quarta-feira, 27 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Nomes à mesa no tabuleiro eleitoral

Correio Braziliense

Apesar de a eleição para o Palácio do Planalto estar distante mais de um ano do seu primeiro turno, a corrida eleitoral teve a sua largada nas últimas semanas

Apesar de a eleição para o Palácio do Planalto estar distante mais de um ano do seu primeiro turno, a corrida eleitoral teve a sua largada nas últimas semanas. Enquanto no campo mais à esquerda há uma maior clareza, justamente pela possibilidade de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no âmbito conservador há incertezas sobre quem desafiará o atual chefe do Executivo. Em jogo está o eleitorado alinhado ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que está inelegível.

Vários nomes se colocam na mesa do tabuleiro — em especial os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos), de São Paulo; Ronaldo Caiado (União), de Goiás; Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais; Ratinho Jr. (PSD), do Paraná; Eduardo Leite (PSD), do Rio Grande do Sul —, que convergem para um ponto: o gosto pela polarização. 

Lula e Tarcísio pedem a bola, por Vera Magalhães

O Globo

Presidente deixou claro quem imagina que será seu adversário na urna eletrônica, ao citar nominalmente o governador de SP durante reunião ministerial

O momento do jogo político devolveu a posse de bola a Lula, mas a pergunta que nem seus ministros mais próximos arriscam responder é: ela dura até o apito de final da partida, na eleição?

A recuperação, em certa medida ainda tímida, da popularidade dele se deu muito mais por circunstâncias externas que por sua capacidade de armar o jogo. Essa é uma das razões que impedem haver otimismo exagerado no governo com os números das pesquisas e os próximos lances da política.

A outra variável que explica a sensata moderação no otimismo é a economia. Na reunião ministerial de ontem, marcada por recados duros e claros de Lula, o ministro Fernando Haddad fez uma exposição, já na parte fechada à imprensa, sobre o que espera o Brasil neste fim de ano e em 2026. Deixou clara a preocupação com o efeito dos juros altos por prazo prolongado sobre a atividade econômica.

O risco para o STF em 2026, por Paulo Celso Pereira

O Globo

O perfil dos escolhidos nos próximos anos poderá dominar o Supremo por décadas

Em junho de 2022, a Suprema Corte americana, numa virada histórica, reverteu a decisão Roe vs. Wade, que garantia o direito ao aborto nos Estados Unidos. Um ano depois, novamente por 6 votos a 3, definiu que as universidades americanas não poderiam mais usar a raça dos alunos para selecioná-los. A guinada conservadora da Justiça americana não se deu depois de uma ofensiva parlamentar que tenha levado ao impeachment de seus juízes ou aumentado o número de cadeiras, como prega a receita contemporânea de desconstrução das democracias. Foi obra da fortuna e do método do Partido Republicano em, além de usar sua maioria parlamentar para bloquear uma indicação de Barack Obama, apontar nomes ideologicamente leais e jovens, que ficariam décadas na Corte, onde o cargo é vitalício.

A coisa mais fácil, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ex-presidente deu razões para ser monitorado pela polícia antes de julgamento no STF

O ministro Alexandre de Moraes determinou ontem que a polícia fique de olho em Jair Bolsonaro. O objetivo é evitar que o ex-presidente fuja do país para escapar da provável condenação por tentativa de golpe.

Em ofício ao Supremo, o procurador-geral Paulo Gonet disse que seria “de bom alvitre” reforçar a vigilância sobre o capitão. Moraes considerou a ideia “adequada e necessária” para a aplicação da lei penal.

É preciso haver convergência contra o tarifaço, por Ricardo Patah*

O Globo

É o momento de as entidades sindicais se aproximarem ainda mais das empresas para contribuir com seu desenvolvimento

‘O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.’ Essa visão do nosso país em relação aos Estados Unidos foi formulada no contexto do golpe militar de 1964. O autor da frase, Juracy Magalhães, foi embaixador naquele país e expressou o que se pensava por aqui. Agora, depois do tarifaço de 50%, essa visão provinciana seria uma piada de mau gosto, para dizer o mínimo. Ainda somos uma das economias mais fechadas, representando apenas 1% do comércio mundial. Décima economia e quinto país em extensão territorial no planeta, com uma população de mais de 212 milhões, nunca estivemos tão desiguais e desunidos, como mostram as pesquisas recentes.

IR: Centrão e direita terão que dizer que não querem que ricos paguem imposto, por Míriam Leitão

O Globo

A análise na Câmara do projeto que isenta do Imposto de Renda (IR) quem ganha até R$ 5 mil será uma espécie de hora da verdade. O Centrão e a direita vão ter que dizer que querem que os que têm rendimentos maiores e não são tributados hoje, continuem assim, sem pagar imposto. Quando os partidos, alguns da base do governo, dizem que são contra as compensações e a favor do corte de gastos, eles não estão assumindo exatamente o que estão fazendo.

Pegadinha do destino aguarda Lula em 2026, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

PLOA de 2026 contará com receitas que podem não ocorrer e há risco de as despesas crescerem acima do orçado

É grande a chance de o governo de Luiz Inácio Lula da Silva chegar ao seu final tendo cumprido as metas fiscais nos quatro anos. O Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2026, que será enviado ao Congresso Nacional até a próxima sexta-feira, vai apontar nessa direção. Tudo bonito no papel, mas uma “pegadinha do destino” aguarda Lula pouco depois do início da campanha eleitoral, disse à coluna o diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), Marcus Pestana.

Do discurso à prática na estratégia de Trump, por Fernando Exman

Valor Econômico

Tarifas são usadas como uma alavanca para atingir objetivos políticos

À espera de um provável recrudescimento das relações entre Brasil e Estados Unidos, pode ser útil a leitura de um discurso feito recentemente pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, durante jantar de gala no “think tank” conservador American Compass. Ocorrida em junho, a fala não repercutiu no Brasil. Mas joga luz sobre a estratégia do governo Donald Trump, suas origens e potenciais consequências. É o novo estilo de vida americano.

Rubio se mostra convencido de que uma das razões pelas quais a história se repete é porque a natureza humana não muda. E uma das características do ser humano é o desejo de pertencimento, o qual evoluiu e se vê representado no conceito de Estado-nação. Isso molda cada vez mais como as decisões geopolíticas são tomadas, argumenta.

O boneco de Bolsonaro, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Governador troca a pacificação do País por uma prenda que se carrega em uma festa de peão

Ao deixar a Academia Militar de Saint-Cyr, o jovem aspirante Charles de Gaulle foi enviado ao 33.º Regimento de Infantaria, em Arras. Ali foi apresentado ao seu primeiro chefe, o coronel Philippe Pétain. “Demonstrou-me o que valem o dom e a arte de comandar.” Essas são as primeiras páginas das Memórias de Guerra do general De Gaulle.

Não é preciso recontar o que se passou nos anos seguintes com a França e os dois personagens desse parágrafo para reconhecer a coragem moral do general diante da capitulação de Pétain ao inimigo. Seu antigo chefe passaria à história como o traidor de Vichy, artífice de um desastroso armistício militar que submeteu seu país não apenas à servidão estrangeira, mas ao nazifascismo. Quando um líder se desvia de princípios e valores que diz defender, não é o subordinado que se torna desleal ao romper; ele apenas reafirma o que aprendeu na caserna.

Um novo gás ao real, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Com a chance de corte de juros nos EUA, voltou o tema sobre qual será o foco dos investidores

Desde que as declarações da semana passada do presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, alimentaram as apostas de um corte dos juros na próxima reunião de política monetária nos Estados Unidos, voltou à tona com toda força um tema que sempre beneficia os mercados emergentes: as operações de “carry trade”, quando os investidores tomam dinheiro emprestado em países com juros baixos para investir nos ativos de países com elevadas taxas de rendimento.

Um mundo em distopia, por Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense

Vivemos uma espécie de distopia, uma inversão de valores que me causa estranheza e preocupação

Vivemos uma espécie de distopia, uma inversão de valores que me causa estranheza e preocupação. A maior potência do planeta — ou seria a China? — é governada por um narcisista. Alguém que, apesar de promover uma perseguição sem precedentes aos imigrantes ilegais e travar uma batalha ideológica contra as maiores universidades de seu país, faz uma autocampanha para ganhar o Nobel da Paz. Um chefe de Estado que se orgulha de ter acabado com a guerra entre Israel e Irã, mesmo que tenha mandado seus caças e bombardeios atacarem o território iraniano e ameaçado matar o aiatolá Ali Khamenei. Um presidente que impõe tarifas ao mundo para dobrar-lhe os joelhos e fazer valer seus interesses econômicos; que não se furta em se intrometer em assuntos de outras nações, em uma clara ingerência política e diplomática; e que demite a diretora do próprio Federal Reserve (Banco Central dos EUA), ainda que essa atribuição não seja sua. 

Movimento dos evangélicos desigrejados, por Denise Santana

Correio Braziliense

Ao mesmo tempo em que o Brasil registra o aumento de evangélicos, há um movimento de abandono da comunidade de fé: evangélicos se desligam das igrejas institucionais e optam por cultivar uma fé autônoma

O cenário atual do segmento evangélico mostra pessoas entrando e saindo das igrejas. O Censo Demográfico 2022 sobre religião, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontou que o número de evangélicos aumentou no Brasil, chegando a 26,9% da população, somando 47,4 milhões de pessoas. Apesar desse crescimento, existe outra realidade: o abandono da comunidade de fé, em que evangélicos se desligam das igrejas institucionais e optam por cultivar uma fé autônoma. O movimento ficou popularmente conhecido como desigrejados.

Trump contra o Federal Reserve, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

EUA ameaçam sanções contra países que regulam ou tributam plataformas sociais

Donald Trump atropela as instituições americanas, públicas ou privadas, como universidades e escritórios de advocacia; ameaça empresas por meio de extorsão, faz o diabo. Pode estar mais perto de mandar no banco central, no Fed.

Seja lá o que se pense a respeito de bancos centrais, o BC americano é um dos motivos principais do crédito, da confiança, no mercado dos títulos da dívida do governo dos Estados Unidos (isto é, dos empréstimos para o governo federal americano).

O Fed é mais do que isso, mas o exemplo é relevante, aqui e agora. Trata-se de um mercado, de uma dívida, de US$ 30 trilhões, o equivalente ao valor de 14 PIBs do Brasil. No limite, um Fed bananeiro pode afetar o crédito do governo e da economia americana.

O uso do sagrado como ferramenta do fascismo, por Luís Sabanay

Folha de S. Paulo

Quando púlpito e palanque se confundem, o adversário vira inimigo da fé e o apoio político assume feição de devoção

A fé, quando nasce de experiências autênticas, é espaço de encontro, escuta e defesa da dignidade humana. Em sua melhor expressão, promove compaixão e convivência. Mas, distorcida para servir a interesses de dominação, perde o sentido original e se converte em barreira ao diálogo. Governos autoritários conhecem esse poder e frequentemente envolvem seus projetos em símbolos e narrativas sagradas, criando um verniz moral que intimida críticas.

A religião, como conjunto de crenças, ritos e valores, pode ser fonte de solidariedade ou de opressão. Sua força mobilizadora também a torna vulnerável à manipulação política travestida de legitimidade moral. A história mostra isso: Mussolini e Adolf Hitler contaram com líderes religiosos para reforçar discursos nacionalistas como missão divina; no apartheid, interpretações bíblicas seletivas sustentaram a segregação. O enredo é recorrente: constrói-se um inimigo interno, que pode ser o diferente, o inconformado ou o crítico, e eleva-se um líder a guardião de uma ordem sagrada.

Oposição de resultados, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

União Progressista fortalece o centrão e enfraquece Bolsonaro na definição dos rumos da direita

Sobre o cinismo oposicionista da federação denominada União Progressista, dona de ministérios e cargos importantes no governo do PT, muito já se falou e falaremos mais um pouco adiante.

Outro aspecto dessa junção do PP com o União Brasil, contudo, merece atenção. Serão 109 deputados e 14 senadores em via de serem 15, tornando-se a maior bancada do Congresso. Parlamentares em amplíssima maioria identificados com o centrão. Na Câmara, ultrapassam o PL de Jair Bolsonaro que, assim, perde o privilégio daquela condição.

Já comprei pipoca para ver Bolsonaro, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Julgamento de golpistas no STF é avanço institucional, marca decadência política do ex-presidente, mas não zera sua influência eleitoral

Já comprei pipoca para assistir, a partir da semana que vem, ao julgamento de Jair Bolsonaro e de militares que o apoiavam por tentativa de golpe de Estado. Não há muita dúvida nem sobre o veredicto que será dado à maioria dos réus nem sobre a importância histórica desse juízo.

Um dos erros em série cometidos pelo Brasil foi o de nunca responsabilizar plenamente os militares pelas várias rupturas e viradas de mesa que promoveram ao longo de nossa não tão longa história democrática. Impunidade nessas situações é praticamente um convite à próxima intervenção.

O declínio da democracia americana, por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Pela primeira vez em oito décadas, no clube das superpotências não resta nem sequer uma democracia funcional

E os Estados Unidos, hein? Durante oito décadas, vendidos como o farol da democracia e a garantia de que regimes baseados em liberdades e direitos poderiam florescer. Hoje, porém, esse capital simbólico se dissolve rapidamente e oferece ao mundo menos um exemplo a seguir do que um modelo a evitar.

Quem diria que, em 2025, apenas cogitar entrar naquele país já significa abrir mão de dez direitos e renunciar a cinco liberdades fundamentais? E que, se conseguir atravessar a fronteira —ou, sendo residente, decidir permanecer—, a pessoa terá de aceitar uma perda substancial em praticamente todos os direitos que lhe conferem as constituições liberal-democráticas.

O sujeito acorda em solo americano e lá se foram alguns de seus direitos individuais, pois o primeiro artigo da nova constituição afirma que Trump é o Estado e é ele quem decide sobre o que se pode falar e qual opinião se deve ter. Seus direitos sociais, inclusive os econômicos, tampouco permanecem intactos, porque é o Estado quem determina com quem se negocia, a que taxas e com quais produtos.

Poesia | Três poemas, de Ascenso Ferreira

 

Música | Leila Pinheiro - Serra do Luar / Música Incidental / Coração Tranquilo

 

terça-feira, 26 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ferrogrão precisa sair do papel

O Globo

Preocupação ambiental é pertinente, mas país não pode abrir mão de ampliar escoamento da produção

O Brasil deverá fechar o ano com nova safra recorde de grãos. Confirmada a estimativa, a produção crescerá 16% e atingirá 340,5 milhões de toneladas. Maior produtor nacional, Mato Grosso é o dínamo do setor. Se fosse um país, seria o quarto no ranking global de soja e algodão. Da porteira para dentro, reinam empreendedorismo e tecnologia. Mas falta transporte eficiente para escoar a produção. A maior parte dos grãos mato-grossenses é exportada por portos do Sudeste e do Sul. Para mudar essa situação, o governo federal deveria acelerar a concessão da Ferrogrão, ferrovia com quase mil quilômetros entre Sinop (MT) e Itaituba (PA). A ideia é construir a estrada de ferro ao lado da rodovia BR-163, já existente. Previsto no Novo PAC, o projeto está parado.

Lançado em 2012, ele tem sido pródigo em atrasos. A primeira versão do estudo de viabilidade foi apresentada em 2015. Houve quatro atualizações até o material ser enviado para a análise do Tribunal de Contas da União (TCU) em 2020, ano em que teve início o processo de licenciamento ambiental. Depois de questionamento do PSOL sobre a destinação de parte do Parque Nacional do Jamanxim (PA) à obra, o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu tudo em 2021, para em seguida autorizar a retomada de estudos. De forma didática, a Ferrogrão ilustra a dificuldade de tirar do papel obras de infraestrutura no Brasil.

Fogo e fumaça na era Trump, por Fernando Gabeira

O Globo

Na maior parte das vezes, é melhor não se deixar levar pela confusão das redes e pelas bravatas dos políticos

Desde muito jovem sou ligado às notícias. Durante algum tempo, minha tarefa no Jornal do Brasil era ler todos os jornais pela manhã e planejar a edição do dia seguinte. Sou, portanto, um grande consumidor de informação.

De uns tempos para cá, com o advento das redes sociais, o volume se amplificou. Não só jornais e revistas, como blogs, podcasts, robôs, grupos, opiniões, comentários e influenciadores invadiram a cena. O que era uma grande onda virou tsunami, impossível de surfar.

Dentro desse contexto, no entanto, procuro analisar um dado importante em nosso cotidiano: a posição dos Estados Unidos em relação ao Brasil e à América Latina. Para alguns, trata-se apenas de uma repetição da velha tendência imperial de determinar a vida dos países do continente. Acontece que há fatos novos: além da cacofonia das redes, há um presidente especializado em bombardear o mundo com uma sucessão de notícias. É um presidente que tem uma rede própria e usa parte do tempo para postar projetos, ideias, avisos e devaneios.

Tarcísio acelera, por Merval Pereira

O Globo

O tarifaço de Trump acabou com a família Bolsonaro. Ficou claro que tudo é um arranjo para salvá-los pessoalmente, sem ajuda nenhuma para os “pobres velhinhos e velhinhas” que participaram do 8 de Janeiro

Ao mesmo tempo que reafirma sua lealdade quase suicida ao ex-presidente Jair Bolsonaro, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, pisa no acelerador no discurso de candidato à Presidência da República, reproduzindo até o famoso slogan de um dos mais populares presidentes brasileiros, Juscelino Kubitschek. Fazer 40 anos em quatro é uma promessa de palanque de Tarcísio, que nunca antes havia ultrapassado a linha imaginária que separa o sonho da realidade.

À medida que se aproxima a data do julgamento de Bolsonaro, o panorama vai clareando diante do fato consumado. Recentes pesquisas de opinião mostram que o eleitor já se posiciona diante dos desafios que terá de enfrentar nas urnas dentro de pouco mais de um ano. A Quaest aponta que 55% consideram justa a prisão domiciliar de Bolsonaro e 39% injusta; e que 49% não estão de acordo com as sanções do governo americano impostas ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, enquanto 39% estão de acordo.

Adeus, Bolsonaro, por Pedro Doria

O Globo

Ex-presidente deixou de ser o candidato mais forte na direita

Viramos a página do bolsonarismo. A afirmação, assim peremptória, a seco, pode parecer exagerada. Afinal, Jair Bolsonaro está muito presente no noticiário, à medida que o julgamento se aproxima. Com exceção do governador gaúcho Eduardo Leite, todos os pré-candidatos à direita do presidente Lula estão em disputa aberta por sua bênção. Quem ouve o discurso de qualquer político à esquerda sai com a impressão de que, no ano que vem, será novamente Lula contra um representante de Jair. Mas quem prestou atenção à última leva de pesquisas vê um retrato muito distinto disso.

Segundo o Datafolha, na virada de julho para agosto, 61% dos brasileiros diziam que não votariam num candidato que prometa anistia a Bolsonaro. De acordo com a última rodada do Ipespe, a proximidade com Donald Trump prejudica um candidato para 53% dos brasileiros. Esse número, a rejeição ao presidente americano, salta para 69% entre os mais centristas, que se põem entre esquerda e direita. São os eleitores que, capazes de votar tanto num lado quanto noutro no espectro, definem a eleição.

O quadro geral dos atingidos, por Míriam Leitão

O Globo

Balanço mostra que oito mil empresas foram afetadas pelo tarifaço. Há boa notícia sobre castanha no Acre e preocupação com setor de máquinas e equipamentos

O número final ainda está sendo refinado, mas em torno de oito mil empresas foram atingidas pelo tarifaço de Donald Trump. Esta crise afeta as empresas de forma diferente e, por isto, a ajuda do governo foi formatada para socorrer mais quem teve prejuízo maior. O economista Guilherme Mello, secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, diz que até o dia 8 todos os sistemas de financiamentos estarão prontos e espera para a segunda quinzena as primeiras liberações de crédito.

Há produtos que são facilmente realocados em outros mercados. O presidente Lula foi ao Acre visitar produtores de castanha que vendem para os Estados Unidos e lá ouviu o seguinte: “presidente, já está resolvido o nosso caso, a gente conseguiu outros compradores”. São bens com demanda global, como café e castanha, ou que podem ser vendidos no mercado interno.

Tarcísio, Bolsonaro, Churchill e o fascismo, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Valdemar Costa Neto quer filiar o governador de São Paulo ao PL

“Tarcísio já me disse que se for candidato irá para o PL”. O presidente do partido, Valdemar Costa Neto, se vira nos 30 para manter a lealdade a Jair Bolsonaro sem perder o bonde da história. No evento desta segunda, promovido pelo grupo Esfera em São Paulo, foi o símbolo da barata voa do bolsonarismo. “Estaríamos mortos se [Donald] Trump não tivesse sido eleito. E agora ele, Trump, é a única saída que temos”. Só quando foi indagado se a ação do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos EUA tinha apoio do partido, reconheceu que seu correligionário “faz as coisas por conta própria”.

Costa Neto está prestes a perder o pote de ouro que a filiação do ex-presidente lhe deu em 2022, quando o PL elegeu a maior bancada na Câmara dos Deputados e recebeu a maior fatia dos fundos partidário e eleitoral. Falou da esperança numa candidatura Bolsonaro e depois nem ele mesmo parecia acreditar no que acabara de dizer. Tinha diante de si um auditório que, minutos antes, havia interrompido o discurso do governador Tarcísio de Freitas três vezes com aplausos.

O crucial e o terrível no debate dos juros, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Quinze dias atrás, sugerimos aqui que a discussão do tarifaço não pode silenciar o debate do problema dos juros, que continuam absurdamente altos no país apesar da inflação em queda. Em nome da coerência, então, seguem dois comentários sobre a proposta que a coluna apresentou, feita pelo professor da UnB José Luis Oreiro a pedido da Comissão de Debates e Estudos Estratégicos da Câmara. O economista sugeriu uma reforma na arquitetura institucional da condução da política monetária no país.

Luiz Gonzaga Belluzzo, economista que dispensa apresentações, entende que a coluna tratou de “questões cruciais” e fez as observações abaixo sobre câmbio-juros na configuração da política monetária.

As condições monetárias nos países desenvolvidos - particularmente nos EUA, o gestor da moeda de reserva - determinam o volume de capitais que procuram os mercados emergentes. Às políticas econômicas “internas” cabe o papel de buscar relações entre câmbio e juros atraentes para os capitais em movimento.

Ganho de Lula tende a arrefecer em 2026, por Christopher Garman

Valor Econômico

Politicamente, o que mais fará diferença para o governo Lula é um cenário externo que facilite uma queda dos preços domésticos, particularmente de alimentos

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz pronunciamento em rede nacional de rádio e TV (17/07) sobre o "tarifaço" de Trump — Foto: Reprodução

O Palácio do Planalto tem visto a tarifa imposta pela Casa Branca sobre as exportações brasileiras como uma excelente oportunidade política. Evidentemente, há preocupações com as consequências econômicas de um acirramento do conflito entre Brasil e EUA, mas já está claro que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem colhido benefícios junto à opinião pública.

AtlasIntel e Genial Quaest já registraram uma alta de três a cinco pontos percentuais na aprovação do presidente Lula (de 45% para 50%, e de 40% para 43%, respectivamente). Esse movimento pode ser parcialmente explicado pela queda na inflação dos alimentos — mas, principalmente, pelo embate com o governo de Donald Trump. O fenômeno tem precedentes: as aprovações dos governos do Canadá e do México subiram depois que Trump elevou as tarifas sobre ambos; alguns países da Europa viveram situações semelhantes. Tanto lá fora quanto aqui, eleitores veem as medidas norte-americanas como injustas, o que acaba inflando o nacionalismo contra uma ameaça externa.

Chama o Centrão! Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Dino acerta no conteúdo, mas joga o Centrão contra o governo, no IR e na CPMI

Fundamental na disputa acirrada entre os dois lados da polarização nacional, o Centrão se descola aos poucos de Jair Bolsonaro, mas não na direção de Lula. Fica a meio caminho, com seus partidos e líderes divididos, uns observando, outros para lá ou para cá e vários já torcendo por Tarcísio de Freitas em 2026.

O grande teste para a articulação política de Lula e para se saber qual a tendência majoritária do Centrão será nesta última semana do Congresso, antes do julgamento de Bolsonaro no STF pela trama do golpe de Estado. No foco, duas pautas essenciais para o governo: a CPMI do INSS e a isenção do IR até R$ 5 mil de renda.

Exercícios de poder, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Hugo Motta, ex-presidente em atividade, quer unir a Câmara. Melhor ser expresidente em atividade – servindo à manipulação dos liras – que ex-presidente apenas, devolvido à condição essencial de vereador federal. Adie-se ao máximo o reencontro com a natureza. O Hugo Motta de Ciro Nogueira não quer voltar a ser Hugo Motta somente. Não tão depressa.

Recorrerá para tanto a uma pauta corporativista – corporativista sendo a razão de seu mandato à frente da casa do povo: garantir os bilhões em fundos orçamentários cuja propriedade, na forma de emendas, o Legislativo converteu em direito adquirido.

A reprodução da desigualdade, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

Estamos empobrecendo em relação ao resto do mundo e tendo a renda mais concentrada. É uma combinação inquietante

De tão persistentes, nossos dilemas sociais, econômicos e políticos não mais enternecem parte dos brasileiros, conformada com situações que, embora anormais, passou a considerar naturais. Mas certas questões deveriam nos comover.

Coautor, com Fillipi Nascimento, do livro A Loteria do Nascimento (Editora Jandaíra), lançado na semana passada, o economista e pesquisador do Insper Michael França concluiu, por exemplo, que, ao contrário da ideia predominante de que as desigualdades resultam basicamente de um sistema educacional de baixa qualidade, as condições de nascimento afetam mais a vida das pessoas.

A moderna Doutrina Monroe, por Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo

O intervencionismo norte-americano na América Latina começa a submeter os países a pressões que violam sua soberania

Está em execução a estratégia do governo Trump para a América Latina anunciada, em termos genéricos, pelo secretário de Defesa como o “quintal” dos EUA, onde “os países deverão optar entre os EUA e a China”, como afirmou o presidente norte-americano.

Ao lado da firme oposição aos governos de esquerda no hemisfério (Cuba, Venezuela, Nicarágua, Colômbia, Chile e Brasil), o Departamento de Estado, chefiado por Marco Rubio, senador da Flórida, ultraconservador e primeira geração de cubanos que saíram de Cuba, está tomando medidas concretas para fortalecer os governos de direita (El Salvador, Paraguai, Argentina e agora a Bolívia) e tentar reverter a tendência pendular de governos de esquerda na região para influir nas eleições para eleger governos alinhados às políticas de Washington, “para construir um hemisfério mais seguro, mais forte e mais próspero”.

Trump sugere que americanos talvez gostem de "um ditador"

Por Correio Braziliense

Antes de ganhar seu segundo mandato, o magnata republicano havia antecipado que seria um "ditador desde o dia um"

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que talvez os americanos gostassem de ter um ditador, após assinar ordens que endurecem a repressão federal em Washington e permitem processar quem queimar a bandeira do país. Em um evento de mais de uma hora no Salão Oval, o republicano reclamou que nem a mídia nem seus críticos lhe reconhecem mérito suficiente por sua ofensiva contra o crime e a imigração, agora apoiada pela Guarda Nacional.

"Eles dizem: 'Não precisamos dele. Liberdade, liberdade. É um ditador. É um ditador'. (Mas) muita gente diz: 'Talvez gostemos de um ditador'", comentou Trump à imprensa. Em seguida, moderou suas palavras: "Não gosto de ditadores. Não sou um ditador. Sou um homem com grande senso comum e uma pessoa inteligente". Antes de ganhar seu segundo mandato, o magnata republicano havia antecipado que seria um "ditador desde o dia um".

Os inconformados se mudam, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Se abandonarem a CPI mista do INSS, governistas entregarão o governo às fabulações bolsonaristas

Senadores experientes estão inconformados com a rasteira da oposição na perda do comando da CPI mista do INSS e por isso querem deixar a comissão.

Demonstram aí que não sabem brincar e, assim, não deveriam descer ao play, como reza um dito para mau perdedor. O governo está mal-arranjado com aliados desse tipo, que o deixam na mão na hora da adversidade.

Não querem compactuar com o que veem como jogo de cartas marcadas para atribuir ao Planalto a responsabilidade pelas fraudes. Esta, realmente, é a ideia dos oposicionistas, que se ficarem livres para agir alcançarão o intento.

É possível uma direita não bolsonarista? Por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Sonhar é fácil; a realidade da opinião pública é que se mostra mais inflexível

Na corrida presidencial de 2026, o momento não parece muito bom para a direita. Lula, que estava nas cordas na primeira metade do ano, voltou ao jogo.

Já Bolsonaro está especialmente tóxico. Seus filhos xingam os governadores —a melhor chance de anistiar seu pai—, que precisam engolir cada insulto calados, receosos de perder o apoio de Jair. Ao mesmo tempo, para conseguir essa benção, cada um deles precisa prometer a anistia caso seja eleito. Ocorre que uma maioria do eleitorado diz que não votará em quem prometer a anistia. Some-se a isso a rejeição a Bolsonaro, que tende a aumentar caso Trump escale as punições ao Brasil —coisa que Eduardo Bolsonaro promete e celebra.

Tudo isso é verdade e pesa sobre os presidenciáveis de direita. E, no entanto, mesmo assim, outro dado se impõe: sem o apoio de Bolsonaro, nenhum deles irá para o segundo turno. A conclusão, assim, é que aceitar essas e outras indignidades é o preço para se ter alguma chance de vencer a eleição em 2026. Ou será que não?

Evangélicos abandonam Malafaia? Por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Deputado da Assembleia de Deus defende Alexandre de Moraes e diz que pastor bolsonarista deseja ser preso

Está em curso uma disputa sucessória para substituir o pastor Silas Malafaia como a voz e a consciência política dos evangélicos? Um outro pastor de direita o criticou publicamente por se apresentar como alguém perseguido por suas crenças.

Após depor na Polícia Federal, Malafaia voltou a chamar o ministro Alexandre de Moraes de ditador e insistiu que não teme ser preso. Convidado para repercutir o caso, o deputado federal Otoni de Paula, que é pastor da Assembleia de Deus, defendeu que o ministro do STF pode ser criticado, mas não por atacar uma religião.

A liquidação de Cláudio Castro, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Para prover a caixinha da campanha ao Senado, governador quer negociar até o terreno onde fica a delegacia do Leblon

Em 2021, o ex-ministro Paulo Guedes planejou arrecadar R$ 110 bilhões com leilões de imóveis. Um feirão de oportunidades, do tipo "o gerente enlouqueceu", com 55 mil prédios, tudo realizado 100% online e com a rapidez de quem rouba. Estávamos na época – lembram-se? – de passar a boiada. Apenas no Rio cerca de 2.000 propriedades do funcionalismo federal, entre as quais o Palácio Capanema, foram liberadas para imediata alienação. O objetivo era claro: prover a caixinha da campanha à reeleição de Bolsonaro.

Brasil: da herança colonial à transformação necessária, por Cláudio Carraly*

"A história não se repete, mas rima" - dizia Mark Twain. No Brasil, ela ecoa por séculos. Quando um jovem negro tem 2,5 vezes mais chances de ser assassinado que um jovem branco, quando 1% dos proprietários rurais detém metade das terras cultiváveis, quando 33 milhões passam fome num dos maiores exportadores de alimentos do mundo, não são coincidências. São cicatrizes vivas de escolhas históricas que se perpetuam porque alguém se beneficia delas.

Em 1888, a abolição da escravidão fez os ex-proprietários perderem patrimônio equivalente a duas vezes o PIB da época. Essa elite não "aceitou" a mudança, se reorganizou. A Lei de Terras de 1850 garantira que só quem tinha dinheiro comprasse terras. Imigrantes europeus vieram com subsídios estatais. Aos ex-escravizados sobrou a "liberdade" de morrer de fome ou aceitar trabalhos insalubres e com remuneração degradante. Não foi acaso. Foi projeto.

Poesia | O Constante Diálogo, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Trio Amadeus à Luz de Velas - Céu de Santo Amaro (J.S. Bach, Flávio Venturini)