Valor Econômico
Nos bastidores, há também uma cobrança para que Lula prestigie novas lideranças locais
Concluída a eleição, esquerda e direita devem passar por processos de reorganização de suas forças políticas. À esquerda, o que se espera é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidere pessoalmente o processo e não repita o “erro” dos últimos quatro anos de não aproveitar o comando do governo central para fortalecer novas lideranças e partidos aliados - não apenas o PT. A avaliação é que, em caso de derrota no domingo (25), a esquerda só voltaria ao poder em um horizonte de longo prazo, o que não ocorreu por muito pouco. Em relação à direita, o desafio é distinto: aproveitar a fuga de Flávio para os Estados Unidos e abrir caminho a uma liderança que não tenha o sobrenome nem dependa do crivo do ex-presidente Jair Bolsonaro.
No PT, o revés do primeiro turno gerou
cobranças para que o partido inicie uma fase de autorreflexão, inclusive
realizando uma reforma interna. Alguns dirigentes querem um reforço das
estruturas municipais da legenda em todo o país, por exemplo, mas há um debate
mais profundo que precisará ser enfrentado. O partido foi criado em 1980,
conectado ao sindicalismo e a setores da Igreja Católica, como as Comunidades
Eclesiais de Base, a Teologia da Libertação e pastorais sociais. Igreja e
classe trabalhadora são estruturas sociais “parrudas”, nas palavras de um
aliado de Lula, mas que enfrentam intensas mudanças desde então.
O eleitorado religioso mudou. Houve um
fortalecimento das lideranças evangélicas, que têm demonstrado capacidade de
mobilização para reduzir a abstenção desse segmento da população e direcionar
votos majoritariamente para a direita. PT e Lula pensaram para as eleições
deste ano uma nova estratégia para se aproximar dos evangélicos, mas no fim das
contas aproveitaram uma polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida para atacar
a candidatura adversária.
Outra aposta de Lula foi a aprovação da
emenda constitucional que acaba com a escala 6x1. Apesar dos alertas feitos por
especialistas para o impacto da PEC na produtividade e na inflação, a proposta
avançou e ajudou Lula a dar uma arrancada final no segundo turno. Mas o PT, que
surgiu junto com o avanço do novo sindicalismo e as discussões para a fundação
da Central Única dos Trabalhadores (CUT), permanece tendo dificuldades para criar
pontes com os trabalhadores por aplicativo, autônomos e microempreendedores
individuais.
Trata-se de uma nova classe de trabalhadores.
Há tempos pesquisas de opinião que circulam no governo e na iniciativa privada
mostram uma maior identificação dos trabalhadores por aplicativo com a
oposição: em 2022, a regulamentação da atividade chegou a ser um tema da
campanha e o governo Lula até tentou avançar com a discussão no Congresso mais
recentemente, porém o projeto empacou.
Em outra frente, contudo, o Ministério do
Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte anunciou
durante a campanha um conjunto de medidas que pode alcançar cerca de 17,6
milhões de microempreendedores individuais em todo o país. O pacote prevê o
perdão de dívidas, a ampliação do limite de faturamento para se enquadrar no
regime tributário especial, a permissão de contratação de mais funcionários e a
concessão de até R$ 5 mil para investimentos.
Minoritária no Congresso e com menos
governadores eleitos, a esquerda precisará rever a estratégia para as próximas
eleições parlamentares. Muitos deputados federais do PT que se reelegeram
perderam votos, em relação à disputa de 2022. Além disso, PDT, Psol e Rede não
passaram a cláusula de barreira. Sem acesso ao fundo partidário e a tempo de
televisão, terão dificuldades para funcionar. A criação de uma grande federação
pode ser uma saída.
Nos bastidores, há também uma cobrança para
que Lula prestigie novas lideranças locais - e não apenas as que podem
sucedê-lo como candidato a presidente da República, em 2030. O Distrito Federal
é citado como exemplo: o candidato do PT ao governo, Leandro Grass, foi nomeado
para a presidência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(Iphan) e passou o terceiro mandato com poucas ferramentas para se projetar.
Perdeu para Celina Leão (PP) por 57,18% a 42,82%.
A direita perdeu a Presidência, mas encerra
2026 com capital eleitoral robusto. O senador Flávio Bolsonaro (PL) obteve
59.826.041 votos no segundo turno - um número que demonstra a disposição de uma
parcela relevante do eleitorado em apoiar qualquer um que esteja no campo
oposto ao PT.
A direita também elegeu bancadas fortes no
Senado e na Câmara dos Deputados, além de diversos governadores. Possui um
número considerável de prefeitos, vereadores e deputados estaduais, e isso sem
falar no fato de contar com os políticos mais populares em Estados
estratégicos: o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), em São Paulo, e
o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), por exemplo.
O PL elegeu, proporcionalmente, os deputados
federais mais bem votados em Minas Gerais, Espírito Santo, Rondônia, Santa
Catarina, São Paulo e Ceará. Republicanos, PL e PP governarão, juntos, Estados
que somam 64,4% do eleitorado brasileiro.
Flávio pode até dizer que saiu do país por
supostamente ser um perseguido político e, agora, irá guiar a oposição do
“exílio”. No entanto, sua fuga representa uma oportunidade única para que
lideranças e eleitores de direita construam um caminho próprio, independente do
clã Bolsonaro.

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