O Globo
Ele não só negou as medidas de ajuste, como
pronunciou um discurso com tom parecido ao do adversário
O primeiro desafio de Flávio Bolsonaro durante a campanha de 2026 foi fazer com que parte do eleitorado o comprasse como um “moderado” — ou como o “Bolsonaro que toma vacina”. Na reta final da campanha, essa espécie de greenwashing eleitoral chegou ao ápice, com o candidato do PL recuando, sem maiores embaraços, de sua posição contra o fim da escala 6x1. O oportunismo de última hora, que o leva a abraçar proposta de que era crítico, coloca dúvidas sobre algo maior: qual o real compromisso de Flávio na área econômica?
Depois de declarar que o fim da escala 6x1
era medida hipócrita e eleitoreira, ele adotou o populismo eleitoral de
livro-texto de que acusa o adversário. Lula
tem a caneta na mão e, de fato, pisou no acelerador na tentativa de se
reeleger, usando o modelo de Bolsonaro pai e de todos os outros que têm uma
reeleição incerta pela frente: abriu os cofres e saiu anunciando o que dava em
cima da hora. Foi o caso do reajuste do Bolsa Família, descartado até então
pela própria equipe econômica, do Pix de R$ 5 mil no
bolso do empreendedor e por aí vai.
Mas foi Flávio quem sinalizou com outro
programa e agora, em cima da hora, se reposiciona, levantando dúvidas sobre o
que realmente pretende fazer. É mais do que isso. A questão que parte do mundo
econômico começa a debater é se o mais pragmático dos Bolsonaros adotará um
populismo econômico à direita, uma vez eleito. Não é o pacote que a Faria Lima
quer comprar.
Desde que a campanha começou, há dúvidas
sobre o tamanho do corte que uma eventual gestão Flávio faria e sobre a nova
regra fiscal que adotará. A colunista do GLOBO Vera
Magalhães lembrou ontem que sua campanha negou as informações que vieram a
público sobre cortes mirando desindexação da Previdência e do BPC da política
de reajuste do salário mínimo, fim dos pisos constitucionais da saúde e
educação e outras medidas dolorosas e impopulares, mas amplamente defendidas
pelos economistas que o apoiam.
Flávio não só negou as medidas de ajuste,
como veio a público pronunciar um discurso com tom parecido ao de seu
adversário. Falou que corrigirá as aposentadorias acima da inflação e negou
quaisquer cortes em programas sociais. Sobre privatizações, diz que não venderá
à iniciativa privada bancos públicos, como a Caixa
Econômica Federal.
— Não vou fazer economia em cima de quem
precisa — afirmou, deixando de lado o discurso liberal.
Flávio era contra o fim da escala 6x1 até
perceber que a matéria, megapopular, avançaria no Senado e que poderia lhe
custar votos. O presidente da casa, Davi Alcolumbre, sabe que a vitória de Lula
é o caminho inexorável para se reeleger presidente do Senado no ano que vem.
Entregar o fim da escala 6x1 e avançar com a PEC da Segurança é dar uma
mãozinha para Lula e para si mesmo.
O candidato do PL seria derrotado na votação
e buscou se reposicionar para evitar perder votos. Mas fez um hedge, ou uma
proteção, como se diz no jargão do mercado financeiro. Disse a empresários que,
em caso de vitória, o Congresso pode rever a matéria numa gestão sua. Será?

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