Correio Braziliense
Partidos apostam em grandes atos no fim de
semana, mas a ciência política explica por que encher avenidas nem sempre atrai
votos novos
A nove dias de escolhermos o novo presidente da República, teremos pela frente um fim de semana em que o clima de eleição estará presente nas ruas e nas redes sociais. Atos tanto em defesa da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto da vitória do senador Flávio Bolsonaro estão previstos para as principais capitais. Além disso, pela primeira vez, salvo alguma desistência de última hora, os dois devem se enfrentar em um debate presidencial, na noite de domingo.
No fim de semana passado, prolongado pelo
feriado de Nossa Senhora Aparecida, manifestantes pró-Lula ocuparam as ruas do
Rio, São Paulo e Brasília. A quantidade de gente impressionou. Agora, o PL
pretende dar o troco com o deputado federal Nikolas Ferreira, fenômeno de votos
no primeiro turno, à frente do "Bloquinho do 22", com manifestações
previstas no Sudeste, Nordeste e Norte, no domingo. Já o "Blocão 22"
vai ocorrer na Avenida Paulista, com a presença de Flávio, horas antes do
debate presidencial.
Na capital federal, tenho certeza que os
militantes também vão ocupar as ruas, a exemplo do que ocorreu no domingo
anterior ao primeiro turno. Há manifestação convocada para o Museu da
República. O Eixão do Lazer estará lotado de bandeirolas e eleitores com
camisas do candidato preferido. Diretórios regionais de partidos de esquerda e
de direita prometem fazer mobilizações pontuais em feiras de grande circulação,
como a do Guará, de Ceilândia e da Torre de TV.
Está claro que candidatos e partidos apostam
nas grandes manifestações de rua para demonstrar força e conquistar votos na
reta final da campanha. A lógica parece simples: quanto maior a multidão, maior
a chance de vitória. Mas, afinal, atos de ruas viram votos? Conseguem conquistar
o indeciso?
A ciência política faz uma distinção
importante entre persuasão e mobilização. A primeira ocorre quando alguém muda
de preferência e passa a apoiar outro candidato. A segunda consiste em
estimular eleitores já identificados com determinada candidatura a participar
da votação. É nessa segunda frente que os atos públicos tendem a produzir
resultados mais relevantes.
Em uma disputa marcada pela polarização,
dificilmente um eleitor convencido por um candidato muda de opinião ao ver uma
multidão favorável ao adversário. A reação mais provável é reforçar as
convicções que ele já tem. As manifestações costumam reunir pessoas com maior
interesse pela política, posições ideológicas definidas e vínculos mais fortes
com as candidaturas. O eleitor indeciso, que ainda avalia alternativas e nem
sempre acompanha o noticiário diariamente, raramente está entre os
protagonistas dessas concentrações.
Mas, ao mesmo tempo, uma manifestação
numerosa contribui para renovar o ânimo da militância, estimular simpatizantes
desmobilizados e aumentar a disposição de comparecer às urnas. Em uma eleição
decidida por poucos votos, a capacidade de reduzir a abstenção entre eleitores
de uma candidatura faz a diferença. O efeito se estende às relações pessoais.
Quem sai motivado de um ato tende a conversar mais sobre a eleição com
familiares, amigos e colegas de trabalho.
Existe, porém, o risco de o resultado ser o
contrário do esperado. A "demonstração de força" também pode produzir
uma falsa sensação de vitória entre os apoiadores, levando a uma confiança
exagerada na reta final. No fim das contas, as ruas oferecem pistas sobre o
grau de mobilização de uma campanha, mas não funcionam como pesquisa eleitoral.

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