O Estado de S. Paulo
No debate sobre política econômica, mais importante do que procurar modelos a serem copiados é compreender as especificidades de cada economia
O“efeito Orloff” é uma expressão usada no
Brasil para sugerir que a experiência econômica de um país – especialmente a
Argentina – poderia antecipar o que aconteceria depois por aqui. A origem está
na antiga propaganda da vodca Orloff, cujo slogan era: “Eu sou você amanhã”.
É frequente, no debate econômico brasileiro,
que algum analista critique a política econômica do governo e vaticine: “O
Brasil vai se tornar uma Argentina!”. Essa comparação, porém, ignora diferenças
estruturais importantes entre as duas economias.
Embora Brasil e Argentina tenham enfrentado profundas crises nos anos 1980, em grande medida associadas à crise da dívida externa, suas trajetórias macroeconômicas foram bastante distintas.
A Argentina experimentou um processo
inflacionário muito mais agudo, que culminou na hiperinflação de 1989-1990.
Este processo, combinado com uma ampla abertura financeira externa, estimulou a
dolarização da economia e contribuiu para a atrofia do sistema financeiro
doméstico – cujos efeitos ainda se fazem sentir. Para enfrentar a
hiperinflação, implementou em abril de 1991 o Plano de Convertibilidade, que
estabeleceu, em lei, a paridade de um peso por um dólar, que viria a colapsar
em dezembro de 2001, após sucessivos choques externos.
O Brasil também enfrentou elevadíssimas taxas
de inflação dos anos 1980 até 1994, mas não passou pelo mesmo processo de
dolarização. A existência de uma moeda indexada permitiu preservar a poupança
financeira em ativos denominados em moeda doméstica. Essa característica,
somada a uma situação externa relativamente mais favorável, contribuiu para que
o País pudesse implementar, com o Plano Real, uma bem-sucedida estratégia de
estabilização baseada em uma âncora cambial mais flexível.
As diferenças permanecem evidentes
atualmente. Entre 2017 e 2025, o crescimento médio do PIB no Brasil foi de
aproximadamente 2,0% ao ano, enquanto na Argentina foi de 0,7%. Em 2025, a
inflação fechou em 4,3% no Brasil, ante 31,5% na Argentina. Em junho de 2026, a
taxa de desemprego no Brasil era de 5,6%, enquanto na Argentina era de 7,8%. A
situação brasileira também era mais favorável em termos de pobreza.
A diferença é ainda mais clara quando se
observam alguns indicadores estruturais. As reservas internacionais brasileiras
correspondem atualmente a cerca de 13% do Produto Interno Bruto (PIB), ante
aproximadamente 5% na Argentina. O sistema financeiro brasileiro também é muito
mais desenvolvido: o crédito doméstico ao setor privado equivale a cerca de 75%
do PIB, ante 17% na Argentina. Além disso, o Brasil dispõe de um amplo mercado
de dívida pública em moeda doméstica. A Argentina, ao contrário, apresenta
maior vulnerabilidade externa, um mercado de dívida pública federal com
predominância de emissões em moeda estrangeira e um sistema financeiro
atrofiado.
Foi nesse contexto de profunda instabilidade
que Javier Milei assumiu a Presidência, em dezembro de 2023, quando a inflação
acumulada naquele ano havia alcançado 211,4%. Seu governo adotou uma política
de choque, baseada em forte ajuste fiscal, corte de subsídios e gastos
públicos, interrupção do financiamento monetário do Tesouro pelo Banco Central,
uma grande desvalorização inicial do peso, seguida de um regime cambial a la
crawling peg, além da correção de preços administrados e da redução de
controles cambiais e de preços.
A inflação caiu significativamente desde
então, ainda que se mantenha elevada. A política de Milei tem sido de “matar o
doente para curar a doença”, com aumento acelerado da taxa de desemprego e da
pobreza, ao mesmo tempo em que o custo de vida se mantém elevado. Ademais, o
país encontrase frequentemente em dificuldades para pagar sua dívida externa,
em contraste com o Brasil, onde o acúmulo de reservas cambiais é bem superior à
dívida externa pública.
Nesse contexto, a afirmação recente de
Daniella Marques, coordenadora do programa econômico do candidato Flávio
Bolsonaro, de que a Argentina seria um ótimo exemplo a ser seguido suscita a
seguinte questão: até que ponto seria desejável transplantar para o Brasil as
políticas adotadas por Milei?
A resposta passa necessariamente pelas
diferenças estruturais entre as duas economias destacadas acima. Políticas
econômicas não produzem os mesmos resultados quando aplicadas em contextos
distintos. O Brasil dispõe de uma estrutura financeira, uma posição externa e
uma capacidade de financiamento em moeda doméstica muito diferentes das da
Argentina. Por isso, falar agora em um “efeito Orloff” é pouco apropriado.
Mais importante: diante do elevado
endividamento de empresas e famílias no Brasil, um fortíssimo ajuste fiscal em
2027 provocaria uma recessão aguda e desnecessária, tendo em vista o nível
controlado de inflação. O resultado poderia ser uma forte contração econômica,
possivelmente mais profunda do que a observada em 2015.
No debate sobre política econômica, portanto,
mais importante do que procurar modelos a serem simplesmente copiados é
compreender as especificidades de cada economia. •
*PROFESSOR DE ECONOMIA DO IE/UFRJ

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