sábado, 17 de outubro de 2026

Palavra de candidato, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Nas eleições, os discursos são fantasiosos. Todos contêm fórmula mágica para gerar empregos, reduzir a inflação e promover a felicidade geral.

Flávio Bolsonaro afirmou que não participaria do debate com Lula promovido pela TV Bandeirantes. Palavra final. Horas depois, voltou atrás. Afirmou que iria. Ele também fez pesadas críticas ao projeto que termina a escala de trabalho 6x1. Mas também voltou atrás. Votou a favor. A palavra de candidato não vale muito. Ou quase nada. Lula promete mundos e fundos. Até esquecer a dívida de microempresários com o Fisco. Anistia inesperada. Vale tudo na corrida pela vitória. Estelionato eleitoral para todos os gostos.

Eleição promove essa falta de compromisso. O papel aceita tudo. E os discursos são fantasiosos. Todos contêm fórmula mágica para gerar empregos, reduzir a inflação e promover a felicidade geral. Mas não é fenômeno brasileiro. Empresários de alto coturno, nos Estados Unidos, estão avisando, individualmente, aos eleitores que, se votarem a favor dos Republicanos, receberão um cheque de US$ 5 mil. Generosidade específica. Vote no fulano e ganhe dinheiro. 

Quem acompanha o noticiário internacional sabe que Donald Trump é um trapalhão. Não mede consequências, não avalia o cenário e comete arbitrariedades que fazem os fundadores dos Estados Unidos se revirarem nos respectivos túmulos. Nesta semana, ele decidiu desconhecer o embargo econômico que ele mesmo decretou contra a Rússia. E começou a comprar petróleo de Moscou. E mais: disse que Volodymyr Zelensky deve ser substituído no governo da Ucrânia. Tudo isso porque sua decisão de fazer guerra contra o Irã foi um tremendo tiro no pé. O adversário fechou o Estreito de Ormuz e provocou inflação no mundo inteiro — especialmente nos Estados Unidos. 

A solução de improviso foi esquecer que a Rússia era adversário e comprar o produto ofertado pelo antigo rival. Petróleo mais barato pode diminuir o preço para o consumidor norte-americano. Por consequência, Trump passa a ter alguma chance de vitória nas próximas eleições, em novembro, que vão eleger os novos integrantes da Câmara e do Senado. Na atual situação, o dirigente louro, segundo as pesquisas, vai perder a maioria nas duas casas. Pagando os US$ 5 mil e baixando o preço do combustível, talvez ele tenha alguma chance. Também lá vale tudo para ganhar a eleição. Não é recomendável acreditar na palavra do presidente norte-americano.

Lula, todo brasileiro conhece. Flávio é uma incógnita. É um senador de poucos projetos e reduzida participação no debate político. Ele é candidato à Presidência da República por indicação solitária de seu pai, Jair. Sua candidatura não resulta de acordo entre partidos, nem de decisão autônoma de um conjunto de siglas. Ele é apenas o herdeiro da família. Não carrega com ele nenhum mérito específico, além de ser filho de quem é. Flávio tem contra ele sua atuação na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro a favor das milícias que dominam extensas áreas na Cidade Maravilhosa. Esse detalhe não é segredo para ninguém.

Cláusula de barreira — A eleição geral de 2026 já gerou perdedores, e pouca gente percebeu a enormidade do estrago. A cláusula de barreira derrubou 12 partidos e duas federações. São eles: Agir, Avante, Democrata, DC (Democracia Cristã), Missão, PCB (Partido Comunista Brasileiro), PCO (Partido da Causa Operária), PDT (Partido Democrático Trabalhista), PRTB (Partido Renovador Trabalhista Brasileiro), PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado) e UP (Unidade Popular). As duas federações que não atingiram os requisitos foram: PSol/Rede e PRD/Solidariedade. Segundo a lei, os partidos deveriam conseguir, no mínimo, 2,5% dos votos válidos nacionais para deputado federal, com, no mínimo, 1,5% em nove estados ou eleger pelo menos 13 deputados federais, distribuídos por, pelo menos, nove estados. Os partidos que não atingiram esses requisitos perderam o acesso aos recursos do Fundo Partidário e à propaganda partidária gratuita no rádio e na televisão. O partido não é extinto, nem os parlamentares eleitos perdem seus mandatos. A vida dessas siglas se torna mais difícil, porque foi fechada a torneira do dinheiro fácil originário do governo federal.

Festas — O inacreditável Daniel Vorcaro revelou-se um novo rico de almanaque. Tentou encomendar o vinho francês Romanée-Conti para recepcionar seus amigos importantes do governo federal e as 20 meninas convidadas para a confraternização. Esse vinho é uma preciosidade. Safras recentes atingem preço, por garrafa de 750 ml, entre R$ 60 e R$ 120 mil. Em safras antigas, seu preço pode chegar a um milhão de reais por garrafa. A safra de 1945 teve garrafas vendidas por R$ 4,5 milhões. O audaz empresário queria encomendar 300 unidades. Disse ao perplexo vendedor que o povo brasileiro pagaria a conta. Nisso ele acertou. É o dinheiro dos aposentados e pensionistas de todo o país no qual ele passou a mão.

Nenhum comentário: