CartaCapital
O pessimismo do mercado e a imposição de uma
agenda
As regras autodestrutivas da finança são
capazes de apagar o sol e as estrelas porque não pagam dividendos (John Maynard
Keynes)
O tiroteio travado na campanha eleitoral
sobre os rumos da economia culminou, entre trancos e barrancos, no
desfecho entre a mídia e os resultados das urnas. A Bolsa de Valores para baixo
e o câmbio para cima revelaram o pessimismo do mercado financeiro e o mau humor
da “grande imprensa”.
As opiniões dos articulistas ressoam as certezas das gentes dos mercados. Nada resta ao governo Lula senão enveredar pelas alamedas do ajuste fiscal. Os sábios da Crematística abrigados nas manchetes e nas colunas de opinião celebram: “Aleluia, teremos as políticas corretas”. Sendo assim, diria Luís de Camões, às opiniões divergentes resta ensarilhar as armas e deixar que os barões assinalados toquem o barco por mares já dantes navegados, sem abandonar, é claro, as impertinências do Velho do Restelo: a nau pode afundar na Taprobana.
Os navegantes das águas conhecidas tomaram
para si a definição dos “fundamentos econômicos”, usando e abusando do poder de
afetar em suas convolações o comportamento dos preços-chave da economia
monetária “aberta”, as taxas de juro e de câmbio.
A finança e sua lógica arrogam-se pretensões
de impor vetos às políticas macroeconômicas, mesmo quando se revelam incapazes
de curar suas próprias mazelas. A dita globalização financeira tornou mais
“livre, leve e solto” o espaço de circulação da riqueza e da renda dos grupos
privilegiados. Nessa toada, a nova finança cuidou de destruir os regimes
tributários fundados na progressividade dos impostos diretos sobre a renda e a
riqueza. Para tanto, estão disponíveis os paraísos fiscais como Luxemburgo.
Ao mesmo tempo, a dinâmica da dívida pública
tornou-se refém dos juros reais, sempre muito mais “realistas”, diga-se, nos
países de moeda não conversível, como o Brasil, submetidos às movimentações
histéricas e estéreis dos capitais financeiros internacionais. Haja “ajuste
fiscal”!
Por essas e outras, as relações entre o
político e o econômico – melhor, entre a democracia e o mercado – estão
ordenadas de modo a remover quaisquer obstáculos à expansão dos poderes da
finança. Assim, foram impostas condições à gestão fiscal dos Estados nacionais.
Esse brutal acrescentamento de seu “poder real” concedeu aos funcionários da
finança o direito a definir o que é “racional” ou “irracional” na gestão
econômica, sem se importar com a vida dos cidadãos de carne e osso.
O brutal acrescentamento de seu “poder real”
concedeu aos funcionários da finança o direito a definir o que é “racional” ou
“irracional” na gestão econômica, sem se importar com a vida dos cidadãos de
carne e osso
As decisões que outrora couberam às instâncias
da política democrática passaram ao comando dos “mercados eficientes”. Os
discursos moralistas impedem a compreensão dos movimentos e transformações da
economia capitalista e de seus “mercados”. Essa choramingas oculta a
natureza constitutiva e contraditória do crédito e dos mercados de avaliação da
riqueza no capitalismo. Assim, dão força às hipóteses das teorias econômicas
dominantes que tratam o dinheiro, o crédito e os mercados de riqueza de seus
“modelos Mickey Mouse”.
Keynes procurou mostrar que os estoques de
ativos financeiros, a massa de direitos existentes sobre a riqueza e a renda,
são rastros das decisões de produção realizadas. Nos ativos financeiros estão
encarnadas as poupanças sacadas dos fluxos de renda pretéritos e é neles que
vão se encarnar frações importantes das poupanças vindouras das famílias e das
empresas. As avaliações desses ativos nos mercados de riqueza afetam a
disposição dos possuidores e administradores desses recursos em investir na
produção socialmente útil e geradora de novos empregos.
A economia capitalista, enquanto economia
monetária na qual prevalecem as relações de débito e crédito, pode ser
concebida como grande painel de balanços inter-relacionados. Observados em
suas inter-relações, os balanços dos bancos, empresas, famílias, governos e
setor externo registram, em cada momento, os resultados das decisões de
financiamento e de gasto tomadas privadamente pelos participantes do jogo do
mercado. As decisões privadas de gasto apoiadas no crédito, e, portanto, no endividamento,
são as variáveis independentes que determinam a criação de empregos e,
portanto, a formação da renda. Assim, na medida em que a criação de valor na
esfera produtiva gera o fluxo de renda agregada da economia, as operações de
débito-crédito modificam a distribuição dos estoques de direitos sobre a
riqueza e, por consequência, a situação patrimonial dos protagonistas.
Os fluxos de lucros, salários e receitas
fiscais produzidos no processo de criação de valor engendram as poupanças que
vão constituir o funding do sistema bancário e do mercado de capitais. Esses
últimos, em sua função de intermediários, promovem a validação do crédito e da
liquidez (criação de moeda) “adiantados” originariamente pelos bancos para
viabilizar os gastos de investimento e de consumo.
As visões de muitos críticos da teoria
ortodoxa apontam o “rentismo” como deformação que sufoca o espírito
empreendedor. As formas de existência do poder financeiro manejam os cordéis e
colocam sob seu comando as decisões de produção e, portanto, de geração de
renda e emprego.
*Publicado na edição n° 1437 de CartaCapital, em 04 de novembro de 2026.

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