quarta-feira, 28 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Lula não tem mais como adiar plano de ajuste fiscal

Por O Globo

Mais importante que especular sobre nomes para Fazenda é uma proposta confiável para conter a dívida pública

Como era esperado, o mercado ficou estressado com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Bolsa caiu, juro futuro subiu, dólar disparou — e o Tesouro teve de intervir. A tensão diminuiu ontem, mas a incerteza persiste. O motivo é, na imagem feliz do colunista do GLOBO Carlos Alberto Sardenberg, a “herança maldita” de Lula para si mesmo. No atual governo, ele tratou com desdém a explosão da dívida pública, passou a campanha empilhando promessa sobre promessa sem nem querer ouvir falar em custo ou ajuste. Quem sabe fazer a conta constatou: ela não fecha. Sem ajuste, o país quebra.

Não dá mais para adiar questão tão crucial. A campanha acabou, e Lula tem o dever de dizer aos brasileiros o que fará para equilibrar as contas públicas, condição para que ele próprio possa governar e cumprir a miríade de promessas que fez. Nos últimos dias, vários nomes têm sido cogitados para ocupar o Ministério da Fazenda. Mais que especular sobre eles, porém, o fundamental é apresentar um plano exequível de ajuste para estabilizar a trajetória explosiva do endividamento.

Não é segredo que as finanças estão em situação dramática, em grande parte devido ao descontrole fiscal dos últimos quatro anos. Em agosto, a dívida bruta alcançou 82,9% do PIB, ou R$ 12,6 trilhões, maior patamar desde a pandemia. Somente na gestão Lula, ela cresceu 11,2 pontos percentuais. A situação se agravará ainda mais. Na tentativa de se reeleger, Lula criou uma profusão de programas e medidas eleitoreiras que aumentaram a conta. Entre estímulos de crédito, despesas primárias e renúncias fiscais, o impacto chega a quase R$ 300 bilhões, segundo a Instituição Fiscal Independente, do Senado. E a fábrica de bondades não cessa. Ontem o Ministério do Planejamento anunciou a prorrogação da subvenção ao diesel por mais 30 dias para conter o preço do combustível. Estima-se que todas as generosidades demandarão, já no Orçamento de 2027, R$ 53,7 bilhões em novos recursos.

Infelizmente, Lula não parece disposto a mexer nas causas da crise fiscal crônica. Na campanha, deixou claro que o salário mínimo continuará a ser reajustado acima da inflação e que benefícios e aposentadorias permanecerão atrelados a ele. Como cerca de 70% dos beneficiários recebem o mínimo, essa política amplia o rombo colossal na Previdência. Não há motivo para essa vinculação, uma vez que na ativa o cidadão tem despesas diferentes do inativo. Basta reajustar benefícios pela inflação para manter o poder de compra.

Sem ajuste, o crescimento vegetativo de gastos com a Previdência e com os pisos constitucionais de saúde e educação se encarregará de consumir todo o espaço livre para despesas da União até 2028. Apesar de negar durante a campanha, portanto, algum ajuste Lula terá de fazer no início do mandato. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse ontem que o governo perseguirá o centro da meta fiscal — e não o piso, como tem feito. Mas isso é o mínimo. Medidas graduais serão insuficientes diante dos desafios. É preciso compromisso com um freio eficaz no gasto.

O foco dos programas sociais precisa ser calibrado, para mirar quem realmente precisa e liberar recursos. Buscar o centro da meta ajuda, claro. Mas apenas um ajuste capaz de desarmar a bomba fiscal que Lula criou para si mesmo permitiria estabilizar a dívida, derrubar os juros e fazer o país crescer de forma sustentada.

Maior comparecimento às urnas revela vitalidade da democracia no mundo

Por O Globo

Participação cresceu em países tão díspares como Brasil, Hungria, Colômbia, Portugal, Sérvia ou Israel

A eleição de domingo no Brasil confirmou uma tendência verificada ao longo deste ano no mundo todo: a polarização política tem feito crescer o engajamento e aumentado o comparecimento às urnas. Não é um comportamento uniforme, nem associado a algum campo ideológico. De modo geral, a participação eleitoral tem crescido toda vez que o eleitor percebe haver algo de valioso em jogo. Em 2026, a fração de eleitores que foram votar cresceu em países tão díspares como Hungria, Colômbia, Portugal, Brasil, Sérvia ou ontem em Israel.

Na primeira eleição depois dos ataques terroristas de 7 de outubro de 2023 e da guerra em Gaza, 78% do eleitorado israelense foi às urnas, patamar mais alto registrado neste século. Estão em jogo o futuro do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e questões críticas para a população, como o serviço militar dos ultraortodoxos, a reforma do Judiciário que ameaça o equilíbrio institucional, a situação econômica e, naturalmente, o conflito nos territórios palestinos e no Oriente Médio. É improvável que o desfecho seja conhecido tão cedo, pois as negociações para um novo governo costumam demorar, mas é inegável que o comparecimento recorde lhe trará mais legitimidade.

Na Sérvia, no mesmo domingo em que o Brasil reelegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a votação para o Parlamento atraiu 69% do eleitorado, mais de 10 pontos percentuais acima do último pleito. Graças à mobilização capitaneada pelo movimento estudantil contra a corrupção surgido há dois anos depois de um trágico acidente ferroviário, o partido do primeiro-ministro Aleksandar Vucic, aliado do autocrata russo Vladimir Putin, foi derrotado após mais de uma década no poder. Vucic teve o mesmo destino de Viktor Orbán, que, depois de 16 anos no cargo de primeiro-ministro da Hungria, perdeu uma eleição com grande mobilização e comparecimento de 79,6%, 9,4 pontos acima da anterior.

Movimento contra a direita radical similar ao húngaro ocorreu também nas eleições deste ano à Presidência de Portugal, com a vitória do esquerdista António José Seguro. A reação ao Chega, do ultradireitista André Ventura, levou a presença às urnas a crescer mais de 13 pontos, alcançando 52,4% num país onde, assim como na Sérvia e na Hungria, o voto é facultativo.

Nem sempre a participação mais alta resulta em vitória sobre o populismo. Na Colômbia, o comparecimento cresceu mais de 5 pontos e levou ao poder o populista de direita Abelardo de la Espriella, numa eleição extremamente disputada. Na Bulgária, o aumento de mais de 12 pontos na votação serviu para eleger Rumen Radev, nacionalista de esquerda aliado de Putin, cuja coalizão prometeu superar um período de instabilidade política, com queda sucessiva de vários gabinetes.

Independentemente do resultado ou da inclinação ideológica dos vencedores, num momento em que muitos lamentam o retrocesso de regimes democráticos mundo afora, o aumento no comparecimento às urnas comprova a vitalidade da democracia e sua capacidade de se renovar.

Revanche de Moraes e fuga de Flávio maculam a política

Por Folha de S. Paulo

Após determinação do ministro do STF para entrega de seus passaportes, senador deixa o país rumo aos EUA

Decisão monocrática dá ao bolsonarismo o discurso da perseguição; Flávio é alvo de dois inquéritos no STF envolvendo lavagem de dinheiro

Depois de receber quase 60 milhões de votos para presidente da República no domingo (25), Flávio Bolsonaro, investigado em dois inquéritos por suspeita de lavagem de dinheiro, fugiu do país rumo aos Estados Unidos nesta terça-feira (27). O episódio aberrante, que macula a política nacional, tem origem no dia anterior.

A decisão monocrática de Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de recolher os passaportes de Flávio não suscita apenas novos questionamentos sobre os limites da atuação de um ministro da corte.

Moraes volta a agir com voluntarismo incompatível com a prudência e o equilíbrio exigidos de um magistrado. Medidas cautelares exigem fundamentação, proporcionalidade e demonstração de necessidade. Não podem servir à intimidação política.

Tomada no dia seguinte à derrota eleitoral por um ministro notoriamente antagonista da família Bolsonaro, a decisão agrava a percepção de parcialidade.

É inadmissível, ademais, a falta de transparência sobre seus fundamentos. Teria Moraes tomado a mesma medida se Flávio tivesse saído vitorioso do pleito?

Nada disso absolve Flávio de suas responsabilidades —pelas quais deve prestar contas como senador, cujo mandato se encerra em 31 de janeiro de 2027, e cidadão. Muito menos justifica suas acusações de tom golpista contra a lisura da eleição, ainda que tenha recuado. Mas reagir aos erros e mesmo ameaças do bolsonarismo não autoriza exceções às garantias constitucionais.

Moraes, que esteve à frente do processo que condenou de forma correta e legítima Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado, agora dá ao filho do ex-presidente motivos plausíveis para considerar que não terá pela frente um julgamento justo.

Flávio é alvo de dois inquéritos principais que correm no âmbito do STF. Num deles, sobre o pedido de R$ 134 milhões ao corruptor Daniel Vorcaro para o filme laudatório ao pai, o ministro responsável é André Mendonça; o outro, acerca de ligações com casas de aposta, corre sob a supervisão de Moraes —e o mesmo ministro também conduz uma investigação de calúnia contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Não bastasse, Moraes corre hoje sério risco de passar por um processo de impeachment impulsionado pelo contrato de R$ 131 milhões entre o escritório de sua família e o onipresente Vorcaro.

Suas manobras para não se tornar alvo de apuração da Polícia Federal, nas quais contou com a ajuda de colegas de toga, ajudaram a ampliar neste ano a bancada bolsonarista e defensora de seu impedimento no Senado.

A um STF que precisa restaurar sua reputação em frangalhos, cabe em primeiro lugar impor limites à agenda individual de Moraes; à frente, será preciso reduzir a lista de autoridades com foro especial. Em vez de contribuir para a pacificação após disputa acirrada, o revanchismo exalta os ânimos de uma sociedade dividida.

Atenção global ao sarampo

Por Folha de S. Paulo

Casos aumentam durante a pandemia; regiões pobres são mais afetadas, mas EUA têm maior incidência em 35 anos

No Brasil, após quedas na pandemia, a cobertura da 1ª dose subiu de 88,9% em 2023 a 92,6% em 2025; a da 2ª foi de 66,4% a 78%; OMS preconiza 95%

A pandemia de Covid-19 gerou alta global da incidência de sarampo em crianças até 5 anos —em alguns países, o fenômeno também tem relação com o movimento antivacina.

Os dados do Global Burden of Diseases, projeto internacional de pesquisa epidemiológica coordenado pela Universidade de Washington, foram publicados neste mês na revista Nature Medicine.

De 1990 a 2019, o número de casos de sarampo no estrato caiu 79%, de 52,2 milhões para 11,1 milhões. Em 2023, contudo, aumentou 40%, chegando a 15,6 milhões; a taxa de mortes por 100 mil habitantes despencou de 148 para 15,3, mas subiu a 18,4 em 2023.

A cobertura vacinal da primeira dose passou de 67,2% em 1990 para 83,5% em 2019 e, em 2023, caiu levemente para 81%. Já o movimento da segunda dose nos mesmos períodos foi de 14,4% a 68,4%, até chegar a 71,4%. A OMS preconiza 95% em ambas. Ademais, o número de crianças zero-dose subiu de 19,3 milhões, em 2019, para 22,2 milhões em 2023.

As regiões mais afetadas são a África Subsaariana, o Sudeste Asiático e o Norte da África. Mas, nos últimos anos, países como França, Alemanha e Itália registraram a maior incidência de sarampo em mais de 25 anos.

Também os Estados Unidos enfrentam a maior incidência desde 1991, quando ocorreram 9.643 casos. Os 2.318 no primeiro semestre deste ano superam o total de 2025 (2.289), e 45 estados foram afetados. Em grande parte do país, pode-se recusar a imunização por motivos religiosos ou filosóficos.

Para piorar, o secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., é um antivaxxer que, desde a volta de Donald Trump ao poder, vem desmantelando programas e políticas de imunização.

O Brasil, que tem um robusto sistema de imunização e baixa adesão ao movimento antivacina, perdeu o certificado de eliminação do sarampo em 2018, mas conseguiu recuperá-lo em 2024.

Aqui, a cobertura da primeira dose caiu de 93,1% em 2019 para 88,9% em 2023, subindo a 92,6% no ano passado. É preciso mais atenção à segunda dose, que, após cair de 81,5% para 66,4% no período, ficou em 78% em 2025.

Especialistas também se preocupam com os casos registrados no estado de São Paulo, que, até 19 de outubro, chegaram a 41.

Governos em todo o mundo precisam adaptar estratégias de acordo com seus gargalos, sejam estruturais ou culturais. Ampliar a vacinação exige comunicação adaptada a diferentes públicos, combate à desinformação, capacitação de profissionais de saúde, acesso facilitado à imunização e ações específicas para gestantes.

Bolsonaro, o grande eleitor de Lula

Por O Estado de S. Paulo

O campo conservador precisa urgentemente libertar-se de Jair Bolsonaro, que elegeu Lula ao ungir Flávio como candidato e interditar o caminho para alternativas muito melhores

O responsável pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, contra todas as probabilidades, tem nome e sobrenome: Jair Messias Bolsonaro. Ao ungir seu inexpressivo filho Flávio como candidato a presidente, interditando o caminho para alternativas bem menos impopulares e mais promissoras no campo conservador, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o ex-presidente na prática deu a Lula o fôlego necessário para permanecer no poder, a despeito de fazer um péssimo governo e de não ter nenhum projeto para o País. A direita precisa urgentemente libertar-se de Jair Bolsonaro.

Fiel ao DNA paterno, Flávio não reconheceu a derrota para Lula e chegou a anunciar que pediria a anulação da eleição. Houve “sacanagem”, disse o rapaz, na linguagem de berço com que o clã trata a República. Na peculiar gramática dos Bolsonaros, o eleitor é soberano até escolher o adversário. Quando começou a campanha, Flávio vendeu-se como um “Bolsonaro moderado”, o que é um oxímoro evidente – afinal, os Bolsonaros se fizeram na vida pública graças à imoderação.

Felizmente, contudo, a oposição a Lula não depende de Jair Bolsonaro nem muito menos de Flávio, que em breve ficará desempregado e que terá de prestar contas à Justiça em razão das inúmeras suspeitas de corrupção que pesam contra ele. Vários partidos que se alinharam a Flávio no segundo turno aceitaram imediatamente a vitória de Lula e já se preparam para trabalhar com esse cenário. É assim que funciona numa democracia.

É claro que seria ingênuo imaginar que o bolsonarismo desaparecerá por encanto. O PL, partido dos Bolsonaros, terá no Congresso Nacional uma bancada robusta, formada por 121 deputados e 28 senadores. A força que elege familiares e sustenta governadores não se evapora numa derrota presidencial, mas a derrota de Flávio mostra os limites da vassalagem aos Bolsonaros. A direita precisa disputar os votos de milhões de eleitores conservadores, não entregar suas convicções em troca de uma autorização da família Bolsonaro para existir.

A eleição demonstrou que nem só de antipetismo vive o País. O antibolsonarismo tem força própria, e o clã se esmera em renová-la. Enquanto o PT explora a identificação abusiva entre sua permanência no poder e a sobrevivência da democracia, os Bolsonaros fornecem a ameaça real que torna esse expediente convincente. Em vez de libertar o País do lulopetismo, garantem-lhe sobrevida. Não se vencerá a chantagem petista repetindo o papel que o PT reserva aos adversários.

É nessa encruzilhada que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, fortalecido por sua acachapante reeleição, parece ter entendido seu papel. Ainda que tenha dado todo o apoio a Flávio Bolsonaro na campanha e no dia da eleição, Tarcísio, segundo relatos de bastidores, tentou convencer o candidato derrotado a aceitar o resultado e o desestimulou a pedir a anulação da eleição. Ontem, depois de alguma hesitação, o governador reconheceu a vitória de Lula, marcando posição diversa da de Flávio – que disse ser “impossível” aceitar o resultado.

Para ser a alternativa liberal, conservadora e democrática de que o País precisa, urge recusar esse golpismo bolsonarista de uma vez por todas. Ademais, reconhecer o eleito está longe de significar dar trégua ao governo. O Brasil precisará, e muito, de uma oposição firme, capaz de fiscalizar o Executivo, enfrentar o voluntarismo fiscal e a demagogia petista, defender o equilíbrio entre os Poderes e trabalhar por reformas. A democracia não é propriedade do PT, assim como a direita não é propriedade dos Bolsonaros. Tarcísio e outras lideranças da direita democrática terão de escolher entre construir uma alternativa de poder e administrar a dependência de uma família. A verdadeira “sacanagem”, para usar as palavras chulas de Flávio Bolsonaro, seria condenar o País a mais quatro anos desse cativeiro.

Politização do STF continua firme

Por O Estado de S. Paulo

A cogitada indicação de Pacheco como retribuição a Alcolumbre é um mau sinal. Lula não pode usar o Supremo como moeda de troca nem governar por intermédio de ministros leais a ele

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, agora reeleito, terá a oportunidade de redesenhar o Supremo Tribunal Federal (STF). Há uma vaga aberta desde a aposentadoria precoce de Luís Roberto Barroso, há um ano, e outras três deverão ser preenchidas ao longo do próximo mandato, com as saídas compulsórias de Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes. Ao final de 2030, portanto, Lula terá indicado sete dos onze integrantes da Corte, uma responsabilidade imensa.

Convém lembrar ao sr. presidente da República que a Constituição impõe dois requisitos de mérito aos indicados para a mais alta instância judicial do País: notável saber jurídico e reputação ilibada. Nenhum deles se confunde com lealdade política ou retribuição de favores, mas os primeiros sinais emitidos por Lula não são auspiciosos. No que depender do petista, o STF continuará político.

Ganhou força em Brasília a hipótese de Lula indicar o ex-senador Rodrigo Pacheco para a vaga de Barroso. Não se trata aqui, ao menos por ora, de avaliar as qualificações de Pacheco para o cargo, mas as circunstâncias em que seu nome é cogitado. O principal patrono da indicação do atual ministro do Tribunal de Contas da União, ex-presidente do Congresso, é o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que há meses defende o nome de Pacheco e manobrou pessoalmente para que a maioria dos senadores rejeitasse Jorge Messias, o escolhido de Lula.

Não é segredo para ninguém que Alcolumbre ajudou Lula a se reeleger ao pautar a votação da PEC do fim da escala de trabalho 6x1 às vésperas do segundo turno. Uma cadeira no Supremo como paga por esse empenho seria a confirmação, para quem ainda tenha dúvida, de que a composição da Corte é mesmo objeto de barganhas políticas.

Tampouco pode ser naturalizado o argumento de que Pacheco teria “boa articulação” com o Congresso, como circula nas esferas de poder. Ora, negociar com o Legislativo é tarefa intransferível do Executivo. Nestes tempos estranhos, as convenções andam meio nebulosas, de modo que algumas obviedades precisam ser escritas: um ministro do STF não pode ser escolhido para facilitar a vida do governo em um Congresso francamente oposicionista, mas sim para julgar com independência e autoridade moral e jurídica questões de natureza constitucional – inclusive contra os interesses de quem o indicou.

O Supremo tem de deixar de ser uma arena política. Em larga medida, a politização da Corte – vale dizer, ministros que se comportam como lobistas interessados nas lides políticas, que negociam, aconselham e jantam com quem julgam – é a causa raiz de seu profundo descrédito.

O eleitor, ao formar uma bancada no Senado com disposição de enquadrar o STF, deu um recado muito claro. Ademais, entre o primeiro e o segundo turnos, o tribunal praticamente sumiu do noticiário e das agendas de campanha. E isso ajudou Lula, cuja imagem sempre esteve associada aos ministros que representam o que há de pior na Corte. Reeleito, o presidente fará bem a si mesmo e ao País se extrair desses dois fatos as devidas lições.

Lula tem de romper com os ministros do STF que se deixaram rebaixar ao rés do chão e que usam a toga para encobrir seus malfeitos – alguns potencialmente criminosos. Seu quarto mandato não pode servir ao acobertamento de ministros que precisam urgentemente ser investigados pela suspeita de envolvimento com os negócios espúrios do Banco Master e de seu ex-dono, Daniel Vorcaro. A tentação será grande, mas Lula não pode substituir o esforço político para a construção de maiorias no Congresso por uma governabilidade de fancaria, sustentada por decisões monocráticas tomadas por ministros leais a ele, e não à Constituição. Mais bem dito: Lula não pode governar por meio do Supremo.

Se se afastar dos ministros sob suspeita, de forma inequívoca, altiva e republicana, Lula se aproximará não apenas do Congresso, mas da ampla parcela da população que, tendo ou não votado nele, está estarrecida com o mau caminho que parte do Supremo decidiu trilhar. Zelando pelas futuras indicações, Lula ainda ajudaria a própria Corte a sair do buraco em que ela se meteu, passo decisivo para a pacificação do País – impossível enquanto milhões de brasileiros olharem para o STF e enxergarem, com razão, uma trincheira política.

A obra sem fim

Por O Estado de S. Paulo

Ultimato do TCU sobre Angra 3 expõe o custo da indecisão sobre a usina nuclear

O Tribunal de Contas da União (TCU) deu um ultimato ao governo federal, cobrando uma definição sobre o destino de Angra 3. A obra segue em perpétua gestação desde 1984 e já consumiu bilhões de reais dos cofres públicos sem gerar um mísero miliwatt-hora de eletricidade para os brasileiros.

Agora, o tribunal determinou que o governo terá até 120 dias para reunir e analisar a documentação necessária e outros 120 para decidir se conclui ou abandona a usina nuclear jamais terminada. Ou seja, a indefinição que atravessou décadas pode mais uma vez ficar para um novo mandato presidencial que se inicia e que poderá estender ainda mais a novela.

Enquanto isso, a conta da indefinição só aumenta. Entre 2024 e meados de 2026, a Angra 3 custou R$ 2,5 bilhões à Eletronuclear, empresa responsável pela construção e pela futura operação da usina nuclear, entre a conservação das estruturas paralisadas e o pagamento de dívidas contraídas para financiar a obra. É dinheiro demais para manter um elefante branco encostado num país que mal consegue equilibrar suas contas. Pior: a paralisia já contamina outras empresas do setor nuclear.

Segundo o TCU, a Indústrias Nucleares do Brasil (INB), fornecedora exclusiva de combustível para Angra 1 e 2, registrou prejuízo de R$ 156 milhões em 2025, em parte por causa dos atrasos nos pagamentos da Eletronuclear. A indefinição sobre uma usina que não funciona ameaça, assim, a saúde financeira de atividades que funcionam.

Há quem defenda a continuidade do projeto sob o argumento de que a legislação de 2021 estabelece atribuições ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) para autorizar a exploração de Angra 3. Um exemplo é o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, que já prometeu planos para concluir a usina, mas não fez o que era preciso para isso.

Como este jornal já sustentou, o problema de Angra 3 não é a energia nuclear, que tem seu lugar numa matriz energética diversificada e pode gerar energia contínua para o País. É a incapacidade do poder público de resolver o que fazer com um empreendimento gigantesco, custoso e paralisado há anos. Desistir custa caro. Prosseguir também. E não há garantia de que os benefícios da conclusão compensem os sacrifícios exigidos no final.

Estudo do BNDES estimou em R$ 23,9 bilhões os recursos necessários para concluir a usina e entre R$ 21,9 bilhões e R$ 26 bilhões o custo de abandonar a obra e acabar com a operação. Dinheiro já desperdiçado não justifica desperdiçar ainda mais.

O TCU também já alertou para o risco de a energia de Angra 3 custar muito mais aos consumidores do que alternativas disponíveis.

O governo reeleito terá de lidar com a decisão que se arrasta por sucessivas administrações. Terá de fazer isso com transparência e, principalmente, responsabilidade fiscal, sem deixar que a conta final de escolhas ruins caia no colo do consumidor. Angra 3 não pode continuar sendo uma promessa de geração de energia cuja única produção garantida é a de novas despesas. Afinal, a conta de luz do brasileiro já está salgada demais.

Alto investimento externo não garante elos com cadeias globais

Por Valor Econômico

Países da América Latina têm um estoque de IED muito superior ao dos emergentes da Ásia e da Europa, mas têm menor presença nas cadeias globais

As economias latino-americanas, e o Brasil como a maior delas, vivem um paradoxo em relação aos países emergentes de Ásia e Europa. O investimento externo direto (IED) na região, impulsionador de exportações e de integração com as cadeias de produção globais, cujo estoque é de US$ 3 trilhões, soma 44% do PIB (46% no Brasil), uma fatia muito superior aos 25% dos emergentes da Ásia e 21% da Europa. Mas a expansão de seu comércio externo e suas ligações com as cadeias integradas de valor são baixas, bem inferiores às de seus congêneres em outros continentes. Uma das principais explicações é que as multinacionais que investem nesses países voltam-se mais para o mercado doméstico do que para ampliação das vendas externas. Ademais, a disseminação de suas vantagens produtivas, tecnológicas, gerenciais e logísticas para as empresas locais é pouco intensa, e não por sua responsabilidade, avalia um capítulo do Panorama da Economia Regional do Hemisfério Ocidental, do Fundo Monetário Internacional (FMI).

A primeira constatação é que o volume de investimento externo direto por si só não determina o grau de integração comercial possível. Um bom motivo para isso é que boa parte dos investimentos concentra-se no setor primário, em agricultura e mineração. Este, no entanto, não é o caso do Brasil, onde há predominância de investimentos em serviços (quase 50%) e manufatura (pouco mais de 40%). A maior lacuna se dá exatamente na manufatura, exatamente onde deveria haver maior complementaridade entre investimento externo direto (IED), orientação exportadora e produção de bens comerciáveis, segundo os economistas do FMI. Além disso, a baixa capacidade de inovação, de absorção de tecnologia e de logística do comércio parecem estar por trás da maior parte da fraca resposta exportadora ao IED.

As condições da economia doméstica conformam essa fraqueza. As multinacionais instaladas na região realizam 81% de suas vendas nos mercados domésticos — a proporção é ainda maior no Brasil e Argentina — , em comparação com 48% das asiáticas. “Se o IED ocorre para atender a demanda doméstica”, registra o documento, “ele pode substituir importações em vez de expandir o comércio”. Um relacionamento forte entre múltis, filiais e firmas domésticas necessita de redes de fornecedores confiáveis, logística eficiente, mão de obra capacitada, acesso financeiro eficaz e segurança jurídica. “Fragilidades nessas áreas limitarão a extensão pela qual o IED se traduzirá em fortes exportações”, aponta o FMI.

A abertura comercial e de investimentos, segundo os economistas, influencia o volume e o tipo de recursos que são atraídos para o país: são o canal pelo qual fluem capitais, tecnologias, know-how gerencial e ligações com cadeias internacionais de produção. O ecossistema econômico doméstico, por outro lado, é determinante para que estes fluxos sejam convertidos em abastecimento doméstico, produtividade, exportações e crescimento. São duas as limitações: se o canal de comércio e investimentos é parcialmente fechado, parte do fluxo não alcança uso produtivo. Quando há restrições no ecossistema, o fluxo que chega não é totalmente aproveitado.

Essa relação assume também outra forma. O IED propicia em geral maior fluxo de exportação e importação com o país de origem. E o fortalecimento desses laços comerciais, por outro lado, traz mais investimentos. Esses efeitos não são vigorosos nas economias latino-americanas. Um exercício contrafactual, em que as relações entre IED e exportações têm o mesmo peso que nas economias emergentes de Ásia e Europa, indicou que as exportações agregadas da região seriam 20% superiores, com os principais ganhos ocorrendo nos bens intermediários (vendas 54% maiores) e na manufatura pesada (mais 23%).

Onde estão as maiores falhas que impedem que a manufatura traduza em exportações os investimentos produtivos vindos do exterior? Para o FMI, as fracas inovação e absorção de tecnologia fazem 30% da diferença em relação às demais emergentes, e a infraestrutura e a logística do comércio, 23%. No primeiro caso, firmas domésticas têm de ser capazes de “aprender, adotar e adaptar tecnologias e práticas de negócios das multinacionais”. Mas isso não é suficiente. Mesmo que façam tudo certo, custos dos transportes, atrasos aduaneiros e infraestrutura deficiente “enfraquecem a capacidade de participar de cadeias regionais e globais de valor”.

As soluções para alguns desses problemas são conhecidas. Para os economistas do FMI, há políticas prioritárias. Uma delas é reduzir barreiras ao comércio, em especial de bens intermediários, tornar as regras de investimentos previsíveis, fazer amplo uso de acordos comerciais e reduzir os custos do comércio regional. Para o FMI o histórico de ganhos de produtividade na região é “cronicamente desapontador”, entre outras coisas pelo investimento insuficiente em capital físico e humano, adoção limitada de tecnologia e inovação e baixo dinamismo empresarial. Por isso, o crescimento do Brasil e o de seus vizinhos têm sido menor que o de outras regiões nos últimos anos.

O desafio do cenário internacional

Por Correio Braziliense

A história das relações internacionais está cheia de exemplos de países que separaram o que seus governantes sentem do que seus interesses exigem

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganhou a eleição no domingo. Na segunda-feira, o presidente dos EUA, Donald Trump, e o da Argentina, Javier Milei, ainda não haviam parabenizado Lula. Ontem, Flávio Bolsonaro desapareceu do Brasil e embarcou rumo aos Estados Unidos, depois de ter sido intimado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a entregar os passaportes. 

O não reconhecimento de Trump e Milei não é acidental. Os dois apoiaram Flávio Bolsonaro durante a campanha e, agora, escolheram ignorar Lula como forma de sinalizar desconforto com o resultado. O desafio a ser enfrentado pelo presidente reeleito é administrar esse coquetel sem deixar que as animosidades pessoais entre chefes de Estado contaminem as relações entre países. 

Brasil e Estados Unidos são parceiros comerciais estratégicos — e, não custa lembrar, o tarifaço de 25% ainda está em vigor, com negociações em andamento. Brasil e Argentina compartilham fronteira, integram o Mercosul e têm uma interdependência econômica que nenhum dos dois pode ignorar por questões de simpatia política. A história das relações internacionais está cheia de exemplos de países que separaram o que seus governantes sentem do que seus interesses exigem. Essa capacidade de distinção será testada nos próximos meses.

A diplomacia brasileira terá que operar nos próximos meses em território hostil com instrumentos conhecidos: canais técnicos, interlocução por vias secundárias, paciência estratégica e a clareza de que relações de Estado não se resolvem em redes sociais nem se medem pelo tom de um post não publicado. Lula tem experiência nesse terreno: em seu primeiro mandato, construiu pontes com governos de perfis muito distintos. A diferença agora é que o ambiente internacional é mais fragmentado, as tensões mais explícitas e a janela para erros, menor. 

Há, ainda, uma dimensão institucional que não pode ser negligenciada. Se a permanência de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos se confirmar como um fator de tensão, o governo brasileiro terá de evitar que questões judiciais sejam convertidas em instrumentos de pressão política ou moeda de troca diplomática. Cabe às autoridades competentes conduzir as investigações e fazer cumprir as decisões judiciais, respeitados os procedimentos legais. Ao Executivo, por sua vez, compete defender a soberania nacional e buscar a cooperação internacional necessária, sem permitir que disputas partidárias ditem os rumos da política externa.

Também seria um erro interpretar a postura de Milei e de Trump como prova de que toda a relação com seus países está comprometida. Governos passam, interesses permanecem, e a diplomacia dispõe de mecanismos para atravessar períodos de hostilidade. Mas a defesa desses interesses exige reciprocidade, firmeza e pragmatismo. Lula não precisa conquistar a simpatia de Trump ou Milei, tampouco responder a provocações na mesma moeda. Precisa, sim, deixar claro que o Brasil está disposto ao diálogo, mas não aceitará que divergências políticas se sobreponham ao respeito institucional e à autonomia de suas decisões. A moderação, nesse contexto, não deve ser confundida com fraqueza.

O mundo continua girando com as mesmas contradições de antes. O que muda é que agora cabe ao governo recém-confirmado navegar essas contradições com habilidade suficiente para proteger os interesses do país, sem transformar cada tensão diplomática numa crise desnecessária.

Derrotado, Flávio Bolsonaro abandona aliados

Por O Povo (CE)

Partido de Flávio, o PL, reconheceu a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como também o fizeram países do mundo inteiro, à esquerda e à direita

A saída de Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil, rumo aos Estados Unidos, dois dias após ser derrotado nas eleições presidenciais, mostra a dimensão do problema do qual o Brasil se livrou, caso ele assumisse a Presidência da República. A suspeita de fuga em direção aos EUA foi confirmada à agência Reuters por um aliado próximo a Flávio e por uma autoridade americana.

É difícil encontrar paralelo, pelo menos em países democráticos, de um candidato que não aceita o resultado das urnas, avisa que vai pedir o cancelamento da eleição ou a cassação da chapa vitoriosa, sem apresentar uma única evidência de fraude que justifique a iniciativa. A verdade é que o próprio partido do candidato derrotado, o PL, reconheceu a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), afora países do mundo interior à esquerda e à direita, que agiram de igual maneira.

Pouco antes de fugir, Flávio jurava que o seu objetivo era reorganizar a oposição para fazer frente ao novo mandato do presidente Lula. Mas, ato seguinte, abandonou seus aliados e correligionários, sem dar explicações, dando um exemplo de covardia política.

Indicativo de que Flávio não se conformava, de maneira alguma, com a derrota acachapante que sofreu, foi demonstrado ainda no domingo, quando leu um curto comunicado dizendo ser "impossível" reconhecer o resultado das urnas. O senador referia-se à extensão do horário da votação, pedido que sua campanha também fizera ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O sumiço de Flávio Bolsonaro aconteceu após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), ter mandado reter os passaportes do senador, impedindo-o de sair do País. Flávio disse que entregaria os documentos, pois nunca havia cogitado deixar o País. No entanto, nesta terça-feira, quando venceu o prazo para entregar os passaportes, ele evadiu-se para o exterior.

A decisão de Moraes deu-se na investigação sobre lavagem de dinheiro, na qual também está implicado o advogado Willer Thomaz, com quem o STF proibiu o candidato derrotado de manter contato. Flávio afirma ser um "perseguido político", mas fato é que ele responde por crimes comuns, sem qualquer cerceamento ao seu direito de defesa.

A fuga de Flávio Bolsonaro autoriza a conclusão de que a candidatura dele à presidência destinava-se unicamente a um projeto pessoal, de livrar-se da das investigações que podem levá-lo à prisão, caso se comprovem as acusações as quais responde na Justiça.

Flávio segue assim o exemplo de outros bolsonaristas, mas nenhum tão destacado quanto ele, que fogem vergonhsamente para o exterior quando são chamados a responder pelos seus atos.

Um comentário:

Anônimo disse...

O mercado ficou estressado com a reeleição do Lula... O sábio Mercado queria o PINÓQUIO como presidente!!!