Valor Econômico
Ampliação da base social de apoios, acréscimo de novos temas prioritários, conjugação do ajuste fiscal com a agenda social e reformulação da forma de relacionamento com o sistema político estão entre as necessidades
Renovação se tornou a palavra de ordem do
quarto e último mandato de Lula. As lições da eleição de 2026 apontam para esse
caminho. Renovar não é abandonar tudo que o lulismo trouxe de ganhos à
sociedade brasileira, fato comprovado pela sua força política de congregar,
regularmente, algo próximo da metade do eleitorado. O desafio é combinar o
aperfeiçoamento de políticas sociais com uma nova estratégia, marcada por um
contexto diferente, por novas questões e alianças, além de necessitar de um
processo deliberado de sucessão no quadro dirigente do governo e do petismo.
A reeleição de Lula o consagra como o maior líder político da história brasileira. Ele começou sua carreira como oposicionista vindo do movimento sindical e depois ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores. Perdeu três eleições presidenciais, mas posteriormente ganhou quatro disputas, tornando-se o maior vencedor em períodos democráticos. A virada do segundo turno, algo inédito em toda a redemocratização, deveu-se muito a suas qualidades como liderança, com seu carisma, compromisso popular, a herança de suas políticas sociais e a capacidade de falar para diferentes grupos de brasileiros.
As qualidades do presidente Lula foram
importantes na comparação com os defeitos de seu adversário. O antibolsonarismo
mostrou-se, ao final do segundo turno, maior do que o antipetismo, com grande
colaboração da postura arrogante e soberba de Flávio Bolsonaro, seja por ter
achado que já tinha ganhado a eleição, seja por sua postura desrespeitosa
durante os debates. A fuga do Brasil mostrou que não tinha estatura para
governar o país.
Mas a reeleição não foi fácil e trouxe uma
clara lição: para ter sucesso em seu último mandato, Lula precisará mudar muito
o seu governo. Em linhas gerais, ele enfrentará cinco desafios: a ampliação da
base social de apoios, o acréscimo de novos temas prioritários, o
aperfeiçoamento de áreas centrais do lulismo, a conjugação do ajuste fiscal com
a agenda social do governo e a reformulação da forma de relacionamento com o
sistema político, inclusive com o início de um projeto de renovação de
lideranças para o pós-Lula.
As eleições de 2026 mostraram que o lulismo
precisa falar para vários públicos, caso queira montar um governo antenado com
novas demandas da sociedade. Entre eles, tem grande relevância a nova classe C
ou aspiracional, como bem define a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, que tem
ambições de mobilidade, consumo e autonomia vinculados ao empreendedorismo sem
que os serviços públicos percam importância. Essa combinação precisa ser compreendida
pelo governo reeleito. É um grupo composto por homens e mulheres de áreas
urbanas e periféricas que hoje abarcam todo o país, inclusive o Nordeste.
O segundo turno revelou o potencial eleitoral
de jovens e idosos, que foram centrais para a reeleição de Lula. Embora tenham
se mobilizado contra o candidato Flávio Bolsonaro, são dois grupos que merecem
maior atenção do presidente reeleito, com medidas específicas e que estejam no
centro da comunicação governamental. Também se deve dialogar com quem não votou
no lulismo, como parcela importante do agro, pensando não só nos grandes
produtores, como ainda no conjunto de trabalhadores e empreendedores que
circundam a economia do afluente campo brasileiro.
Parcelas da classe média não petista e que
rejeitam a visão autoritária da extrema direita brasileira foram mais uma vez
importantes na eleição do presidente Lula. Defendida em 2022, a ideia de frente
ampla foi abandonada ao longo do terceiro mandato, o que resultou na perda de
apoio desse grupo social nos últimos anos. Mais uma vez, esse eleitorado apoiou
na última hora o lulismo, porém, esse fenômeno pode não se repetir nas próximas
eleições.
No fundo, é necessário escutar efetivamente a
demanda desses vários públicos, construindo alianças e parcerias mais sólidas
com um universo mais amplo, caso se queira ter um governo com maior
popularidade e se deseje reduzir o forte sentimento antipetista ou antilulista
na sociedade brasileira. E a sobrevivência do bolsonarismo e seu radicalismo ao
longo dos últimos anos realça como é preciso ter uma estratégia multiclassista
para melhorar o país e garantir a democracia.
A construção dessas alianças depende do
enfrentamento de um segundo obstáculo: a priorização de novos temas na agenda
governamental. São questões como segurança pública, empreendedorismo,
mobilidade urbana e comunicação mais constante pelas redes sociais. Sem
enfrentar a sensação de insegurança e o crime organizado será difícil manter um
alto apoio popular. O suporte a quem quer montar negócios e um crédito mais
seguro são temas centrais para que o lulismo deixe de ser visto como inimigo de
quem quer “prosperar por conta própria”.
As péssimas condições do transporte público
também devem ganhar destaque no quarto mandato de Lula. A conversa mais rápida
e direta com a população é, ademais, uma necessidade para que não impere uma
imagem de um governo lento, burocrático e que só liga para os grupos sociais de
sempre.
Buscar novos temas e públicos não quer dizer
que as políticas lulistas sejam um fracasso. A agenda do segundo turno revelou
que isso não é verdade, uma vez que o Farmácia Popular, o Bolsa Família e a
mudança na escala 6x1 foram defendidas pelo adversário. A relevância da pauta
social construída nas últimas décadas é inegável. Só que ela precisa ser
aperfeiçoada, seja para conquistar e consolidar eleitorados, seja
principalmente para ampliar as oportunidades dos cidadãos, especialmente dos
mais vulneráveis.
Melhorar a eficiência e a qualidade dos
serviços do SUS, particularmente agilizando a realização das consultas e
exames, é uma tarefa prioritária. Na educação, a escola de tempo integral, as
políticas para a primeira infância e para as crianças com deficiência, o ensino
médio profissional e tecnológico, o investimento na carreira docente, bem como
políticas voltadas à redução das desigualdades educacionais precisam estar no
topo das prioridades do novo governo Lula. O terceiro mandato recuperou a
agenda ambiental abandonada pelo bolsonarismo, contudo, há muitos desafios
aqui, com maior destaque para o preparo dos governos subnacionais para lidar
com a mudança climática.
Avançar nos velhos e novos temas, com
absoluta prioridade para o combate às desigualdades e a criação de
oportunidades para todo mundo, só poderá acontecer se o país estruturar as
condições econômicas necessárias. Por isso, a montagem de um modelo fiscal que
reduza o endividamento do país de forma contínua e segura é essencial. O quarto
mandato de Lula terá de encontrar um caminho de conjugar ajuste nas contas
públicas com prioridade na garantia dos direitos dos cidadãos. Não é uma tarefa
fácil, no entanto, o aumento dos gastos sem parâmetros manterá os juros nas
alturas e as empresas e indivíduos superendividados. O inverso é igualmente
problemático: fazer um choque econômico muito forte centrado no curto prazo,
gerando recessão ou piora demasiada na vida das pessoas, não é um caminho
desejável.
Há caminhos para conjugar ajuste fiscal e
preocupação social, com mudanças em privilégios do alto funcionalismo,
particularmente concentrado no sistema de justiça, redução gradativa do tamanho
das emendas, corte em renúncias fiscais que perderam o sentido e mudança em
indexadores de gastos sociais relevantes, sem deixar de dar aumentos vinculados
a indicadores de inflação.
O último desafio é o maior de todos. Trata-se
da governabilidade do sistema político, o que passa, primeiro, pela criação de
uma base estável no Congresso Nacional, com construção de pautas conjuntas e
aberturas de espaços para que a sociedade também possa ser ouvida nesse processo.
Aqui, a relação com a Câmara Federal vai ser mais tranquila, porque há um
espaço bom para acordos duradouros entre o governismo e o centrão, já que este
percebeu na última eleição quem roubou parte de seus eleitores: o PL e o
bolsonarismo. No Senado a articulação será mais complicada por conta do tamanho
da extrema direita, mas é possível estabelecer pautas que tenham apoio social
para dialogar com a oposição.
A reconstrução política mais complexa passa
pelo Judiciário, quer seja no debate sobre seus gastos, quer seja na discussão
sobre a reforma dos tribunais superiores, em especial o Supremo Tribunal
Federal. A reforma do STF e a montagem de um novo padrão de seleção dos
ministros da Corte são temas centrais para o sucesso imediato e de longo prazo
da imagem do presidente Lula.
A reeleição para um quarto mandato coloca em
questão uma missão que Lula adiou por muitos anos: a renovação das lideranças
ao seu redor e de seus sucessores. Neste sentido, o segundo turno foi uma
benção porque revelou claramente a necessidade de trazer novos líderes para
lugares estratégicos do comando lulista. Preparar ao longo do quadriênio quem
pode depois liderar o país na próxima década seria um legado imprescindível do
novo governo Lula, completando sua carreira num estágio mais próximo do
verdadeiro estadista, que é aquele cuja generosidade e influência ultrapassam o
personalismo.
*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas.

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