terça-feira, 21 de outubro de 2014

Para tucano, é na reta final que o eleitor faz a comparação definitiva

Vandson Lima – Valor Econômico

BELÉM - Minutos depois da divulgação de pesquisa do Datafolha, que mostrou pela primeira vez neste segundo turno a presidente Dilma Rousseff (PT) à frente de Aécio Neves (PSDB) na corrida presidencial, o candidato tucano subiu ao palco em um comício em Belém (PA) no qual colocou como prioridade da disputa a oportunidade de "tirar o PT do governo".

"O que está em jogo não é apenas a vitória de um candidato. É a chance de tirar o PT do governo e ter a nossa libertação. Está nas mãos de cada um de vocês, dos homens e mulheres de bem", bradou Aécio, que aparece na pesquisa com 48% dos votos válidos contra 52% de Dilma.

Para Aécio, "na reta final é quando o eleitor faz a comparação definitiva", referindo-se tanto a sua candidatura quanto do governador Simão Jatene (PSDB), que aparece na disputa pela reeleição em situação de empate técnico e numericamente atrás de Helder Barbalho (PMDB).

Acompanhado do ex-jogador Ronaldo, da cantora Fafá de Belém e do deputado Paulinho da Força (SD-SP), Aécio garantiu que, se eleito, concluirá as obras da usina de Belo Monte, mas ressalvou. "Precisamos diversificar nossa matriz energética". Para Aécio, "esse governo é o das obras anunciadas e permanentemente adiadas".

No Estado onde a disputa local é a mais acirrada do país - com Jatene e Barbalho tendo se mantido com percentuais próximos durante toda a disputa e indo ao segundo turno com uma diferença de apenas 50,5 mil votos (1,4%) em favor do pemedebista -, o governador aposta nos apoios de Marina Silva (PSB) e Aécio para virar a eleição se reeleger neste segundo turno. Segundo a última pesquisa Ibope, divulgada no sábado, Barbalho aparece na frente com 52% das intenções de voto, numericamente à frente de Jatene, com 48%, o que indica empate técnico.

Para o governador, pesaram contra sua candidatura à reeleição a forte oposição das mineradoras que atuam no Estado e a estratégia de Barbalho de colar em Jatene a pecha de anti-separatista, em referência ao plebiscito de 2011 que pretendia dividir o território e criar os Estados de Carajás e Tapajós, que acabou rejeitado por 66,5%.

No primeiro caso, a criação de uma taxa de fiscalização da produção mineral afugentou potenciais doadores da campanha do tucano. "Isso afetou fortemente as contribuições de campanha. Não entrou um real de doação das mineradoras", conta.

Sobre o plebiscito, que entrou na pauta nas últimas semanas do primeiro turno, foi uma via de mão dupla: a campanha de Barbalho trabalhou fortemente nos municípios do sul e oeste do Pará para mostrar Jatene como "culpado" pela não divisão, o que fez com que essas cidades votassem contra o governador. Na outra ponta, Jatene usou de sua propaganda para dizer que Barbalho iria dividir o Pará. "Nunca disse que eu era contra a divisão, apenas que não dá para seguir essa maluquice de plebiscito, que sem nenhum planejamento jogou os municípios uns contra os outros", diz o governador. "Essa experiência foi um desastre para o Pará, criou um cenário de cisão no Estado".

Na capital Belém, contrária à divisão, Jatene venceu com boa margem, alcançando 57,1% dos votos válidos em primeiro turno, resultado verificado também na região metropolitana. Em Santarém e Marabá, que seriam capitais dos novos Estados de Tapajós e Carajás, Helder Barbalho venceu com larga diferença, respectivamente de 68,6% e 67,4%. O vice de Barbalho, deputado Lira Maia (DEM), é autor de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) para viabilizar um novo plebiscito, com a participação apenas de eleitores das regiões separatistas.

Governo adia depoimento no caso da Petrobrás

• Base manobra e depoimento do doleiro à CPI é adiado

Ricardo Britto e Tânia Monteiro – O Estado de S. Paulo

Preocupado com o impacto de declarações de Alberto Youssef às vésperas das eleições, o governo conseguiu adiar o depoimento do doleiro na CPI que investiga a corrupção na Petrobras. Após intensa mobilização do Palácio do Planalto, o depoimento de Youssef deverá agora ser realizado na quarta-feira, dia 29, três dias depois do segundo turno da disputa presidencial.

"Para as investigações não há diferença entre chamá-lo para depor agora ou depois do segundo turno", afirmou o presidente da CPI mista da Petrobras, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB).

Na semana passada, Vital aventou a possibilidade de o depoimento de Youssef ocorrer nessa quarta, 22, dia em que a CPI ouvirá o atual diretor de Abastecimento da estatal, José Carlos Cosenza. O colegiado já havia aprovado um requerimento de convocação de Youssef e, pelo regimento do Congresso, cabe ao presidente da CPI marcar o dia do depoimento.

Emissários do Planalto passaram, então, a agir para evitar outra surpresa a poucos dias do segundo turno eleitoral. Capitaneada pelo PSDB, a oposição, por sua vez, chegou a irritar Vital, cobrando que o depoimento fosse marcado para amanhã.

O governo tem feito de tudo para evitar mais estragos na campanha da presidente Dilma Rousseff à reeleição. Desde que o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa revelou um esquema de desvio de dinheiro na estatal, beneficiando políticos da base aliada, entre os quais o PT, o PMDB e o PP, a imagem da presidente sofreu abalos.

Partidos que apoiam a candidatura de Aécio Neves (PSDB) à Presidência querem explorar, na CPI da Petrobras, as recentes declarações de Costa e de Youssef. Aliado de Dilma, a quem tem ajudado na campanha em seu Estado, a Paraíba, Vital resiste a acatar as sugestões da oposição, sob o argumento de que a CPI não pode ficar "contaminada" pelo ambiente eleitoral.
Preso pela Operação Lava Jato, Youssef também fez acordo de delação premiada com o Ministério Público, a exemplo de Costa, e prometeu revelar tudo o que sabe em troca de redução de sua pena.

Depois de citar o tesoureiro do PT, João Vaccari, como o homem que recebia a propina dos contratos da Petrobras para o partido, Costa disse na delação premiada que a campanha da ex-ministra da Casa Civil Gleisi Hoffmann recebeu, em 2010, ajuda de R$ 1 milhão, a pedido de Yousseff, como revelou o jornal O Estado de S. Paulo. À época, ela foi eleita para o Senado.

Tanto Gleise como Vaccari negam as acusações com veemência. "Não conheço Alberto Youssef nem Paulo Roberto Costa", disse a senadora. "Diante de tantas acusações infundadas, o secretário de Finanças vai processar civil e criminalmente aqueles que têm investido contra sua honra e reputação", afirmou o tesoureiro do PT, em nota oficial.

Vital afirmou que está encontrando dificuldades para marcar as audiências no período eleitoral, mas negou qualquer pressão do Planalto. Youssef está preso e, segundo o presidente da CPI da Petrobras, é preciso acertar muito bem a logística com a Polícia Federal e com a Justiça Federal do Paraná para que o doleiro viaje a Brasília.

Amplos desdobramentos do escândalo na Petrobras – Editorial / O Globo

• A SEC, agência do mercado de ações e títulos nos EUA, abriu investigação sobre o caso, e ainda falta conhecer a lista de políticos do esquema de corrupção

A visão conspiratória de que o escândalo na Petrobras obedeceria a um enredo sob encomenda para desestabilizar a candidatura de Dilma Rousseff não sobrevive a um mínimo de bom senso. O andamento das investigações da Operação Lava-Jato, da PF — a que devassou os laços entre o doleiro Alberto Yousseff e o diretor da estatal Luís Roberto Costa —, precisaria se articular com o calendário de interrogatórios na Justiça e MP, alguns sob supervisão do ministro Teori Zavascki, do Supremo, para produzir um noticiário negativo ao governo do PT em setembro e outubro.

O noticiário existe, mas por outro simples motivo: porque o escândalo do superfaturamento de contratos de empreiteiras com a Petrobras, para financiar propinas e caixa dois de políticos e campanhas, se configura mesmo como de grandes proporções. Tanto que se prevê a divulgação de informações ainda mais danosas ao PT — e não apenas para ele — tão logo o segredo de justiça sobre depoimentos que envolvam acusados com foro privilegiado, políticos em cargos eletivos, seja suspenso. O pior ainda estaria por acontecer.

A amplitude do escândalo é tal que, segundo o jornal "O Estado de S.Paulo", Roberto testemunhou que até mesmo o então presidente do PSDB, Sérgio Guerra, teria recebido suborno do esquema, em 2009, para ajudar a inviabilizar uma CPI sobre a Petrobras. Morto há sete meses, Guerra não pode se explicar.

A história ficou ainda mais séria porque Dilma, no sábado, admitiu que houve "desvio de dinheiro público" na Petrobras, ao afirmar em entrevista que se desdobrará para "ressarcir o país". É algo inédito, porque nunca foi admitido formalmente por alguém do PT qualquer malfeito de militantes. Até hoje, com mensaleiros em cumprimento de penas, não se reconhece sequer que houve o mensalão. Pode ser uma manobra eleitoreira para tentar reduzir danos à campanha de Dilma, causados pela pecha de corrupto que parece pespegar no PT, não bastasse ter sido ela presidente do conselho de administração da empresa. O resultado prático da afirmação da candidata, porém, é a confirmação definitiva do escândalo.

Desdobramentos começam a ocorrer. Nos Estados Unidos, a SEC (Securities and Exchange Commission), agência responsável pela fiscalização do mercado de ações e títulos, instaurou investigação sobre o caso. Afinal, recibos de ações da Petrobras são negociados em Nova York, e seus detentores terão sido lesados pela retirada fraudulenta de recursos do caixa da estatal. Entre as vítimas também estão os acionistas brasileiros, em que se destacam trabalhadores que investiram o FGTS nas ações da empresa. Missão para a CVM.

Para o ano que vem, primeiro do próximo governo, já está contratada a turbulência a ser causada pela divulgação da lista de políticos financiados por esse dinheiro sujo, a ser avaliada pelo Supremo e Ministério Público. O escândalo, então, ainda evoluirá bastante.

O fecho de uma luta amarga - O Estado de S. Paulo / Editorial

A campanha pelo Planalto entrou na reta final no debate televisivo de domingo à noite - o penúltimo da série - em que Dilma Rousseff e Aécio Neves descobriram a pólvora. Deixaram de trocar golpes baixos porque as pesquisas encomendadas pelos respectivos comitês mostraram o repúdio da maioria dos entrevistados ao torneio de ofensas pessoais a que se entregaram no confronto anterior, meros três dias antes. Faz muito tempo, porém, que os candidatos a cargos executivos sabem, também a partir de levantamentos de opinião, que o eleitor se irrita quando o "bate" prevalece sobre o debate, menos por fidelidade aos valores da ética pública do que por se sentir irrelevante enquanto a pancadaria corre solta. Na clássica percepção de uma eleitora, registrada numa pesquisa qualitativa, "quando brigam, os políticos deixam de falar para nós".

A apelação às vezes compensa, mas pode enganar. Tendo acabado a caneladas com as chances de Marina Silva chegar ao segundo turno, Dilma tratou de repetir a dose com Aécio. Só que ele replicou na mesma moeda, e deu no que deu. Como breve contra a baixaria, a reprovação popular é preferível à intervenção do Estado. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) baniu trechos de nada menos de 14 peças de propaganda para evitar a degradação do horário eleitoral em "baile do risca-faca", no dizer do presidente da Corte, ministro Dias Toffoli. O problema é que as iniciativas de engenharia moral do TSE, apesar da motivação louvável, tolhem a liberdade de expressão dos candidatos e parecem ignorar a capacidade dos brasileiros de punir, eles próprios, os responsáveis por arrastar a competição eleitoral à sarjeta, como ocorre nos cada vez mais virulentos spots que permeiam a programação das emissoras.

Malgrado o tom aceitável do debate de anteontem, a cinco dias da votação o panorama é o que se poderia esperar de uma disputa amarga e polarizada. Toda eleição, como se sabe, é uma escolha entre continuidade e mudança. Também esta, mas com a incendiária peculiaridade de se travar não entre o partido no poder e os que ambicionam substituí-lo. É entre PT e anti-PT. O eleitor antipetista votará em Aécio menos, talvez, pelos atributos que tiver demonstrado possuir para conduzir o Brasil do que por encarnar afinal, ao cabo de uma campanha marcada por uma sequência de reviravoltas sem precedentes, a esperança de remover do Planalto a legenda que, tendo aspirado, ao surgir, ao monopólio da decência, é vista como a força propulsora do que a política nacional tem de mais execrável.

Com a agravante crucial de que, não bastassem o aparelhamento do Estado iniciado por Lula e a deslavada licenciosidade dos companheiros na manipulação dos bens públicos, Dilma deixou um raro legado de incompetência administrativa e retrocesso generalizado, com a inflação em alta, a economia à beira da recessão e as contas públicas na UTI. Nem "o social" escapou. Este ano, pela primeira vez desde 2003, a miséria parou de cair. A rigor, teve um ligeiro aumento, com o contingente de miseráveis subindo de 10,9 milhões para 11,1 milhões. Por último - e nem de longe menos importante - assomam os escândalos da Petrobrás. Do que se deu a conhecer das delações premiadas do seu ex-diretor Paulo Roberto Costa, o PT ficava com a parte do leão das propinas pagas por empreiteiras atrás de contratos superfaturados com a estatal.

Do pedágio de 3% sobre o valor do negócio, 2% foram para a legenda de Dilma, ajudando a irrigar a sua campanha em 2010. A presidente-candidata não se livrará desta abominação até o fechamento das urnas do domingo - pelo menos. Em desespero de causa, nos últimos dias ela tentou mudar a ladainha de que de nada sabia das lambanças na Petrobrás, mas, para variar, enredou-se nas palavras. Incerta, primeiro disse numa entrevista que "se houve desvio de dinheiro público…", para emendar, "se houve, não; houve, viu?". Achando, talvez, que teria ido longe demais, preferiu depois falar em "indícios" de desvio, ressalvando que falta saber "quanto foi e quem foi". É o pânico diante de um tema que pode custar-lhe a reeleição. A prova dos nove poderá ser antevista no debate da Globo, na sexta-feira.

Aécio recebe apoio de intelectuais de esquerda

Elizabeth Lopes – O Estado de S. Paulo

Nesta reta final de segundo turno, o candidato do PSDB à Presidência da República, Aécio Neves, recebeu apoio de intelectuais e profissionais liberais que assinaram um manifesto intitulado "Esquerda Democrática com Aécio Neves". Lançado no dia 16, tinha 774 apoiadores até o início da tarde desta segunda-feira, reunindo nomes que já foram simpatizantes do PT e da ex-senadora Marina Silva (PSB), como o ator Marcos Palmeira, os cineastas Zelito Viana e Wladimir Carvalho, a produtora cultural Helena Severo, o economista José Eli da Veiga e o cientista político José Álvaro Moises, ambos da USP, o ex-presidente do IBGE Sergio Besserman Vianna e o cientista político Luiz Eduardo Soares, que foi Secretário de Nacional Segurança em 2003, no governo Luiz Inácio Lula da Silva.

Outro apoiador é o ministro aposentado do STF Eros Grau, que foi indicado no governo petista de Luiz Inácio Lula da Silva, mas já declarou que sempre foi simpático ao PSDB e é muito amigo do vice na chapa tucana, senador Aloysio Nunes Ferreira. No manifesto de dez tópicos, muito signatários afirmam que no passado votaram no PT, mas agora votam em Aécio Neves em defesa do "pluralismo democrático" e dizem terem ficado decepcionados com a forma como o PT tratou a presidenciável Marina Silva (PSB) no primeiro turno, hoje aliada de Aécio.

"A campanha petista no primeiro turno valeu-se de táticas e subterfúgios que desonram o bom debate. Caluniou, difamou e agrediu moralmente a candidatura de Marina Silva, sob o pretexto de que seria preciso fazer um ''aguerrido'' confronto político. Atropelou regras procedimentais e parâmetros éticos preciosos para a esquerda e a democracia", diz um dos trechos do manifesto.

Em outro, os signatários destacam: "Sempre respeitamos o PT em cujos candidatos muitos de nós já votaram. Pensamos que o rico pluralismo da esquerda deve se combinar com a recusa a qualquer posicionamento inflexível, submisso a princípios abstratos ou comandos partidários.

Não aceitamos que nenhum partido atue como se fosse o único representante coerente da esquerda ou da democracia."

Veja a íntegra do manifesto:

Esquerda Democrática com Aécio Neves

Democracia, Direitos Sociais e sustentabilidade

1. Somos democratas. Intelectuais, profissionais de diferentes áreas, cidadãos de esquerda, ativistas de causas e ideias variadas. Alguns de nós estão ou estiveram vinculados a partidos. Outros jamais tiveram qualquer ligação deste tipo. Nossas posições independem de orientação partidária. Integramos o amplo e diversificado universo de homens e mulheres que defendem a democracia política, o pluralismo e a justiça social como base para uma sociedade mais igualitária, fraterna.

2. Sempre respeitamos o PT, em cujos candidatos muitos de nós já votaram. Pensamos que o rico pluralismo da esquerda deve se combinar com a recusa a qualquer posicionamento inflexível, submisso a princípios abstratos ou comandos partidários. Não aceitamos que nenhum partido atue como se fosse o único representante coerente da esquerda ou da democracia.

3. Partidos e políticos mudam ao longo do tempo. Nós, cidadãos, também. Governos nascem de um jeito, mas não permanecem iguais. O que se fez num período não pode ser repetido sem mais em outro período. Realizações de um tempo servem de base para conquistas de um tempo seguinte, mesmo que governos sejam distintos ou adversários. Valorizar conquistas cumulativas, buscar consensos mais que divergências, é um caminho que se mostra particularmente importante no Brasil, que tem vivido uma intensa modernização econômica e social sem o devido acompanhamento de uma modernização política.

4. Nas eleições de 2014, nos decepcionamos com o PT. A campanha petista no primeiro turno valeu-se de táticas e subterfúgios que desonram o bom debate. Caluniou, difamou e agrediu moralmente a candidatura de Marina Silva, sob o pretexto de que seria preciso fazer um “aguerrido” confronto político. Atropelou regras procedimentais e parâmetros éticos preciosos para a esquerda e a democracia.

5. Chegou a hora de as oposições mostrarem que podem governar o País. A aliança programática que se constituiu em torno de Aécio Neves, impulsionada por PSDB, PSB, PPS e PV, entre outros partidos, e pelo apoio de militantes da Rede e de lideranças políticas expressivas, como Marina Silva, será importante para que se consolide uma perspectiva de renovação. Agregará mais pessoas comprometidas com a democracia. E ajudará a que se supere o quadro de estagnação polarizada em que se encontra a política nacional, criando um polo progressista novo, alargado e requalificado.

6. Aécio Neves e aliados representam uma oportunidade para que se retomem os fios rompidos da vasta tradição do reformismo democrático no Brasil. Seu governo poderá dar seguimento às vitoriosas políticas sociais dos últimos anos. Programas de grande impacto social, como o Bolsa Família, o Mais Médicos e o Minha Casa Minha Vida, podem e devem ser aperfeiçoados, reestruturados e ampliados. O Estado precisa continuar a ser recuperado como fator de regulação econômica e de promoção do progresso social.
7. Nossa meta é ajudar a que tenhamos um País onde o governo dialogue com a sociedade, onde haja mais participação e os movimentos sociais sejam ouvidos, onde não se criminalizem as mobilizações populares e a polícia atue nos marcos do Estado de Direito, onde se governe para todos e se respeitem as minorias, étnicas e de gênero, as sociedades indígenas, as comunidades quilombolas e seus territórios, valorizando-se a educação, a saúde, a previdência e a Seguridade Social. Queremos um Brasil onde todos possam viver, trabalhar e conviver em paz, sem medidas que sacrifiquem e comprometam a juventude ou reprimam a criatividade e a diversidade cultural do País. Não aceitamos que se aprisione a sociedade num maniqueísmo “povo” x “elite”, que leva os cidadãos a simplificar o que não pode ser simplificado. Nem que se deixe solto o poder econômico e se permita que empreiteiras e grandes empresas invadam o processo político e eleitoral, corrompendo e deformando a democracia. A reforma do sistema político e da política tornou-se um imperativo democrático.

8. Devemos adotar uma visão mais abrangente do desenvolvimento e introduzir com clareza a sustentabilidade nas decisões sobre políticas públicas, fazendo com que ela esteja presente tanto no campo quanto nas cidades. A mudança climática precisa ser firmemente confrontada. Numa sociedade como a brasileira, a agricultura familiar e camponesa deve ser fortalecida, por inúmeras razões econômicas e sociais, assim como se deve atuar para proteger nossos territórios, seus recursos naturais e suas populações.

9. Precisamos de governos que bloqueiem a corrosão que os interesses privados vêm promovendo no campo público, como ocorre no SUS, na educação e na política assistencial. O capitalismo brasileiro se consolidou sob os governos do PSDB e do PT, tendo sido modelado pelas mesmas elites econômicas e pela predominância do capital financeiro. Agora, temos de avançar para um novo patamar de modernização e superar o padrão de liberalismo que presidiu àquela consolidação. Não dá para aceitar que os setores mais pobres da população sejam abandonados à própria sorte ou transformados em consumidores, em vez de cidadãos. Os direitos humanos não são negociáveis e nem se pode postergar a expansão dos direitos sociais e dos trabalhadores, seja mediante o aumento e a qualificação dos empregos, seja mediante a melhoria geral das condições de vida.
10. Como democratas, votaremos neste segundo turno em Aécio Neves e na aliança que se forma em torno de sua candidatura. Conclamamos eleitores e políticos dos diferentes partidos a nos acompanharem nesta opção. Ela se mostra hoje o melhor caminho para a reforma da política, a recuperação das boas práticas de governo e a preservação das conquistas sociais tão duramente alcançadas nas últimas décadas.

16 de outubro de 2014

Veja a lista dos signatários no site: http://esquerdademocratica.com.br/

Entrevista -Ferreira Gullar:"A continuação do PT no poder é um desastre"

• O poeta e mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) fala de sua decepção com o Partido dos Trabalhadores e afirma que fazer poesia não depende de sua vontade

Eliane Lobato - Revista IstoÉ

O poeta maranhense Ferreira Gullar, 84 anos, acaba de ser eleito imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), depois de décadas recusando a honraria. Recebeu 36 dos 37 votos, sendo um em branco. Ele aceitou ocupar a cadeira 37, que pertenceu ao presidente Getúlio Vargas (1882-1954) e ao jornalista e empresário Assis Chateaubriand (1892-1968), simplesmente porque ela foi ocupada, por último, por seu amigo e também poeta Ivan Junqueira, falecido em julho. Mas a eleição que o mobiliza, atualmente, é a presidencial. Notório crítico do Partido dos Trabalhadores, ele diz que “a saída do PT do poder é uma revolução para o Brasil”.

Após ter votado em Marina Silva (PSB) no primeiro turno, Gullar, agora, optou por Aécio Neves (PSDB). Ex-comunista e ex-exilado pela ditadura, o poeta concorda que o ideal de sociedade mais justa é difícil de ser alcançado, mas defende que ele seja perseguido por todas as pessoas de boa-fé. Residente no mesmo apartamento há décadas, no bairro de Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro, ele se diz feliz na companhia de muitos livros, quadros e da gata, cujo nome é Gatinha.

ISTOÉ - O sr. escreveu, antes do primeiro turno, que esta eleição é das mais imprevisíveis e tumultuadas. Continua achando?

Ferreira Gullar - Acho que o Aécio (Neves-PSDB) tem chances de ganhar. Pode ser que não ganhe, mas acompanhe: quem votaria na Dilma (Rousseff-PT) no primeiro turno já votou. O Aécio, porém, teve seus votos divididos com a Marina (Silva-PSB). Então, agora, quem tem possibilidade de crescer é ele. Acho que a margem de crescimento dela é muito pequena. É, aliás, o que eu desejo. Desejo que a Dilma perca a eleição. Doze anos no poder não tem cabimento, e ainda quer ficar mais!

ISTOÉ - O sr. também acha que os 20 anos do PSDB em São Paulo são um exagero?

Ferreira Gullar - Só que não tem essa safadeza, essa corrupção toda. O Geraldo Alckmin (PSDB) é um homem limpo.

ISTOÉ -O sr. vota em Aécio porque acredita que ele é a melhor opção ou porque ele é oposição ao PT, que o sr. critica tão fortemente?

Ferreira Gullar - São duas coisas: primeiro, alguém tem que substituir o PT, chega de PT. Segundo, não tenho dúvida de que o Aécio é essa pessoa. Pelo governo que fez em Minas Gerais, acho que ele não é um irresponsável, pelo contrário. Deu uma prova admirável quando caiu nas pesquisas, ficou com menos de 20%, mas continuou na batalha, dizendo que ia para o segundo turno, que ia ganhar. Achei aquilo curioso. Achei que ele estava querendo apenas não jogar a toalha, não se dar por vencido. Mas não, ele mostrou uma capacidade, uma raça que é coisa muito positiva. E o Brasil precisa de uma pessoa assim, dada a situação que o PT criou para o País.

ISTOÉ - Qual situação?

Ferreira Gullar - O Brasil está encalacrado, com a economia em crise, a inflação subindo, uma corrupção espantosa. Não pode continuar isso. Acho que a saída do PT do poder é uma revolução no Brasil. E a continuação é um desastre. Quando o PT foi criado, eu fiquei a favor, acreditava que seria benéfico para o País, para fazer avançar essa luta pela sociedade mais justa, e depois me desapontei. Tenho sempre criticado o governo do PT, continuo nessa visão crítica, e torcendo para alguém vencer o PT. Torci pela Marina no primeiro turno porque parecia que ela é que iria disputar o segundo turno com a Dilma. Mas agora é o Aécio. Eu o conheço, sei que é competente, capaz, e apoio a candidatura dele.

ISTOÉ -Atualmente, o que atrai mais seu interesse, a poesia ou a política?

Ferreira Gullar - Não sou político. Sou cidadão e tenho uma coluna num grande jornal (“Folha de S.Paulo”) em que posso emitir minhas opiniões. Agora, o País é uma coisa que me preocupa o tempo inteiro. A poesia é outra coisa. Dou minha opinião de cidadão, pai de família, com filhos e netos, que compreende que a sociedade brasileira é muito injusta, e isso tem que ser mudado, corrigido, e é obrigação de cada um de nós lutar contra isso. Não se pode aceitar a desigualdade que existe no Brasil, os hospitais cheios de pessoas morrendo sem ser atendidas, ou o ensino péssimo. Paga-se mal aos professores, que têm que trabalhar em quatro ou cinco lugares para sustentar a família.

ISTOÉ - O sr. tem feito poesia?

Ferreira Gullar -Não. A poesia depende de fatores que não dependem da nossa vontade. Posso determinar que vou escrever uma crônica amanhã sobre tal coisa. Mas não posso dizer que vou escrever um poema amanhã, porque vai sair uma bobagem. O poema, como digo, nasce de um espanto, não é uma coisa que sai por querer. Mas eu parei de me espantar. Só me espanto com a corrupção – mas a corrupção não merece um poema.

ISTOÉ - E os quadros? Tem pintado? Algum novo livro?

Ferreira Gullar - Meu hobby é pintar, desenhar, fazer colagens. E esse hob¬by vai ganhar uma exposição em São Paulo, em novembro, e depois outra no Rio. Tem um livro de colagem que está sendo feito e deverá ser publicado no começo do ano que vem, por uma editora nova, a Edições de Janeiro. E tem, também, por essa mesma editora, um livro que venho compondo há 30 anos, que se chama “O Prazer do Poema”. São os que li e que mais me comoveram e encantaram, de autoria de outros poetas. Deve sair no fim deste ano ou no começo do outro.

ISTOÉ - O sr. sempre recusou se candidatar a vagas na Academia Brasileira de Letras. Por que aceitou, agora?

Ferreira Gullar - Demorei porque não fazia parte do meu projeto de vida entrar para a Academia, nunca tinha pensado nisso. Há pessoas que têm entre seus objetivos conseguir um lugar na ABL. Eu não. Quando me convidavam, eu falava que não tinha interesse; isso levou anos e anos. Mas alguns amigos insistiam, insistiam, e eu comecei a me sentir mal, um pouco arrogante, o dono do pedaço... Quando morreu o (poeta) Ivan Junqueira (1935-2014), que era um grande amigo, pessoa por quem eu tinha muito afeto, pensei: “Bom, já que vou ter que entrar, vou entrar no lugar do Ivan, que é meu amigo, uma cadeira que me honra.”

ISTOÉ - Como está se sentindo eleito?

Ferreira Gullar - A posse é em dezembro. Se aceitei me candidatar é porque vou aceitar o convívio na Academia. Tenho muitos amigos lá, e nada tenho contra. Evidentemente, sou bastante ocupado, nem sempre estarei lá. Mas o compromisso que tenho que assumir assumirei. Pretendo frequentar e cumprir com a minha obrigação.

ISTOÉ - A governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PMDB), vai oferecer o fardão, como é praxe, já que o sr. é maranhense. O sr. se sente confortável, já que o Maranhão é o Estado com maior número de miseráveis do País?

Ferreira Gullar - O Sarney foi meu colega de juventude, nós temos a mesma idade praticamente e fazemos parte da geração que mudou a literatura maranhense, que renovou. Mais tarde, conheci a Roseana, muito cordial, gentil. Eu não vivo no Maranhão, eu vivo no Rio. Mal tomo conhecimento disso, não estou envolvido com a política do Maranhão, faço questão de não me envolver nisso. Acho o Sarney uma pessoa afetuosa, gentil. Fez uma carreira política que o levou até a Presidência da República, certamente por isso também.

ISTOÉ - O sr. começou sua militância política no Maranhão?

Ferreira Gullar - Não. Eu entrei para o Partido Comunista por causa do golpe militar (1964) porque eu sabia que ia lutar contra aquele regime que estava surgindo, e não ia lutar sozinho. Depois, aconteceu comigo o que aconteceu com muita gente; fui preso e exilado.

ISTOÉ - Como se define politicamente hoje?

Ferreira Gullar - Eu acho que, hoje, essas denominações de direita e esquerda se tornaram bastante precárias, já não têm mais a nitidez que tinham na época em que a gente estava lutando pela reforma agrária, etc., o que resultou no golpe militar. Mas, com o fim do socialismo real, o fim da União Soviética e o fato de hoje a China e a Rússia serem, de fato, capitalistas, é uma teimosia o cara se prender a essa ideologia que não deu certo. É um sistema que fracassou. Querer a sociedade justa e a igualdade entre as pessoas é uma coisa muito correta. Agora, a maneira como isso se transforma em função administrativa está errada, não dá certo. O capitalismo, que é o regime da exploração, se baseia na iniciativa privada e a cada momento milhões de pessoas criam empresas. Isso é uma força produtiva muito grande. Mas não pode comparar isso a seis burocratas dizendo como o país deve funcionar, como é que a economia deve ser.

ISTOÉ -A sociedade justa é definitivamente uma utopia?

Ferreira Gullar - A sociedade justa deve continuar sendo o objetivo de todas as pessoas de boa-fé, honestas e solidárias com os outros. O que eu digo é que aquela tentativa não deu certo, mas não quer dizer que não seja possível. Acho que tem de continuar buscando o caminho. O que não pode, realmente, é ter um sujeito que ganha US$ 1 milhão a cada cinco minutos e outro que ganha US$ 500 por mês. Não dá, né?

ISTOÉ - O sr. tem um filho com esquizofrenia. O que acha do uso medicinal da maconha para tratamento de doenças como essa?

Ferreira Gullar -Meu filho hoje vive normalmente com os remédios que são resultado de pesquisas durante décadas e décadas. Funcionam muito bem. Agora, isso é a minha opinião. Hoje, qualquer opinião contrária a coisas dessa natureza é tachada de preconceito. Se de fato a maconha tem qualidades medicinais, e pode ser, não sou médico para dizer que não, acho certo usar. Não sou contra o uso medicinal da planta. Mas dizer que a maconha é inofensiva para ser usada como divertimento eu acho perigoso. Para parte das pessoas não é alucinógena, mas para parte das pessoas é um risco grande. Elas perdem o controle e podem ser levadas a fazer coisas graves. Sem falar que a maconha pode ser a porta para outras drogas pesadas.

Merval Pereira - Voto a voto

- O Globo

A virada na eleição presidencial constatada pelo Datafolha na pesquisa divulgada ontem ainda não é definitiva a favor da presidente Dilma, mas sinaliza uma tendência que pode ganhar velocidade até o próximo domingo, dia da eleição. Mesmo essa tendência, porém, precisa ser ainda confirmada, e as próximas pesquisas, quase diárias e de institutos diferentes, marcarão a evolução do eleitorado nestes últimos dias de campanha.

Ganha relevância maior, neste caso, o debate a ser promovido pela Rede Globo na sexta-feira, último dia da campanha eleitoral. Além desse detalhe de calendário, o debate terá a novidade em relação aos demais de colocar eleitores indecisos para fazer perguntas aos candidatos, o que pode ser fundamental na hora de definir o voto. Pesquisa recente do Datafolha mostra que parte do eleitorado decidiu no primeiro turno entre o sábado e o domingo da eleição, o que teria provocado os erros dos institutos de pesquisa. O empate técnico ainda se mantém, mas o fato é que houve uma inversão de posições na liderança que demonstra uma alteração de quadro importante.

Dilma Rousseff ganhou 3 pontos percentuais nos votos válidos, que, tirados do concorrente direto, podem significar um ponto de inflexão. Mesmo que já não seja mais aquela militância aguerrida de outros tempos, a do PT tem mais história que a do PSDB, cujos eleitores serão testados nestes últimos dias de campanha. Há uma tese de que parte dos eleitores tucanos não revela seu voto nem na s pesquisas, para não sofrer pressão, e esse "voto oculto" poderia fazer a diferença na hora decisiva.

Nunca houve tanta chance de derrotar o PT quanto agora, mas a resiliência da candidatura de Dilma Rousseff, que não é a mais carismática das candidatas nem a mais amada entre seus próprios pares, mostra que ainda existe um forte sentimento petista no eleitorado, que mistura os ideológicos com os beneficiários dos programas sociais temerosos de perder as vantagens, e uma classe média que não quer arriscar o que já ganhou, os dois últimos grupos influenciados pela propaganda negativa desencadeada pela campanha petista.

Caberá à campanha de Aécio Neves tentar convencer os eleitores de que essa propaganda de boatos e ameaças do PT não corresponde à realidade, além de não deixar seus eleitores desanimarem na reta final. A propaganda petista teve sucesso em dois pontos cruciais até o momento: conseguiu reduzir a rejeição à presidente Dilma Rousseff, melhorando a aceitação de seu governo, e aumentar a rejeição a seu adversário, embora isso tenha sido alcançado através da mistificação e da boataria.

A disputa, neste momento, está sendo travada em estados em que o eleitorado mostrou-se dividido no primeiro turno: Rio de Janeiro e Minas Gerais. A presidente conseguiu manter uma pequena diferença no Rio, crescendo nesta reta final o suficiente para não deixar que o candidato tucano a superasse; e, em Minas, Aécio Neves ainda não abriu uma diferença tal que compense derrotas em outros estados e a melhoria da presidente Dilma em regiões onde o tucano vence, como no Sul.

Ganha enorme importância mais uma vez São Paulo, onde o PSDB está abrindo grande vantagem. Por isso a campanha petista nos últimos dias voltou a atacar o PSDB pela crise da água, um tema que não vingou na campanha para governador, mas que, com o agravamento da situação, pode tirar votos preciosos do tucano Aécio Neves.

Dora Kramer - Leite derramado

- O Estado de S. Paulo

Evidentemente não se pode atribuir à Justiça os defeitos nem se resolvem por meio de interferência legal os problemas decorrentes do uso de mistificação e da mentira nas campanhas eleitorais. Mas há parâmetros a serem observados a fim de se resguardar os limites da legalidade e, com eles, um grau razoável de civilidade entre os concorrentes.

Essa percepção parece ter levado o Tribunal Superior Eleitoral a adotar, desde a semana passada, uma atitude mais rigorosa nesta eleição. Suspendeu peças publicitárias dos candidatos Dilma Rousseff e Aécio Neves por serem consideradas de conteúdo meramente ofensivo e que fugiam do objetivo do horário eleitoral da apresentação das propostas e do perfil dos oponentes.

Decisão algo questionável, por inédita, uma vez que há exemplos de casos de propagandas agressivas em outras campanhas que não foram suspensas, e também por ensaiar um flerte com o controle de conteúdo - em português claro, censura.

Na realidade, o que o TSE fez foi tentar passar a tranca depois de a porta ter sido arrombada.

Por falta de aviso não foi. Desde o início do ano passado o ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello, por três vezes presidente do TSE nos últimos 20 anos, vem alertando para os riscos de uma tendência mais "flexível" em relação à legislação existente entre os integrantes do tribunal.

Vários deles se manifestaram contrários à interferência da Justiça no processo político, defendendo que o debate eleitoral transcorresse de maneira mais livre. Era a teoria da atuação mínima. Materializada, por exemplo, na liberdade dada à realização campanha antecipada.

Quase um ano e meio antes das eleições, não obstante a lei só permita o início a três meses da data do primeiro turno da votação.

Os horários reservados aos partidos para que apresentem seus programas - e exclusivamente para isso - foram todos usados para enaltecer as figuras daqueles que viriam a ser oficializados candidatos nas convenções de junho último. Isso sem serem importunados pelo Judiciário.

No ano passado o ministro Marco Aurélio chamava atenção para o fato de que esse tipo de distanciamento por parte da Justiça abriria espaço para que nas eleições deste ano prevalecesse "a lei do mais ousado, do mais esperto". Assim ocorreu no primeiro turno com o PT em relação à candidata Marina Silva. Já no segundo, com o PSDB, o ambiente foi de "bateu levou".

Na opinião de Marco Aurélio, o TSE acordou tarde para o problema. "Pelo visto arrependeu-se, mas o fez em cima da hora, o que não permite a atuação da Justiça ser tão eficaz como poderia", diz ele, acrescentando que o limite às transgressões deveria ter sido imposto antes.

"A eleição é um período que se presta a paixões e se os candidatos percebem que a Justiça não age, a tendência é a de abusarem. Por isso consignei à época que deixei o TSE que o momento não seria o mais adequado para se aplicar flexibilidade com as normas jurídicas. Afinal, não vivemos na Suíça."

O ministro não concorda que o TSE esteja praticando censura ao vetar conteúdo de programas, pois na opinião dele a prática de "enxovalhar o perfil do adversário" conflita com a legislação e, portanto, sua proibição tem legitimidade. "O espaço reservado à discussão de ideias não abre campo para a desqualificação pessoal, muito menos de caráter calunioso."

Marco Aurélio envereda por um terreno tão delicado quanto polêmico ao aventar outra hipótese para o aumento da temperatura entre os candidatos à Presidência da República: "A perda de parâmetros em passado recente no Supremo Tribunal Federal". Refere-se aos debates acalorados comandados pelo ministro Joaquim Barbosa durante o julgamento do processo do mensalão.

"Os termos das discussões na Corte não contribuíram para dar um bom exemplo aos demais cidadãos".

Eliane Cantanhêde - Sai de baixo!

- Folha de S. Paulo

Aécio Neves saiu bem do primeiro turno, como a grande novidade, e abriu bem o segundo, ultrapassando numericamente Dilma no primeiro Datafolha. A reviravolta desta segunda (20) vem numa hora muito ruim para o tucano --a hora da consolidação dos votos.

Essa pesquisa: 1) mostra que os ataques de Dilma estão dando certo; 2) pode mover milhões de indecisos ou votos infiéis pelo país afora. A dias da eleição, o ímpeto é votar em quem está na frente.

A campanha de Aécio estima crescer e até ultrapassar Dilma em Estados chaves como Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, além de reduzir bastante a vantagem em Pernambuco, onde o tucano conquistou o apoio da viúva, dos filhos e dos aliados de Eduardo Campos.

É nesses quatro focos que Aécio pensa contrabalançar a desvantagem no Norte e Nordeste, redutos petistas, mas a estratégia parte da premissa de que os votos nos demais Estados estão cristalizados. Estão?

Dilma investe nos mesmos quatro --MG, RJ, PE e RS--, mas não descuida daqueles em que o PT é forte e nos quais ela já saiu vitoriosa no primeiro turno. Além de evitar a sangria em redutos que podem oscilar, como o Rio, quer se fortalecer (ou enfraquecer Aécio...) onde ela já é forte.

O interessante é que São Paulo, maior colégio eleitoral do país, entra de forma enviesada, mas é central na estratégia. É a maior vitrine da campanha de Aécio (que passou a se referir a Alckmin e a Serra nos debates), mas começou a ser também uma perigosa vidraça, por causa da crise da água. O confronto de Dilma não é mais com o governo FHC, é com o governo do PSDB em São Paulo, bem mais atual, convenhamos.

A campanha petista tem rumo, sabe aonde quer chegar e não tem o menor prurido de usar todo e qualquer meio para chegar lá. Está bem mais difícil dar certo com Aécio do que deu com Marina. Mas, com empate técnico, esses últimos dias serão de vida e morte. Sai de baixo!

Luiz Carlos Azedo - O Brasil é grande

• As políticas de mobilidade social implementadas pelo governo Lula, com o abandono dos fundamentos econômicos do governo FHC, perderam sustentabilidade por causa do baixo crescimento

- Correio Braziliense

Uma das maiores falácias dessa campanha eleitoral é a suposta polarização entre trabalhadores e patrões, pobres e ricos, esquerda e direita, a partir de uma perspectiva ideológica com que se procura caracterizar a disputa entre a presidente Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB). Na verdade, trata-se de uma velha estratégia do PT para mobilizar a militância, que estava desmotivada por causa das denúncias de corrupção envolvendo o partido, principalmente depois da Operação Lava-Jato.

Sun Tzu, o famoso general chinês da Arte da guerra, já dizia que um exército encurralado, sem uma rota de fuga, se torna muito mais perigoso — porque lutará até a morte. É mais ou menos o que está acontecendo com a militância petista encastelada nos órgãos federais, empresas estatais e fundos de pensão. Até o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz a campanha do PT nos estados com uma virulência que não condiz com um ex-ocupante da Presidência. Teme ter a imagem “desconstruída”, da mesma forma como o seu antecessor.

Quem acompanha os militantes petistas nas redes sociais tem a sensação de que o Brasil vive um processo revolucionário e que haveria uma contra-revolução em marcha. O que se passa não tem nada a ver com isso, muito pelo contrário. Não há ameaça de retrocesso; há uma estagnação. O ímpeto transformador das políticas de transferência de renda do governo Lula, com o Bolsa Família, nunca teve nada de revolucionário, nem reformista. Trata-se tão somente de uma política social-liberal de focalização dos gastos sociais nas parcelas mais pobres da população, em detrimento das políticas de bem-estar social na Previdência, na saúde, na educação, nos transportes públicos etc. — essas, sim, de caráter social-democrata.

Não há demérito nisso, pelo contrário: a escala de benefícios concedidos às populações mais pobres — em torno de 13,5 milhões de famílias — contribuiu não só para melhorar a vida dessas pessoas, como também para ampliar o mercado interno. Mais importantes para isso, porém, foram a recuperação do salário mínimo e as aposentadorias rurais, que representaram uma formidável injeção de recursos nas regiões mais pobres do país, principalmente no Norte e no Nordeste. Além disso, o chamado bônus demográfico — a redução de número de dependentes (crianças e idosos sem renda) em relação à população economicamente ativa — ajudou a elevar a renda familiar.

Avanço ou estagnação
Nada disso seria possível sem o Plano Real, lançado ainda durante o governo de Itamar Franco, e a estabilização da economia, na gestão Fernando Henrique Cardoso, que também enfrentou com coragem a crise fiscal do Estado brasileiro. Esse problema demandou, além das privatizações, uma mudança de mentalidade dos gestores públicos em relação às contas de estados e municípios. A aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal foi a contrapartida dos políticos brasileiros à “securitização” pela União das dividas dos demais entes federados. Isso explica por que a dívida pública federal aumentou exponencialmente no período.

A lógica que opõe de forma atemporal o governo de Fernando Henrique ao de Lula, para além do que realmente separa uma gestão de outra, é sectária e agride o bom senso, uma vez que enfrentaram conjunturas mundiais diferentes e cumpriram tarefas da agenda nacional também diversas. O mesmo já não se pode dizer do governo de Dilma Rousseff, que recebeu o Palácio do Planalto com o país crescendo 7,5% ao ano, com a maior base de sustentação no Congresso de que se tem notícia e apoio empresarial sem precedentes. Entre amigos, o ex-presidente Lula cansou de se queixar da petista, que, em três anos e meio de mandato, jogou tudo isso pela janela. Não é à toa que, agora, enfrenta tantas dificuldades para se reeleger, o que seria mais natural.

Na verdade, o experimentalismo econômico e o excesso de intervenção estatal nas relações de mercado durante o governo Dilma Rousseff, além de sua notória inabilidade para contornar os obstáculos políticos , fizeram o país desandar. Estamos com a inflação raspando o teto da meta, taxa de crescimento quase zero e uma crise de confiança dos investidores privados no governo. Tivesse Dilma Rousseff mantido os fundamentos da economia e negociado com a oposição no Congresso, teria feito um governo mais bem-sucedido.

O xis da questão nesta eleição é que as políticas de mobilidade social implementadas pelo governo Lula, com o abandono dos fundamentos econômicos do governo Fernando Henrique Cardoso, perderam sustentabilidade por causa do baixo crescimento. Além disso, a agenda do governo Dilma no primeiro mandato permanece inconclusa: os problemas de infraestrutura demandam investimentos privados e a saúde, a educação, os transportes, a segurança e a Previdência dos trabalhadores do setor privado exigem um salto de qualidade.

Raymundo Costa - Governo novo, crise antiga

• Lula se incomoda com Graça Foster à frente da Petrobras

- Valor Econômico

Entre os últimos sábado e domingo, a presidente Dilma Rousseff avançou dois passos e deu um para trás no chamado escândalo da Petrobras. Cobrada a se posicionar pelos adversários, desde o primeiro turno, a presidente avançou quando reconheceu que houve desvio de dinheiro público em operações capitaneadas pelo ex-diretor Paulo Roberto Costa. Não se tratava de saber se houve ou não desvio de recursos. " Houve, viu?", disse, em entrevista coletiva concedida no sábado no Palácio da Alvorada. No debate da TV Record, domingo à noite, a presidente da República foi um pouco mais cuidadosa e disse que havia "indícios de desvio" de dinheiro público.

No sábado, a candidata não deixava margem para dúvidas. "Nós queremos ele (o dinheiro desviado) de volta", disse aos repórteres escalados para ouvi-la num dos dias mais quentes e secos deste ano, em Brasília. "Ninguém sabe ainda o que é que deve ser ressarcido, porque a chamada delação premiada, onde tem os dados mais importantes, não foi entregue a nós" disse a candidata. "Agora, ressarcir, eu farei todo o meu possível para ressarcir o país se houve desvio de dinheiro público".

As declarações feitas no debate da Record deixaram Dilma mais próxima de seu partido, o PT. Com alguns de seus quadros envolvidos na delação premiada de Paulo Roberto Costa, o Partido dos Trabalhadores insiste que não bastam as declarações do ex-diretor da Petrobras ou de qualquer uma das outras quatro pessoas que fizeram acordo com a Justiça para contar a verdade em troca de redução de penas. É preciso também que apareçam recibos, depósitos, transferências de dinheiro para que as delações não sejam apenas denúncias vazias, mas fatos concretos que possam ser comprovados. O Supremo Tribunal Federal (STF) é que dará a palavra definitiva sobre o que foi delatado especialmente por Costa e pelo doleiro Alberto Youssef.

Até o domingo à noite, os interlocutores mais assíduos da presidente apostavam muito mais na Dilma de sábado que na Dilma da TV Record. Com o mandato renovado, ela estaria disposta a enfrentar o sistema político que permite a um condomínio de partidos nomear e manter por anos um diretor como Paulo Roberto Costa, mas também disposta a bater de frente com a tendência dominante no PT, chamada de Construindo um Novo Brasil (CNB), grupo que está por trás de todas as denúncias nas quais o PT esteve envolvido, depois que assumiu o Palácio do Planalto, em 2003.

Resenha breve: a cúpula da CNB esteve envolvida no mensalão, no episódio dos aloprados e agora alguns de seus integrantes foram citados no escândalo da Petrobras. A acomodação no governo, a prisão e as denúncias contra seus principais dirigentes fizeram com que a CNB deixasse de formular políticas e de dirigir o partido. Deve-se atribuir grande parte do péssimo desempenho eleitoral de Dilma e do PT, em São Paulo, à implosão da CNB. Não é à toa que o PT é rejeitado por pouco mais de 21% dos paulistas, índice que no Ceará não passa da casa de um dígito. Já no Paraná, próximo a São Paulo, também governado pelo PSDB, o índice de rejeição do petismo chega a cerca de 13%.

Não importa o vencedor de domingo, o escândalo da Petrobras vai cair no colo do próximo presidente da República. Dilma ou Aécio Neves (PSDB), o candidato da oposição, podem fazer um bom uso dele, pois há um consenso, entre os dirigentes partidários, que o caso tem potencial para atingir toda a atual cúpula de um Congresso controlado pelo PMDB, é certo, mas com fatias de poder mãos do PT e dos demais partidos aliados. No limite, a crise política decorrente da implosão do esquema Petrobras tem o mesmo poder de destruição da CPI do Orçamento, nos anos 1990, e do mensalão, de 2005. As duas atingiram a elite dirigente do Congresso.

A crise pode levar a um realinhamento de forças no Legislativo, o que deve exigir dedicação, habilidade e poder de articulação do presidente da República com o Congresso. Uma oportunidade para o encaminhamento da proposta de reforma política, cujo êxito será maior à medida que não represente os interesses de um só partido, sobretudo o PT (no governo ou na oposição). Constituinte exclusiva, como quer a presidente, tem poucas chances de sucesso. Está amadurecendo o fim das coligações proporcionais. Junto com mudanças na legislação sobre o financiamento de campanhas, essas duas mudanças em duas ou três eleições poderiam reduzir o número de partidos com representação no Congresso dos 28 que elegeram parlamentares, na eleição, a cinco ou seis. O financiamento público encontra dificuldades entre os congressistas, mas tudo indica que o STF vai acabar com o financiamento de empresas.

Se conseguir a reeleição, no domingo, a presidente Dilma terá de lidar também com o contencioso interno do PT. À exceção de Ricardo Berzoini (Relações Institucionais), os nomes projetados para o próximo governo são de tendências concorrentes da CNB, como a Democracia Socialista (DS) do ministro Miguel Rossetto (Desenvolvimento Agrário) ou a Mensagem ao Partido, do governador da Bahia, Jaques Wagner. Peça-chave nessa recomposição da maioria, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não terá dificuldades para rifar a CNB, se lhe for conveniente. Ele próprio tem convocado o PT a voltar às ruas. Mas a Petrobras é uma das causas principais da tensão que permeou suas relações com a presidente, durante a atual campanha eleitoral.

Lula se incomoda particularmente com a atuação de Graça Foster à frente da presidência da Petrobras, como se tudo o que houve de ruim na estatal tivesse ocorrido em seus dois mandatos.

Boa parte do PT de Brasília planeja votar em Jofran Frejat para o governo distrital, candidato do PR que tem como vice a mulher do ex-governador José Roberto Arruda. O candidato favorito é um aliado histórico dos petistas, Rodrigo Rollemberg. Argumento: com o PSB no poder, será mais difícil fazer oposição.

José Casado - E a vida real, presidente?

• A cinco dias da votação os eleitores não têm a menor ideia de como o próximo presidente imagina fazer na crise de água e de energia, no caos da saúde e do saneamento público

- O Globo

A vida real começa na próxima segunda-feira. O presidente eleito deverá enfrentar um cenário de emergências urbanas e rurais. Seus efeitos só podem ser parcialmente mitigados, mas, se não houver eficiência na resposta imediata, poderá resultar em pesado ônus político logo na estreia do novo governo.

Falta água em uma de cada três cidades brasileiras. Das margens do Tietê, em São Paulo, até à beira do Riacho do Sangue, no interior do Ceará, sobram sol, plantações dessecadas, desemprego na agroindústria, torneiras sem água e esperança com arribações de verão.

As chuvas não devem demorar, mas serão insuficientes para assegurar a reposição dos reservatórios do Sudeste e do Centro-Oeste até o nível mínimo (42%) necessário para garantir o abastecimento de energia — avisam diferentes institutos meteorológicos.

Significa que o presidente eleito no domingo corre o risco de atravessar o primeiro semestre de 2015 no papel de gerente de um racionamento de água e de energia no Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Crises dessa natureza costumam impor um alto custo político aos governantes de plantão.

Aécio Neves e Dilma Rousseff sabem que racionamento de energia ainda não aconteceu porque caiu o consumo nacional, em decorrência da estagnação da economia e da grande elevação nas tarifas cobradas à indústria, o maior consumidor.

Não há discurso que resolva a seca na Bacia do São Francisco, fonte de abastecimento para 521 municípios (10% do território nacional), ou o esgotamento dos reservatórios de usinas hidrelétricas no Paraná, em São Paulo e em Minas Gerais. Em outubro do ano passado estavam cheios em mais da metade. Agora, a água disponível mal ultrapassa 20% da capacidade de armazenamento.

A abstração da crise de água para consumo humano e produção de energia, assim como o caos no sistema saúde e saneamento público, foi um dos aspectos mais curiosos dessa campanha eleitoral caracterizada por golpes abaixo da linha do intelecto.

A cinco dias da votação os eleitores não têm a menor ideia de como o próximo presidente imagina fazer para lidar com:

a) a escassez de água nas torneiras e nas usinas hidrelétricas;

b) a crise no Sistema Único de Saúde, do qual dependem oito em cada dez brasileiros. Ela está no topo das prioridades do eleitorado e produz uma rotina de matança nos pronto-socorros (no atendimento do Hospital de Urgências, de Teresina, registraram-se seis mortes por dia no primeiro trimestre);

c) o déficit de saneamento básico, que adiciona à superlotação dos hospitais um contingente de 700 mil novos pacientes por ano. Oito em cada dez projetos federais anunciados há quatro anos, por exemplo, não saíram do papel.

Como não se sabe se Aécio e Dilma têm propostas para lidar com essas emergências nacionais, cujas características são doenças em disseminação, mortes no atacado e destruição econômica, resta uma possibilidade: talvez ainda não tenham conseguido enxergar o problema.

Paulo Hubert - Pesquisas improváveis

- Valor Econômico

Os resultados das eleições de 5 de outubro trouxeram algumas surpresas. No Rio Grande do Sul, por exemplo, Tarso Genro (PT), aparecia com larga vantagem nas pesquisas (35% contra 20% dos votos totais no último levantamento do Ibope). Após a apuração, caiu para o segundo lugar, com 28,7% do total de votos. Na Bahia, aconteceu o contrário: o candidato do mesmo partido, Rui Costa (PT), aparecia com 36% dos votos totais, e terminou com 45,5%, eleito em primeiro turno. Em São Paulo, mesmo acertando o resultado final (Geraldo Alckmin do PSDB reeleito no primeiro turno), a última pesquisa Datafolha apontava uma votação 3,5 pontos percentuais acima do que foi observado nas urnas. A pergunta que ocorre então é: como explicar essas diferenças? São erros aceitáveis, já que as pesquisas são amostrais? Devem ser atribuídas à metodologia utilizada pelos institutos? Ou será o contrário: é o próprio resultado das urnas que não representa perfeitamente a vontade dos eleitores, que seria mais bem capturada pelas pesquisas?

Consideremos em primeiro lugar o erro aleatório. As pesquisas, afinal, são feitas com base em amostras de no máximo 2 mil eleitores (no caso das pesquisas para o governo dos Estados). Seria razoável portanto que, por mero acaso, ocorressem diferenças dessa magnitude. Ou não?

Conhecendo os resultados finais na população toda, podemos calcular uma medida de probabilidade associada a cada pesquisa. Assumindo que uma amostra aleatória seja retirada da população final, utilizamos um modelo simples (distribuição hipergeométrica) para obter a probabilidade de que ocorram, ao acaso, diferenças iguais ou maiores do que as que vimos nas pesquisas. Esse cálculo produz resultados interessantes. Em São Paulo, por exemplo, a última pesquisa Ibope apresentou uma diferença cuja probabilidade de ocorrência é de cerca de 1,27% (sempre considerando a probabilidade de diferenças iguais ou superiores à encontrada). Isso significa que esperaríamos encontrar uma diferença desse tamanho (ou maior) em uma a cada 79 pesquisas, aproximadamente. No caso do Datafolha, também em São Paulo, o resultado é ainda mais extremo: probabilidade de 0,0045%, uma diferença que ocorreria, ao acaso, apenas uma vez a cada 22.154 pesquisas (ver tabela).

Podemos interpretar esses valores de diferentes maneiras. Primeiro: sabemos que os institutos de pesquisa brasileiros não utilizam a amostragem aleatória. Esse tipo de estudo tem um custo elevado, e leva um tempo maior para ser concluído. Mas a utilização de metodologias alternativas (como a amostragem por cotas, por exemplo), de custo mais baixo, só deveria ser aceitável se produzisse estimativas de qualidade próxima àquelas feitas de forma completamente aleatória. E não parece ser esse o caso, já que uma amostra aleatória raramente produziria diferenças tão grandes como essas.

Em favor dos institutos, porém, há uma segunda interpretação possível: a mudança de opinião dos eleitores. Entre a realização da pesquisa e a votação propriamente dita, pode haver uma migração de votos de um candidato a outro. Para analisar esse argumento, podemos repetir o exercício acima e calcular qual o tamanho dessa mudança para que as diferenças observadas atingissem uma probabilidade mínima (digamos 5% - uma ocorrência a cada 20 pesquisas em média). A resposta é diferente em cada Estado. Em Alagoas, por exemplo, seria necessário que o primeiro colocado, Renan Filho (PMDB), perdesse 1,7% dos votos totais entre a realização da última pesquisa Ibope (entre 28/09 e 3/10) e a votação. No Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg (PSB) teria que ter amealhado 3,6% dos votos entre a pesquisa e o pleito. Já em Pernambuco, Paulo Câmara, também do PSB, precisaria ter conquistado 9,8% dos eleitores nos últimos dias da campanha, para que a diferença entre a pesquisa Ibope e o resultado das urnas pudesse ser explicada pela mudança de opinião.

Não podemos descartar como impossíveis essas migrações. As próprias pesquisas, porém, mostram que grandes variações num espaço de poucos dias não são comuns. De modo que restaria, então, a terceira possibilidade: é o resultado das urnas que é impreciso. Seja pela dificuldade que alguns eleitores podem encontrar ao interagir com as urnas eletrônicas, seja por falhas mais graves no processo. Esta linha de argumentação ganha força se verificarmos a diferença entre os eleitores que declaravam voto em branco ou nulo, nas pesquisas, e a proporção final desse tipo de voto. Em todos os Estados, os levantamentos Ibope e Datafolha mais próximos do dia do pleito subestimaram a proporção de nulos e em branco. No Ceará, as pesquisas dos dois institutos apontavam 6% de nulos e em branco, e no final foram 14,8% dos eleitores a votar assim. No Piauí a diferença foi ainda maior: 2% no último levantamento do Ibope, contra 12,2% nas urnas. Isso significaria, portanto, que uma grande parcela de eleitores declarava preferência por algum candidato, mas terminou por anular seu voto. Se dispensarmos aqui a hipótese de mudança de opinião, as explicações possíveis são duas: ou o eleitor mentia para os entrevistadores, vítima de algum tipo de incômodo em declarar voto nulo, ou de fato a anulação do voto foi um ato contrário a seu desejo.

Não é objetivo deste artigo apontar qual das hipóteses acima é verdadeira. Constatamos, porém, um fato: as pesquisas para os governos estaduais forneceram estimativas distantes demais do resultado final, do ponto de vista estatístico. Considerando que essas mesmas pesquisas tiveram (e têm) grande influência em diversos setores da sociedade - da variação do índice Ibovespa à cobertura midiática das campanhas, passando pelo processo decisório de muitos eleitores - e que, além disso, esses erros podem levar a questionamentos sobre a eficácia do processo eleitoral eletrônico e sobre a isonomia dos institutos, acreditamos ser necessária e urgente uma ampla discussão sobre esses levantamentos e sua metodologia. Só assim podemos aceitar as pesquisas como o que elas pretendem ser: instrumentos científicos de mensuração da preferência dos eleitores.


Paulo Hubert é mestre em estatística pelo IME-USP. Colaborou Samuel Moura, cientista político e pesquisador do Cebrap

Míriam Leitão - O real do salário

- O Globo

O salário mínimo começou um forte processo de recuperação logo após o Plano Real. Ele subiu acima da inflação quase todos os anos. O maior aumento real, descontado o IPCA, foi no primeiro ano do governo Fernando Henrique: 16,7%. O segundo maior reajuste foi de 13,11% em 2006, no último ano do primeiro mandato de Lula. Ao todo, de 1994 a 2013, o salário subiu 158%.

A vitória sobre a hiperinflação iniciou a recuperação do valor real do salário mínimo. Antes, era impossível manter a capacidade de compra. Em termos de aumento médio por período de governo, a presidente Dilma deu aumento real de 3,7% ao ano nos três primeiros anos de mandato. Em 2014, o aumento nominal foi de 6,78%. Se o IPCA ficar em 6,45%, o ganho real este ano ter á sido de míseros 0,3%. E isso reduzirá a média anual do governo Dilma para 2,85%. No primeiro governo Fernando Henrique, o aumento médio real ao ano foi de 6,83%. No segundo período, houve duas quedas, nos anos de crise de 1999 e 2002.

Mesmo assim, o aumento foi só um pouco menor do que o da presidente Dilma: reajuste real de 2,56% ao ano, em média. No primeiro governo Lula, houve apenas um ano de aumento baixo, 0,68% em 2004, mas foi o mandato com a maior média anual, 8,19%. Já no segundo governo, a média do reajuste caiu para 4,51%. Há também outra forma de se fazer as contas, que é o acumulado em cada período de governo, como se pode ver abaixo. A melhor fase foi o primeiro governo Lula, com 36,5%. O segundo melhor é o FHC I, com 29,5%. Depois, Lula II, em que o aumento foi de 19,2%.

O pior período foi o segundo governo tucano, 10%, encostado em Dilma, com 11,7%. A recuperação da capacidade de compra do salário mínimo, descontada a inflação, é constante com um ou outro ano de desempenho baixo ou negativo. A fórmula de reajuste agora estabelece que o mínimo sobe de acordo com o crescimento de dois anos antes e a inflação do ano anterior. Daqui a dois anos o aumento real será zero, porque o país está estagnado em 2014.

Os governos do PT e PSDB não estão divididos entre elevadores e redutores do mínimo. Em todos os períodos houve alta acima da inflação, e o segundo pior desempenho desde o Real é o da atual presidente. Difícil entender o que a presidente Dilma quer dizer quando garante que, se a inflação for a 3%, a taxa de desemprego vai a 15%. O professor Márcio Garcia, da PUC-Rio , disse que a teoria do "trade off" entre inflação e desemprego é dos anos 60.

"A estagflação pós-primeira crise do petróleo mostrou que isso era falso." Ele garante que "dizer que uma inflação de 3% no médio prazo levaria a desemprego permanentemente alto é desconhecimento de teoria e empiria econômica". Quem olha em volta vê países com baixa taxa de inflação. A do Peru será de 3% este ano, e o país vai crescer 3,1%, com expectativa de 5,5% de expansão no ano que vem. Isso tudo com desemprego em 5,6%

Murillo de Aragão - Reforma política, o debate inadiável

- O Estado de S. Paulo

Em tempos de eleição devemos fazer uma reflexão aprofundada sobre a democracia e a política. É importante, no entanto, não cair no discurso fácil de que, dado o gigantismo de nosso processo eleitoral, somos uma democracia madura. Temos um processo eleitoral relevante e exemplar em muitos sentidos, mas o processo político que precede as eleições é doentio, viciado e carente de aperfeiçoamentos.

O Brasil de hoje, mesmo com os avanços institucionais obtidos desde a redemocratização, em 1985, ainda vive sua infância democrática. E para que soluções não democráticas não prevaleçam cuidados são essenciais. É certo afirmar que democracia e desenvolvimento econômico e social andam juntos, pois países com índice de desenvolvimento humano avançado quase sempre são democracias consolidadas. Este é o ideal que o Brasil deve perseguir: ser uma democracia socialmente justa e desenvolvida.

Entretanto, nossos vícios e desvios estão ameaçando nosso caminho na busca por uma democracia madura. Retrocessos, infelizmente, integram o processo histórico e não é diferente no Brasil. Além do risco de retrocessos, temos ainda aspectos que não evoluíram ou evoluem lentamente. O autoritarismo faz parte de nosso dia a dia, por exemplo, na humilhação que cidadãos sofrem na mão de servidores e funcionários públicos arrogantes, na qualidade precária de muitos serviços públicos e no desproporcional poder do Estado perante a sociedade.

Não falo dos poderes que o Estado deve ter, mas da opacidade e da desconexão com que o Estado brasileiro funciona. Aponto ainda a intervenção brutal do Estado na economia, direcionando recursos para setores premiados; a carga tributária abusiva, se comparada à contrapartida dada ao contribuinte; e o uso político e corporativo de empresas estatais na destruição de valor, como a ocorrida na Petrobrás.

Existem ainda três outras graves expressões de autoritarismo disfarçado: o corporativismo, não a velha ideologia, mas a reles atuação destinada a salvaguardar benefícios em detrimento do bem comum; o clientelismo que engraxa as relações políticas; e a corrupção. O corporativismo é tão vil e destruidor quanto os demais vícios, pois sonega ao bem comum os recursos desviados para castas privilegiadas.

O clientelismo é igualmente trágico para a sociedade na medida em que onera o custo dos bens e dos serviços públicos. A corrupção contamina as relações entre a sociedade e governo: dando vantagens indevidas na obtenção de negócios, alimenta esquemas escusos de financiamento de políticos e partidos, sendo praticada tanto como forma de alcançar benefícios quanto como solução ante o arbítrio e a ineficiência.

Porém temos muitos outros problemas em nossas instituições e seria cansativo listá-los. A prova de que o sistema não anda nada bem é a sucessão de escândalos políticos. Os famigerados "mensalões" foram praticados por quase todos os partidos, entre os principais. Quase 2 mil candidatos nestas eleições foram impugnados por causa da Lei da Ficha Limpa. Alguns partidos são meras agremiações de competição eleitoral, outros são valhacoutos de interesses muitas vezes escusos e inconfessáveis ou feudos de "empresários" políticos.

As coligações partidárias mascaram os partidos e os nanicos transformam-se em vendedores de vagas e de tempo de televisão na propaganda eleitoral. Celebridades e abonados têm seu caminho pavimentado para o Congresso em detrimento do político comum, em extinção. A Câmara de 2015 iniciará seus trabalhos com nada mais, nada menos que 28 partidos. O que não é nada bom para o sistema político.

A política no Brasil deveria ser sempre uma atividade nobre e generosa, destinada ao progresso econômico e, sobretudo, ao desenvolvimento humano. Quando a política funciona bem, promove muitos avanços. Os avanços nos direitos humanos e trabalhistas, por exemplo, foram decorrentes de boas políticas.

A má política gera atrasos e injustiças, num círculo vicioso. A degradação da política gera mais degradação. E o inacreditável é que a resposta de nossas instituições é lenta, muito lenta. Tivemos avanços, como a implementação da urna eletrônica, a imposição judicial da fidelidade partidária e a instituição da Lei da Ficha Limpa. Mas estamos muito aquém do que necessitamos.

Nestas eleições, apesar das declarações em favor da reforma política, não percebi o ardor necessário dos candidatos para avançar em favor de uma reforma ampla e profunda. Falta-nos, nesta quadra de nossa História, um movimento como aquele em favor da anistia ampla e irrestrita do final dos anos 1970. E, sobretudo, falta sentido cívico a nossos líderes políticos para assumirem a necessidade de reformar o que não está funcionando bem.

Uma oportunidade está aparecendo no horizonte: em 2015 muitos políticos e parlamentares deverão responder a processos no STF por causa das delações ligadas ao escândalo na Petrobrás.

São gravíssimas as acusações envolvendo corrupção e uso político da empresa. O episódio poderá ter poder devastador nas lideranças políticas, que serão obrigadas a se defender na mais alta Corte de acusações que devem vir solidamente fundamentadas por estarem inseridas numa das mais cuidadosas investigações de nossa Justiça. Se necessitamos de crises para avançar, a crise de 2015 já está anunciada.

Não devemos esperar piorar para fazer o que é certo. O caminho é a criação de um pacto em favor de uma reforma política que tenha a participação dos três Poderes e da sociedade civil. Os temas que devem ser debatidos são de conhecimento: financiamento de campanha, teto de despesas de campanhas, fidelidade partidária, cláusula de barreira, fim das coligações para eleições proporcionais, fiscalização pela sociedade civil do fundo partidário, limite à reeleição de presidentes de agremiações e ao nepotismo em partidos, entre outros. Sobram temas e urge a necessidade. Falta interesse e falta coragem.

*Murillo de Aragão é advogado, mestre em Ciência Política, doutor em Sociologia pela UNB e autor do livro 'Reforma Política - O Debate Inadiável'

Arnaldo Jabor - A hora de a onça beber água

- O Globo / Segundo Caderno - O Estado de S. Paulo /Caderno 2

Dilma Rousseff: seu duro passado de militância e luta lhe deixou um viés de rancor e vingança, justificáveis. Ela foi uma típica "tarefeira" da VAR-Palmares e hoje, como tarefeira do PT, ela quer realizar o sonho de sua juventude. Por isso, quer estatizar o que puder na economia, restos de sua formação... (eu ia dizer "leninista", mas é "brizolista"). Seus olhos fuzilam certezas sobre como converter (ou subverter) a pátria amada. Petistas e brizolistas acham que democracia é "papo para enrolar as massas", como já declarou um professor emérito da USP; ela idealiza o antigo "proletariado" e despreza a classe média "fascista", como acha outra emérita professora. Ela desconfia dos capitalistas e empresários, ela quer se manter no poder e virar o PT num PRI mexicano; ela finge ignorar a queda do muro de Berlim, o fim da Guerra Fria , ela ama o Lula , seu operário mágico que encarnou o populismo "revolucionário ". Conheci muitas "Dilmas" na minha juventude. As Dilmas eram voluntariosas, com uma coragem irresponsável diante da muralha da ditadura.

Professavam uma liberdade mais grave do que os hippies da época; era uma liberdade dolorosa, perigosa, sacrificial, suicida, sem prazer, liberdade e luta. Até respeitável. Mas, para as "Dilmas " e os "Dirceus " do passado , a democracia era uma instituição "burguesa ". Ela se considerava e se acha ainda "membro" (ou "membra"?) de uma minoria que está "por dentro" da verdade, da chamada "linha justa " que planejava um outro tipo de "liberdade" (Lênin: "É verdade que a liberdade é preciosa; tão preciosa que precisa ser racionada cuidadosamente " ). Ela se julgava e se julga superior — como outros e outras que conheci (inclusive eu mesmo — oh, delícia de ser melhor que todos; oh... que dor eu sen ti ao perder essa certeza ...). Nós éramos os fiéis de uma "fé cientifica", uma espécie de religião da razão que salvaria o mundo pelo puro desejo político —éramos o "sal da terra ", os "sujeitos da História ".

Toda a luta progressista de hoje se trava entre a esquerda que amadureceu e ficou social-democrata e a esquerda que continua na ilusão de 63. A velha esquerda brasileira existe como nostalgia de uma esquerda que desapareceu. Dilma foi executiva da comissão de frente que organizou a aliança de Lula com a liderança sindicalista-pelega e com a direita mais vergonhosa do país, liderada por Sarney et caterva. Como ela era "trabalhadeira", Lula se impressionava com ela (ele que odeia o batente) e transformou-a em um "poste" que se revelou persistente no erro, com a típica burrice dos teimosos. E aí ela começou a governar com um medidas e táticas pretensamente "socialistas" em um país capitalista. Dá em bolivarianismo, esse terror contra o povo da Venezuela.

A "clique" sindicalista que subiu ao poder nunca desistiu de seus planos; suas mentes são programadas para repetir as mesmos táticas. A esquerda velha continua fixada na ideia de "unidade", de "centro", de Estado-pai, ignorando a in trincada sociedade com bilhões de desejos e contradições. Muitos riquinhos e mauricinhos hoje dizem que votam na Dilma porque ela seria "contra a pobreza". Não sabem de nada, tinham 10 anos quando FHC fez o Plano Real contra a vontade do PT e seus aliados. Hoje, esses mauricinhos se dão ao luxo de se sentirem de "esquerda " antes de ir em para a balada. São absolutamente ignorantes sobre política e acham que o PT é um partido de "esquerda", quando é claramente de "direita". ("É a economia, estúpidos!" — James Carville , assessor do Clinton contra Bush). O povão do Bolsa Família não pode entender isso , mas esses babacas que estudaram deviam ser menos primitivos.

Os petistas dão graças a Deus que muitos de seus eleitores não sabem ler . Por exemplo, eles não têm ideia do que seja o escândalo da Petrobras e do aparelhamento do Estado cleptomaníaco que foi montado. Não entenderam nem o mensalão, pois, como disse o Lula, "povo pensa que dossiê é doce de batata". Votarão no escuro de suas vidas. Como se explica isso? Resposta: o país tem um movimento "regressista " vocacional. O verdadeiro Brasil é boçal, salvacionista, para gáudio dos seus exploradores. E o PT aproveita. Acrescente complexidade da situação mundial na economia e na política os faz desejar um simplismo voluntarista que rima bem com o fundamentalismo islâmico ou com a boçalidade totalitária dos fascistas: "complexidade é frescura, o negócio é radicalizar e unificar, controlar, furar a barreira do complexo com o milagre simplista" (Lênin: "Qualquer cozinheiro devia ser capaz de governar um país").

O Plano Real, e uma série de medidas de modernização que abriram caminho para a economia mundial favorecer-nos, é tratado como se fosse uma política do governo atual, que só fez aumentar despesas públicas e inventar delírios desenvolvimentistas virtuais. Não houve um lampejo de reconhecimento pelo país que FHC deixou pronto para decolar e que foi desfeito (Stalin: "A gratidão é um sentimento de cachorros..."). Nesta eleição, não se trata apenas de substituir um nome por outro. Não. O grave é que tramam uma mudança radical na estrutura do governo, uma mutação dentro do Estado democrático.

Quer em fazer um capitalismo de Estado, melhor dizendo, um "patrimonialismo de Estado". Para isso, topam tudo: calúnias, números mentirosos, alianças com a direita mais maléfica. Não esqueçamos que o PT não assinou a Constituição de 88, combateu a Lei de Responsabilidade Fiscal, foi contra o Plano Real para depois roubá-lo como se fosse obra do Lula. Alardeiam coisas novas que "vão" fazer, se eleitos de novo mas, pergunta-se: por que não fizeram nada durante 12 anos? É isso aí, bichos... Se Dilma for eleita, teremos o início de um bolivarianismo "cordial"

Edu Lobo - O Trenzinho do Caipira ((Heitor Villa Lobos – com poema de Ferreira Gullar)

Murilo Mendes - Noite carioca

Noite da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro
tão gostosa.
que os estadistas europeus lamentam ter conhecido tão tarde.
Casais grudados nos portões de jasmineiros...
A baía de Guanabara, diferente das outras baías, é camarada,
recebe na sala de visita todos os navios do mundo
e não fecha a cara.
Tudo perde o equilíbrio nesta noite,
as estrelas não são mais constelações célebres,
são lamparinas com ares domingueiros,
as sonatas de Beethoven realejadas nos pianos dos bairros distintos
não são mais obras importantes do gênio imortal,
são valsas arrebentadas...
Perfume vira cheiro,
as mulatas de brutas ancas dançam o maxixe nos criouléus suarentos

O Pão de Açúcar é um cão de fila todo especial
que nunca se lembra de latir pros inimigos que transpõem a barra
e às 10 horas apaga os olhos pra dormir.

In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959