quinta-feira, 25 de junho de 2020

Mariliz Pereira Jorge - Rouba, mas é pouco

- Folha de S. Paulo

O apoio ao clã presidencial pode evoluir para 'rouba, não faz nada, mas e daí?'

Impressiona, ainda que não surpreenda, o contorcionismo dos apoiadores do governo para empacotar a corrupção como um mal menor diante da prisão de Fabrício Queiroz e da possibilidade de o primeiro-filho, o senador Flávio Bolsonaro, ter o mesmo destino.

Corrupção, confirmamos mais uma vez, nunca foi a razão para eleger um sujeito ignóbil como Jair. Fosse isso, bolsonaristas não defenderiam agora rachadinha como prática aceitável, “porque todo mundo faz”, “porque nem se compara ao que o PT ou Sérgio Cabral roubaram”. Mesmo para o padrão tupiniquim de lambe-bota de político, essa praga que nos assola, a mítica frase “rouba, mas faz” sofre aqui um duplo twist carpado.

Sabemos que a moral de parte da população é flexível. Bate palmas para tipos como Paulo Maluf, porque construiu pontes e avenidas, embora tenha enchido o bolso com milhões. Defende que partido que tira pobre da miséria não merece crítica nenhuma, apenas redenção, apesar dos comprovados pesares.

César Felício - O caminho de Canossa

- Valor Econômico

Nunca Bolsonaro pareceu tão perto da normalidade

“A cobra vai fumar”. Essa era a mensagem nas redes sociais de várias contas bolsonaristas na noite do dia 16. Durante a manhã e a tarde daquela terça-feira, deputados, empresários e militantes virtuais haviam sido alvo de operações de busca e apreensão, no âmbito dos inquéritos que correm no STF.

O neobolsonarista Roberto Jefferson quis se mostrar bem informado: “Nossas sondagens indicam que o presidente Bolsonaro está há muitas horas reunido com o Gabinete de Segurança Institucional. Assunto GLO. Artigo 142. Deus nos abençoe a espantar os urubus”, escreveu no Twitter.

À medida que avançaram as horas, pulularam imagens de onças bebendo água, fogo de artilharia sendo preparado e imagens de um reloginho marcando tic tac. Todos pintados para a guerra, de prontidão, esperando o toque do clarim para dispararem em louca cavalgada. A defesa do presidente - sentiam - era a defesa de si mesmos, porque o presidente não deixaria seus diligentes soldados ao relento. São uma equipe.

A quarta-feira 17 começou, portanto, com a sensação de que algo muito grave ia ser anunciado pelo presidente. Logo na porta do Alvorada, Bolsonaro pôs essas esperanças por terra. Falou que estava chegando a hora de botar as coisas no devido lugar, mas deixou claro: “Eu não vou ser o primeiro a chutar o pau da barraca”.

Ribamar Oliveira - Equipe econômica quer veto para desoneração

- Valor Econômico

Fim do benefício sobre a folha de pagamento abre espaço no teto de gastos em 2021

O projeto de conversão da medida provisória 936, aprovado pelo Congresso Nacional, aguarda sanção do presidente Jair Bolsonaro, o que deverá acontecer nos próximos dias. A equipe econômica propôs o veto do presidente ao artigo 33 do projeto, que adiou o fim da desoneração da folha de pagamentos de vários setores da economia de 31 de dezembro deste ano para 31 de dezembro de 2021. O argumento principal para o veto é que a prorrogação do benefício contraria a emenda constitucional 106, recentemente aprovada.

A concessão de benefício tributário que resulte em renúncia de receita tem que ser acompanhada de medida de compensação, com aumento de outro tributo, de acordo com o artigo 14 da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). A área técnica argumenta que a EC 106/2020 estabeleceu que, para criação de benefício tributário, o artigo 14 da LRF não precisa ser obedecido desde que o efeito da medida fique restrito à duração da situação de calamidade, o que, no atual caso, é 31 de dezembro deste ano. Como o objetivo da prorrogação é estender o benefício para 2021, a medida seria inconstitucional para a equipe econômica.

Há, no entanto, um complicador nesse entendimento. No mesmo mês de maio, em que promulgou a EC 106, o Congresso aprovou também a lei complementar 173, alterando algumas regras da LRF. O artigo 3º da nova lei diz que durante o estado de calamidade pública fica afastado o artigo 14 da LRF. E, ao contrário da EC 106, não dá prazo para a produção dos efeitos da renúncia de receita.

Pedro Cavalcanti Ferreira / Renato Fragelli Cardoso* - O futuro não chega no Brasil

- Valor Econômico

Há Estado demais distribuindo privilégios e Estado de menos na educação e na saúde

Ao longo das últimas quatro décadas, o Brasil ficou praticamente estagnado. Entre 1980 e 2020, a renda per capita cresceu apenas 0,6% ao ano. Como a distribuição de renda pouco se alterou no período, nem sequer se pode afirmar que a estagnação tenha sido o preço pago para que a sociedade brasileira atingisse um objetivo louvável. Ceder às atuais pressões pela perenização das despesas emergenciais geradas pela covid-19, abandonando-se o teto de gastos, como preconizado pelos auto-intitulados “progressistas”, constitui receita segura para se gerar mais uma década perdida.

A estagnação brasileira se explica por um Estado disfuncional que gasta muito, mas ao gastar não tem foco no pobre. Para conseguir gastar muito, o Estado criou uma estrutura tributária excessivamente complexa e onerosa que gera grandes distorções e atrofia a produtividade. No Brasil, há Estado demais distribuindo privilégios e benesses sem qualquer critério de eficiência, e Estado de menos na educação e na saúde. O resultado é estagnação, má distribuição de renda e exclusão social.

Nas últimas quatro décadas, houve períodos de reformas que modernizaram a estrutura produtiva brasileira, mas a cada um deles se seguia, quase que imediatamente, uma mudança de rumos em que as forças do atraso recuperavam o terreno perdido. Após as reformas implantadas por FHC e também por Lula, em seu primeiro governo, houve um desvio de rota no segundo mandato de Lula, culminando na catastrófica Nova Matriz Econômica de Dilma.

José Serra* - Epidemia de desgoverno

- O Estado de S.Paulo

A irresponsabilidade com relação ao ensino superior beira o sadismo

Pesquisas de opinião, quando avaliam o apoio popular do presidente, costumam perguntar aos entrevistados sobre o desempenho do seu governo. A primeira dificuldade, no caso, é identificar de que governo se trata. É aquele que precisa proteger um ministro contra uma deposição na Justiça, enviando-o para o exterior de modo tão pouco ortodoxo?

É o governo que mantém nas áreas que mais afetam o bem-estar e o modo de vida das famílias – a educação e a saúde – ministros interinos perpétuos sem nenhuma afinidade e experiência nessas áreas? E que utiliza as áreas de Justiça, Segurança Pública e Advocacia da União como uma banca advocatícia a serviço da família presidencial?

É o mesmo governo esse que anuncia para daqui a três meses o início da tramitação das reformas estruturais da economia e da administração, consideradas prioritárias – e admite, com isso, que já considera o segundo ano de mandato perdido? E cujo chefe do Executivo é o primeiro a patrocinar, contra a orientação de seu próprio ministério, brechas no equilíbrio fiscal, já abalado pela pandemia?

É o governo que promove uma queda de braço dos partidários da desregulação da propriedade rural e da inação diante da destruição das florestas, contra aqueles que promovem a imagem externa e o acesso a mercados do nosso agronegócio?

William Waack - Guerra perdida

- O Estado de S.Paulo

Sem conseguir controlar as várias crises, o governo não controla mais a imagem externa

O “custo” da perda de imagem do Brasil no exterior é difícil de ser colocado em números, mas uma carta enviada ao governo brasileiro e assinada por dezenas de instituições financeiras que operam no mundo inteiro oferece uma base de cálculo. Juntas, elas gerenciam cerca de US$ 3.7 trilhões (mais ou menos o dobro do PIB brasileiro).

Ameaçam retirar parte disso do País, caso continue subindo o ritmo de desmatamento da Amazônia. Alegam que há uma “incerteza generalizada sobre as condições para investir ou proporcionar serviços financeiros no Brasil”, devido ao fato de que não só emissões de dívida do governo brasileiro mas também o valor de companhias expostas à questões ambientais acabam sendo atingidos pelas queimadas.

Pelo jeito, o governo brasileiro, que anda sem ministros para coisas tão básicas como educação e saúde, se esqueceu de que a questão ambiental é considerada básica lá fora. E que exatamente essa ameaça de desinvestimento estava EXPLÍCITA na última cúpula de Davos – a do mundo pré-pandemia. Formulada pelo setor financeiro global, o tal que manipula o oxigênio da economia.

Celso Ming - Mais globalização, e não menos

- O Estado de S.Paulo

Integração mundial será necessária para solucionar problemas que atingem todos os países, como controle de imigração e prevenir novas pandemias

Na última terça-feira, Luiz Carlos Moraes, o presidente da Anfavea, instituição que defende os interesses das montadoras de veículos, advertiu que o dólar acima dos R$ 5 obrigará o setor a aumentar os preços dos seus produtos, apesar da atual queda da demanda, de cerca de 50%.

A justificativa é a alta dos custos das autopeças e dos insumos importados pela disparada do dólar. Embora Moraes esteja apenas tratando de preparar o consumidor para novos reajustes, o argumento reforça a percepção de que as montadoras estão mais dependentes de suprimento externo, o que leva alguns a pedir mais produção local e menos importações.

Em parte, essa dependência é o efeito de maior integração regional no âmbito do Mercosul, porque as empresas tiveram de compensar aumento de exportações de produtos finais com aumento de importações de autopeças.

Mas o maior fator de dependência externa foi a necessidade de inserir as montadoras na cadeia global de suprimentos. Empresas que produzem quase tudo de que necessitam não conseguem escala de produção e, nessas condições, produzem a custos mais altos, o que derruba sua competitividade. Em contrapartida, empresas mais conectadas podem ficar sujeitas a atrasos ou quebras de suprimentos em caso de crise, como a de agora.

José Pastore* - A recuperação do emprego

- O Estado de S.Paulo

Reabsorção dos 36,6 milhões de desempregados no mercado de trabalho brasileiro seguirá caminhos e ritmos diferentes

Com a chegada da pandemia de covid-19, a destruição de empresas e empregos foi rápida, mas seus impactos serão de longa duração. Nova pesquisa do IBGE (Pnad-Covid) indica que 36,6 milhões de brasileiros estão sem trabalho ou trabalhando aquém do que podem ou do que gostariam de trabalhar. A reabsorção desses trabalhadores no mercado de trabalho seguirá caminhos e ritmos variados.

Desempregados recentes nutrem a esperança de voltar ao emprego que tinham. Muitos conseguirão. Para as empresas, isso é bom, pois a recontratação de ex-empregados economiza tempo e dinheiro.

Nos EUA, a maioria dos 2,5 milhões de trabalhadores foi recontratada pelas mesmas empresas quando, em maio, voltaram a operar novamente.

Mas nem todos os desempregados terão essa sorte. As firmas que quebraram, evidentemente, destruíram os empregos de forma permanente. Seus ex-empregados terão de procurar trabalho em outras empresas, o que será incerto e demorado.

As firmas que estão reabrindo seus negócios enfrentam severas restrições de funcionamento. Por um bom tempo, necessitarão de menos empregados. Não haverá razão para novas contratações.

Zeina Latif* - O caminho até 2022

- O Estado de S.Paulo

O cuidado com o País agora será também uma preparação para 2022

O Sars-Cov-2 escancara a tragédia do mau funcionamento do Estado brasileiro, a complexidade do País e a ineficiência do atual governo.

O Brasil está mal na foto mesmo comparado a países vizinhos. O número de mortes como proporção da população só não é maior porque a testagem é baixa, diferentemente de Chile e Peru.

O Estado pesado e sem capacidade de planejamento não consegue reagir bem à crise, nem no mais essencial: falta atendimento de saúde adequado e a testagem em massa. Chama a atenção a ausência de ensino à distância na maioria das universidades públicas.

Ainda assim, muitos defendem uma maior presença estatal, como se ela fosse eficiente.

É necessária a reforma do Estado visando à melhor qualidade do gasto público, bem como da regulação estatal. Vai além do necessário ajuste fiscal.

Como os gastos com a Previdência comprometerão os orçamentos por muitos anos, por conta do envelhecimento populacional, o espaço de manobra seguirá limitado. Justamente agora que mais recursos serão necessários para políticas sociais, pesquisa, medidas sanitárias e de inserção tecnológica. Será necessário buscar caminhos para o uso mais eficiente de recursos e parcerias com o setor privado.

Alfredo Maciel da Silveira* - Três escudos: analisando o liberalismo econômico no Brasil

- Blog Democracia e Socialismo, Junho, 2020

Pelo mundo afora está a se discutir o papel do Estado que haverá de surgir na economia pós-pandemia. Mas no Brasil, onde há uma avassaladora hegemonia do liberalismo no pensamento econômico, irradiado para a política, e principalmente difundido na grande mídia, mudar a orientação reformista liberal inaugurada desde a gestão Temer-Meirelles apresenta-se como um verdadeiro “cavalo-de-pau” para a imensidão da opinião pública liberal. Querendo ou não, exatamente por serem a corrente ideológica e política hegemônica, terá que partir deles em grande medida, de seu autoconvencimento, a mudança de rumos nas reformas do Estado brasileiro.

Com base no que observo atualmente, no tipo de argumentação que liberais apresentam contra o imperativo de um Estado protagonista na economia, constato levantarem pelo menos um dentre os seguintes três escudos defensivos:

1) O Estado brasileiro é patrimonialista;
2) Financiamento do Tesouro pelo BC é a volta do populismo;
3) O Estado é ineficiente e favorece a corrupção.

Minha resposta.
Começo pelo item (2) que vai mais de encontro à economia.

Tomo como referência o destacado economista André Lara Resende por ser um insuspeito liberal declarado. Erros de interpretação obviamente são de minha total responsabilidade. Ele parte de uma fundamentada visão histórica sobre a evolução da moeda até os dias de hoje. Ele faz ver que na moeda fiduciária contemporânea, num Estado nacional que emite sua própria moeda, Banco Central e Tesouro constituem uma unidade econômico-financeira, apesar de sua distinção formal. O endividamento público em moeda nacional pode ser astronômico, como em alguns países, sem a perda de confiança na moeda; além disso, o balanço consolidado do BC com o Tesouro apresenta um passivo, cujo "credor", o povo, seus nacionais, sabem que a contrapartida em ativos corresponde a um patrimônio social, aí já descontados os custos sociais dos desastres (“sunk costs”), como por exemplo Fukushima para os japoneses. Daí também que não se admita o desleixo e a ineficiência com o gasto público. Essa "dívida pública" pode ser e é passada entre gerações.

Quanto aos itens (1) e (3), a resposta é conjunta.

Quanto à ineficiência e à corrupção é preciso ver que o país mudou. As instituições de controle criadas pela CF 88 já foram postas à prova; Dilma foi derrubada pela política mas com as provas formais colhidas pela CGU; e todas as obras públicas tramitam pelos Tribunais de Contas; claro que a bagunça administrativa pode travar esses processos; daí que gente competente é imprescindível, a exemplo do atual Min. Tarcísio de Freitas, servidor de um governo reacionário, para dizer o mínimo, mas de quem conservo a boa impressão já declarada em textos de até um ano atrás. Ele é uma prova de que gestão eficiente depende só de gestores e equipes competentes.

E o que dizer da Lava-Jato? Não há prova maior de que estão cada vez mais difíceis os "(...) Tem que estancar a sangria" e os "(...) Tem que manter isso, viu?"

E o que dizer da Lei de Responsabilidade Fiscal, que a meu ver precisaria ser aperfeiçoada, por exemplo para dar a flexibilidade de uma regulação a períodos maiores do que exercícios anuais; aprimoramento continuo da legislação é conseqüência lógica da própria vida, do próprio sucesso.

‘Associação criminosa’ no bolsonarismo – Editorial | O Globo

A possibilidade levantada por ministro do STF tem base em quebras de sigilo bancário

Um conjunto de organismos de Estado — o Ministério Público Federal, o MP estadual do Rio, o Judiciário e ainda as Polícias Federal, Civil fluminense e a de Brasília — tem dado exemplos do funcionamento dos pesos e contrapesos existentes numa democracia, para o enquadramento de falanges radicais bolsonaristas.

A descoberta de que o desaparecido Fabrício Queiroz, íntimo do clã Bolsonaro, por exemplo, estava sendo mantido fora de circulação em imóvel localizado em Atibaia (SP), de Frederick Wassef, advogado do presidente Bolsonaro, foi uma operação do MP do Rio, com a Polícia Civil fluminense, apoiada por sua congênere paulista.

Já a execução de busca e apreensão em um sítio feita por policiais de Brasília encontrou provas da atuação de agrupamentos bolsonaristas extremistas, entre elas fogos de artifício. Foi com fogos que o “300 do Brasil” fez a simulação de bombardeio do Supremo Tribunal, no fim de semana retrasado. O ataque ao STF levou à prisão de Sara Giromini e de mais cinco militantes do mesmo grupo, pedida pelo MP Federal, e decretada pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, que preside o inquérito sobre a organização de manifestações antidemocráticas aberto por iniciativa da Procuradoria-Geral da República.

Custo ambiental – Editorial | Folha de S. Paulo

Entidades estrangeiras fazem pressão contra política desastrosa de Bolsonaro

Com a emergência climática batendo à porta, a preocupação com a preservação do ambiente já há algum tempo deixou de estar restrita a ativistas, ONGs e fóruns temáticos para se tornar assunto corrente entre os principais atores econômicos do planeta.

O Brasil, território da maior floresta tropical do mundo, ocupa, para o bem e para o mal, lugar central nessas discussões. Se até há pouco o sucesso do país no combate ao desmatamento granjeou-lhe recursos e prestígio internacional, hoje a situação se afigura diversa.

A política antiambiental do governo Jair Bolsonaro não apenas vem revertendo os ganhos obtidos na conservação da Amazônia como tem devastado a imagem do Brasil no exterior —com possíveis prejuízos para os negócios nacionais.

Esse ponto ganhou nova dimensão nas últimas semanas, quando, preocupados com o desmonte das políticas de preservação, empresas, políticos e entidades estrangeiras, sobretudo da Europa, intensificaram as pressões sobre o país.

O PIB do negacionismo – Editorial | O Estado de S. Paulo

País paga uma conta maior na economia por erros do presidente diante da pandemia

Com recuo de 9,1%, a economia brasileira deve fechar o ano, mais uma vez, com desempenho muito pior que o da maioria dos grandes emergentes, segundo as novas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI). No Brasil, como em todo o mundo, o impacto da pandemia tem sido bem maior que o estimado em abril, quando saíram as estimativas anteriores. A contração projetada para o País, naquele momento, era de 5,3%, muito maior que a observada em crises anteriores. O aumento de casos de covid-19 foi fator importante para a piora da previsão, no caso brasileiro, disse a economista-chefe do Fundo, Gita Gopinath. Mas o Brasil, observou, tem os mesmos desafios de outros emergentes para lidar com o coronavírus.

Mas o contágio tem sido menor em outros países emergentes, incluídos alguns da América do Sul, e esse detalhe foi ignorado, talvez diplomaticamente, no comentário. Os casos teriam aumentado tanto, no Brasil, se o presidente levasse a sério a pandemia e contribuísse para a coordenação de políticas entre União, Estados e municípios?

Governantes negacionistas ou relapsos têm sido desastrosos, como comprovou, nos EUA, o comportamento do presidente Donald Trump, líder do brasileiro Jair Bolsonaro. Países do mundo rico onde a reação à pandemia se retardou devem fechar o ano com desempenhos piores que o do Brasil. Mas em boa parte da Europa as economias já estavam enfraquecidas. O atraso da resposta à doença foi um complicador a mais.

FMI prevê a recessão maior e contágio volta a crescer nos EUA – Editorial | Valor Econômico

Com o segundo maior déficit no mundo em 2020, a dívida pública bruta subirá para 102,3% do PIB, bem distante dos 63,1% da média dos países emergentes

A devastação social e econômica provocada pelo novo coronavírus foi muito maior do que a prevista - e a possibilidade de uma segunda onda ameaça fazer mais estragos. O Fundo Monetário Internacional mostrou-se ainda mais pessimista do que em abril e indicou ontem que a recessão global será mais profunda, com queda do PIB de 4,9% (antes, -3%). Os investidores que consideraram a previsão do Fed, de retração de 6,5% do PIB, terão de rever suas projeções. O PIB americano encolherá 8% este ano, um choque de grandes proporções que, no entanto, será igual à média das economias avançadas. O contágio voltou a aumentar em duas dezenas de Estados americanos, a primeira onda ainda deixa muitos mortos na América Latina; a Alemanha cerca distrito infectado e a China usa rigor para evitar o espraiamento do vírus em Pequim. São maus augúrios que as previsões do FMI aprofundaram. Os mercados acionários desabaram ontem.

A economia de guerra contra a covid-19 revelou-se mais do que uma metáfora. O déficit fiscal nos países desenvolvidos será de 16% do PIB neste ano, um esforço até mesmo superior ao de conflitos mundiais. Nos EUA, o rombo orçamentário atingirá 23% do maior PIB do mundo (US$ 21,5 trilhões). Os países emergentes terão déficit de 10,5% do PIB na média, com o Brasil mais uma vez em dissonância, com resultado negativo de 16% do PIB, o maior do planeta após o americano.

O cenário traçado pelo FMI está cercado de incertezas, especialmente pela ressurgência do novo coronavírus nas economias que finalmente foram reabertas. Para o Fundo, é provável que isso aconteça no início de 2021, no inverno no Hemisfério Norte, mas as estatísticas indicam que possa já estar ocorrendo, pelo menos nos EUA.

Música | Geraldo Azevedo - Olha pro Céu / São João na Roça

Poesia | Manuel Bandeira - Evocação do Recife

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
— Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado
e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê
na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras
mexericos namoros risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!

A distância as vozes macias das meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão

(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)
De repente
nos longos da noite
um sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era são José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.

Rua da União...
Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido
Capiberibe
— Capiberibe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro
os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
Cavalhadas
E eu me deitei no colo da menina e ela começou
a passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe
— Capiberibe
Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Opinião do dia – Luiz Werneck Vianna*

• IHU On-Line – O seu diagnóstico é o de que a democracia está em risco não somente por causa do governo, mas porque a sociedade adoeceu, perdeu-se de si mesma. Desde quando estamos doentes política e socialmente?

Luiz Werneck Vianna – Tudo que acontece hoje só foi possível porque a sociedade adoeceu antes e permitiu a vitória dos que estão aí. Eles não chegaram ao poder pelo golpe, mas pelo voto. Como os anos dos governos petistas não favoreceram a organização da vida popular, não favoreceram a organização da cidadania, a política ficou desamparada de sustentação cidadã. Se acumulou, na sociedade, por força disso, um tipo de comportamento em setores sociais bem determinados – que chamo de ralé de camadas médias -, dirigido inteiramente ao consumo, ao culto idiota às personalidades midiáticas independentemente dos seus valores. Criou-se uma personalidade em torno da Sara Giromini, que usa o codinome Sara Winter, nome de uma espiã inglesa em favor do nazismo. Não importa, para eles, a história; importa a exibição, o espetáculo e eles tiveram uma votação impressionante nas últimas eleições. Quantos deles estão nas casas parlamentares? Pessoas que vieram de lugares inexpressivos da vida social conquistaram posições e estão aí hoje, emperrando a resistência democrática no Congresso.

Nada do que nos ocorreu foi fruto de um acaso; não havia nenhuma fatalidade que nos empurrasse para essa situação. Nós criamos este abismo diante dos nossos pés com o tipo de política que praticamos nos últimos tempos. Não quero arrumar culpados, mas fomos todos que perdemos uma herança importantíssima; deixamos que se dilapidasse diante dos nossos olhos a Carta de 88, que é de inspiração social-democrata – é débil, mas é uma social-democracia e tinha possibilidade de desenvolvimento futuro. Para que isso ocorresse, precisávamos ter entendido que democracia política e democracia social deveriam andar juntas. No entanto, a partir de determinado momento, a esquerda hegemônica, no caso o PT, conduziu o tema do social sem política, sem amparar o social em instituições democráticas e sem fortalecer a democracia.

Luiz Werneck Vianna, sociólogo PUC- Rio. Entrevista IHU On-Line, 23/6/2020

Merval Pereira - Descarbonários

- O Globo

O próprio setor agropecuário terá que certificar a produção, assumir um compromisso de moratória de queimadas

O que o governo Bolsonaro acusava de “ecoterrorismo” acabou se concretizando. O aumento do desmatamento e a política de direitos humanos em relação aos povos indígenas provocaram carta de um grupo de investidores internacionais, que gere US$3,75 trilhões, a seis embaixadas brasileiras na Europa, além de Estados Unidos e Japão.

Nela, advertem que o que classificam de “desmantelamento” de políticas ambientais e de direitos humanos poderá levar empresas expostas a eventual desmatamento em suas operações no Brasil e cadeias de fornecedores a enfrentar dificuldade crescente para acessar os mercados internacionais.

Essa preocupação não é por desinformação, como quer o presidente Bolsonaro, mas pelo excesso de informações, pois como diz a presidente do partido Rede Sustentabilidade, Marina Silva, a mais importante líder ambientalista do país, “os satélites não mentem”.

Ela teme que a situação se agrave com a União Europeia se juntando aos Estados Unidos na questão ambiental com o democrata Joe Biden derrotando Trump nas próximas eleições presidenciais. Há poucos dias, Marina participou de um webinar organizado em parceria com a Climate Alliance, a Rainforest Foundation Norway e a Society for Threatened Peoples, com deputados do parlamento europeu Kathleen Van Brempt e Anna Cavazzini, representantes de povos indígenas e de ONGs dedicadas aos direitos humanos e ao clima, intitulado “Como a Europa pode apoiar o Brasil na atual crise humanitária e ambiental?”

Luiz Carlos Azedo - A praga e a peste

- Nas entrelinhas | Correio Braziliense

A pandemia da covid-19 atingiu 57 mortes por hora, quase uma por minuto. O relaxamento do isolamento social e a imunização de rebanho caminham de mãos dadas

Uma nuvem de gafanhotos ronda a fronteira do Brasil com a Argentina, ameaçando as lavouras do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, depois de atacar as do Paraguai, onde os insetos destruíram plantações de milho. As principais regiões atingidas na Argentina são as províncias de Santa Fé, Formosa e Chaco, onde existe produção de cana-de-açúcar e mandioca e a condição climática é favorável. Uma nuvem de gafanhotos, em um quilômetro quadrado, pode ter até 40 milhões de insetos, que consomem, em um dia, pastagens equivalentes ao que 2 mil vacas ou 350 mil pessoas consumiriam.

Na Bíblia, nuvens de gafanhotos são uma das 10 pragas do Egito (Êxodus), lançadas por Deus para obrigar o faraó a libertar os hebreus. Moisés foi o portador da mensagem divina: “Assim diz o Senhor, o Deus dos hebreus: ‘Até quando você se recusará a humilhar-se perante mim? Deixe ir o meu povo, para que me preste culto. Se você não quiser deixá-lo ir, farei vir gafanhotos sobre o seu território amanhã. Eles cobrirão a face da terra até não se poder enxergar o solo. Devorarão o pouco que ainda lhes restou da tempestade de granizo e todas as árvores que estiverem brotando nos campos. Encherão os seus palácios e as casas de todos os seus conselheiros e de todos os egípcios: algo que os seus pais e os seus antepassados jamais viram (…)”.

Mas o Senhor disse a Moisés: “Estenda a mão sobre o Egito para que os gafanhotos venham sobre a terra e devorem toda a vegetação, tudo o que foi deixado pelo granizo”. Moisés estendeu a vara sobre o Egito, e o Senhor fez soprar sobre a terra um vento oriental durante todo aquele dia e toda aquela noite. Pela manhã, o vento havia trazido os gafanhotos, os quais invadiram todo o Egito e desceram em grande número sobre toda a sua extensão. Nunca antes houve tantos gafanhotos, nem jamais haverá. Eles cobriram toda a face da terra de tal forma que ela escureceu. Devoraram tudo o que o granizo tinha deixado: toda a vegetação e todos os frutos das árvores. Não restou nada verde nas árvores nem nas plantas do campo, em toda a terra do Egito.

Míriam Leitão - Uma visão de dentro do governo

- O Globo

Ministros admitem que o presidente comete erros, mas discordam mais da forma do que do conteúdo. Ecoa no governo previsão feita por Mandetta

A visão de dentro do governo Bolsonaro é de que o ex-ministro Abraham Weintraub prejudicava muito. O presidente o defendia, mas a maioria dos ministros civis e militares o define com palavras como “doido” ou “idiota”. Esse último ato teria dado a impressão de que o presidente arquitetou um plano contra uma lei americana, me disse um ministro. Bolsonaro é criticado por suas declarações, mesmo por pessoas que estão próximas, mas ao mesmo tempo o presidente convenceu a equipe de boa parte das suas teses, como a de que o Supremo estaria invadindo prerrogativas do Executivo.

Mais um ruído está marcado para acontecer com o pedido, ontem, feito pela Polícia Federal ao decano Celso de Mello para ouvir o presidente no inquérito que investiga a suspeita de interferência na PF. Há uma expectativa de que Bolsonaro responda por escrito. Mas o ministro Celso de Mello, em decisão recente, conforme escrevi aqui no dia 7 de maio, registrou seu entendimento de que o presidente, o vice-presidente, os presidentes da Câmara e do Senado têm essa prerrogativa, pelo artigo 221 do Código de Processo Penal, mas apenas quando são testemunhas. O decano escreveu: “Caso estejam na condição de pessoas investigadas ou acusadas não terão acesso a tal favor legal.” Sendo assim, Bolsonaro seria ouvido presencialmente.

Bernardo Mello Franco - Unidos contra a saúde

- O Globo

Jair Bolsonaro e Wilson Witzel eram aliados, viraram concorrentes e hoje são inimigos. Mas há algo que ainda os une: o descaso com a saúde pública.

O presidente já forçou a saída de dois ministros na pandemia. Sem encontrar outro médico disposto a rasgar o diploma, entregou a pasta da Saúde a um general paraquedista. O interino tem fracassado no combate ao vírus. Até aqui, só se notabilizou pela tentativa de maquiar estatísticas e esconder mortes pela Covid.

O governador do Rio também perdeu dois secretários em plena crise. O primeiro, Edmar Santos, caiu num escândalo de corrupção. O segundo, Fernando Ferry, pediu demissão para não “sujar o CPF”. Ameaçado de impeachment, Witzel imitou Bolsonaro e foi buscar o substituto no quartel. Seu terceiro secretário de Saúde é Alex Bousquet, coronel do Corpo de Bombeiros.

Zuenir Ventura - Vale tudo. Ou quase

- O Globo

Por via das dúvidas, a mulher de Queiroz escondeu-se

Nesse escândalo protagonizado pelo senador Flávio Bolsonaro e seu ex-assessor Fabrício Queiroz, há desvio de recursos públicos, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, depósito na conta da primeira-dama, conexão com as milícias, mas o que chamou mais a atenção foi a rápida aparição de uma figura que roubou a cena por seu confuso desempenho. Trata-se do histriônico Frederick Wassef, vulgo Anjo, advogado do presidente e do seu primogênito e dono do imóvel onde foi preso Queiroz, que aí se escondeu por cerca de um ano.

Como na entrevista a Andréia Sadi ele insistisse em negar o óbvio, isto é, que conhecia o hóspede, ela lançou mão de uma bem-humorada pergunta que desconcertou o cinismo do interlocutor e viralizou na internet: “O Queiroz apareceu voando na casa do senhor?”

A saída de cena do advogado foi também ruidosa. Ele alega que deixou a causa para que “não me usem para atacar criminosamente” o presidente e o senador. Já este exaltou no Twitter “a lealdade e a competência do advogado, ímpares e insubstituíveis”. A versão mais confiável, porém, é a da colunista Mônica Bergamo, a quem interlocutores do presidente confessaram que ele estava de “saco cheio de Wassef”, por falar demais.

Ricardo Noblat - Governo Bolsonaro desce a escada saltando degraus

- Blog do Noblat | Veja

Mourão e o terno da posse
Ensinou o ex-presidente José Sarney quando há muitos anos lhe perguntei a respeito: “O primeiro compromisso de quem assume a presidência da República no Brasil é o de assegurar condições para completar seu mandato”. Cito a resposta de memória.

Leitor voraz de livros de história, com uma longa carreira como político, Sarney sabia que não seria fácil completar o mandato que herdara de Tancredo Neves, o presidente eleito em 1985 que morreu sem tomar posse depois de ser operado sete vezes.

Assistira de longe a ascensão de Getúlio Vargas em 1930, sua queda em 1945, a volta em 1950 e o suicídio em 1954; de perto, as rebeliões militares que ameaçaram o governo de Juscelino; a renúncia de Jânio em 1961; e a deposição de Goulart em 1964.

Era para Sarney ter governado por seis anos. A Constituinte de 1988 subtraiu-lhe um ano de mandato. Governaria só por quatro, não fosse o apoio que recebeu dos militares para que governasse cinco anos. Foi sucedido por Fernando Collor, deposto em 1992.

Aos 90 anos de idade, lúcido e em boa forma, acompanha a agonia do presidente Jair Bolsonaro que, a essa altura, se dará por feliz se conseguir governar pelo menos até 2022. Sarney, mas não só ele, acha que Bolsonaro já deu adeus ao sonho de se reeleger.

Rosângela Bittar - Caça acuada, caçadores em vigília

- O Estado de S.Paulo

Os fatores que sustentam a mudança de rumo estão em plena ebulição

Aparentemente, há fatos e indícios demais que justificam o afastamento do presidente Jair Bolsonaro. O consenso na política, porém, é de que o cenário ainda exige cautela. A caça foi avistada, está acuada, mas ainda não pode ser alcançada.

Os fatores que sustentam a mudança de rumo estão em plena ebulição. Apenas a reeleição, que Bolsonaro sempre considerou favas contadas, está fora de cogitação. Sucumbiu junto com os milhões de vítimas da covid-19 e dos desempregados por ela. Ainda há quem acredite na reabilitação do candidato nesses próximos dois anos e pouco, mas estes são raros.

Ninguém mais discute, porém, se o presidente resistirá até o fim do mandato. A dúvida é sobre como vai sair, se pela impugnação da chapa no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ou pela deposição via Congresso, o impeachment. Para os dois desfechos ainda não existem as condições necessárias, em provas, perdas de apoio, enfraquecimento político.

A novidade atual é a troca de posição das probabilidades. A impugnação no TSE, que até há duas semanas era vista como a hipótese mais fácil, perdeu favoritismo. A equação se inverteu.

Vera Magalhães - Um ano perdido

- O Estado de S.Paulo

Fuga de Weintraub é símbolo final de desastre da Educação na pandemia

A fuga canhestra de Abraham Weintraub do País e seu desembarque caricato em Miami foram o apogeu de uma gestão daninha na Educação.

O pior ministro da Educação que o Brasil já teve se despediu com um bilhete em papel de pão, um abracinho no presidente e uma banana para o País. Para poder entrar nos Estados Unidos, se valeu de uma fraude ao Diário Oficial, mais um expediente que vai se tornando rotina no governo coalhado de ilegalidades de Jair Bolsonaro.

Antes de mais essas cenas de pastelão, no entanto, o dono da cachorrinha Capitu entregou um ano perdido, em que os alunos não foram apenas expostos aos riscos para a saúde física e mental decorrentes da pandemia, mas à completa falta de perspectiva para seu futuro escolar graças à inépcia do Ministério da Educação.

Depois de, por pura birra, tentar obrigar alunos do Ensino Médio a fazer o Enem sem ter aulas, ou tendo sido jogados de paraquedas num ensino à distância com mais buracos que a superfície da Lua, e ser forçado a recuar pela Justiça e pelo Congresso, Weintraub simplesmente desligou as operações.

Monica De Bolle* - O maior dos descasos

- O Estado de S.Paulo

Enquanto o País quer a volta da normalidade perdida, o governo anuncia o fim do auxílio emergencial

O Brasil ultrapassou os 50 mil óbitos causados pelo SARS-CoV-2, o vírus responsável pela síndrome denominada covid-19, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). De acordo com os modelos epidemiológicos mais apurados, é provável que o Brasil alcance a terrível marca dos 100 mil óbitos até meados de julho. Em meio a tantas mortes, tantas pessoas sofrendo nos hospitais, tantas famílias destroçadas, testemunhamos a indiferença de boa parte da população brasileira. Com a “reabertura”, festeja-se o retorno aos shopping centers, aos restaurantes, às academias. Festeja-se as aglomerações, os churrascos, a volta da “vida normal”. Espanta a falta de percepção de que a vida está e seguirá longe do normal.

A vida não está, nem deveria estar normal, em primeiro lugar, porque os mortos pela covid-19 se somam dia após dia. A comoção que o País sentiu pelos italianos e pelos espanhóis parece passar longe dos olhos e do coração de muitos brasileiros, agora que morrem seus concidadãos.

Em segundo, há um vírus letal e altamente imprevisível em circulação. Esse vírus pode não causar sintoma algum, pode causar sintomas leves, pode levar o paciente a ser entubado, pode levar à morte. Esse vírus, como mostram estudos, pode se alojar nos pulmões, no sistema vascular, nas articulações, no sistema neurológico. Pode deixar sequelas severas. Mas, no Brasil atual, é como se ele não existisse. A vida segue como se as pessoas por ele vitimadas fossem apenas números que se computam todos os dias: sua morte não modifica o presente, nem se nota no governo federal ou em parte da sociedade brasileira qualquer intenção de responder à crise humanitária que assola o País.

Fernando Exman - Militares, política e o caso de Cincinnatus

- Valor Econômico

Congresso debate relação entre Forças Armadas e governo

Pode sair do Congresso Nacional uma solução para o problema que, ao lado dos esforços de combate ao novo coronavírus, muito tem preocupado o oficialato. Pelo menos duas propostas de emenda constitucional podem amenizar os danos causados à imagem das Forças Armadas pela correlação feita, na opinião pública, entre os militares e o governo.

A ideia, ainda em fase inicial de tramitação e que pode ganhar impulso se for objeto de acordo entre os líderes partidários, é resguardar o caráter de instituições de Estado das Forças Armadas. Em uma eventual brecha na agenda legislativa voltada à retomada econômica no pós-pandemia, esse pode ser um debate positivo a ser levado adiante pelo Parlamento. O país ganhará, se demonstrar ter maturidade civilizatória para discutir esse tema sem enfrentar novas turbulências institucionais. Perderá quem quer trocar a farda pelo terno e a gravata, sem enfrentar uma transição profissional em definitivo.

Por isso a proposta de autoria da deputada federal Perpétua Almeida (AC), líder do PCdoB na Câmara, chama a atenção. Ex-assessora especial e ex-secretária de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa, a deputada mantém contato com seus antigos interlocutores na caserna, enquanto coleta as assinaturas necessárias para protocolar a PEC. Antes um gesto trivial no cotidiano do parlamentar, agora a subscrição de projetos é eletrônica e enfrenta novas complexidades por causa do trabalho remoto e da pandemia.

Cristiano Romero - Brasil: o destino de nunca ser liberal

- Valor Econômico

Aqui, liberalismo e liberal são palavras demonizadas

Uma das palavras mais demonizadas do nosso vocabulário é "liberalismo". Sim, o vocábulo, porque, no fundo, não importa discutir seu significado real, a ideia, a doutrina ou o modelo de funcionamento de uma economia. Na Ilha de Vera Cruz, mesmo nas universidades, lócus por definição do debate de ideias, não se vai muito longe na discussão do tema. Ora, por quê? Porque o liberalismo econômico, nos ensinam os livros didáticos desde a tenra infância, é coisa de capitalista selvagem, empresário malvado e banqueiro usurpador, assim como de duas categorias cuja existência, para os anti-liberais, dispensa adjetivos: os investidores da bolsa de valores e os investidores estrangeiros.

A história nos conta por que somos assim, desde as capitanias hereditárias, a forma encontrada pelo já decadente reino de Portugal de ocupar esta imensa "ilha", antes que alguém o fizesse.

"Descoberta" em 1500, Cabrália só começou a ser realmente colonizada 34 anos depois, quando D. João III dividiu o território à régua _ sem levar em consideração os acidentes geográficos que costumam demarcar cidades, Estados e até países _ em 15 capitanias. Como o reino estava falido, cada área foi concedida a um donatário que tivesse recursos para ocupar e administrar a sua área, que não lhe pertencia, mas a Portugal.

A ocupação era urgente porque franceses vieram aos baldes, nas três primeiras décadas de existência da América Portuguesa, depenar a vasta Mata Atlântica para extração de pau-brasil, madeira resistente usada na fabricação de móveis, instrumentos musicais e, ainda, no tingimento (vermelho) de tecidos. Antes das capitanias, funcionaram as feitorias, um monopólio concedido pelo reino português aos exploradores e comercializadores de pau-brasil. Mais adiante, em 1550, os franceses tentaram tomar a pulso parte da Ilha de Vera Cruz do domínio português...

Roberto DaMatta - Ataque, violência, destruição

- O Estado de S. Paulo / O Globo

Foi com essas palavras que me informaram do gigantesco ataque de cupins e brocas à minha casa. “Como o de Pearl Harbor?”, perguntei ao Sr. Olem — o dono da firma descupinizadora que contratei. “Seria tão poderoso”, prossegui, “quanto o dos japoneses que iniciou a contraofensiva americana no Pacífico?” “Sim, senhor! Cupins e brocas são insetos desaforados, mas o nosso ataque será violento!”, completou o Sr. Olem, debaixo dos olhares confiantes de Tinho e Tonho, seus ajudantes-soldados, que usavam avançadas armas químicas para liquidar a praga.

“Dentro em breve a casa vai estar livre!”, reiterou o Sr. Olem quando me mostrava uma parede arruinada pelos insetos coletivistas.

Eu moro nesta casa desde 1974. Ela concretiza uma vida devotada exclusivamente ao trabalho intelectual. Por meio dele, exerço o magistério e a crônica jornalística, atividades resultantes de pesquisas e livros escritos no figurino professoral classificado por tio Marcelino (que foi fiscal de rendas — um belo emprego, conforme dizia) como “um sacerdócio”. Uma qualificação precisa porque, como agora constato, professor que sou por mais de 60 anos, dar aulas não pode ser um emprego porque o ensino requer “trabalho”: vocação e amor. Algo estigmatizado num sistema até anteontem sustentado por escravidão negra. Ademais, tenho convivido com a pecha delinquente segundo a qual “quem sabe faz, quem não sabe ensina!”. Eis uma “inocente” barbaridade explicativa do porquê somos governados por ladrões e loucos; e como o chamado “campo político” virou uma sentina.

Voltemos, porém, ao ataque dos cupins que comeram paredes e várias obras de Marx, Engels, Morgan e outros mestres e, de sobremesa, tornaram pó suas estantes. Já as brocas, menos intelectuais, atacaram um armário de roupas. Resultado: uns cem livros devorados por cupins e estragos sérios e irreparáveis na minha obsoleta aparelhagem de som.

Na medida em que Tinho e Tonho suavam removendo quilos de cupins ainda vivos como um político corrupto nacional, o Sr. Olem me perguntou se eu conhecia a história de um padre que havia decifrado a língua das aranhas e com elas trocado ideias e até mesmo a elas sugerido um regime político capaz de organizá-las — o regime republicano de governo...

Elio Gaspari - A quitanda está abandonada

- Folha de S. Paulo / O Globo

É necessário que o presidente se associe à administração

Hoje completam-se dois meses da saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça. Parece que foram dois anos. De lá para cá, no meio de uma epidemia, caíram dois ministros da Saúde e escafedeu-se o da Educassão. Isso, esquecendo-se da novela de Regina Duarte. O czar da Economia está atordoado, prestes a abandonar a emenda constitucional que aliviaria as finanças de estados e municípios. Do outro lado do balcão há mais de um milhão de pessoas infectadas pelo coronavírus e 12 milhões de desempregados.

Desde o dia em que assumiu a Presidência, Jair Bolsonaro sabe que precisa respeitar a primeira Lei de Delfim Netto: “Tem que abrir a quitanda às nove da manhã com berinjelas para vender a preço razoável e troco na caixa para atender à freguesia.”

Entra-se na quitanda e lá discutem-se as prerrogativas do Judiciário, o silêncio de Fabrício Queiroz, o paradeiro de sua mulher, a fidelidade de Frederick Wassef e as virtudes da cloroquina. Berinjelas? Só quando se souber o que será colocado no lugar do PróBrasil, aquele ex-Plano Marshall. Troco? Só quando o gerente e o caixa chegarem a um acordo a respeito do valor do auxílio para os “invisíveis”. O secretário do Tesouro está de malas prontas.

Hélio Schwartsman - Liberdade na rede

- Folha de S. Paulo

Pretendo discutir hoje a regulação das redes sociais. O tema ganhou proeminência com o inquérito das “fake news” e a decisão de algumas empresas de apagar ou marcar como duvidosos posts dos presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump.

As redes sociais não realizaram o sonho de alguns visionários de tornar o mundo um lugar mais democrático e igualitário, mas também não me parece justo atribuir a elas a culpa por todos os males de nosso tempo. Mentiras e polarização são um problema, mas já existiam muito antes da internet. Os computadores apenas amplificaram seu alcance.

Os dilemas com os quais lidamos quando nos propomos a regular as redes não são, portanto, novidade. De um lado, temos a liberdade de expressão, que está no DNA do liberalismo democrático, e, de outro, os danos concretos que inverdades estrategicamente plantadas podem ocasionar, para indivíduos, empresas e para o próprio ambiente institucional.

Cristina Serra - 'I can't breathe' no Brasil

- Folha de S. Paulo

Até quando a cor da pele será uma sentença de morte neste país?

É imperioso voltar ao tema, tratado por esta colunista, quase um mês atrás.

A cena gravada por um celular ecoa o martírio de George Floyd: "I can't breathe". Desta vez, aconteceu em Carapicuíba, São Paulo. Um policial militar aperta o joelho sobre o pescoço do rapaz negro, Gabriel, de 19 anos, imobilizado no chão. Gabriel agita as pernas em desespero. Desmaia duas vezes. Felizmente, o jovem sobreviveu. Os policiais responsáveis pela "abordagem" ficarão "afastados das ruas" até a conclusão das apurações.

Outro Gabriel, 22 anos, em Salvador, saía do banco quando foi preso por policiais militares. Seu crime? É negro, tem tatuagens e o cabelo pintado de loiro. Foi confundido com um assaltante. Uma mobilização pelas redes sociais conseguiu libertá-lo. Os dois rapazes com nome de anjo sobreviveram. Outros não tiveram a mesma sorte.

Ruy Castro* - Vista grossa e continência

- Folha de S. Paulo

Para Bolsonaro, nós, paisanos, somos brasileiros de segunda classe

No domingo, 21, Jair Bolsonaro tomou um jato da FAB em Brasília e veio ao Rio para o velório de um paraquedista morto na véspera —preso na aeronave ao saltar; quando se soltou, o paraquedas não abriu e ele foi ao solo. Usando o infeliz soldado como pretexto, Bolsonaro, de pífia carreira militar, fez um discurso falando em nome das Forças Armadas e, mais uma vez, deu a entender que elas intervirão se o “povo” —seus apoiadores no chiqueirinho do Alvorada— for contrariado.

É reconfortante saber que Bolsonaro se comoveu com a morte de um cidadão brasileiro, a ponto de requisitar avião, gasolina e tripulação oficiais e voar 935 km para homenageá-lo. Já poderia ter feito o mesmo com pelo menos um dos 52 mil brasileiros mortos pela Covid-19 e sem deslocamento tão dispendioso. Bastaria acionar a equipe que filma suas lives em palácio. Mas não o fez, talvez porque tais mortos —de quem não se sabe quantos são homens ou mulheres, brancos ou pretos, velhos ou jovens— sejam, para ele, brasileiros de 2ª classe.

Prisão de Queiroz coloca em xeque estratégias de Bolsonaro – Editorial | Valor Econômico

Recurso ao populismo econômico pode ser o complemento à aliança com o centrão

Tudo o que o presidente Jair Bolsonaro conseguiu com suas agressões às instituições e pregações golpistas foi limitar drasticamente sua própria margem de ação. A prisão do velho amigo Fabrício Queiroz, ligado a milícias e ao escândalo das rachadinhas que envolve o senador Flavio Bolsonaro, na casa do advogado do presidente, Frederick Wassef, tende a tornar Bolsonaro refém das investigações, imobilizar seu governo e, no limite, afastá-lo da Presidência. O passado voltou mais uma vez para assombrá-lo.

Arrogância e prepotência, mais manias de perseguição e espírito de clã, levaram sempre o presidente a proteger seus filhos de encrencas que podem expulsá-lo do Palácio do Planalto. Em tese, o presidente não tem nada a ver com as ilegalidades cometidas por eles, a menos que aja para atrapalhar a Justiça e os absolva a priori, como Bolsonaro tem feito o tempo todo.

A primeira reação de Flavio Bolsonaro, na mira da lei como provável chefe de organização criminosa, foi a de imediatamente atribuir a detenção de Queiroz à perseguição política contra o presidente, colocando o Planalto como parte de um enredo em que se misturam roubo de dinheiro público, lavagem de dinheiro com loja de chocolates, enriquecimento ilícito e milícias assassinas do Rio de Janeiro. Já o advogado de Bolsonaro e de Flavio, Frederick Wassef, optou pelo teatro do absurdo. Disse que não falava com seu hóspede, Queiroz, e que tudo tinha sido uma armação, depois de passar meses a fio negando seu paradeiro.

Chegam contas da destruição da Amazônia – Editorial | O Globo

Pedido de explicações a embaixadas é o primeiro passo rumo a boicotes a exportações brasileiras de alimentos

O conselho que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, deu na reunião ministerial de 22 de abril a seus colegas de governo, de aproveitarem que as atenções estavam voltadas à epidemia do coronavírus para derrubar regulações e fazer “a boiada passar”, piorou a já danificada imagem do Brasil perante empresas globais de comercialização de commodities alimentícias e grande fundos de investimento que atuam neste setor. Aquela participação de Salles na reunião não passou despercebida a grandes operadores no comércio internacional e a fundos de investimento que participam de empresas deste ramo. Mas mesmo sem a divulgação do vídeo a situação não estaria melhor.

Muito antes de 22 de abril, o avanço do desmatamento e das queimadas na Amazônia, na fase inicial do governo do novo presidente, já confirmou ser alto o risco Bolsonaro para este segmento de gestão de grandes negócios com alimentos e matérias-primas em geral, cada vez mais pressionado por seus acionistas a ter um comportamento responsável do ponto de vista ambiental e de direitos humanos.

Carta aberta enviada segunda-feira a embaixadas brasileiras em oito países — seis na Europa, Estados Unidos e Japão — manifestando preocupação com a velocidade do desmatamento no Brasil e com a desmontagem de políticas ambientais e de direitos humanos, leia-se, índios — pediu reuniões virtuais com os embaixadores para abordar o assunto. O grupo que subscreve a carta administra ativos de US$ 3,75 trilhões ou o equivalente a R$ 20 trilhões. A preocupação é com o risco de as empresas que controlam e que atuam na produção e/ou comercialização de alimentos brasileiros passem a ter dificuldades de acesso aos grandes mercados.

Da queda à esperança – Editorial | O Estado de S. Paulo

Esperança em alta é o indicador mais positivo da indústria, neste momento, depois da queda recorde em abril e de alguns sinais de recuperação em maio. Com menos operários nas fábricas e muitas máquinas ainda paradas, o setor trabalha com apenas dois terços - 66,2% - da capacidade instalada, segundo sondagem da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Essa ainda é uma prévia do Índice de Confiança da Indústria, mas os dados parecem confirmar uma retomada de fôlego. Com melhora em seus dois componentes, a avaliação do presente e a expectativa para os próximos três e seis meses, o índice geral subiu 15,7 pontos e chegou a 76,6. O salto de maio para junho foi um recorde. O humor, no entanto, continua longe de 100, a fronteira entre os territórios negativo e positivo.

Mas qualquer respiro depois do desastre recente é muito bem-vindo. A atividade econômica despencou 9,3% em abril, segundo o Monitor do PIB - FGV, e atingiu um nível 13,5% inferior ao de um ano atrás. No trimestre móvel encerrado em abril o Produto Interno Bruto (PIB) foi 6,1% menor que o dos três meses até março. Em relação ao trimestre correspondente de 2019 a perda foi de 4,9%. Apesar de alguns sinais positivos e do início de reabertura, depois da quarentena, as expectativas quanto ao resultado final do ano são sombrias.

Além do saneamento – Editorial | Folha de S. Paulo

Ajuste orçamentário e reforma do Estado seguem imperativos mesmo na pandemia

A bem-vinda iniciativa do Senado de votar o marco regulatório do saneamento básico indica que é possível, além de desejável, retomar a agenda de reformas econômicas sem prejuízo das medidas emergenciais de combate à pandemia.

Motivos para tanto não faltam, embora as atenções do mundo político ainda estejam, compreensivelmente, concentradas em providências de caráter temporário destinadas a mitigar os efeitos recessivos da crise do coronavírus.

A indiscutível necessidade de elevar os gastos públicos para socorrer famílias e empresas, por sua vez, não só pôs em suspenso o processo de ajuste orçamentário e redesenho do Estado como deu novo fôlego aos setores que a ele se opõem, por interesse ou convicção.

Com o segundo semestre do ano prestes a ter início e, espera-se, com o pior da recessão deixado para trás, cumpre planejar com realismo os próximos passos da gestão econômica —quando menos porque a proposta de Orçamento de 2021 precisa ser enviada ao Congresso até o final de agosto.

Se respeitar os preceitos básicos da responsabilidade fiscal, o texto sepultará ilusões acerca de algum plano grandioso de obras, como especulado nos meios militares do governo, ou de um programa de transferência de renda muito maior que o Bolsa Família, aventado pelo ministro Paulo Guedes.

A peça projetará, tudo indica, um setor público ainda mais endividado —o passivo de União, Estados e municípios deve ultrapassar a casa de 90% do Produto Interno Bruto— e uma recuperação econômica não mais que modesta.

Música | Ze Ramalho - O vento vai responder

Poesia | João Cabral de Melo Neto - O relógio

Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.

Se são jaulas não é certo;
mais perto estão das gaiolas
ao menos, pelo tamanho
e quadradiço de forma.

Umas vezes, tais gaiolas
vão penduradas nos muros;
outras vezes, mais privadas,
vão num bolso, num dos pulsos.

Mas onde esteja: a gaiola
será de pássaro ou pássara:
é alada a palpitação,
a saltação que ela guarda;

e de pássaro cantor,
não pássaro de plumagem:
pois delas se emite um canto
de uma tal continuidade.