terça-feira, 14 de julho de 2009

A África é aqui

Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - É triste verificar que pedaços da exortação à África feita no sábado pelo presidente Barack Obama se aplicam ao Brasil, sem necessidade de reescrevê-los. É a própria essência do discurso que vale para o Brasil ("a África não necessita de homens fortes, necessita de instituições fortes").

Vale também a sua definição de que, "no século 21, instituições transparentes, capazes e confiáveis são a chave para o sucesso -parlamentos fortes, forças policiais honestas, juízes independentes, uma imprensa independente, um setor privado vibrante, uma sociedade civil".

"São essas coisas -disse ainda o presidente- que dão vida à democracia, porque é o que importa na vida cotidiana das pessoas."

Temos instituições transparentes, capazes e confiáveis? Só o mais ufanista dos ufanistas dirá que sim.

Temos um parlamento forte?

Não parece exagero dizer que os ativos do Brasil neste princípio do século estão mais, muito mais, na sociedade civil do que nas instituições públicas.
É claro que há, sim, juízes independentes, mas alguém aí é capaz de jurar que o Judiciário é transparente, capaz e confiável?

Do que se trata é de instituições fortes, não de personalidades de exceção em um panorama que, no geral, é bastante medíocre.

Construir instituições fortes é a tarefa que o Brasil precisa começar a executar com a maior urgência.

Passou a fase de redemocratização, vencida aliás com certo garbo. Passou a fase de estabilização da economia, igualmente superada com competência, depois de décadas em que a inflação parecia ser uma característica tão permanente do país como o sol ou a lua.

Não é missão para um só partido, um só poder, um só pensamento.

Tampouco é tarefa simples. Mas é começar já para poder deixar de ser mero mercado emergente e se tornar uma nação decente.

Faltam 3 milhões de empregos

Jean Maninat
DEU EM O GLOBO

Nas ruas da América Latina a crise econômica se define sem ambiguidade: desemprego.

De fato, em 2009 a região deveria criar mais de 3 milhões de postos de trabalho somente para recuperar os níveis do ano anterior.

Mas isto não vai ocorrer.

O grande desafio das economias latinoamericanas frente à crise é produzir empregos. Trata-se de apagar os rastros mais profundos que esta recessão nos deixa, a que golpeia as pessoas e suas esperanças. Além disso, os postos de trabalho são cruciais para restabelecer o consumo e apoiar o círculo virtuoso da recuperação.

Agora que começaram a ser detectados sinais de que a crise poderia ter chegado ao fundo, ou que, ao menos, tenha amainado, esse desafio é ainda mais urgente: segundo estudos da OIT, as crises afetam de maneira instantânea o emprego, mas, quando a recuperação chega, isto demora muito a notarse nos mercados de trabalho. Poderíamos conviver com esta falta de oportunidades de trabalho por mais cinco anos, com ou sem crise.

Quem busca esses milhões de empregos na região? Já sabemos que um número importante de pessoas perdeu o trabalho devido à crise. Além disso, deve-se levar em conta que a cada ano entre 3 e 4 milhões de pessoas se incorporam aos mercados de trabalho regionais, principalmente jovens, para os quais esta crise traduzse em falta de expectativas.

A turbulência que vivemos agita o mundo dos indicadores. As retificações são frequentes. Em todo o caso, os últimos dados disponíveis nos falam de um crescimento negativo em torno de 1,7 por cento na região latino-americana.

Este é o final de um ciclo positivo de cinco anos de crescimento e de queda no desemprego cuja taxa (urbana) agora poderia subir dos 7,5% registrados em 2008 para algo entre 8,7% e 9,1% em 2009, de acordo com um cálculo realizado conjuntamente pela Cepal e pela OIT.

Isso significa que entre 2,8 e 3,9 milhões de pessoas poderiam somar-se às filas de desemprego, que no ano passado já afetava quase 16 milhões de latino-americanos.

Quando se fala de postos de trabalho, atrás dos números sempre há pessoas.

Neste caso, esses números são um insumo poderoso para justificar que as políticas econômicas desta região coloquem a geração e preservação de postos de trabalho como seu objetivo fundamental. Isso, que parece óbvio, nem sempre é assim. Durante anos os esforços se concentraram em outros indicadores, assumindo que o mercado de trabalho reagiria automaticamente, o que, com frequência, não aconteceu. No momento atual, já não existe espaço para essas experiências.

Enfrentar esta crise laboral é a meta fundamental do Pacto Mundial para o Emprego, aprovada por governos, empregadores e trabalhadores de todo o mundo na reunião anual da OIT em Genebra.

Este pacto é um compromisso de buscar o caminho mais adequado com o objetivo de gerar postos de trabalho, redirecionando investimentos, investindo recursos para estimular a economia real, pondo em prática políticas para que as empresas sejam sustentáveis, protegendo as populações mais vulneráveis, recorrendo ao diálogo social para obter acordos, entre outras recomendações.

Na América Latina existem vários países onde se começou a trilhar este caminho. Mas é fundamental não perder de vista o objetivo de gerar trabalho decente, de converter os planos em ações e não nos desviarmos do caminho. Se não tivermos êxito, os que buscam emprego se sentirão frustrados e decepcionados, o aumento da pobreza será notório, a saída da crise poderá ser imobilizada e tudo isto poderia afetar a governabilidade democrática.

Jean Maninat é diretor regional da Organização Internacional do Trabalho para a América Latina e o Caribe.

Atropelado pelos fatos

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Uma a uma, desde as primeiras denúncias ainda no início do ano, o presidente do Senado, José Sarney, perdeu todas as chances que lhe foram dadas para tomar providências e, por demonstração de iniciativa, assumir o controle na administração da crise que assola a Casa.

Negou as evidências, contemporizou com toda sorte de irregularidades, fugiu de suas responsabilidades, anunciou ações inócuas, escorou-se na força política do presidente da República, fez vista grossa a chantagens contra adversários, desconversou o quanto pôde.

Tanto deixou de fazer e por tantas vezes e com tamanha imprudência pôs à prova a própria credibilidade que, junto com as oportunidades de agir, perdeu também a autoridade e a majestade.

Agora é alvo de diversas representações no Conselho de Ética e está em vias de se tornar refém de uma tropa de choque composta por suplentes sem voto, gente de vida pregressa contestada na Justiça e de má fama junto à opinião pública.

Tropa convocada especialmente para impedir que tenha o mandato cassado por quebra de decoro parlamentar.

Nesse quadro é que o presidente do Senado decidiu anular os 663 atos secretos editados ao arrepio do princípio constitucional da publicidade, aplicado a toda ação de natureza pública, cuja existência ele mesmo negara e, depois, atribuíra a meros "erros técnicos".

A despeito da opinião de vários senadores, que defenderam a posição publicamente, Sarney, com o aval da Mesa Diretora, preferiu o estratagema de regularizar a ilegalidade mediante publicação dos atos com data retroativa à época da assinatura. Entre os "direitos" dos beneficiados e o Estado de Direito, a direção do Senado optou por ferir o juramento de cumprir a Constituição.

O recuo de ontem não tem o valor da convicção, porque foi pautado pela necessidade individual de sobrevivência. O respeito à Constituição teria, sim, ficado estabelecido como a real motivação se a anulação tivesse sido ordenada de imediato, por uma questão de princípio.

Tal como se valeu da prerrogativa agora - independentemente de resultados de sindicâncias, pois não são elas que determinam a ilegalidade de atos validados à revelia da lei - o presidente do Senado poderia, e deveria, tê-la invocado a tempo de preservar a própria credibilidade.

Agora, o senador José Sarney não corre, como se diz equivocadamente, atrás do prejuízo. Isso ele fez quando se dispôs a presidir o Senado pela terceira vez, na ilusão de encerrar a carreira política ainda na posse do poder de mobilizar poderes na República.

Constatado o erro de cálculo, Sarney corre mesmo é atrás de obter algum benefício para se distanciar o máximo possível do imenso malefício autoimposto e que o levou ao caminho do declínio humilhante.

Uma tentativa de recuperação de fôlego. Suficiente para organizar a saída, nessa altura já inexorável, mas à qual Sarney gostaria muito ver registrada na companhia do adjetivo "honrosa".

Quartel de Abrantes

Continua tudo como dantes na seara tucana, no que tange à sucessão presidencial. O governador José Serra continua sendo o candidato do PSDB, cuja cúpula continua achando que o melhor plano é a composição partidariamente unitária com o governador Aécio Neves de vice.

A filiação de Itamar Franco ao PPS e, consequentemente, sua integração à aliança de oposição à candidatura patrocinada pelo Palácio do Planalto, é um fator facilitador. O desejo de Itamar de concorrer a uma das vagas de Minas Gerais ao Senado "empurra" Aécio para mais perto da solução puro-sangue.

Itamar tem, por isso, recebido homenagens antes inimagináveis. Como a série de citações ao nome dele na sessão solene no Senado em comemoração aos 15 anos de Plano Real. Nem um só senador tucano se esqueceu de dividir com ele a paternidade do plano.

Lembrança recente, quando passou a ser eleitoralmente conveniente, já que o crédito dado a Itamar jamais ultrapassou o limite do mérito pela nomeação de Fernando Henrique Cardoso para o Ministério da Fazenda.

A boataria sobre a possibilidade de Serra desistir da Presidência e disputar a reeleição por ora é só uma boataria.

Muitíssimo conveniente ao governador de São Paulo que, assim, obtém uma série de vantagens: alivia a pressão dos aliados para entrar em campanha desde já, mantém alto o prestígio de Aécio Neves como possível candidato, reduz a tensão no campo adversário inibindo o início da temporada de ataques e assegura visibilidade às ações administrativas do governo do Estado.

No momento, José Serra não está em dúvida. Se resolver disputar mais um mandato de governador, terá sido uma mudança de posição decorrente não de um dilema do presente, mas de uma alteração das chances reais de vitória, situação que só será examinada de verdade em 2010.

Preço alto

Marcos Nobre
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

DESDE O PRIMEIRO governo FHC, o eleitorado decidiu colocar o PT como um dos polos da política brasileira. Depois do trauma do mensalão, em 2005, Lula decidiu aceitar as regras do jogo postas por seu antecessor. Só que o PT não estava disposto a se tornar um gestor político de tipo tucano e terceirizou a tarefa -para o próprio Lula, no caso.

O arranjo -de psicologia política, por assim dizer- foi então mais ou menos o seguinte. Posto de joelhos depois do mensalão, o PT engoliu tudo o que um Lula em pânico do impeachment lhe enfiou goela abaixo. Ao mesmo tempo em que pôs nas costas de Lula todo o ônus por fazer o jogo mais rés-do-chão da política tradicional, o PT escorou-se na popularidade do presidente e se colocou como vítima fiel do seu necessário pragmatismo da governabilidade.

Afinal, do outro lado estavam os inimigos. E, apesar de tudo, ainda havia espaços de poder para implementar algumas das bandeiras tradicionais do partido. E, não menos importante, o presidente é o mais popular da recente história democrática. Negócio bom para os dois lados.

Até que Lula resolveu inventar uma candidata quase três anos antes da eleição presidencial, instalando uma confusão no sistema político como raras vezes se viu. Impôs sem discussão o nome ao PT.

Insistindo em um nome desconhecido, Lula deu a senha para o PMDB cobrar -e conseguir- um preço cada vez mais exorbitante pelo seu apoio. Que, aliás, vale só tempo de TV e olhe lá.

Quando foi anunciada a doença de Dilma Rousseff, subiu mais uma vez o preço. A irresponsabilidade máxima de Lula de dizer que a ministra "não tem mais nada" teve como contrapartida política nada menos do que a imposição ao PT da defesa de Sarney.

É verdade que, entre outras malfeitorias, a bancada do PT no Senado -com honrosas exceções- tinha já no seu currículo a salvação de Renan Calheiros da cassação.

Mas 2007 já vai longe. E a defesa de Sarney agora não vai passar em brancas nuvens para o eleitorado em 2010.

Foi por isso que Lula teve de intervir e cobrir o presidente do Senado com seu manto de popularidade redentor. Um pedido, aliás, do próprio PT para poder fazer vista grossa para a baixaria generalizada -de que não escapam integrantes da sua própria bancada no Senado, lembre-se.

Hoje, o PT só vai conseguir manter a pretensão de continuar a ser um dos polos da política brasileira se confrontar Lula. Porque sua posição no momento é a de pagar por Lula a conta da chantagem a que o próprio presidente decidiu se expor. E a conta não vai parar de subir.

Um símbolo sob suspeita

Raymundo Costa
DEU NO VALOR ECONÔMICO


O governo encontrou a fórmula para instalar a CPI da Petrobras, impedir que ela funcione e ainda assim não desafiar o Supremo Tribunal Federal (STF), que já consagrou em jurisprudência: a instalação de comissões parlamentares de inquérito é um direito da minoria.

Se dependesse só do governo, do PT e dos partidos aliados, a CPI não seria instalada. Mas não houve quem demovesse o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) da ideia de recorrer ao Supremo. Consultado informalmente, o STF respondeu por gestos e sinais de fumaça que atenderia o pedido da oposição.

No histórico das CPIs, descobriu-se que a dos Correios (mensalão) foi instalada pelo decano dos seus integrantes (à época o senador Jefferson Peres, morto em 2008), mas só depois de algum tempo começou a funcionar efetivamente, com a eleição do presidente e a designação do relator
Consultado, o senador Delcídio Amaral (PT-MS) descreveu como se deu todo o processo protelatório que culminou com uma eleição entre ele e o senador César Borges, do Democratas.
Vencedor, coube a Delcídio, como presidente, designar o relator da CPI - Osmar Serraglio (PMDB-PR).

A ideia agora é que o senador Paulo Duque (o decano dos senadores indicados) convoque a reunião, mas não se faça a eleição de presidente e a designação do relator. Isso ficaria para depois do recesso, e o funcionamento da CPI passaria a depender então do clima político de agosto.
Trata-se de um mês que não carrega boas lembranças para a política brasileira, mas o governo está confiante na política de redução de danos que traçou enquanto se discutia a instalação da CPI, lá se vão dois meses desde o requerimento de Dias.

O Palácio do Planalto se preparou para o confronto, mas também manteve discretos contatos com os mais importantes líderes da oposição, particularmente do PSDB. Na área dos patrocínios, como aquele feito à Fundação José Sarney, o "banco de dados" governista, como diria a ministra Dilma Rousseff, também está pronto.

Num levantamento preliminar, descobriu-se que a Petrobras fez menos patrocínios no governo Lula do que durante o período de governo tucano - o que é óbvio, pois a comparação é de oito anos (FHC) com seis anos e meio (Lula). Pode pegar algum deputado do PT? Pode, mas sem causar maior estrago político, segundo se crê nos meios próximos ao presidente Lula.

O governo insiste que o caso de Sarney é exemplar: a Petrobras fez um contrato com uma ONG de um ex-presidente da República, nos termos da legislação (Lei Rouanet), e que nunca poderia imaginar que o dinheiro pudesse ser desviado.

O governo entra em "alerta amarelo" se a CPI, caso seja instalada, passar a se imiscuir em contratos, sobretudo internacionais, de modo a tirar vantagem eleitoral. Para este caso, está prontinho um discurso nacionalista de defesa da estatal. A idéia é deixar a oposição em maus lençóis, como deixou Geraldo Alckmin nas eleições de 2006, quando encurralou o candidato tucano com a acusação de que ele, eleito, venderia Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Petrobras.

Aliados do governo dizem que só quem já trabalhou na estatal tem noção do que é a Petrobras no inconsciente do brasileiro. O governo imagina que organizações da sociedade civil como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e Associação Brasileira de Imprensa (ABI) sairiam às ruas em defesa da empresa, por exemplo, na hipótese de um contrato internacional não vir a ser assinado - ou suspenso - por causa da CPI.

Em termos políticos, as conversas com os partidos da oposição levaram o governo a crer que a CPI não lhe interessa. Um cacique tucano foi advertido de que eventuais contratempos contratuais da Petrobras cairiam no colo de seus candidatos a presidente, seja ele José Serra, governador de São Paulo, ou Aécio Neves, o governador de Minas Gerais.
Das conversas com aliados e oposição, emissários do governo saíram convencidos de que é mais fácil o PMDB querer instalar e fazer funcionar a CPI para poder negociar posições melhores no governo e na eleição de 2010.

A Petrobras também pressionou fornecedores e prestadores de serviços que costumam financiar as campanhas não só dos candidatos do governo, como também os da oposição.

Quando entra numa conversa com a oposição, o governo sabe que ela terá de mostrar alguma coisa a seu eleitorado, de modo a não parecer que recuou ou que foi derrotada. Provavelmente a cabeça de algum diretor da estatal

Como as denúncias são na área do gerente executivo de Comunicação Institucional da Petrobras, Wilson Santarosa, setores do governo imaginam que ele é "o cara". A Petrobras não quer, mas nunca antes a estatal esteve tão na defensiva como agora.
No que se refere a Sérgio Gabrielli, presidente da estatal, o Planalto não admite sequer que ele sente no banco da CPI. Resta saber com quantos tanques conta a oposição e o que espreita no horizonte o PMDB: a instalação da CPI pode significar o início do fim do governo Lula ou o começo de outro ciclo do PT na Presidência.

Salto alto

O PT se preocupa com o desassombro de Lula. Está certo que os índices de aprovação do presidente são inéditos, à esta altura do governo, quando beiram os 80% da opinião pública. Mas isso não deveria implicar, na opinião de líderes partidários, que ele deixasse de se precaver e tentar não se expor tanto em algumas situações embaraçosas.

Exemplo citado: Lula não tem nenhum cuidado na defesa que faz do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Talvez por se achar blindado por seus índices de popularidade. Petistas acham arriscada a postura do presidente porque interpretam que muitas das denúncias contra Sarney, como a de empregar familiares no Senado, bateram fundo na população.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

Sentimento do mundo

Rubens Barbosa
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Nos últimos 50 anos, os Estados Unidos foram vistos como a "nação líder do mundo livre", por muitos que aceitavam essa liderança, ou como "imperialista" - impondo a sua vontade, escorada no poderio econômico, financeiro ou militar -, segundo os que contestavam a hegemonia de Washington.

O arrogante unilateralismo norte-americano, respaldado pela mais poderosa máquina de guerra jamais construída e pelas vantagens da globalização financeira, econômica e comercial, fez os Estados Unidos perderem a credibilidade e o respeito no concerto das nações, ao longo dos últimos dez anos.

Isolados, os Estados Unidos passaram a concentrar críticas quase universais e tiveram de absorver os custos de uma guerra impopular no Iraque, além do desgaste, sobretudo, em razão das posturas ideológicas de extrema direita adotadas por um dos piores governos da história política norte-americana. Ao mesmo tempo, a situação econômica interna continuou a se deteriorar e os múltiplos déficits na economia, a aumentar. A crise que hoje tanto afeta os mercados no mundo inteiro surgiu nos Estados Unidos, que, abalados econômico-financeira e politicamente, lutam para controlar a recessão e diminuir o desemprego e as perdas da classe média.

O esforço para recuperar a economia pôs em segundo plano as preocupações do país com sua política externa, tornando difícil que os Estados Unidos possam exercer, nos dias de hoje, uma liderança efetiva para a solução de alguns dos principais conflitos globais. Os grandes problemas ou se agravam, como no Paquistão, no Irã e no conflito Israel-Palestina, ou se paralisam, como nas reformas das instituições político-financeiras, herança do pós-guerra, como a das Nações Unidas, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial.

Apesar de tudo, os Estados Unidos continuaram no centro dos acontecimentos globais.

É curioso notar o teste por que passa a teoria, comum nos meios políticos e acadêmicos norte-americanos, segundo a qual o mundo, para se manter estável e avançar economicamente, necessitaria sempre da liderança do país mais importante e poderoso da época, como foi a Inglaterra e, agora, os Estados Unidos. Contestada pela recusa de muitos em aceitar a hegemonia de Washington, a comunidade internacional enfrenta o desafio de demonstrar que a teoria é equivocada e que grandes decisões podem e devem ser tomadas como resultado de um esforço coletivo, e não da vontade da mais poderosa das nações.

A ironia em tudo o que estamos vendo acontecer é que nunca, nos últimos 50 anos, a potência dominante se viu tão vulnerável e enfraquecida, enquanto a maioria dos países tanto dela depende para o fortalecimento da economia e para a busca de soluções negociadas para os principais problemas políticos, econômicos e financeiros globais.

Estamos num período de transição e de paralisia no cenário internacional - um mundo sem liderança -, em que países desenvolvidos e em desenvolvimento ficam à espera da recuperação da economia norte-americana para evitar uma recessão mais forte e da restauração da credibilidade de sua política externa. Temo que esse impasse ainda perdure pelos próximos dois ou três anos.

Nenhum país está equipado para assumir o papel de liderança desempenhado até aqui pelos Estados Unidos. Nem a China, a União Europeia ou os países emergentes.

Apesar de tudo e de todas as restrições políticas aos Estados Unidos, muitos governos estão ajudando o país a buscar soluções para a crise de sua economia. Os recursos - estimados em US$ 2 trilhões - necessários para financiar o déficit orçamentário americano no corrente ano estão sendo fornecidos, entre outros, por países como a China e o Brasil, não exatamente seguidores incondicionais de Washington.

Pode parecer uma afirmação difícil de aceitar por muitos, mas o fato é que, em certo sentido, jamais tivemos um mundo mais unipolar do que agora.

O mundo esperou ansioso pelos primeiros discursos de Barack Obama para entender os rumos da política externa dos Estados Unidos no tocante ao Oriente Médio, às relações com a Europa, com a América Latina, com a África, com a China e com a Coreia do Norte. Como será a atitude em relação aos extremismos (a palavra terrorismo não foi utilizada no pronunciamento do Cairo sobre a relação com o Islã) e à não-proliferação de armas nucleares?

A volta do crescimento econômico, a restauração do crédito internacional, a revitalização do comércio global, a questão do nacionalismo econômico e o protecionismo comercial na área econômica, a reestruturação do processo decisório global, político e econômico, financeiro e comercial, a forma de evitar novos conflitos externos e o equacionamento dos atuais, tudo depende da ação dos Estados Unidos. Seja ela positiva ou negativa.

Os países terão de encarar o papel dos Estados Unidos no mundo a partir de como eles emergirão da crise que está afetando todos e da reação de Washington às novas realidades políticas e econômicas. Como "o resto do mundo" vai reagir quando os Estados Unidos ressurgirem da crise relativamente ainda mais fortes?

Sabendo como os Estados Unidos colocam o interesse nacional acima de tudo, no momento em que a situação econômica se normalizar, a probabilidade é de que o poderio de Washington volte a ser exercido, com estilo e tom diferentes. Os sinais, até aqui, são positivos, como indicam as reações de Washington em relação ao Iraque, ao Irã e, agora, a Honduras. As propostas do USTR para a retomada das negociações de Doha e alguns aspectos da nova política sobre mudança de clima são mais negativos.

Tendo só duas mãos e o sentimento do mundo, esperemos que, diferente de Drummond, ao amanhecer de uma nova era pós-crise, "esse amanhecer não seja mais noite que a noite".

Rubens Barbosa, consultor de negócios, é presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp

Queda real

Miriam Leitão
DEU EM O GLOBO


A ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira não caiu por apenas um motivo. O órgão já está sob intervenção da Secretaria Executiva do Ministério da Fazenda há muito tempo, e tem sido paulatinamente esvaziado. O caso Petrobras está se tornando um manual do que não se deve fazer no setor público do país. Nada disso será resolvido com a retirada da secretária.


A reclamação, que não foi feita publicamente, mas que chegou aos jornais, é que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, estaria irritado com o fato de não ter sido informado do caso Petrobras antes que saísse na imprensa, já que ele é membro do conselho de administração da empresa. Ora, este era mais um motivo pelo qual a Receita não deveria mesmo ter comunicado nada ao ministro.

Se o fizesse, estaria consagrado que a Petrobras é um contribuinte diferente dos outros porque a Receita tem que consultar o ministro antes de tomar qualquer decisão a respeito; como Mantega também é membro do conselho de administração da estatal, a questão fica ainda mais delicada.

Exatamente por ter os dois chapéus, o ministro não deveria querer saber coisa alguma sobre a empresa.

A atuação da Receita Federal no caso Petrobras foi opaca, somente para usar uma palavra mais doce. Ela soltou uma nota deixando claro que condenava a opção da empresa pela mudança de regime tributário, mas depois disso nada mais fez.

Disse isso através de uma nota, que se seguiu à divulgação da reportagem do GLOBO sobre a redução do imposto em mais de R$ 4 bilhões pela mudança do regime fiscal. A empresa define como “erro técnico” dizer que ela deixou de pagar imposto; ela teria apenas se creditado por ter pago a mais no antigo regime fiscal.

Mas o que a Receita disse na nota divulgada na ocasião é que o contribuinte não pode fazer essa alteração no meio do exercício.

Se não podia, passou a poder, porque a Petrobras não foi chamada até hoje para se explicar; e agora a secretária caiu. Pior, como a declaração do Imposto de Renda Pessoa Jurídica foi adiada pela Receita — fato que não acontecia há mais de uma década — a Petrobras nem apresentou sua declaração.

Como, aliás, nenhuma empresa. Normalmente o prazo era 30 de junho.

Tudo o que se sabe até agora veio a público por meio de fontes oficiosas, porque oficialmente o Ministério da Fazenda não esclarece o que afinal de contas está acontecendo. Pode haver motivos para demitir um funcionário, mas demitilo pelo fato de ele — no caso, ela — não dar um tratamento privilegiado a um contribuinte como a Petrobras é espantoso.

A Receita está funcionando mal e isso não tem a ver apenas com a secretária que sai. Ela está sendo perigosamente politizada e esvaziada nos últimos anos. E fazer isso com o Fisco pode ser construir as bases de uma crise duradoura. Os auditores têm que ter ambiente para fazer seu trabalho; os técnicos têm que focar no mais importante que é arrecadar, em vez de dividir-se em grupos e facções com rivalidades alimentadas pelas próprias autoridades. E simplesmente o órgão não pode ser esvaziado por decisão de quem está na administração pública temporariamente.

A Receita Federal permanece lá e o país precisa que ela funcione corretamente, sempre.

A arrecadação tem caído porque a economia está sofrendo com a crise; porque têm sido concedidas muitas desonerações para os setores que têm mais poder de pressão; porque o comando da Receita Federal foi dividido e as ordens passaram a ser ambíguas.

Mesmo assim, há quem faça outras contas. Entrevistei o presidente do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), Gilberto Luiz do Amaral, e o economista Alexandre Marinis, da Mosaico consultoria política, na semana passada pela GloboNews, e ambos disseram que a receita líquida do Governo Central não está em queda.

Receita líquida é a arrecadação que fica para a União depois do repasse feito a estados e municípios. Ela estaria se mantendo praticamente estável em termos nominais de 2008 para 2009, mesmo com a crise.

Gilberto Amaral afirmou que do ponto de vista da arrecadação da Receita, não há nenhum motivo para a saída de Lina Vieira. Pelo contrário, ela teria tentado implementar um programa de centralização da fiscalização.

Além disso, teve uma preocupação maior com o atendimento ao contribuinte nas delegacias do órgão.

— A queda da arrecadação da Receita está relacionada à crise econômica e não a problemas de gestão no órgão — afirmou.

Alexandre Marinis afirma que de janeiro a maio houve uma retração de apenas 0,2% em relação ao mesmo período do ano passado na receita líquida nominal do Governo Central: R$ 234,9 bi em 2008 contra 234,5 bi em 2009. A propósito, parte desse resultado é o aumento dos repasses de dividendos feitos pelas estatais. As contas públicas estão se deteriorando porque os gastos estão crescendo. Além disso, todas as previsões de arrecadação foram feitas a partir de um crescimento inflado do PIB deste ano.

Ontem, Mantega afirmou novamente que a economia vai crescer 1%, enquanto o mercado estima retração de 0,34%, como mostrou o Boletim Focus.

Mesmo que a mudança de regime da Petrobras tenha sido legal, ela não é usual e é um sinal de que a empresa está procurando todos os meios possíveis para fazer caixa. Como o governo está conseguindo manter sua receita líquida exatamente extraindo mais das estatais, todo esse imbróglio é no mínimo bizarro.

A Receita está em crise, o caso da Petrobras continua suspenso no ar. As perguntas continuam aguardando respostas.

Nada disso se resolve com a saída da secretária.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil

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"Lamento" (Pixinguinha/Vinícius) - MPB4

Vale a pena ver o vídeo

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http://www.youtube.com/watch?v=azLE4zeJFyg

segunda-feira, 13 de julho de 2009

PENSAMENTO DO DIA - Obama

“Não se enganem: a história está ao lado dos corajosos africanos e não de quem usa os golpes de Estado ou as mudanças constitucionais para ficar no poder. A África não tem necessidade de homens fortes, tem necessidade de instituições fortes.”

(Fonte: L'Unità, 11 de julho de 2009)

A viagem (quase) redonda do PT

Luiz Werneck Vianna
DEU EM GRAMSCI E O BRASIL

Com a expressão “viagem redonda”, metáfora-síntese do seu clássico Os donos do poder, Raymundo Faoro queria aludir às grossas linhas de continuidade que, segundo a sua interpretação, dominavam o processo de formação histórica brasileira da colônia ao nosso tempo. Na sua explicação, tal continuidade se deveria a um fator estruturante desse processo — o patrimonialismo na ordem estatal centralizada —, nunca removido, e que, a tudo superior, se imporia como um desígnio da Providência na reprodução da vida social.

A ação da Providência nos negócios humanos é objeto de um pequeno ensaio de Hannah Arendt, “De Hegel a Marx”, contido em A promessa da política (Difel), em que confronta as posições desses autores sobre o assunto. Neste pequeno e brilhante texto, ela sustenta que só existiria uma diferença essencial entre Hegel e Marx: enquanto Hegel teria projetado sua visão histórica mundial exclusivamente para o passado, deixando sua consumação esbater-se no presente, Marx, contrariamente, a conceberia no sentido do futuro, compreendendo o presente como “simples provedor”.

Transformar o mundo

Não haveria mais porque interpretar o mundo, pois os filósofos, diz Marx na 11ª. tese sobre Feuerbach, já fizeram isso — exemplar a obra de Hegel —, cabendo, agora, transformá-lo. A ação consciente dos homens já não deveria ser prisioneira da Providência, nem vítima dos ardis com que a história parece se voltar contra as intenções dos humanos, tomando rumos que escapariam inteiramente do seu cálculo.

Estes dois registros — o da Providência e o da “vontade política” — parecem oportunos quando se considera a trajetória do Partido dos Trabalhadores (PT), às vésperas de comemorar seus 30 anos, no governo há quase oito, e que ora se credencia para disputar mais uma sucessão presidencial. Com efeito, o PT nasce, no início dos anos 1980, com destino declarado de ser um agente de ruptura com a herança perversa, sempre renovada em nossa história — “os quinhentos anos” perdidos —, a fim de instituir uma nova fundação para o país. O ator, ao recusar os caminhos da Providência, ele próprio se apresentava como providencial. A interpretação do país estaria feita, o que faltava era a vontade política de transformá-lo.


Oito anos incompletos de governo do PT, no entanto, a “viagem redonda” de seis séculos, de João 1º a Vargas, da metáfora de Faoro, parece retomar seu curso, como se o partido assumisse, inconscientemente, a tradição que pretendeu renegar. Sintomático disso, tanto a acomodação do seu sindicalismo às estruturas da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) como sua atual valorização do nacional-desenvolvimentismo, ideologia da modernização brasileira, cuja forma mais bem acabada se encontra nas formulações do Iseb (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), agência de intelectuais criada, ao tempo do governo JK, como lugar de reflexão sobre os rumos a serem seguidos para os fins de desenvolver o país.

O DNA do PT

De batismo, porém, suas marcas de origem são opostas às da sua maturidade, pois o PT vem ao mundo como contestador da modernização à brasileira, centrada no Estado e em suas agências, e, por isso mesmo, um projeto que teria sua origem em terreno externo à sociedade civil e se realizaria sem o seu controle. Nesse sentido, o PT nasce como uma expressão do moderno, personagem da sociedade civil, e que tem como valor a sua autonomia diante do Estado. O Estado, longe de ser o lugar da representação racional da sociedade, significaria o lugar em que os interesses privados dominantes se apresentariam, em nome da modernização, como de interesse público.

Se o DNA do PT traz o registro das lutas operárias dos anos 1970 contra a estrutura corporativa sindical — daí, o motivo principal da sua aversão à era Vargas —, a teoria que vai animar a sua atuação é bem anterior à sua própria fundação, tendo sido desenvolvida, entre meados de 1950 e 1960, nas obras de alguns dos mais importantes intelectuais e cientistas sociais do país, de que são exemplos, dentre outros, Raymundo Faoro, Florestan Fernandes e Francisco Weffort. As afinidades eletivas entre as práticas do PT e o resultado de suas reflexões levaram muitos desses intelectuais, como é conhecido, a se filiarem aos seus quadros. Weffort foi seu secretário-geral, e Florestan Fernandes, influente deputado da sua bancada na Assembleia Constituinte de 1986.

Florestan, um crítico do Iseb, tinha procurado demonstrar que as coalizões pluriclassistas em que se ancorava o projeto da modernização nacional-desenvolvimentista, ao contrário de viabilizar uma emancipação da vida popular do controle exercido sobre elas pelas elites dominantes no comando do Estado, na verdade, o preservava, além de não tornar a sociedade menos desigual. Weffort, compartilhando o argumento com Florestan, assentava sua crítica, no entanto, no terreno especificamente sindical. Segundo ele, a estrutura corporativa sindical fazia o movimento operário refém do Estado e de suas manipulações populistas, levando-os a declinar dos seus interesses classistas e a abdicar da construção de uma identidade própria.

Mas será, sobretudo, nos trabalhos de Faoro que o emergente PT vai encontrar a maior parte das suas escoras intelectuais. Nosso capitalismo, na sua análise famosa, não teria sido obrigado a remover antigas elites para encontrar passagem para sua imposição. Ele teria sido gerado no ventre do patrimonialismo, preservando-se os monopólios administrados pelo Estado ou concedidos por ele, enquanto os interesses privados teriam sido abafados pela ação onipresente das agências estatais na vida econômica e social. Daí teria resultado um capitalismo politicamente orientado, confundidas as esferas pública e privada, não se revestindo a sociedade civil de autonomia diante do Estado.

Névoa estamental”

A forma patrimonial do Estado teria ainda envolvido as relações entre as classes sociais em uma “névoa estamental”, travando o processo de formação de identidades sociais fortes e definidas, raiz da debilidade do nosso sistema de representação política e da usurpação da voz da sociedade civil pelo Estado e sua burocracia. Nesse contexto, os movimentos nacional-desenvolvimentistas, mesmo que de inspiração reformista, ao invés de vitalizarem a sociedade, reforçariam ainda mais a presença do Estado — estado-maior do projeto de modernização — e dos interesses econômicos e socialmente dominantes articulados com ele. Da modernização não deveria provir o moderno, que suporia autonomia dos sujeitos na trama do social, e sim heteronomia.

Com maior ou menor intensidade, essas referências cognitivas sobre o estado de coisas no Brasil vão se instalar no código genético do PT, vindo a se combinar com outras influências culturais. Assim com a incorporação de amplos setores provenientes do mundo da catolicidade, avessos à cultura material, e com a de numerosos segmentos da esquerda com história de resistência armada ao regime militar. A presença da esquerda católica trouxe consigo uma valorização da “alma do povo”, da espontaneidade de suas manifestações, e da autenticidade da vida popular, orientações que se demonstraram eficazes no estímulo a vários movimentos sociais, apesar do sentimento negativo que portavam quanto à política e suas instituições.

Com essa configuração heteróclita, sua opção estratégica foi a da conquista do governo — e não do Estado — pela via eleitoral. Contudo, em razão da interpretação que lhe servia de norte, o PT recusava-se a alianças com outros partidos, chegando a negar o seu palanque eleitoral a Ulysses Guimarães, líder das oposições brasileiras ao regime militar, no segundo turno da sucessão presidencial de 1989. Após a terceira tentativa de vencer a sucessão presidencial, essa política mostrou seus limites, e não à toa, em 2002, o empresário José de Alencar veio a integrar a chapa de Lula.

A ida ao centro político, movimento bem-sucedido com a vitória eleitoral, implicou uma inflexão de largo alcance. A conquista do governo não seria compreendida como recurso tático para uma posterior conquista do Estado, em uma trajetória de revolução permanente. O ator declinou do papel de herói providencial e adaptou-se às circunstâncias, com uma forte representação de empresários nos ministérios e a direção da vida econômica entregue a operadores merecedores da confiança do mercado.

História absolvida

Mas, o centro político não se constitui apenas de personagens sociais e políticos. É também uma história e um denso repertório de temas, entre os quais o do papel ativo do Estado na construção do país. Tal mudança de orientação, como natural, não se limitou a repercutir no plano superficial da política, implicando uma revisão nos juízos predominantes no governo do PT sobre o nosso passado, sobretudo no segundo mandato presidencial de Lula, em particular quanto aos governos Vargas e JK. A história do Brasil foi absolvida. Valorizam-se as agências estatais — BNDES, Banco do Brasil, Petrobrás, Caixa Econômica Federal — no papel de indutoras do desenvolvimento econômico, e, com o lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o governo se põe à testa de um projeto de modernização.

Mais que mudanças tópicas ou de ênfase, é toda uma forma de Estado que ressurge, em particular no novo papel concedido às corporações e à representação funcional, evidente nas funções delegadas ao Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). O Estado se amplia com a incorporação de representantes das entidades classistas de empresários e de trabalhadores, e são guindadas à condução de ministérios estratégicos as lideranças das múltiplas frações da burguesia brasileira — a industrial, a comercial, a financeira, a agrária, inclusive estes culaques à brasileira, que começaram a sua história na pequena e média propriedades —, lado a lado com as centrais sindicais e com os representantes do Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST).

Sob essa formatação, instituiu-se um Estado de compromisso entre classes e frações de classes com interesses contraditórios entre si, que passam a ser processados no interior do governo e arbitrados, em casos de litígio, pelo vértice do poder executivo em estilo decisionista. Tem-se, então, no âmbito do Estado a presença de um parlamento paralelo, à margem do sistema da representação política, onde se delibera sobre políticas e se decide sobre a sua implementação. Os conflitos de interesse, na lógica dessa construção, não deveriam se expressar no terreno aberto da sociedade civil, quando tendem a se encontrar com os partidos e as correntes de opinião, e sim restritos a negociações realizadas no interior de agências estatais, evitando-se, desse modo, uma radicalização que viesse a comprometer a difícil convivência entre contrários na fórmula vigente do Estado de compromisso.

O Estado como condomínio aberto a todas as classes traz também para si os movimentos sociais, como os de gênero e os de etnia. Articula-se igualmente com as Organizações Não Governamentais (ONGs), boa parte delas dependentes do seu financiamento, e, por meio de programas de assistência social, como o bolsa-família, vinculam-se diretamente os setores socialmente excluídos. Dessa complexa articulação, apequena-se o espaço para o exercício da política a partir das motivações e expectativas da sociedade civil, inclusive por parte dos partidos políticos, convertidos em partidos de Estado, destituídos de relações vivas com seus representantes. Na prática, a política se reduz a ser mais outro monopólio do Estado, e o fluxo da sua comunicação parece conhecer apenas um sentido: o de cima para baixo.

As forças que deveriam trazer a descontinuidade se tornam as portadoras da continuidade, trazendo de volta a lógica política dos processos de modernização. Com eles, os imperativos de aceleração do tempo, a via de mudanças guiadas pelo alto e a subsunção do social ao Estado. Dessa vez, porém, a modernização não nos chega de um projeto previamente amadurecido na reflexão e nos embates político-ideológicos, mas dos acidentes do caminho.

Adaptação às circunstâncias

Nos idos de 2003, havia a alternativa da mobilização social de um governo que vinha da esquerda em torno de um programa de reformas políticas, sociais e econômicas, cujo alcance poderia experimentar um leque de possibilidades entre soluções moderadas ou radicais. As radicais, de pronto, no contexto da época, pareciam apontar para uma crise institucional que poderia inviabilizar o cumprimento do mandato. As moderadas, por sua vez, desagradando a gregos e a troianos, comprometeriam a conquista de um segundo mandato.

A opção, como se sabe, foi a adaptação às circunstâncias, garantindo-se uma linha de continuidade com o governo anterior. O êxito imprevisto desse movimento, ao garantir a estabilização do governo, concedeu-lhe o tempo para que, por ensaio e erro, viesse a experimentar, e logo a praticar com evidente sucesso, o antigo repertório da tradição republicana brasileira, e nele os temas do nacional-desenvolvimentismo, do Estado como agente de indução de economia, o papel das estatais e das corporações sociais.

Faoro talvez pudesse dizer que esse movimento de encontro do PT com um capitalismo politicamente orientado não teria sido mais uma “mistificação de cúpula”, uma vez que persistiam as estruturas garantidoras da sua reprodução. A história não deixou de ser irônica quanto ao ator que não soube interpretá-la, e que, vindo do campo do moderno, fez ressurgir a modernização, muitos dos seus personagens e de suas instituições.

De qualquer forma, este ciclo de modernização sob a condução do governo do PT, embora revele, ao tempo em que a consolida, a mesma assimetria nas relações entre o Estado e a sociedade civil nos processos desse tipo, é o mais brando, quanto ao uso de meios repressivos, entre quantos conhecemos desde o Estado Novo — no governo JK, lembre-se, os sindicatos estavam sob estrita vigilância do Estado, e os trabalhadores do campo viviam sob forte controle social dos proprietários de terras.

Na periferia do mundo são perturbadoras as relações entre o moderno e a modernização. Se esta, da perspectiva de uma agenda democrática, não pode implicar o rebaixamento da autonomia dos seres subalternos, aquele não pode se limitar aos planos cognitivo e ético-normativo, indiferente às questões substantivas. Mas é um argumento senil, anacrônico, o que tergiversa sobre os valores da democracia, da auto-organização do social, e da autonomia do indivíduo em nome de alegadas urgências da questão social. Onde isso prevaleceu — a história, aí, não é irônica —, não se teve nem o moderno nem a modernização.

Luiz Werneck Vianna é professor do Iuperj e autor, entre outros, de Esquerda brasileira e tradição republicana (Revan).

Reconstruindo algo melhor

Barack Obama
The Washington Post
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Meu governo tomou posse há quase seis meses, em meio à mais severa desaceleração econômica desde a Grande Depressão. Na época, em média, 700 mil postos de trabalho eram eliminados por mês. Muitos temiam que o nosso sistema financeiro estivesse à beira do colapso.

A ação rápida e agressiva que tomamos nos primeiros meses de governo ajudaram a tirar nosso sistema financeiro e nossa economia daquela situação. Medidas foram implementadas para retomar os empréstimos para famílias e empresas, estabilizar nossas maiores instituições financeiras e ajudar os proprietários de imóveis a permanecer em suas casas e resgatar suas hipotecas.

Aprovamos também o mais vasto plano de recuperação econômica da história do nosso país. A Lei de Reinvestimentos e Recuperação Americana não teve por pretensão restaurar a a plena saúde da economia, mas fornecer o impulso necessário para impedir a queda livre. Até agora, é o que tem ocorrido.

Desde o início, é um programa para durar dois anos, que deverá poupar e criar empregos. Precisamos permitir que esse plano funcione da maneira prevista, tendo consciência de que, em qualquer recessão, o desemprego tende a se recuperar mais lentamente do que outros elementos da atividade econômica.

Estou certo de que os Estados Unidos resistirão a esse vendaval econômico. Mas, quando limparmos os destroços deixados por ele, a questão real é o que vamos construir no lugar. Mesmo quando salvamos a economia de uma crise total, eu insisto que é preciso reconstruí-la melhor do que antes. Porque, se não aproveitarmos este momento para enfrentar as fragilidades que vêm assolando a nossa economia há décadas, estaremos relegados, nós e nossos filhos, a crises futuras, um crescimento lento, ou ambos.

Algumas pessoas afirmam que devemos esperar para enfrentar nossos grandes desafios. Defendem um enfoque incremental, ou acham que não fazer nada é, de alguma maneira, uma resposta. Mas foi exatamente esse modo de pensar que nos levou a essa situação tão drástica. Ignorar os grandes desafios e adiar as decisões mais difíceis é o que Washington tem feito há décadas, e foi precisamente isso que eu quis mudar ao candidatar-me à presidência.

Este é o momento de criarmos uma base mais forte e mais firme para o crescimento, que não só vai resistir a futuras tempestades econômicas, mas vai também nos ajudar a prosperar e competir numa economia global. Para criar esse alicerce, temos de diminuir os gastos com a assistência médica, que estão nos endividando, criar os empregos do futuro dentro das nossas fronteiras, dar aos nossos trabalhadores a competência e o treinamento que precisam para competir por esses empregos, e adotar medidas duras, porém necessárias, para reduzir nosso déficit no longo prazo.

Já estamos avançando na reforma do sistema de saúde, para controlar os gastos, mas, ao mesmo tempo, garantindo que escolha e qualidade sejam básicos, além de uma legislação cobrindo a área energética, que vai tornar a energia limpa num tipo de energia lucrativa, conduzindo a novas indústrias e empregos que não podem ser terceirizados.

Esta semana, começamos a debater como dar aos nossos trabalhadores as qualificações que precisam para competir por esses empregos do futuro.

Numa economia em que aqueles empregos que exigem no mínimo um bacharelado de dois anos vão crescer duas vezes mais rápido do que os que não exigem nenhum curso superior, nunca foi tão importante continuar os estudos e a especialização depois da escola secundária. É por isso que estabelecemos a meta de nos tornarmos líderes mundiais em número de graduados universitários em 2020.

Para isso, pretendemos ajudar os americanos a terem mais acesso ao ensino universitário. De outro lado, é preciso fortalecer nossa rede de faculdades comunitárias.

Acreditamos que chegou o momento de reformar nossas faculdades comunitárias, para oferecerem aos americanos de todas as idades a oportunidade de se especializarem e adquirirem os conhecimentos necessário para competir pelos empregos do futuro.

Nossas faculdades podem servir como centros de treinamento de empregos do século 21, trabalhando com empresas locais, auxiliando o trabalhador a obter a formação necessária para ocupar esses empregos. Podemos realocar fundos para essas faculdades tornarem suas instalações mais modernas, aumentar a qualidade dos cursos online e, enfim, cumprir com a meta de formar 5 milhões mais de americanos em 2020.

Este é um dos pilares de uma base econômica mais consistente e, do mesmo modo que a saúde e a energia, não podemos esperar para fazer as mudanças necessárias. Temos de continuar limpando os destroços desta recessão, mas este é o momento de reconstruir algo melhor no lugar. Não vai ser fácil e ainda existirão aquelas pessoas afirmando que devemos retardar as decisões mais duras, que estamos adiando há tanto tempo.

Mas as gerações anteriores de americanos não criaram este grande país temendo o futuro e diminuindo os seus sonhos. Esta geração tem de mostrar a mesma coragem e determinação.

Acredito nisso.

* O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, escreveu este artigo a pedido do jornal The Washington Post

O republicano e o liberal

Fábio Wanderley Reis
DEU NO VALOR ECONÔMICO

De uns tempos para cá, a expressão "republicano" entrou em moda entre nós. Inspirada, em seu uso acadêmico, na visão idealizada da Atenas clássica e da república romana, ela tem sido usada para indicar a conduta virtuosa na política, em contraste com a corrupção de destaque constante no noticiário de todos os dias.

Mencionei aqui, há algumas semanas, a distinção de Wolfgang Schluchter, em "O Surgimento do Racionalismo Ocidental", entre moralidade, tomada como algo que diz respeito ao indivíduo, e ética, entendida como correspondendo ao plano coletivo. Há um sentido bem claro em que o desafio é o de criar a ética apropriada, em que normas de vigência geral conformem as disposições morais dos indivíduos e atenuem o primado irrestrito do interesse próprio e a corrupção em suas várias formas.

Mas os estudos sobre o processo de desenvolvimento moral, de que trata o próprio Schluchter, mapeiam de maneira bem mais complexa o tema da moralidade. Eles costumam distinguir (Lawrence Kohlberg é um nome a ser salientado) três fases. A primeira seria a da moralidade pré-convencional, em que prevalecem o egocentrismo e a orientação hedonista e egoísta - de fato, portanto, uma fase "pré-moral". A segunda seria a da inserção acrítica na moralidade convencional do grupo ou coletividade e da adesão às normas que ela propõe ou, na verdade, impõe. Mas o ponto mais alto corresponderia à moralidade "pós-convencional", distinguida pela autonomia dos agentes individuais, vistos como capazes de uma postura reflexiva e de "descentrar-se" (na expressão usada por Jean Piaget) em relação à coletividade, o que resulta em que as normas seguidas por eles sejam, em boa medida, de sua própria escolha e responsabilidade, como indicado pela etimologia mesma do vocábulo "autonomia". Esta é, naturalmente, a moralidade que reúne ao individualismo uma perspectiva universalista, aberta e tolerante.

É possível colocar as duas últimas "fases" em correspondência com a distinção entre "republicano" e "liberal" em política. Assim, o modelo republicano consagra as normas solidárias e a virtude "cívica" que viria com o sentido do dever perante a coletividade incutido por elas. Já a visão característica do modelo liberal supõe o equilíbrio entre o "enquadramento" cívico feito pela exigência coletiva da virtude e o valor "civil" da autoafirmação e da autorrealização pessoais, envolvendo redefinição ambiciosa - e moralmente "nobre" - da própria ideia de interesse como ingrediente indispensável da autonomia como valor. Nessa redefinição, o caráter mais "estreito" do particularismo dos interesses - que pode mostrar-se não só no nível estrito dos interesses individuais, mas também, no limite, na identificação fanática e beligerante com "a comunidade da fé compartilhada" (E. Gellner) - se vê substituído pelo empenho de articular sóbria e lucidamente o interesse próprio com a busca de valores ou objetivos maiores de qualquer natureza e com a consideração do interesse dos demais e a tolerância perante o "outro", mesmo o outro como "estranho".

Duas observações. A primeira é que, do ponto de vista da distinção de Schluchter entre moralidade e ética, a condição que cabe almejar corresponderia à vigência de uma moralidade (individual...) reflexiva sustentada por uma ética (coletiva...) de características afins àquela moralidade; em outras palavras, o paradoxo aparente de um convencionalismo (uma ética, que como tal é necessariamente convencional) que estimule a autonomia moral, capaz precisamente de contrapor-se ao convencionalismo e superá-lo numa ética adequadamente flexível e universalista. A outra observação é que os requisitos intelectuais patentemente difíceis da posição aqui descrita como liberal, se evidenciam certo simplismo do "republicanismo" corrente, deixam ver também o que há de insatisfatório na contraposição que se costuma encontrar entre liberalismo e socialdemocracia. Pois é impossível pretender garantir o substrato social minimamente apropriado à sofisticação requerida pela moralidade pós-convencional sem tratar de reduzir as desigualdades sociais a que o liberalismo tal como comumente entendido tende a mostrar-se insensível - mesmo abrindo mão de destacar a lassidão moral e a tendência ao comportamento fraudulento e corrupto trazidas pela investida recente desse liberalismo em plano mundial, como a crise econômico-financeira atual revelou de maneira dramática. Para formulá-lo em termos de um outro aparente paradoxo, só políticas socialdemocráticas efetivas garantiriam as condições de um liberalismo consequente.

Naturalmente, o investimento intenso em educação surge como recomendação fatal. Pois a educação é não só ela mesma um valor a ser desfrutado igualitariamente, mas também um meio decisivo de acesso à política como instrumento da luta contra as tiranias privadas de que falava Henry Fairlie, que também citei recentemente. O x do problema, porém, está em mais um paradoxo: o de que contar com a política, num país como o nosso, como o veículo que eventualmente nos aproxime da complexa condição político-moral esboçada significa contar com que ela possa cumprir tal papel na ausência justamente do substrato intelectualmente mais rico que a educação como meio representa.

Tanto pior: não resta como receita senão a de fazer política democrática, e fazê-la com os recursos de bordo, com os olhos postos pacientemente num futuro que abarca o passar de gerações. Bem ou mal, desdobrando-se a crise mundial, de repente os precários avanços políticos recentes permitem ver, por exemplo, formas de regulação do sistema financeiro que, com todas as reservas que justifiquem, situam o Brasil como modelo para países supostamente menos expostos aos nossos vícios. Talvez acabemos aprendendo a lidar de fato bem com corrupções de tipos maiores e menores. E a fazer bom liberalismo.

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras

Gilvan: revitalizar a democracia

A democracia é valor e objetivo a ser buscado pela sociedade. É um tema que deve ter ênfase no XIV Congresso do PPS, que será realizado em agosto É minha visão exposta nos debates da reunião do Diretório Nacional, que ocorreu sexta-feira e sábado, passado, em Brasília.

Veja minha opinião na íntegra no vídeo.

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Doenças da Alma (poema)

Graziela Melo

Dúvidas
Atrozes

Medos

Repetidos

Angústia

Permanente

Desejos

Reprimidos

Ilusões
Sempre

Vivas

E

Recentes

Desilusões

Rotineiras

Amarguras

Verdadeiras!!!

Rio, 2004

A nova encíclica do amor

José de Souza Martins*
DEU EM O ESTADO DE S.PAULO / ALIÁS

No documento, Bento XVI propõe superar uma sociedade em que o outro deixe de ser um objeto para ser 'o' objetivo

A nova encíclica de Bento XVI, Caritas in veritate, dialoga extensamente com a encíclica Populorum Progressio, de 1967, de Paulo VI, e por meio dela com o Concílio Vaticano II. Trata-se da reafirmação dos princípios que ganharam consistência na obra de Roncali e de Montini, os construtores da Igreja pós-Pio XII. Se dúvidas havia quanto ao lugar de Ratzinger nessa igreja renovada, suscitadas por seu desempenho na Congregação do Santo Ofício, essas dúvidas se dissipam nesse pronunciamento doutrinal do pontífice.
Como mostra o padre José Oscar Beozzo, em livro recente, A Igreja do Brasil no Concílio Vaticano II, o jovem professor e padre Ratzinger foi um dos peritos do concílio e fez parte do pequeno grupo de teólogos que participou do preparo da Constituição Apostólica Lumen Gentium. Nela a Igreja se propõe Corpo Místico de Cristo, abrindo-se, em consequência, ao apostolado dos leigos. Uma Igreja menos hierárquica e de sacristia e mais participativa. Portanto, a encíclica desses dias reafirma valores e orientações que têm tido de vários modos a participação direta e interessada de quem veio a ser o papa Bento XVI. Embora haja no documento evidências da contribuição de peritos, o que parece empobrecê-lo em questões que, à luz de documentos anteriores e pessoais desse papa, teriam dele mais ousada definição, menos técnica e menos acadêmica.

Não só o retorno ao Concílio Vaticano II, mas sobretudo o retorno a Paulo VI dão à encíclica a envergadura de um acerto de contas com as irracionalidades da economia e também com as iniquidades sociais e políticas que, apesar das advertências e interpretações da Populorum Progressio, cresceram e se multiplicaram nas décadas passadas. Meu primeiro impulso é o de dizer que esse é um documento que surge com mais de meio século de atraso. Deveria ter sido o documento da Igreja na época em que o competente e lúcido Montini já era um ativo pensador no interior do Vaticano, capaz de compreender para onde ia o mundo do pós-guerra, o que amplos setores da igreja não compreendiam, e que sabia perfeitamente o que deveria ser e seria a igreja depois de Eugenio Pacelli.

Naquela época, a própria 2ª Guerra Mundial já havia criado as bases da decomposição de fronteiras e nacionalidades que levariam ao que hoje chamamos de globalização. Ao mesmo tempo, o progresso científico em todos os campos já propunha uma revolução tecnológica e científica que teria um dos seus efeitos mais contraditórios na revolução agrícola. No documento de agora, o papa reconhece, até com certo entusiasmo, a relevância da técnica e da ciência no desenvolvimento dos países e mesmo na superação da fome em muitas regiões do mundo. Mas há 50 anos essas mudanças se materializavam no que nos anos 1970 seria chamada de Revolução Verde, com a disseminação de sementes selecionadas e híbridas, fertilizantes, herbicidas, máquinas, novas técnicas agrícolas e de uso do solo que, sem dúvida, aumentaram enormemente a produtividade agrícola. A Revolução Verde acabou se tornando instrumento político contra a Revolução Vermelha ,que se desenhava em muitos países pobres, tendo como protagonistas os camponeses empobrecidos e expropriados em consequência do modelo de desenvolvimento econômico tecnicista e concentrador. A Revolução Verde distribuiu degradação ambiental, destruiu economias tribais e camponesas, criando grandes bolsões de fome e miséria na África, na Ásia e na América Latina, não socializou os benefícios da revolução científica e técnica, destruiu culturas e tradições.

Bento XVI, em sua encíclica, retoma temas que estiveram décadas atrás na boca de comunistas de várias tonalidades de vermelho e é suficientemente contundente para não deixar dúvida quanto à posição da Igreja em face das misérias e injustiças da atualidade, como a fome, a má distribuição dos benefícios do progresso econômico e técnico, o aniquilamento do meio ambiente, a falta de reforma agrária. Não é um documento de acusações. O Papa reconhece a necessidade e os méritos no desenvolvimento, no progresso técnico e científico. Mas trata, sobretudo, das insuficiências do que vem sendo esse desenvolvimento, nas muitas vítimas que dele resultam, desde as populações camponesas expropriadas até os operários fragilizados pelo desemprego, pela precarização do trabalho, pelos efeitos perversos dessas mudanças na vida pessoal e familiar de cada um.

Com base na tradição da doutrina social da Igreja, Bento XVI questiona o desenvolvimento desumanizador. Retoma temas de seus documentos anteriores, centrados na premissa do amor - caritas - para combater e superar o modelo coisificante de desenvolvimento que prevalece hoje, o que significa atuar, ainda que a longo prazo, no sentido de superar e mudar uma sociedade em que o outro é objeto para que o outro se torne o objetivo. Em consequência, a caridade é dar ao outro o que é "meu", porém com justiça, que é dar a ele o que é "dele".

Esse reconhecimento da alteridade fundadora de um desenvolvimento econômico e social comprometido com a humanização do homem está referido à tese central do documento que é a do desenvolvimento integral. Não apenas no sentido comum em documentos da Igreja, mas no sentido, também, de um modelo de desenvolvimento contra o modelo que fragmentou o homem, tornando-o um conjunto de desmembramentos que se desconhecem, o homem privado de sua humanidade real e de sua humanidade possível. Fragmentação que fragiliza no plano econômico, no plano social, no plano cultural, uma arquitetura da perversidade do desencontro interior, que torna o homem frágil e manipulável.

Nessa perspectiva, Bento XVI volta à questão da alienação, a que se refere em documento anterior, em que citou famoso texto de Karl Marx, como o grande desafio do mundo atual e o grande desafio da Igreja na sua missão de propor o reconhecimento do desenvolvimento como vocação. Portanto, como movimento cuja justiça e cuja verdade se fundam na transcendência do amor.

* Professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Autor de Fronteira - A Degradação do Outro nos Confins do Humano (Contexto, 2009)

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil

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Regulamentação a favor dos bancos

Luiz Carlos Bresser-Pereira
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Os bancos esquecem que foi a desregulamentação dos anos 1980 que levou a economia mundial a esta imensa crise

EM SUA reunião na Itália na última semana, os chefes de governo do G8 voltaram a manifestar seu compromisso com a re- -regulamentação do sistema financeiro, mas o fato é que estão tendo dificuldade em avançar nessa direção dada a resistência dos bancos.

Muitos desses (felizmente nenhum brasileiro) tiveram que ser socorridos, mas agora já estão parcialmente recapitalizados, recomeçam a pagar bônus a seus dirigentes, e, novamente apoiados em seus economistas e em seu "regime de verdade", voltam a se opor à regulamentação. Esquecem-se, assim, de que foi a desregulamentação criminosamente empreendida nos anos 1980, no quadro do fundamentalismo ideológico neoliberal, que levou a economia mundial a esta imensa crise e ao terrível desemprego que ainda deverá continuar crescendo nos países mais atingidos. O aprendizado obtido na Grande Depressão dos anos 1930 resultou em uma regulamentação que, se não tivesse sido depois eliminada, não teria levado o mundo a enfrentar a sucessão de crises financeiras dos últimos anos, coroada com a atual e grande crise global.

Quando vejo essa atitude da finança internacional diante da regulamentação, fico perplexo. Os grandes bancos não precisam do neoliberalismo para realizar bons lucros. Basta que tenham a patente concedida pelo Estado e sejam bem administrados. A regulamentação do sistema financeiro é uma necessidade da sociedade e uma obrigação do Estado por diversas razões: porque, na medida em que os mercados financeiros lidam com uma "mercadoria" baseada na confiança -o dinheiro-, eles são intrinsecamente instáveis; porque os bancos, por meio de seus empréstimos e dos respectivos depósitos, têm capacidade de criar dinheiro -uma prerrogativa pública; porque, dado o risco de crise sistêmica, os grandes bancos não podem quebrar. Por essas razões, os grandes bancos comerciais são instituições quase públicas, que necessitam de uma patente ou autorização do Estado para funcionar.

Entretanto, essa obrigação do Estado não existe contra o sistema financeiro, mas a favor dele, já que, embora a estabilidade financeira interesse a toda a sociedade, interessa ou deveria interessar principalmente aos próprios bancos. Os dirigentes das instituições do sistema financeiro, entretanto, têm dificuldade de compreender esse fato. Especialmente se não forem proprietários, mas apenas dirigentes profissionais remunerados por bônus.

No governo Montoro, nos dois anos em que fui presidente do Banespa (1983-84), participava das reuniões da Febraban. Estávamos em plena crise da dívida externa, mas os bancos brasileiros estavam bem regulados e sólidos. Meus colegas demandavam ao BC desregulação, enquanto eu, embora estivesse em um governo estadual em oposição ao governo central, argumentava que essa regulação era feita não apenas no interesse da sociedade mas dos próprios bancos, porque impedia que eles fossem à crise e fossem provisoriamente estatizados, como acontecera então no México.

Por que, então, dirigentes financeiros continuam a pressionar por liberalização? Por mera ideologia fundamentalista de mercado? Por que seus dirigentes tecnoburocratas ou profissionais estão mais interessados em bônus a curto prazo do que em lucros a médio prazo, já que no capitalismo os profissionais não são mais os donos dos bancos mas apenas seus dirigentes?

Tanto por um como pelo outro motivo. Motivos que podem fazer sentido para dirigentes profissionais, mas são contrários ao interesse público.

Luiz Carlos Bresser-Pereira , 75, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994".

Honduras levanta toque de recolher

AP, AFP, Efe e Reuters, TEGUCIGALPA
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Governo autoproclamado tenta restaurar normalidade em meio à crise

O governo autoproclamado de Honduras levantou ontem o toque de recolher imposto desde que o presidente Manuel Zelaya foi deposto de seu cargo, no dia 28. A medida foi vista por muitos como uma tentativa do presidente autoproclamado, Roberto Micheletti, de restaurar a normalidade e consolidar o golpe em meio à grave crise política do país. "O governo informa que a partir deste domingo, 12 de julho, fica suspenso em todo o território nacional o toque de recolher", afirmou um comunicado oficial.

O toque de recolher obrigava a população hondurenha a permanecer em suas casas das 23 horas às 4h30. Juan Barahona, líder da base de apoio de Zelaya, afirmou que o governo de facto estava sob pressão de bares e outros estabelecimentos comerciais que foram prejudicados pelo toque de recolher. "Isso é para dar ao mundo a impressão de que há um ambiente de liberdade no país", disse Barahona.

Tanto o governo de facto como Zelaya estão sob intensa pressão da comunidade internacional para que alcancem uma solução negociada para o impasse. O presidente deposto passou o fim de semana em Washington em busca de apoio para obter a restituição do poder. Ontem, ele se reuniu com o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza. No sábado, Zelaya se encontrou com o ainda responsável pela diplomacia americana para a América Latina e futuro embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon.

MEDIAÇÃO NA COSTA RICA

O diálogo entre representantes de Zelaya e de Micheletti deve ser retomado em poucos dias sob a mediação do presidente da Costa Rica e Nobel da Paz, Oscar Arias. Na quinta-feira, o presidente costa-riquenho reuniu-se separadamente com Zelaya e Micheletti, que se recusaram a um encontro cara a cara.

Um dia depois, enviados das duas partes também foram recebidos por Arias e, apesar de nenhum acordo ter sido alcançado, ambos concordaram em fazer mais uma reunião. Segundo Arias, esse encontro deve ocorrer "em oito dias".

As negociações na Costa Rica têm sido apoiadas pelos EUA, mas duramente criticadas pela Venezuela, cujo presidente Hugo Chávez é um dos maiores defensores de seu aliado Zelaya.

Ontem, Chávez acusou as autoridades hondurenhas de terem detido brevemente jornalistas venezuelanos das emissoras de TV Telesul e Venezolana de Televisión.

"Esta madrugada, de maneira covarde, o governo mandou deter os jornalistas e depois os soltaram, mas agora estão no hotel e não os deixam sair", disse Chávez.

Golpista acena com anistia para Zelaya

DEU EM O GLOBO

Micheletti, porém, diz que presidente não volta ao poder “sob hipótese alguma”

TEGUCIGALPA. O líder interino do grupo que tomou o poder de Honduras num golpe que derrubou Manuel Zelaya disse ontem que o presidente deposto poderia voltar ao país e ser anistiado, caso desista de reassumir o governo.

Segundo Roberto Micheletti, porém, Zelaya teria que se entregar à Justiça assim que voltasse para seu país.

— Se ele vier de modo pacífico, e aparecer diante das autoridades, eu não teria nenhum problema em anistiá-lo — disse Micheletti, para a agência de notícia Reuters.

Micheletti, no entanto, ressaltou que Zelaya não será reempossado presidente “sob hipótese alguma”.

O governo golpista encerrou ontem o toque de recolher que proibia que a população saísse de suas casas à noite. Logo depois do golpe, os militares ordenaram que as pessoas não saíssem às ruas entre as 23h e as 4h30m. No dia em que Zelaya tentou entrar no país e nos dias seguintes, o toque de recolher se estendeu para o período entre o anoitecer e o amanhecer.

Num comunicado, o governo interino disse ontem à população que os objetivos do toque de recolher — restaurar a calma e combater o crime — foram cumpridos.

Juan Barahona, defensor de Zelaya, argumentou que o toque de recolher foi suspenso porque os militares estariam sob pressão de donos de bares e outros estabelecimentos prejudicados pela medida: — Eles querem dar ao mundo a impressão de que aqui há um ambiente de liberdade.

Cerca de 300 simpatizantes de Zelaya se reuniram ontem num parque de diversões em Villanueva para protestar.

— Temos que tomar cuidado, ainda vivemos um clima tenso, sem uma democracia verdadeira — disse Esly Lizardo, de 65 anos

Roda Viva - Chico Buarque e MPB4

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domingo, 12 de julho de 2009

Transparência

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


Na análise do cientista político Octavio Amorim Neto, da Fundação Getulio Vargas do Rio, a crise atual que envolve a Câmara e o Senado “tem mais a ver com a transparência de algumas decisões de gasto, e com a destinação de alguns gastos”, do que com o nível geral destes. Nosso modelo de Legislativo, lembra, combina “um papel relativamente importante das comissões no fazimento das leis e uma grande demanda por serviços a serem prestados pelos congressistas em vastas circunscrições eleitorais (os estados), com grandes populações”.

Tudo isso gera gastos que precisam ser devidamente subvencionados pelo erário público, e Octavio Amorim Neto acha que o Brasil, “uma nação de renda média, é capaz de arcar com os custos do tipo de Congresso”.

Por isso, diz ele, devemos estar preparados para despender “uma boa quantidade de recursos com o Poder Legislativo”.

Em 2007, estudo da Transparência Brasil demonstrou que, excetuandose o Congresso dos Estados Unidos, o Congresso brasileiro é o mais caro num conjunto de dozes países em termos absolutos.

Claudio Weber Abramo, presidente da ONG, lembra que quando se levam em conta as disparidades de custo de vida e nível de renda dos diversos países e se ponderam os montantes conforme a renda per capita, “a população brasileira é a que mais paga para manter o Congresso entre todos os países examinados”.

Um estudo mais recente demonstra que “considerandose salários, benefícios e cobertura de custos com assessores, o Brasil supera os gastos de todos os sete países examinados”. E quanto à transparência dos atos? Abramo diz que a pesquisa da Transparência Brasil mostrou que, com relação à política de contratação de assessores e consultores, não há paralelo, em países da América Latina, da Europa Ocidental ou nos Estados Unidos, com o que ocorre no Brasil: “Montantes elevadíssimos de recursos públicos são dirigidos, sem qualquer critério ou controle, à contratação de assessores, os quais, na virtual totalidade das vezes, não passam de cabos eleitorais pagos com dinheiro público”.

Também a contratação de consultores é submetida a filtros mais rigorosos em outros países, diz o estudo da Transparência Brasil. No caso brasileiro, as contratações se fazem contra a apresentação de notas fiscais que, lembra Abramo, “até recentemente, eram mantidas em segredo, sem possibilidade de controle independente”.

Depois dos recentes escândalos, a prestação de contas da verba indenizatória de R$ 15 mil que cada senador ou deputado tem direito estão sendo exibidas na internet, ao contrário, por exemplo, dos Estados Unidos, onde o Senado e a Câmara divulgam cópias em imenso volumes, mas não exibem eletronicamente os gastos.

Recentemente, o “Wall Street Journal” analisou “milhares de páginas” e descobriu gastos que parecem comuns, como impressos e correio, mas o deputado Howard Berman parece ter exagerado: gastou U$ 84.000 para fazer calendários personalizados para seus eleitores, impressos na Sociedade Histórica do Congresso.

Também Rahm Emanuel, que renunciou à sua cadeira para se tornar chefe de gabinete da Casa Branca de Obama, gastou nada menos que U$ 33.000 em impressos no último trimestre do ano, ocasião em que aumentam os gastos para que a verba anual seja gasta o máximo possível, pois não acumulam.

Cerca de cem deputados estão relacionados a financiamentos de automóveis, de vários tipos, que alegam ser para seu trabalho. A única certeza é de que eles terão que devolver os automóveis, assim como produtos eletrônicos que compram com a verba indenizatória, ao final dos mandatos.

Ao contrário dos parlamentares americanos, os ingleses podem gastar a verba com despesas pessoais, mas os abusos foram tão grandes que o presidente da Câmara dos Comuns britânica, Michael Martin, renunciou mês passado, primeira vez em três séculos que isso acontece.

Ao contrário de Sarney, o inglês Martin assumiu para si o desgaste de atitudes de diversos deputados, que também deixaram o Parlamento, depois que gastos pagos com dinheiro público para compras de móveis para residências dos políticos, ou para pagar juros de hipotecas, e até reembolso para comida de cachorro apareceram em reportagens de jornais britânicos.

O cientista político Octavio Amorim Neto acha que o custo do Congresso tenderá a ser sempre “maior do que o razoável enquanto os partidos de orientação mais programática brigarem entre si e preferirem se aliar a agremiações de cunho mais clientelista para formar maiorias governativas”.

Essas alianças, destaca, são sempre uma opção política “com desvantagens facilmente identificáveis, não uma imposição da realidade.

Ou seja, se quisermos reduzir aquele custo, a cidadania deve lutar não apenas por mais transparência, mas também exigir maior coerência nas escolhas dos seus governantes”.

O presidente da Transparência Brasil, Claudio Weber Abramo, não tem dúvidas de que os congressistas brasileiros são os que mais pesam no bolso do contribuinte.

“Os custos diretos anuais incorridos por cada senador brasileiro correspondem a mais de oitenta vezes a riqueza média produzida por cada habitante do país ao longo de um ano. Para os deputados, o custo direto é quase setenta vezes o PIB per capita”.

Pelas contas da ONG, cada deputado brasileiro custa para o cidadão duas vezes mais do que seu correspondente norte-americano, 5,5 vezes mais do que um alemão, seis vezes mais que um francês e 6,5 vezes mais do que um britânico.

Dias de equilibrista

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Vestido na saia justíssima que o presidente Luiz Inácio da Silva encomendou para a bancada do Senado, o PT tem sido obrigado a se equilibrar entre as conveniências imediatas do governo e os planos eleitorais de um partido que daqui a 14 meses joga o seu destino em votos.

É um serviço complicado e, sobretudo, mal compreendido. E pior, com tarefas até mais difíceis que sustentar a insustentável majestade do presidente do Senado, José Sarney, a serem cumpridas daqui até a eleição de 2010.

O líder no Senado, Aloizio Mercadante, reconheceu numa frase dita lá pelo meio de um dos vários discursos para justificar o vaivém do partido no caso de Sarney, que "o PT não tem como sair bem dessa história".

É uma impressão generalizada dentro do partido. Assim como é consenso entre os petistas que o resultado da prova foi desastroso, mas que não havia outro jeito a não ser atender aos ditames do presidente da República, a única voz de comando e fonte de poder em torno da qual se reúne o PT.

O dilema posto era o seguinte: se rifasse Sarney, o PT teria o aplauso imediato do eleitorado, mas se arriscaria a criar um pretexto para o PMDB aumentar a força da faca que mantém permanentemente apontada para o peito do governo.

Ao aceitar o servir de muro de arrimo - até porque não teria como romper com o presidente, pois dele emana seu poder -, assume um desgaste de pronto, mas aposta na estabilização da aliança política com efeitos benéficos mais adiante. Na sustentação à candidatura de Dilma Rousseff, por suposto.

Mas a questão é até que ponto vale o sacrifício de uma aposta que, em se tratando de PMDB, é sempre um salto no escuro. Qual o maior prejuízo, o político ou o eleitoral? E as perdas decorrentes deste, não podem anular os eventuais ganhos daquele?

Na avaliação de petistas mais pensantes que diletantes esse tipo de balanço não caberia fazer no caso. Na visão deles, sem saída. Embora considerem que o "zigue-zague" foi mal conduzido.

Já sobre outros equilibrismos a que o PT será submetido, há divergências em relação ao que o presidente Lula considera a melhor solução.

Lula, por exemplo, está convencido de que vale a pena o PT abrir mão de disputar governos de Estados importantes em favor dos candidatos do PMDB. Sob o seguinte argumento: é mais importante o PT apostar na eleição de uma grande bancada parlamentar, principalmente de senadores, do que conquistar governos de Estados, já que a tendência dos governadores é sempre a de se compor com o Planalto por razões administrativas.

Embora o raciocínio faça sentido em tese, na prática as coisas não são tão esquemáticas. Primeiro, porque se, em princípio, a cessão de direitos ao PMDB seja um fator de harmonia, torna o PT ainda mais refém do parceiro.

Em segundo lugar, nada assegura a submissão automática dos governadores. Em terceiro, a disputa eleitoral e a conquista de espaços de poder é a razão de ser de um partido que se pretende influente.

Em quarto lugar, há as vontades partidárias regionais às quais nem sempre a direção nacional tem condições de se impor. O trauma da intervenção nacional no PT do Rio de Janeiro, que dizimou o partido no Estado, está vivo em todas as mentes.

E finalmente, e mais importante, a receita acima só dará bom prato se o PT ganhar a Presidência da República. Se perder, terá posto seu patrimônio nas mãos do PMDB para vê-lo, ato contínuo, aderir ao adversário vencedor.

Escola

Os senadores Arthur Virgílio e Heráclito Fortes criticam quando o presidente Lula confunde crítica com agressão, relatos jornalísticos com conspiração, mas navegaram as mesmas águas ao reagir na sexta-feira contra reportagem da revista inglesa The Economist sobre a "casa de horrores" em que se transformou o Senado brasileiro.

Fortes chamou a revista de "elitista e preconceituosa" e pediu aos jornalistas respeito "à autonomia dos países". Virgílio se juntou a ele lembrando acontecimentos recentes no parlamento britânico que revelaram "práticas típicas de países que não chegaram ao desenvolvimento democrático pleno".

Se o soneto do Senado reproduzido pela revista já é ruim, muito pior ficou a tentativa de emenda dos nobres senadores.

Abre de novo espaço à comparação entre a maneira inglesa e o modo brasileiro de os parlamentares lidarem com suas mazelas. Sem falar na natureza jeca da patriotada.

Lá, o presidente da Câmara dos Comuns afastou-se aos primeiros acordes do escândalo de gastos irregulares, verbas extras e auxílios indevidos pagos a seus pares. Sem ter sido envolvido em denúncia alguma, mas por ter se oposto à liberação de informações sobre os gastos.

Ficou com a pecha de defensor dos abusos e, por isso, renunciou.

Aqui, nem certidão de culpa passada em cartório do céu consegue demover uma só excelência de continuar agarrada às benesses paradisíacas do cargo.