Campanha deixa de lado temas essenciais ao país
Por O Globo
Com profusão de ataques pessoais, faltou
debate sobre Previdência, ajuste fiscal e reocupação de territórios
Com a campanha eleitoral perto do fim, fica claro que candidatos, marqueteiros e estrategistas deixaram fora da propaganda e do debate temas fundamentais para o próximo governo. Assuntos inexoráveis como a deterioração das contas da Previdência, a necessidade de um ajuste fiscal robusto e propostas concretas para combater o crime organizado para além do populismo penal foram omitidos ou abordados de forma superficial pelas campanhas do senador Flávio Bolsonaro (PL) e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Sucumbindo à profusão de ataques pessoais, ambos ficaram devendo ao eleitor.
É injustificável que um debate sério sobre a
Previdência tenha passado em branco. A situação crítica das contas do INSS
deveria ensejar preocupação. Enquanto a média anual de contribuintes subiu 1,2%
entre 2015 e 2025, os beneficiários aumentaram 1,9% ao ano, como mostrou
reportagem do GLOBO. Não é preciso muito esforço para perceber que os números
não fecham, especialmente num cenário de envelhecimento populacional. Decisões
recentes, como o pacote de bondades para microempreendedores individuais (MEIs)
ou a aprovação de aposentadoria especial para agentes de saúde e endemias,
agravarão o problema. “É necessário um debate mais profundo a respeito do
financiamento da Previdência a médio e longo prazos”, diz o economista Rogério
Nagamine.
Na proposta orçamentária para 2027 enviada ao
Congresso, a despesa com benefícios foi projetada em R$ 1,4 trilhão e representa
metade dos gastos primários do governo. É consenso que a reforma da Previdência
de 2019 já não é suficiente para tornar o regime sustentável. Cedo ou tarde,
outra reforma terá de entrar na pauta. Infelizmente, os candidatos fazem cara
de paisagem diante de um desafio que só tende a piorar a cada dia que passa.
Não foi o único tema deixado de lado numa
campanha de muitos ataques e poucas propostas. O ajuste fiscal também tem sido
tratado com desdém. Não é verossímil que tanto Lula quanto Flávio ignorem a situação
dramática das contas públicas. A questão deveria estar no centro das discussões
sobre o próximo governo. Mas não. Além de não se comprometerem com medidas de
austeridade, os dois não param de anunciar programas e iniciativas populistas
que gerarão mais despesas, ampliando o rombo nas finanças públicas.
Mesmo a segurança, aparentemente tema de
destaque nas campanhas, vem sendo tratada de forma rasa, com base em achismos e
frases de efeito e sem o menor amparo em evidências e estudos científicos. Será
preciso muito mais para livrar o país do domínio nefasto de organizações
criminosas que controlam grandes extensões do território das cidades. É
necessário apresentar planos e estratégias consistentes de reocupação e combate
a tais grupos, para além do rigor penal e do aceno a categorias de agentes de
segurança.
Políticos não gostam de tocar em temas
sensíveis com medo de perder votos, mas há questões incontornáveis na agenda.
Um dos dois postulantes governará o país a partir de 2027, e o eleitor tem o direito
de saber o que planeja. Seria lamentável que as respostas viessem só depois da
eleição. Os candidatos terão hoje, no debate da TV Globo, uma última chance
para evitar ataques pueris, apresentar suas propostas e esclarecer a população
sobre tudo o que deixaram de lado ao longo de semanas. Devem aproveitá-la.
Nova concessão do Galeão é prova do êxito da
privatização dos aeroportos
Por O Globo
Mesmo num caso extremo em que concessionária
desistiu do contrato, modelo demonstrou robustez na troca
A substituição da estatal Infraero por
empresas privadas na gestão dos aeroportos brasileiros tem se revelado um
acerto ao permitir investimentos com que o Estado seria incapaz de arcar. Não
faltam exemplos bem-sucedidos de ampliação ou criação de novos terminais, como
nos aeroportos internacionais de São Paulo ou Brasília. Mesmo nas concessões
que enfrentam percalços, o modelo tem demonstrado robustez, permitindo mudanças
para assegurar o melhor serviço. Não há melhor exemplo que o Aeroporto
Internacional Tom Jobim/Galeão, no Rio de Janeiro, cuja gestão acaba de ser
assumida pela espanhola Aena, com promessa de R$ 1 bilhão em investimentos nos
próximos três anos.
Em 2013, quando o terminal foi leiloado pela
primeira vez, ganhou a licitação o consórcio formado por Odebrecht e Changi,
operadora de Cingapura. Em 2017, a Odebrecht vendeu sua participação à Changi.
A expectativa de faturamento foi frustrada com o esvaziamento do terminal,
resultado não apenas da pandemia, mas sobretudo do desequilíbrio com o
Aeroporto Santos Dumont, cuja sobrecarga exigiu das autoridades medidas de
restrição de voos que permanecem em vigor. Em 2022, o consórcio pediu para
devolver o Galeão. Em 2025, a Changi repassou parte de suas ações a fundos da
brasileira Vinci Compass. Diante das medidas de restrição no Santos Dumont e da
perspectiva de termos mais favoráveis, as duas decidiram concorrer juntas no
novo leilão, vencido pela Aena no primeiro semestre. A Agência Nacional de
Aviação Civil e o Tribunal de Contas da União participaram das negociações para
a repactuação do contrato até o vencimento da concessão em 2039.
A operação bem-sucedida de troca da concessionária
demonstrou a flexibilidade que o Estado e as operadoras ganharam para enfrentar
uma situação extrema: um investidor que deseja sair do negócio. Durante o
monopólio da Infraero, os terminais se deterioravam sem que nada pudesse ser
feito. A capacidade de lidar com tal situação é a melhor prova do acerto do
programa de privatização de aeroportos.
O êxito está refletido em diversas pesquisas de satisfação junto a usuários dos aeroportos antes e depois da privatização. Até hoje, foram realizadas sete rodadas de leilões, envolvendo 59 terminais, com arrecadação estimada em R$ 57,6 bilhões em outorgas, pagas ao longo das concessões. O que era fonte de problemas para o governo tornou-se fonte de receita. Mais do que isso, foi equacionada a falta de investimentos. Com a venda bem-sucedida do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, também à Aena, a Infraero passou a administrar 22 aeroportos regionais, a maioria deficitários — a exceção é o Santos Dumont. A boa experiência com as concessões deve inspirar estudos para avaliar o que ainda vale a pena manter em mãos do poder público. Como regra, a iniciativa privada tem se revelado mais competente. Sobretudo, é um alento que a privatização tenha se consolidado como política de Estado, independentemente da orientação partidária de quem está no poder.
Kassio e Mendonça enxergam TSE como arma de
censura
Por Folha de S. Paulo
Ministros fizeram circular na corte minuta de
resolução que teria como principal alvo o canal 'Exército do Lula'
Iniciativa foi abandonada após revelação do
caso pela Folha; Justiça Eleitoral precisa abandonar sua pretensão de tutelar a
opinião pública
Menos mau que o presidente do Tribunal
Superior Eleitoral, Kassio Nunes
Marques, tenha descartado a ideia de bloquear canais políticos de
WhatsApp às vésperas do segundo turno. O recuo, porém, não eliminou o espanto
com a desfaçatez de mais essa iniciativa censória e partidária da corte.
Como revelou
a Folha, Kassio e seu colega André Mendonça
circularam no tribunal uma minuta de resolução para suspender, nas 48 horas
anteriores à votação, todos os canais de conteúdo político-eleitoral com mais
de 200 mil seguidores. A regra entraria em vigor tão logo fosse publicada.
Em tese de caráter geral, a norma tinha um
alvo bem definido: o assim chamado "Exército do Lula",
criado pelo deputado federal André Janones
(Rede-MG) para apoiar o petista, que já recrutou mais de 7 milhões de usuários.
A correspondente "Tropa do Flávio"
também seria afetada, mas o grupo do candidato do PL é consideravelmente menor
—cerca de 2 milhões de inscritos— e demonstra menos engajamento. Salta aos
olhos a desproporção da medida, encabeçada por dois ministros nomeados pelo
então presidente Jair Bolsonaro
(PL).
Após a divulgação do plano, Kassio
declarou-se contrário a mudanças de última hora nas regras do pleito e atribuiu
a autoria do texto a Mendonça. Este, por sua vez, negou que tenha sido
iniciativa individual e afirmou que a proposta dependia de deliberação
colegiada. Acrescentaram pusilanimidade ao despautério.
Conforme nota técnica enviada ao TSE por um
grupo de mais de cem juristas, pesquisadores e líderes da sociedade civil, o bloqueio
dos canais de WhatsApp configuraria restrição à liberdade política e alteraria
significativamente as condições da disputa.
De forma mais direta, especialistas ouvidos
pela Folha classificaram
a medida como inconstitucional, por ferir a liberdade de expressão e
de reunião no ambiente digital. E tudo com base na pressuposição de que as
pessoas cometeriam algum ilícito eleitoral. Ou seja, o que se buscava era a
nunca defensável censura prévia.
Eventuais ilegalidades —e isso deveria ser
óbvio para ministros de uma corte superior— devem ser demonstradas e combatidas
a posteriori, com reações proporcionais. Suprimir preventivamente um canal de
comunicação não só pune manifestações lícitas mas também priva cidadãos de
informações antes de irem às urnas.
Para piorar, Kassio nem é neófito nesse
mister. Neste mesmo mês, ele se dispôs
a derrubar o canal de Janones sem que houvesse respaldo suficiente
para as irregularidades alegadas. Sua decisão foi revertida pelo relator do
caso, mas o dano estava feito, sobretudo para a imagem do TSE.
A Justiça
Eleitoral precisa zelar por sua equidistância do pleito, sem
permitir que suas iniciativas favoreçam quem quer que seja. E precisa, mais do
que nunca, abandonar sua pretensão de tutelar a opinião pública, de modo que os
eleitores possam exercer plenamente o direito ao voto livre.
Protestos se alastram pela Europa
Por Folha de S. Paulo
Crise fiscal e aumento do custo de vida
impulsionam manifestações que se espalham por ao menos sete países
Movimento torna-se alvo do oportunismo de
forças políticas radicais; europeus têm dificuldade em assimilar a
incontornável restrição orçamentária
O esgotamento da era de crescimento pujante
da Europa
e de maiores gastos com bem-estar social subjaz à onda de protestos que se
espalha por ao menos sete países da região governados por partidos de
diferentes matizes ideológicos.
Na França,
manifestações iniciadas em meados de setembro por estudantes que reclamavam de
falta de recursos e de professores ganharam adesão de diversos setores que se
opõem à expansão do custo de vida. Desde segunda (19), toques de
recolher são adotados em diversas cidades.
Na Espanha,
a partir do final de setembro, após o despejo de uma idosa em Madri, a
população foi às ruas contra a alta dos preços dos aluguéis. Desgastado pela
rejeição do Parlamento a seu projeto sobre moradias, o governo socialista de Pedro Sánchez
antecipou as
eleições legislativas para o dia 29 de novembro, mesmo sob risco de
vitória da ultradireita.
Nas últimas semanas,
manifestações eclodiram ou se intensificaram em Bélgica,
Itália,
Portugal,
Albânia
e Grécia,
num movimento que sinaliza fragilidade dos governos e oportunismo de setores
políticos radicais.
Na França, a onda de protestos atraiu o apoio
da extrema esquerda de Jean-Luc Mélenchon, mas suas cenas de vandalismo têm
sido capitalizadas pela ultradireita de Marine Le Pen.
Ambos são pré-candidatos à sucessão de Emmanuel
Macron nas eleições de 2027.
O fenômeno indica, ainda, a dificuldade da
cidadania europeia em assimilar a incontornável restrição orçamentária. E, se a
estrutura econômica do continente não mais responde aos anseios da sociedade, a
atual conjuntura geopolítica em nada alivia o conflito político-social latente.
Por pressão dos Estados
Unidos e da guerra na Ucrânia,
os países europeus da Otan
se comprometeram a elevar os gastos com defesa e segurança a 5% do PIB até 2035. A
guerra dos EUA contra o Irã impulsiona
as altas da inflação
e dos juros,
que penalizam famílias e setores produtivos e sufocam países com dívidas
elevadas —nos casos de França, Espanha, Bélgica e Itália, acima de 100% do PIB.
A desilusão popular é compreensível e o
direito de protestar deve ser preservado, observando-se a necessidade de
garantir a segurança de todos os cidadãos e a integridade do patrimônio
público.
A crise fiscal europeia, agravada pelo envelhecimento populacional, por óbvio exige ações de longo prazo. O risco mais imediato para o continente, e também para o mundo, é a exploração oportunista dos protestos por forças políticas notadamente pouco comprometidas com o Estado democrático de Direito.
O TSE e a tentação da censura
Por O Estado de S. Paulo
Mesmo sem avançar, a ideia de bloquear canais
de teor político no WhatsApp revela o espírito censório de ministros do TSE e o
velho cacoete de tratar o eleitor como incapaz
Felizmente não prosperou, ao menos por ora, a
ideia de bloquear certos canais de WhatsApp nas 48 horas que antecedem o
segundo turno. Mas a mera cogitação desse ato autoritário no Tribunal Superior
Eleitoral (TSE) já é grave por si só. E diz muito sobre o espírito censório que
anima alguns ministros de uma corte encarregada de zelar pela integridade das
eleições, não de decidir o que os cidadãos podem ou não discutir.
Os ministros trataram do assunto em duas
reuniões, nos dias 16 e 20 passados, e coube ao vice-presidente do TSE, André
Mendonça, redigir uma minuta de resolução. O texto alteraria a Resolução 23.610
para permitir o bloqueio de canais de WhatsApp com mais de 200 mil inscritos
que veiculem “conteúdo político-eleitoral”. O despautério só não foi adiante
porque não houve adesão da maioria. O presidente da corte, Kassio Nunes
Marques, disse ao Estadão
ser contrário a “alterações de última hora” das regras eleitorais, de resto
ocioso por vedação legal. Mas a tal minuta não foi para a lata do lixo, seu
lugar. O gabinete de Mendonça informou que o texto segue em “discussão
interna”.
Não se pode condenar quem desconfie das
intenções de Mendonça. O canal “Exército do Lula”, administrado pelo deputado
André Janones (Rede-MG), já ultrapassou 8 milhões de inscritos, quatro vezes o
tamanho do canal “Tropa do Flávio”, criado pelo deputado Nikolas Ferreira
(PL-MG). Mendonça e Nunes Marques foram indicados ao Supremo Tribunal Federal
(STF) por Jair Bolsonaro. E não é de agora que suas decisões no TSE favorecem
escancaradamente a campanha de Flávio Bolsonaro (PL). O próprio “Exército do
Lula” chegou a ser suspenso por ordem de Nunes Marques, decisão depois
revertida.
Este jornal já denunciou o ativismo explícito
de alguns ministros do STF e do TSE em prol da campanha petista (ver editorial Juízes fazem o diabo para ajudar Lula,
2/10). O vício que ora apontamos é o mesmo, apenas em sentido contrário.
Mendonça sustenta que os critérios para
proibir canais de WhatsApp que tratem de política às vésperas da votação são
“objetivos e impessoais”, e que o propósito é proteger a integridade do pleito
quando não há tempo para corrigir conteúdos ilícitos. Ora, o que se propôs é
calar o debate público por antecipação, prática vedada pela Constituição. Sua
Excelência, ademais, não está em posição de presumir a má-fé dos integrantes
desses canais, inferindo que por lá possam circular conteúdos potencialmente
criminosos. É tão explícito o vezo autoritário que a minuta não mira
especificamente conteúdos ilícitos, e sim políticos.
Caso vingasse o desatino, quem haveria de
determinar o que é um conteúdo “político” e como a mensagem poderia tisnar a
paridade de armas entre os candidatos? Estaria escancarada a porta para o
arbítrio togado. Uma publicação sobre segurança pública, Bolsa Família ou o
próprio TSE seria considerada “política”? A resposta ficaria sob o crivo de
quem aplica a regra. Não há nada de objetivo ou impessoal nisso. É censura em
estado puro.
Ademais, lembremos que a adesão a um canal de
WhatsApp é voluntária. Ninguém é exposto a seu conteúdo por obra de algoritmo
ou impulsionamento pago. O cidadão escolhe seguir o administrador do canal,
recebe o que ele publica e deixa de segui-lo se e quando quiser. Não é dado à
Justiça Eleitoral decidir o que esse cidadão pode ler a poucas horas de ir à
urna. Se aprovasse o bloqueio, o TSE estaria decidindo que a sociedade não pode
discutir o que quiser nem se organizar como quiser, com as ferramentas
tecnológicas de que dispõe, para tratar de política justamente nas horas mais
decisivas de uma eleição. Isso seria de um autoritarismo tão vulgar que o recuo
poupou o TSE de um vexame.
Há ainda o calendário. A Lei das Eleições
determina que as instruções do TSE para um pleito sejam expedidas até 5 de
março do ano eleitoral, de modo que candidatos, partidos e eleitores conheçam
de antemão as regras do jogo. Mudá-las a horas da votação seria pisotear a
mesma lei que a corte tem o dever de fazer cumprir.
Ainda bem que houve quem pusesse a mão na
consciência e barrasse o despautério. Mas o simples fato de uma ideia desse
jaez ter chegado ao papel revela que a tentação da censura segue viva no TSE,
que não se liberta do velho cacoete de tutelar o eleitor, como se este fosse
incapaz de discernir o que lê.
O nó da baixa produtividade
Por O Estado de S. Paulo
Enquanto outros emergentes avançaram, o Brasil preservou barreiras que travam a competição e encarecem a produção. Derrubá-las é condição para elevar renda e ampliar oportunidades
Em meados dos anos 1980, Brasil e Coreia do
Sul tinham níveis próximos de produtividade por hora trabalhada. Em 2023, a
Coreia já produzia cerca de 2,7 vezes mais por hora. No Uruguai, a produção por
hora era quase o dobro da brasileira. A distância tem uma história: outras
economias emergentes, sobretudo no Leste Asiático, avançaram, enquanto o Brasil
não conseguiu sustentar sua convergência.
O atraso convive com realizações notáveis.
Segundo a FGV, entre 1995 e 2024 a produtividade por hora da agropecuária
cresceu, em média, 5,8% ao ano, enquanto a da indústria de transformação recuou
0,9%. O contraste revela uma economia capaz de grandes avanços, mas sem
dinamismo disseminado. O que impede que a eficiência se espalhe pelo restante
da economia?
Parte da resposta está nas regras que
condicionam as decisões empresariais. A proteção comercial costuma ser
apresentada como benefício ao produtor nacional. Mas há empresas que precisam
importar máquinas e componentes. Ao encarecer insumos importados, uma tarifa pode
favorecer um fornecedor e prejudicar muitas empresas que dependem dele para
investir e competir. Pesquisas sobre a abertura brasileira dos anos 1990
mostram que a redução das tarifas de insumos contribuiu para elevar a
produtividade das firmas. A proteção concedida numa ponta da cadeia impunha
custos à outra.
O efeito das regras ultrapassa as alfândegas.
Indicadores da OCDE apontam barreiras regulatórias elevadas à entrada de
empresas e à concorrência no Brasil. Exigências injustificadas, tratamentos
especiais e vantagens prolongadas distorcem as condições da disputa. Mesmo uma
empresa capaz de produzir melhor pode encontrar dificuldades para ingressar num
mercado ou ampliar suas operações, enquanto concorrentes estabelecidos
preservam posições protegidas.
Assim, uma distorção empresarial pode
comprometer o resultado nacional. Uma firma eficiente que cresce alcança mais
consumidores e pressiona concorrentes a melhorar. Novos negócios introduzem
técnicas e maneiras de organizar a produção, enquanto capital e trabalho
encontram oportunidades de maior valor. A produtividade do País depende tanto
dos ganhos obtidos dentro de cada empresa quanto da possibilidade de as mais
eficientes ampliarem sua participação. Barreiras à entrada e à competição
estreitam esses caminhos.
Regras melhores, porém, precisam encontrar
capacidade de resposta. Máquinas exigem trabalhadores preparados, e novas
técnicas dependem de gestão e de pesquisa para adaptá-las. Educação eficaz,
infraestrutura e segurança jurídica são responsabilidades de um Estado que
favorece a iniciativa privada ao oferecer condições para que ela produza. Esses
bens públicos merecem tratamento distinto dos favores seletivos concedidos sem
demonstração de resultados. Cada intervenção deve ser julgada pelos benefícios
efetivos, custos e alternativas.
A transformação também impõe perdas
concentradas. Estudos sobre a abertura dos anos 1990 identificaram regiões onde
os efeitos negativos relativos sobre emprego e renda persistiram por décadas.
Trabalhadores e famílias podem não encontrar novas ocupações na mesma
velocidade com que mudam tarifas e regulações. As reformas precisam prever
proteção temporária e caminhos reais de recolocação, com formação vinculada à
demanda e avaliação dos resultados. Proteger famílias exige enfrentar os custos
da transição, sem perpetuar empresas improdutivas e privilégios como
instrumento de assistência.
Para voltar a crescer com produtividade, o
Brasil precisa mudar as recompensas que oferece. Barreiras e subsídios devem
ser confrontados com seus custos, benefícios e efeitos sobre a concorrência.
Vantagens injustificadas precisam ser revistas. O acesso a insumos e
tecnologias deve abrir espaço ao investimento, enquanto o Estado entrega os
bens públicos necessários para aproveitá-los. Numa economia em que empresas
cresçam por servir melhor aos consumidores, os ganhos de eficiência terão mais
condições de se transformar em renda e oportunidades. É assim que o Brasil
poderá encurtar a distância que o separa das economias mais prósperas.
A opção pela civilização
Por O Estado de S. Paulo
Após a PM matar 3 cidadãos em surto, Tarcísio
anuncia que o treinamento será revisto
O governador de São Paulo, Tarcísio de
Freitas, anunciou que a Polícia Militar (PM) vai rever os procedimentos
adotados quando os integrantes da tropa forem chamados para ajudar cidadãos em
surto. O governador fez o anúncio depois que uma mulher armada de uma faca e em
suposto surto foi morta por um policial numa abordagem da PM na zona norte de
São Paulo. Em menos de 15 dias, foi o terceiro caso de morte durante uma
abordagem policial que envolvia um cidadão em sofrimento psíquico. Logo, diante
da reincidência de episódios tão graves em que inocentes perderam a vida, a
revisão do treinamento dos PMs era um imperativo.
A decisão do governador foi uma correção de
rota. Depois que um rapaz de 20 anos foi morto pela PM com 27 tiros (foram
disparados 45) porque a polícia pensou que seu celular fosse uma arma, no dia
10 passado, o secretário da Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, disse
que os policiais haviam seguido os protocolos. Em suas palavras: “A gente
lamenta, mas foi uma ação legítima dos policiais, né? (...) Não está nada fora
do protocolo”.
Os protocolos, no entanto, contam outra
história. Ao que se sabe, atirar para matar deve ser sempre o último recurso. O
uso da força deve ser progressivo e proporcional à ameaça real. Se for o caso
de atirar, o policial deve dar no máximo dois tiros em regiões não vitais e reavaliar
a situação. Se for uma ocorrência com um cidadão em surto, como parecia ser o
caso, o protocolo da PM manda manter distância segura, dialogar com calma e, se
preciso, usar armas não letais. Os 45 tiros disparados mostram que os policiais
não foram treinados segundo esses protocolos – o que não surpreende, porque nem
o secretário da Segurança Pública parece conhecê-los.
Tarcísio, contudo, adotou um tom distinto. O
governador reconheceu a gravidade dos episódios e revelou que a alta cúpula do
governo e da PM está conversando e refletindo sobre o treinamento da tropa,
para “impedir que excessos aconteçam”. E foi taxativo: “A gente está atento a
essa questão e vê a necessidade, sim, de rever o procedimento”.
Felizmente, o governador chamou a responsabilidade
para si, desautorizando, na prática, qualquer sinal de leniência, ainda que não
intencional, com o desvio de comportamento de maus policiais. Mesmo destacando
a necessidade de analisar caso a caso, porque “tem situações em que você tem
uma ameaça caracterizada, outras não” e porque “o policial está ali, tem que
defender a sua própria vida também”, Tarcísio deixou claro que não permitirá
que prospere uma cultura de tolerância com a violência excessiva da PM, em nome
da segurança pública.
A melhor segurança pública é aquela feita em estrito respeito aos limites legais e às regras civilizatórias. Exageros acontecem, pois mesmo os melhores policiais cometem erros, mas três casos em sequência de mortes de inocentes a tiros por policiais podem indicar um preocupante padrão. Nesse sentido, portanto, as providências anunciadas pelo governador Tarcísio são absolutamente necessárias.
Economia brasileira tem risco de estagnação
em 2027
Valor Econômico
Há duas forças empurrando a atividade econômica para baixo, a taxa de juros ainda muito elevada e a grande inadimplência das famílias
A economia brasileira praticamente não
cresceu no terceiro trimestre do ano. Boa parte das previsões de analistas e
consultorias aponta uma variação apenas marginal, positiva ou negativa, do
Produto Interno Bruto (PIB) no período. Os indicadores do IBGE sobre o
desempenho da indústria e do comércio foram negativos em agosto, e as projeções
feitas com indicadores antecedentes sugerem que não houve reação significativa
em setembro. No ano, o PIB deve crescer 2% ou menos, com perspectiva de um
resultado menor em 2027, em torno de 1,5%, com algum viés de baixa.
No boletim Focus, o crescimento está em baixa
acentuada. A mediana das projeções indica evolução de 1,83% do PIB no ano e um
desempenho bastante pior em 2027, de 1,32%, com reduções consecutivas nas últimas
três semanas. Há duas forças empurrando as atividades econômicas para baixo. A
taxa de juros continua muito elevada e mostra agora todo seu poder restritivo.
Aos poucos, com o aperto monetário, o consumo das famílias, que soma 63% do PIB
considerada a demanda, teve sua taxa acumulada de quatro trimestres reduzida de
5,1% no último trimestre de 2024 para apenas 0,9% no segundo trimestre de 2026,
mostra a Carta de Conjuntura do Ipea. O outro fator é a grande inadimplência,
com comprometimento recorde da renda das famílias (29,8%).
Mas há outros fatores que vão no sentido
contrário, de impulsionar o crescimento, que não saíram do cenário e mantêm
algum vigor na economia. Um deles é que os setores que não são afetados
primordialmente pela taxa de juros e pelos ciclos econômicos domésticos, como a
agricultura e a indústria extrativa mineral, mantêm o dinamismo da economia. Há
uma safra recorde a caminho — e um El Niño muito forte a nublar o ambiente no
campo.
A indústria extrativa vem em um ritmo de
expansão chinês, avançando 6,1% no ano e 6,5% nos 12 meses encerrados em julho,
em claro contraste com a indústria de transformação, que recua 0,5% em um ano.
A força da expansão se deve à exploração de petróleo, que bate recordes de
produção (4,3 milhão de barris/dia) e de exportações. O superávit comercial da balança
de petróleo fechou o ano até setembro em US$ 31,22 bilhões, um aumento de 40%
em relação ao mesmo período do ano passado, e correspondente à metade do saldo
positivo. Os preços do petróleo, por outro lado, não dão sinal de que vão parar
de subir. Ontem, ultrapassaram US$ 110 o barril, atingindo US$ 113,4 o tipo
Brent, com aumento de 4,24%.
A massa salarial não parou de crescer, e o
desemprego está no menor nível da série. Ao contrário da ocupação, que começa a
dar indícios de fraqueza, a renda do trabalho ainda mostra resultados
positivos. No trimestre encerrado em julho, a R$ 3.751, o rendimento médio
habitual real ainda era 3,3% superior ao de um ano atrás. A massa de
rendimentos habituais, descontada a inflação, chegou a R$ 383,5 bilhões, o recorde
da série, com avanço de 4,1% em 12 meses. Os rendimentos reais perdem força
também, pois na virada do ano sua expansão foi de 7%. Os ganhos ainda impedem
que a economia perca rapidamente força, ou, como apontam os analistas do Ipea,
o emprego e a massa salarial “continuam funcionando como suporte à demanda, mas
perderam, em parte, capacidade de impulsioná-la”.
Com a atual taxa de juros e o nível de
inadimplência, seria de se esperar que houvesse forte contração do crédito ao
longo dos últimos 24 meses de juros altos. A redução foi muito suave. A
concessão de crédito com recursos livres às famílias aumentou 10,5% nos 12
meses encerrados em agosto. A taxa Selic tem efeito apenas moderado sobre as
concessões do crédito livre, um dos motores do consumo. O Ipea observa que em
agosto deste ano, o saldo de crédito livre ainda era 5,8% maior do que em
agosto de 2025 em termos reais, mesmo com os juros em seu maior nível desde
2006.
Os gastos eleitorais do governo também têm um
efeito de impedir que uma forte queda de ritmo das atividades ocorresse durante
o período eleitoral, o que de fato aconteceu, em prejuízo ao combate à
inflação. Os subsídios aos combustíveis, ao impedir os fortes aumentos vindos
do exterior, significaram renda adicional que seria de outra forma dispendida
com transporte individual e público, além de, indiretamente, impedir que a
inflação subisse mais e corroesse o poder de compra da população. Os pacotes de
renegociação e perdão de dívidas, em andamento ou a serem executados, propiciam
um certo alívio nos compromissos da população de baixa renda, a mais endividada
nas modalidades de crédito com os juros mais altos. Houve R$ 290 bilhões em
medidas tomadas até as eleições, e, em parte como efeito delas, espera-se uma
retomada modesta no PIB do quarto trimestre.
Ao fim, o freio dos juros prevalecerá com a desaceleração da economia, que, no entanto, poderá ser moderada, considerados os estímulos dados pelo governo. O cenário externo, porém, é muito incerto, e uma alta dos juros lá fora, valorização do dólar ou turbulências financeiras causadas pela reprecificação dos ativos das empresas de inteligência artificial poderão dar mais um empurrão na inflação doméstica, retardando o ciclo de afrouxamento monetário e empurrando a economia para a estagnação em 2027.
A Amazônia sufocada
Por Correio Braziliense
O Brasil precisa assumir de vez seu papel de
guardião da Amazônia, com políticas de longo prazo, metas vinculantes e
recursos à altura da dimensão do problema
A Amazônia é o maior sistema tropical do
planeta, uma máquina climática que regula chuvas, temperatura e biodiversidade
em escala continental. Cientistas estudam seus ciclos há décadas, publicam
alertas em periódicos internacionais e apresentam dados cada vez mais precisos sobre
o que está acontecendo com ela. O Brasil tem acesso a todo esse conhecimento. E
segue fazendo escolhas que contradizem cada linha desse acervo científico.
to Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)
analisou 15 anos de medições de carbono na floresta e chegou a conclusões que
deveriam paralisar qualquer debate sobre desenvolvimento a qualquer custo. Nos
anos em que a atividade humana foi mais intensa, com desmatamento, queimadas e
degradação, as emissões de carbono chegaram a 1,58 bilhão de toneladas anuais.
Nos anos mais úmidos e com menor pressão humana, esse número caiu para 408
milhões de toneladas. A diferença entre cuidar e destruir é de quase 1,2 bilhão
de toneladas de CO2 por ano. Em 46 anos de dados climáticos, a temperatura
média anual da região subiu 1,13°C. A precipitação média caiu 8%. O volume
máximo de chuvas na seca recuou 20%.
A Amazônia não sofre de um único problema.
Sofre de um acúmulo. O desmatamento abre clareiras que ressecam o solo e
reduzem a evapotranspiração, enfraquecendo o ciclo de chuvas que a própria
floresta produz. As queimadas liberam carbono acumulado por décadas e destroem
a camada de matéria orgânica que sustenta a biodiversidade. As secas, cada vez
mais longas e severas, amplificam o impacto de cada árvore derrubada e de cada
foco de incêndio. A degradação silenciosa — aquela que não aparece nas imagens
de satélite de desmatamento bruto — corrói a floresta por dentro, fragmentando
habitats e rompendo as conexões ecológicas que mantêm o sistema funcionando.
A Amazônia abriga o maior sistema de rios de
água doce do planeta, responsável por cerca de 20% de toda a água doce que flui
para os oceanos. Seus rios alimentam aquíferos, regulam o nível das chuvas em
regiões distantes, incluindo boa parte do Brasil Central e da bacia do Rio da
Prata, e sustentam comunidades ribeirinhas e povos indígenas há milênios. A
biodiversidade amazônica concentra cerca de 10% de todas as espécies conhecidas
da Terra, muitas delas ainda não catalogadas pela ciência. Perder a Amazônia
seria a maior catástrofe ambiental dos próximos séculos.
Os sinais de que caminhamos nessa direção já
são visíveis. O ponto de inflexão, conceito que os pesquisadores citam no
estudo, será o momento em que a floresta deixa de se regenerar e começa a se
transformar em savana. Alguns modelos climáticos indicam que partes do leste e
do sul da floresta já atingiram ou estão próximas desse limiar.
O Brasil detém cerca de 60% da Amazônia. Essa proporção é também uma responsabilidade que o país carrega com consistência apenas nos discursos. O que o estudo do Inpe, liderado por Luciana Gatti e seus 32 colaboradores e publicado na Nature, deixa claro é que a floresta responde diretamente ao que fazemos com ela. Reduzir queimadas, conter o desmatamento e investir em monitoramento e fiscalização efetiva são medidas com efeito comprovado. O Brasil precisa assumir de vez seu papel de guardião da Amazônia, com políticas de longo prazo, metas vinculantes e recursos à altura da dimensão do problema. O estudo mostra o caminho. A questão é se haverá decisão política para percorrê-lo.
Um debate decisivo e a interferência da Meta
Por O Povo (CE)
A influência das big techs é um assunto que
transcende a disputa eleitoral, pois é preciso impor transparência e limites ao
desmedido poder dessas plataformas
O debate entre os candidatos à Presidência da
República, Luiz Inácio Lula da Silva, que disputa a reeleição, e o senador
Flávio Bolsonaro, a ser realizado nesta sexta-feira na Rede Globo, pode ser
decisivo para definir quem comandará o País a partir do dia 5 de janeiro de
2027. Como ambos os candidatos têm percentual de votos equivalente, dentro da
margem de erro das pesquisas, a definição está nas mãos de um número reduzido
de indecisos.
No recente debate da Band TV, predominaram
ataques de parte a parte e quase nenhuma discussão em torno de propostas para
superar os problemas do País. Espera-se que, neste evento, promovido pela Rede
Globo, o encontro seja propositivo, pois será a última grande oportunidade para
que os candidatos falem mais sobre o País e menos a respeito dos defeitos
pessoais que cada um aponta no outro. O comportamento predominantemente hostil
até agora tem de dar lugar ao programa e às propostas que os concorrentes têm
para apresentar.
Esse alerta é necessário porque o debate
acontece em um dos momentos mais tensos da campanha, devido à proximidade
numérica entre os dois candidatos, situação que se mantém a cada levantamento.
Esse cenário fez os ânimos se acirrarem ainda mais, pois qualquer deslize pode
significar a perda de votos, disputados palmo a palmo.
Porém, existe um tema que deveria estar acima
de divergências eleitorais, pois expõe um problema que sobrepuja a disputa
entre os candidatos. Trata-se da interferência indevida da Meta nas eleições
brasileiras, plataforma americana que controla o Facebook, Instagram e o
WhatsApp.
Os dois candidatos recorreram ao Tribunal
Superior Eleitoral (TSE), apontando que a Meta estaria agindo parcialmente. No
entanto, situações concretas foram apresentadas somente pela campanha de Lula.
Foi o caso dos cartazes que a inteligência artificial da Meta produzia para
aliados de Flávio, mas se recusava a fazer para apoiadores do presidente.
Também foi verificado que a Meta suspendeu perfis de entidades estudantis,
cujas contas foram reativadas por determinação judicial. Para todos os casos, a
plataforma alegou "problemas técnicos".
Além disso, especialistas independentes da
Organização das Nações Unidas (ONU) indicaram que contas vinculadas a um dos
lados da disputa presidencial haviam sido afetadas de maneira desproporcional.
A campanha de Lula não é citada, mas a referência parece óbvia.
E por que esse é assunto que transcende a disputa eleitoral? Porque se trata da necessidade de regulamentar e impor limites e transparência a essas plataformas. É preciso ter em vista que o beneficiado de hoje, pode ser o alvo de amanhã, devido ao poderio imenso das big techs, que descumprem até mesmo decisões judiciais que lhes são impostas.

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