Flávio precisa reconhecer que perdeu eleição
Por O Globo
Ante resultado incontestável das urnas,
senador sairia mais forte se admitisse que nada há a contestar
O resultado da eleição de domingo é incontestável. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) por 51,8% a 48,2% dos votos válidos, diferença superior a 4,4 milhões de votos. Ainda assim, a exemplo do que fez Jair Bolsonaro em 2022, Flávio não reconheceu a derrota. “É impossível reconhecer o resultado das eleições”, afirmou na noite de domingo, em seu primeiro pronunciamento depois da divulgação dos números pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ora, o próprio presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, veio a público reafirmar a lisura do pleito e confirmou a vitória de Lula. “Temos absoluta segurança de todo o processo eleitoral”, afirmou. A recusa em aceitar o resultado das urnas viola o princípio mais básico de qualquer democracia.
É lamentável que até o presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump, tenha embarcado nessa fabulação, classificando o pleito
brasileiro como “mais uma eleição fraudada”, sem apresentar nenhuma prova. O
resultado foi reconhecido por todos os países da América Latina (com exceção da
Argentina), assim como pela maior parte da Europa e da Ásia, incluindo Japão,
China e Rússia, além de observadores internacionais independentes. Simplesmente
não há o que contestar.
De início, Flávio afirmou que pediria
anulação do pleito diante da confusão que cercou o encerramento da votação no
domingo. O fechamento das urnas foi adiado das 17h para as 19h por uma decisão
tardia do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), tomada
depois que grande parte já havia sido fechada. Diante da pressão de aliados,
contudo, Flávio desistiu de pedir anulação e decidiu entrar com pedido de
cassação contra Lula por abuso de poder político e econômico, medida menos
drástica.
Flávio parece ignorar que o pedido para
prorrogar a votação até as 19h foi feito tanto pela campanha do PT quanto pela
de seu próprio partido, o PL. O PT acionou TSE e STF alegando que, em diversas
cidades, eleitores tiveram dificuldade de chegar aos locais de votação por
falta de transporte público. O PL pediu ao TSE extensão do prazo devido às
fortes chuvas que dificultaram o deslocamento dos eleitores em estados do Sul e
do Sudeste. Em ambos os casos, as reivindicações eram justas.
Não há qualquer evidência de que a
prorrogação tenha influenciado o resultado. Levantamento do portal g1 com base
em dados das quase 500 mil seções eleitorais mostra que apenas 34,7 mil votos
foram registrados depois das 17h em todo o país, menos de 1% da vantagem de Lula
sobre Flávio. Desses, só 3.754 ocorreram nas 5.326 seções que cumpriram a
determinação de Zanin à risca e ficaram abertas até as 19h (ao que tudo indica,
os demais eram eleitores que estavam na fila às 17h quando a votação foi
encerrada). Ainda que todas as seções tivessem ficado abertas até as 19h,
Flávio não teria vencido em nenhum cenário plausível.
Diante de tais fatos, não há como qualquer
reivindicação sua prosperar na Justiça. Flávio precisa deixar de flertar com o
golpismo e aprender a respeitar o resultado das urnas — e não apenas quando for
conveniente. Vitórias e derrotas fazem parte da democracia. Em sua primeira
eleição para presidente, ele obteve desempenho expressivo. Com tamanho
patrimônio político, sairia mais fortalecido se reconhecesse que a eleição
acabou e que nada há a contestar.
Mudança na escala de trabalho já começa a
provocar danos na economia
Por O Globo
Folha de pagamento das escolas pode aumentar
até 17%, com reajuste inevitável das mensalidades
O fim da escala de trabalho de seis dias
semanais por um de folga (6x1), estabelecido pela Emenda à Constituição
aprovada pouco antes da eleição, já começa a trazer problemas de implementação
em diversos setores da economia. Um deles, como
mostrou reportagem do GLOBO, é o ensino privado, com 1,4 milhão de
empregados, dois terços professores. Ao dobrar o tempo de folga de um para dois
dias, a nova escala de trabalho aumenta o custo de escolas e faculdades
privadas, que deverá ser repassado às mensalidades.
“As escolas terão de reduzir o horário de
atendimento às famílias dos alunos, começar a trabalhar com terceirizados,
principalmente em avaliações aos sábados, evitar eventos de fim de semana,
porque tudo vai gerar aumento de hora extra de 100%”, diz Wilson Abdon,
presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado da Bahia
(Sinepe-BA). Um estudo do economista Luiz Alvares Rezende de Souza, da
consultoria NumbersTalk, encomendado pela Confederação Nacional dos
Estabelecimentos de Ensino (Confenen), concluiu que o impacto na folha de
pagamento do setor ficará entre 9% (despesa adicional de R$ 9,3 bilhões por
ano) e 17% (despesa de R$ 17,3 bilhões anuais). Isso acarretaria um aumento
entre 8% e 11% na mensalidade escolar, com impacto inexorável na inflação.
Há também previsão de que haja redução no
número de estabelecimentos educacionais, já que boa parte das escolas de ensino
básico não terá como arcar com o custo adicional por hora trabalhada necessário
para compensar a segunda folga semanal. “Só as grandes sobreviverão. As
pequenas ficarão para trás”, diz Beth Guedes, presidente da Confenen.
A vida também ficará difícil noutros setores.
Ouvido
pelo GLOBO, Laurisvan Ferreira, dono de dois restaurantes em São Paulo, já
estuda reajustar os cardápios, uma vez que, para cumprir as novas regras, ele
estima precisar contratar três novos empregados, com impacto de 17% na folha de
pagamento. Inevitável repassar todo ou parte desse aumento de despesa aos
preços.
O fim da
escala 6x1 levará muitos outros estabelecimentos a repensar escalas de trabalho,
tempo de funcionamento ou a própria sobrevivência do negócio.
A Emenda à Constituição que estabeleceu a nova escala 5x2 ganhou destaque na campanha eleitoral sem debate aprofundado, sem regulamentação adequada e sem estudo setorial para implementação. Enquanto isso, a PEC do Trabalho Flexível, que estabelece um regime mais compatível com a realidade do trabalho moderno, foi ignorada pelo Parlamento. O custo do equívoco começa a ser pago desde já.
Mercado precifica a crise semeada por Lula
Por Folha de S. Paulo
Com reeleição e queda abrupta das
expectativas de ajuste orçamentário, juros futuros e dólar têm alta violenta
Medidas eleitoreiras agravaram o quadro;
petista deveria começar logo a evitar uma derrocada em seu quarto e,
provavelmente, último mandato
O dia seguinte à vitória eleitoral de Luiz
Inácio Lula
da Silva (PT)
foi de derretimento dos mercados financeiros. Juros
futuros, dólar
e Bolsa de
Valores passaram por ajustes violentos de preços, o que leva o
pessimismo com os rumos da economia a um novo patamar.
A virada surpreendente que manterá Lula por
mais quatro anos no Planalto reduziu bruscamente as expectativas de um ajuste
sério das contas públicas. Sem contenção dos gastos do governo, agora elevados
pela farra de medidas eleitoreiras da campanha petista, a inflação continuará
pressionada e, com ela, o câmbio
e a política monetária.
Não por acaso, o dólar
registrou salto de 8,41%, atingindo R$ 5,409, enquanto os juros
negociados para janeiro de 2031 subiram 2,6 pontos percentuais, para mais de
15% ao ano. Tal cenário coloca o país no rumo de uma recessão, o que explica a
queda de 13,9% do Ibovespa.
À primeira vista, os números podem parecer em
contraste com a situação corrente de desemprego baixo e atividade ainda em
expansão. Os sinais de piora, no entanto, já se fazem sentir há meses, e não se
limitam à desaceleração em curso da economia.
O endividamento das famílias e das empresas
alcança níveis inauditos. A escalada da dívida pública, que já alcançou o
equivalente a 82,9% do PIB, mantém os
juros na estratosfera e encarece o crédito para o setor privado.
A situação fiscal já era grave antes do
pacote reeleitoral de Lula, que soma R$
290 bilhões em despesas, subsídios tributários e operações de
crédito neste ano e no próximo. Só no Orçamento de 2027, pode haver R$ 40
bilhões em gastos extras ou queda de receitas, segundo estimativas.
O governo precisa de um superávit primário
(sem contar encargos financeiros) de 2% do PIB para estabilizar a dívida,
enquanto o que se tem são frágeis previsões de redução do déficit persistente.
Sem alteração em regras de indexação de
despesas obrigatórias, maior eficiência e focalização de transferências sociais
e revisão de vinculações constitucionais, a despesa com pessoal, custeio
administrativo, programas sociais e investimentos continuará a crescer acima da
receita.
Promessas de não tocar nessas rubricas terão
de ser, em alguma medida, reavaliadas. Disposição para enfrentar supersalários
e penduricalhos no setor público constituiria sinal positivo de que o ajuste
não se limita a setores de menor poder político.
O equilíbrio das contas do Estado é condição
necessária, embora não suficiente, para lidar com o principal desafio do país: a baixa
produtividade do trabalho, que se expandiu apenas 0,9% ao ano entre
1995 e 2025. Eis a herança maldita de sucessivos governos.
Lula deveria começar logo a evitar uma
derrocada econômica em seu quarto e, muito provavelmente, último mandato. A
indicação do próximo ministro da Fazenda, a discussão do Orçamento de 2027 e a
revisão das regras fiscais serão os primeiros testes.
Flávio Bolsonaro age bem ao desistir de
atacar o pleito
Por Folha de S. Paulo
Sem razão, candidato havia ameaçado pedir
anulação da eleição em que foi derrotado por 4,4 milhões de votos
É descabida a ordem de Moraes de recolher
passaporte de Flávio; agendas da depreciação do processo eleitoral e da
vingança deveriam ser abandonadas
Agiu bem o senador Flávio
Bolsonaro (PL)
ao desistir de pleitear a anulação da eleição deste domingo (25). A insistência
no jogo bruto prejudicaria a normalização das relações políticas no país e
seria um exemplo de comportamento desviante a reverberar para o futuro.
O desafiante declarara na noite da apuração
que não poderia considerar legítima a sua derrota por causa da extensão em duas
horas do horário de votação, determinada monocraticamente pelo ministro Cristiano
Zanin, do Supremo Tribunal Federal, em atendimento a petição do PT.
Zanin, pela imprudência de interferir
na undécima hora num ritual sagrado da democracia, e o presidente do
Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes
Marques, pela omissão diante de solicitações mais tempestivas de
estender a votação, foram corresponsáveis por essa lambança.
Vale lembrar que a chapa de Flávio também
pediu ao TSE
a prorrogação da votação em redutos da direita, sob alegação de transtornos com
o mau tempo. Ao estender a decisão para todo o país, embora sem se preocupar
com operacionalidade e impacto, Zanin satisfez desejos de PT e PL.
O choro de perdedor poderia até fazer algum
sentido se a vitória do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva (PT) tivesse ficado por um fio. Não faz nenhum sentido quando 4,4
milhões de sufrágios, ou 3,6% dos votantes, distanciaram o vencedor do
perdedor.
Antes de propagar teorias conspiratórias para
deslegitimar o processo eleitoral, Flávio Bolsonaro poderia ter verificado
quantas pessoas no país registraram o voto após as 17h, final do horário
regulamentar, até as 19h, limite ordenado pela decisão judicial estapafúrdia. Teria
constatado um resíduo inferior a 35 mil, incapaz de alterar o
resultado diante do total de 124 milhões de votos.
A democracia e a paz social se beneficiam da
rápida revisão da disposição do senador fluminense para a rebeldia. O passo
seguinte deveria ser o reconhecimento público do resultado. Não é fácil admitir
a derrota e cumprimentar o adversário, mas essa atitude civiliza a política e
reforça no lado derrotado a condição para competir de novo no pleito seguinte.
A regra tácita da boa convivência também
recomenda ao grupo vitorioso que não se ponha a perseguir a oposição. É
descabida, a propósito, a notícia de que o ministro Alexandre de
Moraes mandou
recolher o passaporte de Flávio por declarações sugerindo que ele
deixe o Brasil feitas pelo irmão exilado Eduardo.
As agendas da depreciação do processo eleitoral e da vingança deveriam ser abandonadas.
Os péssimos sinais do discurso da vitória
Por O Estado de S. Paulo
Em vez de falar à Nação como chefe de Estado,
Lula atacou o adversário e a imprensa profissional e anunciou que governará
pelo celular. Mau começo, para quem diz governar para todos
É preciso ter grandeza na vitória. A eleição
presidencial acabou, e o resultado das urnas, legítimo, deve ser respeitado por
todos, a começar pelo candidato derrotado. Não obstante, a legitimidade da
vitória não dispensa o vencedor das obrigações que ela impõe. E a primeira
delas é a magnanimidade. Quem vence uma eleição tão acirrada tem o dever
republicano de baixar a temperatura do País e mostrar que a campanha, com todos
os seus excessos, ficou para trás. Em seu discurso da vitória, na noite de
domingo, o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desperdiçou essa
chance de ouro.
O destinatário do discurso era o povo
brasileiro, não Flávio Bolsonaro (PL), tampouco a imprensa profissional.
Deveria ser o momento em que Lula se despisse das vestes de candidato e se
dirigisse à Nação como chefe de Estado e de governo. Mas o petista não se
emenda, malgrado a larga experiência. A boa tradição democrática manda que o
eleito estenda a mão ao adversário que ficou pelo caminho e estimule a coesão
nacional. Lula, porém, optou pelo acerto de contas. Atacou Flávio, afirmando
que ele é “o representante genuíno do milicianismo (sic)” e que não teria dentro de si “uma célula de
humanismo”.
Não se trata aqui de defender o senador, a
quem já criticamos duramente por sua conduta pessoal, sua indigência
parlamentar e seu passivo de suspeitas criminais. Trata-se de reafirmar que a
campanha acabou com a proclamação do resultado das urnas e que o palanque já
não é o lugar de fala de um presidente da República digno e altivo.
Sobrou também para a imprensa profissional,
que há décadas tem sido enxovalhada pelos petistas – e por Lula, em particular
– por não dobrar os joelhos diante do demiurgo. Lula anunciou que passará a
falar diretamente com a população pelo celular, “muitas vezes por dia”, e que
não permitirá ser interpretado por “jornalista com má-fé”. A mediação
jornalística, que demagogos como Lula veem como um estorvo, é um dos
instrumentos por meio dos quais as sociedades livres fiscalizam o exercício do
poder. Goste ou não o petista, esse trabalho, fundamental para a sustentação do
regime democrático do qual ele se arvora em salvador, seguirá sendo feito.
Ademais, estadistas não governam com a cara
enfurnada em um celular. Olham para as ruas e capturam as aflições e as
esperanças do povo que vive a vida real. Governam não “com as redes sociais”,
mas com as instituições republicanas, com o Congresso, por meio de interlocução
franca e propositiva. E, sim, sabem lidar com as críticas.
O mais desconcertante é que o próprio Lula,
no mesmíssimo discurso, afirmou que, vencida a eleição, não tem mais
adversários e que governará para 215 milhões de brasileiros. A declaração,
correta, foi desmentida pelo restante da fala, encerrada com uma saudação aos
“soldados” do “exército da democracia”, em alusão ao numeroso grupo
arregimentado pelo deputado André Janones (Rede-MG). Ora, falar em “exército” é
falar em combate a um inimigo, e o inimigo, nessa retórica beligerante, é a
larga porção do País que não votou em Lula. É um mau começo.
Os números que saíram das urnas deveriam
inspirar outro tom. A vitória de Lula não foi acachapante. E, ainda que tivesse
sido, em nenhuma democracia as minorias são esmagadas pela maioria. Quase
metade dos eleitores escolheu outro caminho para o País. Esses brasileiros não
deixaram de ser cidadãos dignos de atenção porque o candidato de sua
preferência perdeu a eleição.
Os desafios que o Brasil tem pela frente,
muitos deles agravados pelo próprio Lula no curso do atual mandato, não são
poucos nem triviais. As contas públicas exigem um duro ajuste que o governo vem
adiando às raias da negação. O endividamento público e privado não para de crescer.
A falência da segurança pública é motivo de angústia em todo o País. O Brasil
precisa de reformas urgentes que demandam negociação com o Congresso. Nada
disso se resolve sem a construção de consensos mínimos em torno do bem comum. E
é obrigação do presidente, como principal autoridade executiva, estimular a
união nacional.
O custo Lula
Por O Estado de S. Paulo
É essencial que o presidente reeleito nomeie
o novo ministro da Fazenda o mais rapidamente possível para apaziguar os
investidores e conferir alguma credibilidade fiscal a seu governo
A trégua que o mercado financeiro havia dado
ao País acabou já nas primeiras horas de ontem, com o derretimento da Bolsa e a
disparada do dólar. Completamente ignorado durante a campanha eleitoral, o
desequilíbrio estrutural das contas públicas terá de ser enfrentado com
urgência. É essencial, portanto, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
(PT) nomeie seu novo ministro da Fazenda o mais rapidamente possível para
apaziguar os ânimos dos investidores e conferir alguma credibilidade fiscal a
seu governo.
Passou da hora de Lula parar de lutar contra
moinhos de vento e compreender a lógica que guia o mercado financeiro e suas
apostas. É fato que ninguém em sã consciência acreditava na viabilidade da
promessa do candidato derrotado Flávio Bolsonaro (PL) de promover um corte da
ordem de R$ 200 bilhões nas despesas públicas com base em ações cosméticas,
como o combate à corrupção e a revisão das compras públicas. Mas enquanto a
equipe de campanha do senador vendia essa possibilidade nos bastidores, Lula
classificava os clamores pela busca de um superávit primário de “babaquice”,
dizia não estar preocupado com a dívida pública e criticava a autonomia do
Banco Central (BC).
Logo, entre as justificadas dúvidas sobre o
ajuste fiscal do candidato da oposição e a certeza de que a política fiscal do
atual governo seria mantida como está, os investidores preferiram dar algum
crédito à primeira opção. Bolsa, dólar e juros passaram a refletir essa aposta
após Flávio ter ficado à frente do petista no primeiro turno da disputa
eleitoral, ainda que os fundamentos da economia não dessem o menor respaldo a
nada disso.
Encerrada a eleição, já nas primeiras horas
dessa segunda-feira as ações das empresas despencaram, ocasionando o primeiro circuit breaker desde 2020; o
câmbio disparou, na maior alta em um único dia desde janeiro de 1999; e a curva
de juros futuros empinou para cima, a despeito de não ser essa a sinalização
dada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) em sua reunião mais recente, em
setembro.
Não foi mera ojeriza ao petista, mas ajuste
de posições em direção ao cenário que havia até outubro, no qual a existência
de um problema fiscal nem sequer era reconhecida pelo presidente da República.
Como essa correção pode levar dias ou semanas, o melhor que Lula pode fazer
para trazer alguma serenidade ao mercado é anunciar o quanto antes o nome do
novo chefe da equipe econômica.
Seria um desastre se Lula resolvesse manter o
atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, ou promover ao cargo o ministro do
Planejamento, Bruno Moretti. Ambos provaram-se incapazes de dizer “não” ao
chefe e atuaram como cabos eleitorais, e não como ministros, durante a disputa
presidencial.
O nome do vice-presidente Geraldo Alckmin,
que teve atuação elogiada nas negociações para reduzir o alcance do tarifaço
imposto pelos EUA aos produtos brasileiros, circulou como potencial ministro da
Fazenda já na reta final da campanha, como uma espécie de calmante para o
mercado – afinal, Alckmin um dia já foi tucano e tem perfil austero. Também
está cotado o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, que ganha pontos
por sua ortodoxia, tornando-se indigesto para os petistas inconformados com a
manutenção da taxa de juros. Correm por fora o governador reeleito do Piauí,
Rafael Fonteles (PT), e os senadores Camilo Santana (PT-CE) e Renan Filho
(MDB-AL).
Seja quem for o nome escolhido, contudo, o
mais importante é que Lula assuma a responsabilidade fiscal como princípio de
seu quarto e último mandato presidencial. Faltam quase R$ 40 bilhões no
Orçamento de 2027 para custear todas as bondades que foram aprovadas nas
últimas semanas – sem contar as promessas feitas sem qualquer lastro, como o
perdão à dívida das empresas do Simples Nacional, o fornecimento de canetas
emagrecedoras pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e a tarifa zero para o
transporte público aos fins de semana.
Não há espaço fiscal para malabarismos. A
farra eleitoral custou caro e caberá ao próprio governo lidar com as
consequências de suas escolhas populistas.
A complexa eleição em Israel
Por O Estado de S. Paulo
O desgaste de Netanyahu não garante a
alternância: falta à oposição um acordo para governar
Israel pode rejeitar o primeiro-ministro
Benjamin Netanyahu nas eleições de hoje e continuar sendo governado por ele. As
pesquisas divergem, mas várias projetam mais deputados contrários ao
primeiro-ministro do que aliados. Essa vantagem, no entanto, só se converterá
em mudança de governo se seus adversários chegarem a um acordo. Mas a rejeição
comum encobre divergências profundas.
Netanyahu chega à primeira eleição desde o
massacre de 7 de Outubro com sua principal credencial sob contestação. O homem
que fez da segurança sua marca política comandava Israel quando o Hamas rompeu
suas defesas. Ele resiste à formação de uma comissão estatal independente que a
oposição exige para investigar as responsabilidades pela catástrofe. Seus
partidários, contudo, lembram os Acordos de Abraão com países árabes e os
golpes contra o Hezbollah e o Irã como trunfos. Netanyahu invoca essas
realizações e a proximidade com o presidente dos EUA, Donald Trump, para
defender a continuidade de sua liderança.
A eleição poderá definir, ademais, o destino
de uma reforma do Judiciário. Uma lei aprovada pela atual coalizão para ampliar
a influência política na escolha dos juízes deverá entrar em vigor na próxima
legislatura. Gadi Eisenkot, principal adversário de Netanyahu, promete
revogá-la. Os poderes da Suprema Corte merecem debate, mas as propostas
governistas podem enfraquecer os freios sobre a maioria parlamentar.
Além disso, a permanência dos extremistas
Bezalel Smotrich e Itamar Ben-Gvir no governo favoreceria a expansão dos
assentamentos na Cisjordânia. Eisenkot promete conter a violência de colonos,
mantendo o combate ao terrorismo palestino.
O descontentamento com Netanyahu, porém, toma
direções bem diferentes. Ex-chefe do Estado-Maior, Eisenkot tenta conquistar
conservadores que perderam a confiança em Netanyahu, mas continuam favoráveis a
uma política de segurança rigorosa. A isenção militar dos ultraortodoxos abre
outra fissura: Netanyahu depende dos partidos que exigem preservá-la, enquanto
famílias de reservistas, inclusive conservadoras, cobram uma distribuição mais
justa dos sacrifícios da guerra. O próprio Eisenkot perdeu um filho em combate
em Gaza. A oposição também reúne nacionalistas e partidos de esquerda que
divergem sobre os rumos de um novo governo.
As divergências reaparecerão nas negociações
de governo. A maioria absoluta na Knesset (Parlamento) exige 61 das 120
cadeiras. Os partidos árabes podem ser decisivos para que as forças contrárias
a Netanyahu ultrapassem esse número. Mas Eisenkot recusa sua presença no
gabinete. Em tese, um governo minoritário poderia tomar posse com a ajuda de
partidos que não integrassem a coalizão, mas essa solução esbarra em vetos
políticos. Sem acordo, Netanyahu continuará à frente do governo, e o país
poderá ser obrigado a voltar às urnas.
Terminada a contagem, os dirigentes terão de decidir o que fazer com os mandatos recebidos. Para substituir Netanyahu, seus adversários talvez precisem negociar justamente com partidos dos quais tentaram manter distância durante a campanha. Se tiverem votos para afastá-lo e não conseguirem fazê-lo, caberá a eles explicar o impasse.
Novo governo terá de fazer ajuste fiscal logo
no início
Por Valor Econômico
Um ajuste fiscal feito para eliminar privilégios e distorções, capaz de baixar os juros para todos e de fazer o país crescer com consistência e distribuição de renda, poderia não ser visto como “estelionato eleitoral”
Os ativos brasileiros viveram ontem uma forte
ressaca eleitoral, após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Posições majoritárias dos investidores se baseavam na crença de que o senador
Flávio Bolsonaro (PL), que vencera o primeiro turno, repetiria o resultado no
segundo, o que, para surpresa do mercado, não ocorreu. Ações e câmbio sofreram
fortes deslocamentos, com o índice Ibovespa recuando até 16% e o real se
desvalorizando até 15% diante do dólar. Ao longo do dia, houve arrefecimento no
ímpeto da queda da bolsa (13,8%) e da alta do dólar (8,2%). Os juros futuros
subiram muito, levando o Tesouro a um leilão extra de recompra de títulos.
A maior parte desses movimentos é datada e
pouco reflete os fundamentos da economia. Reflete, na verdade, as expectativas,
sem base, de que Flávio realizaria um "tesouraço" fiscal e estaria
mais propenso a reformas, quando os discursos do próprio candidato não
apontavam essa direção. No caso do câmbio, a tendência é de valorização gradual
do dólar em relação a outras moedas, e nada autoriza um grande salto em relação
ao real. Ao contrário, antes do início da propaganda eleitoral a aposta dos
investidores é de que haveria um movimento de apreciação do real, que poderia
fechar o ano abaixo de R$ 5 por dólar. Houve forte ingresso de dinheiro de
investidores externos na bolsa, que a levaram a mais de 200 mil pontos, a
balança comercial exibe ótima saúde, com superávit robusto, e o país tem
reservas acima de US$ 365 bilhões.
A vitória de Lula, porém, pode significar a
manutenção de uma política fiscal expansionista, a mesma que elevou o
endividamento em relação ao PIB em 11 pontos percentuais no terceiro mandato do
presidente. Lula não deu nenhum sinal de que está preocupado com o equilíbrio
fiscal, e essas indicações elevaram muito os juros futuros, quase que
independentemente da duração dos papéis do Tesouro. Ontem os juros explodiram e
o Tesouro recomprou títulos prefixados que vencem em 2029 pagando acima de 15%,
antes cotados abaixo dos 14%. Ainda que esse patamar seja provisório, indica a
volta a um incômodo status quo de alto custo de emissão de dívida nova e da
rolagem dos compromissos assumidos.
Durante todo o terceiro mandato de Lula, os
juros reais (descontada a inflação) foram de 8% em média, e por boa parte desse
tempo figuraram entre os maiores do mundo. Como os juros estão crescendo a uma
taxa muito acima da do crescimento do PIB, pouco mais de 3%, o resultado é uma
conta insustentável no tempo. A conta de juros atingiu R$ 1,18 trilhão nos 12
meses encerrados em agosto, ou 8,86% do PIB. Somado ao déficit primário real, o
déficit nominal atingiu naquele mês 9,48% do PIB, um dos maiores do mundo.
Nesse ritmo, a dívida pública ultrapassará
100% do PIB até o fim da década e não se estabilizará tão cedo. Houve algum
movimento na equipe econômica para que o limite de gastos acima da inflação
abaixo de 2,5%, mas isso foi antes da desesperada corrida por gastos com fins
eleitorais que, entre estímulos creditícios, despesas primárias e renúncias de
receitas, chegou a R$ 298,4 bilhões, segundo a Instituição Fiscal Independente
do Senado. Os compromissos eleitoreiros trarão a necessidade de R$ 53,7 bilhões
em novos recursos no orçamento de 2027, que mal chegou ao Congresso.
O governo enviou orçamento com superávit
primário de R$ 73,2 bilhões em 2027, após o término de seu mandato. Ainda
assim, com os abatimentos, ele prevê um superávit "puro" de R$ 18,6
bilhões, só 0,13% do PIB. A projeção, já era duvidosa devido a receitas superestimadas
e despesas subestimadas, ficou superada. A promessa oficial de que apenas
remanejamentos de verbas existentes será suficiente para tapar o rombo extra
criado pelas medidas para ganhar votos não parece crível.
A acusação de que o candidato Flávio
Bolsonaro realizaria cortes seja lá do que fosse, mas em especial de programas
sociais, acrescida da promessa eleitoral de ampliação de gastos, diminuiu a
margem de manobra para que o governo melhorasse sua performance fiscal. Mas é
preciso sinalizar urgentemente um freio de despesas e um compromisso claro de
sua redução, ainda que gradual. A diminuição da correção do teto de gastos para
1%-1,5% ajudaria, sem romper os compromissos de campanha de conceder aumentos
reais ao salário mínimo e às aposentadorias. Da mesma forma, um esforço sério
para reorganizar os programas sociais e trazê-los de volta à focalização
propiciaria significativa economia e uma alocação mais eficaz de recursos
escassos, sem que isso implique cortes para quem mais precisa deles. Buscar o
superávit cheio da meta fiscal, sem usar o piso, como tem sido feito, elevaria
o esforço de contenção.
Há várias formas de melhorar o resultado fiscal à disposição, e o ideal é que medidas nessa direção fossem acompanhadas de reformas, mas o presidente agora reeleito não parece ver necessidade delas. Seria importante, no entanto, que se movesse com rapidez para deter o rápido crescimento da dívida, se quiser que a economia volte a crescer de forma sustentável no futuro. Um ajuste fiscal feito para eliminar privilégios e distorções, capaz de baixar os juros para todos e de fazer o país crescer com consistência e distribuição de renda, poderia não ser visto como “estelionato eleitoral”.
A derrota ensinou ao PL. Não aos Bolsonaro
Por Correio Braziliense
As urnas disseram com clareza que a maior
parte do povo não aceita radicalismo, balbúrdia, truculência, incivilidade e
autoritarismo
Flávio Bolsonaro confirmou, na noite de
domingo, o ditado que diz que "o fruto não cai longe do pé". Assim
como o pai, em 2022, não aceitou a derrota e viu na decisão do ministro
Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF) — de estender em mais duas
horas o horário de votação —, um ato contra sua candidatura. Esqueceu-se,
porém, de que seus próprios advogados tinham solicitado a mesma extensão, por
conta das chuvas em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul. E considerou essas
duas horas tempo suficiente para que o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da
Silva encontrasse os cerca de 4,4 milhões de votos de diferença entre eles.
Se o presidenciável se calou, seu partido, o
PL, não. Reconheceu a vitória que deu a reeleição a Lula, em nota divulgada no
começo da noite de ontem. A legenda celebra a eleição de um grande número de
senadores, deputados e governadores. Mostra que sai do pleito maior do que
entrou. Mas não deixa Flávio, ainda um ativo político importante, sozinho. Pede
investigações sobre os eventos que ensejaram a ordem de Zanin.
A insistência do senador em não admitir que
perdeu a corrida presidencial tornou-se um fardo poucas horas depois do
desbocado pronunciamento sobre o resultado das urnas. Já ali os pragmáticos do
PL começaram a agir: a legenda não podia lutar contra o óbvio.
Houvesse alguma dúvida sobre a lisura do
pleito, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes
Marques, não decretaria o resultado da eleição. O peso de quem votou depois das
17h é residual. Segundo o TSE, foram aproximadamente 35 mil votos válidos.
Ainda que fossem todos dados a Flávio, não lhe dariam a vitória.
É preciso apurar, agora, as razões pelas
quais as prefeituras de São Paulo e de três cidades baianas — Salvador, Lauro
de Freitas e Feira de Santana — retiraram os ônibus de circulação e
dificultaram o deslocamento do eleitor. Houve casos também em Sergipe, em
Alagoas e no Piauí. Esse fato, que levou à prorrogação determinada por Zanin,
não é uma preocupação para Flávio ou para o PL. Afinal, diz respeito a aliados
do bolsonarismo.
A promessa de tumultos em série para forçar
uma remota anulação do segundo turno perdeu força rapidamente. Se, de um lado,
o deputado federal eleito Lucas Pavanatto (PL-SP) falou em atos públicos de não
aceitação da derrota, Nikolas Ferreira (PL-MG) deixava claro que manifestações
são inadequadas e teriam efeito prático nulo. Melhor era tocar a vida em
frente, ainda que sob protesto.
O DNA autoritário do bolsonarismo, pela
primeira vez, recebe alguma contenção de próprios integrantes. Cenário
diferente de 2022, quando, derrotado, Jair Bolsonaro deu início a uma tramoia
que não apenas previa manter-se no poder, mas, sobretudo, eliminar autoridades,
incluindo Lula, como admitido por um general palaciano processado na trama
golpista.
As urnas disseram com clareza que a maior
parte do povo não aceita radicalismo, balbúrdia, truculência, incivilidade e
autoritarismo. A vantagem de Lula, agora, foi maior do que a de 2022. Isso
deveria ser entendido por Flávio e pelo clã Bolsonaro como um sinal de que o
ciclo do extremismo pode estar colapsando.
Por sua vez, o PL, ao reconhecer a reeleição
do presidente e com alguns dos seus cardeais entrando em campo para propor a
virada da página, parece entender que esticar a corda é uma imprudência. E o
risco disso é a sobrevivência do partido.
Alguns na extrema-direita aprenderam com a inesperada, mas humilhante, derrota. Já o clã Bolsonarismo parece que não entendeu nada.
A má resposta de Flávio ao recado das urnas
Por O Povo (CE)
Lamente-se que, mais uma vez, o processo
eleitoral que leva à escolha do presidente da República não esteja encerrado na
noite de domingo em que a votação acontece. O candidato derrotado na disputa de
2026, Flávio Bolsonaro, do PL, repete um roteiro que tem prevalecido mais
recentemente ao anunciar que não aceita o resultado que lhe foi desforável e
que buscará na justiça uma forma de conseguir a sua anulação.
É algo cansativo e que, infelizmente,
encontra respaldo em boa parte dos apoiadores do político e seu grupo, tanto
aqueles que detêm cargos garantidos pelo voto popular como os que se posicionam
na condição de militantes ou, apenas, eleitores. Portanto, a manifestação de
Flávio, que segue senador da República até fevereiro do próximo ano, alimenta
um falso debate sobre fragilidades de um sistema eleitoral cuja confiabilidade
já está mais do que demonstrada. No frigir dos ovos, configura-se um ataque à
própria democracia.
Há fragilidade na acusação da vez, de que uma
prorrogação em duas horas no tempo de votação, autorizada pelo ministro
Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), teria sido determinante
para o resultado. Os números disponíveis indicam com clareza que não existe na
medida um peso de influência suficiente para justificar os mais de 4 milhões de
votos de maioria que o vitorioso, Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, registrou
sobre seu adversário nos números finais anunciados.
Ademais, a própria campanha de Flávio
recorreu à justiça, no caso ao TSE, solicitando que o tempo oferecido aos eleitores
fosse estendido pelas mesmas duas horas a mais. Situação lembrada pelo próprio
ministro Zenin em seu despacho, justificando que o pedido do PT para que a
medida ficasse restrita às duas cidades nas quais teriam sido identificados
problemas com o transporte público, mas que ela seria autorizada para todo o
território nacional em função do apelo de outra candidatura, neste caso
justificada por problemas derivados de fenômenos naturais, chuvas com
especialidade.
É uma situação ruim, indevida, que encontra
como contraponto exemplar a atitude do experiente Ronaldo Caiado, que disputou
a presidência já neste 2026, anunciou apoio ao candidato do PL depois de ser
excluído do processo eleitoral e se manifestou horas depois do TSE oficializar
o resultado. Segundo ele, um notório e firme crítico de Luila e seu governo,
resta aceitar a situação e tocar a vida, tentando entender o que aconteceu e
descobrir suas causas para enfrentá-las na perspectiva de uma eleição futura.
O comportamento pós-eleição de Flávio Bolsonaro põe em xeque suas próprias palavras como candidato, nas situações em que se comprometeu a "respeitar o resultado, seja qual for". Algo que permite colocar em dúvida o conjunto de compromissos que assumiu na perspectiva de ser eleito e vir a governar o país a partir de 5 de janeiro do próximo. Quantas mais de suas promessas de campanha faziam parte apenas de uma estratégia de conquista da confiança do eleitor e da sociedade?

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