sábado, 31 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Vitória de Lula e vergonhosa fuga de Flávio

Por Revista Será?

Com uma contundente vitória eleitoral, o presidente Lula da Silva se consolida como a maior liderança popular do Brasil que permitiu aos brasileiros impedir a volta da família Bolsonaro ao poder com os riscos para a democracia. Mesmo derrotado, o senador Flávio Bolsonaro recebeu 59,8 milhões de votos, em grande parte pela atração do antilulismo e da insatisfação de parcela dos brasileiros com o terceiro mandato de Lula. O ranço autoritário do bolsonarismo não permitiu que Flávio aceitasse o resultado das urnas – confirmado pelo TSE e seu presidente, Nunes Marques, Ministro indicado por Jair Bolsonaro – nem reconhecesse a vitória de Lula, o que lhe permitiria aspirar a uma posição de líder da direita brasileira.

A decisão apressada do Ministro Alexandre de Moraes ordenando que o senador entregasse os passaportes e não saísse do Brasil precipitou os fatos, com a fuga de Flavio Bolsonaro. Os elementos que justificam a punição do Ministro ainda precisam ser esclarecidos, mas é lícito imaginar que Flávio Bolsonaro sabia que existiam denúncias que levariam à sua prisão nos primeiros dias de fevereiro quando se encerrasse sua imunidade parlamentar. Entretanto, o histórico de inimizade política de Bolsonaro e Moraes e as evidências de envolvimento dos dois com o dono do Banco Master, alimentam a narrativa de perseguição política, que os Bolsonaros adoram.

Fugindo do Brasil e publicando um ridículo manifesto em que se apresenta como o presidente eleito, Flávio Bolsonaro frustra os seus eleitores e se isola da sua base política. Quase todas as lideranças políticas de direita, mesmo vários bolsonaristas de primeira hora, reconheceram os resultados das urnas e criticaram as declarações do fugitivo. Com Jair preso e dois dos seus filhos fora do Brasil, é muito provável que o bolsonarismo desinfle e que a ultradireita perca a capacidade de aglutinação de democratas da direita e da centro-direita, capacidade demonstrada nestas eleições.

Confirmada esta hipótese, no futuro, o Brasil pode se livrar da polarização política nefasta entre o lulismo e o bolsonarismo que tem dominado a política brasileira em quase uma década. Embora Lula possa beneficiar-se da fragilidade da família Bolsonaro sem a força do bolsonarismo, tal fragilidade poderá descartar também   o apoio dos brasileiros que votaram nele apenas para livrar-se dos riscos e ameaças bolsonaristas. E assim, nós escaparíamos da armadilha política que nos tem obrigado a um posicionamento mais pela rejeição de um  dos polos do que pela efetiva afinidade política com o outro.

Brechas à gastança eleitoral têm de ser fechadas desde já

Por O Globo

Lula lançou mão de medidas eleitoreiras como nunca. Não foi o primeiro, mas deveria ser o último

A classe política precisa desde já começar a rever as brechas legais que permitem a profusão de medidas e benesses em série às vésperas de eleições. Embora haja regras contra abusos, o pleito deste ano deixou claro que não têm sido suficientes para deter o ímpeto de políticos que recorrem à caneta para conquistar votos.

O terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi pródigo nessas iniciativas, especialmente neste ano. À medida que a popularidade de Lula enfrentava dificuldades, mais pacotes de bondades saíam da linha de montagem. No fim de setembro, o Palácio do Planalto chegou a anunciar uma benesse a cada quatro dias, como mostrou reportagem do GLOBO. Nunca antes houve tantas medidas populistas em ano eleitoral.

A lista é interminável: subvenção a combustíveis, múltiplas versões do Desenrola para endividados, ampliação das faixas do Minha Casa, Minha Vida para a classe média, crédito para compra de veículos por taxistas, motoristas de aplicativo e entregadores, crédito agrícola e industrial, ajuda a microempreendedores individuais (MEIs), além do reajuste de 15% no Bolsa Família a apenas 17 dias do pleito — Lula alegou não saber que ele estava sem correção. Contando financiamentos, despesas primárias e renúncias fiscais, a conta beira R$ 300 bilhões, segundo a Instituição Fiscal Independente. E outros mimos estão a caminho, caso do Pé-de-Meia para universitários e da tarifa zero no transporte coletivo aos fins de semana.

Lula não foi o primeiro a gastar sem freio às vésperas do pleito. Dilma Rousseff (PT) e Jair Bolsonaro (PL) recorreram ao mesmo expediente de modo despudorado. Em 2022, quando concorria à reeleição, Bolsonaro anunciou aumento de 50% no Auxílio Brasil. O reajuste começou a ser pago dois meses antes do primeiro turno. Na época, Lula e o PT acusaram o adversário de usar indevidamente a máquina pública. Antes disso, Dilma já torrara 3,1% do PIB para se reeleger, como mostrou estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). A prática não tem coloração partidária ou ideológica.

O uso abusivo da máquina desequilibra a disputa. O político que tem a caneta na mão leva vantagem sobre os adversários, pois pode distribuir benesses com recursos públicos para se beneficiar. Além disso, qualquer gasto tem impacto inexorável no Orçamento. Evidentemente, não se podem coibir promessas ou projetos apresentados, ao alcance de qualquer candidato. Nem medidas emergenciais justificáveis por eventos externos, como uma pandemia ou tragédia climática. Mas é preciso mais rigor para vetar o que estiver ao alcance apenas de quem tem a caneta.

O artigo 73 da Lei das Eleições já veda diversas condutas, como uso de bens públicos; ceder servidor para comitês de campanha; contratar funcionários antes da eleição; e, sobretudo, distribuir bens, valores ou benefícios em ano de eleição. Mas tais vedações são genéricas e, como se viu, não têm bastado. É preciso fechar as brechas aos abusos, e a Justiça também precisa ser mais rigorosa na interpretação das leis.

Qualquer mudança deve ser debatida com antecedência, para não sofrer contaminação do calendário eleitoral. Mas a hora de começar é agora. Se nada for feito, o descalabro poderá ser ainda pior nas próximas campanhas.

Assédio ou demissão por motivo eleitoral devem ser punidos com rigor

Por O Globo

Denúncias cresceram mesmo após fim da eleição. Casos são graves e violam princípio básico da democracia

Ao longo da campanha eleitoral, já se mostravam nefastas as tentativas de certas empresas de impor aos funcionários nomes de candidatos, desrespeitando um dos princípios mais básicos da democracia: a livre escolha do eleitor. Terminado o pleito, com a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a situação piorou. Houve ameaças de demissão, campanhas de boicote, constrangimentos a cidadãos e até bullying em escolas, tudo motivado por preferências políticas. É preciso tratar esses abusos com rigor, seguindo a letra da lei.

Nos últimos dias, multiplicaram-se nas redes sociais postagens de figuras públicas ou anônimas incentivando a demissão de quem votou em Lula. “Empresário, olha a rede social do teu funcionário e aí confere se ele fez o L”, dizia a deputada estadual Índia Armelau (PL), a mais votada do Rio. Uma liminar da Justiça do Trabalho determinou que ela se abstenha de promover atos que incentivem demissão, discriminação ou perseguição de trabalhadores por convicções políticas. Infelizmente, esse está longe de ser caso isolado. Comportamentos assim se multiplicam, e não apenas nas redes sociais.

Até a última quinta-feira, o Ministério Público do Trabalho (MPT) havia recebido 3.754 denúncias de assédio eleitoral, superando os registros de 2022 (3.373). Tem surpreendido o ritmo intenso de queixas mesmo depois do encerramento do pleito. “Demitir trabalhadores por sua convicção política é ilegal e será alvo de ação do MPT perante a Justiça do Trabalho”, diz Gláucio Araújo de Oliveira, procurador-geral do Trabalho. O artigo 301 do Código Eleitoral estabelece pena de reclusão de até quatro anos e pagamento de cinco a 15 dias-multa para quem “usar de violência ou grave ameaça para coagir alguém a votar, ou não votar, em determinado candidato ou partido, ainda que os fins visados não sejam conseguidos”.

Não se pode dizer que não haja campanhas de conscientização nem canais de denúncias, mesmo assim os episódios têm explodido nos últimos dias. São necessárias campanhas mais eficazes sobre o caráter criminoso dessas condutas. Ao mesmo tempo, os acusados precisam ser investigados e, comprovado o crime, condenados e punidos de acordo com a legislação. O governo federal anunciou a criação de uma força-tarefa para notificar plataformas digitais e pedir a retirada de conteúdos que promovam discriminação ou perseguição de trabalhadores por motivação política. Espera-se que não resvale para a censura.

Uma campanha turbulenta como a deste ano sempre deixa cicatrizes, ainda mais quando o país sai cindido das urnas. Mas a eleição acabou na noite de domingo, com a proclamação do resultado pelo Tribunal Superior Eleitoral e a certificação de que o pleito ocorreu dentro da normalidade. Ressentimentos devem ser deixados para trás. Cabe à Justiça punir os abusos. E, ao presidente reeleito, pacificar o Brasil, até para poder governar em paz.

Além da Fazenda, BC de Lula 4 também gera incerteza

Por Folha de S. Paulo

Com duas vagas abertas no comando da autoridade monetária, petistas aventam nomes heterodoxos

Para evitar a volta do pesadelo da inflação, o BC manteve juros de dois dígitos nos últimos cinco anos, em benefício, inclusive, do governo

Há uma certeza e muitos rumores a respeito do futuro da política econômica do quarto governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O presidente reeleito reitera que nada ou quase nada precisa ser corrigido nas contas públicas. Sinaliza, ainda, ampliação e renovação de programas sociais, mesmo que não tenham deixado marca maior neste seu terceiro mandato que se encerra.

A certeza é a notória resistência de Lula à reforma fiscal.

No campo especulativo, o governismo lançou o nome de um candidato a ministro da Fazenda: Rafael Fonteles (PT), governador reeleito do Piauí. Enquanto se fazem apostas sobre essa possível indicação, não se discute o mandato que terá qualquer um que venha a assumir a pasta.

Por melhores que sejam suas qualificações, o próximo ministro estará manietado se não houver firme decisão presidencial de mudar a política econômica.

Como se a oposição de Lula à reforma fiscal já não fosse grave o bastante, os temores vão além da Fazenda. A cúpula do PT, o governismo e economistas associados afirmam em público que o nível de juros estratosférico é de responsabilidade do Banco Central e influenciado por meta de inflação excessivamente baixa.

Desses setores vazam ideias para preencher a diretoria do BC com economistas que se opõem à política monetária convencional e às diretrizes da atual equipe.

Dos nove postos de direção do BC, dois estão desocupados há quase um ano, pois Lula não indicou postulantes para a aprovação do Senado. Outras duas vagas se abrirão a partir de março de 2027; ao final de 2028, mais duas.

Teme-se que Lula procure assumir o controle da política monetária com uma enxurrada de nomeações que acabe por desafiar o atual presidente do BC, Gabriel Galípolo —indicado pelo próprio presidente da República, mas criticado por não se sujeitar às preferências do governo.

Uma ofensiva contra o BC pode ter vida curta, assim como a tentativa de mudar a meta de inflação de modo oportunista, já que a mera intenção de propor nomes que menosprezem o controle da inflação provocaria, de imediato, desvalorização do real e alta da taxa de juros.

Mas seria otimismo imaginar que o governo se dê conta até desse risco, dada a política fiscal irresponsável que implementou.

A falta de perspectiva de contenção do crescimento das despesas já pressiona juros e câmbio, e houve aperto ainda mais severo das condições financeiras desde a reeleição de Lula. Caso tal situação persista, a desaceleração já visível da economia será mais rápida, o que dificultará ainda mais o conserto fiscal.

Para evitar a volta do pesadelo da inflação, o BC manteve juros de dois dígitos nos últimos cinco anos, em benefício, inclusive, do governo Lula 3. Caso o presidente derrube essa última barreira em busca de mais um estímulo de curto prazo, a economia ficará à deriva, à beira do colapso.

María Corina abala estratégia dos EUA para a Venezuela

Por Folha de S. Paulo

Retorno da líder mais popular da oposição à ditadura de Maduro fortalece demanda por eleições em 2027

Em entrevista, a ex-deputada e Nobel da Paz de 2025 criticou termos do acordo petroleiro acatado pelo governo de transição subserviente a Trump

O regresso à Venezuela de María Corina Machado —líder da oposição à ditadura de Nicolás Maduro e exilada desde o fim de 2025, ano em que recebeu o Nobel da Paz— abala a estratégia de Donald Trump para a democratização do país.

Se eleições não tinham data prevista no plano de Washington, agora há indicações de que elas ocorram em meados de 2027.

Sob a tutela americana desde janeiro, o governo interino de Delcy Rodríguez vê-se pressionado por protestos a favor dos pleitos, como o capitaneado na quinta (22) pelo Vente Venezuela, partido fundado e liderado por María Corina. Mas, segundo a visão inicial dos Estados Unidos, as votações deveriam se dar após a estabilização econômica.

O regresso da ex-deputada três dias após a manifestação não só intensifica essa reivindicação como coloca María Corina na disputa pela pré-candidatura da oposição. Ademais, forçaria o ingresso do Vente Venezuela nas negociações, apoiadas por Washington, entre o Palácio Miraflores e as legendas oposicionistas sobre as regras das instituições eleitorais.

Se María Corina foi exitosa nesta oitava tentativa de retorno ao país, isso se deve à participação da Casa Branca. Diante da Justiça bolivariana, ela continua sujeita às acusações de traição à pátria, formuladas depois das eleições fraudadas por Maduro, em 2024, que a levaram à clandestinidade.

Embora Trump elogie o desempenho de Rodríguez, uma bolivariana histórica, e até sugira a incorporação da Venezuela como 51º Estado americano, sua diplomacia compreende ser impossível esboçar a transição sem a presença de María Corina. Até agora, porém, a decisão de mantê-la longe de Caracas mostrou-se eficaz aos interesses americanos.

Rodríguez e seus aliados, mantidos no poder em vez de condenados por atuação no regime, submeteram-se aos ditames de Trump. Em especial, concordaram com o acesso dos EUA a 21,4% das reservas estimadas de petróleo da Venezuela.

Por mais que tenha se mostrado alinhada aos EUA na última década, María Corina não garante passividade à Casa Branca. Em entrevista ao The New York Times, criticou os termos do acordo petroleiro e indicou que, se eleita, só os contratos alinhados à legislação serão respeitados.

María Corina é a voz mais popular da oposição. Não é, contudo, a única nem a mais resistente a Trump. Espera-se de seu retorno uma contribuição efetiva para a realização de eleições justas, mas também para a restauração da soberania da Venezuela e o fim de sua vassalagem aos EUA.

‘Pizza’ no STF seria um acinte

Por O Estado de S. Paulo

Vários ministros já não reúnem condições éticas de seguir na Corte, mas podem ser salvos caso Alcolumbre seja reeleito à chefia do Senado. Apoio de Lula e do Centrão ele já tem

Um dia após ser reeleito, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu, no Palácio da Alvorada, os presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Na ocasião, Lula lhes prometeu os votos do PT para que sejam reconduzidos aos cargos, em fevereiro de 2027. Ato contínuo, a federação União-PP anunciou o mesmo apoio a Alcolumbre.

Até aí, é jogo jogado. O problema é que Alcolumbre provavelmente não ganhou esses apoios por ser bonito, e sim porque, entre outras razões, já deu provas mais que suficientes de sua disposição de impedir que prosperem pedidos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Ademais, enquanto não soubermos exatamente o que Alcolumbre, Lula e Alexandre de Moraes discutiram em jantar fora da agenda, na casa do enrolado ministro do STF, em agosto passado, somos autorizados a tirar as piores conclusões.

Se Alcolumbre for reconduzido com a missão de salvar ministros do STF, e temos poucas razões para não acreditar nisso, será um escândalo: vários desses ministros, a começar pelo anfitrião do tal jantar com Lula e Alcolumbre, deveriam pelo menos ser investigados porque figuram como envolvidos no escândalo do Banco Master, e no entanto foram blindados por um STF incapaz de cortar na própria carne para estancar a crise de credibilidade e legitimidade em que se enfiou.

É exatamente para casos como esses que o impeachment existe. E inúmeros senadores eleitos neste ano ganharam muitos votos porque prometeram a seus eleitores que vão se empenhar para afastar os ministros encalacrados. Ou seja, o impedimento de integrantes do STF tornou-se bandeira eleitoral, e por culpa exclusivamente da forte sensação de impunidade que emana daquela Corte.

Ora, a Constituição e a Lei 1.079/1950 confiaram ao Senado o julgamento de ministros do STF por crimes de responsabilidade, mas não confiaram a seu presidente o poder de decidir, sozinho, que tais crimes jamais serão processados sob seu comando. O juízo de admissibilidade existe para barrar pedidos de impeachment sem fundamento, não para transformar a toga em salvo-conduto. Tão ou mais grave do que isso é submeter esse juízo aos interesses particulares do ocupante de ocasião da cadeira.

Convém lembrar que os ministros do STF não se submetem a voto popular, permanecem no cargo até os 75 anos e são julgados, em caso de prática de crimes comuns, pelos próprios pares. O impeachment é o único freio externo que a Constituição prevê para retirar da Corte aqueles que já não reúnem as condições éticas para exercer a magistratura. São os casos de Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Nunes Marques, sobre os quais pairam suspeitas graves de associação com Vorcaro. A ação do Senado para resguardar o melhor interesse do País ganha ainda mais força à luz do espírito de corpo que impera na Corte, como se depreende daquela ignominiosa sessão do tribunal em 15 de setembro, que travou o pedido de investigação de Alexandre de Moraes, suspeito de atuar como consultor do banqueiro por meio de um contrato milionário firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua mulher.

Alcolumbre, ademais, não parece ser um árbitro neutro no exercício do juízo de admissibilidade. Recorde-se que ele mesmo figura indiretamente no escândalo do Master, porque uma vultosa soma de recursos da Amapá Previdência, dirigida por aliado do presidente do Senado, foi aplicada temerariamente nos papéis podres do banco de Daniel Vorcaro. Logo, proteger Moraes e outros ministros do STF significa manter fechadas algumas portas investigativas que, em tese, poderiam levar até ele.

Que fique claro: não se trata aqui de entregar o STF à sanha dos bolsonaristas que enxergam o impeachment como instrumento de vingança. Trata-se de exigir que o Senado, como manda a Constituição, examine cada pedido à luz das leis e dos graves indícios que pesam contra determinados ministros.

É inaceitável que a mera hipótese de abertura de um processo de impeachment seja rejeitada peremptoriamente por um presidente do Senado que parece interessado no festim da impunidade. E, se o preço da governabilidade for a imunidade de ministros do STF sob suspeita, Lula será o avalista dessa pizza indecente.

Voto é mobilização, não obrigação

Por O Estado de S. Paulo

Queda da abstenção durante o segundo turno da eleição presidencial mostra que participação popular nas decisões do País se faz por meio de debate e não por decreto

A maior queda de abstenção entre os dois turnos desde a redemocratização deixou patente que a participação política depende de algo muito mais poderoso do que uma imposição legal. A forte mobilização que tomou as ruas fez com que quase 3 milhões de brasileiros que não haviam votado em 4 de outubro fossem às urnas no dia 25. E, muito provavelmente, foram por vontade própria, uma vez que a lei e as sanções para quem deixa de votar seguiram sendo as mesmas.

A abstenção recuou de 21,08% para 19,22%, o menor índice registrado em um segundo turno presidencial desde 2006. Mais de 128 milhões de brasileiros participaram da escolha do presidente da República, o maior comparecimento absoluto da história das eleições. A proporção de votos brancos e nulos também diminuiu, de 4,77% para 3,24%, o menor patamar em segundos turnos presidenciais desde a redemocratização. Em 2022, a abstenção havia recuado apenas 0,36 ponto porcentual entre os turnos. Desta vez, a queda foi de 1,86 ponto, mais de cinco vezes maior.

A obrigação de votar, assim como a irrisória multa de R$ 3,51 aplicada a quem não comparece nem justifica a ausência, permaneceu rigorosamente igual. O que mudou foi a temperatura da disputa política. O debate se acirrou, as manifestações ganharam as ruas e as conversas sobre os rumos da Nação chegaram aos pontos de ônibus.

O voto ganhou importância concreta na vida dessas pessoas. Militantes de ambos os lados da disputa se viram impelidos a “virar voto” e conquistar indecisos.

O resultado reforça uma convicção que este jornal sustenta há muito tempo: votar deve ser um direito, jamais uma obrigação. A democracia será tanto mais forte quanto mais a participação popular resultar da consciência cívica e do interesse pelos destinos do País, sejam quais forem suas convicções. Virtudes que nenhum decreto produz.

Entre as imagens mais marcantes destas eleições estão as de idosos que fizeram questão de comparecer às urnas. Mais uma prova de que o cabresto não sustenta a democracia. No Brasil, quem tem mais de 70 anos não está mais obrigado a votar. Mesmo assim, diante do acirramento e do debate, muitos fizeram questão de exercer sua escolha como um direito. Esse é o voto mais democrático de todos. Idosos estavam ali por querer, não por receio de uma multa ou de qualquer sanção da Justiça Eleitoral. Foram porque entenderam que tinham algo a dizer sobre os destinos do País.

Ainda não há dados consolidados sobre a participação desse eleitorado com mais de 70 anos no segundo turno, mas os registros oferecem um testemunho eloquente do valor do sufrágio. Muitos desses brasileiros viveram sob a ditadura militar, quando escolher livremente o presidente da República não era sequer uma possibilidade. Conhecem, portanto, o valor de um direito que as gerações mais jovens receberam como herança democrática.

Os defensores do voto obrigatório argumentam que a exigência assegura maior participação popular e impede que as eleições sejam decididas apenas pelos segmentos mais mobilizados da sociedade. Mas a obrigação não elimina as desigualdades de participação, tampouco consegue impor ao eleitor, goela abaixo, o interesse pela política.

A queda da abstenção neste segundo turno foi reveladora. A participação cresce quando o cidadão percebe que seu voto pode fazer diferença. Cabe aos partidos, aos candidatos e às instituições democráticas cultivar esse interesse permanentemente, aproximando o debate político dos problemas concretos da população. As siglas, inclusive, recebem dinheiro público para fazer isso por meio de suas instituições destinadas à formação política. Deveriam fazer uso melhor dessa verba.

A obrigatoriedade do voto é um anacronismo que sobrevive na legislação brasileira. O Estado deve garantir ao cidadão o direito de participar da vida política, mas a decisão de votar, assim como a de não votar, deve pertencer exclusivamente ao eleitor.

O crime pluripartidário

Por O Estado de S. Paulo

O PCC não tem ideologia: o vereador cooptado pode ser do PT ou do União Brasil, desde que trabalhe bem

O vereador Senival Moura, do PT, foi preso pela segunda vez neste ano. O petista é suspeito de fazer a “gestão financeira” de uma empresa de ônibus da capital paulista, a Transunião, que é investigada por supostamente integrar um esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC).

O sr. Senival não é o único político da capital paulista preso em razão de suspeita de manter elo com a maior facção criminosa do País. Milton Leite, do União Brasil, continua na cadeia por práticas semelhantes, mas, no caso dele, envolvendo a empresa Transwolff. Percebe-se que o PCC não tem ideologia: basta que os vereadores cooptados, sejam de que partido forem, trabalhem bem para a organização criminosa.

E, sem preferência por agremiação, o PCC vai se infiltrando nas estruturas do poder. Desde os anos 1990, sabe-se que o setor do transporte público, um serviço público essencial, está na mira da bandidagem. Mas agora o avanço das investigações do Ministério Público de São Paulo (MPSP) e da Polícia Civil reforça as suspeitas de que a parceria entre vereadores e o PCC seja de longa data. Não parece coincidência que os políticos mais experientes da capital paulista estejam sob suspeita: Senival já foi líder do PT na Câmara Municipal, Leite comandou a Casa por seis vezes, e ambos têm décadas de vida pública. Se estiverem mesmo aliados ao PCC, carregam uma ficha corrida e tanto.

Tudo isso indica que o MPSP e a Polícia Civil precisam ir a fundo para desbaratar esse suposto esquema em que integrantes do PCC e líderes políticos da capital paulista parecem sócios. O que os investigadores apontam é que a organização criminosa criou empresas laranja no setor de transporte, fechou contrato com a administração municipal e cooptou integrantes do Poder Legislativo local, transformando contratos públicos numa máquina de lavar dinheiro sujo oriundo do crime. E são muitos os crimes em que o PCC atua hoje, como o tráfico nacional e internacional de drogas, o tráfico de armas, o garimpo ilegal, as fraudes e os crimes virtuais – sem contar a contaminação de setores formais e legais da economia, como o mercado de fintechs.

A Prefeitura e a Câmara Municipal de São Paulo precisam limpar suas estruturas e expurgar de vez o crime organizado da máquina pública local. A Transunião está sob intervenção e a Transwolff já teve o contrato rompido, a fim de que o crime seja cessado e o serviço público seja assegurado à população paulistana. Mas isso não basta: é urgente que o poder público local faça nova licitação, o que já devia ter feito há bastante tempo, das concessões das linhas de ônibus da capital paulista, de modo a barrar já no edital empresas com CNPJs controversos ou cujos sócios tenham CPFs suspeitos. São necessários instrumentos legais e contratuais que possam conter o avanço do PCC no setor público. Do contrário, não é a prestação de um serviço público que estará em risco, o que já não é pouca coisa, mas sim a estabilidade do Estado e da democracia.

Pragmatismo acima das conjunturas

Por Correio Braziliense

Normalizar as relações com Trump é uma necessidade, demandará tempo, discrição e persistência. As conjunturas passam; os interesses nacionais permanecem

A relação entre Brasil e Estados Unidos é maior do que as afinidades ou divergências entre seus presidentes. Comércio, investimentos, energia, tecnologia e segurança compõem uma agenda de interesses nacionais que atravessa governos. Isso não elimina conflitos: exige capacidade de administrá-los. A diplomacia existe precisamente para construir convergências onde há diferenças e impedir que disputas políticas comprometam vínculos necessários aos dois países.

É fato que a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva contrariou as expectativas de Donald Trump, que apostara na eleição de Flávio Bolsonaro. Pelo envolvimento da Casa Branca na disputa brasileira e pela identificação entre os dois movimentos políticos, o resultado adquiriu dimensão internacional. Foi interpretado, em numerosas capitais e por parte expressiva da opinião pública mundial, como uma derrota do presidente norte-americano. O revés ocorre às vésperas das eleições legislativas dos Estados Unidos, nas quais seu partido enfrenta perspectivas adversas.

Seria um erro, entretanto, converter esse contexto específico numa orientação para o relacionamento bilateral. Lula venceu uma eleição brasileira. Não recebeu das urnas a missão de derrotar Trump no cenário internacional, mas a responsabilidade de governar o Brasil. Preservar mercados, atrair investimentos, defender a soberania e ampliar a capacidade de negociação do país são mais importantes do que o constrangimento de um governante estrangeiro.

A cautela do Planalto diante do acolhimento de Flávio nos Estados Unidos segue essa lógica. O episódio acrescenta tensão a uma relação já desgastada e merece acompanhamento atento. Mas transformar cada provocação do senador numa controvérsia entre os dois governos seria entregar ao candidato derrotado uma influência que seu isolamento político no Brasil não sustenta. Pendências judiciais têm canais competentes e independem da agenda diplomática.

Isso tampouco significa aceitar acusações de fraude sem evidências. O resultado das urnas não depende da preferência da Casa Branca. Segundo o material divulgado sobre a avaliação da própria embaixada norte-americana, a vitória de Lula foi considerada definitiva, e os observadores internacionais não questionaram o resultado. Há, portanto, espaço para que a realidade institucional se imponha às conveniências ideológicas, desde que os canais de interlocução permaneçam abertos.

As declarações ambivalentes de Trump aconselham perseverança. Ao mesmo tempo que lança suspeitas sobre a eleição, evita assumir integralmente as pretensões de Flávio e mantém aberta a possibilidade de conversar com Lula. Cabe ao Itamaraty trabalhar nessa abertura, sem confundir disposição para o diálogo com garantia de entendimento.

As eleições de meio de mandato são outra variável. Uma vitória democrata poderá ampliar a fiscalização do Executivo e impor obstáculos à política externa de Trump. Entretanto, enquanto as urnas não falarem, trata-se de uma possibilidade. Mesmo uma derrota republicana não encerraria o mandato presidencial nem eliminaria os instrumentos de pressão da Casa Branca. Brasília precisa negociar com o governo que existe, levando em conta seus limites e contradições.

Pragmatismo exige cálculo e firmeza . O Brasil deve defender sua democracia, contestar medidas que prejudiquem sua economia e buscar acordos onde houver benefício recíproco. Normalizar as relações com Washington é uma necessidade, que demandará tempo, discrição e persistência. As conjunturas passam; os interesses nacionais permanecem. É por eles que Lula deve orientar sua relação com Trump. 

Violência política aumenta nas eleições

Por O Povo (CE)

Iniciativas desse tipo têm de ser combatidas no nascedouro. Era uma prática utilizada pelos nazistas, que pintavam a Estrela de Davi na fachada de estabelecimentos de propriedade de judeus para identificá-los e impedir o consumo nesses locais

Desde a disputa presidencial de 2018, a violência política durante as campanhas eleitorais e no pós eleição vêm aumentando no Brasil. Essa realidade é percebida empiricamente e comprovada por pesquisas.

Não se pode cravar que o resultado deriva de um único fator, como a ascensão política do ex-presidente Jair Bolsonaro, pois a "polarização" da sociedade brasileira tem características multifatoriais. Porém, é inegável a correlação, ao se observar o crescimento da violência política no período analisado.

Mas pode-se também perguntar se é a tensão radical entre setores sociais que leva ao surgimento de personagens como Bolsonaro, ou é a ascensão de populistas que leva ao antagonismo extremo? Sendo uma coisa ou outra, a intolerância que transforma a política em violência é inaceitável, e aqueles que a provocam têm de ser punidos com rigor, nos termos da lei.

Este ano, a moda bárbara — além de emissões e assédio no trabalho — é fazer listas de estabelecimentos, suspeitas de pertencerem a "esquerdistas", incentivando o boicote a esses comerciantes.

Em Teresópolis (RJ), um advogado divulgou um vídeo incentivando a grafitagem de uma estrela vermelha em lojas pertencentes a simpatizantes do Partido dos Trabalhadores para que sofressem boicote.

Pode parecer comparação descabida — mas iniciativas desse tipo têm de ser combatidas no nascedouro — essa prática era utilizada pelos nazistas, que pintavam a Estrela de Davi na fachada de estabelecimentos de propriedade de judeus para identificá-los e impedir o consumo nesses locais.

Todos os casos são revoltantes, mas alguns são por demais cruéis, mostrando até que ponto a desumanidade pode levar alguém movido pela vingança política. Segundo reportagem do G1, empresas e organizações de várias regiões do país anunciaram o fim de doações e de ações sociais.

O motivo foi o resultado do segundo turno das eleições presidenciais, do qual saiu derrotado o candidato preferido de um segmento da elite, ignorante e truculenta. De acordo com informações das próprias empresas, foram suspensas a distribuição de cestas básicas, brinquedos, roupas e até de medicamentos. Dessa maneira, pode-se inferir que as doações não eram um ato de benemerência, pois os supostos benfeitores esperavam algo em troca. Portanto, isso tem o nome de comércio e não de fé.

"Estamos cansados de ajudar quem não quer ser ajudado e preferem viver dos auxílios do governo" diz um dos comunicados empresariais, manifestando o velho preconceito de que os pobres não gostam de trabalhar.

E quem é nordestino conhece muito bem esse tipo de preconceito, que também se manifesta abertamente nas redes sociais, por meio de ataques grosseiros, depreciação e xingamentos. A situação piora nos períodos eleitorais, quando o nordestino vai às urnas para dar uma lição de altivez inquebrantável para o Brasil.

Nenhum comentário: