terça-feira, 27 de outubro de 2026

Alckmin ganha protagonismo dentro do governo, por Andréa Jubé

Valor Econômico

Vice-presidente emergiu como cotado para o Ministério da Fazenda, com o apoio de lideranças do PSB e de alas do governo

Com sua relevância reconhecida tardiamente, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) terá mais protagonismo no quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no qual se espera que a frente ampla que, novamente, foi decisiva para a vitória petista, tenha mais espaço e voz no governo. Após o empenho no segundo turno, que ampliou a votação da chapa, Alckmin emergiu como cotado para o Ministério da Fazenda, com o apoio de lideranças do PSB e de alas do governo.

Reconhecido pela lealdade e discrição que pautaram seu desempenho até aqui, Alckmin representa a união das forças da esquerda e da direita que se uniram no segundo turno contra o bolsonarismo. Ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, teve a atuação para reverter o “tarifaço” americano sobre as exportações brasileiras elogiada. É reconhecido pelo perfil fiscalista, pela boa interlocução com o mercado financeiro e setor produtivo, e pela defesa da reforma tributária.

Em agosto, defendeu que o governo se comprometa com o corte de gastos e com um superávit primário em evento com investidores em São Paulo: “É evidente que para um país em desenvolvimento, nós temos que reduzir essa dívida. A tarefa é ir fazendo o superávit. Então, a meta aqui é de 1%. Vamos subir esse superávit e você vai avançando”, sustentou. Mas ressalvou que decisões do Judiciário do Legislativo têm impacto no Executivo, afetando as contas públicas.

Nos dois discursos da vitória, na noite de domingo (25), chamou a atenção o gesto de Lula para que o vice-presidente falasse antes dele. Em seguida, o petista renovou elogios ao aliado: “Feliz do presidente que tem um vice da qualidade, lisura de comportamento e lealdade que tenho no Alckmin”, afirmou.

No primeiro turno, interlocutores do vice-presidente se queixavam, nos bastidores, da coordenação da campanha lulista, que se fechou em núcleo restrito ao PT, sem abrir espaço para conselhos dos aliados, para investir em estratégias que se revelaram equivocadas, como a exaltação do legado do candidato e a defesa da soberania.

Somente depois que a chapa terminou atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no primeiro turno, a coordenação se abriu para agregar Alckmin, e mais três lideranças petistas: o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, o ex-ministro e senador Camilo Santana (CE) e o senador eleito Rui Costa (BA).

Em meio à alta rejeição do PT, Alckmin intensificou atos no interior de São Paulo no segundo turno, após a derrota de Fernando Haddad (PT) na disputa ao governo. Ele comandou reuniões com dezenas de prefeitos do interior em cidades como Hortolândia, São Carlos e São Bernardo do Campo.

O vice-presidente também intensificou as viagens pelo país, e representou Lula em agendas, em especial, no Sudeste e Sul, em cidades como Rio de Janeiro, Niterói, e Curitiba (PR), e na capital paulista, fez atividades da campanha na Favela de Paraisópolis.

Simultaneamente, na esteira da controvérsia que envolveu Nossa Senhora Aparecida - pela qual grupos ligados a Flávio defenderiam que ela perdesse o título de Padroeira do Brasil, o que o candidato do PL desautorizou - Alckmin representou Lula na festa nacional na Basílica de Nossa Senhora, na cidade paulista de Aparecida. O vice mantém laços estreitos com a cúpula da Igreja Católica, e trabalhou pelo apoio da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) à chapa petista.

Mesmo apoiado por uma coligação formada apenas por siglas da esquerda, Lula obteve o apoio de importantes segmentos da sociedade civil, que exortaram a adesão de forças da direita tradicional à campanha petista. Nesse movimento, foram simbólicas as declarações de apoio dos "pais do Plano Real" Edmar Bacha, Persio Arida e Pedro Malan, de familiares do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e de lideranças históricas do PSDB, como o ex-ministro Aloysio Nunes Ferreira e o ex-senador José Aníbal.

 

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