Por O Globo
Sua anunciada subserviência aos Estados Unidos
é tão nefasta quanto a birra petista; não faltam aloprados no seu entorno
Pode haver conselho de mãe nos para-choques
de caminhão (“Mantenha distância”), autoajuda nas tampas dos bueiros (“Força e
Luz”) e pílulas de sabedoria nas placas de cruzamento com a linha do trem
(“Pare. Olhe. Escute.”). Os sinais estão por toda parte, Flávio, é só prestar
atenção.
Você disse que é um “Bolsonaro que tomou vacina”. Convenhamos que não tenha feito mais do que qualquer pessoa sensata faria. As vacinas nos salvaram da varíola, da poliomielite, da rubéola; nos salvam de sarampo, tétano, coqueluche, raiva, meningite, tuberculose; hão de nos salvar da mpox, do Ebola e do que vier por aí.
Vacina é uma das maiores descobertas da
Humanidade. Simula-se uma ameaça, o corpo se prepara e, quando o perigo real
vem, as defesas estão a postos. Parece um disparate comparar seu pai a um mal
menor, mas talvez aqueles quatro anos em que ele esteve no governo tenham nos
vacinado contra o obscurantismo, a beligerância, a falta de empatia. Por isso
seu maior adversário é esse sobrenome, que evoca irresponsabilidade, desprezo
pela cultura, pela vida.
Repare que as críticas que lhe fazem não
estão ligadas à falta de experiência administrativa — não, a fantástica loja de
chocolate não conta, nem o gerenciamento subjetivo de salários dos funcionários
do seu gabinete. Elas falam do fascismo (delirante) que lhe ficou de herança. É
o peso de ser um Zero Um, sem existência própria. Se você ganhar esta eleição,
terá conseguido tirar a esquerda do poder. Se perder, terá evitado que uma
direita decente chegue lá. Isso é se contentar com pouco, não?
Seu programa de governo cita um bem-vindo
“tesouraço”, mas é sério que você criará um Ministério da Prosperidade? Deve
estar confundindo a Esplanada com um desses templos onde vendilhões enriquecem
à custa da vulnerabilidade dos fiéis. Aliás, só acreditando em milagre para
propor a redução do desmatamento enquanto flexibiliza o licenciamento
ambiental.
Você quer resolver o problema de superlotação
nos presídios superlotando os que construirá, no modelo importado de El
Salvador? Leia os sinais à sua volta: “Em caso de incêndio, não use o elevador.
Use as escadas”. Vamos mesmo voltar ao “Ivo viu a uva” como método de
alfabetização — e ainda por cima numa escola cívico-militar? Está nas placas:
“Jogue o lixo na lixeira”.
Sua anunciada subserviência aos Estados Unidos
é tão nefasta quanto a birra petista; não faltam aloprados no seu entorno; o
clima de “nós x eles” uma hora cansa. Dá para dispensar a nostalgia da ditadura
— ou, se isso estiver acima das suas forças, pelo menos troque Médici por
Geisel. Ele foi pragmático na política externa, peitou a linha dura, entendeu a
necessidade da distensão. Certamente leu a placa “Cuidado com o cão”.
Você foi sensato ao tomar as duas doses
contra a Covid-19. Se quiser desempatar este segundo turno, está na hora da
dose de reforço, a que protege contra arroubos autoritários, casuísmos e
maluquices (como indicar o irmão chapeiro para qualquer posto que exija
equilíbrio e discernimento).
Você está num momento em que tanto pode
atravessar os trilhos e desmentir o barão de Itararé — ele disse que, de onde
menos se espera, daí é que não sai nada — ou ser atropelado pelo trem (cujo
maquinista não tem economizado lenha nesta sua última viagem). Há um sinal bem
à sua frente: “Pare. Olhe, Escute.” E outro: “Cuidado: piso escorregadio”. É bem
onde você está pisando.

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