidente do diretório estadual do partido em São Paulo, Emídio de Souza: “Sou favorável à expulsão (de Delcídio). Não podemos ter tolerância com esse tipo de coisa”.

Se no PT a prisão de Delcídio Amaral criou perplexidade e conflito, no Planalto a reação foi de catatonia. Afinal, o que dizer quando o líder do governo no Senado é pego com a boca na botija armando um esquema criminoso de compra do silêncio de um ex-diretor da Petrobrás – seu antigo subordinado na estatal – condenado por corrupção? Nos altos escalões do governo os prognósticos são pessimistas em termos da necessária articulação com o Parlamento para, nos últimos dias da atual sessão legislativa, obter a aprovação de medidas importantes para a administração federal, entre elas a aprovação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e da Desvinculação das Receitas da União (DRU). Quando parecia que podia melhorar, a situação piora para o governo e o PT.

Crise sem fim – Editorial / Folha de S. Paulo

Dado seu impacto e ineditismo, a prisão do senador Delcídio do Amaral (PT-MS) ofuscou, ao menos por uns dias, outras fontes de turbulência no cenário político.

Não se pode desprezar, contudo, uma sequência de acontecimentos que é capaz de impor novas dificuldades à sobrevivência do esquema de corrupção e desgoverno criado em torno do PT.

Um dia antes de estourar o caso Delcídio, era preso um amigo do ex-presidente Lula –o pecuarista José Carlos Bumlai, por envolvimento na contratação suspeita de um navio-sonda para a Petrobras. Ele alega ter recebido do lobista Fernando Baiano um "empréstimo" de R$ 12 milhões.

O lobista, que conta com o benefício da delação premiada nas investigações da Operação Lava Jato, dá outra versão: o dinheiro teria sido retribuição pela ajuda de Bumlai nos negócios da Petrobras.

A dimensão política do episódio assume maior interesse porque cerca de R$ 2 milhões, segundo Fernando Baiano, teriam sido repassados pelo pecuarista a ninguém menos que uma nora de Lula.

Enquanto se vai projetando sobre a família do ex-presidente um conjunto de graves suspeitas, não diminuem os riscos de que sua sucessora, Dilma Rousseff (PT), conheça novos problemas.

É que, depois de longas tratativas, formaliza-se o acordo de delação premiada entre os procuradores da Lava Jato e o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró, peça-chave na malfadada aquisição da refinaria de Pasadena. Em que medida, e a partir de quais evidências, será possível dizer que Dilma conhecia as irregularidades do negócio?

Outra delação premiada –a do próprio Delcídio do Amaral– não está descartada das inquietações que rondam o Planalto.

Desse modo, a Lava Jato parece não ter fim; e não se extingue, por isso mesmo, a crise política que corrói o PT e o governo Dilma.

A próxima semana há de trazer mais turbulências. A começar pela continuidade do processo de cassação do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), temporariamente eclipsada pela agitação no Senado.

Há muito de positivo, sem dúvida, no clima de seriedade e autonomia institucional que emana das investigações e das prontas respostas da Justiça.

Há muito de negativo, contudo, no fato de o governo se mostrar a reboque dos acontecimentos. Paralisa-se a discussão sobre economia no Legislativo. Medidas inadiáveis de controle do deficit público são praticamente abandonadas, e nem sequer uma previsão orçamentária se sustenta.

A hipótese de uma desorganização cabal da economia não pode ser esconjurada enquanto a crise política se prolonga a perder de vista.

Inércia do Planalto agrava crises política e econômica – Editorial / O Globo

• Nas cordas, com o impacto da conspiração para calar Nestor Cerveró, governo precisa reagir e tratar da pauta econômica que deve ser aprovada no Congresso

Reeleita em outubro do ano passado, a presidente Dilma, a esta altura em 2014, já sinalizava que não iria cumprir promessas de palanque, pois se sabia que estava prestes a anunciar Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda. O que de fato aconteceu: Levy foi nomeado e houve a guinada do governo real em relação àquele virtual, apresentado na propaganda petista.

A popularidade de Dilma começou a desabar, e a presidente se fechou em Palácio. A situação se repete, enquanto repercute a devastadora gravação feita por Bernardo, filho do ex-diretor Internacional da Petrobras, Nestor Cerveró, de conversas entre ele e o senador Delcídio Amaral (PT-MS), o chefe de gabinete do parlamentar, Diogo Ferreira, e o advogado Edson Ribeiro, sobre um esquema para silenciar o pai, em tratativas para testemunhar na Operação Lava-Jato. Em troca, o banqueiro André Esteves (BTG Pactual) financiaria a fuga de Cerveró e sustentaria o ex-diretor e família.

A prisão do grupo, na quarta-feira, parece ter jogado o Planalto nas cordas — como aconteceu no início do mandato. Há motivos para o desnorteamento. Cerveró teria citado Dilma em depoimento, no caso da refinaria de Pasadena, e, na questão legislativa, Delcídio era peça-chave na defesa dos projetos do ajuste fiscal no Senado. Além de presidir a Comissão de Assuntos Econômicos da Casa, ele é o relator do projeto de legalização de recursos não declarados remetidos por brasileiros para o exterior, uma fonte potencial de receita num governo em extrema penúria.

O Planalto, porém, precisa reagir, junto com o que resta da base parlamentar, porque estão em aberto, no Congresso, questões sérias em torno do Orçamento do ano que vem e mesmo metas fiscais ainda de 2015.

No início do ano, havia alguma margem de tempo para o Planalto se adaptar à realidade — parecia que a própria presidente acreditara no enredo de ficção da campanha.

Mas agora, não. A existência de uma conspiração mafiosa para calar e tirar do país testemunha relevante no petrolão, com a participação de um senador petista, por si só degrada a atmosfera tensa no Congresso. Em que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), tem sobre a cabeça a espada do Ministério Público Federal e usa o poder de dar andamento a um processo de pedido de impeachment de Dilma como escudo. Já o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), é outro citado na Operação Lava-Jato.

O quadro político ruim piora o cenário deteriorado da economia. E se o Planalto voltar a cair em estado de depressão, tudo piorará ainda mais. Dentro do governo, também é preciso resolver logo as divergências sobre a meta do superávit primário de 0,7% do PIB para o ano que vem. E quanto à meta fiscal deste ano, não esquecer que este governo não tem qualquer margem de credibilidade para falsear nas contas públicas. O crédito acabou faz tempo, e continuam em questão novos rebaixamentos na nota de risco do país.

Por que a inflação não cai

Por Denise Neumann – Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

SÃO PAULO - Ela voltou. A prévia do índice oficial de inflação ao consumidor, o IPCA, alcançou 10,28% nos 12 meses encerrados em novembro, retornando aos dois dígitos pela primeira vez desde 2003. No orçamento das famílias, essa média esconde uma conta de luz 53% mais cara e um aumento de 18% na gasolina, enquanto o preço do trivial feijão com arroz subiu 19%, na média, e o do sapato feminino (acredite, se quiser) não aumentou nos últimos 12 meses.

Os economistas conseguem explicar parte do retorno à inflação de 10%, mas há um pedaço e uma dinâmica que os desafiam. E esse pedaço não conhecido é fundamental para determinar o que o Banco Central (BC) deve ou não deve fazer na tarefa de trazer a inflação brasileira para a meta de 4,5% ao ano. Além do desconhecido, o debate sobre inflação e política monetária ganhou um adendo, que talvez represente um problema maior do que o do nível de preços. Se o Brasil estiver (ou entrar) na chamada "dominância fiscal", subir os juros passa a ser não apenas ineficiente, mas contraproducente.

O Valor pediu a três economistas - Salomão Quadros, superintendente-adjunto de Inflação do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV); Carlos Viana de Carvalho, professor do Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio); e Nelson Marconi, professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (Eesp-FGV) e vice-presidente da Associação Keynesiana Brasileira - para escreverem pequenos artigos com uma dupla questão básica: por que a inflação não cede no Brasil e como fazê-la ceder? Para um quarto economista - Tiago Berriel, professor da PUC-Rio e responsável pela análise macroeconômica na Pacífico Gestão de Recursos - o pedido foi para discutir os desafios colocados para a política monetária se o país estiver em dominância fiscal.

A parte conhecida da inflação de 2015 é a correção dos preços administrados, o repasse cambial, a manutenção de regras de indexação e o efeito dos erros de política monetária do passado recente, que afetam as expectativas quanto à inflação futura porque levam os agentes a desconfiar da ação do BC. O peso de cada uma dessas variáveis na inflação de 10% divide aos economistas, que também consideram controversa a razão pela qual a inflação subiu tanto em um quadro tão recessivo.

Nas aulas que dá na PUC-Rio, Carvalho tem se deparado com o desafio de discutir por que a inflação acelerou o ritmo se o Produto Interno Bruto (PIB) está caindo 3%, se o Banco Central corretamente já apertou os juros e se a taxa de desemprego aumentou em três pontos percentuais. Os livros-texto de economia sugerem o contrário, como acontece na zona do euro, onde o Banco Central Europeu concentra esforços para tirar a região da dobradinha deflação-estagnação. "É difícil montar esse quebra-cabeça do Brasil", diz Carvalho.

Nesse desafio, além de apontar para erros das políticas macroeconômica e monetária (com reflexos na perda de credibilidade da direção do BC) no passado recente, Carvalho chama atenção para duas linhas novas de pesquisa. Uma sugere que o repasse cambial tem sido subestimado (não só no Brasil) e a outra relaciona crise econômica e reação de empresas mais frágeis financeiramente.

Uma das principais pressões sobre a inflação deste ano vem dos preços administrados, o que inclui energia, transporte público e gasolina, entre outros itens. Esse grupo responde por quase um terço da inflação de 10%. O aumento é tão expressivo porque no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff tarifas públicas foram usadas para segurar a inflação enquanto se tentava baixar os juros, mesmo sem a inflação controlada.

Para além da conta dos administrados, Salomão Quadros, do Ibre, lista a persistência da inflação, a "taxa de sacrifício" e o repasse cambial. Para ele, o setor de serviços é o retrato perfeito da resistência, pois a alta dos preços se mantém levemente acima de 8%, ponto em que já estava no ano passado, apesar da recessão. Essa situação, diz ele, está associada à regra da correção do salário mínimo, que garante a inflação passada mais o crescimento real do PIB de dois anos antes (quando existe). "O setor de serviços vai começar 2016 com um aumento no custo de mão de obra superior a 10%", pondera Quadros. "Como desacelerar a inflação com esse custo?"

A indexação é o ponto central da avaliação de Marconi. Os preços dos bens e serviços que não podem ser trocados com o exterior andam acima dos demais desde meados de 2004, diz ele, que também aponta a regra de correção do salário mínimo pela inflação como a grande causa dessa situação. "Vai ser preciso mexer nessa regra."

Em trabalho recente, Marconi cruzou a inflação de bens não comercializáveis e o custo unitário do trabalho e concluiu que andam juntos. Portanto, para que a inflação desse grupo caia, é preciso que o custo do trabalho diminua, o que só pode ser feito com duas variáveis: uma queda do salário real ou ganhos de produtividade. Nos últimos 12 meses, o emprego na indústria caiu 5,4% e a produção encolheu 8,2%, o que indica uma queda de 3% na produtividade, enquanto o salário médio caiu apenas 0,7%. Como ele caiu bem menos que a produtividade, o custo unitário do trabalho (a quantidade de trabalho necessária para produzir uma unidade de produto), subiu, pressionando os custos.

Nessa situação em que a produção cai mais rápido que o emprego, a queda de produtividade é ainda maior e só poderia ser revertida com mais investimento, o que também não está no radar. "Por isso, apenas com redução do salário real você reverte esse movimento. E para isso precisa mexer na regra de indexação dos salários à inflação", pondera Marconi, lembrando que para o mínimo ela é lei.

Outra influência sobre a inflação vem do câmbio. Pelo modelo do BC, cada 10% de desvalorização do real tem um impacto de 0,3 a 0,5 ponto percentual na inflação ao consumidor no prazo de um ano, dependendo do nível de atividade e outras variáveis.

Carvalho, da PUC, conta que pesquisas recentes conduzidas por um grupo de economistas - Alberto Cavallo, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Brent Neiman, da Universidade de Chicago e do Escritório Nacional de Pesquisa Econômica dos Estados Unidos (NBER) e Roberto Rigobon, do MIT e do NBER - indica que o repasse das depreciações cambiais no Brasil e no mundo é muito mais intenso do que se imaginava. Eles propuseram uma nova abordagem à questão e investigaram preços dos mesmos produtos em diferentes países (via sites de grandes redes) e fizeram uma análise ao longo dos anos, cruzando com a desvalorização (ou valorização) das moedas. "A pesquisa sugere repasse de quase um para um", diz Carvalho.

Todos sabem que os preços no Brasil são sempre mais caros, pondera Carvalho. O que a nova metologia sugere é que a diferença tem sido constante, qualquer que seja o câmbio. Os estudos já publicados (ver endereço no final) não abrangem o Brasil, mas o país foi incluído em uma pesquisa em andamento, que Carvalho conheceu. "O repasse no Brasil é como no mundo, e em ambos mais intenso do que a literatura indicava", explica o professor da PUC.

Para Quadros, a recessão atrasa, mas não impede o repasse do câmbio ao valor cobrado dos bens. No atacado - que compõe 60% dos índices gerais de preços (IGPs) calculados pelo Ibre - isso ocorre ao longo do tempo nos itens industriais e mais rapidamente nos agrícolas. Quadros lembra que a desvalorização já passa de 70% desde meados do ano passado. Nos últimos 12 meses, os itens mais sensíveis ao câmbio dentro do IPA industrial subiram 13,6% (insumos) e 11,4% (bens finais). Aparentemente, a comparação pode sugerir um repasse pouco intenso, mas o economista do Ibre lembra que várias commodities ficaram mais baratas em dólar no último ano. O petróleo caiu 53% e os metais, quase 30%.

Os repasses do câmbio à inflação, diz Quadros, não são automáticos e dependem de outras variáveis, inclusive a confiança. No IPA industrial, reajustes referentes ao câmbio apareceram no início de 2015, mais concentrados em janeiro e fevereiro. Depois arrefeceram e voltaram com força no terceiro trimestre, quando houve a percepção "de que havia-se perdido o controle do câmbio".

Carvalho, da PUC, chama atenção para outro estudo que pode ajudar a entender o aumento dos preços em um contexto de recessão. Nos EUA pós-crise de 2008/2009, foi identificado (em pesquisa conduzida por Simon Gilchrist, da Universidade de Boston e do NBER, Raphael Schoenle, da Universidade de Brandeis, e Jae W. Sim e Egon Zakrajsek, do Federal Reserve) que firmas mais frágeis aumentaram mais os preços em relação às firmas mais fortes financeiramente. "As firmas menores não conseguem baixar seus preços, o que as grandes conseguem, e o efeito é uma queda menor no nível geral de preços, apesar da recessão", resume Carvalho, olhando para a pesquisa, restrita aos EUA.

Para Marconi, Quadros, Carvalho e Tiago Berriel, o Brasil não está fadado a conviver com inflação alta. Política monetária correta, fiscal ajustado e quebra de regras de indexação podem levar à inflação à meta. Quadros lembra que em 2006 e 2007 o país teve taxas ao redor de 3% e 4%. Para os economistas, o BC errou na condução da política monetária no passado, o que ajuda a explicar a aceleração das projeções para o IPCA de 2016, já em 6,6 %, acima do teto da meta estabelecida.

Em agosto de 2011, o Comitê de Política Monetária (Copom) surpreendeu ao baixar os juros quando a inflação em 12 meses estava em 7,2%. A Selic continuou em queda por 15 meses, sem a inflação convergir para a meta.

Hoje, o dilema que se coloca para o BC é mais complicado. O Brasil pode ou não estar em dominância fiscal. Mesmo que não esteja (os quatro economistas dizem que ainda não é possível cravar o diagnóstico), o certo é que a situação fiscal passou a ser um elemento que constrange a política monetária.

Tiago Berriel, da PUC, diz que existem hoje diferentes visões sobre dominância fiscal. Ele prefere aquela que diz que essa situação ocorre toda vez que os credores da dívida pública deixam de acreditar que serão gerados superávits primários suficientes, no futuro, para pagar a dívida. Essa situação leva o credor a se livrar do estoque de riqueza em seu poder, procurando outros ativos, o que aumenta a depreciação da moeda local, gerando mais inflação. Como a alta de juros alimenta a dívida, no momento em que os credores não acreditarem que ela será paga no futuro, elevar os juros só aumenta o tamanho do problema.

"Não é óbvio que estamos em dominância fiscal, mas é óbvio que esse é um problema, inclusive para o BC", diz Berriel. Ele defende que o BC seja explícito sobre quanto a variável fiscal atrapalha sua tarefa de fazer a inflação convergir para a meta e faça coro com o grupo que pressiona por mudanças que revertam a trajetória explosiva da relação dívida/PIB, que ele considera que pode chegar em 80% entre 2018 e 2019. Além do erro de ceder a pressões em 2011/2012 e baixar os juros sem condições macroeconômicas que justificassem esse movimento, Berriel diz que o Copom tem errado ao tratar a questão fiscal de forma muito condescendente ao longo dos últimos anos.

Embora veja sinais de dominância fiscal a caminho, Berriel diz que mesmo um baixo superávit primário em 2016 pode estancar essa preocupação se medidas que indiquem solvência a médio prazo - como a adoção de uma idade mínima de 65 anos para a aposentadoria - forem apresentadas e aprovadas. Mesmo a perspectiva de uma mudança de governo pode ajudar, se um "novo" governo for visto como mais virtuoso na área fiscal. "É preciso mudar a expectativa", resume.


Raphael Rabello & Caetano Veloso - Olinda, Cidade Eterna (Capiba)

Manuel Bandeira: Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.