sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Fernando Gabeira - Turbulência nas alturas

O Estado de S. Paulo

O bolsonarismo não tem resposta para a vida real e vive de bandeiras artificiais

A semana foi marcada por um fato decisivo: o empresariado que apoiou Bolsonaro vai, aos poucos, abandonando o barco. A maneira como isso está sendo feito é um pouco típica do Brasil, mas ainda assim o fato não ficou obscurecido por ela.

Fiesp e Febraban iam lançar um manifesto pedindo a harmonia entre os Poderes. Nada mais tranquilo e ao mesmo tempo inofensivo. A pressão do governo foi intensa e a Fiesp decidiu não divulgar o manifesto. No entanto, o agronegócio, que emprega milhões e tem antenas com o mundo, decidiu publicar seu próprio manifesto, independentemente das reações do governo.

No caso da Febraban houve ameaças reais de abandono da entidade pela Caixa Econômica e pelo Banco do Brasil, que também entenderam o pedido de harmonia dos Poderes como uma crítica a Bolsonaro.

Ainda assim, o fato de o manifesto não ter sido publicado oficialmente não deixa de ser uma evidência de como alguns setores dominantes no Brasil têm medo do governo, mesmo depois de terem perdido sua simpatia por ele. Muito provavelmente, essas entidades estão tão paralisadas pelo medo que hesitaram em lançar votos de fim de ano com a mensagem “paz na Terra aos homens e mulheres de boa vontade”.

Como Bolsonaro iria interpretar isso, ele que considera essencial comprar fuzis e uma estupidez comprar feijão? Seria uma crítica indireta ao presidente e os detentores do PIB não querem provocar ninguém.

Eliane Cantanhêde – O novo ‘nós e eles’

O Estado de S. Paulo

O PT uniu o ‘nós’, Bolsonaro rachou o ‘eles’: centro, direita, classe média e o capital

Se o PT instalou o “nós contra eles” no País, o governo Jair Bolsonaro conseguiu reunir de novo o “nós” e rachar o “eles”: o empresariado, o setor financeiro, o agronegócio, as PMs, as Forças Armadas, as igrejas, a classe média, o centro e a direita. E assim chegamos ao “nós” do PT contra um “eles” fracionado, difuso, um estouro da boiada.

Um bom exemplo vem de Minas Gerais, Estado politizado e avesso a radicalismos. De um lado, a Federação das Indústrias (Fiemg) fez um manifesto com uma leitura tão enviesada quanto absurda da realidade quanto a de Bolsonaro. De outro, duas centenas de empresários e executivos defendem a real democracia.

No seu “Manifesto pela Liberdade”, que confunde já no título, a Fiemg vê ataques do Supremo aos direitos individuais e à liberdade de expressão, quando a Corte faz o oposto: age para conter blogueiros, parlamentares e alucinados que pregam invadir o Supremo, atacar os ministros, desacreditar as eleições e incendiar o País com revólveres e fuzis. Isso não é “liberdade de expressão”, é crime.

Empresários e executivos mineiros se descolaram da Fiemg para defender um “grande pacto pelo Brasil” e defender a democracia: “A ruptura pelas armas, pela confrontação física nas ruas, é sinônimo de anarquia, que é antônimo de tudo quanto possa compreender uma caminhada serena, cidadã e construtiva. A democracia não pode ser ameaçada; antes, deve ser fortalecida e aperfeiçoada”.

Vera Magalhães - Bolsonaro perdeu a colher de chá do PIB

O Globo

Não é um fenômeno isolado a proliferação de manifestos e notas de repúdio contra os rompantes golpistas de Jair Bolsonaro partindo de importantes, e até aqui silentes, entidades ligadas ao empresariado produtivo e financeiro.

Esse pessoal carregou o caixão de Bolsonaro até a beira do cadafalso. Nem as mais de 580 mil mortes da pandemia fizeram com que mudassem o caminho. Mas agora, diante da oferta para se jogar com o presidente e o país ribanceira abaixo, acordaram do surto que vivem desde 2018 e deram um passo atrás.

Entre as múltiplas notas de defesa da democracia que pipocaram desde que Paulo Skaf prometeu consolidá-las sob o guarda-chuva da Fiesp, mas se escafedeu, chama a atenção a de expoentes pesos pesados do empresariado de Minas se contrapondo à federação das indústrias do estado, que preferiu se alinhar ao Planalto na retórica golpista contra o Supremo.

Por que ela chama a atenção? Porque traz entre os signatários o ex-secretário de Desestatização Salim Mattar, bolsonarista de quatro costados até ontem e mentor de algumas das vozes mais histriônicas do bolsonarismo incendiário. Porque rompe a tradicional “mineirice” de evitar críticas explícitas a governos centrais. Porque o governador do estado, Romeu Zema (Novo), é um dos que adoram morder e assoprar quando o assunto é Bolsonaro. E pelo simbolismo do título: Segundo Manifesto dos Mineiros ao Povo Brasileiro. O primeiro, em 1943, exigia o fim do Estado Novo e a redemocratização. Desencadeou um movimento que acabou na deposição de Getúlio Vargas dois anos depois.

Ricardo Rangel - Dia da Independência

Revista Veja

As perspectivas para Jair Bolsonaro não são nada boas

O 7 de setembro se aproxima e ninguém sabe o que esperar. A promessa bolsonarista era algo realmente perigoso, com muita gente armada, incluindo policiais, ameaça escancarada de invasão do Supremo e golpe de Estado. Mas o tom baixou, e o foco foi deslocado para uma defesa vaga da “liberdade” — não no conceito moderno, em que a liberdade de um termina onde começa a do outro, mas no da lei do mais forte: liberdade para desmatar, recusar máscaras e vacinas, comprar fuzil, mentir, difamar, ameaçar. É repugnante, mas não configura risco real.

A mudança de foco, entretanto, não tranquiliza. Ninguém controla uma turba depois de insuflada, e ela vem sendo insuflada há muito tempo, e o próprio Bolsonaro voltou a subir o tom. “Nunca outra oportunidade para o povo brasileiro foi ou será tão importante quanto esse nosso próximo 7 de setembro.” “Chegou a hora de nós, no dia 7, nos tornarmos independentes para valer.” “Esse norte será dado com muita força no próximo dia 7.” “Eu tenho três alternativas: estar preso, estar morto ou a vitória.” “Todo mundo tem que comprar fuzil.” “Se você quer paz, prepare-se para a guerra.” Em que pese Bolsonaro ser bravateiro, o recado é claro.

Dora Kramer - Pele de cordeiro

Revista Veja

Jair Bolsonaro cultiva viva a perspectiva de ruptura, por mais improvável que seja

É clássica a cena do bandido que bate a carteira do transeunte e sai gritando “pega ladrão” para tentar enganar a polícia e assumir o lugar da vítima. A imagem é muito usada para ilustrar inversão de valores em discursos políticos e se adéqua perfeitamente ao figurino adotado pelo presidente Jair Bolsonaro e companhia nos preparativos das manifestações do próximo dia 7.

A data pode ou não prenunciar um setembro negro. Vai depender de as multidões — sim, a coisa está sendo preparada para impressionar — incorporarem a troca de papéis mostrando-se convincentes na transmutação de defensores da repressão em vítimas da opressão.

Será bonito de ver. A começar do capitão da banda, será preciso uma dose oceânica de autocontrole geral. Os ativistas de variadas causas, entre caminhoneiros, evangélicos, policiais, militares, ruralistas e motociclistas, terão de evitar dar um pio sequer sobre a deposição de ministros do Supremo Tribunal Federal “na marra”.

Falar em quarteladas e invasões, nem pensar. A palavra “golpe” poderá ser dita, desde que aplicada na contramão, para firmar fileiras contra os que lhes querem tolher a liberdade de se expressar violentamente em prol de um país de administração militar.

César Felício - Movimento defensivo

Valor Econômico

Elite empresarial sabe o que não quer, mas falta projeto

De onde menos se espera, daí é que não sai nada, como dizia o Barão de Itararé. Historicamente não se encontram muitos exemplos de engajamento das federações de indústria na defesa de valores democráticos. O recuo constrangedor de Paulo Skaf na publicação de seu anódino manifesto e o mais constrangedor ainda documento da Fiemg, defendendo a liberdade de expressão de propagadores de ódio na internet, demonstram a tese nos dias de hoje.

No passado, tome-se um exemplo: em 1977, o presidente da Fiesp, Teobaldo De Nigris, responsável pela construção da sede da entidade em forma de pirâmide que marca a Avenida Paulista, veio a público para falar sobre a abertura “lenta, gradual e segura” que o presidente Ernesto Geisel promovia. Era 18 de agosto, ele acabava de ser reeleito para mais um mandato à frente da entidade e Geisel era desafiado dentro dos quartéis pelo ministro do Exército, Sylvio Frota, que queria manter o regime fechado.

O comentário foi: “Ingressar na chamada democracia, que tanto admiramos, poderá nos trazer complicações, pois precisamos, primeiro, ordenar mais o nosso desenvolvimento.” Segundo De Nigris, “isso poderia nos trazer muita confusão, pois ainda é prematuro”. A ditadura já tinha 13 anos.

Fernando Abrucio* - O sentido do sete de Setembro bolsonarista

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

O teor autoritário das manifestações previstas para o Sete de Setembro preocupa, mas o pior é a agenda que Bolsonaro defende e quer levar adiante

Dia da Independência do país, em vez de ser uma data comemorativa, virou um grande ponto de tensão. A pergunta que não quer calar é: qual será o sentido do movimento bolsonarista no Sete de Setembro? É possível antever três significados neste evento. O primeiro é tentar emparedar as instituições que estão freando o autoritarismo de Bolsonaro e dizer que, se preciso for, um golpe pode ser dado. O segundo é mostrar que o presidente tem uma faixa de apoio social que evita o impeachment e já o coloca no segundo turno. Mas há um terceiro aspecto que poucos têm discutido. Trata-se de definir, claramente, a agenda central do presidente Bolsonaro para o resto do mandato e para caso ele continue governando o Brasil, pelo voto ou não.

O que mais tem causado apreensão em vários setores da sociedade é o caráter antidemocrático que orienta o bolsonarismo. Vários manifestos surgiram no último mês, artigos foram escritos na imprensa denunciando posturas golpistas, lideranças congressuais, inclusive governistas, estão muito preocupadas e, ademais, também há a possibilidade de manifestações de rua contrárias ao presidente entrarem em choque com o séquito de fiéis bolsonaristas.

José de Souza Martins* - Terra indígena

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

São reiteradas as tentativas de grupos minoritários fazer-nos à força um povo homogêneo e até racista, mediante burla de valores que teoricamente subscrevemos

A decisão que o STF está tomando quanto ao direito dos nossos indígenas à terra de seus carecimentos culturais e materiais de sobrevivência decide também o que é ser brasileiro. Se apenas o ser residual e inautêntico da categoria apátrida dos postiços e homogêneos ou os todos do nosso nós, nossa autenticidade na diversidade.

Ou, ainda, se haverá para os indígenas a justiça compensatória a um direito reiteradamente violado pelos brancos, apesar de decorrente de posse imemorial de terras que são historicamente suas. Ou se, numa questão só aparentemente territorial, decretará sua extinção ou sua sobrevivência como protagonistas de uma pátria democrática, alicerçada no direito à igualdade jurídica na diferença social e cultural que representam.

Não se trata apenas da sobrevivência das populações indígenas. Trata-se da sobrevivência do Brasil como nação multiétnica, pluralista e democrática. São reiteradas as tentativas de grupos minoritários e de interesse econômico, político e racial de fazer-nos à força um povo homogêneo e até racista, mediante a burla sistemática de valores que teoricamente subscrevemos e na prática violamos.

Claudia Safatle - O manifesto da Fiesp e a “viúva Porcina”

Valor Econômico

Avalia-se se ainda é necessária a divulgação do documento, depois que ele já foi publicado de maneira não oficial e teve repercussão inesperada na imprensa

Mesmo depois das manifestações de desagrado do governo Bolsonaro e, em particular, das ameaças do presidente da Caixa, Pedro Guimarães, aos bancos, não houve retirada de assinaturas do manifesto dos empresários, conduzido pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). Ao contrário, na terça-feira, o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, enviou e-mail às entidades empresariais reabrindo o prazo de adesão para até hoje, sexta-feira, sob o argumento de que, além das representações do setor privado que haviam apoiado o manifesto, inúmeras outras deixaram claro o desejo de serem signatárias. “Em menos de 24 horas recebemos mais de 200 adesões das mais representativas entidades brasileiras. Dezenas de outras entidades também manifestaram interesse em participar”, diz o e-mail assinado por Skaf.

Nem mesmo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), depois de alguns banqueiros terem recebido ameaças do presidente da Caixa de serem excluídos de negócios com o banco estatal - segundo reportagem da jornalista Malu Gaspar, publicada em “O Globo” -, retirou ou pretendia retirar sua adesão aos termos do manifesto. Aliás, Caixa e Banco do Brasil falaram em se desfiliar da Febraban, em protesto, caso a entidade mantivesse apoio ao texto, e pediram, ontem, uma nova reunião do conselho da federação para rediscutir o tema, o que foi negado. No fim do dia de ontem a Febraban soltou nota reafirmando os termos do manifesto e se desvinculando da Fiesp. O que significa que os bancos não se associam a eventual decisão da indústria de não mais divulgar oficialmente o texto.

Armando Castelar Pinheiro* - Um PIB sem surpresas

Valor Econômico

Há incerteza sobre os impactos do clima e preocupação com os efeitos da forte alta no risco político

O PIB divulgado nesta quarta-feira pelo IBGE, com contração de 0,05% no segundo trimestre, ante o anterior, gerou consternação e levou a revisões, para baixo, das projeções de crescimento para este e o próximo ano. O principal motivo para isso foi o resultado ter vindo não apenas negativo, mas abaixo das previsões, que apontavam para alta de 0,17%, na média das 61 instituições consultadas pelo Valor (globo/3zEaDy4).

Quanto essa aparente surpresa com o resultado do PIB justifica essa reação? Nada, ou muito pouco, julgo eu. Os analistas parecem estar focando no viés de suas previsões; mas, como lembram D. Kahneman, O. Sibony e C. Sunstein em seu ótimo “Noise: A Flaw in Human Judgement”, o julgamento humano, especialmente o preditivo, é em geral não apenas viciado, mas também “noisy” - ou seja, não costuma acertar o alvo, mesmo quando é não viciado.

O que aconteceu desta vez, viés ou a variância implícita em qualquer previsão? Ora, o desvio padrão das 61 projeções coletadas pelo Valor é de 0,17 ponto percentual (p. p.). Portanto, qualquer intervalo de confiança razoável conteria o resultado do PIB obtido pelo IBGE. Podemos concluir, assim, que o resultado veio em linha com as previsões do mercado, revelando, como apontaram Anaïs Fernandes e Marta Watanabe no Valor, “atividade estável”, “com avanço dos serviços e declínio de indústria e agropecuária”.

Bruno Boghossian – O Supremo como bedel

Folha de S. Paulo

Tribunal avisa que vai aplicar a lei se presidente fizer o que promete há semanas

Pela terceira vez na mesma semana, um ministro do Supremo foi a público alertar que o processo golpista liderado por Jair Bolsonaro pode ser alvo de punições. Ao abrir uma sessão do tribunal, Luiz Fux disse que manifestações políticas são legítimas, mas sugeriu que os participantes estejam "cientes das consequências jurídicas dos seus atos".

O STF assumiu o papel constrangedor de bedel no playground do autoritarismo presidencial. Bolsonaro avisa há semanas que vai explorar os protestos de 7 de setembro para tentar escapar dos limites que a democracia impõe a seu poder, mas a corte ainda acredita ser necessário avisar que vai aplicar a lei se ele fizer o que promete fazer.

Ruy Castro - Fogo no Bolso-stag

Folha de S. Paulo

Nada como fomentar a baderna e o caos para exigir medidas extremas -vide o Reichstag

Na noite de 27 de fevereiro de 1933, em Berlim, o fogo irrompeu no edifício do Reichstag, o Parlamento alemão. Os bombeiros foram alertados, mas, ao chegarem, o prédio já tinha sido tomado. Poucas horas depois, o governo (chefiado por Adolf Hitler, recém-nomeado chanceler) anunciou a prisão em flagrante do ativista Marinus van der Lubbe, 24 anos, quase cego e com problemas mentais. No dia seguinte, por instância de Hitler, o presidente Paul von Hindenburg suspendeu as liberdades civis. Iniciou-se a caça aos políticos de oposição, com prisões em massa e perda de mandatos. O Partido Nazista empalmou o poder e Hitler passou a governar por decreto.

O incêndio nunca ficou bem esclarecido. Hitler atribuiu-o aos comunistas desde o primeiro minuto e, pela manhã, a imprensa de Berlim já comprou essa versão. Mas, um mês depois, Walter Gempp, chefe dos bombeiros e que comandara a operação, foi demitido ao denunciar que o alerta viera com atraso e ele fora proibido de usar todos os recursos contra o fogo. Em 1937, Gempp foi detido por “abuso do cargo” e condenado à prisão, onde foi estrangulado e morto em 1939. De Van der Lubbe, guilhotinado em 1934, disse-se que teria sido instrumentado pelos nazistas para atear o fogo. Em 1998, o Estado alemão o inocentou.

Reinaldo Azevedo - Que as ideias tenham consequências

Folha de S. Paulo

'Crime como liberdade de expressão' não contamina apenas os fascistoides nas redes 

Que coisa! Luiz Fux, presidente do Supremo e do Conselho Nacional de Justiça, fez um pronunciamento nesta quinta alusivo ao 7 de Setembro. Não se refere apenas aos 199 anos de Independência. É claro que o repúdio à convocação para o golpe de Estado, que vai ganhar as ruas na terça, está na raiz de sua fala. E temos de ler e ouvir, então, o óbvio, mas necessário: “Num ambiente democrático, manifestações públicas são pacíficas; por sua vez, a liberdade de expressão não comporta violências e ameaças”.

Devemos, sim, absorver, com atenção, as lições que nos são ministradas pelo professor Jair Messias Bolsonaro. Não aprendemos apenas por intermédio do pensamento que nos fascina. O repúdio é um instrumento poderoso para estabelecer certas balizas. Atração e repulsa são parceiros inseparáveis, opostos e combinados. É fundamental, também na política, a definição clara do que não queremos para que possamos estabelecer a hierarquia das coisas que desejamos.

Bolsonaro não havia ainda completado o quinto mês de mandato, e seus milicianos digitais ganhavam corpo nas ruas, no dia 26 de maio de 2019, com manifestações em 156 cidades, segundo contabilidade publicada pela imprensa. À época, os fascistoides do milenarismo morista-lavajatista estavam juntos —por que não estariam?— no ataque organizado ao Congresso e ao Supremo.

Luiz Carlos Azedo - Queiroga saiu? Uma vírgula!

Correio Braziliense

A última do ministro da Saúde foi retirar a CoronaVac, a vacina do Butantã, do programa de reforço da imunizaçao, a chamada terceira dose

A notícia de que o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, havia pedido demissão foi a sensação nas redes sociais, ontem, até ser desmentida pelo próprio. Em se tratando daquela pasta, cuja atuação na pandemia de covid-19 é investigada pela CPI do Senado, tudo poderia acontecer, ainda mais uma troca de ministros, porque três já passaram pelo cargo. A notícia era uma “barriga”, ou seja, uma notícia falsa no velho jargão jornalístico, geralmente publicada de forma involuntária, ou seja, algo muito diferente de uma maldosa fake news. Se bem que não é incomum um fato como esse se confirmar somente algumas semanas depois, por puro capricho de quem demite, porque a informação “vazou”.

A história toda começou por causa de uma vírgula, na coluna publicada pelo jornalista Matheus Leitão, no site da revista Veja, intitulada “Queiroga, pede para sair”. O texto faz um balanço da atuação do ministro e conclui: “Assim como todos os ministros da Saúde que já passaram pelo governo de Jair Bolsonaro, Queiroga demonstra fraqueza e apatia no cargo. Ninguém supera os erros de Eduardo Pazuello, mas talvez seja hora de Queiroga cogitar sua saída da liderança da pasta que se tornou o foco e a responsável por administrar a crise no país nos últimos meses”.

Vinicius Torres Freire - Bolsonaro, golpes e contragolpes

Folha de S. Paulo

Enquanto organiza um putsch, presidente sofre derrotas no Congresso e no empresariado

Jair Bolsonaro enfim conseguiu arrumar um turumbamba com boa parte da elite econômica. Seu pacote eleitoral e popular corre mais risco de ir para o ralo, ainda que, com pacote e com tudo, o povo vá passar mal por muito tempo. Por exemplo, nos últimos três anos, a inflação da comida aumentou quase 31%; o salário médio, 14,3% (o dos mais pobres, menos ainda). A poucos dias da pororoca golpista armada para o 7 de Setembro, vários caldos azedam.

A Fiesp soltou nota contra a reforma do Imposto de Renda, essa mixórdia tosca aprovada pela Câmara, aliás com apoio da esquerda. A Fiesp de Paulo Skaf quer apenas umas reduções de impostos, mas esse lobby pode dificultar ainda mais a aprovação dessa barafunda tributária no Senado.

Sabe-se lá o que vai sair do Senado, se é que vai, mas essa “reforma” do Imposto de Renda inclui um item do pacote eleitoral de Bolsonaro, a redução do IR para parte menor da classe média. De resto, pode ser que mexidas adicionais diminuam a receita de impostos, ajudando a piorar as perspectivas para a dívida pública, o que leva os donos do dinheiro, credores do governo, a cobrar mais caro pelos empréstimos, elevando os juros na praça em geral.

Febraban soltou nota a favor do “manifesto” das associações empresariais, aquele avacalhado pela Fiesp e atacado pelo governo, em particular pelos seus sequazes na economia, Paulo Guedes e Pedro Guimarães, presidente da Caixa, e pelo premiê colaboracionista, Arthur Lira, presidente da Câmara. De passagem, a nota da Febraban dá umas caneladas na Fiesp e diz que “respeita”, mas na prática ignora, as ameaças de Caixa e Banco do Brasil deixarem a associação. Deram uma banana para o governo. Os bancos, note-se de passagem, não gostaram nada da reforma do IR.

Rogério L. F. Werneck* - Aposta irresponsável

O Globo /O Estado de S. Paulo

País inicia a Semana da Pátria alarmado com as demonstrações de rua conclamadas pelo governo para o 7 de Setembro. O que se teme é que, em sua escalada de desestabilização, Bolsonaro possa ter desencadeado, agora, um processo com desdobramentos impensáveis que escapam a seu controle.

Em meio a este clima de alta tensão, o conceito de brinkmanship ajuda a entrever contradições dessa deplorável marcha da insensatez. A palavra, de tradução concisa difícil, significa a arte ou a prática de levar uma situação perigosa – uma confrontação “à beira do abismo” – além do limite do que pode ser considerado seguro, para conseguir determinado desfecho. O alto risco assumido, claro, tanto pode levar ao desastre quanto ao sucesso.

Esta conotação mais ampla de brinkmanship convive com o significado mais preciso que o termo tem em teoria dos jogos, bem discutido há mais de 60 anos por Thomas Schelling – Prêmio Nobel de Economia de 2005 – no seu Strategy of Conflict. Envolve uma prática que diplomatas, estadistas e negociadores conhecem desde tempos imemoriais: a tática de criar um risco perceptível, e não completamente controlável, e deixar a situação fugir de certa forma ao controle para intimidar o adversário, na expectativa de que este recue, temendo o pior. Ou seja, temendo que quem o ameaça esteja de fato disposto a ir às últimas consequências, ultrapassando, se necessário, a borda fatal e arrastando-o consigo na queda.

Flávia Oliveira - Muito além da escassez de energia

O Globo

Não bastassem a turbulência político-institucional provocada pelo presidente da República, o PIB estagnado, a inflação galopante, a fome à espreita, a variante Delta do coronavírus se multiplicando, o Brasil se vê acossado por uma crise hídrica que ameaça bem mais que a oferta de eletricidade. No mesmo dia em que o ministro de Minas e Energia, almirante Bento Albuquerque, voltou à TV para apelar aos brasileiros por economia de luz — sem mencionar o tarifaço que vai até o fim do primeiro quadrimestre do ano eleitoral de 2022 —, Jair Bolsonaro, em campanha antecipada, cavalgava em Uberlândia (MG), numa cena mais constrangedora que heroica. A escassez de energia pressiona a inflação, freia atividade econômica e investimento, empobrece a população. É uma consequência da falta de água, não a única. E talvez nem seja a mais grave.

A crise hídrica explicitou-se no primeiro trimestre, ainda no período úmido brasileiro, de novembro a abril. O volume de chuvas foi o mais baixo em 91 anos. Os reservatórios das hidrelétricas dos sistemas Sudeste e Centro-Oeste, os mais relevantes, iniciaram a temporada seca nos menores níveis deste século, até piores que no 2001 do racionamento que sepultou o governo de Fernando Henrique Cardoso. O MME determinou a operação plena das termelétricas e anunciou interesse na importação de energia. Em boletins, o Operador Nacional do Sistema (ONS) tem feito alertas recorrentes sobre o provável nível crítico da oferta de energia no mês que vem.

Pedro Doria - As redes no 7 de Setembro

O Globo / O Estado de S. Paulo

As redes sociais viverão seu primeiro teste pesado no próximo 7 de Setembro. Em 6 de janeiro, quando o Congresso americano estava reunido para homologar a eleição de Joe Biden, o então presidente Donald Trump incitou a invasão do Capitólio. Trump vinha mentindo descaradamente nas redes, acusando fraudes eleitorais onde não havia — e todo espaço lhe foi permitido para que atacasse a democracia como se não houvesse consequência. Quando o Vale do Silício descobriu que palavras têm consequências no mundo real, que palavras radicalizam pessoas e podem levar à implosão de democracias, Trump foi expurgado das principais redes. Pois agora será a vez de Jair Bolsonaro.

Bolsonaro tem tido espaço no Facebook, no Twitter e no YouTube para atacar sem qualquer traço de prova o processo eleitoral brasileiro. Mais recentemente, as redes que dão sustento ao presidente têm também incitado policiais militares à radicalização política. Um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelou que 27% dos PMs frequentam ambientes bolsonaristas radicais nas redes. Dentre os oficiais PMs, o que é mais preocupante, 23% estão nesses ambientes radicais. Um quarto. É muito. É inaceitável numa democracia.

São cidadãos armados, que, no exercício da função, não podem demonstrar preferência política, sendo incitados por um presidente da República que trata o atual ambiente político como uma guerra e prega o armamento da população.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Vetos contra o Estado Democrático de Direito

O Estado de S. Paulo

Cabe ao Legislativo proteger seu bom trabalho e derrubar os vetos de Jair Bolsonaro sobre a LSN

O Congresso cumpriu o seu dever. Revogou a Lei de Segurança Nacional (LSN, Lei 7.170/83) e assegurou meios para a defesa do Estado Democrático de Direito, com a previsão de novos crimes no Código Penal. Já o presidente Jair Bolsonaro fez sua parte pela metade. Sancionou a lei que revoga a LSN, mas vetou cinco pontos importantes para a defesa do regime democrático e o bom funcionamento das instituições republicanas.

Desde que se tornou patente a necessidade de revogar a LSN – o governo federal estava se valendo da Lei 7.170/83 para perseguir adversários políticos –, ficou também evidente que não bastava excluir a antiga lei, aprovada na ditadura militar. Ainda que imperfeitamente, a LSN protegia bens jurídicos importantes, especialmente em relação ao funcionamento das instituições democráticas.

Por isso, de forma prudente e seguindo a experiência internacional, o Congresso, no mesmo projeto de lei que revogou a LSN, definiu crimes que ameaçam ou impedem o pleno funcionamento do Estado Democrático de Direito. No entanto, com cinco vetos especialmente perigosos, o presidente Bolsonaro desfez o equilíbrio entre liberdade individual e proteção do Estado.

O Congresso estabeleceu dois novos crimes contra o processo eleitoral. Jair Bolsonaro vetou o crime de comunicação enganosa em massa (promover ou financiar campanha para disseminar fatos que sabe inverídicos, e que sejam capazes de comprometer a higidez do processo eleitoral; pena de um a cinco anos de reclusão). Sem pudor, tenta manter impunes as ações bolsonaristas contra o sistema eleitoral.

Poesia | Carlos Pena Filho - Desmantelo Azul

 

Música | Geraldo Azevedo - Lembrando Carlos Fernando

 

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Merval Pereira - A política na economia

O Globo

O pagamento de precatórios por parte do governo federal está virando uma questão política que só poderá ser resolvida pelo Congresso. A intenção de encontrar uma solução que fosse avalizada pelo Judiciário, por meio do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), para evitar que a confusão avançasse no sentido de tirar os precatórios do limite do teto de gastos, parecia boa, mas não é constitucional.

O Tribunal de Contas da União (TCU) entrou na negociação com o Ministério da Economia para encontrar uma fórmula que fosse adequada economicamente e viável juridicamente, pois o TCU considerava que parcelar precatórios, como o governo chegou a propor ao Congresso por uma emenda constitucional, traria um grande dano à imagem do país. O ministro Bruno Dantas, vice-presidente do TCU e especialista em finanças públicas, disse ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que o melhor a fazer seria reforçar o teto, aplicando-o inclusive aos precatórios mediante criação de um sublimite.

O raciocínio é que o teto de gastos congelou a despesa primária da União de 2016 e a corrigiu pelo IPCA dos anos seguintes. Como, conceitualmente, os precatórios são despesa primária, explica Dantas, não faz sentido congelar tudo e deixar os precatórios sem uma trava, para crescer fora do ritmo das outras despesas, que só crescem pelo IPCA, contribuindo para comprimir o teto e impactando em gastos discricionários indispensáveis, como manutenção de estradas.

Malu Gaspar - O preço do 7 de setembro

O Globo

Um extraterrestre que desse uma panorâmica sobre o noticiário brasileiro constataria que as instituições estão em atividade frenética: o Congresso votando pautas importantes, uma CPI produzindo descobertas de impacto em ritmo quase diário, o Judiciário tomando decisões históricas como a que define o marco temporal para a posse das terras indígenas… e o presidente da República em franca campanha pela reeleição. O alienígena não estaria errado. Mas teria, sem dúvida, uma visão limitada do cenário. Apesar de toda a agitação, o Brasil já completa quatro semanas em suspenso, esperando para ver o que acontecerá no dia 7 de Setembro.

Não é só a indicação de André Mendonça para uma vaga no Supremo que espera veredicto para depois das manifestações. Há um mês se discute como o governo poderá arcar com os quase R$ 90 bilhões em dívidas judiciais de pagamento obrigatório, sem romper o teto de gastos, e ainda quais serão o valor e as fontes de recursos do novo Bolsa Família. Das respostas, dependem tanto as projeções econômicas como as movimentações eleitorais para 2022 — e, portanto, também o destino de Jair Bolsonaro.

William Waack - O 7 de Setembro e o burro

O Estado de S. Paulo 

Elites dirigentes da economia discutem como se livrar de Bolsonaro

Diante dos olhos das principais elites da economia brasileira Jair Bolsonaro repete uma conhecida trajetória. De mal menor, está virando aos olhos dessas elites o pior dos males. O mesmo aconteceu com Fernando Collor e Dilma Rousseff.

Há importantes diferenças no comportamento dessas elites que, em parte, espelham a perda de coesão institucional e o esgarçamento do tecido social brasileiro, além da forte regionalização da nossa política. Refletem também a alteração dos “pesos relativos” no PIB e na política entre indústria, agroindústria, setor financeiro e varejo. E diferentes mentalidades, que impedem o surgimento de lideranças e ações comuns. Ninguém mais fala pelo “todo” das elites econômicas.

Quando se examina as posturas políticas desses grupos de dirigentes essas diferenças separam a grosso modo os segmentos que são mais “abertos” daqueles “mais fechados” em relação ao mundo lá fora. Os mais dependentes ou integrados nas grandes cadeias produtivas globais, de capital intensivo, orientados para inovação tecnológica e atrelados ao comércio exterior e aos grandes fluxos de investimento foram, por exemplo, os que abateram os ministros bolsonaristas das Relações Exteriores e Meio Ambiente.

Maria Cristina Fernandes - A boiada, agora, passa sobre o capital

Valor Econômico

Adiamento de manifesto empresarial foi crucial para Bolsonaro

A unidade frustrada de entidades empresariais e financeiras na apresentação de um único manifesto em defesa da ordem constitucional não poderia ter acontecido num momento melhor para o presidente Jair Bolsonaro. Depois de já ter passado por cima de menos aquinhoados pela virtude ou pela sorte, a boiada bolsonarista agora atropela também o capital.

Por duas razões: o recuo das entidades acontece no momento em que se afunila, sob as bênçãos dos Poderes, um cambalacho nas contas públicas, e também quando se confirma mais uma frustração nas expectativas de retomada econômica.

O manifesto dos empresários, apesar de não fazer referência direta à conjuntura econômica, serviria para adensar o peso de sua reação num momento de escalada golpista do bolsonarismo.

Ao colocar o ministro da Economia e os presidentes dos bancos estatais a serviço do desbaratamento da unidade do movimento, o presidente não é capaz de sufocar o azedume. Adia, porém, sua expressão para um momento em que espera estar vitaminado pela aposta que fez no 7 de setembro.

Luiz Carlos Azedo - Feitiços do tempo

Correio Braziliense

Perde-se tempo com coisas que não são prioritárias, as verdadeiras urgências não são levadas em conta. O melhor exemplo é o apagão energético

O filme que intitula a coluna é uma história simples, romântica, cheia de clichês, meio pastelão. No Dia da Marmota, o repórter Phil Connors vai à pequena Punxsutawney fazer a cobertura do evento. Por um desses mistérios que somente acontecem nos filmes de Hollywood, o mesmo dia se repete incontáveis vezes. O protagonista fica preso no tempo. É um nonsense, sem nenhuma explicação científica nem preocupação com isso.

A trama se baseia em personagens estereotipados: Rita, a heroína, é certinha demais; Phil é um fracassado, que se sente mal pelo trabalho que faz, escalado todo ano para acompanhar uma festa que odeia. Numa analogia transgressora, o presidente Jair Bolsonaro pretende transformar o nosso Dia da Independência no seu Dia da Marmota. Corre o risco de se tornar prisioneiro do tempo, das manifestações que está convocando para Brasília e São Paulo, pelo resto de seu mandato, qualquer que seja a capacidade de mobilização que venha a demonstrar.

Cristiano Romero - Brasil: o país onde até o passado é incerto

Valor Econômico

No Egito, sítios históricos; em Brasília, contas a pagar

No país onde até o passado é incerto, como bem definiu o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan, cotidianamente aparecem do nada contas bilionárias para o Tesouro Nacional pagar. Se já não bastasse o fato de as contas do setor público, considerando-se todas as suas esferas (União, Estados e municípios) e poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), serem estruturalmente deficitárias, uma vez que o volume de impostos recolhidos é insuficiente para bancar as despesas, de tempos em tempos o cidadão é surpreendido com a informação de que se descobriu, em algum lugar, um "esqueleto" no armário, uma nova fatura bilionária a ser paga.

No Egito, há mais de um século arqueólogos surpreendem com a descoberta de sítios históricos que ajudam a contar a história da humanidade. Uma missão arqueológica descobriu, em abril deste ano, uma cidade soterrada perto de Luxor, no Sul do Egito. Calcula-se que se trata de um sítio urbano cujo florescimento se deu há três mil anos. A descoberta é considerada uma das mais importantes desde a tumba de Tutancâmon, há quase um século, e está sendo chamada de "a maior cidade antiga do Egito" e, também, de "a cidade dourada perdida". Em comunicado oficial, a equipe de escavação informou que a cidade estava "perdida sob as areias".

Roberto Macedo* - PIB caiu um tiquinho e está sem forças para subir um tantão

O Estado de S. Paulo

Hoje o cenário de crescimento por tiquinhos parece o mais verossímil

O IBGE anunciou ontem que o produto interno bruto (PIB) caiu 0,1% no segundo trimestre deste ano, relativamente ao anterior. Além de valores em reais, o relatório publicado também abrange números-índices que compõem uma série de dados com média de 1995=100, igualmente apresentada com ajuste sazonal, à qual recorrerei.

Ela mostra que no trimestre anterior o PIB cresceu 1,2% relativamente ao quarto trimestre de 2020, taxa bem forte para uma variação trimestral. Mas cabe examiná-la num contexto mais amplo. O índice do PIB do segundo trimestre de 2021 foi de 171,4, e o do primeiro, 171,5, números bem próximos do valor que tinha no quarto trimestre de 2019 (171,6), concluindo assim a recuperação em V da forte recessão ensejada pela covid-19, iniciada no primeiro trimestre de 2020.

Mas repito que até hoje o PIB não escapou da depressão, algo mais duradouro e forte do que uma recessão, iniciada após o primeiro trimestre de 2014 (!), quando esse índice foi de 177,1 – o maior da série –, depressão essa cujo gráfico tem um formato mais achatado do que um V, como o da parte inferior de um U, durante a qual ocorreram as fortes quedas de 20152016 e de 2020. A recuperação desse índice de 177,1, de sete anos atrás (!), exigiria um aumento de 3,3% do PIB a partir do terceiro trimestre de 2021, o que não se concretizará neste ano.

Celso Ming – As ameaças ao PIB que pode emagrecer

O Estado de S. Paulo

Essa queda do PIB, de 0,1% no segundo trimestre em comparação com o nível do primeiro trimestre deste ano, só não é inteiramente decepcionante porque já era esperada. Mas, por menor que seja essa decepção, ela é uma pedra adicional a puxar para baixo o crescimento esperado para este ano.

Também ilusório é o desempenho de 1,8% em 12 meses. Trata-se de comparação com base muito fraca, que foi a derrubada ocorrida em 2020, primeiro ano da pandemia. Em todo caso, dá para contar com um avanço do PIB neste ano de cerca de 5%. Como canta o rapper Emicida nos bailes das comunidades e nas redes sociais: “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”.

Everardo Maciel* - Notícias de um manicômio chamado Brasil

O Estado de S. Paulo

Não acreditei quando li na imprensa, há algum tempo, que setores não apenas postulavam a redução de sua carga tributária, mas pretendiam aumentar a carga de outros. Presumi, equivocadamente, que o repórter não entendera o que foi dito.

Antes, existiam movimentos, nem sempre legítimos, visando à redução de carga tributária de empresas ou setores. Agora, esses movimentos, muitas vezes, buscam aumentar a dos outros. A matéria tributária se transformou, pois, num circo de horrores e os projetos de “reforma”, em exercícios de predação, inclusive entre os entes federativos.

Míriam Leitão - O PIB no meio das incertezas

O Globo

A agropecuária foi atingida pela seca, encolheu no segundo trimestre e isso puxou o número do PIB para um ligeiro negativo, de -0,1%. A crise hídrica está batendo também na inflação que, com o novo aumento das bandeiras tarifárias anunciado na terça-feira, pode chegar a 10% em agosto e superar 8% no ano. Isso encolhe o consumo das famílias que neste segundo trimestre ficou estagnado. Os investimentos tiveram uma queda de 3,6%, o pior resultado pelo lado da demanda. As medidas de restrição de consumo vão afetar o PIB do quarto trimestre, que pode até ser negativo. A incerteza em relação à pandemia cresce em setembro, mas a vacinação pode ajudar a reduzir a crise sanitária no fim do ano. O pior fator de incerteza na economia são os conflitos criados pelo presidente Bolsonaro.

A economia está sofrendo o impacto dos eventos de todas as áreas, as incertezas hídricas, sanitárias, políticas. A demora de ação na gestão da crise hídrica, da mesma forma que houve na pandemia, acabou aumentando o problema. O preço está subindo mais exatamente porque o governo dizia que estava tudo sob controle. O negacionismo é sempre um terrível elemento na administração de qualquer crise. Na sanitária, provocou o aumento de mortes e atraso na vacinação. Tudo isso afeta a economia. O PIB este ano terá um número forte porque está sendo comparado com o tombo enorme do ano passado, mas os dados divulgados ontem pelo IBGE foram piores do que o calculado pelo mercado.

Vinicius Torres Freire - Bombas ameaçam PIB até 2022

Folha de S. Paulo

Resultado do segundo trimestre diz nada sobre o futuro, que depende de política, chuva e EUA

O que dizem os números do PIB do segundo trimestre? Básica e francamente, nada. Nada de novo, apesar da espuma do noticiário: a economia despiora, deve crescer uns 5% neste 2021, embora metade do povo deva ficar para trás, em parte na fome. A fim de tentar saber um pouco do que será da economia, em particular em 2022, temos de olhar para outra parte:

1) arranjos e mutretas que Jair Bolsonaro vai conseguir aprontar com Orçamento de 2022 e outras medidas eleitoreiras;

2) o tamanho da baderna que resultará da campanha golpista, mais e mais estimulada pelo enrolamento progressivo da família Bolsonaro com a polícia e a Justiça;

3) a falta d’água e de eletricidade, problema que de um modo ou de outro vai durar até pelo menos março de 2022, afora dilúvios;

4) a economia internacional;

5) o efeito disso tudo na taxa de câmbio (no “preço do dólar”) e, por tabela, na inflação.

Maria Hermínia Tavares* - Teste da democracia no Dia da Pátria

Folha de S. Paulo

Bolsonaro não criou a extrema direita, mas ampliou sua expressão política e lhe infundiu um propósito comum

Ainda não se sabe no que se arrima o apoio a Bolsonaro na faixa de 25% a 30% dos brasileiros, segundo as pesquisas. O que se conhece, isso sim, é a parcela vertebrada e loquaz de seus apoiadores. Cientistas sociais, a exemplo de Angela Alonso, Camila Rocha, Ester Solano, Isabela Kalil e Pablo Ortellado, têm mapeado linhas de ação, formas de organização e visões de mundo da direita extrema no país. Esta pode ser comparada a um arquipélago de ilhas diferentes entre si, que, submersas, foram trazidas à tona pelo efeito combinado do conflito político com a polarização da década passada e cujo espaço a comunicação digital da atualidade expandiu.

As ilhas da extrema direita organizada são povoadas por grupos heterogêneos: libertários que reivindicam o porte de armas de fogo; mercadistas ultraliberais; conservadores possessos com a suposta dissolução dos costumes; fascistas pedestres ou motorizados; monarquistas perdidos no tempo; partidários de uma ordem capaz de prevalecer sobre a lei; patriotas para os quais o princípio da soberania nacional conta mais do que a defesa do ambiente; adeptos de uma edulcorada tradição ocidental em vias de desmanche; viúvas e viúvos do Brasil Grande do regime militar. Muitos são câmaras de eco de interesses de empresas, igrejas, corporações; outros, enfim, apenas vocalizam os ressentimentos e as frustrações que a realidade social sempre produz.