Valor Econômico
Esforços agora se voltam para o arrefecimento
da crise institucional e a tentativa de reconstrução da imagem do Supremo
Enquanto as principais forças políticas da direita, do centro e da esquerda se alinharam para reconhecer o resultado da eleição presidencial, isolando o candidato derrotado à Presidência, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), os esforços agora se voltam para o arrefecimento da crise institucional e a tentativa de reconstrução da imagem do Supremo Tribunal Federal (STF).
É nesse contexto que a reforma do Judiciário,
mais do que uma resposta à erosão institucional do Supremo, e de outros
tribunais envolvidos em denúncias de corrupção, pode funcionar,
simultaneamente, como blindagem aos magistrados da Corte, que tiveram os nomes
citados na fraude bilionária do Banco Master. A partir do ano que vem,
senadores do PL eleitos com a promessa de cassar os mandatos dos ministros
envolvidos com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, vão elevar a pressão para que os
processos de impeachment comecem a tramitar.
Dois movimentos, entretanto, reduzem o poder
de fogo da bancada do PL, que será a maior do Senado a partir de 2027, com 29
senadores. O primeiro deles foi a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados
Unidos, e a divulgação da carta em que se autoproclamou “presidente eleito” - e
depois, corrigiu para “líder do Brasil” -, gestos que constrangeram aliados,
inclusive do PL. O presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, afirmou,
publicamente, que “não gostou” do comunicado. Nos bastidores, aliados de Flávio
se disseram envergonhados com o documento.
Em paralelo, a surpreendente virada na
eleição presidencial, com a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
(PT), também afetou a disputa sucessória no Senado. O resultado revigorou a
candidatura à reeleição do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), que
na hipótese de consagração de Flávio, era considerado carta fora do baralho.
Alcolumbre ainda não despontou como favorito,
porém, lideranças do Senado reconhecem, em conversas reservadas, que a
candidatura dele ganhará musculatura com o tempo, sobretudo com o apoio de
Lula, que saiu fortalecido da disputa pelo quarto mandato. Além disso, o
senador do Amapá estreitou os laços com o presidente da Câmara dos Deputados,
Hugo Motta (Republicanos-PB), que já tem a recondução para novo mandato
praticamente assegurada, e reforçou a articulação, paralelamente, para
reconduzir o aliado da Casa vizinha ao cargo.
A se confirmar a renovação do mandato de
Alcolumbre na direção do Senado, ele deverá contar com o respaldo de uma parcela
da Casa para continuar segurando pedidos de impeachment dos ministros do STF,
inclusive de Alexandre de Moraes, de quem é aliado. Moraes se tornou alvo
preferencial da oposição, após a revelação de um contrato do escritório de sua
esposa, Viviane Barci de Moraes, com o Banco Master, no valor de R$ 130
milhões. Sob pressão, Alcolumbre criticou os 109 processos nas gavetas do
Senado requerendo o afastamento de 10 magistrados do STF, e que esperam
despacho dele. “Isso não é normal”, protestou, no começo de setembro.
Um impasse, entretanto, é que não basta
conter a oposição, porque a opinião pública também aguarda um posicionamento
das instituições sobre as denúncias que alcançaram ministro da mais alta Corte
do país, implicando-os no escândalo do Banco Master. É nesse contexto que,
segundo parlamentares, o debate e a votação de mudanças sobre a estrutura do
STF poderia oferecer respostas à sociedade, e, simultaneamente, abafar - ou,
pelo menos, retardar - processos de cassação de magistrados.
A discussão da reforma do Judiciário começará
pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. O líder do MDB,
Eduardo Braga (AM), e os senadores Cid Gomes (PSB-CE) e Veneziano do Rêgo
(MDB-PB) são relatores de propostas de emenda à Constituição (PEC) que tratam do
tema em andamento no colegiado. O presidente da CCJ, Otto Alencar (PSD-BA),
descartou, no entanto, votação ainda neste ano porque realizará audiências
públicas para discutir a matéria. Há propostas para eliminar “penduricalhos”,
fixar mandatos em 10 ou 12 anos, e envolver a sociedade civil na escolha dos
ministros.
Em conversas reservadas, fontes do Centrão
afirmaram que, em paralelo à articulação para impulsionar a reforma do
Judiciário, também havia movimentos para esfriar a turbulência entre o Congresso
e o Judiciário. Uma fonte influente do bloco disse à coluna que um dos pontos
do acordo afastava, justamente, a hipótese de prisão do senador do PL. Até
porque não havia, até então, elementos que justificassem medida dessa
gravidade, como ameaça à ordem pública, ou tentativa de destruição de provas.
Nesse sentido, a expectativa era que Flávio
permanecesse no Brasil, como líder da oposição, agraciado com 59,8 milhões de
votos, enquanto respondia, em liberdade, às duas investigações em tramitação
contra ele no STF. A desobediência à ordem para entregar os passaportes, com a
consequente viagem clandestina para os Estados Unidos, minou essa
possibilidade.
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