O Globo
O país deu uma demonstração de que não quer
mais a visão autoritária de governo de Bolsonaro. É um bom sinal.
O que saiu vencedor anteontem foi a rejeição à volta ao poder do extremismo de direita, mais que a preferência pelo petismo ou pela esquerda. Não se tratou de ser a favor de Lula, mas contra os Bolsonaros. Os jovens que saíram às ruas buscavam a figura original de Lula, criada pela imaginação da maioria que nem o viu chegar ao poder em 2002, mas herdou a memória da saga do operário que veio de baixo e chegou ao Palácio do Planalto defendendo valores humanísticos e morais que haviam se perdido na luta da velha política contra o novo que chegava.
A linha do tempo desse período lembra a
ascensão e queda, e novamente redenção, daquele líder popular que percorreu
caminhos duvidosos, desvios comprovados, mensalões e petrolões que deturparam a
imagem que o consagrou, e agora tem a chance de retomar a direção original da
qual se desviou pelo poder corrosivo do dinheiro e do poder, que corrompe. A
juventude que saiu às ruas resgatou foi uma lenda, um sonho, a possibilidade de
um governo realmente de união nacional.
Ter receio da volta de um governo
autoritário, como as pesquisas de opinião ressaltaram, representa a vontade de
ter um governo democrático. Fiquei impressionado com a juventude saindo às ruas
— pareciam os jovens dos anos 1990, antes de Lula ter chegado ao poder, em
busca de uma liderança que desse esperança para o futuro. A juventude foi para
as ruas para levar Lula à vitória aos 80 anos. Agora, ele tem de corresponder a
esse anseio, a essa esperança renovada pela juventude nas ruas. Não pode
terminar seu quarto e último governo fechado na burocracia petista e na ideia
fixa de desenvolvimento só na base do gasto, sem cuidar das contas públicas,
cujo desequilíbrio impede que os mais vulneráveis tenham mudanças estruturais
em suas vidas.
Lula precisa botar para dentro do governo
forças políticas que possam ajudá-lo a levar o país para a frente, sem ficar
prisioneiro de dogmas esquerdistas ultrapassados. Estamos numa situação
horrível — Lula deixou uma herança maldita para si mesmo, como destacou com
agudeza Carlos Alberto Sardenberg, e, para sair da enrascada em que se meteu,
terá de ampliar seus apoios e visão de mundo. Levar o país para a frente na
tecnologia avançada, na economia moderna, desapegar de conceitos antigos que
trouxe da vida sindical e levar o país para uma grande virada, como ele deu no
segundo turno.
A rejeição ao bolsonarismo foi imensa. O país
deu uma demonstração de que não quer mais a visão autoritária de governo de
Bolsonaro. É um bom sinal, de que a democracia convenceu a população a ir votar
para evitar a possível repetição de um governo autoritário. Se a direita souber
trabalhar direito, o bolsonarismo ficará reduzido a um pequeno grupo radical,
como o PCO, da esquerda, que ainda defende o trotskismo, ou como os jovens da
Libelu que hoje, na maioria, participam da vida política brasileira sem os
arroubos radicais de outrora. Um nicho que não tem voto ou um partido como o
PDT sem Brizola.
Mas a direita democrática, por seu lado, tem
tudo para aproveitar as multidões que saíram às ruas também, apoiando Flávio,
não por serem extremistas, mas por serem uma direita democrática. O candidato
derrotado nas urnas demonstrou, em sua fala final, que não tem estofo para ser
o líder da oposição. Tenta, com o auxílio do governo americano de Donald Trump,
criar um clima inexistente de fraude eleitoral para não encarar a dura
realidade: foi rejeitado, assim como recebeu milhões de votos, em nome do pai, e,
sem mandato, terá de responder por seus atos. O governador de São Paulo,
Tarcísio de Freitas, reeleito em primeiro turno, sai da eleição como provável
nome da direita que, livre do bolsonarismo, poderá enfim deixar de ser refém do
extremismo.

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