terça-feira, 27 de outubro de 2026

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Flávio precisa reconhecer que perdeu eleição

Por O Globo

Ante resultado incontestável das urnas, senador sairia mais forte se admitisse que nada há a contestar

O resultado da eleição de domingo é incontestável. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) por 51,8% a 48,2% dos votos válidos, diferença superior a 4,4 milhões de votos. Ainda assim, a exemplo do que fez Jair Bolsonaro em 2022, Flávio não reconheceu a derrota. “É impossível reconhecer o resultado das eleições”, afirmou na noite de domingo, em seu primeiro pronunciamento depois da divulgação dos números pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ora, o próprio presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, veio a público reafirmar a lisura do pleito e confirmou a vitória de Lula. “Temos absoluta segurança de todo o processo eleitoral”, afirmou. A recusa em aceitar o resultado das urnas viola o princípio mais básico de qualquer democracia.

É lamentável que até o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tenha embarcado nessa fabulação, classificando o pleito brasileiro como “mais uma eleição fraudada”, sem apresentar nenhuma prova. O resultado foi reconhecido por todos os países da América Latina (com exceção da Argentina), assim como pela maior parte da Europa e da Ásia, incluindo Japão, China e Rússia, além de observadores internacionais independentes. Simplesmente não há o que contestar.

De início, Flávio afirmou que pediria anulação do pleito diante da confusão que cercou o encerramento da votação no domingo. O fechamento das urnas foi adiado das 17h para as 19h por uma decisão tardia do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), tomada depois que grande parte já havia sido fechada. Diante da pressão de aliados, contudo, Flávio desistiu de pedir anulação e decidiu entrar com pedido de cassação contra Lula por abuso de poder político e econômico, medida menos drástica.

Flávio parece ignorar que o pedido para prorrogar a votação até as 19h foi feito tanto pela campanha do PT quanto pela de seu próprio partido, o PL. O PT acionou TSE e STF alegando que, em diversas cidades, eleitores tiveram dificuldade de chegar aos locais de votação por falta de transporte público. O PL pediu ao TSE extensão do prazo devido às fortes chuvas que dificultaram o deslocamento dos eleitores em estados do Sul e do Sudeste. Em ambos os casos, as reivindicações eram justas.

Não há qualquer evidência de que a prorrogação tenha influenciado o resultado. Levantamento do portal g1 com base em dados das quase 500 mil seções eleitorais mostra que apenas 34,7 mil votos foram registrados depois das 17h em todo o país, menos de 1% da vantagem de Lula sobre Flávio. Desses, só 3.754 ocorreram nas 5.326 seções que cumpriram a determinação de Zanin à risca e ficaram abertas até as 19h (ao que tudo indica, os demais eram eleitores que estavam na fila às 17h quando a votação foi encerrada). Ainda que todas as seções tivessem ficado abertas até as 19h, Flávio não teria vencido em nenhum cenário plausível.

Diante de tais fatos, não há como qualquer reivindicação sua prosperar na Justiça. Flávio precisa deixar de flertar com o golpismo e aprender a respeitar o resultado das urnas — e não apenas quando for conveniente. Vitórias e derrotas fazem parte da democracia. Em sua primeira eleição para presidente, ele obteve desempenho expressivo. Com tamanho patrimônio político, sairia mais fortalecido se reconhecesse que a eleição acabou e que nada há a contestar.

Mudança na escala de trabalho já começa a provocar danos na economia

Por O Globo

Folha de pagamento das escolas pode aumentar até 17%, com reajuste inevitável das mensalidades

O fim da escala de trabalho de seis dias semanais por um de folga (6x1), estabelecido pela Emenda à Constituição aprovada pouco antes da eleição, já começa a trazer problemas de implementação em diversos setores da economia. Um deles, como mostrou reportagem do GLOBO, é o ensino privado, com 1,4 milhão de empregados, dois terços professores. Ao dobrar o tempo de folga de um para dois dias, a nova escala de trabalho aumenta o custo de escolas e faculdades privadas, que deverá ser repassado às mensalidades.

“As escolas terão de reduzir o horário de atendimento às famílias dos alunos, começar a trabalhar com terceirizados, principalmente em avaliações aos sábados, evitar eventos de fim de semana, porque tudo vai gerar aumento de hora extra de 100%”, diz Wilson Abdon, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado da Bahia (Sinepe-BA). Um estudo do economista Luiz Alvares Rezende de Souza, da consultoria NumbersTalk, encomendado pela Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenen), concluiu que o impacto na folha de pagamento do setor ficará entre 9% (despesa adicional de R$ 9,3 bilhões por ano) e 17% (despesa de R$ 17,3 bilhões anuais). Isso acarretaria um aumento entre 8% e 11% na mensalidade escolar, com impacto inexorável na inflação.

Há também previsão de que haja redução no número de estabelecimentos educacionais, já que boa parte das escolas de ensino básico não terá como arcar com o custo adicional por hora trabalhada necessário para compensar a segunda folga semanal. “Só as grandes sobreviverão. As pequenas ficarão para trás”, diz Beth Guedes, presidente da Confenen.

A vida também ficará difícil noutros setores. Ouvido pelo GLOBO, Laurisvan Ferreira, dono de dois restaurantes em São Paulo, já estuda reajustar os cardápios, uma vez que, para cumprir as novas regras, ele estima precisar contratar três novos empregados, com impacto de 17% na folha de pagamento. Inevitável repassar todo ou parte desse aumento de despesa aos preços.

O fim da escala 6x1 levará muitos outros estabelecimentos a repensar escalas de trabalho, tempo de funcionamento ou a própria sobrevivência do negócio.

A Emenda à Constituição que estabeleceu a nova escala 5x2 ganhou destaque na campanha eleitoral sem debate aprofundado, sem regulamentação adequada e sem estudo setorial para implementação. Enquanto isso, a PEC do Trabalho Flexível, que estabelece um regime mais compatível com a realidade do trabalho moderno, foi ignorada pelo Parlamento. O custo do equívoco começa a ser pago desde já.

Mercado precifica a crise semeada por Lula

Por Folha de S. Paulo

Com reeleição e queda abrupta das expectativas de ajuste orçamentário, juros futuros e dólar têm alta violenta

Medidas eleitoreiras agravaram o quadro; petista deveria começar logo a evitar uma derrocada em seu quarto e, provavelmente, último mandato

O dia seguinte à vitória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi de derretimento dos mercados financeiros. Juros futuros, dólar e Bolsa de Valores passaram por ajustes violentos de preços, o que leva o pessimismo com os rumos da economia a um novo patamar.

A virada surpreendente que manterá Lula por mais quatro anos no Planalto reduziu bruscamente as expectativas de um ajuste sério das contas públicas. Sem contenção dos gastos do governo, agora elevados pela farra de medidas eleitoreiras da campanha petista, a inflação continuará pressionada e, com ela, o câmbio e a política monetária.

Não por acaso, o dólar registrou salto de 8,41%, atingindo R$ 5,409, enquanto os juros negociados para janeiro de 2031 subiram 2,6 pontos percentuais, para mais de 15% ao ano. Tal cenário coloca o país no rumo de uma recessão, o que explica a queda de 13,9% do Ibovespa.

À primeira vista, os números podem parecer em contraste com a situação corrente de desemprego baixo e atividade ainda em expansão. Os sinais de piora, no entanto, já se fazem sentir há meses, e não se limitam à desaceleração em curso da economia.

O endividamento das famílias e das empresas alcança níveis inauditos. A escalada da dívida pública, que já alcançou o equivalente a 82,9% do PIB, mantém os juros na estratosfera e encarece o crédito para o setor privado.

A situação fiscal já era grave antes do pacote reeleitoral de Lula, que soma R$ 290 bilhões em despesas, subsídios tributários e operações de crédito neste ano e no próximo. Só no Orçamento de 2027, pode haver R$ 40 bilhões em gastos extras ou queda de receitas, segundo estimativas.

O governo precisa de um superávit primário (sem contar encargos financeiros) de 2% do PIB para estabilizar a dívida, enquanto o que se tem são frágeis previsões de redução do déficit persistente.

Sem alteração em regras de indexação de despesas obrigatórias, maior eficiência e focalização de transferências sociais e revisão de vinculações constitucionais, a despesa com pessoal, custeio administrativo, programas sociais e investimentos continuará a crescer acima da receita.

Promessas de não tocar nessas rubricas terão de ser, em alguma medida, reavaliadas. Disposição para enfrentar supersalários e penduricalhos no setor público constituiria sinal positivo de que o ajuste não se limita a setores de menor poder político.

O equilíbrio das contas do Estado é condição necessária, embora não suficiente, para lidar com o principal desafio do país: a baixa produtividade do trabalho, que se expandiu apenas 0,9% ao ano entre 1995 e 2025. Eis a herança maldita de sucessivos governos.

Lula deveria começar logo a evitar uma derrocada econômica em seu quarto e, muito provavelmente, último mandato. A indicação do próximo ministro da Fazenda, a discussão do Orçamento de 2027 e a revisão das regras fiscais serão os primeiros testes.

Flávio Bolsonaro age bem ao desistir de atacar o pleito

Por Folha de S. Paulo

Sem razão, candidato havia ameaçado pedir anulação da eleição em que foi derrotado por 4,4 milhões de votos

É descabida a ordem de Moraes de recolher passaporte de Flávio; agendas da depreciação do processo eleitoral e da vingança deveriam ser abandonadas

Agiu bem o senador Flávio Bolsonaro (PL) ao desistir de pleitear a anulação da eleição deste domingo (25). A insistência no jogo bruto prejudicaria a normalização das relações políticas no país e seria um exemplo de comportamento desviante a reverberar para o futuro.

O desafiante declarara na noite da apuração que não poderia considerar legítima a sua derrota por causa da extensão em duas horas do horário de votação, determinada monocraticamente pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, em atendimento a petição do PT.

Zanin, pela imprudência de interferir na undécima hora num ritual sagrado da democracia, e o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, pela omissão diante de solicitações mais tempestivas de estender a votação, foram corresponsáveis por essa lambança.

Vale lembrar que a chapa de Flávio também pediu ao TSE a prorrogação da votação em redutos da direita, sob alegação de transtornos com o mau tempo. Ao estender a decisão para todo o país, embora sem se preocupar com operacionalidade e impacto, Zanin satisfez desejos de PT e PL.

O choro de perdedor poderia até fazer algum sentido se a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tivesse ficado por um fio. Não faz nenhum sentido quando 4,4 milhões de sufrágios, ou 3,6% dos votantes, distanciaram o vencedor do perdedor.

Antes de propagar teorias conspiratórias para deslegitimar o processo eleitoral, Flávio Bolsonaro poderia ter verificado quantas pessoas no país registraram o voto após as 17h, final do horário regulamentar, até as 19h, limite ordenado pela decisão judicial estapafúrdia. Teria constatado um resíduo inferior a 35 mil, incapaz de alterar o resultado diante do total de 124 milhões de votos.

A democracia e a paz social se beneficiam da rápida revisão da disposição do senador fluminense para a rebeldia. O passo seguinte deveria ser o reconhecimento público do resultado. Não é fácil admitir a derrota e cumprimentar o adversário, mas essa atitude civiliza a política e reforça no lado derrotado a condição para competir de novo no pleito seguinte.

A regra tácita da boa convivência também recomenda ao grupo vitorioso que não se ponha a perseguir a oposição. É descabida, a propósito, a notícia de que o ministro Alexandre de Moraes mandou recolher o passaporte de Flávio por declarações sugerindo que ele deixe o Brasil feitas pelo irmão exilado Eduardo.

As agendas da depreciação do processo eleitoral e da vingança deveriam ser abandonadas.

Os péssimos sinais do discurso da vitória

Por O Estado de S. Paulo

Em vez de falar à Nação como chefe de Estado, Lula atacou o adversário e a imprensa profissional e anunciou que governará pelo celular. Mau começo, para quem diz governar para todos

É preciso ter grandeza na vitória. A eleição presidencial acabou, e o resultado das urnas, legítimo, deve ser respeitado por todos, a começar pelo candidato derrotado. Não obstante, a legitimidade da vitória não dispensa o vencedor das obrigações que ela impõe. E a primeira delas é a magnanimidade. Quem vence uma eleição tão acirrada tem o dever republicano de baixar a temperatura do País e mostrar que a campanha, com todos os seus excessos, ficou para trás. Em seu discurso da vitória, na noite de domingo, o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desperdiçou essa chance de ouro.

O destinatário do discurso era o povo brasileiro, não Flávio Bolsonaro (PL), tampouco a imprensa profissional. Deveria ser o momento em que Lula se despisse das vestes de candidato e se dirigisse à Nação como chefe de Estado e de governo. Mas o petista não se emenda, malgrado a larga experiência. A boa tradição democrática manda que o eleito estenda a mão ao adversário que ficou pelo caminho e estimule a coesão nacional. Lula, porém, optou pelo acerto de contas. Atacou Flávio, afirmando que ele é “o representante genuíno do milicianismo (sic)” e que não teria dentro de si “uma célula de humanismo”.

Não se trata aqui de defender o senador, a quem já criticamos duramente por sua conduta pessoal, sua indigência parlamentar e seu passivo de suspeitas criminais. Trata-se de reafirmar que a campanha acabou com a proclamação do resultado das urnas e que o palanque já não é o lugar de fala de um presidente da República digno e altivo.

Sobrou também para a imprensa profissional, que há décadas tem sido enxovalhada pelos petistas – e por Lula, em particular – por não dobrar os joelhos diante do demiurgo. Lula anunciou que passará a falar diretamente com a população pelo celular, “muitas vezes por dia”, e que não permitirá ser interpretado por “jornalista com má-fé”. A mediação jornalística, que demagogos como Lula veem como um estorvo, é um dos instrumentos por meio dos quais as sociedades livres fiscalizam o exercício do poder. Goste ou não o petista, esse trabalho, fundamental para a sustentação do regime democrático do qual ele se arvora em salvador, seguirá sendo feito.

Ademais, estadistas não governam com a cara enfurnada em um celular. Olham para as ruas e capturam as aflições e as esperanças do povo que vive a vida real. Governam não “com as redes sociais”, mas com as instituições republicanas, com o Congresso, por meio de interlocução franca e propositiva. E, sim, sabem lidar com as críticas.

O mais desconcertante é que o próprio Lula, no mesmíssimo discurso, afirmou que, vencida a eleição, não tem mais adversários e que governará para 215 milhões de brasileiros. A declaração, correta, foi desmentida pelo restante da fala, encerrada com uma saudação aos “soldados” do “exército da democracia”, em alusão ao numeroso grupo arregimentado pelo deputado André Janones (Rede-MG). Ora, falar em “exército” é falar em combate a um inimigo, e o inimigo, nessa retórica beligerante, é a larga porção do País que não votou em Lula. É um mau começo.

Os números que saíram das urnas deveriam inspirar outro tom. A vitória de Lula não foi acachapante. E, ainda que tivesse sido, em nenhuma democracia as minorias são esmagadas pela maioria. Quase metade dos eleitores escolheu outro caminho para o País. Esses brasileiros não deixaram de ser cidadãos dignos de atenção porque o candidato de sua preferência perdeu a eleição.

Os desafios que o Brasil tem pela frente, muitos deles agravados pelo próprio Lula no curso do atual mandato, não são poucos nem triviais. As contas públicas exigem um duro ajuste que o governo vem adiando às raias da negação. O endividamento público e privado não para de crescer. A falência da segurança pública é motivo de angústia em todo o País. O Brasil precisa de reformas urgentes que demandam negociação com o Congresso. Nada disso se resolve sem a construção de consensos mínimos em torno do bem comum. E é obrigação do presidente, como principal autoridade executiva, estimular a união nacional.

O custo Lula

Por O Estado de S. Paulo

É essencial que o presidente reeleito nomeie o novo ministro da Fazenda o mais rapidamente possível para apaziguar os investidores e conferir alguma credibilidade fiscal a seu governo

A trégua que o mercado financeiro havia dado ao País acabou já nas primeiras horas de ontem, com o derretimento da Bolsa e a disparada do dólar. Completamente ignorado durante a campanha eleitoral, o desequilíbrio estrutural das contas públicas terá de ser enfrentado com urgência. É essencial, portanto, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nomeie seu novo ministro da Fazenda o mais rapidamente possível para apaziguar os ânimos dos investidores e conferir alguma credibilidade fiscal a seu governo.

Passou da hora de Lula parar de lutar contra moinhos de vento e compreender a lógica que guia o mercado financeiro e suas apostas. É fato que ninguém em sã consciência acreditava na viabilidade da promessa do candidato derrotado Flávio Bolsonaro (PL) de promover um corte da ordem de R$ 200 bilhões nas despesas públicas com base em ações cosméticas, como o combate à corrupção e a revisão das compras públicas. Mas enquanto a equipe de campanha do senador vendia essa possibilidade nos bastidores, Lula classificava os clamores pela busca de um superávit primário de “babaquice”, dizia não estar preocupado com a dívida pública e criticava a autonomia do Banco Central (BC).

Logo, entre as justificadas dúvidas sobre o ajuste fiscal do candidato da oposição e a certeza de que a política fiscal do atual governo seria mantida como está, os investidores preferiram dar algum crédito à primeira opção. Bolsa, dólar e juros passaram a refletir essa aposta após Flávio ter ficado à frente do petista no primeiro turno da disputa eleitoral, ainda que os fundamentos da economia não dessem o menor respaldo a nada disso.

Encerrada a eleição, já nas primeiras horas dessa segunda-feira as ações das empresas despencaram, ocasionando o primeiro circuit breaker desde 2020; o câmbio disparou, na maior alta em um único dia desde janeiro de 1999; e a curva de juros futuros empinou para cima, a despeito de não ser essa a sinalização dada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) em sua reunião mais recente, em setembro.

Não foi mera ojeriza ao petista, mas ajuste de posições em direção ao cenário que havia até outubro, no qual a existência de um problema fiscal nem sequer era reconhecida pelo presidente da República. Como essa correção pode levar dias ou semanas, o melhor que Lula pode fazer para trazer alguma serenidade ao mercado é anunciar o quanto antes o nome do novo chefe da equipe econômica.

Seria um desastre se Lula resolvesse manter o atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, ou promover ao cargo o ministro do Planejamento, Bruno Moretti. Ambos provaram-se incapazes de dizer “não” ao chefe e atuaram como cabos eleitorais, e não como ministros, durante a disputa presidencial.

O nome do vice-presidente Geraldo Alckmin, que teve atuação elogiada nas negociações para reduzir o alcance do tarifaço imposto pelos EUA aos produtos brasileiros, circulou como potencial ministro da Fazenda já na reta final da campanha, como uma espécie de calmante para o mercado – afinal, Alckmin um dia já foi tucano e tem perfil austero. Também está cotado o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, que ganha pontos por sua ortodoxia, tornando-se indigesto para os petistas inconformados com a manutenção da taxa de juros. Correm por fora o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), e os senadores Camilo Santana (PT-CE) e Renan Filho (MDB-AL).

Seja quem for o nome escolhido, contudo, o mais importante é que Lula assuma a responsabilidade fiscal como princípio de seu quarto e último mandato presidencial. Faltam quase R$ 40 bilhões no Orçamento de 2027 para custear todas as bondades que foram aprovadas nas últimas semanas – sem contar as promessas feitas sem qualquer lastro, como o perdão à dívida das empresas do Simples Nacional, o fornecimento de canetas emagrecedoras pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e a tarifa zero para o transporte público aos fins de semana.

Não há espaço fiscal para malabarismos. A farra eleitoral custou caro e caberá ao próprio governo lidar com as consequências de suas escolhas populistas.

A complexa eleição em Israel

Por O Estado de S. Paulo

O desgaste de Netanyahu não garante a alternância: falta à oposição um acordo para governar

Israel pode rejeitar o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu nas eleições de hoje e continuar sendo governado por ele. As pesquisas divergem, mas várias projetam mais deputados contrários ao primeiro-ministro do que aliados. Essa vantagem, no entanto, só se converterá em mudança de governo se seus adversários chegarem a um acordo. Mas a rejeição comum encobre divergências profundas.

Netanyahu chega à primeira eleição desde o massacre de 7 de Outubro com sua principal credencial sob contestação. O homem que fez da segurança sua marca política comandava Israel quando o Hamas rompeu suas defesas. Ele resiste à formação de uma comissão estatal independente que a oposição exige para investigar as responsabilidades pela catástrofe. Seus partidários, contudo, lembram os Acordos de Abraão com países árabes e os golpes contra o Hezbollah e o Irã como trunfos. Netanyahu invoca essas realizações e a proximidade com o presidente dos EUA, Donald Trump, para defender a continuidade de sua liderança.

A eleição poderá definir, ademais, o destino de uma reforma do Judiciário. Uma lei aprovada pela atual coalizão para ampliar a influência política na escolha dos juízes deverá entrar em vigor na próxima legislatura. Gadi Eisenkot, principal adversário de Netanyahu, promete revogá-la. Os poderes da Suprema Corte merecem debate, mas as propostas governistas podem enfraquecer os freios sobre a maioria parlamentar.

Além disso, a permanência dos extremistas Bezalel Smotrich e Itamar Ben-Gvir no governo favoreceria a expansão dos assentamentos na Cisjordânia. Eisenkot promete conter a violência de colonos, mantendo o combate ao terrorismo palestino.

O descontentamento com Netanyahu, porém, toma direções bem diferentes. Ex-chefe do Estado-Maior, Eisenkot tenta conquistar conservadores que perderam a confiança em Netanyahu, mas continuam favoráveis a uma política de segurança rigorosa. A isenção militar dos ultraortodoxos abre outra fissura: Netanyahu depende dos partidos que exigem preservá-la, enquanto famílias de reservistas, inclusive conservadoras, cobram uma distribuição mais justa dos sacrifícios da guerra. O próprio Eisenkot perdeu um filho em combate em Gaza. A oposição também reúne nacionalistas e partidos de esquerda que divergem sobre os rumos de um novo governo.

As divergências reaparecerão nas negociações de governo. A maioria absoluta na Knesset (Parlamento) exige 61 das 120 cadeiras. Os partidos árabes podem ser decisivos para que as forças contrárias a Netanyahu ultrapassem esse número. Mas Eisenkot recusa sua presença no gabinete. Em tese, um governo minoritário poderia tomar posse com a ajuda de partidos que não integrassem a coalizão, mas essa solução esbarra em vetos políticos. Sem acordo, Netanyahu continuará à frente do governo, e o país poderá ser obrigado a voltar às urnas.

Terminada a contagem, os dirigentes terão de decidir o que fazer com os mandatos recebidos. Para substituir Netanyahu, seus adversários talvez precisem negociar justamente com partidos dos quais tentaram manter distância durante a campanha. Se tiverem votos para afastá-lo e não conseguirem fazê-lo, caberá a eles explicar o impasse.

Novo governo terá de fazer ajuste fiscal logo no início

Por Valor Econômico

Um ajuste fiscal feito para eliminar privilégios e distorções, capaz de baixar os juros para todos e de fazer o país crescer com consistência e distribuição de renda, poderia não ser visto como “estelionato eleitoral”

Os ativos brasileiros viveram ontem uma forte ressaca eleitoral, após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Posições majoritárias dos investidores se baseavam na crença de que o senador Flávio Bolsonaro (PL), que vencera o primeiro turno, repetiria o resultado no segundo, o que, para surpresa do mercado, não ocorreu. Ações e câmbio sofreram fortes deslocamentos, com o índice Ibovespa recuando até 16% e o real se desvalorizando até 15% diante do dólar. Ao longo do dia, houve arrefecimento no ímpeto da queda da bolsa (13,8%) e da alta do dólar (8,2%). Os juros futuros subiram muito, levando o Tesouro a um leilão extra de recompra de títulos.

A maior parte desses movimentos é datada e pouco reflete os fundamentos da economia. Reflete, na verdade, as expectativas, sem base, de que Flávio realizaria um "tesouraço" fiscal e estaria mais propenso a reformas, quando os discursos do próprio candidato não apontavam essa direção. No caso do câmbio, a tendência é de valorização gradual do dólar em relação a outras moedas, e nada autoriza um grande salto em relação ao real. Ao contrário, antes do início da propaganda eleitoral a aposta dos investidores é de que haveria um movimento de apreciação do real, que poderia fechar o ano abaixo de R$ 5 por dólar. Houve forte ingresso de dinheiro de investidores externos na bolsa, que a levaram a mais de 200 mil pontos, a balança comercial exibe ótima saúde, com superávit robusto, e o país tem reservas acima de US$ 365 bilhões.

A vitória de Lula, porém, pode significar a manutenção de uma política fiscal expansionista, a mesma que elevou o endividamento em relação ao PIB em 11 pontos percentuais no terceiro mandato do presidente. Lula não deu nenhum sinal de que está preocupado com o equilíbrio fiscal, e essas indicações elevaram muito os juros futuros, quase que independentemente da duração dos papéis do Tesouro. Ontem os juros explodiram e o Tesouro recomprou títulos prefixados que vencem em 2029 pagando acima de 15%, antes cotados abaixo dos 14%. Ainda que esse patamar seja provisório, indica a volta a um incômodo status quo de alto custo de emissão de dívida nova e da rolagem dos compromissos assumidos.

Durante todo o terceiro mandato de Lula, os juros reais (descontada a inflação) foram de 8% em média, e por boa parte desse tempo figuraram entre os maiores do mundo. Como os juros estão crescendo a uma taxa muito acima da do crescimento do PIB, pouco mais de 3%, o resultado é uma conta insustentável no tempo. A conta de juros atingiu R$ 1,18 trilhão nos 12 meses encerrados em agosto, ou 8,86% do PIB. Somado ao déficit primário real, o déficit nominal atingiu naquele mês 9,48% do PIB, um dos maiores do mundo.

Nesse ritmo, a dívida pública ultrapassará 100% do PIB até o fim da década e não se estabilizará tão cedo. Houve algum movimento na equipe econômica para que o limite de gastos acima da inflação abaixo de 2,5%, mas isso foi antes da desesperada corrida por gastos com fins eleitorais que, entre estímulos creditícios, despesas primárias e renúncias de receitas, chegou a R$ 298,4 bilhões, segundo a Instituição Fiscal Independente do Senado. Os compromissos eleitoreiros trarão a necessidade de R$ 53,7 bilhões em novos recursos no orçamento de 2027, que mal chegou ao Congresso.

O governo enviou orçamento com superávit primário de R$ 73,2 bilhões em 2027, após o término de seu mandato. Ainda assim, com os abatimentos, ele prevê um superávit "puro" de R$ 18,6 bilhões, só 0,13% do PIB. A projeção, já era duvidosa devido a receitas superestimadas e despesas subestimadas, ficou superada. A promessa oficial de que apenas remanejamentos de verbas existentes será suficiente para tapar o rombo extra criado pelas medidas para ganhar votos não parece crível.

A acusação de que o candidato Flávio Bolsonaro realizaria cortes seja lá do que fosse, mas em especial de programas sociais, acrescida da promessa eleitoral de ampliação de gastos, diminuiu a margem de manobra para que o governo melhorasse sua performance fiscal. Mas é preciso sinalizar urgentemente um freio de despesas e um compromisso claro de sua redução, ainda que gradual. A diminuição da correção do teto de gastos para 1%-1,5% ajudaria, sem romper os compromissos de campanha de conceder aumentos reais ao salário mínimo e às aposentadorias. Da mesma forma, um esforço sério para reorganizar os programas sociais e trazê-los de volta à focalização propiciaria significativa economia e uma alocação mais eficaz de recursos escassos, sem que isso implique cortes para quem mais precisa deles. Buscar o superávit cheio da meta fiscal, sem usar o piso, como tem sido feito, elevaria o esforço de contenção.

Há várias formas de melhorar o resultado fiscal à disposição, e o ideal é que medidas nessa direção fossem acompanhadas de reformas, mas o presidente agora reeleito não parece ver necessidade delas. Seria importante, no entanto, que se movesse com rapidez para deter o rápido crescimento da dívida, se quiser que a economia volte a crescer de forma sustentável no futuro. Um ajuste fiscal feito para eliminar privilégios e distorções, capaz de baixar os juros para todos e de fazer o país crescer com consistência e distribuição de renda, poderia não ser visto como “estelionato eleitoral”.

A derrota ensinou ao PL. Não aos Bolsonaro

Por Correio Braziliense

As urnas disseram com clareza que a maior parte do povo não aceita radicalismo, balbúrdia, truculência, incivilidade e autoritarismo

Flávio Bolsonaro confirmou, na noite de domingo, o ditado que diz que "o fruto não cai longe do pé". Assim como o pai, em 2022, não aceitou a derrota e viu na decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF) — de estender em mais duas horas o horário de votação —, um ato contra sua candidatura. Esqueceu-se, porém, de que seus próprios advogados tinham solicitado a mesma extensão, por conta das chuvas em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul. E considerou essas duas horas tempo suficiente para que o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva encontrasse os cerca de 4,4 milhões de votos de diferença entre eles.

Se o presidenciável se calou, seu partido, o PL, não. Reconheceu a vitória que deu a reeleição a Lula, em nota divulgada no começo da noite de ontem. A legenda celebra a eleição de um grande número de senadores, deputados e governadores. Mostra que sai do pleito maior do que entrou. Mas não deixa Flávio, ainda um ativo político importante, sozinho. Pede investigações sobre os eventos que ensejaram a ordem de Zanin.

A insistência do senador em não admitir que perdeu a corrida presidencial tornou-se um fardo poucas horas depois do desbocado pronunciamento sobre o resultado das urnas. Já ali os pragmáticos do PL começaram a agir: a legenda não podia lutar contra o óbvio.

Houvesse alguma dúvida sobre a lisura do pleito, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes Marques, não decretaria o resultado da eleição. O peso de quem votou depois das 17h é residual. Segundo o TSE, foram aproximadamente 35 mil votos válidos. Ainda que fossem todos dados a Flávio, não lhe dariam a vitória.

É preciso apurar, agora, as razões pelas quais as prefeituras de São Paulo e de três cidades baianas — Salvador, Lauro de Freitas e Feira de Santana — retiraram os ônibus de circulação e dificultaram o deslocamento do eleitor. Houve casos também em Sergipe, em Alagoas e no Piauí. Esse fato, que levou à prorrogação determinada por Zanin, não é uma preocupação para Flávio ou para o PL. Afinal, diz respeito a aliados do bolsonarismo.

A promessa de tumultos em série para forçar uma remota anulação do segundo turno perdeu força rapidamente. Se, de um lado, o deputado federal eleito Lucas Pavanatto (PL-SP) falou em atos públicos de não aceitação da derrota, Nikolas Ferreira (PL-MG) deixava claro que manifestações são inadequadas e teriam efeito prático nulo. Melhor era tocar a vida em frente, ainda que sob protesto.

O DNA autoritário do bolsonarismo, pela primeira vez, recebe alguma contenção de próprios integrantes. Cenário diferente de 2022, quando, derrotado, Jair Bolsonaro deu início a uma tramoia que não apenas previa manter-se no poder, mas, sobretudo, eliminar autoridades, incluindo Lula, como admitido por um general palaciano processado na trama golpista.

As urnas disseram com clareza que a maior parte do povo não aceita radicalismo, balbúrdia, truculência, incivilidade e autoritarismo. A vantagem de Lula, agora, foi maior do que a de 2022. Isso deveria ser entendido por Flávio e pelo clã Bolsonaro como um sinal de que o ciclo do extremismo pode estar colapsando.

Por sua vez, o PL, ao reconhecer a reeleição do presidente e com alguns dos seus cardeais entrando em campo para propor a virada da página, parece entender que esticar a corda é uma imprudência. E o risco disso é a sobrevivência do partido.

Alguns na extrema-direita aprenderam com a inesperada, mas humilhante, derrota. Já o clã Bolsonarismo parece que não entendeu nada.

A má resposta de Flávio ao recado das urnas

Por O Povo (CE)

Lamente-se que, mais uma vez, o processo eleitoral que leva à escolha do presidente da República não esteja encerrado na noite de domingo em que a votação acontece. O candidato derrotado na disputa de 2026, Flávio Bolsonaro, do PL, repete um roteiro que tem prevalecido mais recentemente ao anunciar que não aceita o resultado que lhe foi desforável e que buscará na justiça uma forma de conseguir a sua anulação.

É algo cansativo e que, infelizmente, encontra respaldo em boa parte dos apoiadores do político e seu grupo, tanto aqueles que detêm cargos garantidos pelo voto popular como os que se posicionam na condição de militantes ou, apenas, eleitores. Portanto, a manifestação de Flávio, que segue senador da República até fevereiro do próximo ano, alimenta um falso debate sobre fragilidades de um sistema eleitoral cuja confiabilidade já está mais do que demonstrada. No frigir dos ovos, configura-se um ataque à própria democracia.

Há fragilidade na acusação da vez, de que uma prorrogação em duas horas no tempo de votação, autorizada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), teria sido determinante para o resultado. Os números disponíveis indicam com clareza que não existe na medida um peso de influência suficiente para justificar os mais de 4 milhões de votos de maioria que o vitorioso, Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, registrou sobre seu adversário nos números finais anunciados.

Ademais, a própria campanha de Flávio recorreu à justiça, no caso ao TSE, solicitando que o tempo oferecido aos eleitores fosse estendido pelas mesmas duas horas a mais. Situação lembrada pelo próprio ministro Zenin em seu despacho, justificando que o pedido do PT para que a medida ficasse restrita às duas cidades nas quais teriam sido identificados problemas com o transporte público, mas que ela seria autorizada para todo o território nacional em função do apelo de outra candidatura, neste caso justificada por problemas derivados de fenômenos naturais, chuvas com especialidade.

É uma situação ruim, indevida, que encontra como contraponto exemplar a atitude do experiente Ronaldo Caiado, que disputou a presidência já neste 2026, anunciou apoio ao candidato do PL depois de ser excluído do processo eleitoral e se manifestou horas depois do TSE oficializar o resultado. Segundo ele, um notório e firme crítico de Luila e seu governo, resta aceitar a situação e tocar a vida, tentando entender o que aconteceu e descobrir suas causas para enfrentá-las na perspectiva de uma eleição futura.

O comportamento pós-eleição de Flávio Bolsonaro põe em xeque suas próprias palavras como candidato, nas situações em que se comprometeu a "respeitar o resultado, seja qual for". Algo que permite colocar em dúvida o conjunto de compromissos que assumiu na perspectiva de ser eleito e vir a governar o país a partir de 5 de janeiro do próximo. Quantas mais de suas promessas de campanha faziam parte apenas de uma estratégia de conquista da confiança do eleitor e da sociedade?

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