quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Sergio Amaral* - Cena internacional mudou, política externa terá de se ajustar

- O Estado de S. Paulo

O Brasil precisa estar presente nas negociações que definirão as regras de convívio internacional

As relações entre os Estados Unidos e a China, de cooperação ou de conflito, serão, na visão de Henry Kissinger, o eixo central da nova ordem internacional. Barack Obama optou pela cooperação. Donald Trump, pela adoção de sanções unilaterais. Sua estratégia, no entanto, alcançou resultados modestos.

Após as sanções da guerra comercial, o déficit com a China permanece no mesmo patamar de antes, ou seja, cerca de US$ 350 bilhões, na média, por ano. As restrições à transferência de tecnologia abalaram a Huawei, mas também prejudicaram empresas e consumidores norte-americanos. A rejeição da Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês), que reunia 12 países sob a liderança dos Estados Unidos, mas sem a presença da China, mostrou-se um erro estratégico de Trump, ao ensejar a formação da Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP em inglês) na Ásia, assinada em novembro passado, entre 15 países asiáticos, que representam um terço da população e do produto mundiais, sob a liderança de Beijing, sem a presença dos Estados Unidos. Por fim, a China saiu fortalecida da covid-19 e da crise econômica mundial, pela capacidade de conter a expansão do vírus e de recuperar mais rapidamente a sua economia.

Joe Biden propõe-se a reverter várias das políticas de seu antecessor. No plano interno, deverá promover a volta da política e a caminhada para o centro, em vez do populismo nacionalista e da radicalização. Na diplomacia, as mudanças serão substanciais. Em lugar das sanções unilaterais, a prioridade do presidente eleito estará na retomada das alianças com parceiros tradicionais, como a Europa, para a negociação de um modus vivendi com a China, na retomada do Acordo de Paris sobre o Clima, na renegociação das salvaguardas nucleares com o Irã e no fortalecimento do multilateralismo.

Cristovam Buarque* - Obscurantismo na luz

- Correio Braziliense, 29/12/2020

“Casa Grande e Senzala” é uma das mais substanciais obras iluminadoras do passado, mas obscurece ao dar a ideia de que o Brasil é uma democracia racial. Quando publicado, fazia menos de 50 anos da Lei Áurea, depois de mais de três séculos de escravidão. Mesmo assim, sugere que a relação entre senhores e escravos, especialmente com escravas, indicaria falta de racismo, apesar da exploração brutal contra eles.

No caso das relações sexuais tratava-se de ato de violência, não gesto de tolerância. Apesar dessa violência ter mestiçado a cor de nossa gente, ela era produto do machismo, da supremacia branca e do poder escravocrata. Ela não quebraria o racismo porque a fábrica do racismo não está na genética que mestiça a pele, mas na educação que forma a mente: tolerante ou racista, conforme os ensinamentos. Não é a cama, é a escola que constrói a democracia racial.

Apesar de seu texto genial que ilumina muito do nosso passado, “Casa Grande e Senzala” obscureceu o papel da educação na construção do Brasil que somos, porque não analisa a formação da mente escravocrata por falta de educação para os escravos e educação preconceituosa para os senhores. Ausência de educação para uns e promoção da ideia de supremacia branca para outros.

Aylê-Salassié F. Quintão* - A entrada definitiva na Era das Incertezas

Em total desrespeito às forças que não pode controlar e procurando ganhar tempo contra os fenômenos que não consegue explicar, os governantes abusam da confiança dos cidadãos, recorrendo ao fetiche do Poder do Estado para levar a população a acreditar nas encenações feitas, por meio de medidas paliativas, cujos  gestores, como semideuses autoproclamados,  projetam realidades estáveis, em tomadas de decisão supostamente colegiadas.

A cada iniciativa, garante-se que aquela catástrofe ”nunca mais vai acontecer”.   Dez dias depois, estoura uma nova barragem e mata mais 100 pessoas. Sem entrar em detalhes, nem se propor como advenho, observando a História, pode-se constatar que os países transitam, neste momento, por incertezas, angústias e surpresas. Não é medo apenas de desastres naturais, tipo furacão, terremoto, estouro de barragens, a própria pandemia que também provoca reações em cadeia, com dramáticas repercussões na vida cotidiana.

Os sinais vêm de uma inflação potencial, cujos efeitos iniciais se ignora e se tolera. Só vão percebê-la à frente, quando os estragos já estarão concretizados. Uma desaceleração nos processos de produção e prestação de serviços.  O aumento das taxas de juros, o endividamento público igual ao PIB ou a incidência de contribuições novas para cobrir algum dano ou ajudar a resolver problemas sociais. Finalmente, um surto de manifestações de cidadãos e consumidores.

FHC, Lula e Maia apoiam Dilma após Bolsonaro questionar tortura sofrida pela petista na ditadura

Presidente afirmou que queria ver raio-x da mandíbula da petista

SÃO PAULO | UOL - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) demonstrou apoio à ex-presidente Dilma Rousseff (PT) após provocação do atual chefe do Executivo, Jair Bolsonaro (sem partido), sobre a tortura que a petista sofreu durante a ditadura militar.

Em uma rede social, o tucano afirmou que "brincar com tortura é inaceitável", independentemente do lado político das vítimas. Para ele, as declarações de Bolsonaro "passam dos limites".

"Minha solidariedade à ex Presidente Dilma Rousseff. Brincar com a tortura dela —ou de qualquer pessoa— é inaceitável. Concorde-se ou não com as atitudes políticas das vítimas. Passa dos limites", disse FHC.

ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também reagiu. "O Brasil perde um pouco de sua humanidade a cada vez que Jair Bolsonaro abre a boca. Minha solidariedade a presidenta @dilmabr, mulher detentora de uma coragem que Bolsonaro, um homem sem valor, jamais reconhecerá", escreveu o petista em uma rede social.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), também manifestou solidariedade à ex-presidente e disse que Bolsonaro "não tem dimensão humana". Maia destacou que o pai, o ex-prefeito do Rio de Janeiro Cesar Maia, foi exilado e torturado pela ditadura.

"Bolsonaro não tem dimensão humana. Tortura é debochar da dor do outro. Falo isso porque sou filho de um ex-exilado e torturado pela ditadura. Minha solidariedade a ex-presidente Dilma. Tenho diferenças com a ex-presidente, mas tenho a dimensão do respeito e da dignidade humana.", afirmou.

Nesta segunda-feira (28), Bolsonaro ironizou a tortura sofrida pela petista no período em que ela foi presa, em 1970, durante a ditadura militar.

A apoiadores o presidente chegou a cobrar que lhe mostrassem um raio-X da adversária política para provar uma fratura na mandíbula.

Partidos traçam estratégias para sobreviver à cláusula de barreira


Siglas pequenas articulam federação partidária e puxadores de voto para superar cláusula de barreira em 2022

Desempenhos obtidos nas disputas de 2018 e 2020 servem de alerta para siglas como PCdoB, PV, Cidadania, Avante, Novo e PSC

Sérgio Roxo – O Globo

SÃO PAULO —  A aprovação de uma lei para permitir a formação de federações partidárias e a escalação dos principais quadros para disputarem vagas de deputado federal estão entre as estratégias já traçadas por legendas pequenas para tentar superar a cláusula de barreira mais rigorosa da eleição de 2022.

Os desempenhos obtidos nas disputas de 2018 e 2020 servem de alerta para siglas como PCdoB, PV, Cidadania, Avante, Novo e PSC. A cláusula de barreira é um mecanismo adotado para reduzir a fragmentação partidária no país e será implantada de forma gradual até 2030.

Em 2022, ficarão sem acesso a recursos dos fundos partidário e eleitoral e a tempo de propaganda eleitoral as legendas que não obtiverem pelo menos 2% dos votos válidos na eleição para a Câmara dos Deputados, distribuídos em um terço das unidades da federação, com 1% dos votos válidos em cada uma delas. Outra opção para escapar do corte é eleger pelo menos 11 deputados, distribuídos em um terço das unidades da federação. 

Partidos menores estudam lançar seus principais nomes a deputado federal em 2022, de modo a contar com “puxadores de voto” que garantam uma bancada com número suficiente para superar a cláusula.

A alternativa da federação partidária, por outro lado, enfrenta a resistência de partidos maiores. O expediente ficou fora da reforma eleitoral, aprovada em 2017, que vetou a coligação entre partidos nas eleições para o Legislativo. Instituída a partir de 2020, a proibição das coligações foi considerada um avanço por reduzir a fragmentação partidária nas câmaras de vereadores eleitas em novembro, e o cenário deve se repetir no Congresso em 2022.

Desemprego fica em 14,3%, atingindo 14,1 milhões de pessoas

Taxa de desocupação para os meses de agosto a outubro é recorde para o período

Por Gabriel Vasconcelos e Hugo Passarelli | Valor Econômico

RIO e SÃO PAULO - O mercado de trabalho seguiu o roteiro já carimbado da pandemia no mês de outubro. Com mais pessoas voltando a procurar emprego, a taxa de desocupação foi de 14,3% de agosto a outubro, recorde para o período e maior do que o trimestre até julho (13,8%) e também ante um ano antes (11,6%). A taxa ficou abaixo da expectativa dos analistas - a mediana das estimativas do Valor Data era de 14,5%.

Apesar do índice elevado, técnicos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) observaram melhora em algumas aberturas da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. De agosto a outubro, a população na força de trabalho - aqueles com 14 anos ou mais que trabalhavam ou queriam trabalhar - chegou a 98,4 milhões, alta de 3,4% ante o trimestre até julho.

De modo inverso, o contingente fora da força de trabalho caiu a 77,2 milhões, um recuo de 2,2% na mesma comparação. Foi a primeira queda para um trimestre móvel neste ano, após altas de 7,9% e de 11,3% do indicador. De todo modo, o número de pessoas fora da força de trabalho nos três meses até outubro ainda está 19% acima do registrado em igual período de 2019.

“Não dá para cravar nada porque não se sabe o que vai acontecer em termos de saúde pública. Se não acontecer nada [piora da pandemia], a gente pode entender que há uma recuperação clara, com as pessoas voltando a procurar trabalho e empregos sendo criados. Ainda vai ter mais gente ofertando trabalho que empregadores querendo contratar”, disse Maria Lúcia Vieira, coordenadora do levantamento.

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

Um governo dividido contra si mesmo – Opinião | O Estado de S. Paulo

No apagar das luzes do ano legislativo, houve alvoroço entre governo e deputados na votação da PEC 319/17, que aumenta repasses da União a prefeitos via Fundo de Participação dos Municípios

No apagar das luzes do ano legislativo, houve alvoroço entre governo e deputados na votação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 319/17 que aumenta os repasses da União a prefeitos via Fundo de Participação dos Municípios (FPM). O objeto da deliberação ilustra a necessidade de reajustes no pacto federativo. Mas a maneira como ela foi conduzida mostra o quanto necessidades como essa podem ser desvirtuadas em moeda de troca no jogo político, eclipsando o interesse público. Ademais, expõe a esquizofrenia do Planalto.

O debate em si é pertinente. A União é pródiga em atribuir responsabilidades aos municípios, muitas vezes sem levar em conta as condições reais para a sua satisfação. O FPM é a principal fonte de recursos para os municípios, sobretudo os menores e mais desprovidos das receitas do comércio, indústria ou agricultura.

O problema envolve a questão dos repasses, mas também outras, como a própria existência de municípios pequenos demais para se sustentar, e que talvez devessem ser unidos a outros (como propõe a PEC do Pacto Federativo); ou as perdas de arrecadação dos entes subnacionais derivadas de isenções impostas pela União (como aconteceu com a Lei Kandir); e a necessidade de cobrar dos municípios reformas que garantam a sua viabilidade fiscal. 

Música | Zeca Pagodinho - Ratatúia

 

Poesia | Vinicius de Moraes - Soneto do amor total

 

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Merval Pereira - Sem noção

- O Globo

O ditado latino “Os deuses primeiro enlouquecem aqueles a quem querem destruir” é a melhor explicação para o que acontece entre nós nos dias recentes. A começar pela festa de Neymar para 500 (150?) convidados no réveillon em Mangaratiba. Um estudo publicado no Journal of the American Association for the Advancement of Science no início deste mês, analisado no LinkedIn pelo economista e especialista em risco Paulo Dalla Nora Macedo, mostra que uma reunião internacional de 175 executivos da farmacêutica Biogen nos dias 26 e 27 de fevereiro em Boston foi responsável por nada menos que uma média de 245 mil casos de coronavírus confirmados nos Estados Unidos.

Este é um dos maiores estudos de como o coronavírus se espalha no decorrer do tempo, baseado no rastreamento dos casos e suas cepas genéticas únicas. O potencial de disseminação da doença aumenta no momento em que os índices de infecção e mortalidade estão em alta no Brasil. Teria condições de fazer essa festa na França? O insucesso subiu à cabeça de Neymar.

O conceito grego da húbris está ligado a essa falta de comedimento de figuras públicas brasileiras. A confiança excessiva leva, por exemplo, o presidente Bolsonaro a ter a língua solta, afirmando que não “dá bola" para pressões, mesmo que sejam pela vida dos brasileiros que, ao contrário de cerca de habitantes de 40 países, não têm a mínima ideia de quando poderão ser vacinados.

Como se estivesse numa negociação comercial, diz que o Brasil é “um mercado enorme” e, por isso, os laboratórios é que deveriam se antecipar ao pedido de registro na Anvisa. Mercado de vidas ? Quem deveria se antecipar não era o governo, como fizeram inúmeros deles ao redor do mundo, reservando as doses de vacinas necessárias à imunização de seus cidadãos?

Míriam Leitão - Uma disputa nada trivial no Congresso

- O Globo

Há muito mais em jogo na disputa do comando das duas casas do Congresso do que parece. As diferenças ideológicas entre partidos de centro, ou entre pessoas de um mesmo partido, podem parecer imperceptíveis. Mas, dependendo da escolha feita pelos parlamentares, o país elevará os riscos institucionais que correm na atual administração, ou terá a chance de reduzi-los.

A autonomia do Legislativo é parte fundamental da barreira contra as tendências autoritárias do presidente e de luta contra a sua agenda retrógrada. Não se espera um Congresso que faça oposição ao presidente, mas que ponha limites ao Executivo dentro do necessário e saudável processo de freios e contrapesos.

Bolsonaro, em 2020, no início da pandemia, participou de manifestações que pediam o fechamento do Congresso. Isso deveria ser o suficiente para convencer os partidos de oposição, ou os parlamentares que têm apreço pela democracia, de qualquer partido ou tendência, a ficarem longe de um deputado ou senador que tenha a marca de candidato desse presidente.

Não foi exagero, portanto, que a frente articulada pelo deputado Rodrigo Maia em torno do deputado Baleia Rossi tenha se apresentado com a bandeira da democracia. É disso que se trata. E quem deixou isso claro foi o próprio presidente, com a sua reiterada apologia da ditadura militar que vitimou o Brasil por duas décadas. Hoje o governismo representa também apoio às medidas de desmonte do aparato de proteção institucional das comunidades indígenas, do meio ambiente, da educação e da saúde.

Carlos Andreazza - Pós-Maia

- O Globo

Ele não foi mau presidente da Câmara graças, sobretudo, à escolha pela atividade política

Rodrigo Maia não foi mau presidente da Câmara. Melhor nos últimos dois anos que no biênio anterior, em que vislumbrou nas flechadas de Janot contra Temer a chance de chegar à Presidência da República. Terá amadurecido. Não que precisasse crescer muito. Mais provável sendo que tenha se beneficiado ante a pequenez média dos pares; assim como Mandetta — um Oswaldo Cruz diante do general Pazuello. O estadismo possível no Brasil pazuellizado de Bolsonaro: o por contraste.

Entre o início de 2019 e o fevereiro próximo, Maia terá gerido a pior composição da história do Parlamento, em que a renovação bolsonarista plantou volume sem precedente de desqualificados e delinquentes. Seu maior mérito consistiu mesmo em se ter investido como agente político, trabalhando por meio da política, num período em que a criminalização da política tornou-se grande eleitora. Dessa forma — com respeitável consciência institucional — conseguiu edificar o orçamento de guerra e planear o chão para o auxílio emergencial, sem o qual o país teria se convertido em caos.

Bloco de Maia deve dominar principais postos na Câmara

Bloco em torno do nome de Baleia Rossi (MDB-SP) para sua sucessão negocia a entrega dos dois cargos mais importantes na Mesa Diretora da Casa ao PT e ao PSL

Natália Portinari, Bruno Góes e Isabella Macedo | O Globo

BRASÍLIA - Articulado pelo atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o bloco em torno do nome de Baleia Rossi (MDB-SP) para sua sucessão negocia a entrega dos dois cargos mais importantes na Mesa Diretora da Casa ao PT e ao PSL, maiores bancadas da aliança. Em fevereiro, além de eleger um novo presidente, os deputados também escolherão os futuros ocupantes dos demais postos na Mesa — ela é composta pelo presidente e por outros dez cargos.

Estes postos são distribuídos de forma proporcional entre os blocos partidários, levando em conta o tamanho das legendas na eleição de 2018. Hoje, o grupo de Maia e Baleia Rossi tem onze partidos, com 281 deputados. O de Arthur Lira (PP-AL) tem nove partidos, com 181 parlamentares.

Ainda que haja traições e Lira consiga se eleger presidente, a divisão da Mesa se dá com base nos blocos formalizados. Por isso, o candidato do PP tenta evitar que partidos de esquerda, que já declararam apoio a Baleia Rossi, concretizem o ingresso formal no bloco partidário articulado por Maia.

Os cargos mais importantes são a primeira vice-presidência e a primeira secretaria. Pela composição atual, as duas posições caberiam ao bloco de Maia e devem ser entregues a PT e PSL, as maiores bancadas.

Entrevista | Bloco de sucessão na Câmara é sinal forte sobre aliança para 2022, diz Maia

Presidente da Casa reclama de condução do governo Bolsonaro na pandemia e diz que marca de sua gestão foi recuperar 'protagonismo' do Parlamento

Danielle Brant / Julia Chaib | Folha de S. Paulo

 BRASÍLIA - O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), encerra em fevereiro de 2021 o último de três mandatos seguidos à frente da Casa.

Em entrevista à Folha, ele avalia que a marca de sua gestão foi recuperar o protagonismo do Parlamento, além de ressaltar o papel do Congresso no combate à pandemia.star

Nos últimos dias, Maia anunciou a formação de um bloco para a disputa da sua sucessão que reúne 280 deputados, de partidos de centro-direita e direita (DEM, MDB, PSDB e PSL) e de oposição, como PT, PC do B, PDT e PSB.

O candidato é Baleia Rossi (MDB-SP), que vai disputar o cargo com Arthur Lira (PP-AL), líder do chamado bloco do centrão e apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

O seu grupo na disputa, avalia Maia, é um ensaio para a eleição presidencial de 2022 e "um grande passo" para diminuir as radicalizações no país.

Como o senhor avalia a sua gestão? 

Nós tivemos durante um longo período do ano passado e até o meio da pandemia o entorno das redes sociais do governo, do presidente, com muita agressão ao Parlamento, ao Supremo e às instituições democráticas.

Na pandemia, se não fosse o Congresso, a maioria dos projetos mais importantes não teria andado. Acho que foram dois anos de uma experiência muito interessante e perigosa nesse enfrentamento, que chegou até a se jogar fogos em direção ao Supremo Tribunal Federal.

A experiência adquirida anteriormente me ajudou a manter o equilíbrio, manter o diálogo institucional e, principalmente, com os ministros técnicos do governo, para que a Câmara pudesse ter um protagonismo importante [após a entrevista, acrescentou, em mensagem, que seu maior arrependimento foi ter 'levado o Paulo Guedes a sério'].

O sr. teve uma trégua no relacionamento com o Paulo Guedes, mas depois desandou. O sr. conversou com ele no último mês? 

Não estou rompido com ele não. Mas eu não preciso [dialogar com ele]. Votamos tudo sem a gente precisar ter um diálogo.

Algumas votações defendidas pelo sr. não ocorreram. Por exemplo, a PEC Emergencial, que poderia abrir espaço para ampliar o Bolsa Família. 

Do meu ponto de vista, foi um erro [deixar para 2021]. A gente deveria ter avançado, com toda polêmica. Porque era um desgaste menor abrir espaço no Orçamento e garantir a ampliação do Bolsa Família do que deixar milhões de brasileiros sem nenhum tipo de proteção, mesmo que a proteção fosse um valor menor que o valor do auxílio emergencial.

Por isso que eu sempre defendi que a reforma mais importante naqueles últimos meses era a PEC Emergencial. Por isso defendi a não entrada em recesso por parte do Congresso, mas o governo interpretou isso como uma tentativa de usar o plenário da Câmara na minha sucessão.

Eliane Cantanhêde - O pino da granada

- O Estado de S. Paulo

O acesso de Lula às mensagens hackeadas da Lava Jato vai explodir no STF e em 2022

Ao abrir os arquivos hackeados da Lava Jato para os advogados do ex-presidente Lula, o ministro Ricardo Lewandowski tirou o pino da granada e vem por aí uma explosão política com epicentro no Supremo Tribunal Federal e estilhaços nas eleições presidenciais de 2022. Lewandowski escolheu o momento a dedo, com o Supremo já em chamas.

Os arquivos têm cerca de 7 TB (terabytes) de memória, o que corresponde a toneladas de papel, mas Lewandowski permitiu o acesso da defesa de Lula “apenas” às mensagens de autoridades – o então juiz Sérgio Moro e a força-tarefa da Lava Jato – que tenham relação com o ex-presidente e as ações contra ele. Detalhe: mensagens que digam respeito a ele até indiretamente, o que abre uma janela sem fim.

O impacto mais previsível tende a ser no julgamento sobre os pedidos de suspeição de Moro nos casos de Lula, que estão na Segunda Turma do STF e embutem a tentativa de anular suas condenações pelo triplex do Guarujá, pelo qual já ficou 580 dias preso, e pelo sítio de Atibaia. Se o STF declara a suspeição de Moro, tudo volta à primeira instância, à estaca zero. E Lula se torna elegível em 2022.

Luiz Carlos Azedo - Espinhos do recesso

- Correio Braziliense

Esquentam a disputa pelo comando da Câmara dos Deputados e a polêmica jurídica sobre a Lei da Ficha Limpa, flexibilizada pelo do STF ministro Kassio Nunes Marques

No jargão jornalístico, flores do recesso são os assuntos que tomam conta do noticiário político quando o Congresso e o Judiciário estão sem funcionar, geralmente alimentados pelo Executivo, pelos candidatos ao comando da Câmara e do Senado e pelos ministros de plantão no Judiciário. São tão frondosas como as flores da primavera, porém, menos decisivas do ponto de vista do processo político. Entretanto, nesses tempos bicudos de pandemia do novo coronavírus, com mais de 190 mil mortos e sem data marcada para o começo da vacinação, estamos diante é de flores com espinhos.

As principais são a disputa pelo comando da Câmara dos Deputados, que a oposição encara como uma espécie de batalha de Stalingrado, para conter o avanço de Jair Bolsonaro rumo à reeleição à Presidência da República, e a polêmica jurídica sobre a Lei da Ficha Limpa, cuja flexibilização, pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques, o novo integrante da Corte indicado pelo presidente, supostamente possibilitaria — entre outras — a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Palácio do Planalto em 2022. Esse seria o adversário que Bolsonaro gostaria de ter no segundo turno, para uma espécie de vitória de Waterloo particular. Essas duas disputas, durante o recesso, podem nos trazer alguma emoção política, ao lado da polêmica sobre as vacinas contra a covid-19.

Ricardo Noblat - Sem vacinação à vista, 2021 será uma reprise do ano que termina

- Blog do Noblat | Veja

Para Bolsonaro, vidas pouco importam

O ex-ministro Sergio Moro perguntou se tem presidente em Brasília. O ministro da Justiça respondeu que tem, que não tinha era ministro da Justiça antes de ele assumir o cargo.

O problema não é se tem ou não presidente em Brasília – formalmente tem. O problema é a natureza do presidente que há em Brasília, e ali permanecerá por mais dois anos.

O presidente que existe disse há três dias que não dava bola para o fato de outros países terem começado a vacinar em massa contra o coronavírus, e o Brasil ainda estar distante disso.

Há dois dias, disse que espera que a vacinação, por aqui, comece rápida. Ontem, tentou culpar os laboratórios pela falta de vacinas e isentou-se de qualquer culpa:

– Eu não errei nenhuma medida. Erro zero.

Nem de ter tratado a pandemia como uma gripezinha? Nem de ter demitido dois ministros da Saúde em meio à pandemia, desprezando a maioria dos seus conselhos?

Cristina Serra - 'Feliz Ano Velho'

- Folha de S. Paulo

O mundo todo enfrentou a mesma pandemia, mas não a mesma tragédia

A retrospectiva de 2020 pode ser escrita com as aspas expelidas de uma boca hedionda. O poder do vírus estava "superdimensionado", sem motivo para "histeria', "comoção" ou "pânico". Tudo poderia ser resolvido com um "dia de jejum" do povo brasileiro. Se fosse contaminado, por seu "histórico de atleta", o profeta da escuridão teria apenas um "resfriadinho" e seria curado por uma poção mágica, a cloroquina.

O vírus produziu um oceano de lágrimas, e o cronista do abismo arremessou palavras como pedras sobre a dor dos brasileiros: "Não sou coveiro", "E daí?", "Eu sou Messias, mas não faço milagre". Incentivou aglomerações e a contaminação porque o vírus é como uma "chuva", "vai atingir você" e "todos nós iremos morrer um dia". "Tem que deixar de ser um país de maricas".

Pablo Ortellado* - O abominável

- Folha de S. Paulo

Ao confundir o divergente com o abominável, polarização política promove a intolerância.

Nos bastidores das batalhas ideológicas, há uma disputa velada sobre onde demarcar os limites do politicamente aceitável.

Enquanto certos conservadores tentam enquadrar adversários e dissidentes em uma visão ampliada e delirante do comunismo, alguns ativistas de esquerda tentam subsumir seus adversários em uma visão ampliada e distorcida do fascismo.

Em ambos os casos há um movimento duplo de ampliar o escopo e estigmatizar o adversário. O fascista não seria apenas o apologista da tortura e da ditadura, mas também aquele que defende as privatizações, se opõe às cotas raciais ou apoia a Lava Jato; o comunista não seria o apoiador de regimes totalitários, na Coreia do Norte ou na Venezuela, mas também aquele que defende o devido processo legal, apoia a universidade pública ou quer a ampliação das políticas sociais.

O primeiro, abominável, subsome o que vem depois, torna-se a sua verdade. O fascismo vira a verdade oculta das privatizações, e o comunismo, a verdade oculta da universidade pública.

Joel Pinheiro da Fonseca* - Refundar um país

- Folha de S. Paulo

O início da nova década serve como reinício psicológico

Em 2022 o Brasil completará 200 anos de sua independência. E votará mais uma vez para escolher seu futuro. Entre esta terra arrasada que é 2020 e a data simbólica e decisiva, temos 2021. O início da nova década serve como reinício psicológico para nos repensar e nos redescobrir: por que amamos nosso país? Ou ainda: vale a pena amá-lo?

O patriotismo está supostamente em alta. Por trás do kitsch bolsonarista que pinta cada milímetro de nosso campo de visão com as cores da bandeira, contudo, pressente-se profundo desprezo e o desejo de serem americanos. O exagero neurótico do símbolo revela a ausência da coisa real.

Para a direita, o Brasil é o país da corrupção, da preguiça e do “jeitinho” (no mau sentido do termo). Carecemos da ética protestante, não temos instituições impessoais, não temos capitalismo e nem cultuamos o ideal de uma meritocracia competitiva como a mais alta realização. Um país comodista, indolente e corporativista. Se for direita religiosa, é também o país marcado por práticas pagãs, pelo sincretismo e pelos horrores da libertinagem e do Carnaval. Bolsonaro teria vindo para limpar tudo isso.

Andrea Jubé - O “diplomata” da Amazônia Legal

- Valor Econômico

Dino: “eleição mostrou que sozinho ninguém faz gol”.

Um dos desafetos do presidente Jair Bolsonaro, e ator relevante nas articulações por uma (ainda utópica) frente ampla progressista, o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), conversou com a coluna sobre três temas espinhosos para o governo federal: Amazônia, vacinas e a movimentação da esquerda para 2022, na esteira do resultado das eleições municipais.

Há oito dias, Dino foi eleito presidente do consórcio da Amazônia Legal, bloco que reúne os nove Estados da região (AM, AC, RO, RR, PA, MA, AP, TO e MT), e mantém interlocução com o presidente do Conselho da Amazônia, o vice-presidente Hamilton Mourão.

De perfil conciliador, Dino explica que a articulação que o alçou à presidência do bloco deveria ser exemplo para as imbricadas disputas da esquerda por espaço no tabuleiro eleitoral.

“Vou presidir o consórcio na base do entendimento”, ensina. Duas semanas antes da eleição, ele começou a telefonar para cada um dos oito governadores, a maioria do espectro político de direita. Até o governador de Roraima, Antônio Denarium (sem partido), bolsonarista, votou nele, eleito por unanimidade. “Se há diálogo, você consegue agregar. Se tenta impor na pancada, fica difícil."

José Eli da Veiga* - Adeus ao IDH

- Valor Econômico

É preciso nova métrica do desenvolvimento humano, embutindo as “pressões planetárias” no IDH

É bem difícil saber quais poderiam ser esperanças minimamente realistas para a década a se iniciar nesta sexta-feira. Mas nada parece superar a importância da manutenção de uma governança global capaz de, ao menos, evitar conflito nuclear. Por isto, não fosse o temor da expiração do tratado ‘New START’, apenas duas semanas depois da posse de Joe Biden, não deveria ser outro o motivo de maior celebração neste fim de ano.

Supondo a permanência de tal mínimo de governança global, quais poderiam ser, então, expectativas plausíveis sobre o futuro da humanidade, em meio às inevitáveis pandemias a se somarem às outras consequências dos graves retrocessos ecológicos? Seria razoável apostar em avanços do processo civilizador, comparáveis à média dos últimos 200 anos? Ou, com extremo otimismo, dos últimos 70?

Boas respostas poderão emergir de debate sobre o trigésimo relatório do Pnud, intitulado “A próxima fronteira: desenvolvimento humano e o Antropoceno”. Tal “fronteira” seria o término das piores pressões dos humanos sobre o planeta, entre as quais se destacou, em 2020, a encrenca dos patógenos zoonóticos. Para sobreviver e prosperar, diz o Pnud, será necessário encontrar um caminho para o progresso respeitoso do entrelaçamento dos destinos dos humanos e da biosfera. Hoje, carbono e crescente dilapidação da biosfera estão minando, em vez de expandir, as oportunidades para os mais desfavorecidos.

Assis Moreira - Brasil agora fala em sustentabilidade

- Valor Econômico

Expectativa nos foros internacionais é que Joe Biden reduza belicosidade americana no comércio global

No apagar das luzes deste terrível 2020, a diplomacia brasileira começou discretamente a dar ênfase, na Organização Mundial do Comércio (OMC), a uma questão até agora minimizada por Jair Bolsonaro: sustentabilidade ambiental.

É preciso ver que o governo brasileiro tem procurado, sem sucesso, corrigir a percepção internacional, resumida pela revista “The Economist”, de o presidente Jair Bolsonaro como possivelmente o chefe de Estado mais perigoso no mundo para a área ambiental.

O cerco ao seu governo nessa área tende a aumentar em 2021 especialmente pelos Estados Unidos sob o comando do democrata Joe Biden a partir de 20 de janeiro.

A União Europeia (UE) já se apressou em delinear uma estratégia para trabalhar junto com os EUA em comércio e clima, medidas visando evitar fuga de carbono, aliança em torno de tecnologias verdes, um quadro regulatório mundial para finanças sustentáveis, uma liderança comum na luta contra o desmatamento e o reforço da proteção dos oceanos.

Essa agenda interessa à China. Pequim investe maciçamente em tecnologia verde, tem planos para acelerar a descarbonização de sua economia e evitar propagação de novos tipos de barreiras no comércio global.

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

Populismo e democracia na pandemia – Opinião | O Estado de S. Paulo

Na pandemia, o presidente Jair Bolsonaro fez o oposto do que lhe cabia fazer. Esse modo de agir suscitou a reação da sociedade

A edição brasileira de novembro do Journal of Democracy publica o artigo A cartilha populista brasileira, de Amy Erica Smith. Ao analisar os efeitos da pandemia e a reação do governo Bolsonaro sobre o funcionamento das instituições democráticas, a professora de ciência política da Universidade Estadual de Iowa apresenta reflexões pertinentes. A resposta do presidente Jair Bolsonaro à crise sanitária deixou muito a desejar, mas suas evidentes deficiências parecem ter contribuído para uma maior resistência de outras lideranças e para uma reação da sociedade civil.

“Apesar das consequências humanas trágicas e incomensuráveis da covid-19 no Brasil, a doença está provocando um impacto mais ambíguo na saúde da democracia do País”, diz Amy Erica Smith. “Ao evidenciar as fraquezas de Bolsonaro, a pandemia parece ter favorecido um movimento de resistência por parte de outros representantes eleitos.”

Segundo o artigo, “não é simplesmente que a incapacidade de Bolsonaro de conter o coronavírus fortalece o sistema de freios e contrapesos. Os acontecimentos dos últimos meses parecem ter revelado que algumas das ameaças de Bolsonaro eram vazias. (...) À luz desses não acontecimentos, o golpismo de Bolsonaro – ou seja, seu apoio ideológico aberto à intervenção militar – parece cada vez mais ser apenas jogo de cena, uma ameaça que ele faz como aceno a parte de sua base e intimidação da oposição”.

Música | Lenine - Dor de amor ((Acyr Marques / Arlindo Cruz / Zeca Pagodinho

 

Poesia | João Guimarães Rosa - Sono das Águas

Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água.
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Fernando Gabeira - Olhar para a frente, sem raiva

- O Globo

O que dirá se avançamos ou não em 2021 é a coexistência de duas variáveis: o aumento no número de pessoas vacinadas e decréscimo nas contaminações

Andei levando pancadas na rede. São os mesmos de sempre como dizia o personagem de “Esperando Godot”.

Durante muitos anos, quase que solitariamente apontei os erros que poderiam nos conduzir ao desastre.

A ausência de autocrítica os leva a buscar, compulsivamente, culpados, como se eu fosse responsável por Bolsonaro e não os seus erros cometidos aos longo dos anos. Aliás, já os enfrentei em eleições como aliados de Sérgio Cabral.

Jamais votaria num Bolsonaro, conheço-o bem. Ao longo dos anos, mantive-me fiel a Marina Silva, no passado, vítima de impiedosa campanha do PT.

Apenas afirmei, assim que eleito, esperar que as instituições brasileiras triunfassem sobre Bolsonaro. A pandemia não estava nos cálculos, e sim o golpe de estado.

Quando senti a ameaça próxima de golpe, a denunciei e dispus-me a lutar contra, como se fosse a última luta de minha vida.

As pancadas me ensinam o avesso da lição. Elas me aconselham abertura para quem confiava resiliência democrática, para quem combateu Bolsonaro de forma ineficaz, para quem se absteve, votou em branco e até os que o elegeram e recuam horrorizados, diante do resultado de sua escolha.

É um caminho mais produtivo do que distribuir culpas.

Num grupo que discutiu o livro “O discurso da estupidez”, de Mauro Mendes Dias, recebi esta mensagem:

— Reflexão muito bem-vinda. Quanto mais pessoas puderem reconhecer a necessidade de mudar de posição, já estamos avançando. Um dos efeitos do discurso da estupidez é, exatamente, o de não poder mudar, seja pela devoção a crenças deformantes da realidade, seja devido ao gosto que ele suscita pela destruição do patrimônio de valores que nos tornam humanos.”

Carlos Pereira* - Subserviência do Legislativo?

- O Estado de S. Paulo

Alinhamento entre os chefes do Executivo e do Legislativo não se traduz em autocracia

Tem existido uma crescente preocupação com a possibilidade de vitória de Arthur Lira (PP), candidato apoiado pelo Presidente Jair Bolsonaro, na eleição para a presidência da Câmara dos Deputados. Esse desassossego não é totalmente destituído de razão, pois o alinhamento político entre chefes do Executivo e do Legislativo sempre traz o risco de subserviência do poder Legislativo ao já extremamente poderoso Executivo no Brasil. 

Alguns, inclusive, enxergam que esta suposta subordinação do Legislativo ao Executivo traria perigos reais para a própria democracia brasileira. Essa preocupação ficou explícita no discurso de lançamento do deputado Baleia Rossi (MDB) como candidato de oposição ao governo Bolsonaro à presidência da Câmara. A narrativa construída buscou inspiração no “pai” da democracia brasileira e da “Constituição cidadã”, Ulysses Guimarães, repetindo o mote: “temos ódio e nojo da ditadura”. 

O cientista político Scott Morgenstern, Professor da Universidade de Pittsburgh, propõe uma tipologia para entender quando legislativos seriam proativos, situação na qual seria a força preponderante no processo de formulação e de aprovação das leis, ou reativos, quando o Legislativo raramente inicia uma legislação, atuando fundamentalmente em negociações ao reagir a iniciativas legislativas preponderantemente do Executivo.

Ricardo Noblat - Tenebrosas transações pavimentam a eleição na Câmara

- Blog do Noblat / Veja

A Nova Política a pleno vapor

Quem diria que no governo do ex-capitão Jair Bolsonaro a Operação Lava Jato seria largada ao Deus dará, ao sol e à chuva para se desidratar. Largada, não: a palavra certa é esvaziada, nos seus estertores, a um passo de sucumbir.

Afinal, Bolsonaro pegou carona nos feitos da Lava Jato para se eleger presidente da República. Prometeu mundos e fundos para atrair a companhia do ex-juiz Sérgio Moro. E bradou que com ele no poder, o combate à corrupção jamais teria fim.

Há muitas formas de corromper, e nem todas tipificam crimes previstos no Código Penal Brasileiro. Exemplo? O loteamento de cargos no governo em troca de aprovação de matérias do seu interesse no Congresso. O é dando que se recebe.

É natural que partidos identificados com as ideias do governo dele possam participar. Presidente algum governa sozinho. Até ditadores precisam de ajuda para governar. Outra coisa é distribuir cargos no varejo para alcançar determinados fins.

No momento, é o que ocorre com a disputa pela presidência da Câmara dos Deputados. Bolsonaro carece ali de votos para eleger Arthur Lyra (PP-AL), seu candidato à sucessão de Rodrigo Maia (DEM-RJ). Fazer então o quê? Acenar com cargos.

Não está em discussão à vista de todos medidas para atenuar os mais graves problemas do país. Esperar que se discutisse algo ambicioso, um projeto de país pós-pandemia – por que não? -, seria exigir demais dos medíocres personagens em cena.

Marco Antonio Villa - Bolsonaro é a maior ameaça à democracia

- Revista IstoÉ

Às Forças Armadas, o presidente fomenta a indisciplina dos oficiais com a intenção de ter apoio para uma aventura golpista

Jair Bolsonaro encerra politicamente o terrível ano de 2020 da mesma forma como iniciou. Conspirando diuturnamente contra o Estado Democrático de Direito. Se a prisão, em junho, de Fabrício Queiroz, interrompeu a marcha golpista, nos últimos dias de dezembro, Bolsonaro voltou à carga. Atacou a imprensa, ameaçou jornalistas, desqualificou a importância da informação livre e responsável, caluniou ministros do STF — como na sua live do dia 17, quando afirmou que o ex-ministro Celso de Mello é defensor da poligamia —, caluniou o deputado Rodrigo Maia imputando a ele uma suposta ação contra o décimo-terceiro pagamento do Bolsa-Família — acabou sendo desmentido não só pelo próprio presidente da Câmara dos Deputados, como também pelo ministro da Economia Paulo Guedes.

Marcus André Melo* - Vai passar?


- Folha de S. Paulo

A oferta e a demanda por populistas mudou

 Há duas explicações rivais sobre a nova onda do populismo.

A primeira focaliza as transformações econômicas e sociais que a engendraram e materializaram-se em novas demandas. Elas privilegiam o papel de grupos como os “perdedores da globalização” ou os afetados pela imigração na Europa e nos EUA.

O argumento considera também como as identidades e perda de status dos grupos são afetados no processo. A imigração aparece como a grande ameaça, mas muitas mudanças são endógenas, como no caso da questão racial nos EUA.

Nas explicações centradas na oferta a ênfase é institucional: o populismo expressaria uma falha institucional no sistema de representação. O argumento é que o sistema partidário tem sido incapaz de responder às novas demandas. A convergência programática entre partidos tem levado ao declínio da identidade e filiação partidárias e queda no comparecimento às urnas. Na União Europeia, o foco é posto no déficit democrático na estrutura de governança multinível, tecnocrática e centralizada em Bruxelas.