sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais \ Opiniões

Campanha deixa de lado temas essenciais ao país

Por O Globo

Com profusão de ataques pessoais, faltou debate sobre Previdência, ajuste fiscal e reocupação de territórios

Com a campanha eleitoral perto do fim, fica claro que candidatos, marqueteiros e estrategistas deixaram fora da propaganda e do debate temas fundamentais para o próximo governo. Assuntos inexoráveis como a deterioração das contas da Previdência, a necessidade de um ajuste fiscal robusto e propostas concretas para combater o crime organizado para além do populismo penal foram omitidos ou abordados de forma superficial pelas campanhas do senador Flávio Bolsonaro (PL) e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Sucumbindo à profusão de ataques pessoais, ambos ficaram devendo ao eleitor.

É injustificável que um debate sério sobre a Previdência tenha passado em branco. A situação crítica das contas do INSS deveria ensejar preocupação. Enquanto a média anual de contribuintes subiu 1,2% entre 2015 e 2025, os beneficiários aumentaram 1,9% ao ano, como mostrou reportagem do GLOBO. Não é preciso muito esforço para perceber que os números não fecham, especialmente num cenário de envelhecimento populacional. Decisões recentes, como o pacote de bondades para microempreendedores individuais (MEIs) ou a aprovação de aposentadoria especial para agentes de saúde e endemias, agravarão o problema. “É necessário um debate mais profundo a respeito do financiamento da Previdência a médio e longo prazos”, diz o economista Rogério Nagamine.

Na proposta orçamentária para 2027 enviada ao Congresso, a despesa com benefícios foi projetada em R$ 1,4 trilhão e representa metade dos gastos primários do governo. É consenso que a reforma da Previdência de 2019 já não é suficiente para tornar o regime sustentável. Cedo ou tarde, outra reforma terá de entrar na pauta. Infelizmente, os candidatos fazem cara de paisagem diante de um desafio que só tende a piorar a cada dia que passa.

Não foi o único tema deixado de lado numa campanha de muitos ataques e poucas propostas. O ajuste fiscal também tem sido tratado com desdém. Não é verossímil que tanto Lula quanto Flávio ignorem a situação dramática das contas públicas. A questão deveria estar no centro das discussões sobre o próximo governo. Mas não. Além de não se comprometerem com medidas de austeridade, os dois não param de anunciar programas e iniciativas populistas que gerarão mais despesas, ampliando o rombo nas finanças públicas.

Mesmo a segurança, aparentemente tema de destaque nas campanhas, vem sendo tratada de forma rasa, com base em achismos e frases de efeito e sem o menor amparo em evidências e estudos científicos. Será preciso muito mais para livrar o país do domínio nefasto de organizações criminosas que controlam grandes extensões do território das cidades. É necessário apresentar planos e estratégias consistentes de reocupação e combate a tais grupos, para além do rigor penal e do aceno a categorias de agentes de segurança.

Políticos não gostam de tocar em temas sensíveis com medo de perder votos, mas há questões incontornáveis na agenda. Um dos dois postulantes governará o país a partir de 2027, e o eleitor tem o direito de saber o que planeja. Seria lamentável que as respostas viessem só depois da eleição. Os candidatos terão hoje, no debate da TV Globo, uma última chance para evitar ataques pueris, apresentar suas propostas e esclarecer a população sobre tudo o que deixaram de lado ao longo de semanas. Devem aproveitá-la.

Nova concessão do Galeão é prova do êxito da privatização dos aeroportos

Por O Globo

Mesmo num caso extremo em que concessionária desistiu do contrato, modelo demonstrou robustez na troca

A substituição da estatal Infraero por empresas privadas na gestão dos aeroportos brasileiros tem se revelado um acerto ao permitir investimentos com que o Estado seria incapaz de arcar. Não faltam exemplos bem-sucedidos de ampliação ou criação de novos terminais, como nos aeroportos internacionais de São Paulo ou Brasília. Mesmo nas concessões que enfrentam percalços, o modelo tem demonstrado robustez, permitindo mudanças para assegurar o melhor serviço. Não há melhor exemplo que o Aeroporto Internacional Tom Jobim/Galeão, no Rio de Janeiro, cuja gestão acaba de ser assumida pela espanhola Aena, com promessa de R$ 1 bilhão em investimentos nos próximos três anos.

Em 2013, quando o terminal foi leiloado pela primeira vez, ganhou a licitação o consórcio formado por Odebrecht e Changi, operadora de Cingapura. Em 2017, a Odebrecht vendeu sua participação à Changi. A expectativa de faturamento foi frustrada com o esvaziamento do terminal, resultado não apenas da pandemia, mas sobretudo do desequilíbrio com o Aeroporto Santos Dumont, cuja sobrecarga exigiu das autoridades medidas de restrição de voos que permanecem em vigor. Em 2022, o consórcio pediu para devolver o Galeão. Em 2025, a Changi repassou parte de suas ações a fundos da brasileira Vinci Compass. Diante das medidas de restrição no Santos Dumont e da perspectiva de termos mais favoráveis, as duas decidiram concorrer juntas no novo leilão, vencido pela Aena no primeiro semestre. A Agência Nacional de Aviação Civil e o Tribunal de Contas da União participaram das negociações para a repactuação do contrato até o vencimento da concessão em 2039.

A operação bem-sucedida de troca da concessionária demonstrou a flexibilidade que o Estado e as operadoras ganharam para enfrentar uma situação extrema: um investidor que deseja sair do negócio. Durante o monopólio da Infraero, os terminais se deterioravam sem que nada pudesse ser feito. A capacidade de lidar com tal situação é a melhor prova do acerto do programa de privatização de aeroportos.

O êxito está refletido em diversas pesquisas de satisfação junto a usuários dos aeroportos antes e depois da privatização. Até hoje, foram realizadas sete rodadas de leilões, envolvendo 59 terminais, com arrecadação estimada em R$ 57,6 bilhões em outorgas, pagas ao longo das concessões. O que era fonte de problemas para o governo tornou-se fonte de receita. Mais do que isso, foi equacionada a falta de investimentos. Com a venda bem-sucedida do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, também à Aena, a Infraero passou a administrar 22 aeroportos regionais, a maioria deficitários — a exceção é o Santos Dumont. A boa experiência com as concessões deve inspirar estudos para avaliar o que ainda vale a pena manter em mãos do poder público. Como regra, a iniciativa privada tem se revelado mais competente. Sobretudo, é um alento que a privatização tenha se consolidado como política de Estado, independentemente da orientação partidária de quem está no poder.

Kassio e Mendonça enxergam TSE como arma de censura

Por Folha de S. Paulo

Ministros fizeram circular na corte minuta de resolução que teria como principal alvo o canal 'Exército do Lula'

Iniciativa foi abandonada após revelação do caso pela Folha; Justiça Eleitoral precisa abandonar sua pretensão de tutelar a opinião pública

Menos mau que o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, tenha descartado a ideia de bloquear canais políticos de WhatsApp às vésperas do segundo turno. O recuo, porém, não eliminou o espanto com a desfaçatez de mais essa iniciativa censória e partidária da corte.

Como revelou a Folha, Kassio e seu colega André Mendonça circularam no tribunal uma minuta de resolução para suspender, nas 48 horas anteriores à votação, todos os canais de conteúdo político-eleitoral com mais de 200 mil seguidores. A regra entraria em vigor tão logo fosse publicada.

Em tese de caráter geral, a norma tinha um alvo bem definido: o assim chamado "Exército do Lula", criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) para apoiar o petista, que já recrutou mais de 7 milhões de usuários.

A correspondente "Tropa do Flávio" também seria afetada, mas o grupo do candidato do PL é consideravelmente menor —cerca de 2 milhões de inscritos— e demonstra menos engajamento. Salta aos olhos a desproporção da medida, encabeçada por dois ministros nomeados pelo então presidente Jair Bolsonaro (PL).

Após a divulgação do plano, Kassio declarou-se contrário a mudanças de última hora nas regras do pleito e atribuiu a autoria do texto a Mendonça. Este, por sua vez, negou que tenha sido iniciativa individual e afirmou que a proposta dependia de deliberação colegiada. Acrescentaram pusilanimidade ao despautério.

Conforme nota técnica enviada ao TSE por um grupo de mais de cem juristas, pesquisadores e líderes da sociedade civil, o bloqueio dos canais de WhatsApp configuraria restrição à liberdade política e alteraria significativamente as condições da disputa.

De forma mais direta, especialistas ouvidos pela Folha classificaram a medida como inconstitucional, por ferir a liberdade de expressão e de reunião no ambiente digital. E tudo com base na pressuposição de que as pessoas cometeriam algum ilícito eleitoral. Ou seja, o que se buscava era a nunca defensável censura prévia.

Eventuais ilegalidades —e isso deveria ser óbvio para ministros de uma corte superior— devem ser demonstradas e combatidas a posteriori, com reações proporcionais. Suprimir preventivamente um canal de comunicação não só pune manifestações lícitas mas também priva cidadãos de informações antes de irem às urnas.

Para piorar, Kassio nem é neófito nesse mister. Neste mesmo mês, ele se dispôs a derrubar o canal de Janones sem que houvesse respaldo suficiente para as irregularidades alegadas. Sua decisão foi revertida pelo relator do caso, mas o dano estava feito, sobretudo para a imagem do TSE.

A Justiça Eleitoral precisa zelar por sua equidistância do pleito, sem permitir que suas iniciativas favoreçam quem quer que seja. E precisa, mais do que nunca, abandonar sua pretensão de tutelar a opinião pública, de modo que os eleitores possam exercer plenamente o direito ao voto livre.

Protestos se alastram pela Europa

Por Folha de S. Paulo

Crise fiscal e aumento do custo de vida impulsionam manifestações que se espalham por ao menos sete países

Movimento torna-se alvo do oportunismo de forças políticas radicais; europeus têm dificuldade em assimilar a incontornável restrição orçamentária

O esgotamento da era de crescimento pujante da Europa e de maiores gastos com bem-estar social subjaz à onda de protestos que se espalha por ao menos sete países da região governados por partidos de diferentes matizes ideológicos.

Na França, manifestações iniciadas em meados de setembro por estudantes que reclamavam de falta de recursos e de professores ganharam adesão de diversos setores que se opõem à expansão do custo de vida. Desde segunda (19), toques de recolher são adotados em diversas cidades.

Na Espanha, a partir do final de setembro, após o despejo de uma idosa em Madri, a população foi às ruas contra a alta dos preços dos aluguéis. Desgastado pela rejeição do Parlamento a seu projeto sobre moradias, o governo socialista de Pedro Sánchez antecipou as eleições legislativas para o dia 29 de novembro, mesmo sob risco de vitória da ultradireita.

Nas últimas semanas, manifestações eclodiram ou se intensificaram em Bélgica, Itália, Portugal, Albânia e Grécia, num movimento que sinaliza fragilidade dos governos e oportunismo de setores políticos radicais.

Na França, a onda de protestos atraiu o apoio da extrema esquerda de Jean-Luc Mélenchon, mas suas cenas de vandalismo têm sido capitalizadas pela ultradireita de Marine Le Pen. Ambos são pré-candidatos à sucessão de Emmanuel Macron nas eleições de 2027.

O fenômeno indica, ainda, a dificuldade da cidadania europeia em assimilar a incontornável restrição orçamentária. E, se a estrutura econômica do continente não mais responde aos anseios da sociedade, a atual conjuntura geopolítica em nada alivia o conflito político-social latente.

Por pressão dos Estados Unidos e da guerra na Ucrânia, os países europeus da Otan se comprometeram a elevar os gastos com defesa e segurança a 5% do PIB até 2035. A guerra dos EUA contra o Irã impulsiona as altas da inflação e dos juros, que penalizam famílias e setores produtivos e sufocam países com dívidas elevadas —nos casos de França, Espanha, Bélgica e Itália, acima de 100% do PIB.

A desilusão popular é compreensível e o direito de protestar deve ser preservado, observando-se a necessidade de garantir a segurança de todos os cidadãos e a integridade do patrimônio público.

A crise fiscal europeia, agravada pelo envelhecimento populacional, por óbvio exige ações de longo prazo. O risco mais imediato para o continente, e também para o mundo, é a exploração oportunista dos protestos por forças políticas notadamente pouco comprometidas com o Estado democrático de Direito.

O TSE e a tentação da censura

Por O Estado de S. Paulo

Mesmo sem avançar, a ideia de bloquear canais de teor político no WhatsApp revela o espírito censório de ministros do TSE e o velho cacoete de tratar o eleitor como incapaz

Felizmente não prosperou, ao menos por ora, a ideia de bloquear certos canais de WhatsApp nas 48 horas que antecedem o segundo turno. Mas a mera cogitação desse ato autoritário no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já é grave por si só. E diz muito sobre o espírito censório que anima alguns ministros de uma corte encarregada de zelar pela integridade das eleições, não de decidir o que os cidadãos podem ou não discutir.

Os ministros trataram do assunto em duas reuniões, nos dias 16 e 20 passados, e coube ao vice-presidente do TSE, André Mendonça, redigir uma minuta de resolução. O texto alteraria a Resolução 23.610 para permitir o bloqueio de canais de WhatsApp com mais de 200 mil inscritos que veiculem “conteúdo político-eleitoral”. O despautério só não foi adiante porque não houve adesão da maioria. O presidente da corte, Kassio Nunes Marques, disse ao Estadão ser contrário a “alterações de última hora” das regras eleitorais, de resto ocioso por vedação legal. Mas a tal minuta não foi para a lata do lixo, seu lugar. O gabinete de Mendonça informou que o texto segue em “discussão interna”.

Não se pode condenar quem desconfie das intenções de Mendonça. O canal “Exército do Lula”, administrado pelo deputado André Janones (Rede-MG), já ultrapassou 8 milhões de inscritos, quatro vezes o tamanho do canal “Tropa do Flávio”, criado pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). Mendonça e Nunes Marques foram indicados ao Supremo Tribunal Federal (STF) por Jair Bolsonaro. E não é de agora que suas decisões no TSE favorecem escancaradamente a campanha de Flávio Bolsonaro (PL). O próprio “Exército do Lula” chegou a ser suspenso por ordem de Nunes Marques, decisão depois revertida.

Este jornal já denunciou o ativismo explícito de alguns ministros do STF e do TSE em prol da campanha petista (ver editorial Juízes fazem o diabo para ajudar Lula, 2/10). O vício que ora apontamos é o mesmo, apenas em sentido contrário.

Mendonça sustenta que os critérios para proibir canais de WhatsApp que tratem de política às vésperas da votação são “objetivos e impessoais”, e que o propósito é proteger a integridade do pleito quando não há tempo para corrigir conteúdos ilícitos. Ora, o que se propôs é calar o debate público por antecipação, prática vedada pela Constituição. Sua Excelência, ademais, não está em posição de presumir a má-fé dos integrantes desses canais, inferindo que por lá possam circular conteúdos potencialmente criminosos. É tão explícito o vezo autoritário que a minuta não mira especificamente conteúdos ilícitos, e sim políticos.

Caso vingasse o desatino, quem haveria de determinar o que é um conteúdo “político” e como a mensagem poderia tisnar a paridade de armas entre os candidatos? Estaria escancarada a porta para o arbítrio togado. Uma publicação sobre segurança pública, Bolsa Família ou o próprio TSE seria considerada “política”? A resposta ficaria sob o crivo de quem aplica a regra. Não há nada de objetivo ou impessoal nisso. É censura em estado puro.

Ademais, lembremos que a adesão a um canal de WhatsApp é voluntária. Ninguém é exposto a seu conteúdo por obra de algoritmo ou impulsionamento pago. O cidadão escolhe seguir o administrador do canal, recebe o que ele publica e deixa de segui-lo se e quando quiser. Não é dado à Justiça Eleitoral decidir o que esse cidadão pode ler a poucas horas de ir à urna. Se aprovasse o bloqueio, o TSE estaria decidindo que a sociedade não pode discutir o que quiser nem se organizar como quiser, com as ferramentas tecnológicas de que dispõe, para tratar de política justamente nas horas mais decisivas de uma eleição. Isso seria de um autoritarismo tão vulgar que o recuo poupou o TSE de um vexame.

Há ainda o calendário. A Lei das Eleições determina que as instruções do TSE para um pleito sejam expedidas até 5 de março do ano eleitoral, de modo que candidatos, partidos e eleitores conheçam de antemão as regras do jogo. Mudá-las a horas da votação seria pisotear a mesma lei que a corte tem o dever de fazer cumprir.

Ainda bem que houve quem pusesse a mão na consciência e barrasse o despautério. Mas o simples fato de uma ideia desse jaez ter chegado ao papel revela que a tentação da censura segue viva no TSE, que não se liberta do velho cacoete de tutelar o eleitor, como se este fosse incapaz de discernir o que lê.

O nó da baixa produtividade

Por O Estado de S. Paulo

Enquanto outros emergentes avançaram, o Brasil preservou barreiras que travam a competição e encarecem a produção. Derrubá-las é condição para elevar renda e ampliar oportunidades

Em meados dos anos 1980, Brasil e Coreia do Sul tinham níveis próximos de produtividade por hora trabalhada. Em 2023, a Coreia já produzia cerca de 2,7 vezes mais por hora. No Uruguai, a produção por hora era quase o dobro da brasileira. A distância tem uma história: outras economias emergentes, sobretudo no Leste Asiático, avançaram, enquanto o Brasil não conseguiu sustentar sua convergência.

O atraso convive com realizações notáveis. Segundo a FGV, entre 1995 e 2024 a produtividade por hora da agropecuária cresceu, em média, 5,8% ao ano, enquanto a da indústria de transformação recuou 0,9%. O contraste revela uma economia capaz de grandes avanços, mas sem dinamismo disseminado. O que impede que a eficiência se espalhe pelo restante da economia?

Parte da resposta está nas regras que condicionam as decisões empresariais. A proteção comercial costuma ser apresentada como benefício ao produtor nacional. Mas há empresas que precisam importar máquinas e componentes. Ao encarecer insumos importados, uma tarifa pode favorecer um fornecedor e prejudicar muitas empresas que dependem dele para investir e competir. Pesquisas sobre a abertura brasileira dos anos 1990 mostram que a redução das tarifas de insumos contribuiu para elevar a produtividade das firmas. A proteção concedida numa ponta da cadeia impunha custos à outra.

O efeito das regras ultrapassa as alfândegas. Indicadores da OCDE apontam barreiras regulatórias elevadas à entrada de empresas e à concorrência no Brasil. Exigências injustificadas, tratamentos especiais e vantagens prolongadas distorcem as condições da disputa. Mesmo uma empresa capaz de produzir melhor pode encontrar dificuldades para ingressar num mercado ou ampliar suas operações, enquanto concorrentes estabelecidos preservam posições protegidas.

Assim, uma distorção empresarial pode comprometer o resultado nacional. Uma firma eficiente que cresce alcança mais consumidores e pressiona concorrentes a melhorar. Novos negócios introduzem técnicas e maneiras de organizar a produção, enquanto capital e trabalho encontram oportunidades de maior valor. A produtividade do País depende tanto dos ganhos obtidos dentro de cada empresa quanto da possibilidade de as mais eficientes ampliarem sua participação. Barreiras à entrada e à competição estreitam esses caminhos.

Regras melhores, porém, precisam encontrar capacidade de resposta. Máquinas exigem trabalhadores preparados, e novas técnicas dependem de gestão e de pesquisa para adaptá-las. Educação eficaz, infraestrutura e segurança jurídica são responsabilidades de um Estado que favorece a iniciativa privada ao oferecer condições para que ela produza. Esses bens públicos merecem tratamento distinto dos favores seletivos concedidos sem demonstração de resultados. Cada intervenção deve ser julgada pelos benefícios efetivos, custos e alternativas.

A transformação também impõe perdas concentradas. Estudos sobre a abertura dos anos 1990 identificaram regiões onde os efeitos negativos relativos sobre emprego e renda persistiram por décadas. Trabalhadores e famílias podem não encontrar novas ocupações na mesma velocidade com que mudam tarifas e regulações. As reformas precisam prever proteção temporária e caminhos reais de recolocação, com formação vinculada à demanda e avaliação dos resultados. Proteger famílias exige enfrentar os custos da transição, sem perpetuar empresas improdutivas e privilégios como instrumento de assistência.

Para voltar a crescer com produtividade, o Brasil precisa mudar as recompensas que oferece. Barreiras e subsídios devem ser confrontados com seus custos, benefícios e efeitos sobre a concorrência. Vantagens injustificadas precisam ser revistas. O acesso a insumos e tecnologias deve abrir espaço ao investimento, enquanto o Estado entrega os bens públicos necessários para aproveitá-los. Numa economia em que empresas cresçam por servir melhor aos consumidores, os ganhos de eficiência terão mais condições de se transformar em renda e oportunidades. É assim que o Brasil poderá encurtar a distância que o separa das economias mais prósperas.

A opção pela civilização

Por O Estado de S. Paulo

Após a PM matar 3 cidadãos em surto, Tarcísio anuncia que o treinamento será revisto

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, anunciou que a Polícia Militar (PM) vai rever os procedimentos adotados quando os integrantes da tropa forem chamados para ajudar cidadãos em surto. O governador fez o anúncio depois que uma mulher armada de uma faca e em suposto surto foi morta por um policial numa abordagem da PM na zona norte de São Paulo. Em menos de 15 dias, foi o terceiro caso de morte durante uma abordagem policial que envolvia um cidadão em sofrimento psíquico. Logo, diante da reincidência de episódios tão graves em que inocentes perderam a vida, a revisão do treinamento dos PMs era um imperativo.

A decisão do governador foi uma correção de rota. Depois que um rapaz de 20 anos foi morto pela PM com 27 tiros (foram disparados 45) porque a polícia pensou que seu celular fosse uma arma, no dia 10 passado, o secretário da Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, disse que os policiais haviam seguido os protocolos. Em suas palavras: “A gente lamenta, mas foi uma ação legítima dos policiais, né? (...) Não está nada fora do protocolo”.

Os protocolos, no entanto, contam outra história. Ao que se sabe, atirar para matar deve ser sempre o último recurso. O uso da força deve ser progressivo e proporcional à ameaça real. Se for o caso de atirar, o policial deve dar no máximo dois tiros em regiões não vitais e reavaliar a situação. Se for uma ocorrência com um cidadão em surto, como parecia ser o caso, o protocolo da PM manda manter distância segura, dialogar com calma e, se preciso, usar armas não letais. Os 45 tiros disparados mostram que os policiais não foram treinados segundo esses protocolos – o que não surpreende, porque nem o secretário da Segurança Pública parece conhecê-los.

Tarcísio, contudo, adotou um tom distinto. O governador reconheceu a gravidade dos episódios e revelou que a alta cúpula do governo e da PM está conversando e refletindo sobre o treinamento da tropa, para “impedir que excessos aconteçam”. E foi taxativo: “A gente está atento a essa questão e vê a necessidade, sim, de rever o procedimento”.

Felizmente, o governador chamou a responsabilidade para si, desautorizando, na prática, qualquer sinal de leniência, ainda que não intencional, com o desvio de comportamento de maus policiais. Mesmo destacando a necessidade de analisar caso a caso, porque “tem situações em que você tem uma ameaça caracterizada, outras não” e porque “o policial está ali, tem que defender a sua própria vida também”, Tarcísio deixou claro que não permitirá que prospere uma cultura de tolerância com a violência excessiva da PM, em nome da segurança pública.

A melhor segurança pública é aquela feita em estrito respeito aos limites legais e às regras civilizatórias. Exageros acontecem, pois mesmo os melhores policiais cometem erros, mas três casos em sequência de mortes de inocentes a tiros por policiais podem indicar um preocupante padrão. Nesse sentido, portanto, as providências anunciadas pelo governador Tarcísio são absolutamente necessárias.

Economia brasileira tem risco de estagnação em 2027

Valor Econômico

Há duas forças empurrando a atividade econômica para baixo, a taxa de juros ainda muito elevada e a grande inadimplência das famílias

A economia brasileira praticamente não cresceu no terceiro trimestre do ano. Boa parte das previsões de analistas e consultorias aponta uma variação apenas marginal, positiva ou negativa, do Produto Interno Bruto (PIB) no período. Os indicadores do IBGE sobre o desempenho da indústria e do comércio foram negativos em agosto, e as projeções feitas com indicadores antecedentes sugerem que não houve reação significativa em setembro. No ano, o PIB deve crescer 2% ou menos, com perspectiva de um resultado menor em 2027, em torno de 1,5%, com algum viés de baixa.

No boletim Focus, o crescimento está em baixa acentuada. A mediana das projeções indica evolução de 1,83% do PIB no ano e um desempenho bastante pior em 2027, de 1,32%, com reduções consecutivas nas últimas três semanas. Há duas forças empurrando as atividades econômicas para baixo. A taxa de juros continua muito elevada e mostra agora todo seu poder restritivo. Aos poucos, com o aperto monetário, o consumo das famílias, que soma 63% do PIB considerada a demanda, teve sua taxa acumulada de quatro trimestres reduzida de 5,1% no último trimestre de 2024 para apenas 0,9% no segundo trimestre de 2026, mostra a Carta de Conjuntura do Ipea. O outro fator é a grande inadimplência, com comprometimento recorde da renda das famílias (29,8%).

Mas há outros fatores que vão no sentido contrário, de impulsionar o crescimento, que não saíram do cenário e mantêm algum vigor na economia. Um deles é que os setores que não são afetados primordialmente pela taxa de juros e pelos ciclos econômicos domésticos, como a agricultura e a indústria extrativa mineral, mantêm o dinamismo da economia. Há uma safra recorde a caminho — e um El Niño muito forte a nublar o ambiente no campo.

A indústria extrativa vem em um ritmo de expansão chinês, avançando 6,1% no ano e 6,5% nos 12 meses encerrados em julho, em claro contraste com a indústria de transformação, que recua 0,5% em um ano. A força da expansão se deve à exploração de petróleo, que bate recordes de produção (4,3 milhão de barris/dia) e de exportações. O superávit comercial da balança de petróleo fechou o ano até setembro em US$ 31,22 bilhões, um aumento de 40% em relação ao mesmo período do ano passado, e correspondente à metade do saldo positivo. Os preços do petróleo, por outro lado, não dão sinal de que vão parar de subir. Ontem, ultrapassaram US$ 110 o barril, atingindo US$ 113,4 o tipo Brent, com aumento de 4,24%.

A massa salarial não parou de crescer, e o desemprego está no menor nível da série. Ao contrário da ocupação, que começa a dar indícios de fraqueza, a renda do trabalho ainda mostra resultados positivos. No trimestre encerrado em julho, a R$ 3.751, o rendimento médio habitual real ainda era 3,3% superior ao de um ano atrás. A massa de rendimentos habituais, descontada a inflação, chegou a R$ 383,5 bilhões, o recorde da série, com avanço de 4,1% em 12 meses. Os rendimentos reais perdem força também, pois na virada do ano sua expansão foi de 7%. Os ganhos ainda impedem que a economia perca rapidamente força, ou, como apontam os analistas do Ipea, o emprego e a massa salarial “continuam funcionando como suporte à demanda, mas perderam, em parte, capacidade de impulsioná-la”.

Com a atual taxa de juros e o nível de inadimplência, seria de se esperar que houvesse forte contração do crédito ao longo dos últimos 24 meses de juros altos. A redução foi muito suave. A concessão de crédito com recursos livres às famílias aumentou 10,5% nos 12 meses encerrados em agosto. A taxa Selic tem efeito apenas moderado sobre as concessões do crédito livre, um dos motores do consumo. O Ipea observa que em agosto deste ano, o saldo de crédito livre ainda era 5,8% maior do que em agosto de 2025 em termos reais, mesmo com os juros em seu maior nível desde 2006.

Os gastos eleitorais do governo também têm um efeito de impedir que uma forte queda de ritmo das atividades ocorresse durante o período eleitoral, o que de fato aconteceu, em prejuízo ao combate à inflação. Os subsídios aos combustíveis, ao impedir os fortes aumentos vindos do exterior, significaram renda adicional que seria de outra forma dispendida com transporte individual e público, além de, indiretamente, impedir que a inflação subisse mais e corroesse o poder de compra da população. Os pacotes de renegociação e perdão de dívidas, em andamento ou a serem executados, propiciam um certo alívio nos compromissos da população de baixa renda, a mais endividada nas modalidades de crédito com os juros mais altos. Houve R$ 290 bilhões em medidas tomadas até as eleições, e, em parte como efeito delas, espera-se uma retomada modesta no PIB do quarto trimestre.

Ao fim, o freio dos juros prevalecerá com a desaceleração da economia, que, no entanto, poderá ser moderada, considerados os estímulos dados pelo governo. O cenário externo, porém, é muito incerto, e uma alta dos juros lá fora, valorização do dólar ou turbulências financeiras causadas pela reprecificação dos ativos das empresas de inteligência artificial poderão dar mais um empurrão na inflação doméstica, retardando o ciclo de afrouxamento monetário e empurrando a economia para a estagnação em 2027.

A Amazônia sufocada

Por Correio Braziliense

O Brasil precisa assumir de vez seu papel de guardião da Amazônia, com políticas de longo prazo, metas vinculantes e recursos à altura da dimensão do problema

A Amazônia é o maior sistema tropical do planeta, uma máquina climática que regula chuvas, temperatura e biodiversidade em escala continental. Cientistas estudam seus ciclos há décadas, publicam alertas em periódicos internacionais e apresentam dados cada vez mais precisos sobre o que está acontecendo com ela. O Brasil tem acesso a todo esse conhecimento. E segue fazendo escolhas que contradizem cada linha desse acervo científico.

to Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) analisou 15 anos de medições de carbono na floresta e chegou a conclusões que deveriam paralisar qualquer debate sobre desenvolvimento a qualquer custo. Nos anos em que a atividade humana foi mais intensa, com desmatamento, queimadas e degradação, as emissões de carbono chegaram a 1,58 bilhão de toneladas anuais. Nos anos mais úmidos e com menor pressão humana, esse número caiu para 408 milhões de toneladas. A diferença entre cuidar e destruir é de quase 1,2 bilhão de toneladas de CO2 por ano. Em 46 anos de dados climáticos, a temperatura média anual da região subiu 1,13°C. A precipitação média caiu 8%. O volume máximo de chuvas na seca recuou 20%.

A Amazônia não sofre de um único problema. Sofre de um acúmulo. O desmatamento abre clareiras que ressecam o solo e reduzem a evapotranspiração, enfraquecendo o ciclo de chuvas que a própria floresta produz. As queimadas liberam carbono acumulado por décadas e destroem a camada de matéria orgânica que sustenta a biodiversidade. As secas, cada vez mais longas e severas, amplificam o impacto de cada árvore derrubada e de cada foco de incêndio. A degradação silenciosa — aquela que não aparece nas imagens de satélite de desmatamento bruto — corrói a floresta por dentro, fragmentando habitats e rompendo as conexões ecológicas que mantêm o sistema funcionando.

A Amazônia abriga o maior sistema de rios de água doce do planeta, responsável por cerca de 20% de toda a água doce que flui para os oceanos. Seus rios alimentam aquíferos, regulam o nível das chuvas em regiões distantes, incluindo boa parte do Brasil Central e da bacia do Rio da Prata, e sustentam comunidades ribeirinhas e povos indígenas há milênios. A biodiversidade amazônica concentra cerca de 10% de todas as espécies conhecidas da Terra, muitas delas ainda não catalogadas pela ciência. Perder a Amazônia seria a maior catástrofe ambiental dos próximos séculos. 

Os sinais de que caminhamos nessa direção já são visíveis. O ponto de inflexão, conceito que os pesquisadores citam no estudo, será o momento em que a floresta deixa de se regenerar e começa a se transformar em savana. Alguns modelos climáticos indicam que partes do leste e do sul da floresta já atingiram ou estão próximas desse limiar. 

O Brasil detém cerca de 60% da Amazônia. Essa proporção é também uma responsabilidade que o país carrega com consistência apenas nos discursos. O que o estudo do Inpe, liderado por Luciana Gatti e seus 32 colaboradores e publicado na Nature, deixa claro é que a floresta responde diretamente ao que fazemos com ela. Reduzir queimadas, conter o desmatamento e investir em monitoramento e fiscalização efetiva são medidas com efeito comprovado. O Brasil precisa assumir de vez seu papel de guardião da Amazônia, com políticas de longo prazo, metas vinculantes e recursos à altura da dimensão do problema. O estudo mostra o caminho. A questão é se haverá decisão política para percorrê-lo.

Um debate decisivo e a interferência da Meta

Por O Povo (CE)

A influência das big techs é um assunto que transcende a disputa eleitoral, pois é preciso impor transparência e limites ao desmedido poder dessas plataformas

O debate entre os candidatos à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que disputa a reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro, a ser realizado nesta sexta-feira na Rede Globo, pode ser decisivo para definir quem comandará o País a partir do dia 5 de janeiro de 2027. Como ambos os candidatos têm percentual de votos equivalente, dentro da margem de erro das pesquisas, a definição está nas mãos de um número reduzido de indecisos.

No recente debate da Band TV, predominaram ataques de parte a parte e quase nenhuma discussão em torno de propostas para superar os problemas do País. Espera-se que, neste evento, promovido pela Rede Globo, o encontro seja propositivo, pois será a última grande oportunidade para que os candidatos falem mais sobre o País e menos a respeito dos defeitos pessoais que cada um aponta no outro. O comportamento predominantemente hostil até agora tem de dar lugar ao programa e às propostas que os concorrentes têm para apresentar.

Esse alerta é necessário porque o debate acontece em um dos momentos mais tensos da campanha, devido à proximidade numérica entre os dois candidatos, situação que se mantém a cada levantamento. Esse cenário fez os ânimos se acirrarem ainda mais, pois qualquer deslize pode significar a perda de votos, disputados palmo a palmo.

Porém, existe um tema que deveria estar acima de divergências eleitorais, pois expõe um problema que sobrepuja a disputa entre os candidatos. Trata-se da interferência indevida da Meta nas eleições brasileiras, plataforma americana que controla o Facebook, Instagram e o WhatsApp.

Os dois candidatos recorreram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apontando que a Meta estaria agindo parcialmente. No entanto, situações concretas foram apresentadas somente pela campanha de Lula. Foi o caso dos cartazes que a inteligência artificial da Meta produzia para aliados de Flávio, mas se recusava a fazer para apoiadores do presidente. Também foi verificado que a Meta suspendeu perfis de entidades estudantis, cujas contas foram reativadas por determinação judicial. Para todos os casos, a plataforma alegou "problemas técnicos".

Além disso, especialistas independentes da Organização das Nações Unidas (ONU) indicaram que contas vinculadas a um dos lados da disputa presidencial haviam sido afetadas de maneira desproporcional. A campanha de Lula não é citada, mas a referência parece óbvia.

E por que esse é assunto que transcende a disputa eleitoral? Porque se trata da necessidade de regulamentar e impor limites e transparência a essas plataformas. É preciso ter em vista que o beneficiado de hoje, pode ser o alvo de amanhã, devido ao poderio imenso das big techs, que descumprem até mesmo decisões judiciais que lhes são impostas.

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