sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Flávia Oliveira - Os desaparecidos da crise hídrica

- O Globo

Problema deveria ser tratado pelo primeiro escalão, mas está entregue ao segundo

O Rio de Janeiro tem governador e secretário estadual do Ambiente, mas parece estar com assentos vagos. Wilson Witzel (PSC) e Altineu Côrtes (PL) tornaram-se invisíveis durante crise hídrica que já dura duas semanas. De férias, o chefe do Executivo não antecipou o fim da temporada na Disney, quando moradores da Região Metropolitana começaram a denunciar que a Cedae estava entregando água com cheiro, cor e gosto, contrariando tudo o que aprendemos sobre potabilidade. Até ontem, o problema alcançava 71 bairros da capital e seis municípios da Baixada Fluminense, com implicações na qualidade de vida, na saúde, na economia e até na área policial. Deveria ser tratado pelo primeiro escalão, mas está entregue ao segundo.

Desde a virada do ano, Witzel publicou uma centena de tuítes — a forma de comunicação preferida de governantes contemporâneos para se comunicarem com eleitores, contribuintes e opinião pública. Apenas dois posts diziam respeito à estatal fluminense de água e esgoto. O governador do Rio gastou 396 caracteres para declarar que “são inadmissíveis os transtornos”; determinou “apuração rigorosa”; cobrou “solução definitiva para aprimorar a qualidade da água e do tratamento de esgoto das cidades próximas aos mananciais”. Só ontem à noite, de volta à capital, se reunia com o presidente da Cedae, Hélio Cabral. Houve um tempo em que mandatários de palácios demonstravam preocupação — ou disfarçavam a indiferença — formando grupo de trabalho, gabinete de crise ou comitê de emergência para tratar de temas urgentes como uma pane no abastecimento de água na temporada de mais calor e maior número de turistas.

Eliane Cantanhêde - Pau para toda obra

- O Estado de S.Paulo

Militares fazem ponte, combatem criminosos, limpam praias e... vão parar no INSS

Nos estertores do regime militar, toda vez que aparecia alguma encrenca, o presidente João Figueiredo ameaçava: “Chama o Pires!” Era uma senha para tentar assustar a oposição. Ou ela se comportava direitinho, ou o governo convocava o ministro do Exército para dar um jeito. No fim, Figueiredo nunca convocou para valer os militares e, afora os percalços e recuos, a transição foi concluída e o poder reassumido pelos civis.

Hoje, quatro décadas depois, numa situação bem diferente, a ordem do capitão presidente Jair Bolsonaro é mais genérica e vale para tudo: “Chama os militares!” E, assim, ele entupiu o governo de militares de diferentes patentes, desde oito ministérios até o segundo e o terceiro escalões de praticamente todas as áreas.

Eles estão na infraestrutura, nos transportes, no meio ambiente, na educação, no turismo, nas agências reguladoras, nas estatais. E as sucessivas demissões de generais, por cima, não desestimularam os colegas de várias patentes, por baixo. Calcula-se que em torno de 80% deles sejam do Exército, mas Marinha e Aeronáutica não ficaram de fora. Pelo menos, não reclamam.

O fato é que, com a Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que permitiu o uso das Forças Armadas na guerra urbana de cada dia, os militares são pau para toda obra. Já eram essenciais para a construção de estradas e pontes em locais distantes, por exemplo, apagam incêndio na Amazônia, limpam praias do maior derramamento de óleo da história, estão em todas. E vão parar no INSS.

Bruno Boghossian – Um presidente em desequilíbrio

- Folha de S. Paulo

Presidente tenta intimidar imprensa, mas jornais não são a única vítima desses ataques

Jair Bolsonaro sabia que seu secretário de Comunicação tinha negócios com empresas contratadas pelo governo? Vai pedir os nomes dos clientes de seu auxiliar para avaliar o caso? Enxerga o óbvio conflito de interesses no episódio? O presidente acha que os cidadãos não merecem essas explicações.

Numa jornada de evidente desequilíbrio, Bolsonaro tentou intimidar quem perguntava sobre o assunto. Disse a uma repórter da Folha que calasse a boca, deu berros durante uma cerimônia no Palácio do Planalto e lançou a outro jornalista uma provocação das mais apalermadas: “Tá falando da tua mãe?”.

Já se sabe que o presidente não acredita na liberdade de imprensa, mas o surto de estupidez mostra também que Bolsonaro se recusa a prestar contas ao país e esclarecer questões que o incomodam.

Pelo segundo dia seguido, ele foi incapaz de produzir uma justificativa para o fato de que Fabio Wajngarten, chefe da Secretaria de Comunicação, gerencia contratos públicos com empresas que são suas clientes na iniciativa privada.

Bolsonaro mentiu, tentou mudar de assunto e fugiu de dar entrevistas sobre o tema. Numa explosão de sinceridade ao fim de um discurso no Planalto, confessou aos jornalistas seu desejo, aos gritos: “Deixem o nosso governo em paz!”. Foi aplaudido pela plateia de aduladores.

Ruy Castro* - Aloprar ou recrudescer

- Folha de S. Paulo

Nossos presidentes, quando menos se espera, cometem ousadas piruetas verbais

Há semanas, agoniado com as investigações do Ministério Público do Rio sobre a “rachadinha” no gabinete de seu filho Flávio quando deputado estadual, Jair Bolsonaro ejaculou: “Se não tiver a cabeça no lugar, eu alopro!”. Aloprar significa ficar inquieto, agitado —aloprado. E Bolsonaro tem razão para aloprar —talvez já esteja sentindo a Justiça perigosamente perto das trampolinagens da família. Mas vamos ser justos. Num governo estrelado por tantos analfabetos, inclusive ele, surpreende vê-lo resgatar um verbo tão exótico e pouco usado.

O general João Batista Figueiredo, último presidente da ditadura, também apelou certa vez para um verbo incomum. Reagindo às tremendas pressões sobre ele, vindas tanto dos civis quanto da linha-dura militar, Figueiredo explodiu: “Olha que eu recrudesço!”. O país parou, expectante. Parecia uma ameaça —mas de quê, como e contra quem? No Pasquim, Jaguar botou seus dois calunguinhas para discutir. Um deles pergunta: “O que é ‘recrudesço’?”. E o outro: “Não sei. Mas tem cru no meio”.

Luiz Carlos Azedo - A locomotiva do Brasil

- Nas entrelinhas | Correio Braziliense

“Depois de um ano à frente das finanças do governo paulista, Meirelles saiu do silêncio obsequioso em que estava em relação ao ministro Paulo Guedes”

Em conversa com a jornalista Miriam Leitão, do jornal O Globo, o secretário de Fazenda do governo de São Paulo, Henrique Meirelles, resolveu fazer um contraponto com o ministro da Economia, Paulo Guedes, comparando o desempenho da economia paulista com a do Brasil em 2019, primeiro ano dos governos Jair Bolsonaro e João Doria. São Paulo cresceu 2,6%, com uma projeção de 3% e 3,5% em 2020. A comparação foi puro veneno: “Imagina 2019 se o Brasil tivesse crescido à taxa de São Paulo. Agora, tire São Paulo da taxa nacional e o país teria crescido só 0,3%, por aí”.

A maldade não parou: “Nos serviços, em 12 meses até novembro, o país teve 0,9%, e São Paulo teve 3,2%. A indústria caiu 1,1% no país, enquanto em São Paulo cresceu 0,3%”. Segundo Meirelles, o estado gerou 40% dos empregos formais do ano passado. Presidente do Banco Central nos governos Lula e Dilma e ministro da Fazenda do presidente Michel Temer, Meirelles continua com seu prestígio inabalado no mercado financeiro, pois tem a seu favor o fato de ter administrado a crise de 2008 do ponto de vista cambial e ter tirado o país da recessão, após o impeachment de Dilma Rousseff.

Ou seja, depois de um ano à frente das finanças do governo paulista, Meirelles saiu da espécie de silêncio obsequioso em que estava em relação à gestão do ministro Paulo Guedes. Elogiou o Banco Central, em cujos os modelos macroeconômicos disse confiar, e revelou sua intenção de debater a reforma tributária. Segundo ele, o projeto dos estados foi apresentado como substitutivo à emenda 45, em tramitação na Câmara, e à emenda 110, que está no Senado. A proposta é uma alíquota única para todos os produtos em cada estado, com uma margem para subir ou descer, de acordo como a avaliação de comitê gestor formado por União, estados e municípios, para acabar com a guerra fiscal.

Vinicius Torres Freire - O arrochão é a sobrevida de Bolsonaro

- Folha de S. Paulo

Sem aprovar emenda de talho emergencial de gastos, governo balança em 2021

A sobrevida política de Jair Bolsonaro depende de pelo menos uma votação no Congresso neste 2020. Trata-se da emenda constitucional que permite o arrochão do gasto com servidores federais, entre outras contenções de despesas obrigatórias, uma guerra política em potencial.

O talho de gastos começaria ainda neste ano, como previsto na emenda constitucional que foi ao Congresso em novembro passado, a “PEC Emergencial”, ora esquecida depois da ressaquinha da Previdência e do pilequinho da ideia do PIB “bombando na nova era”.

O arrochão é quase tão importante para a sobrevivência econômica do governo quanto a reforma da Previdência em 2019. Dado que não haverá aumento relevante de imposto, se algum, sem esse arrochão o gasto do governo vai bater no teto constitucional em 2021. Haveria então tumulto, da quase paralisação da máquina federal a alguma balbúrdia no mercado financeiro.

Sim, na hipótese de a economia e a receita crescerem 4% neste 2020 e no ano seguinte, o problema seria adiado. Mas fantasia grande é coisa de Carnaval.

Em seu primeiro relatório do ano, a Instituição Fiscal Independente (IFI) refresca a memória do tamanho crítico da pindaíba. A IFI é um órgão de análise das contas públicas, ligado ao Senado.

Míriam Leitão - Tamanho real da privatização

- O Globo

Banco do Brasil, Caixa e Petrobras, justamente as empresas que estão fora da privatização, são 75% dos ativos das empresas estatais no país e 71% do patrimônio líquido. O BNDES tem 17% dos ativos. A Eletrobras, 4%. Se não vender a estatal de energia, sobram 4% dos ativos. Essas são estatísticas do Boletim das Estatais. O secretário de Desestatização, Salim Mattar, explica que o governo continuará vendendo ativos dessas empresas, mas admite que todas elas estão fora do programa. Sobre o BNDES, Mattar afirma que o governo quer vender todas as ações da BNDESPar, mas devagar, para não derrubar o mercado.

Levei dados do relatório da Secretaria das Estatais para mostrar ao secretário, em programa que fiz com ele na Globonews, que se essas empresas estão fora então não se pode falar em “acelerar” o programa. Ele será pequeno.

— Não haverá privatização da Petrobras, Banco do Brasil e Caixa, por isso eu falo em desestatização. A Petrobras tinha distribuidora de petróleo, tinha distribuição de gás no Uruguai, tinha Pasadena, que foi uma aberração — disse Salim Mattar.

Todas essas vendas estavam sendo preparadas desde o governo passado. A propósito, o governo Temer pegou o país com 228 estatais e reduziu para 208, segundo gráfico do Boletim. Salim Mattar usa outro número, diz que são 695 empresas. E explica:

— Temos empresas controladas pelo governo, como Banco do Brasil e outras. Temos subsidiárias das estatais, do BB, da Petrobras, por exemplo. Temos as coligadas, quando há uma participação estatal mas não o controle. E temos as investidas, a Caixa Econômica tem investimento em um banco na Venezuela. A sociedade brasileira conhece muito pouco disso e a desestatização é reduzir esse número — diz o secretário.

Elena Landau* - Coalas

- O Estado de S.Paulo

A receita da Austrália é simples: rigor fiscal, câmbio flexível e economia aberta

Coalas e jornalistas são espécies ameaçadas de extinção, uma pelos trágicos incêndios que atingiram a costa leste da Austrália, outra apenas por um mórbido desejo de um presidente que não convive bem com críticas.

Os ataques à mídia vêm escalando, dos boicotes via propaganda e exclusão de licitação ao desejo de extinguir a classe. É mais uma ameaça desse governo aos pilares da democracia liberal. Essas investidas têm consequências: dão base para os intolerantes saírem do armário nas redes sociais, cometerem atentado terrorista e tomarem decisões judiciais absurdas, como a censura imposta ao episódio de Natal do Porta dos Fundos. A reação da sociedade, em defesa da democracia e liberdade de expressão, ajuda a dar limites ao presidente.

O Congresso teve importante papel ano passado, ao dar andamento a uma agenda econômica relevante, mas também ao recusar iniciativas da Presidência de viés populista ou autoritário. O STF é mais errático, deu suporte inicial à fragilização do Coaf, mas se posicionou claramente contra os rompantes de Bolsonaro. Por enquanto, os pesos e contrapesos da democracia vão funcionando.

Os coalas têm menos sorte. Um verão excepcionalmente quente e seco tem tornado os incêndios, normais nesta época do ano, incontroláveis. Lá, como cá, os governantes não dão muita bola para o meio ambiente e ignoram os perigos do aquecimento global. O fogo consumiu áreas equivalentes nos dois países. Mas as semelhanças param aí: a Amazônia não pega fogo sozinha. Piadinhas com Macron e ONGs mostram o nível de irresponsabilidade de nosso governo. As queimadas em 2019 foram 30% maiores que no ano anterior, por obra de homens, que se sentiram encorajados pelo discurso do próprio presidente. O Dia do Fogo é um exemplo.

Claudia Safatle - Economia está em recuperação cíclica

- Valor Econômico

Caminho pela frente não comporta nem euforia nem depressão, mas persistência nas reformas e no mix da política econômica com ênfase no rigor fiscal e no afrouxamento monetário

Sobre a direção, não há muitas dúvidas: o país vive um momento de recuperação cíclica da atividade econômica. Quanto à velocidade, há divergências. Com o carregamento estatístico de 1% já garantido, as expectativas giram entre pouco mais de 2% de crescimento do PIB este ano e algo mais próximo a 3%. Os indicadores decepcionantes de novembro e dezembro de 2019 não afetam os prognósticos para 2020. A economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Ibre/FGV, crava 2,2% de expansão da atividade econômica para 2020 calcula 1,2% para o ano passado. Carlos von Doellinger, presidente do Instituto de Economia Aplicada (Ipea), arrisca um resultado melhor, mais perto de 2,7%.

Ambos asseguram que o país está em recuperação cíclica, com volatilidade nos indicadores. O último trimestre de 2019 deverá trazer um crescimento de 0,6% a 0,7% sobre o período anterior, quando a expansão foi de 0,6%. Quem esperava uma aceleração se frustrou, sobretudo pelo comportamento da indústria de transformação, muito dependente do setor automobilístico, que teve uma “ressaca”, avaliam.

Falar em política industrial, agora, é “palavrão”
Novembro e dezembro foram “um soluço que não compromete o futuro”, garante Doellinger.

Pelo lado da oferta, portanto, há sinais positivos vindos da agropecuária, da construção civil e da recuperação da indústria extrativa, que teve queda em 2019, decorrente do desastre na barragem da Vale em Brumadinho (MG), juntamente com uma esperada reação da indústria de transformação.

O IBC-Br, divulgado ontem pelo Banco Central, mostra um alento. O índice, que é uma proxy do Produto Interno Bruto (PIB), apresentou em novembro expansão de 0,2% na comparação mês contra mês e de 1,1% ano/ano. A expectativa de mercado era, respectivamente, de zero e 0,9%.

Foi o BC que alertou a área econômica, no fim do ano passado, para a piora dos indicadores em novembro e dezembro.

Neste ano, pela ótica da demanda, o grande protagonista é o consumo das famílias, que deve crescer 2,6% em comparação com 2% no ano passado, de acordo com a economista do Ibre.

Naercio Menezes Filho* - Salários, faculdade, gênero e raça

- Valor Econômico

As diferenças de salário entre as pessoas parecem estar mais associadas à sua raça e gênero do que aos tipos de faculdades cursadas

Há muito tempo é possível comparar os ganhos salariais dos alunos que fizeram faculdade com relação aos que deixaram a escola após o final de ensino médio no Brasil. Mas, não tínhamos como calcular esses diferenciais separadamente para os alunos da rede pública e privada.

Agora isso já é possível, pois os novos questionários da Pnad Contínua do IBGE perguntam que tipo de escola as pessoas cursaram no ensino médio e no superior. Com esses dados, podemos responder questões interessantes. Por exemplo, qual a diferença salarial entre os alunos que cursaram universidades públicas e privadas? Existe diferença salarial entre brancos e negros que frequentaram o mesmo tipo de escola no ensino médio e também o mesmo tipo de faculdade?

E entre os homens e as mulheres? Fazer ensino médio num colégio privado aumenta em quanto as chances de ingresso numa universidade pública? Vamos aos dados.

Antes disso, é importante deixar claro que não estamos descrevendo aqui uma relação de causalidade entre estudar numa faculdade pública, por exemplo, e os salários dos diferentes grupos demográficos, uma vez que as pessoas acumulam diferentes níveis de capital humano ao longo da sua vida, que são importantes para seu desempenho futuro e que podem ser correlacionadas com o tipo de escola que frequentam. Além disso, a qualidade das escolas públicas e privadas varia muito e as pessoas escolhem cursos diferentes no ensino superior. Dito isso, é interessante entender como se comportam os diferenciais salariais entre pessoas diferentes que cursaram faculdades diferentes.

Para fazer essa análise, juntamos os dados de 2016, 2017 e 2018 e separamos somente as pessoas com entre 25 e 39 anos de idade que moram em regiões metropolitanas, para trabalhar com uma amostra mais homogênea. O primeiro resultado interessante é que quem cursou ensino médio em uma escola privada ganha 126% a mais do que quem cursou uma escola pública, independentemente das suas escolhas futuras. E quem cursou uma faculdade pública ganha 11% a mais do que quem frequentou uma faculdade privada. O diferencial de cursar uma universidade pública com relação a parar de estudar no ensino médio para quem estudou em uma escola pública é de 150% e para quem estudou em uma escola privada é de 186%.

Como criar campeões da indústria

Por Cherif, Hasanov e Schlorke* - Valor Econômico

O Estado atuou basicamente como um investidor de capital de risco para catalisar o novo setor. Institutos públicos lideraram um grande esforço de pesquisa e desenvolvimento, junto com investimentos em treinamento e construção de relacionamentos com multinacionais

Para muitas empresas de economias emergentes e em desenvolvimento, emular o sucesso de empresas como a Samsung e a Hyundai pode parecer um sonho impossível. Mas o rápido crescimento econômico do Japão, da Coreia do Sul e de outros países asiáticos na segunda metade do século XX mostra que isso pode ser feito.

Japão e Coreia do Sul, por exemplo, já foram países pobres que se esforçavam para alcançar o status de países de alta renda o mais rápido possível. Cada um alcançou esse objetivo por meio de fortes intervenções estatais, como políticas industriais que ajudaram as empresas domésticas a se aventurarem em setores sofisticados e a competirem mundialmente.

O “milagre asiático” foi em grande medida o resultado de uma estratégia em três partes. Primeiro, o Estado estabeleceu metas ambiciosas e as alcançou ao incentivar e apoiar empresas privadas para que se concentrassem em entrar rapidamente em setores industriais de alta tecnologia. Em seguida, os governos entenderam que seus países tinham que desenvolver setores de exportação fortes para poder subir para o escalão superior das economias de alta renda. Finalmente, os formuladores de políticas precisavam estimular uma cultura de concorrência empresarial robusta, bem como uma prestação estrita de contas sobre o apoio que as empresas recebiam. A simbiose resultante entre o Estado e o mercado mostrou-se bem-sucedida e tornou-se um modelo para outros países em desenvolvimento.

As exportações tornaram-se a medida de sucesso para as economias da Ásia. Em toda a região, as empresas evoluíram sistematicamente de negócios domésticos de baixa tecnologia para fabricantes mundiais de alta tecnologia em automóveis, navios e eletrônicos. Como precisavam justificar o apoio que recebiam, elas se adaptaram rapidamente à evolução nas condições do mercado. As empresas que administraram bem essa transformação tiveram um enorme sucesso, enquanto as que tiveram desempenho inferior acabaram por ser reestruturadas.

O que a mídia pensa – Editoriais

Linha cruzada – Editorial | Folha de S. Paulo

Chefe da Secom confunde interesses ao manter empresa ligada a grupos de mídia

A empresa FW Comunicação e Marketing presta serviços a algumas das maiores emissoras de televisão do país e a agências de publicidade que têm contratos com ministérios e estatais.

O dono do negócio, Fabio Wajngarten, assumiu em abril do ano passado o cargo de secretário de Comunicação do governo Jair Bolsonaro, função que lhe dá poderes para influir na distribuição das verbas para a propaganda oficial.

Não é preciso muito esforço para perceber que é difícil conciliar as duas atividades sem ofender os princípios que regem a administração pública, entre os quais está a obrigação de evitar que interesses particulares se misturem com os da função exercida no governo.

Wajngarten achou que bastava se afastar formalmente da administração de sua empresa para resolver o problema, como disse nesta semana depois que a Folha revelou sua ligação com a FW. Trata-se de um equívoco.

Música | Portela na Avenida - Clara Nunes no Chacrinha - 1982

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Composição

E é sempre a chuva
nos desertos sem guarda-chuva,
e a cicatriz, percebe-se, no muro nu.

E são dissolvidos fragmentos de estuque
e o pó das demolições de tudo
que atravanca o disforme país futuro.
Débil, nas ramas, o socorro do imbu.
Pinga, no desarvorado campo nu.

Onde vivemos é água. O sono, úmido,
em urnas desoladas. Já se entornam,
fungidas, na corrente, as coisas caras
que eram pura delícia, hoje carvão.

O mais é barro, sem esperança de escultura.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Opinião do dia – Luiz Werneck Vianna*

IHU On-Line – Como o parlamento tem reagido a esse projeto e às tentativas do governo de colocar seu projeto em curso?

Luiz Werneck Vianna – O parlamento tem afrontado tudo isso. Embora esse parlamento tenha uma representação mais fraca do que alguns anteriores, ele é expressivo da nossa cultura política e, para ele, há limites. Ele tem deixado isso claro. Essa não é uma novidade, porque isso apareceu no transcurso do ano que passou. Mas há novidades na emergência de novas lideranças intelectuais muito relevantes.

IHU On-Line – Quais, por exemplo?

Luiz Werneck Vianna – Armínio Fraga, por exemplo, que vem do campo liberal e contesta o neoliberalismo primitivo com o qual o governo desempenha seu papel. Ele está atento à questão social, à necessidade de enfrentar as imensas desigualdades brasileiras e, não à toa, ele está sendo cortejado pela classe política como um novo intérprete – um intérprete interessante – do status quo que estamos vivendo.

O imperialismo político, longe de estar banido da cena pública brasileira, se fortalece a cada passo. Inclusive, encontra muita expressão na vida institucional, especialmente no parlamento e no poder Judiciário, sobretudo no Supremo Tribunal Federal, que tem servido como marcador da resistência da sociedade a esse projeto do governo que visa a sua desfiguração.

É uma guerra de posição em que estamos empenhados: governo de um lado, sociedade do outro. No horizonte não há nada que diga que uma das posições vai ceder para o avanço da outra; então, é uma guerra de posição continuada. Agora, a continuidade dela favorece mais a sociedade do que o governo, porque deixa à vista de todos que o governo trabalha com certas limitações políticas e institucionais. Ele não pode tudo, embora ele tente, a cada passo, um avanço; tenta sair da sua trincheira e avançá-la um pouco a mais, mas é obrigado a voltar, porque não consegue consolidar suas posições mais à frente. Por que o governo resiste tanto? Porque tem o apoio das elites econômicas, especialmente das elites financeiras. Mas isso não basta. Nem aqui nem em lugar algum isso bastou, especialmente numa sociedade complexa como a nossa, num país continental, numa federação desigual. As dificuldades para isso são muito grandes. Eu diria que é uma impossibilidade, até.

Para onde estamos andando? Para que essa guerra de posição cada vez mais se sofistique, para que a sociedade recupere os seus movimentos. Coisas novas estão ocorrendo. Por exemplo: a revitalização da Associação Brasileira de Imprensa - ABI; toda a experiência acumulada na luta contra o regime de 64 está vindo à superfície. A sociedade pode resistir pelo fortalecimento dela própria, das suas agências, da sociedade civil.

*Luiz Werneck Vianna, sociólogo, PUC-Rio, Em entrevista 13/1/2020

Merval Pereira - Rabo de baleia

- O Globo

Silenciosamente, a equipe econômica continuou trabalhando, preparando os documentos para entrar na OCDE

Assim como foi um golpe político negativo para o governo Bolsonaro o anúncio, no ano passado, de que os Estados Unidos estavam apoiando a entrada da Argentina na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), em detrimento da promessa feita de apoio ao Brasil, hoje, com a mudança de planos de Trump, também o governo Bolsonaro tem seu momento de vitória política.

Importante notar que a política externa brasileira, desta vez, curvou-se aos interesses econômicos do país e não reagiu intempestivamente contra o anúncio dos Estados Unidos. O que parecia uma submissão, na verdade era informação. Silenciosamente, a equipe econômica continuou trabalhando, preparando os documentos necessários para a entrada na OCDE.

O reconhecimento da relevância regional do Brasil tem um significado político importante, e a estratégia dos Estados Unidos fica clara. Ao anunciar o apoio à Argentina, dava um voto de confiança ao governo Macri, na tentativa de reverter a eleição argentina, naquela altura já amplamente favorável ao peronista Alberto Fernandes.

Luiz Carlos Azedo - Entre dois polos

- Nas entrelinhas | Correio Braziliense

“A China continuará sendo o nosso principal parceiro comercial, mas não temos o mesmo poder de barganha dos EUA para defender nosso parque produtivo no novo cenário global”

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o vice-primeiro-ministro chinês, Liu He, assinaram, ontem, a primeira fase do acordo comercial entre os dois países, depois de uma guerra comercial que durou um ano e meio e abalou a economia mundial. O ponto central do acordo é uma promessa da China de comprar mais US$ 200 bilhões em produtos dos EUA ao longo de dois anos, para reduzir o deficit comercial bilateral com os norte-americanos, que chegou a US$ 420 bilhões em 2018. A China se compromete a comprar produtos manufaturados, agrícolas, energia e serviços dos EUA.

“Hoje (ontem), demos um passo crucial, que nunca tínhamos dado antes com a China”, disse Trump durante a cerimônia na Casa Branca. O pacto entre os dois países pode ter o papel de desanuviar não somente o ambiente econômico, mas também o ambiente político mundial, que vive uma escalada de tensões, a principal, agora, entre os Estados Unidos e o Irã, tendo por epicentro o controle do Iraque. A guerra comercial resultou no aumento das tarifas alfandegárias por ambos os lados, no valor de centenas de bilhões de dólares em mercadorias, o que afetou mercados financeiros, cadeias de fornecimento e o crescimento global.

Em números, a situação é a seguinte: os Estados Unidos vão manter tarifas de 25% sobre uma vasta gama de US$ 250 bilhões em bens e componentes industriais chineses usados pela manufatura norte-americana, até a segunda fase do acordo, mas a China deve comprar US$ 12,5 bilhões em produtos agrícolas dos EUA no primeiro ano e US$ 19,5 bilhões, no segundo ano; US$ 18,5 bilhões em produtos de energia no primeiro ano e US$ 33,9 bilhões, no segundo ano; US$ 32,9 bilhões em manufaturados dos EUA no primeiro ano e US$ 44,8 bilhões, no segundo ano; e US$ 12,8 bilhões em serviços dos EUA no primeiro ano e US$ 25,1 bilhões, no segundo ano.

O que vai acontecer depois, ninguém sabe ainda, mas as repercussões e projeções do que já foi acertado certamente serão discutidas na reunião de Davos, à qual o presidente norte-americano Donald Trump anunciou que pretende comparecer. De certa forma, o acordo roubará a cena do Fórum Econômico Mundial, que completa 50 anos e cuja pauta está focada na questão ambiental. Muitos chefes de Estado estarão presentes, além de grandes executivos e personalidades. Qual será a repercussão do acordo entre os Estados Unidos e a China para o Brasil? De certa forma, o acordo favorece os norte-americanos em relação ao nosso agronegócio, seja pela demanda cativa, seja pela vantagem estratégica em termos logísticos.

Míriam Leitão - Valor das reservas, segundo Meirelles

- O Globo

Henrique Meirelles acha que o BC tem espaço para vender reservas, diz que São Paulo cresce o dobro da média nacional e gerou 40% das vagas

São Paulo está crescendo num ritmo que é o dobro da taxa brasileira e criou 40% dos empregos formais do ano passado, segundo o secretário de Fazenda do estado, Henrique Meirelles. Quando foi presidente do Banco Central no governo Lula, Meirelles iniciou a política de acumulação de reservas cambiais. O BC atual está vendendo reservas. Para Meirelles, isso é normal e não representa risco nem mesmo num contexto de volta do déficit em transações correntes. Sobre a reforma tributária, ele acha que o melhor caminho seria o do substitutivo apresentado pelos estados aos dois projetos no Congresso, mas lamenta a falta de definição do governo federal.

Meirelles disse que a projeção para o crescimento fechado do ano passado é de 2,6% no estado e em 2020 será entre 3% e 3,5%:

— Imagina 2019 se o Brasil tivesse crescido à taxa de São Paulo. Agora, tire São Paulo da taxa nacional e o país teria crescido só 0,3%, por aí.

Segundo ele, os setores de serviços, comércio e indústria estão crescendo forte, principalmente os mais intensivos em mão de obra como construção civil.

— Nos serviços, em 12 meses até novembro, o país teve 0,9% e São Paulo teve 3,2%. A indústria caiu 1,1% no país, enquanto em São Paulo cresceu 0,3% — disse.

Bernardo Mello Franco - Witzel é responsável pela crise da Cedae

- O Globo

Enquanto os cariocas recebem água suja, o governador Wilson Witzel passa férias em Orlando. Ele é responsável pela crise da Cedae, loteada para o Pastor Everaldo

Há cinco anos, o então secretário de Ambiente do Rio mergulhou na Baía de Guanabara diante das câmeras. André Corrêa queria provar que a água poluída não seria um risco para as Olimpíadas. Os atletas sobreviveram, mas tiveram que desviar do lixo durante as regatas.

Ontem o presidente da Cedae praticou outro ato de bravura: tomou um copo d’água diante de jornalistas. Hélio Cabral disse que em casa só bebe água da torneira. Se for verdade, ele deveria abrir as portas para os clientes da companhia que dirige.

Há duas semanas, moradores do Rio e da Baixada Fluminense recebem uma água turva, malcheirosa e com gosto de terra. A Cedae alega que não há risco à saúde, mas os casos de mal-estar se multiplicam. Na dúvida, a população tem corrido aos supermercados para comprar e estocar água mineral.

Diante da crise, o Palácio Guanabara adotou a tática do avestruz. Fã da Disney, o governador Wilson Witzel não quis interromper as férias em Orlando. Depois de 12 dias de silêncio, tuitou que os transtornos causados pela Cedae são “inadmissíveis”.

O governador afirmou ter ordenado uma “apuração rigorosa tanto da qualidade da água quanto dos processos de gestão da companhia”. Acrescentou que “o consumidor não pode ser prejudicado”.

Huck propõe renovação ‘do topo para a base’

Em artigo no site do Fórum Mundial de Davos, apresentador cita ‘desafios’ do País

- O Estado de S. Paulo

Potencial candidato à Presidência da República em 2022, o apresentador de TV e empresário Luciano Huck afirmou que o Brasil precisa “restaurar” e “renovar” suas lideranças políticas do “topo para a base”. “Lideranças e políticas públicas responsáveis e representativas são fundamentais para revitalizar o contrato social. Isso não vai acontecer espontaneamente. Requer um esforço consciente para investir em talentos e atraí-los”, diz Huck em artigo publicado ontem no site do Fórum Econômico Mundial.

O apresentador é ligado a movimentos de renovação política como Agora! e RenovaBR e é cotado como possível candidato de uma frente de centro na próxima eleição presidencial. Huck participará do fórum em Davos, na Suíça, que ocorrerá entre os dias 21 e 24 deste mês.

“Em 2017, entrei no Agora!, um dos vários movimentos cívicos dinâmicos que investem em uma nova geração de líderes comprometidos com um Brasil mais inclusivo e sustentável. E, em 2018, cofundei a RenovaBR, atraindo mais de 4.600 inscrições de pessoas que nunca haviam se envolvido em política para treinamento em governança e ética. Dos 120 candidatos aprovados, 17 foram eleitos naquele ano”, escreveu ele.

Embora nunca tenha se colocado publicamente como possível presidenciável em 2022, o nome de Huck tem surgido com frequência nas articulações em torno de uma candidatura de centro promovidas por nomes como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga e o ex-governador do Espírito Santo Paulo Hartung. Recentemente, Huck também se encontrou com o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB).

Na disputa presidencial de 2018, Huck chegou a conversar com vários partidos, mas não entrou na disputa..

‘Desafios’. No texto publicado ontem, o apresentador lista três “desafios” do Brasil e do mundo para o futuro: as queimadas e o desmatamento na Amazônia, a redução da desigualdade e a renovação de líderes políticos. Para ele, o País terá um “papel de liderança” na próxima década, em razão de seus “imensos recursos naturais” e seu “estoque impressionante
de recursos humanos”.

“Mas (o Brasil) também é convulsionado pela alta desigualdade e pela pobreza crescente. Para complicar, estamos enfrentando uma crise de liderança política e esquivando de nossas responsabilidades internacionais”, disse o apresentador.

Huck também criticou a atual política ambiental do governo de Jair Bolsonaro.

“Apesar dos esforços das autoridades brasileiras para ocultar o problema, os dados de satélite do próprio Ministério da Ciência mostraram que as taxas de desmatamento atingiram os níveis mais altos em duas décadas”, escreveu. De acordo com ele, é necessário “novo e radical paradigma” para garantir a administração sustentável da biodiversidade do País. “Deve haver tolerância zero ao desmatamento e foco na melhoria da produtividade das áreas onde as florestas já foram cortadas. Aproximadamente 90% do desmatamento na Amazônia é ilegal e pelo menos dois terços dos 80 milhões de hectares de terras desmatadas são subutilizados, degradados e abandonados”, afirmou. “Tão importante quanto o agronegócio sustentável, são a expansão do ecoturismo, o investimento em pesquisas em biotecnologia e o desenvolvimento de produtos da floresta tropical comercializados de maneira justa.”

Em relação à desigualdade, o apresentador falou em colocar o tema no “topo” da agenda nacional em 2020. “O aprofundamento da desigualdade social e econômica está reconfigurando fundamentalmente as políticas doméstica e internacional”, disse. Considerou ainda que o Brasil adota “dinâmica” de outros governos que, segundo ele, se voltam ao “nacionalismo e protecionismo reacionários”.

Eugênio Bucci* - Um véu de religiosidade para o fascismo

- O Estado de S. Paulo

Na virada do ano o pretexto foi o Porta dos Fundos. E no mês que vem?

Agora o pretexto foi o especial do Porta dos Fundos, a produção humorística chamada A Primeira Tentação de Cristo (em cartaz no Netflix). De pronto as falanges do moralismo rabugento alegaram que o filme afronta as tradições cristãs e ato contínuo desferiram seus ataques. Uma vez mais a intolerância que vem sufocando a vida cultural brasileira mostrou sua face medonha. Sombras cobriram as festas de fim de ano.

O pesadelo começou na véspera de Natal, quando um grupo de vândalos jogou coquetéis Molotov na sede do Porta dos Fundos, no Rio de Janeiro, espalhando labaredas pelo estabelecimento. Em seguida, num vídeo sinistro que circulou nas redes sociais, uns tipos mascarados, falando em nome de um integralismo funesto, assumiram a autoria do atentado. Contra a comédia de ficção, o terrorismo real se impôs.

A polícia rapidamente passou a investigar o crime, mas não conteve a tensão. Não houve trégua natalina. No dia 7 de janeiro, um desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro determinou que a atração fosse retirada do cardápio do Netflix. Ou seja, depois da violência física, veio a castração simbólica: censura judicial. A medida só não fez mais estragos porque em 48 horas o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, restabeleceu a normalidade constitucional e derrubou a proibição infundada.

Vera Magalhães - Toffoli mantém juiz de garantias, mas limita atuação e adia entrada em vigor

- O Estado de S. Paulo

Presidente do STF negou pedidos de liminar para suspender o dispositivo, mas disciplinou sua adoção

Meio termo. Dias Toffoli negou os pedidos feitos por partidos como Podemos e PSL e entidades como a AMB para sustar, por inconstitucional, a criação da figura do juiz de garantias, que conduzirá os processos na fase de investigação. Como dissemos no nosso relatório semanal Fique de Olho, no BRPolítico, Toffoli não deixou a questão para o vice-presidente da Corte e relator das ações, Luiz Fux, que tem postura mais contrária ao dispositivo do juiz de garantias. Mas em sua pormenorizada decisão, o presidente do Supremo mitigou em vários pontos a lei aprovada pelo Congresso.

Depois e mais brando. Em primeiro lugar, Toffoli prorrogou em seis meses o prazo para que o Judiciário ponha em prática a divisão dos processos entre dos juízes. Trata-se de uma decisão perfeitamente razoável: era impraticável que uma medida que altera totalmente a rotina da Justiça passasse a vigorar na semana que vem. Além disso, ele excetuou casos que não terão a atuação de juiz de garantias (aqueles que hoje são decididos por tribunais do júri e os da Justiça Eleitoral) e sustou a determinação de que em comarcas com um juiz seja feito um rodízio com outras comarcas.

Consultas antes de decidir. Toffoli conversou com os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre. Também ouviu o ministro Sérgio Moro (Justiça), numa aproximação surpreendente, já que o presidente está na ala de ministros do STF que têm sistematicamente questionado métodos e procedimentos da Lava Jato, operação que notabilizou Moro e da qual ele é um defensor ardoroso. Além do fim do rodízio, vieram do ministro o pedido de adiamento da vigência da lei e da suspensão de uma determinação de que juízes que tiverem acesso a uma prova ilegal sejam impedidos de julgar.

Ele gostou. O resultado foi que Moro elogiou a decisão de Toffoli nas redes sociais. Embora tenha reiterado que, na sua opinião, a simples adoção do juiz de garantias seja um erro, o ministro disse que a decisão do presidente do STF ajuda a corrigir falhas na lei aprovada por deputados e senadores (faltou ele dizer que ela foi sancionada desta maneira por seu chefe, o presidente Jair Bolsonaro, depois de consulta ao próprio Toffoli).

William Waack - OCDE e resultados

- O Estado de S.Paulo

O governo brasileiro comemora um gesto amistoso do governo americano

Dá para entender a empolgação do governo brasileiro com a renovada garantia verbal de Washington de apoiar o Brasil como primeiro da fila para ingresso na OCDE. Trata-se de comemorar algum carinho vindo de Trump, depois de vários tapas.

A OCDE congrega aproximadamente 80% do comércio e investimentos mundiais, e aí estão incluídos os 36 integrantes da organização e seus “key partners”, entre os quais figuram Brasil, China, Índia, Indonésia e África do Sul. Na América Latina, o México faz parte desde 1994, e o Chile, desde 2010. A Colômbia foi convidada oficialmente em 2018 e, desde 2015, a OCDE negocia a entrada da Costa Rica.

A mais recente adesão foi da pequena Lituânia, completando o “cerco” de países bálticos junto à Rússia, cujo acesso foi congelado em 2014 logo após a anexação da Crimeia. É óbvio que é um gesto político a aceitação de países na organização – cuja lista de membros iniciais em 1961 obedecia às principais alianças políticas e militares ocidentais da (mais as então “neutras” Áustria e Suíça).

Zeina Latif* - Os informais

- O Estado de S.Paulo

O emprego sem carteira é a porta de saída do desemprego para muitos

A informalidade no Brasil sempre foi muito elevada, fruto de um ambiente de negócios disfuncional. Depois de anos de aumento persistente, a informalidade no mercado de trabalho engatou uma trajetória de queda entre 2005 e meados de 2014, como resultado de ganhos de produtividade na economia e crescimento mais robusto.

Nos últimos anos, uma reversão de tendência. A informalidade atingiu 42% dos ocupados, somando os empregos sem carteira e empregadores/trabalhadores por conta própria sem CNPJ, ante 38% no pré-crise.

A elevação da informalidade é algo esperado na crise e no início da recuperação econômica. Afinal, incerteza elevada gera postura mais conservadora de empregadores e empreendedores. O que difere o momento atual é a duração do ciclo de alta. Já se vão 5 anos. Porém, isso não deveria ser surpresa, tendo em vista a própria natureza da crise econômica.

A recessão profunda e prolongada deixou sequelas. Primeiro, algo mais transitório: a frágil situação financeira de empresas e indivíduos limitou a capacidade de recuperação da economia, uma vez iniciado o ajuste da política econômica no governo anterior. Segundo, algo estrutural: o abalo na capacidade de crescimento do País, com a expressiva redução do investimento produtivo. Nesse quadro de fragilidade, é natural um aumento prolongado da informalidade.

Maria Hermínia Tavares* - Nasce uma estrela

- Folha de S. Paulo

Ministra Damares quer ser a mãe dos mais carentes entre os pobres e remediados

Damares Alves é uma das duas mulheres no primeiro escalão de um governo de homens brancos de meia idade. Ocupa a segunda posição entre os ministros mais bem avaliados de Jair Bolsonaro, depois de Sergio Moro —de longe o mais conhecido e popular.

Segundo pesquisa Datafolha de dezembro passado, dos 55% que disseram saber de quem se tratava, 43% consideravam a ministra ótima ou boa, o dobro daqueles que lhe atribuíram conceito ruim ou péssimo. Entre os seus admiradores não há diferença entre sexos.

Ela é bem-vista igualmente por pessoas de diferentes faixas de idade; apenas junto aos mais jovens seu prestígio é menor. Situa-se acima da média entre os entrevistados com educação fundamental e média. Cai, porém, na parcela de nível universitário.

À exceção dos mais ricos, que recebem de dez salários mínimos para cima, a porcentagem dos que lhe dão nota ótima ou boa é constante. Não por acaso, talvez, são do Sul os brasileiros que a aprovam com mais entusiasmo, e do Nordeste os mais reticentes.

Fernando Schüler* - Apesar dos alarmistas, um país normal

- Folha de S. Paulo

Boa parte das pessoas julga a qualidade da democracia a partir de seu humor político

As teorias sobre o “risco democrático” inundaram os jornais brasileiros desde a eleição de Bolsonaro. Perdi a conta de quantas vezes me perguntaram, em debates ou entrevistas, sobre o “grau de risco” em que se encontravam nossas instituições.

Uma variação desse discurso é a ideia de que vivemos uma fase de “anormalidade”. Em certos momentos, eram as derrotas do governo no Congresso; em outros, algum bate-boca na internet. Visto com a pátina do tempo, tudo isso parece incrivelmente tedioso. Difícil situar o Brasil em um ranking imaginário de normalidade democrática. É provável que nos situássemos bem à frente do Chile ou da Bolívia, e seguramente atrás do Uruguai. Confesso não ter o instrumento que mede essas coisas.

Boa parte das pessoas julga a qualidade da democracia simplesmente a partir de seu humor político. É o que mostrou o The Democracy Project, apresentado em 2018 pelo Penn Biden Center, pela Freedom House e pelo George W. Bush Institute. Perguntados se consideravam haver um “perigo real dos Estados Unidos se tornar um país autoritário”, 57% dos simpatizantes democratas respondiam que sim. Pela mesma margem, os simpatizantes republicanos diziam que não.

É interessante perceber como o mesmo sentimento de “risco democrático”, na direção oposta, funcionou à época do governo Dilma, quando já se formava a onda conservadora que daria na vitória de Bolsonaro, em 2018. A ideia difusa de que “estivemos prestes a nos tornar uma Venezuela”.

Vinicius Torres Freire - O ano 2019 ainda não terminou bem

- Folha de S. Paulo

Economia fraquejou em novembro, mas crescimento medíocre de 2% ainda está à vista

O baticum do Carnaval já está na TV, tem bloco e até selvageria momesca nas ruas e em alguns palácios, mas os principais números da economia em novembro de 2019 acabaram de sair apenas nesta semana. Deram uma fraquejada.

Pelo menos nesta quarta-feira (15), o povo dos mercados financeiros recolheu o bumbo que vinha batendo para a recuperação da economia. A Bolsa caiu 1%, o dólar foi a R$ 4,18, os muxoxos habituais quando entra um cisco de realismo no olho do pessoal das bases da praça financeira.

Não aconteceu nada grave. O crescimentozinho do Pibinho continua, mas desacelerou um pouco no fim do ano. Além do mais, dados de um mês apenas não dizem lá grande coisa. Podem ser apenas ruído.

Mesmo com a fraquejada, se a economia continuar no ritmo em que vem desde o segundo trimestre de 2019, ao fim de 2020 o PIB (Produto Interno Bruto) terá crescido 2,2%. Ou seja, a luta e a mediocridade continuam.

O cisco no olho mais recente foi o desempenho sem graça do comércio em novembro. O problema principal foi na venda de carros, que desacelera desde a metade de 2019.

Bruno Boghossian – Vícios privados, lugares públicos

- Folha de S. Paulo

Bolsonaro foge de explicações e dá guarida a episódio típico de conflito de interesses

Alguém deve ter entendido mal quando os liberais de conveniência da equipe de Jair Bolsonaro passaram a incentivar parcerias entre empresas e o poder público. Dentro do Palácio do Planalto, vícios privados já fazem parte da rotina.

Os repórteres Fábio Fabrini e Julio Wiziack revelaram que o chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência tem uma empresa que recebe dinheiro de emissoras e agências de publicidade que faturam milhões com a pasta comandada por ele.

Em outras palavras: quando assumiu o cargo, em abril, Fabio Wajngarten passou a ser o cara que assina contratos que rendem fortunas para seus próprios clientes. Ele se recusou a fazer o óbvio e romper relações comerciais entre sua empresa e os fregueses interessados na dinheirama que passou a controlar.

Cláudio Gonçalves Couto* - As instituições estão funcionando?

- Valor Econômico

Corrosão democrática se dá não só entre os três poderes; importam fronteiras entre religião e Estado, civis e militares

Já há muitos anos que se debate no Brasil sobre a qualidade do funcionamento de nossas instituições: se funcionam bem, se funcionam mal, ou se simplesmente funcionam. Por óbvio que pareça, nunca é demais lembrar que “funcionar” significa cumprir alguma função. Portanto, a dúvida sobre a operação das instituições diz respeito a quão capazes são elas de resolver os problemas para os quais foram criadas.

A renitente insatisfação, expressa nos infindáveis clamores por alguma reforma política, provém de uma série de fatores: a percepção negativa de nossa estrutura institucional e de seus atores pela população, os seguidos escândalos de corrupção, o custo proibitivo (ou mesmo obsceno) de campanhas eleitorais, a baixa representatividade de um sistema em que eleitores sequer se lembram daqueles nos quais votaram, os muitos abusos cometidos por diferentes agentes do Estado, a ineficiência e a ineficácia do setor público, os privilégios de corporações estatais, a politização da Justiça, a insegurança jurídica Enfim, a lista é longa.

Se tivermos como métrica o bom funcionamento absoluto, nunca estaremos satisfeitos - nem aqui, nem alhures. Não à toa, em trabalho já antigo, o filósofo político e jurista, Norberto Bobbio, dizia que a democracia tinha diversas promessas não cumpridas - e segue tendo. Mas podemos nos perguntar se, mesmo não funcionando de forma ideal, as instituições democráticas dão conta minimamente dos problemas que devem resolver ou evitar - como a própria destruição da democracia.

A pergunta segue pertinente no Brasil atual diante dos temores do autoritarismo bolsonarista, por um lado, e da crença de que as estruturas organizacionais do Estado brasileiro, bem como os atores políticos, dão conta de conter os ímpetos mais perigosos do atual governo. Numa leitura mais otimista, como a de meu colega da FGV Ebape, Carlos Pereira, a democracia brasileira não ruiu e provavelmente não ruirá, pois atores judiciais e políticos têm operado eficazmente para conter ou mesmo reverter excessos do governo, corrigindo seus rumos. Congresso e Judiciário têm tomado decisões concretas nessa direção, impondo derrotas ao Executivo, moderando políticas e resguardando direitos.

Mario Mesquita* - A recuperação é sustentável?

- Valor Econômico

O crescimento seguirá sendo liderado pela demanda doméstica, consumo e investimento

A economia brasileira terminou 2019 em um ritmo mais robusto, o PIB do quarto trimestre deve ter apresentado alta de aproximadamente 0,5% ante o trimestre anterior, com ajuste sazonal. Esse crescimento deve ter sido exacerbado pelos efeitos do desembolso dos recursos do FGTS, e pode apresentar certa acomodação no primeiro trimestre de 2020. Contando com tal acomodação, os economistas do Itaú projetam crescimento de 2,2% no ano. A economia deve reacelerar ao longo de 2020, terminando com um ritmo próximo a 3% ao ano.

Esse crescimento seguirá sendo liderado pela demanda doméstica, consumo e investimento, visto que o crescimento dos gastos públicos deve continuar contido e que a economia global não deve acelerar muito. Especificamente, projetamos que o consumo das famílias cresça 2,5%, enquanto o investimento deve apresentar alta de 4,0%. Para tanto, será preciso que continuemos observando crescimento do crédito para o setor privado a um ritmo de 10% ao ano para o consumo e 17% para o investimento. Note-se que não se tratam de projeções muito agressivas, visto que, no momento, estimamos que o crédito ao consumo já esteja crescendo a uma taxa próxima a 10% ao ano, enquanto o crédito privado ao investimento (empréstimos imobiliários residenciais, crédito para pessoas jurídicas com prazo superior a um ano e emissão de debêntures de infraestrutura) se expande a um ritmo de 14% ao ano - esse último conceito inclui operações de mercado de capitais, então trata-se de um indicador de condições de financiamento, o que vai além do crédito bancário propriamente dito.

A questão é saber se há incentivos para a expansão do crédito, ou obstáculos para a sua continuidade. Do lado dos incentivos, o principal determinante é a taxa de juros. Com o avanço da flexibilização monetária e das reformas fiscais, as taxas de juros tendem a permanecer em patamares reduzidos. Com as expectativas de inflação 12 meses à frente estáveis, um pouco abaixo de 4% ao ano, as taxas de juros reais de curto prazo estão um pouco abaixo de 1% ao ano, e um pouco acima desse patamar se considerarmos as taxas de dois anos (implícitas em contratos de derivativos de taxas de juros). Muito importante, as taxas de juros longas também caíram: as taxas de juros nos títulos públicos indexados vincendos em 2050 caíram de 7,4% para 3,5% desde janeiro de 2016.

Ribamar Oliveira - Situação inusitada na área fiscal em 2020

- Valor Econômico

Há um risco concreto neste ano de piora do déficit primário do governo central e, ao mesmo tempo, de melhora do déficit nominal

Existe um risco concreto de uma piora do déficit primário do governo central (Tesouro, Previdência e Banco Central) neste ano e, ao mesmo tempo, de uma melhora do déficit nominal, que considera a despesa com o pagamento dos juros da dívida pública.
Esta situação inusitada poderá acontecer, em parte, porque o resultado primário em 2019 ficou em torno de R$ 70 bilhões, muito abaixo da meta, segundo estimativa do secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues. Os dados fiscais do ano passado serão divulgados no fim deste mês.

No ano passado, a meta de déficit primário do governo central era de R$ 139 bilhões, mas o ingresso nos cofres públicos de um volume recorde de receitas atípicas, não recorrentes, principalmente de leilões do petróleo, reduziu substancialmente o “buraco” nas contas.

Outro fator que contribuiu para a substancial melhora foi o chamado “empoçamento” de recursos, quando o Tesouro libera o dinheiros e o órgão público não consegue gastar. O “empoçamento” foi turbinado pelo fato de que o governo só acabou com o contingenciamento das dotações orçamentárias nos últimos meses de 2019, deixando pouco tempo para o dinheiro ser gasto.

Para este ano, a meta de déficit primário do governo central é de R$ 124,1 bilhões, mas o resultado efetivo, certamente, será menor do que este valor. Atualmente, as metas fiscais estabelecidas na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) não têm correspondência com a realidade. Elas são estabelecidas para que o governo não corra risco de não cumpri-las. Esta prática foi estabelecida depois da criação do teto de gastos da União.

O tamanho do déficit primário deste ano dependerá da arrecadação tributária e das receitas atípicas que serão obtidas. A tributária está relacionada ao crescimento da economia, à inflação, ao crescimento da massa salarial e ao volume das importações, entre outros parâmetros econômicos.

Juan Arias - O silêncio que nos cura

- Jornal El País

O silêncio está se revelando um antídoto fundamental de prevenção em distúrbios mentais

Neurocientistas, estudiosos dos mecanismos cerebrais, estão descobrindo a dimensão terapêutica do silêncio. Dizem que, em contraposição ao ruído, o silêncio está se revelando um antídoto fundamental de prevenção, por exemplo, em distúrbios mentais como a depressão ou na doença de Alzheimer. E no bem-estar geral do organismo, a começar com um sono melhor e mais profundo.

E esses mesmos especialistas na dinâmica do cérebro e da memória alertam, por sua vez, para a falta de espaços de silêncio em nossa civilização do ruído, à qual se acrescentou o estrondo das redes sociais. O silêncio hoje se esconde, envergonhado, nos nichos dos que estão descobrindo suas vantagens para o corpo e para a alma.

Se a busca do silêncio foi um dia objetivo dos mosteiros, onde, aliás, os monges que tinham escolhido o silêncio viviam até 20 anos mais do que as pessoas comuns, hoje começa a ser uma busca das pessoas mais aprisionadas pelo ruído físico ou mental.

Se um dia o silêncio foi um luxo de poetas e místicos, hoje sua prática está se disseminando e é recomendada pelos médicos, na forma de meditação, exercícios de ioga ou fuga do barulho das grandes cidades para buscar, na nostalgia da cidadezinha perdida da infância, o silêncio da natureza.

O que a mídia pensa – Editoriais

Crise no INSS reflete letargia da máquina pública – Editorial | O Globo

A grande falha foi não se ter um plano para atender o público, e ainda havendo redução de pessoal

Era aparente a calmaria no início do ano para o governo. Um gigantesco engarrafamento de quase 2 milhões de pedidos de benefícios crescia nos guichês virtuais do INSS e iria abrir a agenda de problemas para o Planalto resolver em 2020. Anteontem, anunciou-se a convocação remunerada de 7 mil militares da reserva para reforçar os quadros de funcionários do Instituto, a fim de apressar o atendimento aos segurados.

Uma tarefa grandiosa, pois, como revelou terça-feira o secretário especial da Previdência, Rogério Marinho, a cada mês 990 mil novos pedidos de aposentadorias e de outros benefícios chegam ao INSS.

Havia pelo menos dois fortes motivos para o crescimento da pressão sobre os balcões do INSS. Um atua de forma permanente. Trata-se do envelhecimento crescente da população, que aumenta vegetativamente o número de aspirantes à aposentadoria. Outro, a perspectiva concreta de uma reforma na Previdência — tentada em 2016 no governo Michel Temer e anunciada por Bolsonaro. Começou cedo, portanto, a corrida à aposentadoria, para se escapar do risco de qualquer nova regra restritiva.

Música | Casuarina - Senhora Liberdade com. Wilson Moreira)

Poesia | Pablo Neruda - A Dança/ Soneto XVII

Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
amo-te como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascendeu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

senão assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Opinião do dia - Piero Gobetti*

“O regime representativo não tem mais a aprovação popular. Mas com o que querem substituí-lo? Com a teocracia? “

*Piero Gobetti (1901- assassinado em 15/2/1926) jornalista italiano, intelectual,liberal e antifascista. Crítico excepcionalmente ativo nos anos de crise na Itália após a Primeira Guerra Mundial e nos primeiros anos do governo fascista. Texto de 1919, citado por Norberto Bobbio em “O marxismo e o estado” p. 23, Editora Graal, 1979.

Monica De Bolle* - Ah, o liberalismo...

- O Estado de S.Paulo

Como qualquer outra filosofia ou pensamento, o liberalismo deve evoluir e mudar com o passar do tempo

Não há nada mais libertador do quepossuir algum conhecimento sobre a história econômica. Ela ajuda a remover amarras ideológicas, pensamentos pré-fabricados, noções equivocadas. Em um mundo em que dogma e fé reinam supremos sobre a ciência e fatos, a história está lá, registrada, para revelar que nenhum modelo econômico atravessa a história intocado pela mudança social. Se atravessa assim é porque o trabalho de reavaliar conceitos em épocas de profundas mudanças não está sendo feito, e isso em nome de algo. É preciso perguntar então: em nome do quê? A resposta depende do país e das circunstâncias.

Tomemos o caso brasileiro. Reina no País visão pueril do liberalismo, uma visão vitoriana, digamos. A Inglaterra do século 19 é a referência histórica para parte desse puritanismo, ainda que os que defendem a visão vitoriana não o façam conscientemente. A Inglaterra vitoriana é o exemplo mais puro do laissez-faire, da atuação da mão invisível dos mercados, o berço do liberalismo em sua forma castiça. Ao menos, essa é a maneira como muitos enxergam o país em que a filosofia de Adam Smith, de David Ricardo, de John Stuart Mill foi testada com estrondoso sucesso. A história econômica sustenta a tese? Ou teria a ilha flertado com o protecionismo e o nacionalismo econômico no alvorecer do liberalismo?