Lula não tem mais como adiar plano de ajuste fiscal
Por O Globo
Mais importante que especular sobre nomes
para Fazenda é uma proposta confiável para conter a dívida pública
Como era esperado, o mercado ficou estressado com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Bolsa caiu, juro futuro subiu, dólar disparou — e o Tesouro teve de intervir. A tensão diminuiu ontem, mas a incerteza persiste. O motivo é, na imagem feliz do colunista do GLOBO Carlos Alberto Sardenberg, a “herança maldita” de Lula para si mesmo. No atual governo, ele tratou com desdém a explosão da dívida pública, passou a campanha empilhando promessa sobre promessa sem nem querer ouvir falar em custo ou ajuste. Quem sabe fazer a conta constatou: ela não fecha. Sem ajuste, o país quebra.
Não dá mais para adiar questão tão crucial. A
campanha acabou, e Lula tem o dever de dizer aos brasileiros o que fará para
equilibrar as contas
públicas, condição para que ele próprio possa governar e cumprir a
miríade de promessas que fez. Nos últimos dias, vários nomes têm sido cogitados
para ocupar o Ministério da Fazenda. Mais que especular sobre eles, porém, o
fundamental é apresentar um plano exequível de ajuste para estabilizar a
trajetória explosiva do endividamento.
Não é segredo que as finanças estão em
situação dramática, em grande parte devido ao descontrole fiscal dos últimos
quatro anos. Em agosto, a dívida bruta alcançou 82,9% do PIB, ou R$ 12,6
trilhões, maior patamar desde a pandemia. Somente na gestão Lula, ela cresceu
11,2 pontos percentuais. A situação se agravará ainda mais. Na tentativa de se
reeleger, Lula criou uma profusão de programas e medidas eleitoreiras que
aumentaram a conta. Entre estímulos de crédito, despesas primárias e renúncias
fiscais, o impacto chega a quase R$ 300 bilhões, segundo a Instituição Fiscal
Independente, do Senado. E a fábrica de bondades não cessa. Ontem o Ministério
do Planejamento anunciou a prorrogação da subvenção ao diesel por mais 30 dias
para conter o preço do combustível. Estima-se que todas as generosidades
demandarão, já no Orçamento de 2027, R$ 53,7 bilhões em novos recursos.
Infelizmente, Lula não parece disposto a
mexer nas causas da crise fiscal crônica. Na campanha, deixou claro que o
salário mínimo continuará a ser reajustado acima da inflação e que benefícios e
aposentadorias permanecerão atrelados a ele. Como cerca de 70% dos
beneficiários recebem o mínimo, essa política amplia o rombo colossal na
Previdência. Não há motivo para essa vinculação, uma vez que na ativa o cidadão
tem despesas diferentes do inativo. Basta reajustar benefícios pela inflação
para manter o poder de compra.
Sem ajuste, o crescimento vegetativo de
gastos com a Previdência e com os pisos constitucionais de saúde e educação se
encarregará de consumir todo o espaço livre para despesas da União até 2028.
Apesar de negar durante a campanha, portanto, algum ajuste Lula terá de fazer
no início do mandato. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse ontem que o
governo perseguirá o centro da meta fiscal — e não o piso, como tem feito. Mas
isso é o mínimo. Medidas graduais serão insuficientes diante dos desafios. É preciso
compromisso com um freio eficaz no gasto.
O foco dos programas sociais precisa ser
calibrado, para mirar quem realmente precisa e liberar recursos. Buscar o
centro da meta ajuda, claro. Mas apenas um ajuste capaz de desarmar a bomba
fiscal que Lula criou para si mesmo permitiria estabilizar a dívida, derrubar
os juros e fazer o país crescer de forma sustentada.
Maior comparecimento às urnas revela
vitalidade da democracia no mundo
Por O Globo
Participação cresceu em países tão díspares
como Brasil, Hungria, Colômbia, Portugal, Sérvia ou Israel
A eleição de domingo no Brasil confirmou uma
tendência verificada ao longo deste ano no mundo todo: a polarização política
tem feito crescer o engajamento e aumentado o comparecimento às urnas. Não é um
comportamento uniforme, nem associado a algum campo ideológico. De modo geral,
a participação eleitoral tem crescido toda vez que o eleitor percebe haver algo
de valioso em jogo. Em 2026, a fração de eleitores que foram votar cresceu em
países tão díspares como Hungria, Colômbia, Portugal, Brasil, Sérvia ou ontem
em Israel.
Na primeira eleição depois dos ataques
terroristas de 7 de outubro de 2023 e da guerra em Gaza, 78% do eleitorado
israelense foi às urnas, patamar mais alto registrado neste século. Estão em
jogo o futuro do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e questões críticas para
a população, como o serviço militar dos ultraortodoxos, a reforma do Judiciário
que ameaça o equilíbrio institucional, a situação econômica e, naturalmente, o
conflito nos territórios palestinos e no Oriente Médio. É improvável que o
desfecho seja conhecido tão cedo, pois as negociações para um novo governo
costumam demorar, mas é inegável que o comparecimento recorde lhe trará mais
legitimidade.
Na Sérvia, no mesmo domingo em que o Brasil
reelegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a votação para o Parlamento
atraiu 69% do eleitorado, mais de 10 pontos percentuais acima do último pleito.
Graças à mobilização capitaneada pelo movimento estudantil contra a corrupção
surgido há dois anos depois de um trágico acidente ferroviário, o partido do
primeiro-ministro Aleksandar Vucic, aliado do autocrata russo Vladimir Putin,
foi derrotado após mais de uma década no poder. Vucic teve o mesmo destino de
Viktor Orbán, que, depois de 16 anos no cargo de primeiro-ministro da Hungria,
perdeu uma eleição com grande mobilização e comparecimento de 79,6%, 9,4 pontos
acima da anterior.
Movimento contra a direita radical similar ao
húngaro ocorreu também nas eleições deste ano à Presidência de Portugal, com a
vitória do esquerdista António José Seguro. A reação ao Chega, do
ultradireitista André Ventura, levou a presença às urnas a crescer mais de 13
pontos, alcançando 52,4% num país onde, assim como na Sérvia e na Hungria, o
voto é facultativo.
Nem sempre a participação mais alta resulta
em vitória sobre o populismo. Na Colômbia, o comparecimento cresceu mais de 5
pontos e levou ao poder o populista de direita Abelardo de la Espriella, numa
eleição extremamente disputada. Na Bulgária, o aumento de mais de 12 pontos na
votação serviu para eleger Rumen Radev, nacionalista de esquerda aliado de
Putin, cuja coalizão prometeu superar um período de instabilidade política, com
queda sucessiva de vários gabinetes.
Independentemente do resultado ou da inclinação ideológica dos vencedores, num momento em que muitos lamentam o retrocesso de regimes democráticos mundo afora, o aumento no comparecimento às urnas comprova a vitalidade da democracia e sua capacidade de se renovar.
Revanche de Moraes e fuga de Flávio maculam a
política
Por Folha de S. Paulo
Após determinação do ministro do STF para
entrega de seus passaportes, senador deixa o país rumo aos EUA
Decisão monocrática dá ao bolsonarismo o
discurso da perseguição; Flávio é alvo de dois inquéritos no STF envolvendo
lavagem de dinheiro
Depois de receber quase 60 milhões de votos
para presidente da República no domingo (25), Flávio
Bolsonaro, investigado em dois inquéritos por suspeita de lavagem de
dinheiro, fugiu do país
rumo aos Estados Unidos nesta terça-feira (27). O episódio
aberrante, que macula a política nacional, tem origem no dia anterior.
A decisão monocrática de Alexandre de
Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de recolher
os passaportes de Flávio não suscita apenas novos questionamentos
sobre os limites da atuação de um ministro da corte.
Moraes volta a agir com voluntarismo
incompatível com a prudência e o equilíbrio exigidos de um magistrado. Medidas
cautelares exigem fundamentação, proporcionalidade e demonstração de
necessidade. Não podem servir à intimidação política.
Tomada no dia seguinte à derrota eleitoral
por um ministro notoriamente antagonista da família Bolsonaro, a decisão agrava
a percepção de parcialidade.
É inadmissível, ademais, a falta de
transparência sobre seus fundamentos. Teria Moraes tomado a mesma medida se
Flávio tivesse saído vitorioso do pleito?
Nada disso absolve Flávio de suas
responsabilidades —pelas quais deve prestar contas como senador, cujo mandato
se encerra em 31 de janeiro de 2027, e cidadão. Muito menos justifica suas
acusações de tom golpista contra a lisura da eleição, ainda que
tenha recuado. Mas reagir aos erros e mesmo ameaças do bolsonarismo
não autoriza exceções às garantias constitucionais.
Moraes, que esteve à frente do processo que
condenou de forma correta e legítima Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe
de Estado, agora dá ao filho do ex-presidente motivos plausíveis para
considerar que não terá pela frente um julgamento justo.
Flávio é alvo de dois inquéritos principais
que correm no âmbito do STF. Num deles,
sobre o pedido de R$ 134 milhões ao corruptor Daniel
Vorcaro para o filme laudatório ao pai, o ministro responsável é
André Mendonça; o outro, acerca de ligações com casas de aposta, corre sob a
supervisão de Moraes —e o mesmo ministro também conduz uma investigação de
calúnia contra Luiz Inácio Lula
da Silva (PT).
Não bastasse, Moraes corre hoje sério risco
de passar por um processo de impeachment impulsionado pelo contrato de R$ 131
milhões entre o escritório de sua família e o onipresente Vorcaro.
Suas manobras para não se tornar alvo de
apuração da Polícia Federal, nas quais contou com a ajuda de colegas de toga,
ajudaram a ampliar neste ano a bancada bolsonarista e defensora de seu
impedimento no Senado.
A um STF que precisa restaurar sua reputação
em frangalhos, cabe em primeiro lugar impor limites à agenda individual de
Moraes; à frente, será preciso reduzir a lista de autoridades com foro
especial. Em vez de contribuir para a pacificação após disputa acirrada, o
revanchismo exalta os ânimos de uma sociedade dividida.
Atenção global ao sarampo
Por Folha de S. Paulo
Casos aumentam durante a pandemia; regiões
pobres são mais afetadas, mas EUA têm maior incidência em 35 anos
No Brasil, após quedas na pandemia, a
cobertura da 1ª dose subiu de 88,9% em 2023 a 92,6% em 2025; a da 2ª foi de
66,4% a 78%; OMS preconiza 95%
A pandemia de Covid-19 gerou alta global da
incidência de sarampo
em crianças até 5 anos —em alguns países, o fenômeno também tem relação com o
movimento antivacina.
Os dados do Global Burden of Diseases,
projeto internacional de pesquisa epidemiológica coordenado pela Universidade
de Washington, foram publicados neste mês na revista Nature Medicine.
De 1990 a 2019, o número de casos de sarampo
no estrato caiu 79%, de 52,2 milhões para 11,1 milhões. Em 2023,
contudo, aumentou 40%, chegando a 15,6 milhões; a taxa de mortes por
100 mil habitantes despencou de 148 para 15,3, mas subiu a 18,4 em 2023.
A cobertura vacinal da primeira dose passou
de 67,2% em 1990 para 83,5% em 2019 e, em 2023, caiu levemente para 81%. Já o
movimento da segunda dose nos mesmos períodos foi de 14,4% a 68,4%, até chegar
a 71,4%. A OMS
preconiza 95% em ambas. Ademais, o número de crianças zero-dose subiu de 19,3
milhões, em 2019, para 22,2 milhões em 2023.
As regiões mais afetadas são a África
Subsaariana, o Sudeste Asiático e o Norte da África. Mas, nos últimos anos,
países como França,
Alemanha
e Itália
registraram a maior incidência de sarampo em mais de 25 anos.
Também os Estados
Unidos enfrentam a maior
incidência desde 1991, quando ocorreram 9.643 casos. Os 2.318 no
primeiro semestre deste ano superam o total de 2025 (2.289), e 45 estados foram
afetados. Em grande parte do país, pode-se recusar a imunização por motivos
religiosos ou filosóficos.
Para piorar, o secretário de Saúde,
Robert F. Kennedy Jr., é um antivaxxer que, desde a volta de Donald Trump
ao poder, vem desmantelando
programas e políticas de imunização.
O Brasil, que tem um robusto sistema de
imunização e baixa adesão ao movimento antivacina, perdeu o certificado de
eliminação do sarampo em 2018, mas conseguiu recuperá-lo em 2024.
Aqui, a cobertura da primeira dose caiu de
93,1% em 2019 para 88,9% em 2023, subindo a 92,6% no ano passado. É preciso
mais atenção à segunda dose, que, após cair de 81,5% para 66,4% no período,
ficou em 78% em 2025.
Especialistas também se preocupam com os
casos registrados no estado de São Paulo,
que, até 19 de outubro, chegaram a 41.
Governos em todo o mundo precisam adaptar estratégias de acordo com seus gargalos, sejam estruturais ou culturais. Ampliar a vacinação exige comunicação adaptada a diferentes públicos, combate à desinformação, capacitação de profissionais de saúde, acesso facilitado à imunização e ações específicas para gestantes.
Bolsonaro, o grande eleitor de Lula
Por O Estado de S. Paulo
O campo conservador precisa urgentemente
libertar-se de Jair Bolsonaro, que elegeu Lula ao ungir Flávio como candidato e
interditar o caminho para alternativas muito melhores
O responsável pela reeleição do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, contra todas as probabilidades, tem nome e
sobrenome: Jair Messias Bolsonaro. Ao ungir seu inexpressivo filho Flávio como
candidato a presidente, interditando o caminho para alternativas bem menos
impopulares e mais promissoras no campo conservador, como o governador de São
Paulo, Tarcísio de Freitas, o ex-presidente na prática deu a Lula o fôlego
necessário para permanecer no poder, a despeito de fazer um péssimo governo e
de não ter nenhum projeto para o País. A direita precisa urgentemente
libertar-se de Jair Bolsonaro.
Fiel ao DNA paterno, Flávio não reconheceu a
derrota para Lula e chegou a anunciar que pediria a anulação da eleição. Houve
“sacanagem”, disse o rapaz, na linguagem de berço com que o clã trata a
República. Na peculiar gramática dos Bolsonaros, o eleitor é soberano até
escolher o adversário. Quando começou a campanha, Flávio vendeu-se como um
“Bolsonaro moderado”, o que é um oxímoro evidente – afinal, os Bolsonaros se
fizeram na vida pública graças à imoderação.
Felizmente, contudo, a oposição a Lula não
depende de Jair Bolsonaro nem muito menos de Flávio, que em breve ficará
desempregado e que terá de prestar contas à Justiça em razão das inúmeras suspeitas
de corrupção que pesam contra ele. Vários partidos que se alinharam a Flávio no
segundo turno aceitaram imediatamente a vitória de Lula e já se preparam para
trabalhar com esse cenário. É assim que funciona numa democracia.
É claro que seria ingênuo imaginar que o
bolsonarismo desaparecerá por encanto. O PL, partido dos Bolsonaros, terá no
Congresso Nacional uma bancada robusta, formada por 121 deputados e 28
senadores. A força que elege familiares e sustenta governadores não se evapora
numa derrota presidencial, mas a derrota de Flávio mostra os limites da
vassalagem aos Bolsonaros. A direita precisa disputar os votos de milhões de
eleitores conservadores, não entregar suas convicções em troca de uma
autorização da família Bolsonaro para existir.
A eleição demonstrou que nem só de
antipetismo vive o País. O antibolsonarismo tem força própria, e o clã se
esmera em renová-la. Enquanto o PT explora a identificação abusiva entre sua
permanência no poder e a sobrevivência da democracia, os Bolsonaros fornecem a
ameaça real que torna esse expediente convincente. Em vez de libertar o País do
lulopetismo, garantem-lhe sobrevida. Não se vencerá a chantagem petista
repetindo o papel que o PT reserva aos adversários.
É nessa encruzilhada que o governador de São
Paulo, Tarcísio de Freitas, fortalecido por sua acachapante reeleição, parece
ter entendido seu papel. Ainda que tenha dado todo o apoio a Flávio Bolsonaro
na campanha e no dia da eleição, Tarcísio, segundo relatos de bastidores,
tentou convencer o candidato derrotado a aceitar o resultado e o desestimulou a
pedir a anulação da eleição. Ontem, depois de alguma hesitação, o governador
reconheceu a vitória de Lula, marcando posição diversa da de Flávio – que disse
ser “impossível” aceitar o resultado.
Para ser a alternativa liberal, conservadora
e democrática de que o País precisa, urge recusar esse golpismo bolsonarista de
uma vez por todas. Ademais, reconhecer o eleito está longe de significar dar
trégua ao governo. O Brasil precisará, e muito, de uma oposição firme, capaz de
fiscalizar o Executivo, enfrentar o voluntarismo fiscal e a demagogia petista,
defender o equilíbrio entre os Poderes e trabalhar por reformas. A democracia
não é propriedade do PT, assim como a direita não é propriedade dos Bolsonaros.
Tarcísio e outras lideranças da direita democrática terão de escolher entre
construir uma alternativa de poder e administrar a dependência de uma família.
A verdadeira “sacanagem”, para usar as palavras chulas de Flávio Bolsonaro,
seria condenar o País a mais quatro anos desse cativeiro.
Politização do STF continua firme
Por O Estado de S. Paulo
A cogitada indicação de Pacheco como
retribuição a Alcolumbre é um mau sinal. Lula não pode usar o Supremo como
moeda de troca nem governar por intermédio de ministros leais a ele
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, agora
reeleito, terá a oportunidade de redesenhar o Supremo Tribunal Federal (STF).
Há uma vaga aberta desde a aposentadoria precoce de Luís Roberto Barroso, há um
ano, e outras três deverão ser preenchidas ao longo do próximo mandato, com as
saídas compulsórias de Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes. Ao final de
2030, portanto, Lula terá indicado sete dos onze integrantes da Corte, uma
responsabilidade imensa.
Convém lembrar ao sr. presidente da República
que a Constituição impõe dois requisitos de mérito aos indicados para a mais
alta instância judicial do País: notável saber jurídico e reputação ilibada.
Nenhum deles se confunde com lealdade política ou retribuição de favores, mas
os primeiros sinais emitidos por Lula não são auspiciosos. No que depender do
petista, o STF continuará político.
Ganhou força em Brasília a hipótese de Lula
indicar o ex-senador Rodrigo Pacheco para a vaga de Barroso. Não se trata aqui,
ao menos por ora, de avaliar as qualificações de Pacheco para o cargo, mas as
circunstâncias em que seu nome é cogitado. O principal patrono da indicação do
atual ministro do Tribunal de Contas da União, ex-presidente do Congresso, é o
presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que há meses defende o nome
de Pacheco e manobrou pessoalmente para que a maioria dos senadores rejeitasse
Jorge Messias, o escolhido de Lula.
Não é segredo para ninguém que Alcolumbre
ajudou Lula a se reeleger ao pautar a votação da PEC do fim da escala de
trabalho 6x1 às vésperas do segundo turno. Uma cadeira no Supremo como paga por
esse empenho seria a confirmação, para quem ainda tenha dúvida, de que a
composição da Corte é mesmo objeto de barganhas políticas.
Tampouco pode ser naturalizado o argumento de
que Pacheco teria “boa articulação” com o Congresso, como circula nas esferas
de poder. Ora, negociar com o Legislativo é tarefa intransferível do Executivo.
Nestes tempos estranhos, as convenções andam meio nebulosas, de modo que
algumas obviedades precisam ser escritas: um ministro do STF não pode ser
escolhido para facilitar a vida do governo em um Congresso francamente
oposicionista, mas sim para julgar com independência e autoridade moral e
jurídica questões de natureza constitucional – inclusive contra os interesses de
quem o indicou.
O Supremo tem de deixar de ser uma arena
política. Em larga medida, a politização da Corte – vale dizer, ministros que
se comportam como lobistas interessados nas lides políticas, que negociam,
aconselham e jantam com quem julgam – é a causa raiz de seu profundo
descrédito.
O eleitor, ao formar uma bancada no Senado
com disposição de enquadrar o STF, deu um recado muito claro. Ademais, entre o
primeiro e o segundo turnos, o tribunal praticamente sumiu do noticiário e das
agendas de campanha. E isso ajudou Lula, cuja imagem sempre esteve associada
aos ministros que representam o que há de pior na Corte. Reeleito, o presidente
fará bem a si mesmo e ao País se extrair desses dois fatos as devidas lições.
Lula tem de romper com os ministros do STF
que se deixaram rebaixar ao rés do chão e que usam a toga para encobrir seus
malfeitos – alguns potencialmente criminosos. Seu quarto mandato não pode
servir ao acobertamento de ministros que precisam urgentemente ser investigados
pela suspeita de envolvimento com os negócios espúrios do Banco Master e de seu
ex-dono, Daniel Vorcaro. A tentação será grande, mas Lula não pode substituir o
esforço político para a construção de maiorias no Congresso por uma
governabilidade de fancaria, sustentada por decisões monocráticas tomadas por
ministros leais a ele, e não à Constituição. Mais bem dito: Lula não pode
governar por meio do Supremo.
Se se afastar dos ministros sob suspeita, de
forma inequívoca, altiva e republicana, Lula se aproximará não apenas do
Congresso, mas da ampla parcela da população que, tendo ou não votado nele,
está estarrecida com o mau caminho que parte do Supremo decidiu trilhar.
Zelando pelas futuras indicações, Lula ainda ajudaria a própria Corte a sair do
buraco em que ela se meteu, passo decisivo para a pacificação do País –
impossível enquanto milhões de brasileiros olharem para o STF e enxergarem, com
razão, uma trincheira política.
A obra sem fim
Por O Estado de S. Paulo
Ultimato do TCU sobre Angra 3 expõe o custo
da indecisão sobre a usina nuclear
O Tribunal de Contas da União (TCU) deu um
ultimato ao governo federal, cobrando uma definição sobre o destino de Angra 3.
A obra segue em perpétua gestação desde 1984 e já consumiu bilhões de reais dos
cofres públicos sem gerar um mísero miliwatt-hora de eletricidade para os
brasileiros.
Agora, o tribunal determinou que o governo
terá até 120 dias para reunir e analisar a documentação necessária e outros 120
para decidir se conclui ou abandona a usina nuclear jamais terminada. Ou seja,
a indefinição que atravessou décadas pode mais uma vez ficar para um novo
mandato presidencial que se inicia e que poderá estender ainda mais a novela.
Enquanto isso, a conta da indefinição só
aumenta. Entre 2024 e meados de 2026, a Angra 3 custou R$ 2,5 bilhões à
Eletronuclear, empresa responsável pela construção e pela futura operação da
usina nuclear, entre a conservação das estruturas paralisadas e o pagamento de
dívidas contraídas para financiar a obra. É dinheiro demais para manter um
elefante branco encostado num país que mal consegue equilibrar suas contas.
Pior: a paralisia já contamina outras empresas do setor nuclear.
Segundo o TCU, a Indústrias Nucleares do
Brasil (INB), fornecedora exclusiva de combustível para Angra 1 e 2, registrou
prejuízo de R$ 156 milhões em 2025, em parte por causa dos atrasos nos
pagamentos da Eletronuclear. A indefinição sobre uma usina que não funciona
ameaça, assim, a saúde financeira de atividades que funcionam.
Há quem defenda a continuidade do projeto sob
o argumento de que a legislação de 2021 estabelece atribuições ao Conselho
Nacional de Política Energética (CNPE) para autorizar a exploração de Angra 3.
Um exemplo é o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, que já prometeu
planos para concluir a usina, mas não fez o que era preciso para isso.
Como este jornal já sustentou, o problema de
Angra 3 não é a energia nuclear, que tem seu lugar numa matriz energética
diversificada e pode gerar energia contínua para o País. É a incapacidade do
poder público de resolver o que fazer com um empreendimento gigantesco, custoso
e paralisado há anos. Desistir custa caro. Prosseguir também. E não há garantia
de que os benefícios da conclusão compensem os sacrifícios exigidos no final.
Estudo do BNDES estimou em R$ 23,9 bilhões os
recursos necessários para concluir a usina e entre R$ 21,9 bilhões e R$ 26
bilhões o custo de abandonar a obra e acabar com a operação. Dinheiro já
desperdiçado não justifica desperdiçar ainda mais.
O TCU também já alertou para o risco de a
energia de Angra 3 custar muito mais aos consumidores do que alternativas
disponíveis.
O governo reeleito terá de lidar com a decisão que se arrasta por sucessivas administrações. Terá de fazer isso com transparência e, principalmente, responsabilidade fiscal, sem deixar que a conta final de escolhas ruins caia no colo do consumidor. Angra 3 não pode continuar sendo uma promessa de geração de energia cuja única produção garantida é a de novas despesas. Afinal, a conta de luz do brasileiro já está salgada demais.
Alto investimento externo não garante elos
com cadeias globais
Por Valor Econômico
Países da América Latina têm um estoque de IED muito superior ao dos emergentes da Ásia e da Europa, mas têm menor presença nas cadeias globais
As economias latino-americanas, e o Brasil
como a maior delas, vivem um paradoxo em relação aos países emergentes de Ásia
e Europa. O investimento externo direto (IED) na região, impulsionador de
exportações e de integração com as cadeias de produção globais, cujo estoque é
de US$ 3 trilhões, soma 44% do PIB (46% no Brasil), uma fatia muito superior
aos 25% dos emergentes da Ásia e 21% da Europa. Mas a expansão de seu comércio
externo e suas ligações com as cadeias integradas de valor são baixas, bem
inferiores às de seus congêneres em outros continentes. Uma das principais
explicações é que as multinacionais que investem nesses países voltam-se mais
para o mercado doméstico do que para ampliação das vendas externas. Ademais, a
disseminação de suas vantagens produtivas, tecnológicas, gerenciais e
logísticas para as empresas locais é pouco intensa, e não por sua
responsabilidade, avalia um capítulo do Panorama da Economia Regional do Hemisfério
Ocidental, do Fundo Monetário Internacional (FMI).
A primeira constatação é que o volume de
investimento externo direto por si só não determina o grau de integração
comercial possível. Um bom motivo para isso é que boa parte dos investimentos
concentra-se no setor primário, em agricultura e mineração. Este, no entanto,
não é o caso do Brasil, onde há predominância de investimentos em serviços (quase
50%) e manufatura (pouco mais de 40%). A maior lacuna se dá exatamente na
manufatura, exatamente onde deveria haver maior complementaridade entre
investimento externo direto (IED), orientação exportadora e produção de bens
comerciáveis, segundo os economistas do FMI. Além disso, a baixa capacidade de
inovação, de absorção de tecnologia e de logística do comércio parecem estar
por trás da maior parte da fraca resposta exportadora ao IED.
As condições da economia doméstica conformam
essa fraqueza. As multinacionais instaladas na região realizam 81% de suas
vendas nos mercados domésticos — a proporção é ainda maior no Brasil e
Argentina — , em comparação com 48% das asiáticas. “Se o IED ocorre para
atender a demanda doméstica”, registra o documento, “ele pode substituir
importações em vez de expandir o comércio”. Um relacionamento forte entre
múltis, filiais e firmas domésticas necessita de redes de fornecedores
confiáveis, logística eficiente, mão de obra capacitada, acesso financeiro
eficaz e segurança jurídica. “Fragilidades nessas áreas limitarão a extensão
pela qual o IED se traduzirá em fortes exportações”, aponta o FMI.
A abertura comercial e de investimentos,
segundo os economistas, influencia o volume e o tipo de recursos que são
atraídos para o país: são o canal pelo qual fluem capitais, tecnologias,
know-how gerencial e ligações com cadeias internacionais de produção. O
ecossistema econômico doméstico, por outro lado, é determinante para que estes
fluxos sejam convertidos em abastecimento doméstico, produtividade, exportações
e crescimento. São duas as limitações: se o canal de comércio e investimentos é
parcialmente fechado, parte do fluxo não alcança uso produtivo. Quando há
restrições no ecossistema, o fluxo que chega não é totalmente aproveitado.
Essa relação assume também outra forma. O IED
propicia em geral maior fluxo de exportação e importação com o país de origem.
E o fortalecimento desses laços comerciais, por outro lado, traz mais
investimentos. Esses efeitos não são vigorosos nas economias latino-americanas.
Um exercício contrafactual, em que as relações entre IED e exportações têm o
mesmo peso que nas economias emergentes de Ásia e Europa, indicou que as
exportações agregadas da região seriam 20% superiores, com os principais ganhos
ocorrendo nos bens intermediários (vendas 54% maiores) e na manufatura pesada
(mais 23%).
Onde estão as maiores falhas que impedem que
a manufatura traduza em exportações os investimentos produtivos vindos do
exterior? Para o FMI, as fracas inovação e absorção de tecnologia fazem 30% da
diferença em relação às demais emergentes, e a infraestrutura e a logística do
comércio, 23%. No primeiro caso, firmas domésticas têm de ser capazes de
“aprender, adotar e adaptar tecnologias e práticas de negócios das multinacionais”.
Mas isso não é suficiente. Mesmo que façam tudo certo, custos dos transportes,
atrasos aduaneiros e infraestrutura deficiente “enfraquecem a capacidade de
participar de cadeias regionais e globais de valor”.
As soluções para alguns desses problemas são conhecidas. Para os economistas do FMI, há políticas prioritárias. Uma delas é reduzir barreiras ao comércio, em especial de bens intermediários, tornar as regras de investimentos previsíveis, fazer amplo uso de acordos comerciais e reduzir os custos do comércio regional. Para o FMI o histórico de ganhos de produtividade na região é “cronicamente desapontador”, entre outras coisas pelo investimento insuficiente em capital físico e humano, adoção limitada de tecnologia e inovação e baixo dinamismo empresarial. Por isso, o crescimento do Brasil e o de seus vizinhos têm sido menor que o de outras regiões nos últimos anos.
O desafio do cenário internacional
Por Correio Braziliense
A história das relações internacionais está
cheia de exemplos de países que separaram o que seus governantes sentem do que
seus interesses exigem
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganhou
a eleição no domingo. Na segunda-feira, o presidente dos EUA, Donald Trump, e o
da Argentina, Javier Milei, ainda não haviam parabenizado Lula. Ontem, Flávio
Bolsonaro desapareceu do Brasil e embarcou rumo aos Estados Unidos, depois de
ter sido intimado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a entregar os
passaportes.
O não reconhecimento de Trump e Milei não é
acidental. Os dois apoiaram Flávio Bolsonaro durante a campanha e, agora,
escolheram ignorar Lula como forma de sinalizar desconforto com o resultado. O
desafio a ser enfrentado pelo presidente reeleito é administrar esse coquetel
sem deixar que as animosidades pessoais entre chefes de Estado contaminem as
relações entre países.
Brasil e Estados Unidos são parceiros
comerciais estratégicos — e, não custa lembrar, o tarifaço de 25% ainda está em
vigor, com negociações em andamento. Brasil e Argentina compartilham fronteira,
integram o Mercosul e têm uma interdependência econômica que nenhum dos dois
pode ignorar por questões de simpatia política. A história das relações
internacionais está cheia de exemplos de países que separaram o que seus
governantes sentem do que seus interesses exigem. Essa capacidade de distinção
será testada nos próximos meses.
A diplomacia brasileira terá que operar nos
próximos meses em território hostil com instrumentos conhecidos: canais
técnicos, interlocução por vias secundárias, paciência estratégica e a clareza
de que relações de Estado não se resolvem em redes sociais nem se medem pelo
tom de um post não publicado. Lula tem experiência nesse terreno: em seu
primeiro mandato, construiu pontes com governos de perfis muito distintos. A
diferença agora é que o ambiente internacional é mais fragmentado, as tensões
mais explícitas e a janela para erros, menor.
Há, ainda, uma dimensão institucional que não
pode ser negligenciada. Se a permanência de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos
se confirmar como um fator de tensão, o governo brasileiro terá de evitar que
questões judiciais sejam convertidas em instrumentos de pressão política ou
moeda de troca diplomática. Cabe às autoridades competentes conduzir as
investigações e fazer cumprir as decisões judiciais, respeitados os
procedimentos legais. Ao Executivo, por sua vez, compete defender a soberania
nacional e buscar a cooperação internacional necessária, sem permitir que
disputas partidárias ditem os rumos da política externa.
Também seria um erro interpretar a postura de
Milei e de Trump como prova de que toda a relação com seus países está
comprometida. Governos passam, interesses permanecem, e a diplomacia dispõe de
mecanismos para atravessar períodos de hostilidade. Mas a defesa desses
interesses exige reciprocidade, firmeza e pragmatismo. Lula não precisa conquistar
a simpatia de Trump ou Milei, tampouco responder a provocações na mesma moeda.
Precisa, sim, deixar claro que o Brasil está disposto ao diálogo, mas não
aceitará que divergências políticas se sobreponham ao respeito institucional e
à autonomia de suas decisões. A moderação, nesse contexto, não deve ser
confundida com fraqueza.
O mundo continua girando com as mesmas contradições de antes. O que muda é que agora cabe ao governo recém-confirmado navegar essas contradições com habilidade suficiente para proteger os interesses do país, sem transformar cada tensão diplomática numa crise desnecessária.
Derrotado, Flávio Bolsonaro abandona aliados
Por O Povo (CE)
Partido de Flávio, o PL, reconheceu a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como também o fizeram países do mundo inteiro, à esquerda e à direita
A saída de Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil,
rumo aos Estados Unidos, dois dias após ser derrotado nas eleições
presidenciais, mostra a dimensão do problema do qual o Brasil se livrou, caso
ele assumisse a Presidência da República. A suspeita de fuga em direção aos EUA
foi confirmada à agência Reuters por um aliado próximo a Flávio e por uma
autoridade americana.
É difícil encontrar paralelo, pelo menos em
países democráticos, de um candidato que não aceita o resultado das urnas,
avisa que vai pedir o cancelamento da eleição ou a cassação da chapa vitoriosa,
sem apresentar uma única evidência de fraude que justifique a iniciativa. A verdade
é que o próprio partido do candidato derrotado, o PL, reconheceu a vitória do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), afora países do mundo interior à
esquerda e à direita, que agiram de igual maneira.
Pouco antes de fugir, Flávio jurava que o seu
objetivo era reorganizar a oposição para fazer frente ao novo mandato do
presidente Lula. Mas, ato seguinte, abandonou seus aliados e correligionários,
sem dar explicações, dando um exemplo de covardia política.
Indicativo de que Flávio não se conformava,
de maneira alguma, com a derrota acachapante que sofreu, foi demonstrado ainda
no domingo, quando leu um curto comunicado dizendo ser "impossível"
reconhecer o resultado das urnas. O senador referia-se à extensão do horário da
votação, pedido que sua campanha também fizera ao Tribunal Superior Eleitoral
(TSE).
O sumiço de Flávio Bolsonaro aconteceu após o
ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), ter mandado
reter os passaportes do senador, impedindo-o de sair do País. Flávio disse que
entregaria os documentos, pois nunca havia cogitado deixar o País. No entanto,
nesta terça-feira, quando venceu o prazo para entregar os passaportes, ele
evadiu-se para o exterior.
A decisão de Moraes deu-se na investigação
sobre lavagem de dinheiro, na qual também está implicado o advogado Willer
Thomaz, com quem o STF proibiu o candidato derrotado de manter contato. Flávio
afirma ser um "perseguido político", mas fato é que ele responde por
crimes comuns, sem qualquer cerceamento ao seu direito de defesa.
A fuga de Flávio Bolsonaro autoriza a
conclusão de que a candidatura dele à presidência destinava-se unicamente a um
projeto pessoal, de livrar-se da das investigações que podem levá-lo à prisão,
caso se comprovem as acusações as quais responde na Justiça.
Flávio segue assim o exemplo de outros bolsonaristas, mas nenhum tão destacado quanto ele, que fogem vergonhsamente para o exterior quando são chamados a responder pelos seus atos.

Um comentário:
O mercado ficou estressado com a reeleição do Lula... O sábio Mercado queria o PINÓQUIO como presidente!!!
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