Correio Braziliense
O confronto entre o presidente Lula e Flávio
Bolsonaro pode decidir a eleição, mas a maior incerteza está no futuro que cada
candidato oferece ao país
O conhecido samba-enredo da União da Ilha do Governador, apresentado no carnaval carioca de 1978, que inspira o título desta coluna, é de autoria de Didi e João Sérgio. Didi era o procurador da República Gustavo Adolfo de Carvalho Baeta Neves, fundador da escola e autor de outros sambas antológicos. Naquele ano, na voz de Aroldo Melodia, “O Amanhã” empolgou o público. A União da Ilha terminou em quarto lugar, mas a composição conquistou um lugar permanente na memória dos brasileiros.
A carnavalesca Maria Augusta levou para a
avenida uma indagação que atravessa gerações. Entre adivinhações e
expectativas, o enredo traduzia a ansiedade diante do desconhecido. “Como será
o amanhã? Responda quem puder.” Quase meio século depois, a pergunta serve de
abertura para o debate entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador
Flávio Bolsonaro, hoje à noite, na TV Globo.
Em 1978, o Brasil atravessava a abertura
lenta, gradual e controlada do regime militar. O milagre econômico havia
perdido o fôlego, e o desgaste da ditadura contrastava com a vitalidade de uma
sociedade que procurava recuperar sua voz. Havia incerteza, mas também
esperança. Agora, a interrogação volta em circunstâncias muito diferentes. O
país pode escolher seu presidente pelo voto, mas continua com dificuldades para
discutir o que pretende construir.
O risco de essa discussão ser novamente
soterrada por acusações recíprocas é real. O encontro anterior no Band, no
último domingo (18/10), mostrou como a disputa pode se transformar numa espécie
de briga de rua, que não tem regras, para definir quem tem a biografia mais
comprometida. Cada candidato estudou os pontos vulneráveis do adversário e
procurará explorá-los.
Lula carrega o desgaste de quem governa.
Precisa explicar por que o crescimento e as políticas sociais não dissiparam a
insegurança econômica de tantas famílias; como pretende enfrentar o custo de
vida, o endividamento e a criminalidade; e de onde virão os recursos para suas
promessas. Também enfrenta o custo político das suspeitas envolvendo pessoas
próximas, inclusive seu filho, no contexto das apurações relacionadas ao INSS.
Flávio procura encarnar a mudança, embora pertença a um clã há décadas na política. Precisa esclarecer suas relações políticas e financeiras, as negociações com Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre seu pai e os vínculos de seu entorno que se tornaram objeto de questionamentos. Ele nega ilegalidades. O encerramento de investigações anteriores, como a das rachadinhas, não elimina as perguntas sobre sua trajetória.
O futuro incerto
Cobrar esclarecimentos é necessário, porém, o
eleitor perde quando tudo se converte numa mesma acusação e o debate vira um
tribunal sem provas e contraditório. O desafio da abertura recíproca de
sigilos, descrito no acordo apresentado pelas campanhas de Lula e Flávio, é um
jogo de truco que oferece combustível para mais uma rodada desse confronto.
Transparência exige documentos verificáveis e tempo para examiná-los. O debate
pode produzir o corte de vídeo que dominará os celulares nas horas seguintes e
decidir a eleição, que está numericamente empatada segundo a pesquisa Datafolha
divulgada ontem: 50% a 50% dos votos válidos.
Lula representa uma tradição de inclusão
social, valorização do trabalho e atuação do Estado na economia, associada ao
pacto constitucional de 1988. Essa trajetória ajuda a explicar sua
identificação com os mais pobres, mas não responde, por si só, às exigências do
próximo mandato. O presidente precisa mostrar como financiar a proteção social,
elevar a produtividade e melhorar os serviços públicos. A lembrança das
conquistas anteriores ainda demanda uma proposta de futuro.
A contradição de Lula aparece na distância
entre a ambição reformadora e a dependência de alianças conservadoras,
negociações pouco transparentes e interesses que bloqueiam mudanças. Se
reeleito, terá de governar com um Congresso mais adverso. Precisa explicar o
que pretende negociar e quais compromissos considera inegociáveis.
Flávio representa a força do bolsonarismo, a
extrema-direita que capturou boa parte do centro conservador e combina
promessas de liberalização econômica, redução de impostos, dura repressão à
criminalidade e fortalecimento da autoridade. Sua candidatura oferece ao
eleitor descontente a perspectiva de ruptura com o PT. Precisa demonstrar,
porém, como a redução de receitas se concilia com melhores serviços e equilíbrio
fiscal, além de esclarecer quais despesas pretende cortar e quem suportará o
seu custo.
Há também uma questão institucional. O bolsonarismo mantém uma relação conflituosa com os limites impostos ao poder pelas instituições, a promessa de eficiência precisa ser confrontada com perguntas sobre pluralismo, imprensa, direitos das minorias e independência dos Poderes. Uma maioria eleitoral autoriza governar; não autoriza transformar o Estado em instrumento de uma família ou de perseguição aos adversários.
A diferença alcança o lugar do Brasil no mundo. Lula defende autonomia diplomática e diversificação de parceiros. Flávio sinaliza maior aproximação com Donald Trump. Cabe explicar como preservar os interesses brasileiros diante das disputas entre Estados Unidos e China.

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