O Estado de S. Paulo
O consolo na democracia é que sempre teremos uma nova eleição. A alternância é a grande qualidade sistema. Essa qualidade jamais poderá ser roubada
Faltam apenas algumas horas para a decisão.
São duas visões antagônicas. O País será algo muito diferente com a vitória de
um ou outro. Nossas vidas serão impactadas. É natural que seja uma semana
tensa.
No meu caso, temo pelos anos dedicados à legislação ambiental. Ouço Flávio declarando sobre a Amazônia que os fazendeiros serão livres para fazer o que quiserem em suas terras. O pai dele também pensava assim. Mas é um delírio. Nenhuma terra está fora de uma região, de um país ou do próprio planeta. Se um rio passa em sua propriedade, você não pode nem represá-lo nem contaminá-lo sem prejudicar os que vivem à jusante. Não é possível atear fogo dentro de suas terras sem levar em conta a segurança das terras vizinhas. Quando se vive numa região tão especial como a Amazônia, por lei, não se pode desmatar livremente, apenas 20% da área.
Uma concepção anárquica como a dos Bolsonaros
pode não apenas levar a Amazônia a um ponto de não retorno, transformando a
floresta numa savana, mas arrasar com o nosso comércio exterior. Todos os
acordos comerciais dependem dessa cláusula ambiental. Mesmo os Estados Unidos,
liderados por Trump, investigam o Brasil, acusando o País de desmatamento para
justificar suas tarifas.
Portanto, as decisões de domingo podem nos
levar a diferentes papéis no mundo: interlocutores no combate às mudanças
climáticas ou vilões ambientais. De um ponto de vista da política mais ampla,
nosso papel no mundo será diferente.
Flávio Bolsonaro propõe um alinhamento com os
Estados Unidos. Mas não vai muito adiante. Uma boa relação com os
norte-americanos é essencial. Mas é inegável que são dois países diferentes,
com interesses específicos. Um exemplo: o Pentágono se prepara para comprar a
empresa que explora terras raras em Goiás. Isso acontece num momento em que o
Brasil apresenta uma importante restrição ao comércio de terras raras: a
exigência de que sejam beneficiadas dentro do território. O projeto que define
isso já foi aprovado no Congresso. É preciso ver se é aplicável às explorações
de Minaçu, em Goiás, e Poços de Caldas, em Minas.
De qualquer maneira, há uma diferença entre
um país totalmente alinhado com os Estados Unidos e um país amigo que concorda
em muitos temas, mas mantém sua própria identidade política.
A direita no Brasil cresce na denúncia da
corrupção. Mas será que, em caso de sua vitória, emergirá um país mais honesto?
O candidato escolhido por ela sofre inúmeras acusações que vão desde
rachadinha, passando por compra de mansão e outras situações confusas. Ele tem
um perfil mais parecido com um clássico político do Centrão. Como evitar que se
comporte como tal, uma vez na Presidência?
A escolha de um outro candidato vai impactar
a política cultural. O fato de a maioria dos artistas e acadêmicos apoiar Lula
tem sempre uma grande repercussão na cabeça dos Bolsonaros, que passam a
antagonizar a ciência e a arte, como se fossem territórios inimigos. Essas
diferenças culturais podem trazer situações dramáticas como se viveu na
pandemia, e, de uma certa forma, ainda se vive no debate sobre a importância
das vacinas.
Finalmente, as concepções de segurança
pública são muito divergentes. A maioria aprova as teses mais repressivas da
direita. Muito se falou na experiência de El Salvador, como se um país tão
pequeno pudesse servir de modelo ao Brasil.
De qualquer forma, embora a retórica seja
diferente, a política de segurança pública de Jair Bolsonaro não representou
uma mudança qualitativa em relação às outras desenvolvidas no período da
redemocratização. Isso revela a dificuldade do tema, a necessidade de
compreendê-lo em todas as suas variáveis e encontrar uma política eficaz, algo
que não aconteceu ao longo dessas décadas. O problema só se agrava e o próprio
sistema penitenciário passou a ser uma complicação a mais, apesar de tanto
dinheiro e energia para que fosse parte da solução.
As pessoas chegam às suas escolhas por
múltiplos caminhos. Elas se diferem entre as que buscam soluções individuais e
as que enfatizam soluções coletivas. Elas frequentam as redes sociais, onde não
faltam argumentos, acusações e até mesmo insultos.
A esta altura, apesar do importante debate
final, a sorte parece estar lançada. Na segunda-feira, saberemos que país
teremos nos próximos quatro anos. Em função disso, teremos de repensar nossos
destinos, buscar aqueles que estão em situação semelhante e redesenhar nossa
trajetória. O consolo na democracia é que sempre teremos uma nova eleição. A
alternância é a grande qualidade do sistema. Essa qualidade jamais poderá ser
roubada.
Creio que os candidatos foram submetidos a grandes sessões de perguntas. Mas em todas elas, para início de conversa, deveria ser colocada a questão democrática. “Aceita o resultado das urnas e promete não tentar golpe em caso de ser derrotado?” A sociedade amadureceu, há mudança entre os militares, a conjuntura internacional também ainda é favorável à democracia. Experimentos que pareciam eternos, como na Hungria, onde Viktor Orbán conquistou o Congresso e o Judiciário, acabaram se mostrando frágeis e passageiros.

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