sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Mudança das campanhas está por se comprovar extensiva ao eleitor, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

A ideia de que o 2º turno é uma outra eleição foi confirmada por este que se encerra. A dúvida é se o eleitor também terá mudado. É desta mudança que, em grande parte, depende o resultado do domingo.

A mudança nas campanhas foi impulsionada, de um lado, pela tensão provocada no entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em decorrência dos 2,2 milhões de votos a mais obtidos pelo adversário em 5 de outubro. E, de outro, pelo conforto suscitado na campanha do senador Flávio Bolsonaro com a vantagem obtida. A tensão foi produtiva e o conforto, enganador. Foi isso, em grande parte, que moveu a discreta aproximação nas trajetórias de ambos nas pesquisas ao longo do 1º turno.

A tensão petista levou à incorporação do senador Camilo Santana (PT-BA) à coordenação de campanha, que acabou agindo como um catalisador das disputas que antagonizaram o ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência, Sidônio Palmeira, e o presidente do PT, Edinho Silva.

Ex-ministro da Educação, Camilo foi o comandante da quarta vitória consecutiva de seu partido no governo do Ceará, com a reeleição, em 1º turno de Elmano de Freitas. O PT da Bahia acumula seis vitórias consecutivas, mas o envolvimento do senador Jaques Wagner com o banco Master desaconselhou seu protagonismo neste 2º turno.

Se Edinho foi obrigado a engolir a avaliação pública de Lula sobre a desorganização do 1º turno, Sidônio enfrentou o freio de arrumação comandado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) que promoveu a maior revolução na campanha petista com a criação do canal de WhatsApp, “Exército de Lula”.

Se alguma dúvida havia sobre os danos provocados no governo e na campanha pela resistência a ampliar as forças em torno de Lula, a liderança de Janones a comprovou. Trata-se de um parlamentar que nunca foi do PT e ingressou na política por um partido amorfo, o Avante, na esteira da paralisação dos caminhoneiros de 2018, mesmo movimento que lastreou a ascensão do bolsonarismo.

"A matemática da virada também depende de Lula tirar votos de Flávio” — Jairo Nicolau

Se Camilo enfrentou os dissensos internos do PT e, com o respaldo de Lula, assumiu, no Senado, a defesa da redução da maioridade penal para 16 anos em caso de crime hediondo, Janones foi além. Com seu canal, forneceu um repertório compartilhado para que os jovens voltassem a ocupar as ruas que a esquerda havia perdido. O espaço ficou cativo da direita desde as manifestações de 2013, que se desdobraram no movimento que empurrou a ex-presidente Dilma Rousseff para fora do Palácio do Planalto em 2016. Naquelas avenidas, foi estendido o tapete vermelho para a ascensão de Jair Bolsonaro em 2018.

O domínio desta narrativa mais agressiva permitiu que o PT se arvorasse a romper algumas fronteiras como a da redução da maioridade penal que tirou Lula da defensiva mas não lhe deu estofo para desafiar Flávio Bolsonaro na votação da PEC da segurança, pelo temor de que a campanha adversária viesse a dominar o debate.

Nem a adesão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), deu esta garantia, mas assegurou a votação do fim da jornada 6x1. Em grande parte, porque as urnas do 1º turno derrotaram Alcolumbre nas eleições locais e colocaram o PL à frente da maior bancada da Casa, dificultando sua recondução à Mesa caso Flávio Bolsonaro seja eleito.

Não parou por aí. O ritmo de Janones, quase de sofreguidão, contaminou a pauta do 2º turno. Veio o perdão da dívida dos microempreendedores individuais, a antecipação da entrada em vigor do reajuste do Bolsa Família e ainda a PEC para garantir transporte público gratuito nos fins de semana. Como a cesta de benefícios se aproxima dos R$ 300 bilhões, o governo achou por bem anunciar que os recursos desta derradeira benesse viriam de remanejamentos e emendas parlamentares.

Os benefícios advindos dessas medidas não foram capazes de evitar que as mulheres fizessem um movimento surpreendente numa reta final de migração para o voto indeciso. Por outro lado, as dúvidas surgidas em relação ao futuro dos programas sociais numa eventual eleição de Flávio Bolsonaro parecem ter sido o principal motor da elevação do medo da volta da família ao poder.

A campanha do PL colheu, em grande parte, o que plantou no início do 1º turno ao sentar na cadeira antes do previsto com a disputa interna por cargos na Esplanada e, principalmente, com os encontros de emissários da campanha junto a bancos e consultorias econômicas para detalhar os planos para um ajuste fiscal de R$ 200 bilhões.

Foi uma arapuca que o PL armou para sua própria campanha. Os cortes apresentados para se alcançar este volume não resistiram às contas de economistas independentes, uníssonos em afirmar que, sem a revisão da política de reajuste real do salário mínimo, a desvinculação dos benefícios da Previdência daqueles do SM e, ainda, a revisão do teto constitucional das despesas com saúde e educação, não se alcançaria este patamar de contenção fiscal. O senador passou a dizer que o otimismo nos mercados, com sua campanha, derrubariam, numa tacada o ônus dos juros sobre a dívida pública.

Acossada ainda pelo “Exército do Lula”, a campanha do PL franqueou mais espaço para empresário e influenciador Pablo Marçal e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) na estratégia bolsonarista para as redes sociais e apelou, de maneira mais incisiva, para os ministros do Tribunal Superior Eleitoral indicados no governo Jair Bolsonaro, Nunes Marques e André Mendonça.

Nunes Marques, que preside o TSE, tirou do ar o “Exército do Lula”, contrariando parecer técnico do tribunal, às vésperas da aprovação do fim da jornada 6x1. Cobrou registro do canal na campanha petista, exigência que não havia sido feita ao congênere, “Tropa do Flávio”. A investida não impediu que o canal se refizesse e já tenha superado a marca de 8 milhões de seguidores. Em grande parte porque se configurou, em torno de Lula, a aura de perseguido pelo “sistema”, que fazia a festa do bolsonarismo.

Na última semana, foi a vez de Mendonça propor uma minuta equiparando o canal às regras de impulsionamento e estendendo-lhe a vedação para as 48 horas que antecedem a eleição e às 24 horas que sucedem. O partidarismo da iniciativa ficou patente e a minuta acabou abortada. Ultrapassou uma fronteira que ainda não foi comprovada nem mesmo para a atuação da Meta que admitiu, formalmente, um prejuízo maior para a campanha de Lula decorrente de falhas no impulsionamento. A empresa atribuiu o percalço a problemas técnicos e não à partidarização na atuação de suas redes sociais (Facebook, Instagram e WhatsApp).

O embate nas 48 horas que antecedem a votação se dará em duas frentes: a abertura de sigilo e o debate da TV Globo na sexta. A abertura de sigilo não se restringe àquela proposta por Lula para ser entregue por ambos candidatos ao TSE mas também àquela que paira como uma ameaça sobre o candidato do PL como decorrência dos desdobramentos do inquérito que investiga o advogado Willer Tomaz e o próprio senador por suposta lavagem de dinheiro envolvendo casas de apostas.

É no debate que as arengas derradeiras vão desaguar. A retirada de cena de Marçal sugere que a postura agressiva de Flávio Bolsonaro foi reprovada pelo eleitor. Os grupos focais mostraram que o litígio não rende voto, levando ambos os candidatos a um embate mais propositivo. Parece até inverossímil que a campanha mais acirrada da história seja concluída pela tentativa de ambos de convencer o eleitor de que é seu governo que vai melhorar sua vida.

Repousa sobre as últimas 48 horas a pergunta sobre a viabilidade deste 2º turno vir a virar a vantagem registrada por Flávio Bolsonaro no primeiro. Jairo Nicolau, o pesquisador brasileiro com maior quilometragem em eleições, fez todas as simulações possíveis em torno da redução da alienação eleitoral, aí incluídos a abstenção e os votos em branco e nulos. Chegou à conclusão de que a matemática da virada depende também de Lula ser capaz de tirar votos do adversário, desafiando a polarização extremada das últimas décadas.

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