Valor Econômico
Mudaram o ritmo e as estratégias; contudo, a
campanha pode mudar de direção mais depressa do que o eleitor muda de lado
Nada como um segundo turno para acordar o
eleitor anestesiado, acertar o passo do incumbente e enfileirar os apoios
negados ao desafiante até que ele se tornasse uma perspectiva real de poder.
Lula se conectou com as demandas do eleitor, o PT priorizou as ruas e as redes,
enquanto o entorno de Flávio Bolsonaro já começa a distribuir ministérios. Os
trabalhadores 7x7 da Faria Lima acompanham tudo com a precisão dos dados
disponíveis, mas acordam com palpitação: “e se a euforia foi apenas o sonho de
uma noite de outono?”
Mudaram o ritmo e as estratégias; contudo, a campanha pode mudar de direção mais depressa do que o eleitor muda de lado.
No ótimo livro “The Bitter End” (sem tradução
para o português), publicado após a derrota de Trump em 2020, os autores Sides,
Tausanovitch e Vavreck definiram como calcificação o fenômeno da decisão de
voto baseada na ideia de pertencimento a um grupo, seja por identidade,
religião ou valores pessoais. Se a polarização afasta os campos políticos, a
calcificação dificulta a saída de quem está neles. Com a calcificação das
lealdades, o eleitor torna-se menos disposto a mudar de lado, mesmo diante de
acontecimentos que deveriam levá-lo a reconsiderar sua escolha. Assim, a
persuasão se torna mais difícil. E os pequenos deslocamentos decidem quem
governa sem desfazer a divisão que produziu a eleição.
Aqui, saímos calcificados em 2014, 2018 e
2022 e vivemos a mesma divisão em 2026. As denúncias de corrupção atingem um
candidato, mas ninguém arreda o pé. No “Instituto Nacional de Dois Pesos e Duas
Medidas”, censura vira combate às fake news; depredação provoca indignação ou
amnésia, conforme a autoria. As benesses do incumbente chocam quem comemorava
quando a caneta estava com seu presidente. Cada lado culpa seu par de ministros
do STF e se convence de que, retirados dois ou três, o Brasil será um país
sério. Ambos erguem a superioridade moral como um troféu.
No meio, restam os indecisos, os eleitores
dos candidatos do segundo pelotão no primeiro turno e os que se abstiveram. O
combate segue naquela estreita faixa que temos chamado, no IDEIA, de “eleição
dos 3%”. Quem antes preferiu outro candidato precisa escolher entre os
finalistas, anular o voto ou ficar em casa. Quem já escolheu precisa voltar à
urna e confirmar. Poucos estão dispostos a sair de um campo para abraçar o
campo adversário.
Essa rigidez convive com outra característica
do momento: sustentar um governo popular tornou-se difícil em muitas
democracias. Na última década, os partidos governistas perderam posição na
grande maioria dos países ocidentais que realizaram eleições nacionais. O
desgaste atravessa ideologias e produz o que chamamos de maldição do
incumbente.
Governos não entregam a melhoria de vida no
prazo e na escala prometidos. A inflação desacelera, mas os preços não voltam
ao patamar anterior. O emprego cresce sem aliviar o orçamento doméstico. O
eleitor cobra uma experiência; o governo responde com uma estatística. O
incumbente precisa responder: se sabe o que fazer, por que ainda não fez?
Merece continuar?
Nesse segundo turno, os estudantes que
tomaram as ruas em prol do PT fizeram por Lula o que a campanha não tinha
conseguido: rejuvenescer sua imagem. Cercado por uma geração que poderia ser
sua neta, voltou a parecer parte de uma expectativa de futuro, em resposta ao
cansaço frequentemente relatado nas pesquisas qualitativas. Dessa forma, a
campanha encontrou o tom ao combinar energia e guerrilha criativa com a agenda
do eleitor. Em “O país dividido”, Jairo Nicolau destaca que, entre os eleitores
obrigados a votar, os de 18 a 29 anos são os que menos comparecem às urnas. A
mobilização dos fandoms de Beyoncé e Taylor Swift pode, portanto, fazer duas
coisas por Lula: revitalizar sua campanha e estimular o comparecimento de quem
costuma faltar.
A estratégia também lembra os esforços da
campanha de Iván Cepeda na Colômbia no segundo turno, que buscou mobilizar quem
não havia votado no primeiro turno, justamente com a mobilização de estudantes,
artistas e comunidades de fãs de K-pop, como aqui. O esforço fez 2,4 milhões de
pessoas a mais comparecerem no segundo turno e também reduziu a distância dele
para De La Espriella no resultado final, mas não o suficiente para virar o
resultado. Note-se que, diferentemente do Brasil, na Colômbia não há restrição
ao transporte de eleitores, o que faz toda a diferença para incentivar o
comparecimento.
Do outro lado, Flávio Bolsonaro, candidato da
mudança, passou a exibir a imagem do establishment: eventos controlados,
ambientes masculinos e políticos enfileirados em torno de uma vitória que já
dão como certa. O presidente busca renovação; o desafiante conta com o apoio de
quem já manda. Mesmo na oposição, Flávio Bolsonaro faz a campanha como quem já
está no poder. Precisa da “não campanha”: transmitir segurança sem interromper
o movimento favorável, beneficiado pelo vento desafiante, diante de um governo
que não consegue melhorar sua avaliação, com algumas surpresas à la Pablo
Marçal para engajar sua base, como as declarações de ida ou não ida aos debates
e das motociatas típicas da era Jair.
A pergunta central na reta final é: o que
virá depois? Caso eleito, Flávio Bolsonaro priorizaria o ajuste fiscal, a
agenda conservadora, as demandas da família Bolsonaro, o impeachment de
ministros do STF, a mão de ferro na segurança pública, o fim da reeleição ou o
custo de vida? A maioria que hoje vota contra o PT não define essa ordem e quer
encerrar a era Lula por razões distintas. E se Lula vencer, a nova energia e a
escuta alcançarão o governo? Ou no dia um começará a disputa pelo seu legado?
O mercado saberá quem venceu em uma noite;
conhecerá o governo na primeira decisão que contrariar suas expectativas.
O segundo turno é uma nova eleição na
estratégia, na mobilização e no peso de cada voto que falta. As lealdades e os
problemas vêm do primeiro. Ganhar de Lula ou de Flávio é uma tarefa. Entregar o
governo que eleitores e investidores esperam, a partir de um governo
potencialmente impopular - dado que será eleito com metade do país contra -,
será outra. E fica um alerta: numa eleição com resultado certamente apertado
como será esta, o desfecho será democraticamente aceito pelos derrotados? Esse
talvez seja o maior risco para quem investe, dado que 8 de janeiro é um
pesadelo recente demais para ser esquecido. Que não se repita.

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