sábado, 31 de outubro de 2026

O dilema de Lula, por Sérgio C. Buarque*

Revista Será?

O presidente Lula da Silva obteve uma vitória eleitoral consagradora, com grandes manifestações populares que se traduziram em 64,2 milhões de votos, superando o adversário em mais de quatro milhões de votos. Lula passa à história brasileira com quatro mandatos presidenciais e quase 20 anos de participação direta ou indireta nas decisões políticas do Brasil. Passadas as eleições e as comemorações da vitória, Lula terá que governar o Brasil em condições políticas adversas, a força futura da oposição no Congresso, e tendo que lidar com graves restrições fiscais para realizar as promessas e atender às enormes expectativas da sociedade.

Embora Flávio Bolsonaro esteja desmoralizado depois da fuga e das declarações vergonhosas e infundadas, tendo perdido o apoio interno nas suas bases eleitorais, não se pode esquecer que parte considerável dos seus 59 milhões de votos representava rejeição a Lula. Da mesma forma que uma parcela dos eleitores do presidente vão, provavelmente, passar para a oposição no novo governo, na medida em que votaram em Lula apenas para impedir a volta da família Bolsonaro ao poder.

No seu próximo governo (2027/2030), Lula vai ter que lidar com uma herança maldita que ele mesmo gerou ao longo do seu terceiro mandato, reforçada pelas medidas populistas encaminhadas na campanha eleitoral. A inflação controlada e o baixo desemprego escondem uma situação fiscal preocupante. No seu atual governo, a dívida pública saltou de R$ 7,259 trilhões para R$ 10,946 trilhões (crescimento de 50,8%) com aumento em mais de 10 pontos percentuais da relação Dívida/PIB). O quadro se agrava porque 48,9% desta dívida vencem nos três primeiros anos do governo, sendo quase 17% em 2027. Diante disso, o governo tem que gerar superávit primário ou continuar rolando os títulos vincendos que tendem a ser explosivos se a taxa de juros continuar em patamares tão elevados. De acordo com projeções do IFI-Instituição Fiscal Independente, este ano o Brasil terá um resultado primário negativo em 0,5% do PIB, e déficit de 1% do PIB em 2027 se não forem tomadas medidas de recomposição das despesas.

No seu quarto mandato, o presidente Lula estará diante de uma delicada encruzilhada: realizar um ajuste fiscal para recuperar as finanças públicas, deter o aumento da dívida e liberar recursos para aumentar os investimentos; ou continuar com a política de ampliação dos gastos correntes que asseguram os benefícios sociais e cumprem os compromissos de campanha. De acordo com o último relatório do IFI, só com o reajuste do Bolsa Família, a perda da arrecadação das BETs e o pacote dos MEIs o governo provocará um desequilíbrio adicional de R$ 40 bilhões. As dificuldades fiscais se agravam com a rigidez do orçamento da União que compromete 91% com as despesas obrigatórias, sendo que 53,3% correspondem apenas a Previdência social e Pessoal e encargos, sobrando apenas 9% para alocação discricionária do governo.

Na primeira opção, com a realização de um ajuste fiscal robusto, promovendo cortes e reestruturação nas despesas, Lula conseguiria equilibrar as finanças e recuperar a capacidade de investimento, com impacto positivo na economia. Mas, com isso, ele provocaria uma grande frustração nos seus eleitores. No seu primeiro governo, em 2003, Lula promoveu um forte ajuste fiscal que gerou superávit primário de 4,32% do PIB, abrindo caminho para o crescimento econômico nos anos seguintes, favorecido pela expansão da China e toda a economia global. O governo pode tentar aumentar a receita com uma revisão dos incentivos fiscais, que representam uma renúncia fiscal de, aproximadamente, 600 bilhões de reais, mas enfrentará muitas resistências políticas, não poderá suspender boa parte delas, como o Simples Nacional, que representa 21,7% do total da renúncia fiscal.

Se, o que parece provável, o presidente Lula não fizer um ajuste fiscal, mantendo a mesmice do atual mandato, ele corre o sério risco de reacender a inflação, obrigar o Banco Central a elevar a taxa de juros, o que levaria à explosão da dívida pública e poderia travar a economia com impactos negativos no emprego. Na verdade, em algum momento do seu governo ele vai desagradar parcela grande da sociedade: se fizer ajuste no primeiro ano, terá desgaste imediato, mas colherá frutos nos anos finais do governo; se, ao contrário, preferir empurrar a crise fiscal para debaixo do tapete, convivendo com o desequilíbrio das finanças públicas, será aplaudido no início do governo, mas terá de suportar um grande desgaste na sociedade com a volta da inflação e baixo crescimento econômico. Essa é uma escolha de Sofia do presidente Lula.

*Economista com mestrado em sociologia, foi jornalista da Deutsche Welle (de 1975/1979) e correspondente da IstoÉ na Alemanha (1977) e professor titular da FCAP/UPE (de 1982/2014)

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