O Estado de S. Paulo
O domínio das plataformas digitais, estrangeiríssimas, sobre os debates políticos no Brasil é total. Por trás da expressão ‘sociedade interconectada’ existe um sequestro descarado
Dizem que somos uma “sociedade interconectada”. O que isso significa? No mais das vezes, significa que o progresso nas comunicações teria melhorado a nossa vida. Falamos uns com os outros por meio das plataformas digitais, na maior simplicidade. As cartas de amor não existem mais e até os emails começam a ficar antiquados: hoje tudo se resolve pelo WhatsApp, com frases efêmeras, áudios anódinos e emojis redondos. A publicidade comercial migrou para os bits, soterrando as telas que nos confinam. Bancos disparam avisos de débito para o smartphone do cliente. O check-in da passagem aérea se tornou uma operação virtual, bem como a compra de ingresso para o cinema, a reserva no hotel, a matrícula na escola, o agendamento do exame médico, as reuniões de trabalho e a sessão de psicanálise. Tudo parece ter acontecido de modo indolor e benfazejo.
As mudanças ditas positivas, porém, mal
escondem as mutações desestruturantes. Basta ver o que se passa nas campanhas
eleitorais. Se olharmos com atenção, veremos nas eleições um contexto de
transformações nocivas, além de complicadas. Para começar, lembremos que a
malha tecnológica que “interconectou” a sociedade brasileira não é brasileira.
Num período eleitoral como o que está em marcha, o descompasso mostra suas
garras.
Plataformas como Facebook, Instagram,
YouTube, WhatsApp, X ou LinkedIn são empresas dos Estados Unidos. Pior: seus
CEOs estão alinhados, até o pescoço, com Donald Trump. Quando os negócios
desses senhores imperam sobre o fluxo das mensagens que trafegam na internet do
Brasil, alguma coisa não vai bem ao sul do Equador.
A tecnologia não é neutra. Até há poucos
anos, Mark Zuckerberg, dono do Facebook, dizia que sua plataforma era uma
“praça pública”, apartidária e isenta. Tudo mentira, claro: o Facebook jamais
poderia ser praça pública, pois era propriedade particular, por mais que
Zuckerberg fingisse acreditar em sua afirmação. No início de 2025, o rapaz, que
também é dono do Instagram e do WhatsApp, tirou a máscara. Com Donald Trump
eleito pela segunda vez, gravou um vídeo declarando que se associaria ao
presidente para combater a regulamentação das plataformas no mundo inteiro. Num
estalar de dedos, vestiu a armadura de agente global do trumpismo.
Elon Musk idem. O chefão do X já deu US$ 276
milhões ao
Partido Republicano (de Trump) nas eleições
de meio de mandato, marcadas para o final deste ano. Sozinho, o investimento de
Musk, travestido de doação, é maior do que o total de dinheiro que o Partido
Democrata conseguiu amealhar no mesmo período.
Zuckerberg, Musk e seus pares mandam e
desmandam nos circuitos que fazem do nosso país uma “sociedade interconectada”.
Trata-se de um fato singelo. Trata-se, também, de um pandemônio. Agora, a
velocidade e o alcance dos argumentos dos dois candidatos que disputam o
segundo turno não são decididos no Brasil, mas num ambiente soturno de
algoritmos programados fora do Brasil. Os chips dos Estados Unidos definem
quantos pares de olhos serão atingidos pela propaganda política de um ou de
outro. Enquanto isso, os executivos dos conglomerados vão jantar na Casa Branca
em clima de promiscuidade assanhada.
Todos os dias surgem demonstrações desse
quadro excruciante. No início da semana, tivemos a notícia de que o Partido dos
Trabalhadores (PT) apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma
reclamação sobre a Meta (a gigante montada por Zuckerberg para controlar o
Facebook, o Instagram e o WhatsApp). De acordo com as alegações do PT, Flávio
Bolsonaro teria um engajamento médio 2,96 vezes maior do que o de Lula nas
redes da empresa, embora tivesse 17,2% menos seguidores. Em resposta, a Meta atribuiu
o baixo alcance de publicações de Lula ao que chamou de “problemas técnicos”.
No mesmo documento, negou favorecimentos intencionais à chapa de extrema
direita e se comprometeu a resolver a falha.
A Meta pode estar falando a verdade? Sim,
pode. A questão, no entanto, não fica resolvida. As big techs que detêm o
monopólio sobre as infovias da campanha eleitoral no Brasil não são
transparentes, não se deixam examinar de modo algum, fazem o que bem entendem e
seguirão assim. O TSE não tem ideia do que se passa dentro delas.
Então, a gente se pergunta: mas isso pode?
Segundo o art. 222 da Constituição federal, um cidadão que não seja brasileiro
ou uma empresa estrangeira não podem ser donos ou controladores de um jornal ou
de uma emissora de TV no Brasil. Por quê? Muito simples: jornais e emissoras,
sendo mediadores do fluxo de informações e opiniões, influem diretamente na
formação da opinião pública; se ficam nas mãos de forças internacionais ou,
digamos, imperialistas, a soberania nacional some na nuvem. Mas as plataformas
digitais, estrangeiríssimas, ficam à vontade para exercer um poder
incomparavelmente maior do que uma estação de TV sobre a opinião pública. O
domínio delas sobre os debates políticos no nosso país é total. Isso mesmo,
total. Nessas horas, vemos com mais nitidez: por trás da expressão “sociedade
interconectada” existe um sequestro descarado.
*Eugênio Bucci jornalista, é professor da ECA-USP

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