sábado, 17 de outubro de 2026

Incompetência ou perversidade? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Em menos de um mês, PM paulista mata terceira pessoa em aparente surto psicótico

É assustador que cúpula da polícia não consiga fazer agentes seguirem protocolo

Às vezes eu me pergunto se o governador Tarcísio de Freitas e a cúpula da segurança pública de São Paulo são apenas incompetentes ou se têm também maldade no coração. Só neste mês, que mal passou da metade, já se registraram três casos de cidadãos em aparente surto psicótico mortos pela PM. Em dois deles, os policiais dispararam mais de 20 vezes contra as vítimas.

Falei em incompetência porque as circunstâncias desses óbitos estão em total desacordo com o protocolo da PM para a abordagem de suspeitos, notadamente daqueles que se imagina estarem sob estresse psíquico. A primeira providência deveria ter sido acionar o Samu. A tentativa de usar armamentos menos letais antes dos tiros também teria sido obrigatória. Mesmo que os suspeitos representassem ameaça real à vida dos policiais ou de terceiros, os agentes falharam. O método Giraldi, adotado em SP, jamais autoriza descarregar a arma contra o suspeito. Será que os comandantes não conseguem treinar seu pessoal para seguir a regra que a própria instituição desenhou?

Falei em maldade porque ninguém fora do espectro do sadismo ou da psicopatia pode considerar aceitável que pessoas morram porque a polícia não consegue comportar-se como ela mesma acha que deveria.

Se fossem casos isolados, até daria para deixar passar. Mas o que não falta são histórias escabrosas recentes envolvendo a PM que ainda ocorrem num contexto de persistente aumento nos óbitos por intervenção policial.

Para piorar o quadro, a psicologia moral sugere que o ser humano já vem de fábrica com mecanismos que inibem sua disposição de infligir danos em seus semelhantes. Não se trata, por óbvio, de uma trava absoluta, mas cérebros saudáveis sentem repulsa emocional em provocar dor em terceiros. Uma das formas de reverter essas inibições é submeter a tropa a uma cultura que valorize o policial matador. Que os PMs estejam mergulhados nela é compreensível, embora lamentável. Que o governador e outras autoridades chancelem essa cultura de morte é imperdoável.

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