sábado, 31 de outubro de 2026

Haja ajuste, por Luiz Gonzaga Belluzzo

 

CartaCapital

O pessimismo do mercado e a imposição de uma agenda

As regras autodestrutivas da finança são capazes de apagar o sol e as estrelas porque não pagam dividendos (John Maynard Keynes)

O tiroteio ­travado na campanha eleitoral sobre os ­rumos da economia culminou, entre trancos e barrancos, no desfecho entre a mídia e os resultados das urnas. A Bolsa de Valores para baixo e o câmbio para cima revelaram o pessimismo do mercado financeiro e o mau humor da “grande imprensa”.

As opiniões dos articulistas ­ressoam as certezas das gentes dos mercados. Nada resta ao governo Lula senão enveredar pelas alamedas do ajuste fiscal. Os sábios da Crematística abrigados nas manchetes e nas colunas de opinião celebram: “Aleluia, teremos as políticas corretas”. Sendo assim, diria Luís de Camões, às opiniões divergentes resta ensarilhar as armas e deixar que os barões assinalados toquem o barco por mares já dantes navegados, sem abandonar, é claro, as impertinências do Velho do Restelo: a nau pode afundar na Taprobana.

Os navegantes das águas conhecidas tomaram para si a definição dos “fundamentos econômicos”, usando e abusando do poder de afetar em suas convolações o comportamento dos preços-chave da economia monetária “aberta”, as taxas de juro e de câmbio.

A finança e sua lógica arrogam-se pretensões de impor vetos às políticas macroeconômicas, mesmo quando se revelam incapazes de curar suas próprias mazelas. A dita globalização financeira tornou mais “livre, leve e solto” o espaço de circulação da riqueza e da renda dos grupos privilegiados. Nessa toada, a nova finança cuidou de destruir os regimes tributários fundados na progressividade dos impostos diretos sobre a renda e a riqueza. Para tanto, estão disponíveis os paraísos fiscais como Luxemburgo.

Ao mesmo tempo, a dinâmica da dívida pública tornou-se refém dos juros reais, sempre muito mais “realistas”, diga-se, nos países de moeda não conversível, como o Brasil, submetidos às movimentações histéricas e estéreis dos capitais financeiros internacionais. Haja “ajuste fiscal”!

Por essas e outras, as relações entre o político e o econômico – melhor, entre a democracia e o mercado – estão ordenadas de modo a remover quaisquer obstáculos à expansão dos poderes da finança. Assim, foram impostas condições à gestão fiscal dos Estados nacionais. Esse brutal acrescentamento de seu “poder real” concedeu aos funcionários da finança o direito a definir o que é “racional” ou “irracional” na gestão econômica, sem se importar com a vida dos cidadãos de carne e osso.

O brutal acrescentamento de seu “poder real” concedeu aos funcionários da finança o direito a definir o que é “racional” ou “irracional” na gestão econômica, sem se importar com a vida dos cidadãos de carne e osso

As decisões que outrora couberam às instâncias da política democrática passaram ao comando dos “mercados eficientes”. Os discursos moralistas impedem a compreensão dos movimentos e transformações da economia capitalista e de seus “mercados”. Essa choramingas oculta a natureza constitutiva e contraditória do crédito e dos mercados de avaliação da riqueza no capitalismo. Assim, dão força às hipóteses das teorias econômicas dominantes que tratam o dinheiro, o crédito e os mercados de riqueza de seus “modelos Mickey Mouse”.

Keynes procurou mostrar que os estoques de ativos financeiros, a massa de direitos existentes sobre a riqueza e a renda, são rastros das decisões de produção realizadas. Nos ativos financeiros estão encarnadas as poupanças sacadas dos fluxos de renda pretéritos e é neles que vão se encarnar frações importantes das poupanças vindouras das famílias e das empresas. As avaliações desses ativos nos mercados de riqueza afetam a disposição dos possuidores e administradores desses recursos em investir na produção socialmente útil e geradora de novos empregos.

A economia capitalista, enquanto economia monetária na qual prevalecem as relações de débito e crédito, pode ser concebida como grande painel de balanços inter-relacionados. Observados em suas inter-relações, os balanços dos bancos, empresas, famílias, governos e setor externo registram, em cada momento, os resultados das decisões de financiamento e de gasto tomadas privadamente pelos participantes do jogo do mercado. As decisões privadas de gasto apoiadas no crédito, e, portanto, no endividamento, são as variáveis independentes que determinam a criação de empregos e, portanto, a formação da renda. Assim, na medida em que a criação de valor na esfera produtiva gera o fluxo de renda agregada da economia, as operações de débito-crédito modificam a distribuição dos estoques de direitos sobre a riqueza e, por consequência, a situação patrimonial dos protagonistas.

Os fluxos de lucros, salários e receitas fiscais produzidos no processo de criação de valor engendram as poupanças que vão constituir o funding do sistema bancário e do mercado de capitais. Esses últimos, em sua função de intermediários, promovem a validação do crédito e da liquidez (criação de ­moeda) “adiantados” originariamente pelos bancos para viabilizar os gastos de investimento e de consumo.

As visões de muitos críticos da teoria ortodoxa apontam o “rentismo” como deformação que sufoca o espírito empreendedor. As formas de existência do poder financeiro manejam os cordéis e colocam sob seu comando as decisões de produção e, portanto, de geração de renda e emprego. 

*Publicado na edição n° 1437 de CartaCapital, em 04 de novembro de 2026.

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