*Antonio Gramsci (1891-1937). Cadernos do Cárcere, v.1. p. 103. Civilização Brasileira, 2006.
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
domingo, 8 de junho de 2025
Opinião do dia – Antonio Gramsci* (a força das ideias)
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Momento é propício para acordo Mercosul-EU
O Globo
Com Trump na Casa Branca, europeus têm
argumento persuasivo para convencer setores resistentes
Em tempos de instabilidade no comércio
mundial, o encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da
Silva e Emmanuel
Macron em Paris deveria dar impulso à ratificação do acordo entre
o Mercosul e
a União
Europeia (UE). Finalizado em dezembro de 2024, o texto precisa ser
aprovado pelos Estados envolvidos. A entrada em vigor do acordo seria a melhor
resposta ao protecionismo do presidente americano Donald Trump. Exportadores
europeus e do Mercosul teriam a chance mútua de explorar novos mercados em
momento que o maior do mundo fecha suas portas. Diante de incertezas
crescentes, os dois blocos têm condição de sedimentar uma parceria estratégica
que demonstre o valor não apenas econômico, mas também estratégico do livre-comércio.
A negociação do acordo teve início em 1999. Já na largada, ele foi alvo de ataques de lobbies em ambos os lados. Na América do Sul, os protecionistas temiam a competição da poderosa indústria europeia. Na UE, os principais opositores foram os agricultores, em especial os franceses, receosos da competitividade do agronegócio em países como Brasil, Argentina e Paraguai.
Partidos revigorados - Merval Pereira
O Globo
As reformas de 2017 já proporcionaram efeitos virtuosos para o sistema partidário, diminuindo a hiper fragmentação (hoje o número de partidos efetivos é o mesmo que existia durante o governo Fernando Henrique Cardoso, 9, avaliam) e aumentando a disciplina interna
Há luz no fim do túnel. O cientista político Carlos Pereira, da Fundação Getúlio Vargas no Rio, considera questionável a tibieza dos partidos políticos brasileiros, que venho criticando, como uma das causas do empobrecimento de nossa democracia. Em pesquisa sobre os impactos das reformas na legislação eleitoral e partidária de 2017, com a criação do fundo eleitoral, o fim das coligações nas eleições proporcionais e a cláusula progressiva de desempenho, que desenvolve em colaboração com Matheus Cunha, cientista político da Universidade Federal de Pernambuco, procura demonstrar que não apenas a fragmentação partidária “diminuiu drasticamente”, como também a lealdade e disciplina partidárias “aumentaram vertiginosamente”.
Desafio intelectual na política é romper o dogmatismo e a intolerância - Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
Nossos intelectuais estão apartados da
política ou aderiram à intolerância ideológica; é preciso repensar seriamente o
Brasil na nova ordem mundial e oferecer um rumo às elites política e econômica
Em quase todos os momentos importantes da
história do Brasil, alguns intelectuais se destacaram pelo esforço de produzir
uma síntese da realidade do país e inspiraram as suas respectivas gerações a
levarem adiante um projeto de nação. Não foi pouca coisa, num país no qual a
primeira universidade foi criada apenas em 1920, a Universidade do Rio de
Janeiro (com a união da Escola Politécnica à Escola de Medicina e à Faculdade
de Direito), pela necessidade de conceder o título de doutor honoris causa ao
rei Alberto I da Bélgica.
Fazem parte dessa constelação, entre outros, Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil –1936), com seu estudo sobre a formação do caráter nacional; Gilberto Freyre (Casa-Grande & Senzala –1933); Caio Prado Júnior (Formação do Brasil Contemporâneo -1942); Celso Furtado (Formação Econômica do Brasil –1959); Raymundo Faoro (Os Donos do Poder -1958); e Nelson Werneck Sodré (História da Burguesia Brasileira – 1964).
Petra Costa e seu Apocalipse nos Trópicos - Elio Gaspari
O Globo
A cineasta Petra Costa, autora do celebrado
“Democracia em Vertigem”, concluiu seu novo filme. Chama-se “Apocalipse nos
Trópicos” e trata do crescimento das igrejas evangélicas, desembocando no
bolsonarismo, para deslizar na derrota eleitoral de 2023 e nas cenas do 8 de
janeiro. O Brasil passou por momentos apocalípticos e vai bem, obrigado. O
longa-metragem estreia no Rio e em São Paulo no dia 3 de julho.
No mesmo estilo contido de seu filme anterior. Petra relembrou dias que hoje parecem esquecidos e estão encapsulados em volumes de processos sobre as tramas golpistas de 2023/2024. Neles, projetos apocalípticos como o Plano Punhal Verde Amarelo, acabam reduzidos a fanfarronadas de generais palacianos. Com a colaboração de Anna Virginia Balloussier, foram entrevistados líderes evangélicos, como o pastor Silas Malafaia.
Notícias de uma guerra particular - Bernardo Mello Franco
O Globo
Ególatras, presidente e empresário usam suas
próprias redes para trocar insultos e ameaças
O Salão Oval ficou pequeno demais para Donald Trump e Elon Musk.
O presidente do país mais poderoso do mundo e o homem mais rico do planeta
pareciam inseparáveis. Agora se tornaram inimigos viscerais, que trocam
insultos e ameaças em público.
A aliança trincou no fim de maio, quando Musk
começou a criticar o novo plano de gastos da Casa Branca. O mal-estar virou
barraco nesta quinta-feira, após Trump sugerir que o dono da Tesla ficou
irritado porque ele cortou o subsídio aos carros elétricos.
“Estou muito decepcionado com o Elon. Eu o ajudei muito”, afirmou o republicano. “Sem mim, Trump teria perdido a eleição. Que ingratidão”, devolveu Musk.
Tapas e beijos – Dorrit Harazim
O Globo
Trump e Musk têm estatura comparável. Quem
destruir o adversário destruirá a si também
Seria um pastelão de garotos mimados fossem outros os protagonistas, outras as armas. Mas a espetaculosa pancadaria de quinta-feira opôs o ego e o poder do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao ego e ao poder do titã bilionário Elon Musk. Coisa grande, portanto. Tratando-se de dois espécimens doentiamente fissurados pelo próprio umbigo, o rompimento vinha sendo dado como inevitável desde a meteórica junção das duas grifes. O que ninguém previu, porém, foi a vertiginosa sucessão de golpes. De parte a parte foi uma erupção dos demônios que hibernam em cada um. Não houve nocaute, nem poderia haver. Trump e Musk têm estatura (física até) comparável. Quem destruir o adversário destruirá a si também.
O domínio sobre os privilégios do poder – Lourival Sant’Anna
O Estado de S. Paulo
Musk acreditou que todos os seus interesses
seriam atendidos pelo governo
Os bastidores do rompimento entre Donald
Trump e Elon Musk são material para estudo de caso das armadilhas por trás do
desmonte do Estado e da deslegitimação das instituições. As críticas de Musk
agravam os temores acerca da política econômica de Trump e dividem o eleitorado
conservador.
Antes de entregar a chave de ouro da Casa
Branca a Musk, na sua despedida do governo, dia 30, Trump recebeu um dossiê que
mostrava que Jared Isaacson, indicado pelo dono da Space-X para administrar a
Nasa, foi doador de campanhas democratas.
Tanto Trump quanto Musk fizeram doações para campanhas democratas no passado. Mesmo assim, Trump chamou Musk e disse que não ia nomear Isaacson, bilionário amigo dele, cuja empresa Draken faz serviços de treinamento para as forças armadas americanas.
O apagão logístico dos Correios – Celso Ming
O Estado de S. Paulo
Os Correios passam por rápido processo de
sucateamento patrimonial e operacional. Seu último balanço acusou prejuízo
líquido de R$ 1,7 bilhão apenas no primeiro trimestre deste ano e patrimônio
negativo de R$ 6,1 bilhões. É o maior rombo entre as estatais federais.
Seus dirigentes acionaram a velha maquininha de lenga-lengas para tentar explicar um desastre que não vem de anteontem. Põem a culpa na “taxação da blusinhas”, o imposto de importação de pequenas encomendas de até US$ 50. E ainda se queixam da queda brutal na entrega de correspondências, produzida pela mudança de hábitos: ninguém mais manda cartas nem despacha telegramas pelo correio; prefere usar o e-mail ou, então, o WhatsApp. Até mesmo a remessa de boletos é feita digitalmente. Estamos diante de uma reviravolta estrutural desse segmento que deveria ter empurrado os Correios para a modernidade – e não para um apagão patrimonial e logístico.
Falta planejamento e sobra desperdício - Rolf Kuntz
O Estado de S. Paulo
O governo tende a funcionar, no dia a dia, como se a noção de planejamento embutisse apenas um jogo verbal
Com vento a favor, proteção dos anjos e algum empenho do empresariado, a economia brasileira poderá crescer pouco mais de 2% neste ano – 2,4%, segundo estimativa oficial – e sobre isso nem vale a pena especular, segundo a sabedoria da Roma antiga. “Carpe diem, quam minimum credula postero”, aconselhou o poeta Horácio em sua ode a Leuconoe. Algo como: aproveita o dia de hoje, porque pouquíssimo podes confiar no amanhã. Mas até na antiguidade havia algum planejamento, como indica, por exemplo, o desenho das cidades, ou como se observa na organização militar, nas fortificações, na distribuição populacional e na estocagem de alimentos. Coisas do passado?
China e EUA x minerais 'raros' - Vinicius Torres Freire
Folha de S. Paulo
Falta de terras-raras chinesas poderia parar
montadoras americanas e pioraram crise entre os dois países
Desde maio, fábricas de autopeças e veículos
americanas dizem ao governo deles e a jornais que estão à beira de interromper
a produção por falta
de terras-raras, 17 elementos químicos importantes para a produção de peças
e aparelhos eletrônicos e elétricos e muito mais. Europeus também se queixam da
escassez.
No final de maio, Donald Trump foi à sua rede social dizer que os chineses barravam exportações de terras-raras e, assim, descumpriam a trégua de Genebra. Nessa cidade suíça, em 12 de maio, chineses e americanos haviam acertado a suspensão de 90 dias na guerra comercial, a fim de negociar acordo maior.
Cansaço de bonitões e valentões - Dora Kramer
Folha de S. Paulo
Pesquisa mostra brasileiros fartos da velha
cantilena repetitiva e narcísica de Lula e Bolsonaro
O presidente da República aparece cercado de
adversários por todos os lados na última pesquisa
Quaest/Genial que projeta cenários para 2026. Empata com a maioria,
fica pouco à frente de uns dois menos votados e, no juízo de 66% dos
consultados, não deveria se candidatar à reeleição.
Situação difícil, definitiva até não fosse o imponderável um personagem presente e atuante na política. O Luiz Inácio da Silva (PT) apontado na pesquisa é diferente daquele que olha para si e vê um "bonitão" escolhido pelo divino para ser a redenção do Nordeste e a salvação da pátria.
Vinte anos do mensalão - Celso Rocha de Barros
Folha de S. Paulo
Mas o que aconteceu com os partidos de
direita que o PT, segundo Jefferson, comprava?
Há vinte anos, o então deputado Roberto
Jefferson deu
entrevista a esta Folha denunciando o mensalão.
Segundo Jefferson, o governo Lula estaria
pagando uma mesada para parlamentares que votassem a favor de suas propostas no
Congresso.
O escândalo
que se seguiu modificou profundamente a política brasileira, mas a
maior parte do público ainda não percebeu seus desdobramentos.
Em seu livro "Nervos de Aço" (Record, 2006), Jefferson deu mais detalhes sobre o que estava denunciando. Nos governos de direita, partidos como o PTB recebiam ministérios ou a chefia de órgãos públicos e ali cobravam suborno ("caixa dois") das empresas que faziam negócios com a administração pública.
Brasilidade é apelo forte à nação - Muniz Sodré
Folha de S. Paulo
Às elites cevadas no usufruto patrimonialista
do Estado não importa o que mudou em termos de classes
Em meio à impressão desoladora de que o país
possa estar perdendo o trem da história por decomposição de um Estado cansado,
carente de profunda transformação subjetiva e objetiva, a dinâmica nacional
revela-se animadora. São fatos de superestrutura, despercebidos nas análises de
macroestrutura, eventualmente corretas, mas alheias à rica totalidade do ser
social, que inclui criatividade de formas de vida e de formatividade estética.
Pelo menos é o que acorre à mente depois de assistir ao espetáculo extraordinário de João Bosco e seu quarteto, em que se reaviva o sentimento de brasilidade, invocado por Machado de Assis no século 19. Nada do nacionalismo fechado das autocracias, mas comunhão afetiva com o território. Antes, as performances de Chico, Gil, Caetano e Betânia nos palcos já pareciam ultrapassar a categoria show de entretenimento para se configurarem como convocações à partilha da alegria coletiva que ajuda a definir brasilidade. Ao mesmo tempo, filmes como "Ainda Estou Aqui", "O Agente Secreto" e "Malês" renovam a projeção do cinema nacional.
Crimes na rua Londres - Hélio Schwartsman
Folha de S. Paulo
Livro esmiúça história da prisão e posterior
soltura de ditador chileno Augusto Pinochet em passagem por Londres
Philippe Sands é um autor extraordinário. Ele
pega temas áridos e potencialmente aborrecidos, como o direito internacional,
os ilustra com histórias cujo fim todos já sabemos, como a prisão e posterior
soltura do ditador chileno Augusto Pinochet em passagem por Londres, e consegue
transformar isso num livro que lemos com a mesma avidez com que se devoram
novelas de detetives.
Em parte, Sands consegue esse efeito porque de fato faz um trabalho de detetive. Ele vai fundo em suas pesquisas, descobrindo personagens secundários que vão revelando novas facetas, às vezes inesperadas, da trama principal. E ele confere gravidade humana e densidade dramática a esses personagens.
sábado, 7 de junho de 2025
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Censo 2022 reflete mutação religiosa do Brasil
O Globo
Católicos seguem maioria, e evangélicos
avançam, embora seu crescimento tenha ficado aquém do projetado
Os dados sobre religião do Censo 2022,
divulgados ontem pelo IBGE,
revelam uma transformação na sociedade brasileira. O Brasil continua sendo um
país majoritariamente católico, mas a proporção de evangélicos na população
continua a crescer — em 2022, correspondiam a 26,9% da população, ante 21,6% em
2010. É verdade que os católicos são mais que o dobro disso, ou 56,7% dos
brasileiros, mas essa proporção era de 65,1% em 2010 e, até 1980, ficava acima
de 90%. E, embora o Brasil continue a ser um país predominantemente cristão, os
brasileiros que declaram não ter religião aumentaram de 7,9% a 9,3% em 12 anos.
Tais mudanças espelham as mutações sociais por que o país vem passando nas
últimas décadas.
As denominações evangélicas têm sido o segmento religioso que mais ganha adeptos. Entre 1991 e 2022, sua participação praticamente triplicou, de 9% para 26,9%. Tais números confirmam uma realidade observada em muitas cidades brasileiras, onde a quantidade de templos se multiplica. Mas também é preciso pontuar que, embora em 2022 a proporção de evangélicos tenha atingido o maior patamar já registrado, ela ficou aquém do esperado pelos pesquisadores, algo em torno de 30%. No últimos dois Censos, o crescimento havia sido de 6,5 e 6,1 pontos percentuais — desta vez ficou em 5,3 pontos.
Os brasileiros estão cansados de Lula e Bolsonaro – Carlos Alberto Sardenberg
O Globo
Parece que a população manifesta cansaço com
a falta de austeridade e contenção no uso do dinheiro público
Quase metade dos brasileiros, ou exatamente
48%, considera que a economia piorou — tal é um dos resultados da pesquisa
Quaest divulgada na última quarta-feira. Na rodada anterior, em março, o
descontentamento era maior: 56% dos entrevistados. Houve, portanto, ligeira
melhora na percepção, mas ainda assim o dado chama a atenção.
Depois de dois anos de crescimento acima de 3%, com desemprego baixo, quase metade dos brasileiros acha que a economia está pior. Mas o presidente Lula acredita que vai muito bem. Ele não perde oportunidade para alardear o “pibão” e zombar dos analistas que antecipam desaceleração. Nos bastidores, Lula cobra de sua equipe mais esforço para “mostrar” à população que o Brasil vai melhor do que ela pensa. De novo, o problema seria de comunicação. Mas não é. Outros dados da mesma pesquisa mostram que a população percebe problemas que o governo não quer ou não pode ver.
Uma piada ruim - Eduardo Affonso
O Globo
Piadas
não matam. O que mata é a violência, da polícia, dos traficantes, das milícias.
É o desvio de bilhões dos pensionistas
Um
humorista foi condenado a oito anos de prisão (e a pagar indenização
milionária) por fazer piadas. Piadas ruins, mas, ainda assim, piadas. Que não
zoavam militares, juízes, padres e outros senhores do poder divino ou temporal.
Os intocáveis de hoje são as minorias, essa coisa difusa que, em última
instância, inclui todo mundo. Some mulheres, idosos, crianças,
afrodescendentes, indígenas, judeus, crentes, gays, trans, calvos, pais de pet,
periféricos, gordos, nordestinos, pessoas com deficiência, HIV ou disfunção
erétil — e veja quem sobra.
A
sentença diz que o humorista reproduz “discursos e estereótipos que incentivam
a perseguição religiosa, a exclusão das minorias e discriminação contra pessoas
com deficiência”. Como nos tempos da TV a lenha, quando os intérpretes de
vilões de novelas eram xingados nas ruas (e jamais convidados a apresentar
bailes de debutantes), a juíza não entendeu a diferença entre o artista e a
persona cômica. Não sabe que rir da piada em que a velhinha leva um tombo é
diferente de empurrar uma velhinha escada abaixo.
O Barão de Itararé também foi preso — era o governo Vargas. Juca Chaves foi preso, a turma do Pasquim foi presa — era a ditadura militar. As piadas, nesses casos, eram ótimas, mas o que incomoda não é a qualidade do humor, e sim se o alvo da risada tem poder de decidir sobre aquilo de que se pode rir e sobre o que se deve calar. O Barão pendurou na porta de sua sala o cartaz “Entre sem bater”. Pode ser a hora de deixar um “Entre sem prender” na bilheteria dos espaços onde adultos pagam para o ato consensual de rir do que acham risível.
Não se trata Léo Lins – Pablo Ortellado
O Globo
Pena que ele recebeu é superior à aplicada a
Sérgio Nahas pelo assassinato da mulher a tiros
A condenação de Léo Lins a mais de oito anos de prisão e multa dividiu o país. A enorme controvérsia não diz respeito particularmente ao humorista ou ao tipo de humor que pratica, mas às enormes implicações de uma regulação dura da liberdade de expressão. Para ter uma ideia, a pena que ele recebeu é superior à aplicada a Sérgio Nahas pelo assassinato da mulher a tiros. Se uma condenação duríssima como essa passa incontestável e se estabelece como precedente para condenações futuras, quais as implicações para o exercício da liberdade de expressão, em especial no âmbito do humor?
As instituições fora de lugar - Miguel Reale Júnior
O Estado de S. Paulo
É a consequência do presidencialismo de cooptação, do sistema eleitoral proporcional e da proliferação de partidos sem conteúdo, além de uma classe política desinteressada
Não há nem harmonia nem independência entre
os Poderes, há desarticulação. O Legislativo, antes de legislar, administra,
destinando de R$ 50 bilhões a R$ 60 bilhões para obras, na maioria
pulverizadas, visando a atender aos interesses eleitorais dos congressistas,
sem respeito a qualquer política pública.
Segundo a Constituição federal (CF), o Orçamento compreende metas e prioridades da administração. No entanto, com a aprovação das Emendas Constitucionais 86/2015, 100/2019 e 105/2019, as emendas individuais de parlamentares à Lei Orçamentária e as de bancada passaram a ser de execução obrigatória, além de se criarem emendas de comissão e Pix, esta com recursos alocados diretamente a Estados e municípios. Cada parlamentar tornouse um ordenador de despesa de recursos da União.
O silêncio dos líderes empresariais nos EUA - Fareed Zakaria
O Estado de S. Paulo
Eles costumavam se opor ao poder, mas agora
não emitem opiniões diante da destruição de Trump
Antigamente, os CEOs americanos se sentiam
livres para criticar as políticas governamentais, muitas vezes com uma
reclamação familiar. O ex-CEO da Verizon Communications Inc., Ivan Seidenberg,
explicou que ao atingir praticamente todos os setores da vida econômica, o
governo estava “injetando incerteza no mercado”.
O então CEO da Cisco Systems Inc., John Chambers, concordou. “As empresas não gostam de incerteza”, disse. Isso foi durante o primeiro mandato de Barack Obama, quando o governo tentava tirar a economia de uma crise financeira global única.
Alta de gastos de estados e municípios serve de alerta - Adriana Fernandes
Folha de S. Paulo
Cobrança do ajuste nas finanças públicas deve
ser para todos
O crescimento
dos gastos dos estados e municípios em ritmo muito maior do que o do
governo federal tem passado ao largo das cobranças dos parlamentares e serve de
alerta nas negociações políticas deste domingo (8) em torno de um acordo de
novas medidas fiscais para substituir o decreto de alta do IOF.
Uma das causas para essa expansão, apontada
em estudo publicado nesta semana pelo Ibre-FGV, é que o Congresso tem aprovado
nos últimos anos medidas que elevaram as despesas do governo federal, mas que,
na prática, representam um repasse maior de recursos da União para os governos
regionais.
É o caso da complementação do Fundeb (fundo voltado para a educação básica), receitas de royalties de petróleo, e as chamadas emendas Pix, que têm baixa transparência e facilitam a inclusão de despesas no Orçamento por deputados e senadores..
Depois de Musk - Demétrio Magnoli
Folha de S. Paulo
Trump carece de ideologia, mas escolheu
governar com os nacional-populistas
Musk saiu detonando. Qualificou o "Big
Beautiful Bill", projeto orçamentário de Trump, como uma "abominação
repugnante": "vergonha daqueles que votaram por ele". É a
primeira cisão relevante no governo Trump —e a evidência de que, no lugar de
sentenças condenatórias sobre o "fascismo", deve-se entender a
complexidade.
No primeiro mandato, um Trump inseguro cercou-se de figuras do establishment e apoiou-se na burocracia profissional. O resultado foi o cerceamento de seus impulsos mais destrutivos. No mandato atual, o presidente libertou-se dos grilhões. Convocou arautos extremistas, sicofantas e bajuladores, declarou guerra à burocracia estatal e desafiou a autoridade dos juízes. Mesmo assim, seu governo não é um monolito, mas um arco-íris ideológico.
O pôr do sol do euro - Rodrigo Zeidan
Folha de S; Paulo
Eventual ataque especulativo pode destruir
moeda única; risco é remoto, mas existe
O título desta coluna é inspirado no livro de
Alberto Bagnai, polímata, professor (e atualmente deputado) italiano que
escreveu "Il Tramonto Dell'Euro", em 2012. Ele defendia a saída do
país da zona do euro, embora hoje se concentre em combater a multiplicação de
regulações ineficientes da União
Europeia.
Somos amigos e discordava da sua posição, mas devo admitir que os custos sociais da moeda única estão aumentando. Parte é azar, mas o principal motivo é o abandono informal do Tratado de Maastricht.
Para além da Amazônia: a hora de agir pelo Cerrado é agora! - Dandara Tonantzin
Correio Braziliense
O Cerrado espera mais do que menções
protocolares: busca compromissos sólidos, metas ambiciosas e financiamento real
para sua conservação
Desde as primeiras luzes do dia até o cair da noite, o Cerrado pulsa vida: é o segundo maior bioma da América do Sul, ocupa 22% do território brasileiro e abriga quase 30% das águas superficiais do país, alimentando dezenas de bacias que banham outros biomas. No entanto, vive sob a chancela de leis flexíveis que permitem uma exploração sem freios e do racismo ambiental que impõe desafios para as populações que ali habitam.
Desafios para o Congresso na área trabalhista - José Pastore*
Correio Braziliense
Parlamentares terão muito trabalho para
atender aos pedidos do STF em campos do mundo do trabalho que implicam em
decisões difíceis e onerosas
O Supremo Tribunal Federal (STF) deu prazos para o Congresso Nacional aprovar três leis que são exigidas pela Constituição de 1988 na área trabalhista. A primeira é a lei sobre a licença paternidade, porque a regra atual de cinco dias foi aprovada pelos constituintes como provisória. A segunda é a lei sobre a proteção dos trabalhadores contra os problemas causados pela automação, também prevista na Constituição e, até hoje, não aprovada. A terceira é a lei de proteção dos trabalhadores contra os trabalhos penosos. As três são requeridas pela Carta Magna. São três imensos desafios:
O equilíbrio fiscal e o IOF - Marcus Pestana
O governo perde cada vez mais espaço de liberdade para governar. As despesas discricionárias ou não obrigatórias tenderão a ser negativa a partir de 2027. Temos, no Brasil, o orçamento mais engessado do mundo. Há mecanismos automáticos, retomados após a revogação do “Teto de Gastos”, que estabelecem vinculações das despesas de saúde e educação às receitas correntes e a indexação aos aumentos concedidos ao Salário-Mínimo, sempre acima da inflação, do piso da previdência, BPC, Auxílio Desemprego e Abono Salarial.
Uma briga didática - Hélio Schwartsman
Folha de S. Paulo
Disputa entre Trump e Musk expõe pontos
fracos da democracia americana e põe apoiadores em dissonância cognitiva que
pode ter efeito salutar
Dois egos desproporcionalmente grandes não
podem ocupar o mesmo espaço de poder ao mesmo tempo. À luz da psicologia, um
rompimento entre Donald Trump e Elon Musk era
mais ou menos inevitável. Ainda assim, surpreendem a velocidade
da deterioração da relação entre os dois e os termos
fortes com os quais um qualifica o outro agora.
As divergências entre o par vinham se acumulando já havia algum tempo, mas apenas uma semana atrás eles ainda tentavam dar um ar de civilidade ao divórcio. Na sexta-feira (30), Trump organizou na Casa Branca uma despedida para Musk, que deixava o governo para cuidar de suas empresas. Ali trocaram palavras elogiosas e juraram amor eterno.
sexta-feira, 6 de junho de 2025
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Acordo sobre o Galeão traz boas perspectivas
O Globo
É louvável entendimento para manter
concessionária, mas é preciso preservar as restrições a voos no Santos Dumont
É bem-vindo o acordo, aprovado pelo Tribunal
de Contas da União (TCU), permitindo que a concessionária RIOgaleão continue à
frente do Aeroporto Internacional Tom Jobim/Galeão. O atual contrato, firmado
em 2014 com prazo até 2039, será reformulado, dando mais fôlego à operadora.
Mesmo assim, o terminal terá de passar por um processo simplificado de leilão
até março de 2026, e a RIOgaleão precisará apresentar ao menos uma proposta
pelo valor mínimo para participar do certame. De modo geral, o entendimento agradou
ao governo e à concessionária. Mas, para funcionar, é fundamental manter as
restrições de voos no Aeroporto Santos Dumont.
O acordo cria uma regra pela qual, dependendo do número de passageiros no Santos Dumont, haverá um acerto de contas entre a concessionária e o governo. No primeiro ano (2025), se for inferior a 8 milhões, a concessionária pagará ao governo um valor correspondente à diferença; se for superior, será o contrário. Esse patamar sobe para 9 milhões em 2026, 10 milhões em 2027 e daí para a frente dependerá da alta na demanda por voos. Como o movimento atual está em 6,5 milhões, há incentivo para o governo manter as restrições, pois receberá por isso. Mas poderá abrir mão do dinheiro se quiser aumentar o movimento até os 10 milhões. É isso que não pode acontecer.
Batalha contra universidades enfraquece os EUA - Fernando Abrucio*
Valor Econômico
A mão pesada da autocracia trumpista não vai
melhorar a academia, provavelmente irá prejudicar o país em seu desenvolvimento
O presidente Donald Trump escolheu vários
inimigos em seu segundo mandato, e seu objetivo é neutralizá-los ao máximo para
ter um poder autocrático. A oposição democrata, estados da federação, juízes
independentes, a mídia, a China e os países que não aceitam ser satélites dos
EUA, em suma, a lista é grande dos que devem ser perseguidos e enfraquecidos.
Um dos escolhidos são as universidades, cujas ideias não são controladas pelos
algoritmos das redes sociais amigas do trumpismo. Atacá-las faz sentido para quem
quer perpetuar-se no poder, mas tem um efeito colateral: debilitar o poder real
e simbólico dos Estados Unidos.
“Fazer a América grande de novo” é o slogan básico do trumpismo. Aparentemente, ela contém um projeto de longo prazo para os Estados Unidos: reindustrializar o país, aumentar a renda da classe média, ter novamente uma ordem internacional dominada pelos EUA e garantir que os “valores culturais mais profundos” vençam a guerra contra as ideias liberais que estariam pervertendo a nação. Trump seria o escolhido, no sentido religioso da palavra, para levar adiante esse plano, o que só seria possível com uma estratégia que lhe garanta muito poder no curto prazo - quem sabe até garantindo a possibilidade de um terceiro mandato.
A cruz de Marina Silva - José de Souza Martins
Valor Econômico
É preciso perguntar o que os ofensores
representam no Senado da República, porque agrediram a unidade da Federação que
deveriam representar e claramente não representam
Inacreditáveis as grosserias de membros da
Comissão de Infraestrutura do Senado Federal dirigidas à ministra do Meio
Ambiente, Marina Silva, no final de maio, quando de seu depoimento sobre áreas
de conservação na região Norte. Elas obscureceram os vários dilemas de fato em
jogo nas aparentes discordâncias de um falso embate.
Os insultos revelaram graves preconceitos
contra ela individualmente, contra o que ela é, como mulher e como ministra de
Estado numa área sensível, a ambiental, assunto do qual é internacionalmente
qualificada.
Marina falou em política de Estado, não de partido. Um dos opositores do governo falou, portanto, como opositor do Estado, em pendências de 30 anos, em que a questão foi abordada por diferentes governos e partidos.
PL acha que Bolsonaro elege até um poste em 2026 - Andrea Jubé
Valor Econômico
Chapa mais comentada entre lideranças
alinhadas com o bolsonarismo é a de Tarcísio para presidente e de Michelle para
vice
Notório pelas “malasartimanhas” na política e atento às pesquisas públicas e internas, o presidente nacional do PL, ex-deputado Valdemar Costa Neto, explicou a alguns interlocutores por que acredita que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), pode se tornar mais conhecido nacionalmente e cair no gosto popular.
A teoria do cacique do PL é de que Tarcísio acertou logo na estreia de sua gestão pelo modo como enfrentou as tempestades que devastaram o litoral norte de São Paulo em fevereiro de 2023, e isso o cacifou para disputar o voto nacional.
Rejeição a Lula e Bolsonaro deixa eleição aberta aos demais candidatos – Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
Com seu prestígio e a força do governo, se
for candidato, o petista terá um lugar garantido no segundo turno; vencê-lo são
outros quinhentos. Isso dependerá do seu índice de rejeição
Papel, caneta e tinteiro sobre a mesa,
Getúlio Vargas escolhia com cuidado as palavras que escreveria na carta
endereçada ao presidente Washington Luís em 10 de maio de 1929, para sepultar
todas as desconfianças que o Palácio do Catete nutria a seu respeito:
"Pode Vossa Excelência ficar tranquilo de que o Partido Republicano do Rio
Grande do Sul não lhe faltará com seu apoio no momento preciso", garantiu
ao presidente da República, a propósito da sucessão presidencial.
Dias depois de entregar a carta, Getúlio fez a bancada gaúcha encenar um beija-mão de apoio ao presidente Washington Luís e aproveitou um portador para lhe enviar de presente um caixote de linguiças, salsichas e enlatados de Olderich, prestigiada marca gaúcha, como cesta de ano-novo. Com três anos de mandato pela frente no governo do Rio Grande do Sul, dissimulava sua oposição à candidatura de Júlio Prestes, o candidato de preferência dos paulistas. Toda vez que alguém questionava a lealdade de Getúlio, o presidente da República exibia a carta do político gaúcho.
Janela para a popularidade - Flávia Oliveira
O Globo
O mau humor guarda relação com a alta da
comida, que pesa mais para quem ganha menos
A régua de popularidade apresentada pela Quaest nesta semana sugere que está aberta a janela de oportunidade para o presidente da República melhorar sua avaliação. A fresta é sazonal. Desde a posse para o terceiro mandato, em 2023, os melhores índices de aprovação de Luiz Inácio Lula da Silva foram obtidos a partir da virada do primeiro para o segundo semestre de cada ano. Não por acaso, é o período habitual de desaceleração ou queda no preço dos alimentos, variável que tem se mostrado aderente à satisfação com um governo que tem na população de baixa renda sua força eleitoral.
O plano Z do bolsonarismo - Bernardo Mello Franco
O Globo
Governador de Minas pisoteia História para
ser notado pelo capitão
Romeu Zema declarou
que a existência da ditadura militar no Brasil é “questão de interpretação”. O
governador de Minas quer ser notado por Jair
Bolsonaro. Para isso, mostrou-se disposto a pisotear a História e insultar
as famílias de mortos e desaparecidos.
Em entrevista à Folha de S. Paulo, Zema disse que dará indulto ao capitão se chegar à Presidência. Além de afrontar a Justiça, a promessa se assemelha a uma venda de terreno na lua. Há dois anos, o próprio Bolsonaro tentou tirar Daniel Silveira da cadeia. O Supremo anulou a canetada por desvio de finalidade.










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