domingo, 7 de fevereiro de 2010

Reflexão do dia – Antônio Pedro de Figeuiredo

“Nem se deve deduzir do que fica exposto que os insurgentes de junho, e nós também, pretendamos revolver totalmente a sociedade para reorganizá-la; bem sabemos que estas revoluções radicais são obra do tempo, e apenas meia dúzia de exaltados podem conceber a esperança de realiza-las imediatamente; mas o que pretendiam os revolucionários de junho; o que nós também pretendemos é o governo, como representante da sociedade inteira, intervenha nos fenômenos da produção, distribuição e consumo, pra regula-los e substituir pouco a pouco uma ordem fraternal ao desgraçado estado de guerra que ora reina nestas importantes manifestações da atividade humana. Os nossos votos hão de ser realizados”.


(Antônio Pedro Figueiredo, intelectual da Revolução Praieira, em artigo na revista O Progresso, Recife, 28 de agosto de 1848)

Sem medo do passado:: Fernando Henrique Cardoso

DEU EM O GLOBO

O presidente Lula passa por momentos de euforia que o levam a inventar inimigos e enunciar inverdades. Para ganhar sua guerra imaginária distorce o ocorrido no governo do antecessor, autoglorifica-se na comparação e sugere que se a oposição ganhar será o caos. Por trás dessas bravatas estão o personalismo e o fantasma da intolerância: só eu e os meus somos capazes de tanta glória. Houve quem dissesse: "O Estado sou eu." Lula dirá: "O Brasil sou eu!" Ecos de um autoritarismo mais chegado à direita.

Lamento que Lula se deixe contaminar por impulsos tão toscos e perigosos. Ele possui méritos de sobra para defender a candidatura que queira. Deu passos adiante no que fora plantado por seus antecessores. Para que, então, baixar o nível da política à dissimulação e à mentira?

A estratégia do petismo-lulista é simples: desconstruir o inimigo principal, o PSDB e FHC (muita honra para um pobre marquês...). Por que seríamos o inimigo principal? Porque podemos ganhar as eleições. Como desconstruir o inimigo? Negando o que de bom foi feito e apossando-se de tudo o que dele herdaram como se deles sempre tivesse sido. Onde está a política mais consciente e benéfica para todos? No ralo.

Na campanha haverá um mote - o governo do PSDB foi "neoliberal" - e dois alvos principais: a privatização das estatais e a suposta inação na área social. Os dados dizem outra coisa. Mas os dados, ora, os dados... O que conta é repetir a versão conveniente. Há três semanas Lula disse que recebeu um governo estagnado, sem plano de desenvolvimento. Esqueceu-se da estabilidade da moeda, da Lei de Responsabilidade Fiscal, da recuperação do BNDES, da modernização da Petrobrás, que triplicou a produção depois do fim do monopólio e, premida pela competição e beneficiada pela flexibilidade, chegou à descoberta do pré-sal. Esqueceu-se do fortalecimento do Banco do Brasil, capitalizado com mais de R$ 6 bilhões, e junto com a Caixa Econômica, libertados da politicagem e recuperados para a execução de políticas de Estado. Esqueceu-se dos investimentos do Programa Avança Brasil, que, com menos alarde e mais eficiência que o PAC, permitiu concluir um número maior de obras essenciais ao País.

Esqueceu-se dos ganhos que a privatização do sistema Telebrás trouxe para o povo brasileiro, com a democratização do acesso à internet e aos celulares, do fato de que a Vale privatizada paga mais impostos ao governo do que este jamais recebeu em dividendos quando a empresa era estatal, de que a Embraer, hoje orgulho nacional, só pôde dar o salto que deu depois de privatizada, de que essas empresas continuam em mãos brasileiras, gerando empregos e desenvolvimento no País.

Esqueceu-se de que o País pagou um custo alto por anos de "bravata" do PT e dele próprio.

Esqueceu-se de sua responsabilidade e de seu partido pelo temor que tomou conta dos mercados em 2002, quando fomos obrigados a pedir socorro ao FMI - com aval de Lula, diga-se - para que houvesse um colchão de reservas no início do governo seguinte. Esqueceu-se de que foi esse temor que atiçou a inflação e levou seu governo a elevar o superávit primário e os juros às nuvens em 2003, para comprar a confiança dos mercados, mesmo que à custa de tudo o que haviam pregado, ele e seu partido, nos anos anteriores.

Os exemplos são inúmeros para desmontar o espantalho petista sobre o suposto "neoliberalismo" peessedebista. Alguns vêm do próprio campo petista. Vejam o que disse o atual presidente do partido, José Eduardo Dutra, ex-presidente da Petrobrás, citado por Adriano Pires no Brasil Econômico de 13/1: "Se eu voltar ao parlamento e tiver uma emenda propondo a situação anterior (monopólio), voto contra. Quando foi quebrado o monopólio, a Petrobrás produzia 600 mil barris por dia e tinha 6 milhões de barris de reservas. Dez anos depois produz 1,8 milhão por dia, tem reservas de 13 bilhões. Venceu a realidade, que muitas vezes é bem diferente da idealização que a gente faz dela."

O outro alvo da distorção petista se refere à insensibilidade social de quem só se preocuparia com a economia. Os fatos são diferentes: com o real, a população pobre diminuiu de 35% para 28% do total. A pobreza continuou caindo, com alguma oscilação, até atingir 18% em 2007, fruto do efeito acumulado de políticas sociais e econômicas, entre elas o aumento do salário mínimo. De 1995 a 2002 houve um aumento real de 47,4%; de 2003 a 2009, de 49,5%. O rendimento médio mensal dos trabalhadores, descontada a inflação, não cresceu espetacularmente no período, salvo entre 1993 e 1997, quando saltou de R$ 800 para aproximadamente R$ 1.200. Hoje se encontra abaixo do nível alcançado nos anos iniciais do Plano Real.

Por fim, os programas de transferência direta de renda (hoje Bolsa-Família), vendidos como uma exclusividade deste governo. Na verdade, eles começaram num município (Campinas) e no Distrito Federal, estenderam-se para Estados (Goiás) e ganharam abrangência nacional em meu governo. O Bolsa-Escola atingiu cerca de 5 milhões de famílias, às quais o governo atual juntou outros 6 milhões, já com o nome de Bolsa-Família, englobando numa só bolsa os programas anteriores.

É mentira, portanto, dizer que o PSDB "não olhou para o social". Não apenas olhou como fez e fez muito nessa área: o SUS saiu do papel para a realidade; o programa da aids tornou-se referência mundial; viabilizamos os medicamentos genéricos, sem temor às multinacionais; as equipes de Saúde da Família, pouco mais de 300 em 1994, tornaram-se mais de 16 mil em 2002; o programa Toda Criança na Escola trouxe para o ensino fundamental quase 100% das crianças de 7 a 14 anos. Foi também no governo do PSDB que se pôs em prática a política que assiste hoje mais de 3 milhões de idosos e deficientes (em 1996 eram apenas 300 mil).

Eleições não se ganham com o retrovisor. O eleitor vota em quem confia e lhe abre um horizonte de esperanças. Mas se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa. Nada a temer.

Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República

Merval Pereira:: Força e fraqueza da classe média

DEU EM O GLOBO

Entre 2003 e 2008, segundo dados do Centro de Pesquisas Sociais do Ibre, da Fundação Getulio Vargas do Rio, 31,9 milhões de pessoas ascenderam às classes ABC. Nesse período, a renda do trabalho teve um incremento médio de 5,13% ao ano o que, segundo o economista Marcelo Neri, confere uma base de sustentabilidade das condições de vida para além das transferências de renda oficiais Essa “nova classe média”, suas aspirações e, sobretudo, sua capacidade de ser um “agente fundamental” em uma revisão de valores da sociedade brasileira é analisada pelos cientistas politicos Amaury de Souza e Bolívar Lamounier, no recém-lançado livro “A classe média brasileira: Ambições, valores e projetos de sociedade”, da editora Campus com o apoio da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

A sustentabilidade desse modelo é questionada pelos autores, que indicam três pontos de dúvida: a distribuição de renda brasileira, que permanece como uma das piores do mundo; a protelação de reformas estruturais, como a trabalhista e a tributária, “sem as quais o Brasil dificilmente se livrará das barreiras que separam os setores formal e informal da economia”.

Por último, o fato de a mobilidade recente ter dependido amplamente do consumo, e não de novos padrões de organização ou desempenho na produção.

Uma constatação imediata é que é alta a valorização da educação. Tudo leva a crer, segundo os autores, que ela ocorre em razão tanto de antigas considerações de status — a herança bacharelista — como de fatores realistas: a alta taxa de retorno e a necessidade cada vez maior da educação para o acesso a posições mais qualificadas no mercado de trabalho.

As aspirações educacionais para os filhos tendem a ser altas, embora as expectativas de que eles realisticamente possam realizá-las não o sejam necessariamente.

As pesquisas que baseiam as análises do livro, tanto quantitativas quanto qualitativas, mostram que quanto menor a escolaridade dos pais, maior o hiato entre aspirações educacionais para os filhos e as expectativas de que eles venham a alcançá-las.

Os estudos captaram “um sentimento surpreendentemente generalizado” de insatisfação com o nível, ou com a qualidade, da educação, que atinge 40% das pessoas com curso superior; 59% com ensino médio; 63% com ensino fundamental e 69% dos semi-escolarizados.

Com base na pesquisa, os autores destacam duas das saídas que começam a ser buscadas como compensação pela má qualidade. Uma, realista, mas incipiente, é a busca de ensino compensatório, notadamente a educação profissional.

A outra os autores colocam na área propriamente política; no momento, “por razões provavelmente muito conjunturais”, é o que para eles parece estar ocorrendo no debate relativo a cotas sociais ou raciais para acesso ao ensino superior.

À primeira vista, dizem os autores, a nova classe média teria condições de ser agente de uma transformação na sociedade, “uma vez que é alvo e vítima da escalada da transgressão”.

Fica claro nas pesquisas que consciência da gravidade do problema não lhe falta, e ela chega a avaliar os desafios ligados à violência, à corrupção e às drogas como mais graves que as carências referentes à saúde, ao desemprego, à habitação e à qualidade da educação.

Mas, mesmo tendo um capital social “obviamente superior ao das classes C, D e E”, a nova classe média não mostra capacidade de aproveitar em seu próprio benefício certas sinergias há muito conhecidas nos países desenvolvidos, avaliam os autores.

No Brasil, o capital social reside em larga medida nas famílias e no restrito círculo de amigos pessoais. “Um círculo possivelmente virtuoso de relações em círculos mais amplos não se realiza, em larga medida, devido à falta de confiança nos outros, traço cultural disseminado e sem dúvida reforçado pela escalada da criminalidade”, analisam os autores.

As pesquisas mostram que a desconfiança em relação a pessoas estende-se a grupos e organizações da sociedade civil (com exceção da Igreja). Televisão, empresários e partidos políticos recebem percentuais ínfimos de confiança.

Os autores explicam que “participar de organizações é uma forma de consolidar capitais sociais e enriquecer o repertório relevante para o debate e a ação na esfera pública”.

Quanto maior o número de organizações de que alguém participa, maior o seu “capital social”, que se traduz em redes sociais mais extensas e mais densas — um recurso de poder da classe média.

Entre nós, porém, a “arte de associar-se” permanece em nível pouco significativo, constatam Amaury de Souza e Bolívar Lamounier. A maioria dos entrevistados não participa de qualquer organização, e entre os que o fazem, a maioria limita-se a participar de uma única organização.

As instituições religiosas são exceções. Os autores mostram que a participação nessas organizações aumenta no sentido inverso ao do nível de renda. No entanto, a religião, como forma de sociabilidade, “não parece equipar os diferentes estratos sociais na função de remodelar o sistema de valores e inibir comportamentos transgressores”.

Os cientistas políticos Amaury de Souza e Bolívar Lamounier constatam no livro que a classe média inclinase pela democracia como a melhor forma de governo, “mas partilha com os demais segmentos da sociedade um sentimento de aversão à política”.

Em grande parte, esse sentimento deriva da percepção de que a corrupção campeia no mundo da política, mas as pesquisas mostram que é também amplamente disseminada a percepção de que “os políticos e os partidos não se importam com a opinião dos eleitores”.

A classe média tem maior interesse pela política e manifesta um grau significativamente maior de compreensão dos eventos políticos

Sérgio Malbergier: Lula "lame duck"

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Por mais forte que esteja, e ele está no pico, o presidente Lula inapelavelmente perde força à medida que nos aproximamos do final de seu mandato. É uma lei da política, conhecida nos EUA como "lame duck", o "pato manco" que logo vai parar de voar.

Por isso, já não importa tanto saber o que ele fará ou não fará. Na democracia, a fila anda, e o foco deve ser transferido para os planos de sua sucessora ou seu sucessor.Há um sentimento de que o Brasil achou seu rumo desde que Lula guiou a esquerda ao centro, ao consenso seminal em torno do capitalismo de mercado, nos dando valiosíssimos 15 anos de estabilidade.

Lula, claro, é o maior presidente do Brasil, odeie-se ou ame-se o mito. Primeiro presidente pobre num país de pobres, focou as ações do governo nessa massa de brasileiros cuja ascensão econômica, já em curso, é o único caminho para a prosperidade nacional.

Pai dos pobres, mãe dos ricos, sob Lula os extremos sociais enriqueceram como nunca. E juntos. É isso que precisa ser preservado depois que o presidente for pescar.

Enquanto na caverna tucana reina silêncio e indefinição, o lado petista dá sinais de uma guinada para a esquerda. Tão esperada, devido ao ocaso de Lula, quanto indesejada.

O desastrado projeto de direitos humanos, as tentativas reincidentes de controle da mídia, os esboços de um programa de governo estatizante num país onde a corrupção impera em todas as instâncias são sinais claros de que o esquerdismo derrotado pela história ainda vive em corações e mentes de petistas.

Do jeito que vão as pesquisas, as alianças partidárias e a economia, amplamente favoráveis ao governo, a recaída esquerdista do PT será uma das poucas ameaças à campanha de Dilma Rousseff num país que, se aprendeu a gostar de Lula, segue conservador.Lula soube confinar muito bem essas ameaças internas. Dilma, neófita no partido, precisa aprender também isso com seu mestre.

Brasília-DF :: Luiz Carlos Azedo

DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

Jardim Pantanal

O nome do bairro já diz tudo. O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), e o prefeito da capital, Gilberto Kassab (DEM), debaixo de chuvas torrenciais, travam um combate inglório com o PT e seus aliados no Jardim Pantanal. O bairro da periferia da capital é um péssimo campo de batalha, virou símbolo das enchentes e a trincheira da oposição aos tucanos e democratas em São Paulo. Enquanto não viabiliza o assentamento dos seus moradores em outro local, Serra oferece R$ 500 para que aluguem moradias provisórias; Kassab oferece mais R$ 300. A oposição vai lá e diz que ninguém deve sair, que a solução é o governo realizar obras de drenagem e saneamento para evitar que o bairro fique debaixo d’água.
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A maioria dos moradores prefere garantir o pedaço de chão, mesmo no sufoco dos alagamentos, sonhando com soluções à holandesa. É assim há mais de duas décadas. Lutam por direito à moradia no local e melhores condições desde 1986, quando invadiram a área. Em 1998, o governo decretou que a região era área de proteção ambiental, mas eles fincaram o pé. A maioria está desempregada ou trabalha precariamente como catadores, camelôs e empregadas domésticas.

Remoções

As enchentes na várzea do Rio Tietê na Zona Leste de São Paulo vão completar dois meses amanhã. O prefeito Gilberto Kassab quer erradicar os bairros que surgiram irregularmente na região. Além do Jardim Pantanal, submergiram o Jardim Romano e a Chácara Três Meninas, que também ficam em São Miguel Paulista, a 30km do centro de São Paulo.

Zona Leste

A Zona Leste de São Paulo é legendária pela volatilidade de seus eleitores. Em 1985, derrotou Fernando Henrique Cardoso , à epoca no PMDB, quando a eleição parecia ganha. Votou em Jânio Quadros (PTB). Elegeu Luiza Erundina(PT) em 1989, mas preferiu Paulo Maluf (PSD) em vez de Eduardo Suplicy (PT) em 1992. Em 1996, votou em Celso Pitta (PP); depois, em 2000, elegeu Marta Suplicy (PT), cuja reeleição rejeitou. Optou por José Serra (PSDB) em 2004; em 2008, consagrou o prefeito Gilberto Kassab, que agora caiu em desgraça.

Mobilização

Desde 2002, os moradores do Jardim Pantanal estão organizados no Movimento por Urbanização e Legalização do Pantanal (Mulp). Quem comanda a entidade é o Movimento Terra Livre, do Coletivo Liberdade Socialista, ligado ao PSol. Formado por representantes de comissões de ruas, as bandeiras do Mulp são: respeito à vida, ao bem estar, a relação democrática, a liberdade, a solidariedade, a união e a responsabilidade ética em relação à comunidade.

Candidatíssima

Nem Ciro Gomes (PSB) nem Aloizio Mercadante (PT), quem quer concorrer ao Palácio dos Bandeirantes é a ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy. Por causa das enchentes, está animada com o desgaste de Serra e Kassab na capital, seus algozes nas duas últimas eleições municipais. Se o partido quiser, será candidata.

Miséria

Tudo começou quando o então governador de São Paulo, Orestes Quércia, hoje candidato ao Senado pelo PMDB, reintegrou uma área ocupada no Itaim Paulista. Levou duzentas famílias que ocupam o local para as proximidades do Pantanal, na várzea esquerda do Rio Tietê.

Os movimentos de moradia (sem-teto) levaram 3 mil pessoas para a região. Hoje, em oito quilômetros quadrados, há 25 mil famílias, ou seja, cerca de 100 mil pessoas

Rendição

Novo líder do DEM na Câmara, o deputado Paulo Bornhausen (SC) liberou a bancada para a votação do regime de partilha do pré-sal. Seu antecessor, Ronaldo Caiado (GO), fez feroz obstrução ao projeto, com um discurso ideológico contra a Petrobras.

Mérito/Luiz Paulo Barreto, o 222º ministro da Justiça, é o primeiro funcionário de carreira a assumir a pasta, desde o ministro Caetano Pinto, nomeado por D. Pedro I em 3 de junho de 1923. Com 46 anos, ingressou na carreira em 1986 como agente administrativo. Chegou a secretário-executivo na gestão do ex-ministro Márcio Thomaz Bastos, que o escolheu por mérito.

Bomba-relógio/Após a revelação da tentativa de suborno do jornalista Edmilson Edson dos Santos, o Sombra, uma nova diligência da Polícia Federal é aguardada para o meio da semana, o que pode aprofundar a crise no governo do DF

Campanha/A ministra Dilma Rousseff será a estrela do encerramento do Encontro Nacional da Juventude do PT, hoje, em Brasília. Ela será recebida pela jovem militância como candidata, sob o jingle que repete “ela é a mãe do PAC. É a Dilma, é a Dilma”.

''Somos favoritos. Mas eleição será dura''

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Guerra diz que PT quer comparar o governo atual com o de FHC para esconder fraquezas da candidata petista

Ana Paula Scinocca


O presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, afirmou que o PT do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da ministra Dilma Rousseff, pré-candidata ao Planalto, quer comparar seu governo com o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para "esconder" a ministra candidata. "Eles (petistas) reconhecem que a candidata é fraca, que não tem suficiente currículo, que não tem experiência feita", afirmou. Guerra disse que o candidato tucano, José Serra, não fará o papel de anti-Lula na eleição de outubro e que espera do PT "terrorismo e mentira". A seguir, os principais trechos da entrevista ao Estado.

O governo insiste na tese de comparar os oito anos do presidente Fernando Henrique com os oito anos do presidente Lula. Será a eleição do passado contra o passado?

É uma comparação equivocada. Cada governo desempenha um papel em um determinado tempo social, econômico e político. Há convicção muito clara entre nós que fizemos um excelente governo. Se há o que comparar, nenhum problema de fazer essa comparação. Importante que ela seja feita inclusive agora e todo tempo. Temos que discutir nesta eleição o que vai acontecer, não adianta esconder a candidata, o que ela é, o que diz e com o que ela se compromete. O PT e seus aliados não têm confiança na sua candidata. Eles reconhecem que a candidata é fraca, que não tem suficiente currículo, que não tem experiência feita.

A que o senhor atribuiu o crescimento da ministra Dilma nas últimas pesquisas?

Nunca ninguém imaginou que a candidata do presidente da República, do governo atual, do PT, tivesse 10, 15 ou 20% de intenções de votos ou fosse para a eleição desse tamanho. Somos favoritos, mas a eleição vai ser dura. É inevitável que a candidata cresça. Mas estamos monitorando isso a cada dia. Nada além das expectativas que sempre tivemos.

O PSDB se considera favorito por quê?

Estamos na frente, temos o que dizer e temos o melhor candidato.

Mas o PT também tem o que dizer.

Evidente que tem o que dizer sobre o que fizeram, mas o problema é que a população vai decidir entre um candidato que pode fazer mais e muito mais e uma candidata que seguramente fará muito menos do que aquilo que foi feito. Até porque o exemplo da administração da candidata é negativo. Ela trabalha com fundamentos autoritários, não consegue produzir nada organizado, tem uma visão preconceituosa e uma cabeça muita atrasada.

O PSDB está convencido de que só vence a eleição se Aécio Neves for vice de Serra?

Nós decidimos no partido não tratar disso. Não faz sentido para nós políticos cuidar disso agora.

O que o senhor espera da campanha?

O que já começou a ser feito. Terrorismo e mentira. Documentos do Ministério do Desenvolvimento Social, de maneira explícita, levantam suspeitas que o próximo governo não deverá continuar com o Bolsa-Família. É uma ação desavergonhada e não ética. É o padrão que está sendo desenvolvido aí. Estamos enfrentando um adversário que não respeita limite, não os considera e que não faz a menor questão de falar a verdade.

O Serra será o anti-Lula na campanha?

Não. O Serra não será. O Serra tem de se posicionar, como já se posiciona, como o José Serra, do PSDB, partido que fez muito pelo Brasil e que vai fazer muito mais.

De que forma o PSDB pretende apresentar o Serra na campanha?

Não vamos precisar fazer nenhuma cirurgia nele. Ele vai ser como ele é, como foi. A gente sabe qual o candidato que nós temos e confiamos nele.

Para juristas, Lula já faz campanha, mas é difícil punir

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Ex-presidente do TSE sugere que tribunal publique advertência sobre limites da divulgação antes do prazo

Luciana Nunes Leal


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem feito piada com a situação, a oposição não acha a menor graça, mas juristas ouvidos pelo Estado são praticamente unânimes na avaliação de que o petista exagera na promoção de sua candidata, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. A maioria reconhece, porém, que é difícil a fundamentação jurídica de antecipação da campanha eleitoral e aposta em uma tendência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de continuar a considerar improcedentes as denúncias encaminhadas até agora por PSDB, DEM e PPS contra Lula e Dilma. O tribunal argumenta que há falta de provas ou não é possível vincular os fatos denunciados à disputa eleitoral.

Para o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Carlos Velloso, o TSE deveria publicar imediatamente uma advertência sobre os limites da divulgação de candidaturas antes do início permitido da propaganda eleitoral, que neste ano será 6 de julho. Com isso, ficaria mais claro o que podem e o que não podem candidatos e não-candidatos, como o presidente da República. "O tribunal também tem função administrativa das eleições, de disciplinar. Não julga apenas. Poderia fazer uma advertência e, se não for cumprida, aplicar as punições", sugere.

Ex-presidente do TSE e do STF, Velloso diz que o presidente da República deve "assumir posição de magistrado, ter um comportamento severo em relação à lei". "Se o presidente faz discurso e menciona a candidatura da ministra Dilma, que todos sabem que será candidata, está havendo campanha antecipada. Como ficam os candidatos ao Parlamento, às Assembleias, aos governos dos Estados? É um mau exemplo", diz.

Além da Lei Eleitoral (9.504/97), que pune com multa a propaganda antecipada, a Lei de Inelegibilidades (Lei Complementar 64, de 1990) trata de abuso do poder econômico e político, praticado por autoridades que buscam favorecer partidos ou candidatos aliados. As penas são proibição de candidatura nos três anos seguintes e cassação do registro de candidatos beneficiados. No entanto, a legislação não cita casos concretos de abusos, deixando para a Justiça Eleitoral a análise de situações específicas denunciadas pelos adversários ou pelo Ministério Público Eleitoral.

PRÉ-CANDIDATOS

Ex-presidente da Comissão de Direito Político Eleitoral da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de São Paulo, Luciano Santos vê campanha antecipada também na prática de outros pré-candidatos. Cita como exemplos os encontros do PV em torno da senadora Marina Silva e o fato de a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) fazer anúncios em outros Estados, quando já é sabido que o governador José Serra é o pré-candidato do PSDB à Presidência. Tanto o PV quanto o governo paulista dizem que não há propaganda em suas ações e tudo está dentro dos limites legais.

O destoante, na avaliação de Santos, é a participação direta de Lula, que não é candidato, em defesa de Dilma. "Em tese, os pré-candidatos teriam paridade de armas. Mas o presidente extrapola os limites de administrador quando diz que tem candidata, que ela vai ganhar a eleição. Ele tem direito de ter candidata, mas não de usar os meios da Presidência em favor dela", afirma Santos, em referência ao fato de que Lula tem falado da sucessão e da candidatura de Dilma, embora sem citar o nome da ministra, em discursos oficiais, durante compromissos da Presidência.

O professor de direito eleitoral da Universidade Federal de Juiz de Fora Geraldo Mendes aponta as dificuldades para comprovar ilegalidade nas ações do presidente. "Quando inaugura uma obra e faz discurso, o presidente exerce uma função que é própria dele e a imprensa está no papel de acompanhar e divulgar. O grande problema é quando o agente público beneficia seus correligionários. Entendo que a conduta é reprovável e até imoral, mas juridicamente é muito difícil de impedir", diz.

DEFESA

A Advocacia-Geral da União (AGU), encarregada da defesa de Lula e da ministra, rejeita qualquer ilegalidade. Até agora, foi bem-sucedida. Quatro representações da oposição por campanha antecipada foram consideradas improcedentes pelo TSE. Outras quatro aguardam decisão do tribunal.

Os advogados da União insistem que não há propaganda nos discursos de Lula. "O presidente, assim como os demais administradores públicos, têm o dever de prestar contas à população da destinação dada aos recursos do Estado, o que pode ser realizado com pronunciamentos, campanhas institucionais e inaugurações de obras e serviços públicos, entrevistas, publicação de balanços periódicos, entre outros meios. Os discursos e manifestações estão de acordo com a legislação eleitoral e a jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral", respondeu a assessoria de imprensa da AGU ao Estado.

PT, o suplício de uma saudade :: Francisco de Oliveira

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Aos 30 anos de sua fundação, o PT realiza todas as previsões da ciência social sobre a estrutura e o funcionamento das grandes organizações. No caso dos partidos, foi Robert Michels quem traçou essa rota.

Burocratizado, previsível, com abissal espaço entre suas elites e a massa, mesmo a hoje fracamente militante. Prestou uma excelente contribuição à democratização nacional, e continuará sendo um dos dois principais partidos políticos no Brasil. Mas não ampliou a democratização nem a republicanização do Estado.

De partido ideológico, transitou rapidamente para "partido-ônibus" e deste para "partido paraestatal". O partido paraestatal se define como uma organização ambígua, que realiza tarefas que o Estado lhe delega.

No caso do PT, o Estado lhe delega as funções de legitimação na massa popular, e o Bolsa Família é seu maior instrumento.

A mídia e a oposição, em geral, acusam o PT de aparelhamento do Estado. O fenômeno real é o oposto: é o Estado quem aparelha os partidos, embora esse aparelhamento venha coberto de deliciosos chantillys de bons salários, influência nas licitações e descaradamente na corrupção desenfreada.

Por isso, o PT já não é um partido da transformação. Na periferia subdesenvolvida, um partido patrimonialista, na versão machadiana/schwartziana da cultura do favor.

O pós-Lula não conhecerá grandes mudanças no rol dos partidos. O PT é o que mais sofrerá com uma magra dieta não governamental, se sua até agora pretensa candidata não se eleger: tensões internas ou a luta pelo espólio pós-Lula podem aproximá-lo do peronismo sem Perón. Se Dilma se eleger, a luta interna pelo controle de um governo sem personalidade e força partidária própria será também muito feroz.

A luta será para saber quem ocupa os cargos-chave, já que o próprio Lula tem a vocação de eminência parda, mas dirigirá Dilma de muito perto. Se os deuses favorecerem o atual governador de São Paulo, então será a vez de o tucanato voltar a engordar, e tratar de desfazer os trunfos lulistas.

Mas a política real passará longe dos partidos, como já acontece, e o Banco Central e as outras instituições serão os verdadeiros eixos da política.

Por último, convém frisar que o PT não tem nenhuma contribuição para a ampliação tanto da participação popular nas decisões mais importantes, como não melhorou a musculatura institucional do Estado.

Desde Vargas, o último grande reformador do Estado, ele segue o mesmo. FHC tentou introduzir um semiliberalismo via agências reguladoras, mas não foi muito longe; Lula, nem tentar tentou. E La Nave Va

Francisco De Oliveira,76, é professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Nabuco, um visionário::Paulo Gustavo

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Em 24 de outubro de 1893, num dos trechos mais discretos dos seus Diários, Joaquim Nabuco antecipa, com o visionarismo que lhe foi peculiar, o que hoje, passados 117 anos, a moderna medicina pôs em prática com amplos benefícios para a gestão da saúde e do tempo de médicos e pacientes. O conceito lhe ocorre como um verdadeiro achado pragmático para o qual naturalmente a mentalidade da época ainda não estava preparada. O texto é tanto mais significativo quanto menos se sabe (ou se divulga) que Nabuco - homem voltado tanto para o passado quanto para o presente -, a seu modo, intuía e sonhava o futuro. Não por acaso há uma gigantesca atualidade em seu pensamento, do mesmo modo que na forma límpida e segura em que o registrou. Assim o que nele há de apolíneo e grave e belo continua bem maior do que a exegese (aliás, ainda escassa) operada por uma inteligência nacional pouco preparada para compreendê-lo e estudá-lo. Aproveitando suas próprias palavras, pode-se dizer que ao Brasil faltava "mundo" para lê-lo e apreciá-lo em sua inteireza de pensador complexo e cosmopolita.

Bem, neste ano nacional Joaquim Nabuco, que outros, especialistas e competentes, cuidem, nesta província ou alhures, dos diversos Nabucos. Contento-me humildemente em trazer aos leitores - por curiosa, pitoresca e embebida de futuro - apenas uma esquecida página de seus Diários. Uma página visionária e simbólica em que o pensador e o homem de ação parecem sonhar juntos. Vale transcrevê-la em sua íntegra.

"Uma ideia. Não existe ainda um estabelecimento onde a gente se possa fazer examinar e medir do ponto de vista médico na perfeição. Eu imagino que os haverá no futuro. Antes de se ir a um especialista ou notabilidade, ter-se-á que passar pela casa de observação. Ali o indivíduo será examinado durante o tempo preciso em todos os detalhes e funcionamento do seu organismo por pessoas entendidas. Examinar-lhe-ão os órgãos, os movimentos, as urinas, as digestões, o sono, as forças, tomar-lhe-ão os precedentes, tudo por um grupo de especialistas, e com as informações ou o registro ele irá consultar o especialista indicado, levando a sua folha com as assinaturas de cada perito abaixo da coluna respectiva. Depois de uma vez examinado, o indivíduo poderá apresentar-se de tempos a tempos para observarem a marcha de sua saúde e compará-la com as notações feitas. Um estabelecimento destes, bem montado, cientificamente montado, daria resultado desde já.

Ajudaria muito aos médicos esse exame preliminar do laboratório. Eu imagino uma folha assim: F., nacionalidade, idade, antecedentes, dimensões, anormalidades, proporcionalidades (falhas para mais ou para menos na vitalidade relativamente às médias), observações nos diversos órgãos, urinas, diabetes, digestão, força nervosa, pontos fracos do organismo, lados fortes, hábitos, etc., etc. O indivíduo passaria de mão em mão de especialista, digamos que cinco especialistas bastavam para o exame completo de cada pessoa. Por 100 francos o indivíduo teria um exame completo e minucioso de seu organismo com suas deficiências, seus maus hábitos, as economias que devia fazer por um lado, o que devia queimar por outro, etc., etc., e ninguém dirá que esse passaporte para todos os médicos que ele tivesse que consultar era caro por 100 f. O estabelecimento teria que ser cosmopolita para a sua papeleta em diversas línguas valer em toda parte."

Como se observa, não faltava a Nabuco imaginação criadora de futuro aliada a um sentido quase tátil de concretude e de ação. Eis por que soube responder às grandes questões que a realidade social lhe impunha. Seu cosmopolitismo não excluiu a nação, seu refinamento não o impediu de ver o real agônico que o cercava, as causas que abraçou nunca o cegaram para o amanhã. Tanto o passado quanto o futuro igualmente lhe interessavam. Seus Diários, sua obra e seu ideário espelham essa atitude. Por isso, valeu por muitos e sonhou por muitos que não podiam sonhar.

» Paulo Gustavo é escritor e mestre em teoria da literatura

Ferreira Gullar::Carta tardia a um poeta arredio

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Saquear a estátua de Carlos Drummond de Andrade é coisa de gente demasiado ignorante

Poeta Carlos Drummond de Andrade, desculpe-me se venho lhe perturbar o sossego, dizendo-lhe coisas que, para você, a esta altura, não têm qualquer importância. Estarei sendo mesmo impertinente, ao manifestar-lhe, deste modo, minha solidariedade em face do vandalismo com que têm agredido sua estátua, ali, no calçadão da avenida Atlântica.

Saquear a estátua de um poeta é coisa de gente demasiado ignorante.

Falo de impertinência minha porque, pelo que sei de você, estou certo de que não aprovaria essa ideia de materializá-lo em bronze como se estivesse sentado num dos bancos da praia a observar os banhistas e as banhistas sob o sol escaldante. Não que fosse indiferente à beleza das moças exibindo-se nos maiôs sumários que usam. Mas uma coisa é um poeta de carne e osso e outra, muito diferente, um poeta de bronze.

Tenho certeza de que jamais imaginou, ao passear por esse mesmo calçadão, que um dia estaria ali, metalicamente moldado, exposto ao sol e à chuva, à contemplação dos turistas como à solidão das noites intermináveis, quando o bairro inteiro dorme e mal se ouve, distante, o quebrar das ondas na areia.

Já que você, agora, é de bronze, e não me ouve, aproveito para dizer-lhe o que não disse nas raríssimas vezes em que nos encontramos e nas poucas, também, em que falamos, porque a verdade é que, se não sou tão arredio quanto você, sempre me foi difícil procurar as pessoas, muito mais ainda, poetas célebres, como é o seu caso. Já bastava ser célebre para me assustar; pior ainda se, além de célebre, era esquivo como você.

Vi-o, pela primeira vez, ao sair do elevador do "Correio da Manhã", na avenida Gomes Freire, aonde fui com Oliveira Bastos e Décio Victório, certa tarde, em que decidimos escandalizar as pessoas. Meus dois companheiros tinham as respectivas gravatas presas à cintura, enquanto eu trajava calças, paletó e gravata mas, em lugar de sapatos, calçava tamancos. Você não deve ter se dado conta da provocação, pois mal nos olhou, ao sair do elevador. Subimos até o andar da Redação e, numa saleta, nos deparamos com Otto Maria Carpeaux que, míope como era, escrevia à mão com a cara grudada no tampo da escrivaninha. Entramos os três e nos pusemos, ali, imitando-o, também com a cara colada na mesa. Ele se assustou e nos lançou um olhar indignado que nos fez deixar a saleta às gargalhadas.

Isso foi em 1955, quando alguns poucos que me conheciam tinham-me por maldito. Eu vagabundava, naquela época, pelas ruas do centro da cidade e às vezes me sentava à porta de um restaurante, ali na esquina de Graça Aranha com Araújo Porto Alegre; para contemplar o edifício do hoje Palácio Gustavo Capanema, que parecia flutuar, onde você trabalhava. E o vi, certa vez, deixar o trabalho, de mãos dadas com uma mocinha, que, soube depois, era sua namorada. A sua cara, porém, nada dizia.

Muitos anos se passaram até que você chegasse aos 70 anos e me convidassem para participar de um programa de televisão em sua homenagem. Escolhi, para dizer, aquele seu poema "Memória", por ser curto e por ser belo:

"As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão."

Fiquei todo bobo quando, dias depois, recebi um bilhete seu, agradecendo minha participação na homenagem e elogiando o modo como havia dito o poema. Tenho esse bilhete comigo, até hoje, guardado em alguma gaveta.
A última vez que o vi foi no velório de Vinicius de Moraes, no cemitério São João Batista. A morte, neste caso, serviu para nos aproximar: fui falar com você e, para minha surpresa, em vez do homem tímido e reservado, deparei-me com um sujeito irritado, reclamando da doença que lhe tinha aberto uma ferida no rosto, como me mostrou. Havia, de fato, uma cicatriz que lhe marcava a face direita.

Depois disso, só voltaria a vê-lo naquele mesmo cemitério, desta vez em seu próprio velório. Eu tinha, naquele dia, um compromisso de trabalho em Brasília mas, a caminho do aeroporto, fui, por assim dizer, despedir-me de você. E, desta vez, quem estava revoltado era eu, revoltado com sua morte, com esse fato inevitável e inaceitável, que é a morte das pessoas que amamos ou admiramos. As declarações, que dei aos jornalistas, naquela ocasião, estavam mais perto do insulto que de outra coisa. A quem eu insultava, na verdade, não sei.

Mais uma vez, é proibido proibir:: Luiz Roberto Nascimento Silva

DEU NO JORNAL DO BRASIL/Caderno B

Se há uma pessoa que, por sua personalidade leonina e precisa metralhadora mental giratória, não necessite de defesa e proteção, é Caetano Veloso. Mas o objetivo deste artigo vai além disso.

Fui informado pelo escritor baiano e meu amigo Ildásio Tavares, em seu blog, que determinados grupos políticos organizam um movimento para vaiar o grande artista durante sua participação no carnaval de Salvador.

Isso seria uma retaliação pública a sua crítica sobre o presidente da República expressa em entrevista recente. Prefiro não crer nesse fato julgando que com um pouco de bom senso esse grupo irá abandonar essa ideia absurda.

Caetano Veloso representa a grande tradição de contribuição baiana à nossa cultura e formação do que temos de melhor como nação. Segue a linhagem de Gregório de Matos, Castro Alves, de Jorge Amado que trouxe o povo para a ficção, de Dorival Caymmi, que trouxe o povo para a música, de João Gilberto, que modificou a estrutura da linguagem musical criando uma nova sintaxe que desembocaria na bossa nova. Se em todos os segmentos culturais a participação da Bahia é exemplar, na música é excepcional, sendo o estado que mais produziu artistas e movimentos musicais de expressão nas últimas décadas no Brasil.

Poucos artistas divulgaram a Bahia dentro e fora do país quanto Caetano. Poucos expuseram suas posições políticas com tanta clareza e contundência quanto ele, que foi obrigado a exilar-se do Brasil exatamente por isso. Além das posições políticas, do ponto de vista artístico poucos artistas foram tão prolíficos e ousados, renovando sempre sua linguagem e correndo sempre novos riscos, saltando para novos espaços sem redes de proteção, quando muitos se acomodam. Inventou a tropicália, resgatou cantigas do folclore baiano, defendeu a importância de Roberto Carlos quando ela estava fora de foco, trouxe a poesia para as letras musicais com o máximo de invenção e sofisticação, mergulhou no rock em sua versão despojada, seca, gutural. Como se não bastasse, é um dos maiores cantores do país, a ponto de reinventar clássicos esquecidos da MPB transformando essas músicas quase em criação sua.

Ora, como um artista dessa importância pode ser vaiado no estado, na cidade de onde partiu para revolucionar a nossa cultura? Não faz sentido. Tudo isso ainda por cima no Carnaval, que é a festa da liberdade do povo brasileiro, a explosão simbólica que permite em sua curta duração uma aproximação das classes sociais, uma inversão de papéis sociais ajudando a manter certa doçura nessa porção portuguesa da América Latina.Para denunciar esse equívoco, fomos buscar na própria obra de Caetano a melhor argumentação contra ele. O título do artigo tem origem no refrão do movimento estudantil europeu e francês de 1968 e na música homóloga que ele compôs no mesmo ano. No 3º Festival da Canção, após ser vaiado enquanto tentava cantar sua composição, Caetano fez um discurso ontológico, em certo sentido ainda mais atual que a própria música. Numa das passagens, ele disse: “O problema é o seguinte: vocês estão querendo policiar a música brasileira. Viva Cacilda Becker!”.

A essência da democracia é a liberdade de expressão. Tenho a esperança que a crônica dessa agressão anunciada não ocorrerá. Os foliões chegando à Praça Castro Alves ficarão imbuídos do espírito do homenageado.

Lembrarão sua advertência: “A praça é do povo/ Como o céu é do condor.

/ É o antro onde a liberdade / cria águias em seu calor!”.

Luiz Roberto Nascimento Silva foi ministro da Cultura do governo Itamar Franco e secretário da Cultura do governo Aécio Neves. É mestre em direito econômico pela UFRJ

BOM DIA! - Marchinhas de Carnaval

Eliane Cantanhêde:: Titanic do século 21

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Brasília - O regime Hugo Chávez faz água por todos os lados. Quinto produtor de petróleo do mundo, a Venezuela vive uma crise interna grave, vê minguarem os seus aliados "esquerdistas" nas Américas e está pendurada internacionalmente na Rússia e no Irã, o que já diz tudo.

Chávez fez uma faxina institucional na Venezuela, virou-se de costas para os EUA e de frente para a América do Sul e planejou investimentos externos e a conversão dos fabulosos lucros do petróleo na transformação da sociedade e da quase inexistente planta industrial. O messianismo bobo, porém, afundou todos esses sonhos.

Onze anos depois, a Venezuela convive com fuga de investidores, estatizações, fechamento de TVs e uma crise na economia que não fica só nos números, mas atinge a vida das pessoas: que tal racionamento de água e de energia? Os aliados de primeira hora pulam do barco.

Chávez também imaginou uma América do Sul "bolivariana", unida e pronta a enfrentar a potência com regimes fechados e discursos a la Fidel. Falou-se até da "esquerdização" da região, com as eleições na Bolívia, no Equador e na Nicarágua, como se houvesse um processo. Mas o processo engasgou.

O Brasil, em vez de fechar, abre-se para o mundo. Na Colômbia e no Peru, a aliança com os EUA só recrudesceu. Na Argentina, os Kirchner têm problemas demais para brincar de esquerdistas. Agora, o Chile dobra à direita, e Honduras corta o fio da meada bolivariana na América Central e no Caribe.

A Rússia tem o pior desempenho dos Bric na crise econômica, e o Irã, isolado da comunidade internacional e matando seus dissidentes políticos e religiosos, só pensa naquilo: enriquecer urânio. Ambos têm mais o que fazer do que embalar a Venezuela.

Chávez sonhava com o "socialismo do século 21". Os venezuelanos acordam no "titanic do século 21" e sem comandante alternativo.

O QUE PENSA A MÍDIA

EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
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sábado, 6 de fevereiro de 2010

Reflexão do dia – Joaquim Nabuco

“Na Inglaterra não há semelhante escravidão do partido. O país é governando, como nos Estados Unidos, por dois partidos que se alternam e se equilibram, mas os partidos ingleses são partidos de opinião, não machines, como os americanos, das quais certos de bossses governam e dirigem os movimentos.”


(Joaquim Nabuco, no livro “Minha Formação”, abril de 1900, pág.140 – Ediouro, 1966)

A nova classe média::Merval Pereira

DEU EM O GLOBO

No discurso que fez ler em Davos, ao receber o prêmio de Estadista Global, o presidente Lula elencou entre os muitos autoelogios aos seus sete anos de governo a inclusão de 31 milhões de cidadãos na classe média, e a retirada de outros 20 milhões da linha de miséria absoluta.

Embora não seja uma situação restrita ao Brasil — pois a redução da pobreza nos países emergentes, e consequente aumento da classe média, faz até com que um estudo da Goldman Sachs preveja a explosão da classe média mundial até 2030, abrangendo nada menos que dois bilhões de pessoas, ou 30% da população mundial —, este é “um dos fenômenos sociais e econômicos mais importantes da história recente”, na definição dos cientistas políticos Amaury de Souza e Bolívar Lamounier. Eles são os autores do recém-lançado livro “A Classe Média Brasileira: Ambições, valores e projetos de sociedade”.

Os autores consideram que “parecem estar se repetindo, em escala ampliada, os processos que levaram, mais de um século atrás, ao surgimento da classe média dos países mais industrializados”.

Entre os fatores que deflagraram esse processo, os autores destacam “a extraordinária prosperidade da economia mundial nos 20 anos que antecederam a crise de 20082009”, que contribuiu para reduzir a desigualdade de renda em países como a China, Índia e Brasil e, dessa forma, abriu espaço para a mobilidade social de grandes contingentes, formando o que se tem denominado “nova classe média”, onde, coexistindo com a classe média tradicional A/B “e adquirindo hábitos semelhantes, observa-se cada vez mais a presença de indivíduos e famílias provenientes da chamada classe C”.

O Brasil é parte expressiva desse megaprocesso de mobilidade social, mas os autores questionam “a sustentabilidade desse gigantesco movimento de ascensão social” nos termos em que ele está se processando no país.

Eles admitem que o crescimento da classe média e de seu poder de compra ajuda a expansão do mercado consumidor, “além de firmar padrões e tendências de consumo com poder de irradiação para o restante da sociedade”.

E esse crescimento da parcela que aufere a renda média da sociedade foi de 22,8% entre 2004 e 2008, “em larga medida pelo aumento da oferta de empregos formais e concomitante aumento da renda do trabalho”. Baseado em amplas pesquisas, quantitativas e qualitativas, em diversas regiões do Brasil, o livro “busca definir uma classe média num país onde as diferenças estão sendo diluídas pela difusão do consumo”.

O quadro que resultou das pesquisas é definido pelos autores como o de um país “extraordinariamente dinâmico, sem barreiras para o consumo, e no qual todos os indivíduos querem adotar os padrões da classe acima”. Mas como vão gerar a renda necessária para sustentar tais padrões?, perguntam os autores.

O economista Marcelo Neri, coordenador da pesquisa da Fundação Getulio Vargas, do Rio, que revelou o crescimento da classe média brasileira, que hoje já abrange 52% da população economicamente ativa, montou dois índices para avaliar o comportamento dessa nova classe média.

O primeiro, de potencial de consumo baseado em acesso a bens duráveis, a serviços públicos e moradia, e o segundo sobre o lado do produtor, onde é identificado o potencial de geração de renda familiar de forma a captar a sustentabilidade das rendas percebidas através de inserção produtiva e nível educacional de diferentes membros do domicílio, investimentos em capital físico (previdência pública e privada; uso de tecnologia de informação e comunicação), capital social (sindicatos; estrutura familiar) e capital humano (frequência dos filhos em escolas públicas e privadas) etc.

Ele admite que foi “com surpresa” que chegaram à conclusão de que o índice do consumidor aumentou 14,98% entre 2003 e 2008, contra 28,62% do índice do produtor.

Neri avalia com bom humor: “O brasileiro pode ser na foto ainda mais cigarra que formiga, mas estamos sofrendo gradual metamorfose em direção às formigas”.

Para reforçar seu otimismo, ele analisa que “se olharmos para o Nordeste o ganho de renda do trabalho per capita real médio do período 2003 a 2008 foi de 7,3% ao ano, o que contraria a ideia de que o aumento de renda do brasileiro em geral, e do nordestino em particular, deve-se apenas ao “assistencialismo oficial”.

O livro, no entanto, contém pesquisas que revelam ser alta, “por qualquer critério”, a proporção da classe média que teme perder o padrão de vida atual, ou não ter dinheiro suficiente para se aposentar. Segundo os autores, ver-se privado de renda pela falta de trabalho, perda do emprego ou liquidação do negócio próprio “é a preocupação dominante dos entrevistados mais pobres”.

O crescimento econômico dos últimos anos traduziu-se em forte expansão da demanda por bens e serviços. Esse perfil valoriza a feição “cultural” de certas atividades de lazer, como televisão por assinatura, eventos artísticos e viagens internacionais.

Telefones (celulares ou fixos), computadores e acesso rápido à internet configuram o padrão de investimentos em produtividade típico da classe média, o qual é emulado pelas famílias de classe média baixa.

Já os investimentos em capital humano — plano de saúde, filhos em escolas privadas, poupança ou investimentos financeiros e previdência privada — ainda são em boa medida restritos à classe média.

Mas as oscilações da renda familiar geradas por empregos pouco estáveis ou atividades por conta própria “sinalizam dificuldades para as faixas de renda mais baixas manterem o perfil de consumo ambicionado”.

Segundo Amaury de Souza e Bolivar Lamounier, endividando-se além do que lhes permitem os recursos de que dispõem, essas famílias se defrontam com um risco de inadimplência que passa ao largo das famílias da classe média estabelecida. (Continua amanhã)

Cresce pressão para que Aécio seja vice de Serra

DEU NO ZERO HORA (RS)

Governador mineiro nega qualquer possibilidade de se aliar ao paulista, mas decisão não é irreversível

O governador mineiro Aécio Neves (PSDB) nega mas, à medida que o tempo passa, a cúpula tucana trabalha com mais intensidade para vê-lo candidato à vice-presidente na chapa do colega paulista, José Serra (PSDB).

O crescimento da candidata do PT à Presidência, a ministra Dilma Rousseff, nas pesquisas, acendeu a luz amarela no PSDB. Nos bastidores, o partido trabalha com dois cenários para Aécio. No primeiro, Serra toma de vez a dianteira nas intenções de voto para o Planalto. Nesse caso, o mineiro pode centrar forças para turbinar a eleição de seu vice, Antonio Anastasia, para governador de Minas e, mais tarde, ingressar na barca do paulista. No segundo cenário, em que Dilma continua em ascensão, porém, mesmo que a pressão para que ingresse na chapa de Serra cresça ainda mais, Aécio deve seguir candidato ao Senado.

Aécio diz que não está nos seus planos compor a vice. A cautela, no entanto, baseia-se no temor de que o favoritismo de Serra seja recall das eleições passadas e que a tendência do governador seja perder espaço para os demais candidatos. Para os aliados de Aécio, ele não pretende entrar num projeto que, além de não ser seu, tem chances de derrota.

Tucanos próximos ao governador mineiro acreditam que uma possível adesão dele projeto de Serra também dependerá de um gesto do governador de São Paulo.

– A habilidade política do Serra pesará muito. Ele vai precisar fazer um afago no Aécio – diz um parlamentar.

Revista diz que tucano tem de assumir campanha

Fora do país, analistas políticos avaliam como equivocada a postura de Serra, ainda reticente em entrar de corpo e alma na campanha presidencial. Para a revista britânica The Economist, “Serra precisa sair em campanha e começar a louvar seus próprios méritos se quiser evitar ser lembrado como o melhor presidente que o Brasil jamais teve.”

A reportagem – em tom opinativo e não assinada, conforme o padrão da revista – destaca que, após passar mais de um ano na liderança folgada das pesquisas, Serra viu cair sua vantagem em relação a Dilma, enquanto Lula, “ainda imensamente popular após sete anos no cargo”, se dedica “energicamente a fazer campanha por sua candidata”, segundo a revista.

A publicação afirma que o tucano tem uma “trajetória impressionante como acadêmico, ministro e governador”, mas também o apresenta como “um personagem curioso”.

Miguel Reale Júnior::Sob o prisma da escravidão

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Este é o ano Joaquim Nabuco, centenário de sua morte. Dedicou-se ele com ardor pelo fim da escravidão. É espantoso, mas apenas em 1879 começou a campanha abolicionista visando à emancipação plena dos escravos. Com 30 anos, deputado por Pernambuco, Nabuco, ao lado de 14 parlamentares, lançou a campanha pela abolição e fundou a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão.

Antes apenas houvera manifestações individuais em favor da erradicação da escravatura, como a dos Andradas na Assembleia Constituinte de 1823. José Bonifácio passara, após a independência, a pensar num projeto de nação sem escravidão e sem a degeneração moral dela decorrente, propondo também medidas de assistência aos escravos após libertos. Para o Patriarca, não poderia haver "uma Constituição liberal e duradoura num país continuamente habitado por uma multidão de escravos".

Em 1831, na Regência de Feijó, instituíra-se, por pressão da Inglaterra, lei pela qual o africano introduzido no País a partir de então seria livre. A lei não "pegou" e surgiu a expressão "para inglês ver", pois mais de 1 milhão de negros foram trazidos da África até o tráfico ser suprimido, em 1850. As medidas contra a escravatura cingiam-se a limitar a gangrena, não a eliminá-la, como dizia Nabuco, pois a Lei do Ventre Livre libertava os filhos de escravos nascidos após setembro de 1871, mas tão só ao completarem 21 anos.

Nabuco não foi reeleito em 1881. Residindo em Londres, continuava a luta pela libertação dos escravos em contato contínuo com a Anti-Slavery Society na capital inglesa. Escreveu, em Londres, O Abolicionismo, que, nos termos atuais, revela-se uma verdadeira história cultural do social, a mostrar como a sociedade brasileira de então representava a Nação e a si mesma pelo prisma da escravidão. Esta moldara a psicologia coletiva do País, infundindo uma forma de vida, de sentimentos, de valores, em suma, uma estrutura mental a penetrar em todos os ramos de atividade, da economia à religião. A escravidão não era apenas uma conveniência econômica, era um modo de compreensão da existência.

Por isso, escrevia em O Abolicionismo: "O nosso caráter, o nosso temperamento, a nossa organização toda, física, intelectual e moral, acha-se terrivelmente afetada pelas influências com que a escravidão passou 300 anos a permear a sociedade brasileira."

Este permear inteiramente a sociedade levou à adoção da escravidão pela própria Igreja, que negava na prática cotidiana o valor da caridade, pois conventos e todo o clero secular tinham escravos e estes viam no sacerdote "senão um homem que os podia comprar".

A escravidão contaminava de imediato os estrangeiros aqui residentes. Conforme Nabuco, os europeus estabelecidos no País em grande proporção possuíam escravos ou não acreditavam num Brasil sem escravos e temiam pelos seus interesses.

O atraso do Brasil no século 19 encontra forte explicação na escravidão. Para Nabuco, esta "não consente, em parte alguma, classes operárias propriamente ditas, nem é compatível com o regime do salário e a dignidade pessoal do artífice". De outra parte, escravidão e indústria são inconciliáveis, de vez que a escravidão sufocava a força motora da indústria, "a iniciativa, a invenção, a energia individual", bem como os elementos de que ela precisa, como "a associação de capitais, a educação técnica dos operários, a confiança no futuro".

Assinalou Nabuco, em outra obra exemplar, Minha Formação, que na campanha abolicionista a principal arma estava na "ação motora dos espíritos que criavam a opinião pela ideia, pela palavra, pelo sentimento". Era necessário, portanto, envolver a sociedade contra a escravidão para assim atuar sobre o Parlamento. O livro O Abolicionismo foi, então, obra que visava a ser uma arma de combate na denúncia da podridão da escravatura e no chamamento à luta pela sua abolição.

Ali descreve Nabuco, com todas as letras, em que consistia a escravidão, aceita por todas as classes sociais como natural disposição plena do outro, sobre o qual era permitido fazer de tudo, menos matar. Em comovente passagem, retrata o escravo como "o órfão do destino, esse enjeitado da humanidade, que antes de nascer estremece sob o chicote vibrado nas costas da mãe (...) e cresce no meio da abjeção da sua classe, corrompido, desmoralizado, embrutecido pela vida da senzala, que aprende a não levantar os olhos para o senhor, (...) condenado a não possuir a si mesmo inteiramente uma hora só na vida". Ao senhor tudo era permitido.

Esta fruição de alguém a seu bel-prazer, dispondo inteiramente de sua vida, do nascer ao morrer, só poderia levar à insensibilidade moral denunciada por Nabuco, que atribuía à escravidão a "destruição de todos os princípios e fundamentos da moralidade religiosa ou positiva - a família, a propriedade, a solidariedade social, a aspiração humanitária".

Para Nabuco, não só a raça negra não era uma raça inferior, como constituía um elemento de considerável importância nacional, parte integrante do povo brasileiro, pois onde havia algo construído lá se contara com o esforço dos africanos ou de seus descendentes.

A responsabilidade pela escravidão era de todos os que a consentiam. Nabuco conclamou os brasileiros à luta em favor da abolição, buscando que viesse a ser consagrada em lei, o que só ocorreu dez anos depois do início da campanha abolicionista. Deu-se fim à escravidão, mas os negros continuaram presos à discriminação, à pobreza, à falta de condições de ascender na sociedade.

O centenário de morte de Nabuco é uma boa oportunidade de se examinar em que medida ainda atuam sequelas da escravidão no comportamento do brasileiro, ao aceitar a normalidade da corrupção, os privilégios, o desrespeito à lei, ou ao se recorrer, como frisou Roberto Da Matta, ao "sabe com quem está falando?".

Miguel Reale Júnior, advogado, professor titular da Faculdade de Direito da USP, membro da Academia Paulista de Letras, foi ministro da Justiça

A lição do bom senso mineiro;; Villas-Bôas Corrêa

DEU NO JORNAL DO BRASIL

Entre as bravatas do presidente Lula para provar que tem uma saúde de ferro e que a disparada da pressão para os 18 por 12 no susto da semana passada e a lição de bom senso do mineiro governador Aécio Neves vai a distância que separa diferenças de temperamento e das regiões deste país continental.

Ora, o pernambucano de nascença e paulista por aclimatação, casamento, família e a carreira singular e única do torneiro mecânico que se torna o maior líder sindical do país e dispara na carreira política, saltando barreiras de vitórias e derrotas até a eleição, na terceira tentativa, a presidente da República, reeleito e correndo o risco de uma recaída com o desafio às recomendações de cautela dos médicos, não é nenhum super-homem. As fotos nos jornais e as imagens nas televisões mostram a imagem, preocupante, de um senhor com os ralos cabelos no cocuruto ensopados do suor que escorre pelo rosto, os olhos vermelhos, o macacão grosso de operário da Petrobras com uma coroa de suor em volta do pescoço, a barba branca e a fisionomia de extrema exaustão.

Entende-se que a fibra do lutador que venceu na vida aposte tudo, até a saúde, para eleger a ministra-candidata Dilma Rousseff, da sua exclusiva escolha – sem dar a menor bola para os muitos pretendentes do PT – para sucedê-lo nas eleições que se aproximam entre as chuvas torrenciais que inundam São Paulo e castigam quase todos os estados, do Norte e Nordeste ao Sul, e desafiam o governo a gastar bilhões nos remendos de emergência.

Mas há um limite que não deve ser ultrapassado. O presidente não pode descuidar da sua saúde e correr os riscos da insensatez. E, depois, não há razão para esta disparada à caça do voto. As pesquisas, que são os indicadores mais consultados, mostram a candidata do presidente encostando-se no virtual candidato da oposição, governador José Serra. E a campanha que o presidente e a sua candidata anteciparam, com o frágil pretexto de que visitava as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Minha Casa, Minha Vida que promete construir 1 milhão de residências populares, muitas a serem destinadas aos desabrigados pelas enchentes.

Campanhas costumam pregar peças aos sôfregos. As montanhas mineiras ensinam as lições da serenidade e da paciência. E o governador tucano Aécio Neves, neto de Tancredo Neves, o presidente que não tomou posse, surpreendeu os veteranos de Brasília com um desempenho de craque. Nas preliminares, testou a chance de disputar a vaga de Lula, com o apoio da base mineira e bons índices nas pesquisas. Mas, com o governador José Serra em cima do muro, Aécio refez as contas e fez a sua opção de disputar uma vaga de senador.

A pressão é para que se candidate a vice e, se eleito, passar quatro ou oito anos em férias, para as temporadas nas praias e nas noites do Rio da sua preferência nos fins de semana.O governador Aécio Neves deu uma freada com declaração categórica: “Fiz uma opção clara hoje: serei candidato ao Senado por Minas e, no Congresso, quero dar continuidade ao trabalho que iniciamos aqui”.

Aécio usou o freio de mão. No momento, são mínimas as possibilidades de trocar uma senatoria certa por uma vice duvidosa. A candidata de Lula, Dilma Rousseff, tem o apoio de um esquema fortíssimo: Lula crava o índice de 82% de aprovação nas pesquisas. A sua facilidade de comunicação nos improvisos atrai multidões aos comícios. E o presidente já passou o recado que pretende correr o país com a candidata até o último dia do prazo. E mesmo sem a candidata continuará a inaugurar obras todos os dias, suando na soleira ou debaixo de chuva.

Só não se fala no principal: o compromisso com a convocação de uma Assembleia Constituinte para a limpeza do entulho dos três poderes. Os flagrantes obscenos da distribuição de pacotes de notas no gabinete do governador Arruda de Brasília é apenas um indicador do fracasso de Brasília antes de estar pronta, um canteiro de obras no cerrado que virou a ceva das mordomias, da roubalheira, das propinas que, em níveis diversos, corroem a credibilidade dos três poderes.

O que o PT quer de Dilma - Editorial

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A versão preliminar do projeto do PT para um eventual governo Dilma Rousseff, a ser aprovado no 4º Congresso Nacional do partido, logo depois do carnaval, quando a ministra será sagrada herdeira do presidente Lula, é uma espécie de PAC político. Junta alguns dos objetivos clássicos do petismo - a começar da expansão da presença do Estado na economia - com a preocupação de privilegiar a ideologia como força motriz da "grande transformação" que dá título ao documento. Dilma, encarnando o pós-Lula, seria uma presidente mais ortodoxa do que o seu patrono - uma posição que não lhe seria difícil assumir, a julgar por sua formação, trajetória e personalidade.

"O programa é mais à esquerda do presidente Lula, mas não é mais esquerdista", diz o deputado Ricardo Berzoini, presidente do PT. "Isso significa que poderemos cumprir agora os objetivos sociais mais ambiciosos, porque as grandes questões macroeconômicas, como a dívida interna, ou foram solucionadas ou estão equacionadas." Se o plano fosse além das generalidades, seria mais fácil avaliar se esses objetivos são compatíveis com os fundamentos macroeconômicos mantidos por Lula ou, se não forem, de que lado arrebentará a corda. De qualquer forma, o espírito do novo "projeto nacional de desenvolvimento" não é menos triunfalista do que a retórica do presidente - que só irá se intensificar para converter a sua popularidade em sufrágios para a candidata que pinçou, à falta de alternativas.

"O Brasil deixou de ser o país do futuro", proclama a carta de intenções petista, divulgada por este jornal. "O futuro chegou." Fortalecido por uma "burocracia de alta qualidade", o Estado dirigista teria condições de capitanear um ciclo presumivelmente duradouro de crescimento acelerado, com investimentos públicos pesados e gastos sociais robustos. "A elevação das taxas de crescimento deverá marcar o governo Dilma", prevê o partido, com "mais empregos, renda e bem-estar social". Em consequência, "programas de transferência de renda, como o Bolsa-Família, perderão a importância que têm", ousa o documento, talvez numa tentativa de responder às críticas da oposição segundo as quais esses programas não preveem portas de saída.

O PT não está preocupado em explicar como ocorrerá "a grande transformação" ou de onde virão os recursos para ter um SUS de qualidade e expandir o orçamento da educação, como propõe o texto. Basta-lhe afirmar que, sob Dilma, o Brasil terá tudo isso e o céu também. Não se equivocará quem encontrar nesse palavreado ecos do "ninguém segura este país" da ditadura militar. Como o papel aceita tudo, o programa promete ainda "melhor condição de vida nas grandes cidades" - nome de um dos seus 13 "eixos" -, com mais linhas de metrô, veículos leves sobre trilhos e corredores de ônibus. Pelo visto, Dilma seria presidente, governadora e prefeita.
Mas a invasão retórica das atribuições dos poderes estaduais e municipais tem endereço certo. O PT precisa dos votos da nova classe média.

Nos anos Lula, 31 milhões de brasileiros mudaram de estrato social. Nem por isso se alinharão automaticamente nas urnas com a protegida dele. Fiel da balança da sucessão, são de longe mais conservadores do que os petistas históricos - e julgam os políticos por suas ações.
Prudentemente, o plano para Dilma deixa implícito que a política fiscal e monetária não passará por nenhuma grande transformação. Em princípio, portanto, a candidata ficará dispensada de assinar uma nova versão da Carta aos Brasileiros, de junho de 2002. Com ela, o candidato Lula tratou de exorcizar os receios de que, se eleito, poderia "mudar tudo isso que está aí", como o PT prometia. A plataforma do partido até então vigente, a Carta de Olinda, de dezembro de 2001, falava explicitamente em "ruptura".

Hoje, esse esquerdismo, como diria o presidente petista Berzoini, se tornou anacrônico. Lula não só o renegou na campanha que o levou pela primeira vez ao Planalto, como ignorou as pressões do partido, no início do seu governo, pela mudança da política econômica executada pelo então ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Mas, na eventualidade de o partido vir a carregar nas tintas, ao ir além dos enunciados genéricos do que quer de Dilma, é de perguntar se ela teria a autoridade de Lula para contrariar os companheiros - se discordasse deles.

Lula, PT e Dilma defendem Estado forte

DEU EM O GLOBO

O presidente Lula e a ministra Dilma Rousseff fizeram ontem enfática defesa do Estado forte, mas “sem estatizar por estatizar” , tese defendida pelo PT para o programa de governo da cândida à Presidência. DEM e PSDB chamaram a proposta de populista e acusaram o PT de estar rasgando a “Carta aos Brasileiros”, de 2002.

"Sem estatizar por estatizar"

Lula e Dilma defendem Estado forte, proposta prevista no programa do PT para a candidata

Carlos Souza, Cristiane Jungblut e Luiza Damé
PORTO ALEGRE e BRASÍLIA - Na inauguração da primeira fábrica de chips da América Latina, a estatal com fins lucrativos Ceitec, da área de microeletrônica, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, précandidata do PT à Presidência, exibiram ontem em Porto Alegre discurso afinado na defesa da presença forte do Estado na economia.

— O fracasso do sistema financeiro internacional fez ressurgir o Estado como único capaz de salvar a economia da crise — disse Lula, em discurso.

O presidente declarou que o governo não quer “estatizar por estatizar”, mas não abrirá mão de mostrar que “tem bala na agulha” para forçar o empresariado a ser mais parceiro e competitivo.

Deu como exemplo a intenção de levar banda larga a todas as escolas públicas do país, com ou sem a participação da iniciativa privada.

— O governo vai assumir a responsabilidade de levar banda larga a todos os rincões. O governo quer trabalhar em parceria com as empresas, mas, se (elas) não quiserem, tenham certeza que o governo vai fazer — reiterou, defendendo que as companhias públicas sejam superavitárias: — Eu quero é lucro.

Perguntada se o seu programa de governo prevê uma presença maior do Estado, Dilma disse que o Brasil “não está na fase antiga do estatismo pelo estatismo do período da década de 1950”: — Mas definitivamente não estamos na fase neoliberal, aquela em que todo mundo achava que o Estado dava conta de tudo. Achamos que o Estado tem de ter uma presença clara na economia.

Dilma ilustrou seu pensamento com o seguinte exemplo: — Como é que a gente vai fazer moradia para todos os brasileiros que ganham até três, quatro salários mínimos, sem subsídio? A equação não fecha, porque o que eles ganham não é suficiente para pagar uma casa.

Aí o Estado tem de entrar pesado.

Segundo a ministra, o Brasil está maduro para ter uma combinação boa entre o Estado — “um Estado necessário, não um Estado desmontado, sem característica” —, e o setor privado.

O PT prepara documentos para subsidiar o lançamento, dia 20, da précandidatura de Dilma, reforçando a estratégia da eleição plebiscitária e apontando diretrizes que ampliam a presença do Estado na economia. O principal texto, do assessor da Presidência Marco Aurélio Garcia — escolhido coordenador do programa de governo da candidata petista — levou líderes e dirigentes do PT a explicarem ontem que um eventual governo Dilma pretende fortalecer o Estado, mas não será estatizante

PT quer plebiscito entre dois governos

O teor do documento, que será discutido pela Executiva do partido em reunião quarta-feira, foi divulgado ontem pelo jornal “O Estado de S. Paulo”. As diretrizes do PT para o programa de governo ainda serão submetidas ao congresso do partido.

No entanto, os petistas confirmam a tese do Estado forte como um dos pontos centrais de um novo programa de governo do PT.

O deputado Ricardo Berzoini, que deixará a presidência do PT dia 20, diz que o texto está alinhado com a “Carta aos Brasileiros”, de 2002, mas reconhece que a proposta é mais à esquerda do que é hoje a prática do partido no governo porque gargalos importantes foram superados. Na campanha de 2002, Lula assinou um compromisso de não romper com a estabilidade econômica do governo tucano.

Para Berzoini, alguns pontos da plataforma original do PT foram alcançados no governo Lula, como superar a dependência do Fundo Monetário Internacional (FMI) e melhorar a relação dívida/PIB (conjunto de bens e serviços produzidos no país).

— Queremos fortalecer o Estado, e estão confundindo isso com ser estatizante.

O governo Lula valorizou a economia privada, mas não vamos ser ingênuos ou hipócritas de achar que a economia privada se regula só pelo mercado — disse Berzoini.

Mostrando-se indignado com o vazamento do documento antes de sua aprovação na Executiva Nacional, o presidente eleito do PT, José Eduardo Dutra, disse que as diretrizes em discussão no partido vão subsidiar a elaboração do programa de Dilma, que será finalizado incluindo as propostas dos partidos aliados: — Não coloco a questão de um governo mais à esquerda ou mais à direita. Não vou entrar nesse debate geográfico. O governo Dilma será a continuidade e vai aprofundar as conquistas. É um processo iniciado em 2003, no primeiro governo Lula.

Para ele, o fortalecimento do Estado é necessário e se mostrou eficaz no enfrentamento da crise econômica.

Dutra ressalta, no entanto, que nada do que está em discussão no partido é assustador para o mercado.

— É uma proposta de realidade. A crise econômica jogou por terra a falácia de que o mercado resolve tudo.

O Brasil se saiu melhor da crise porque já tinha fortalecido instrumentos como a Petrobras, o BNDES e a Caixa.

Não significa estatização nem modelo estatizante. É importante para o país ter instrumentos eficazes de fazer política econômica, pois as crises econômicas são cíclicas — disse.

No Congresso do PT, de 18 a 20, em Brasília, além do texto de Marco Aurélio, Dutra apresentará um documento sobre a tática eleitoral. E Berzoini prepara um manifesto da candidatura Dilma. Para Berzoini, o tom e a tática da campanha de Dilma serão o plebiscito entre os dois governos: — Será uma contraposição de épocas, mas não de forma obsessiva

'Eles rasgam a Carta aos Brasileiros'

DEU EM O GLOBO

DEM e PSDB criticam proposta do PT, chamada por eles de retrocesso e populista

Cristiane Jungblut e Martha Beck
BRASÍLIA- Líderes da oposição e economistas receberam com certa desconfiança o tom que tem sido adotado pelo PT, em textos internos e nas declarações de seus dirigentes, sobre a força do Estado na economia. Para DEM e PSDB, há um retrocesso em relação à postura do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, quando assinou a “Carta aos Brasileiros”.

O novo líder do DEM na Câmara, Paulo Bornhausen (SC), disse que é a tese defendida pelo PT para o programa de governo de Dilma é mais afinada com países como a Venezuela e que, aos poucos, o governo Lula já a adota, quando, por exemplo, faz críticas a instituições, como Tribunal de Contas da União (TCU), o Ministério Público e a mídia.

— Eles estão tentando apagar a História do país, como se antes deles nada estivesse escrito. É o atraso.

Nem a China aceitaria esse programa.

O PT vai rasgando, a Dilma e o Marco Aurélio “top,top” vão rasgando a “Carta aos Brasileiros”, assinada pelo presidente Lula, que foi o que proporcionou uma dose de acerto para que o Brasil pudesse avançar (nesse período atual) — disse Bornhausen, afirmando, porém, que é preciso reconhecer que houve avanços na gestão Lula.

Para o deputado, é normal uma intervenção do Estado para que não aconteça o pior, nas crises econômicas, mas, depois, a economia começa a tomar o seu rumo, diz.

O economista e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Márcio Holland tem a mesma tese do deputado do DEM e afirma que a estratégia do PT tem um caráter populista, porque acaba omitindo que a intervenção do Estado na economia pode trazer, por exemplo, problemas fiscais.

— Há um aproveitamento do atual momento econômico, em que vários governos tiveram que intervir no mercado para combater os efeitos da crise. Para mim, parece um discurso um pouco populista — disse Holland. — O país carece de investimentos em telecomunicações, saneamento, rodovias e ciência e tecnologia que o governo não tem a menor condição de fazer sozinho. O que houve durante a crise foi algo pontual que não pode ser transformado num programa nacional de desenvolvimento.

— Eles querem manter os empregos deles (com o Estado forte).

Essa é a prioridade deles. É evidente que há retrocesso (quanto a 2002). O discurso mais correto seria o aperfeiçoamento e a evolução (do que já ocorreu) — afirmou Sérgio Guerra, presidente do PSDB.

Para estudiosos, a ação do governo que permitiu a rápida retomada do crescimento após a pior crise financeira, desde 1929, deu ao PT autoridade para trabalhar num programa de governo com essa linha. Mas salientam o viés populista da proposta.

Especialistas ouvidos pelo GLOBO afirmam que esse tipo de tese, do Estado forte, está na moda e vai ser usado pelo PT para ajudar a distanciar a candidata Dilma Rousseff da imagem do governo Fernando Henrique, que defendeu o Estado mínimo e fez privatizações.

Segundo o cientista político da Universidade de Brasília (UnB) Leonardo Barreto, a tese de que os governos precisam atuar diretamente sobre a economia ganhou força em 2008, quando a crise financeira iniciada nos Estados Unidos se espalhou pelo mundo, retraindo o setor privado. Vários países, incluindo o Brasil, injetaram bilhões em recursos públicos e aumentaram a participação do Estado na economia para minimizar a queda na atividade produtiva.

— A linha intervencionista está na moda. Em função da crise internacional, estamos passando por um período que favorece a visão de que é preciso ter mais regulamentação — destaca Barreto. — É também uma ótima forma (para o PT) de fazer antagonismo com o governo Fernando Henrique. Em geral, quando as pessoas lembram das privatizações, elas fazem a associação com um momento ruim em suas vidas.

Barreto alerta, no entanto, para o fato de que os eleitores podem não ser receptivos a uma guinada contrária à privatização: — O eleitor brasileiro não saiu do centro


Serra critica medidas que afrontem Judiciário

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O governador José Serra (PSDB) defendeu um Judiciário “cada vez mais forte” e criticou iniciativas que afrontem a autonomia dos juízes. O endereço da mensagem é o Planalto que, por meio do Programa Nacional de Direitos Humanos, quer realização de audiências públicas como pré-requisito para concessão de liminares em caso de reintegração de posse.

Serra defende Judiciário autônomo

Em crítica ao Plano de Direitos Humanos, governador disse que é "inaceitável dificultar a reintegração de posse"

Fausto Macedo

Ao defender um Poder Judiciário "cada vez mais forte", o governador José Serra, pré-candidato do PSDB à Presidência, criticou ontem iniciativas que afrontem a autonomia e a independência dos juízes. "Uma das marcas do pensamento autoritário mesmo disfarçado de democrático no nosso país é a conduta de impor restrições ao exame da violação dos direitos por parte do Judiciário e das instituições de fiscalização e controle", disse Serra na cerimônia de posse do desembargador Antonio Carlos Viana Santos na presidência do Tribunal de Justiça do Estado.

O endereço da mensagem do governador é o Palácio do Planalto, que, por meio do Programa Nacional de Direitos Humanos, quer impor audiências públicas no âmbito do Executivo como pré-requisito para concessão de liminares judiciais em reintegração de posse. "Da mesma forma que o regime brasileiro militar limitou a concessão de habeas corpus, absolutamente inaceitável, é também inaceitável a ideia de se dificultar, por exemplo, a concessão de liminar em reintegração de posse no caso de conflito agrário. Essa é uma prerrogativa do Poder Judiciário, que obedece à lei e à Constituição", argumentou Serra.

PLATEIA

O governador foi interrompido três vezes pelos aplausos de uma plateia de 400 magistrados e ministros de tribunais superiores.

Ele recriminou as ameaças do governo federal aos órgãos de fiscalização - a Advocacia-Geral da União estuda processar procuradores que forem à Justiça contra a obra da Usina de Belo Monte, no Pará. "Quando se trata da atuação do Ministério Público e dos tribunais de contas, mesmo que em situações das quais eventualmente se discorde de suas posições e ações, o uso de ameaças e intimidação às instituições é incompatível com o Estado de Direito do regime democrático", defendeu o governador. "As discordâncias devem ser submetidas ao Judiciário, a quem compete a última palavra. Gostemos ou não das decisões do Judiciário, a ele compete decidir."

PT trata aliados não fisiológicos como chiqueiro de ovelhas, diz Ciro

DEU EM O GLOBO

Orientados por Lula, dirigentes petistas evitam reagir aos ataques do aliado

Letícia Lins

RECIFE. O deputado Ciro Gomes (PSB-CE) elevou ainda mais ontem o tom contra o PT e o governo, acusando o partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de tratar os aliados não fisiológicos como “bucha de canhão” e “chiqueiro de ovelha”. E criticou a base de apoio do governo no Congresso, da qual faz parte, classificando-a como uma relação de “frouxidão moral, uma aliança de oportunistas”, que representa na verdade um “roçado de escândalos”. Os ataques foram feitos ao desembarcar em Recife.

No Palácio do Campo das Princesas, onde reuniu-se com o governador e presidente nacional do PSB Eduardo Campos, voltou a a disparar: — Respeitamos, queremos bem, temos afinidades com o PT. Dito isso, o PT tem alguns cacoetes. Tem vocação hegemonista e uma lógica de esmagar as outras forças a ele assemelhadas.

Somos parceiros, mas parceiro não é só quem diz amém, não. Acho que o PT muitas vezes comete erros graves. Por exemplo, o José Dirceu saindo por aí dizendo o que o PSB deve fazer aqui e acolá está errado.

Para o socialista, e ex-ministro foi ao Ceará e a Pernambuco tentando impor a vontade do PT ao PSB nas sucessões estaduais e presidencial.

— Ele é meu amigo, mas tem que ter um pouco mais de recato, de prudência, de respeito às pessoas, só isso.

Campos, que é presidente nacional do PSB, confirmou que a pré-candidatura de Ciro à Presidência está mantida, após almoçar com ele. Ciro gravou o programa nacional do partido que vai ser transmitido dia 18 na TV.

O governador não gostou, porém, de saber dos ataques de Ciro ao PT e ao governo Lula, já que vai disputar a reeleição e quer o apoio do presidente.

Ciro disse que não vai abrir mão de sua pré-candidatura, a não ser que o partido determine, e pela primeira vez admitiu publicamente que poderá disputar o governo de São Paulo. Afirmou, no entanto não ter motivos para desistir da eleição presidencial, afirmando ser mais experiente do que a ministra Dilma Rousseff, pré-candidata do PT.

“Não tenho nada contra as alianças de Chico com Mané” O ex-ministro repetiu as críticas às alianças do governo: — Não tenho nada contra as alianças de Chico com Mané, muito menos contra a do PT com o PMDB. A minha questão é outra: que tipo de cimento, qual são as bases dessa aliança de desiguais? De alhos com bugalhos, de gato, sapato, ouro, diamante, galinha, cachorro, pena, tudo misturado como estamos hoje? E para quê? Para reformar o país? — indagou, e respondeu: — A questão é a frouxidão moral dessa aliança, que é uma aliança de oportunistas.

Os novos ataques de Ciro foram tratados com diplomacia pelos petistas. Seguem a orientação de Lula para não alimentar disputa pública com Ciro, pois não o querem como adversário.

Prestes a passar o comando a José Eduardo Dutra, o presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini (SP), disse que a legenda tem “relação equilibrada” com os partidos da base aliada e que essa condição será mantida.

Dutra disse que não bateria boca com Ciro: — Discordo radicalmente do que ele disse. Respeitamos o PSB. O que defendemos é uma tese (candidatura única), que não significa que estamos passando por cima do PSB — afirmou, dizendo que almoçará com Ciro terça-feira.

Mas se o PSB entender que Ciro deve ser candidato, disse Dutra, nada a fazer: — É legítimo, ponto! Paciência.

Ele será candidato e estaremos juntos no segundo turno

Cid reage à ação de Dirceu: 'Vá pastar'

DEU EM O GLOBO

Governador do Ceará reclama da interferência de petista no estado

Isabela Martin

FORTALEZA. A pré-candidatura de Ciro Gomes está azedando as relações entre PT e PSB no Ceará. O mal-estar veio à tona ontem quando, em resposta a uma pergunta sobre a resistência do irmão a abrir mão da disputa, o governador Cid Gomes reclamou de ameaças feitas por petistas em nome do presidente Lula.

— Ameaça, definitivamente, não cola para a gente. Se alguém está pensando que por ameaça vai nos intimidar, está redondamente enganado. Eu tenho absoluta convicção de que esse não é o pensamento do presidente Lula.

Se alguém, em nome dele, está fazendo isso, eu digo agora, como o Ciro disse: vá pastar, vá cuidar da vida, porque não vamos nos movimentar por isso, sob hipótese nenhuma.

Embora não tenha citado nome, o recado foi para o petista José Dirceu, que esta semana esteve no Ceará e foi recebido pela prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins, presidente eleita do diretório estadual do PT. Também encontrouse com vereadores do partido, mas não esteve com Cid. Dirceu está fazendo uma rodada de visita aos estados, e um dos objetos é pressionar o PSB a desistir da candidatura de Ciro.

Cid Gomes acusou o PT de tentar minar a candidatura de Ciro criando dificuldades nas alianças regionais entre os dois partidos. Candidato à reeleição, Cid será atingido em cheio. Dirceu pediu audiência a Cid, mas o governador, alegando agenda cheia, sugeriu encontro à noite.

Comprometido com uma entrevista a uma emissora de TV, Dirceu desistiu da reunião.

A aliança entre PT e PSB no Ceará se formou em 2006, na primeira eleição de Cid. A tensão entre os dois partidos já pode ser percebida em discordâncias entre a prefeita e o governador, que há até pouco não tinham problemas. A construção de um estaleiro na Praia do Titanzinho, defendida pelo estado, é o motivo da discórdia. Para o presidente do PT, Ilário Marques, o rompimento entre os dois partidos é iminente: — Se Ciro mantiver a candidatura a presidente, a situação interna do PT hoje aponta para o rompimento