quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Limites institucionais no exercício da oposição – O Globo / Editorial

Uma das análises consensuais do resultado das eleições é que a trajetória do candidato tucano Aécio Neves o credencia a ser o grande líder das oposições a partir de sua cadeira no Senado, na qual representará Minas por mais quatro anos.

Desacreditado no primeiro turno assim que o destino colocou Marina Silva em posição privilegiada na disputada direta pela Presidência, Aécio continuou a acreditar na sua candidatura. Talvez fosse o único.

Conseguiu unir o PSDB em torno de si — algo que se pensava impossível —, enquanto resgatava a figura simbólica de FH, e, sem se envergonhar das reformas econômicas empreendidas pelo partido, foi para o segundo turno e perdeu para o rolo compressor aético da campanha da reeleição da petista Dilma Rousseff por apenas três pontos percentuais.

O desembarque do senador mineiro em Brasília, terça-feira, e seu primeiro discurso no Senado, ontem, começaram a justificar expectativas com relação ao papel de Aécio na oposição, a partir de agora.

Recepcionado como vitorioso ao chegar em voo comercial, o líder tucano se pronunciou, em entrevista, de forma certeira, sobre manifestações descabidas pelo impeachment da presidente Dilma e de apoio a um golpe militar. No fim de semana, em São Paulo, houve uma passeata em que se destacaram cartazes com mensagens descabidas como estas.

— Eu respeito a democracia permanentemente e qualquer utilização dessas manifestações no sentido de qualquer tipo de retrocesso terá a nossa mais veemente oposição — declarou na terça.

Da tribuna do Senado, numa sessão cercada de grande expectativa, Aécio se colocou como representante de um "movimento", não de um partido ou aliança partidária, que nas urnas teve o apoio de 51 milhões de brasileiros, apenas 3 milhões a menos que Dilma.

Acertadamente, não deixou de reconhecer o resultado das urnas, algo essencial para o jogo da democracia. Impeachment não existe para servir de "terceiro turno" eleitoral. E golpe militar, como aprendeu o Brasil, é uma porta aberta para o precipício do arbítrio e tentações de perpetuação no poder. Essas duas tresloucadas bandeiras apenas repetem o pior de algumas falanges petistas: quando, no início do segundo mandato de Fernando Henrique, pregaram o "Fora FHC", e, nos tempos que correm, buscam se manter no poder por meio de atalhos golpistas, como o da "Constituinte exclusiva", convocada sob pretexto de fazer uma reforma política de conveniência, sem obedecer os trâmites previstos no Estado de Direito.

Depois do que disse Aécio, fica ainda mais claro que o Planalto deve se preparar para enfrentar uma oposição dura, agora com maior respaldo na sociedade, mas sempre dentro dos marcos legais. A recíproca deveria ser verdadeira.

Lula em cena contra poder de atração de tucano no Senado

João Domingos - O Estado de S. Paulo

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu montar um esquadrão anti-Aécio Neves no Senado, na tentativa de conter a atuação do presidente nacional do PSDB. Ontem, o tucano fez seu primeiro pronunciamento na tribuna do plenário depois de perder o 2.º turno para a petista Dilma Rousseff. Lula vai receber hoje de manhã, em São Paulo, os atuais senadores do PT e os que foram eleitos no mês passado e tomarão posse em fevereiro.

O ex-presidente está empenhado em ajudar a montar uma sólida base aliada no Senado para o segundo mandato de sua afilhada política. Na avaliação de Lula, se Dilma não se aproximar dos senadores daqui para a frente, há o risco de Aécio atrair parte deles para a oposição, principalmente os de partidos que registram rachas em suas bancadas, como o PMDB, o PP e o PDT.

"O presidente Lula tem preocupação com a relação entre o novo governo da presidente Dilma e os senadores. E nós também temos essa preocupação. Então, juntamos a fome com a vontade de comer", disse o líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE). De acordo com o parlamentar, Lula acredita que poderá comandar algumas mudanças nos rumos do PT daqui para a frente. Na reunião de hoje, o ex-presidente deve falar de suas ideias para o futuro do partido.

Lula não vai restringir sua atuação ao próprio partido. O ex-presidente vai procurar os senadores de legendas da base aliada. Alguns já foram contatados, como os peemedebistas Eunício Oliveira, derrotado na disputa pelo governo do Ceará pelo petista Camilo Santana; o amazonense Eduardo Braga, que também perdeu a eleição para governador, e Valdir Raupp (RO). Lula preparou o discurso de que o novo mandato será de boas relações com todos. Na atual gestão, os senadores contam nos dedos as vezes em que foram recebidos por Dilma. O queixume é dirigido também aos ministros que, de acordo com os parlamentares aliados, não os recebem.

Temer pede a Cunha que não se caracterize como oposição

• Em jantar para eleitos, delação e economia são os pratos principais

Cristiane Jungblut, Simone Iglesias e Leticia Fernandes – O Globo

BRASÍLIA - Depois do anúncio de que o blocão teria uma postura mais beligerante em relação ao governo, o vice-presidente Michel Temer (PMDB) teve um encontro demorado com o líder do PMDB na Câmara e candidato à presidência da Casa, deputado Eduardo Cunha (RJ), convocado para "acertar os ponteiros". Cunha disse que esteve com Temer antes do jantar oferecido na noite de terça-feira para parlamentares e governadores eleitos pelo partido. O encontro durou cerca de duas horas e serviu para discutir a estratégia de Eduardo Cunha na disputa pela Presidência da Câmara.

Pressionado pela presidente Dilma Rousseff, Temer pediu a Cunha para dialogar também com alguém do governo, como ministros, e não se caracterizar como um candidato de oposição. Cunha foi aconselhado a conversar com Ricardo Berzoini (Relações Institucionais) ou Aloizio Mercadante (Casa Civil). Peemedebistas afirmam que, pelo fato de ser vice, Temer estaria numa posição desconfortável com Cunha se apresentando como um candidato mais próximo à oposição e disposto a votar temas que incomodam o Planalto.

Na conversa com Temer, Eduardo Cunha disse que não podia ser apenas um candidato de governo e que estava construindo sua candidatura, com o blocão (PMDB, PR, PTB, PSC e Solidariedade).

- Nunca quis ser um candidato de oposição. Mas vou ser um candidato do Parlamento, da Casa. Não vou ser um candidato nem do governo e nem da oposição - disse Cunha.

Jantar em clima de velório
Na noite de terça-feira, Temer recebeu no Palácio do Jaburu governadores, senadores e deputados eleitos para uma confraternização que, segundo participantes, teve mais jeito de velório. Três assuntos dominavam as conversas nas rodinhas e mesas espalhadas pela residência oficial do vice: a expectativa com o envolvimento de mais peemedebistas e integrantes do governo na delação premiada de Paulo Roberto Costa; o cenário econômico ruim; e as derrotas do PMDB nos estados.

- A comida e a bebida estavam ótimas, mas os assuntos, muito difíceis de digerir - contou um parlamentar, acrescentando que há uma apreensão geral com a piora do quadro econômico.

- A expectativa com a economia é péssima daqui para a frente. Já começaram as medidas impopulares, aumento de combustível e de energia, muito ruim isso tudo - disse um senador.

Nas conversas, houve muita reclamação com os embates estaduais com o PT. Peemedebistas criticaram o comportamento do partido e disseram que os problemas terão reflexo na relação do PMDB com o governo Dilma. Um governador afirmou que ninguém defendeu o PT ou Dilma, mas que é fundamental uma convivência mínima.

Outro tema que dominou as conversas foi a Operação Lava-Jato e a delação premida do ex-diretor de Paulo Roberto Costa e de Alberto Youssef. Segundo um parlamentar, os comentários eram de preocupação com integrantes do partido envolvidos e sobre a possibilidade de as investigações atingirem o coração do governo, incluindo Dilma e Lula.

Os convidados discutiram, ainda, a necessidade de o partido lançar uma candidatura própria à Presidência em 2018. O prefeito do Rio, Eduardo Paes, é o mais cotado. Os peemedebistas concordaram com o nome de Cunha para a presidência da Câmara, chancelados pelo anfitrião do jantar, o vice-presidente Michel Temer. O governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, aliado da presidente Dilma Rousseff (PT), também defendeu o nome de Cunha.

- Será uma mudança de ciclo em 2018. O PMDB já cumpriu muito o papel de âncora da governabilidade. Está na hora de assumir um protagonismo digno de seu tamanho - disse um deputado.

Tensão com o governo Dilma
Os congressistas que estiveram no Jaburu concordaram que há uma tensão com o governo federal, centrado principalmente na figura de Dilma. Para mudar isso, o PMDB quer que o governo retire de pauta o plebiscito para implementar a reforma política e mude a condução da economia. Dos nomes cogitados no Planalto para assumir a Fazenda, o que mais agrada aos peemedebistas é o de Nelson Barbosa, um quadro técnico com traquejo político. O nome de Aloizio Mercadante (Casa Civil) enfrenta enorme resistência no PMDB. Ele é visto como muito próximo da "cozinha" do governo.

Tucano faz críticas à resolução divulgada pelo PT

• Senador contesta pontos como regulação da mídia, plebiscito para a reforma política e ampliação dos conselhos populares

Isadora Peron, Nivaldo Souza e Ricardo Brito - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O senador e presidente nacional do PSDB, Aécio Neves (MG), rebateu nessa quarta-feira, 5, na tribuna do Senado a resolução política aprovada na segunda-feira pela cúpula do PT. O texto, uma espécie de guia para a militância, defende a regulação dos meios de comunicação, a política de ampliação dos conselhos populares e o plebiscito para promover a reforma política, além de pregar a "construção da hegemonia na sociedade".

"Nós estamos atentos aos nossos adversários que, poucos dias depois das eleições, divulgam um documento oficial ao País que mostra a sua verdadeira face: a da intolerância, a da supressão das liberdades, a dos ataques às instituições. Mais que isso, nossos adversários de novo não se constrangem em propor um projeto que se pretende hegemônico, o oposto daquilo que a democracia pressupõe: liberdade de escolha, alternância de poder", disse Aécio.

A resolução do PT reafirma o compromisso de criar uma "Lei da Mídia Democrática", tradicional bandeira do partido. Sem entrar em detalhes, o texto defende que é preciso acabar com o "oligopólio da mídia".

O tucano afirmou que, como fez a Câmara dois dias após a reeleição da presidente Dilma Rousseff, o Senado vai derrubar o decreto que amplia os conselhos populares. A resolução petista defende a continuidade da "participação social na definição das políticas públicas" e medidas por parte do governo para reverter a "derrubada da Política Nacional de Participação Social".

Antes de subir na tribuna, Aécio classificou o decreto como "bolivariano". Questionado pelo Estado se concordava com esse termo, desconversou e disse que o havia empregado somente porque ouvira de seus correligionários, em ato pela manhã em um auditório da Câmara com outros partidos de oposição ao governo.

Referendo. Ao falar da proposta de plebiscito para convocação de uma Constituinte exclusiva para a reforma política, defendida pela resolução do PT, Aécio afirmou que o governo precisa expor qual é o seu projeto para que o Congresso possa debater o assunto. Mas o tucano já adiantou preferir a realização de um referendo. Por esse modelo, os parlamentares votam propostas para depois submeterem suas decisões aos eleitores.

"É hora de conhecer as bases da reforma política que o governo defende, até agora omitida, porque deverá ser debatida e aprovada por este Congresso, legitimamente eleito, e depois sim, ser submetido através do referendo ao crivo da sociedade brasileira", afirmou.

Citado pela resolução do PT, Aécio contra-atacou: "Dizem no documento que a minha candidatura representou o machismo, o racismo, o preconceito, o ódio, a intolerância, a nostalgia da ditadura militar. Não, senhoras e senhores! Esses atributos que jogam sobre mim, na verdade, eles os jogam sobre 51 milhões de homens e mulheres; eles é que são verdadeiramente atacados pelo PT nesse instante em um documento oficial".

Estelionato eleitoral, 2º e 3º atos

• A campanha à reeleição foi toda baseada em mentiras. Depois do aumento dos juros, agora é a vez da gasolina, da conta de luz e até a possibilidade de apagões no próximo verão

- Instituto Teotônio Vilela

A cada dia que passa, fica mais claro que a campanha que levou Dilma Rousseff à reeleição foi toda baseada em mentiras. Se a candidata disse que não faria ou acusou o adversário de pretender fazê-lo, pode ter certeza: seu governo vai se encarregar de executar. O estelionato eleitoral segue a todo vapor.

Na primeira semana após a vitória, a bomba-relógio do governo disparou o aumento da taxa básica de juros. Segundo o marketing da campanha petista, isto equivaleria a tirar comida da mesa das pessoas. Se é assim, foi justamente o que Dilma ora fez...

Em seguida, revelou-se ao país o maior rombo nas contas públicas de que se tem notícia. Em decorrência, o governo terá que rever suas metas fiscais, sob pena de ter que responder por crime. Durante toda a campanha, estas possibilidades foram sempre rechaçadas. Agora os responsáveis pelo Tesouro dizem que agem fazendo "o melhor para o país".

A lista de maldades guardadas para depois das eleições é, porém, bem mais extensa. A próxima delas será o aumento dos preços dos combustíveis, admitido ontem pelo governo. O reajuste deve sair na semana que vem - tão logo a Petrobras retome a reunião de seu conselho interrompida com o fito de defenestrar um de seus dirigentes flagrado em corrupção...

As diabruras que Dilma nos reservou para este pós-eleições também incluem reajustes assustadores nas tarifas de energia, que, de resto, já vinham ocorrendo desde o primeiro semestre. As mais novas vítimas são os cariocas, que pagarão entre 17% e 22% a mais pela eletricidade a partir de sexta-feira.

Com isso, o reajuste médio das tarifas de energia no país será de 18% - apenas neste ano! Estará anulada toda a queda resultante da intervenção determinada pela presidente da República no setor em setembro de 2012. Para não dizer que a desastrada operação deu em nada, gerou uma conta a ser paga por consumidores e contribuintes que já chega a R$ 105 bilhões.

Mas, acredite: tem coisa ainda pior. Segundo o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), quando o verão chegar poderemos ser brindados com apagões durante as madrugadas. O segundo mandato de Dilma - a "especialista" em energia - vai começar no escuro, a despeito de todos os alertas feitos pelos entendidos e sempre rechaçados pelo governo nos últimos meses.

Os brasileiros têm na memória o destino de governantes que se elegeram enganando o povo. Dilma Rousseff logo verá que, ao contrário do que sustenta seu marketing, o vale-tudo tem limites. São expedientes que a sociedade não aceita. Principalmente quando percebe que foi enganada.

A reforma política em foco - O Estado de S. Paulo / Editorial

Encerrado o período eleitoral, a reforma política emerge como tema inquestionavelmente prioritário na agenda política. Mas o sólido consenso a respeito da urgência dessa discussão se esgota nele mesmo. Em torno de praticamente todas as questões pontuais que compõem o amplo espectro dessa reforma impera o dissenso. E existe um grande divisor de águas: de um lado, a tentativa populista do PT de conformar a reforma a seu projeto de poder; de outro, a resistência a esse golpe para incluir o Brasil no seleto grupo das repúblicas "populares" da América Latina. Flutuando entre as duas tendências, as velhas raposas, poderosas e nanicas, tentam preservar o grande balcão de negócios.

O elenco das medidas reformistas é amplo. Uma delas é a proibição do financiamento dos partidos por pessoas jurídicas, que caminha para uma solução satisfatória: está na pauta do Supremo Tribunal Federal (STF), onde a maioria dos ministros, 6 em 11, já votou pela proibição. Sua homologação acabará com uma das maiores distorções do sistema eleitoral, a que contraria o princípio de "um cidadão, um voto" ao permitir que quem não vota, as pessoas jurídicas, especialmente empreiteiras interessadas em negócios com o governo, influa com muito mais do que "um voto" no processo eleitoral.

Aqui o problema está naquilo com que o PT sonha: o financiamento público, como se já não existisse com o Fundo Partidário e o chamado horário gratuito.

Mas há outras distorções importantes que reclamam atenção, como as que comprometem a legitimidade da representação popular pelos partidos políticos. Em qualquer país democrático, a existência de um grande número de partidos é a regra, protegida pelos fundamentos democráticos da liberdade de opinião e de associação. Mas o casuísmo que sempre determinou as reformas pontuais do sistema eleitoral e partidário no Brasil acabou criando uma aberração: nada menos do que 28 legendas partidárias ocupam hoje as 513 cadeiras da Câmara dos Deputados.

Essa é uma das consequências das coligações nas eleições proporcionais. Em reportagem do jornal O Globo, o cientista político Jairo Nicolau, da UFRJ, explica: "Há dois problemas nisso. O primeiro é que a coligação transfere voto sem que o eleitor tenha informação disso. Então, a pessoa pode ter votado em um partido da situação para deputado federal, mas, pela composição da coligação estadual, acaba elegendo um deputado de oposição. O segundo é que o modelo favorece a dispersão dos partidos. (...) Essa fragmentação dificulta a aprovação de leis e favorece chantagens e achaques".

Além da proibição das coligações, a maneira mais efetiva de reduzir os efeitos nocivos da grande fragmentação partidária no Parlamento é o estabelecimento da chamada cláusula de barreira. Esse mecanismo criado pelos alemães permite que qualquer partido legalmente existente apresente candidatos, mas estabelece um mínimo de votos para que a legenda conquiste uma cadeira no Parlamento. Hoje, no Brasil, na eleição para a Câmara dos Deputados, por exemplo, qualquer partido que alcance o coeficiente eleitoral na soma dos votos dados a todos os seus candidatos num Estado tem direito a uma cadeira. Mesmo que não tenha obtido 1 voto sequer nos demais Estados.

A cláusula de barreira estabelece que, para fazer jus a uma cadeira, o partido terá de conquistar uma porcentagem mínima de votos num número mínimo de Estados.

A reportagem de O Globo mostrou que, se nas eleições deste ano as coligações não fossem permitidas, 5 dos 28 partidos não teriam assento na Câmara. E, se houvesse cláusula de barreira (por exemplo, 5% dos votos válidos em pelo menos 9 Estados), 182 cadeiras não seriam ocupadas pelos atuais eleitos e apenas 7 partidos permaneceriam representados na Câmara: PT, PMDB, PSDB, PSD, PP, PSB e PR.

Isso tudo demonstra que a reforma política de que o País precisa pode se tornar refém não apenas das manipulações do lulopetismo obcecado por se perpetuar no poder, mas também do fisiologismo de partidos e políticos nanicos pouco dispostos a largar o osso.

Aprovado relatório que mostra sobrepreço em 'mini-Pasadena'

Murillo Camarotto - Valor Econômico

BRASÍLIA - Apelidada de "mini-Pasadena", a aquisição de uma usina de biodiesel pela Petrobras foi questionada ontem pelo plenário do Tribunal de Contas da União (TCU). O colegiado aprovou por unanimidade o relatório do ministro José Jorge, que, conforme antecipou o Valor na última terça-feira, apontou indícios de sobrepreço no negócio, realizado em 2009. O documento convoca representantes da estatal para prestarem esclarecimentos.

Entre os citados está o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, cotado para assumir uma pasta de maior relevância no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. À época do negócio, ele era presidente da Petrobras Biocombustível (PBio), que pagou R$ 55 milhões por metade da usina Marialva, localizada no município de mesmo nome, no Paraná.

Dois meses antes, entretanto, a mesma unidade - que produz biodiesel a partir de esmagamento de soja e sebo de bovinos - tinha sido integralmente adquirida pelo grupo gaúcho BSBios por uma quantia bem menor: R$ 37 milhões. Dado por José Jorge, o apelido de "mini-Pasadena" se deve à característica semelhante entre os dois negócios, apesar da sensível diferença nos valores envolvidos.

De acordo com o relatório, a subsidiária da Petrobras não fez as pesquisas prévias necessárias para "obter a parceria mais vantajosa para a estatal na exploração de biodiesel na região". O documento diz que o negócio não obedeceu critérios do Sistema Petrobras para realizar a aquisição, que teria colocado a empresa "em risco" ao se associar com um parceiro "de capital inexpressivo e alto endividamento".

A fiscalização sobre o negócio tem origem em um requerimento da Comissão de Agricultura da Câmara, que em março deste ano pediu que fosse investigada a sociedade entre a Petrobras e a BSBios. Depois da unidade Marialva, a estatal adquiriu, em 2011, 50% de participação na usina Passo Fundo, também pertencente ao grupo gaúcho. O negócio foi fechado por R$ 200 milhões.

O TCU, entretanto, não viu indícios de sobrepreço na segunda transação. Ainda assim, José Jorge ressaltou que a aquisição da usina de Passo Fundo também representou riscos para o caixa da Petrobras Biocombustível.

A hipótese de ilegalidade foi rechaçada com veemência por Rossetto. Ao Valor, o ministro disse ter acesso a um relatório técnico-operacional do TCU que descarta indícios de sobrepreço em ambas as aquisições. Ele também garante que quaisquer eventuais riscos para a PBio ou para a Petrobras foram devidamente mitigados pelas garantias apresentadas pelos sócios gaúchos.

Sem referir-se especificamente ao voto de José Jorge, Rossetto disse que avalia o relatório do TCU como "abonatório" para a PBio. A seu ver, os pedidos de esclarecimentos são "processuais" e serão respondidos.

Os representantes da Petrobras têm dez dias para fornecer as informações solicitadas. A depender do teor das justificativas da estatal, será convocada uma audiência com Rossetto. A assessoria de imprensa da BSBios se comprometeu a enviar uma nota, mas não havia o feito até o fechamento desta edição.

Oposição responsável – Zero Hora (RS) / Editorial

A vigilância e a crítica são atribuições dos oposicionistas, desde que exercidas nos limites determinados pela civilidade e pela democracia.

O retorno do ex- candidato Aécio Neves ao Senado, saudado por pares e simpatizantes como o principal líder da oposição, foi marcado por manifestações de rejeição aos ocupantes do governo e também por uma declaração sensata. Disse o pretendente derrotado à Presidência que, em nome dos mais de 51 milhões de votos obtidos nas urnas, iria articular o PSDB e seus aliados para que exerçam a vigilância crítica dos atos do Executivo, desde que isso não signifique radicalismos. "Eu respeito a democracia permanentemente e qualquer utilização dessas manifestações no sentido de qualquer tipo de retrocesso à democracia terá a nossa mais veemente oposição", afirmou o senador mineiro, para completar: "Eu fui o candidato das liberdades, da democracia, do respeito. Aqueles que agem de forma autoritária e truculenta estão no outro campo político, não estão no nosso campo político".

É o melhor caminho para uma oposição responsável num regime democrático. Acabou a eleição, acabou o antagonismo eleitoral, que neste ano assumiu proporções preocupantes. Agora, o governo tem que governar e a oposição deve assumir o papel fiscalizador, sempre dentro dos limites da civilidade e da legalidade. Ontem, derrotados e vitoriosos ouviram os primeiros pronunciamentos de seus líderes depois do segundo turno. Aécio Neves e Dilma Rousseff discursaram para parte dos liderados, que passam a ser orientados a respeitar os resultados do pleito, sob pena de o país estender para além do razoável o debate que deveria se resumir ao período eleitoral.

Isso não significa que a oposição deva abrir mão de seu papel, mas adequar suas atribuições à normalidade democrática. Que o senador cumpra, como anuncia, a tarefa que cabe aos oposicionistas, e que o governo procure atender compromissos assumidos durante a campanha. Ontem mesmo, a presidente reeleita voltou a dizer que irá se empenhar pela realização das reformas política e tributária, pela implementação da nova política de segurança pública e pelo combate à corrupção.

Esses e outros pontos, incluindo os que não fazem parte da pauta em que oposição e governo convergem, terão de ser enfrentados. A democracia brasileira atingiu grau de maturidade capaz de evitar que se confundam, num clima ainda tenso, o natural empenho da oposição e as manifestações mais radicais que tentam levantar dúvidas sobre a legitimidade de um governo eleito. A manutenção de retóricas eleitorais, por parte de oposicionistas ou governistas, não contribui para o aperfeiçoamento das instituições.

Marco Aurélio Nogueira - A direita extremada, esta ameaça mal conhecida

- O Estado de S. Paulo

Trajando suas mais típicas vestes maximalistas, provocadoras e golpistas, a direita extremada está querendo ir para a rua.

Não que estivesse desde sempre ausente dela. Em junho de 2013, tentou mostrar as garras nas manifestações que tomaram conta da cidade, usando os expedientes que a caracterizam: o destempero verbal, a provocação, o autoritarismo, a violência. Foi repelida pelos manifestantes, que não se intimidaram diante dela, mas algum modo ajudou a desmobilizá-los.

A direita extrema que está buscando agora se exibir é um grupo dentre outros, um subgrupo de um grupo maior, mas não se articula com ele. É algo à parte, que tenta ostensivamente se apropriar da alma daqueles que votaram contra o PT nas últimas eleições. Quer ser a vanguarda belicosa do antipetismo, este estado de espírito que cresceu como mato de uns anos para cá.

Procura capturar o sentimento de cansaço, descontentamento e desilusão que há em várias franjas da população contra a má qualidade da política, as falhas da representação e os desacertos governamentais. Quer pegar carona na frustração dos que acharam que Aécio venceria as eleições.

A direita extremada tenta fazer isto a seu feitio: valendo-se do histrionismo, da demagogia barata e da ameaça autoritária, chegando ao limite de falar em golpe e intervenção militar. Faz o jogo sujo de sempre, insuflando pessoas para a “caça aos comunistas” e para a desvalorização da democracia. Descobre até mesmo uma estratégia detalhada para que o comunismo se implante no País e no continente. É uma direita que parou no tempo. Sua linha de frente é integrada por provocadores, alguns abertamente grotescos.

Tanto quanto criticá-la e repeli-la, precisamos compreendê-la. Vê-la como parte da rua, mas não como toda a rua. Esta direita virulenta não é sequer toda a direita, mas um pedaço dela, de tamanho não conhecido. Há muitas “direitas” no mundo, não faz sentido tratá-las como se fossem uma única coisa e sair por aí carimbando liberais e neoliberais como “direitistas”, indiscriminadamente. É muita pobreza intelectual e muita cegueira política.

Em suma, devemos olhar a floresta, não um ou outro galho podre.

Precisamos antes de tudo decifrar o enigma: quem são e o que pensam os que animam esta direita extremada? Qual seu alimento, que chances tem de crescer? Sua cultura pode ser conhecida, mas suas possíveis traduções não o são necessariamente. O fenômeno não é novo no Brasil, mas sua irrupção pública é. Não temos estudos que nos forneçam o identikit desta direita.
Em segundo lugar, uma sociologia das ruas nos ajudaria muito. Quem (indivíduos, grupos, classes) se mobiliza hoje, por quais motivos, quem se deixaria levar por palavras de ordem demagógicas e abertamente regressistas? O que sensibiliza e motiva tais pessoas? Todos os que protestam, hoje, podem ser acomodados numa caixinha escrita “direita”, só porque se manifestam contra Dilma ou o PT?

Disto deriva, em terceiro lugar, a questão de saber por que há pessoas hoje, no Brasil, que estão “desorganizadas” mas dispostas a protestar e a fazer ouvir sua voz. Estas pessoas não aplaudem plataformas antidemocráticas. Podem pedirimpeachment num momento inadequado, sem se dar conta de que este instrumento constitucional precisa ser devidamente processado, não pode ser usado para extravasar suspeitas ou insatisfações. Mas não são “direitistas”. São quando muito pessoas comuns, insatisfeitas, irritadas. Têm todo o direito de ir às ruas. E até de falar em impeachment caso a situação política assim indique.

Por que então ninguém consegue organizá-las em sentido democrático? Onde estão o PT, o PSDB, o PSB, a Esquerda Democrática que não conseguem atrair cidadãos que, em princípio, não concordam com o regressismo da direita extremada mas que poderão se deixar levar por ele?

Eleitores frustrados e, em parte, revoltados com a perspectiva de que tudo continue como dantes e de que o sistema político siga envenenado, são personagens democráticos como outros quaisquer. Fazem bem à democracia, funcionando como um mecanismo de controle social e de crítica ao poder. Mas precisam ter referências e recursos de mobilização e ação.

Os que foram à rua no último sábado, em São Paulo, não são “de direita”. Também não são tucanos, ainda que possam ter votado em Aécio Neves. Não sabemos bem quem são e deveríamos humildemente reconhecer isto, no mínimo para evitar generalizações. O que sabemos é que um pequeno grupo de direitistas extremados procurou manipulá-los, roubando-lhes a indignação para impulsionar propostas antidemocráticas.

Estes direitistas, seus intelectuais de plantão, seus ícones, assim como os que aceitam suas modalidades de pensamento e ação, não integram a oposição democrática. Não são do PSDB, nem do PSB, nem do PPS ou do PSol. Fazem bem, portanto, os partidos democráticos em se dissociarem claramente deles. Como fez Xico Graziano, por exemplo: “Existe no Brasil uma ideologia própria da direita que se encontra desamparada do sistema representativo, quer dizer, sem partido político. Sua força se mostra na rede da internet. Essa corrente luta para destruir o PT, acusando-o de querer implantar o comunismo por aqui. Defendem as liberdades individuais, combatem a corrupção organizada no poder, desprezam as lutas sociais, mostrando-se intolerante com o direito das minorias. (…) Na complexidade do mundo contemporâneo anda difícil rotular os partidos, e as pessoas, como de “direita” ou de “esquerda”, categorias válidas no século passado, mas ultrapassadas hoje em dia.

 De qualquer forma, quem concordar com as teses dessa turma aguerrida que vê o comunismo chegando, é contra os benefícios sociais, sonha com a ordem militar, por favor, deixem o PSDB.”

Que se multipliquem manifestações como estas. Que se separem e se distingam as posições. Isto é decisivo para que se ponha um pouco mais de ordem nos alinhamentos políticos e ideológicos.
Isto deve valer para todos, vencidos e vencedores.

Moderação, sensatez e disposição para dar direção política à sociedade devem ser exigidas do PSDB e de seus aliados. Eles precisam mostrar determinação para ocupar um espaço e organizar o debate público. Devem atuar democraticamente como oposição política ativa, colar-se aos movimentos e humores da sociedade, colaborar para que se resolvam os problemas do País. Aécio Neves, ao voltar ao Senado, disse integrar “um grande exército a favor do Brasil e pronto para fazer a oposição que a opinião pública determinou”. Um exército faz guerra, não amor.

Deveria suavizar a linguagem.

Mas o PT e sua combativa militância precisam dar idêntica contribuição. Parar, por exemplo, de distribuir acusações, de estigmatizar seus adversários e de atribuir a eles a responsabilidade pela emergência da direita extremada. Quanto menos sectarismo e intolerância, melhor. Deveriam também fazer o possível para segurar seus próprios extremistas, que não são muitos mas costumam fazer muito barulho. E desativar o discurso maniqueísta que separa o Brasil em “povo petista” e “elites tucanas”, que foi incorporado por muita gente e só ajuda a emburrecer e a excitar, além de ser paralisante.

Deste ponto de vista, nada mais surpreendente e prejudicial do que a nota do PT (04/11/2014) conclamando a militância “às armas “ para combater os “fantasmas do passado” que buscam criar um “terceiro turno” na eleição presidencial. Serve somente para colocar a tropa nos cascos, “armando-a” com argumentos e estímulos “para rebater a ignorância nas redes e nas ruas”.

Contrapõe-se frontalmente ao mandato e à responsabilidade que o partido recebeu das urnas.

Em seus primeiros passos como presidente reeleita, Dilma parece estar inclinada a fazer tudo aquilo que abominou e criticou em seus adversários (Marina e Aécio): cortes de despesas, elevação de juros e preços, empresários e banqueiros no comando da economia. Há um anticlímax no ar. Ela terá de mastigar o mesmo veneno que inoculou nos adversários. Neste quadro, a insatisfação tenderá a crescer. A militância dilmista poderá se frustrar e sair em busca de um bode expiatório, pondo mais fogo nas ruas.

Democracia é conflito, tensão e luta. É ruído, não silêncio. Ação, não passividade. Contudo, sem um mínimo de cálculo político, organização e bom senso a vida democrática não se sustenta e pode terminar por embalar seu pior pesadelo: a violência e o autoritarismo sem freios.

A extrema-direita está aí, buscando ganhar espaço. Como os democratas podem enfrentá-la? A tática de hipertrofiá-la, de apresentá-la como se estivesse em forte e categórica expansão, não é somente um equívoco político: é um desrespeito à realidade e à verdade dos fatos. É agitação, não análise política.

 Faz uma clonagem ao reverso da fraseologia direitista que vê o comunismo como prestes a ser instalado no País. Agiganta e estimula um ator que somente respira em condições de exacerbação dos espíritos.

Opor-se à direita extremada é algo que depende de fortalecimento democrático, no plano institucional, político e cultural. Passa por convergências e consensos que funcionem como filtros, divisores de águas e anteparos. Quanto mais polarizado o quadro, maior será o campo de ação para a direita, menos isolada se sentirá ela.

As ruas estão sempre sendo disputadas. A direita extremada é somente um dos protagonistas.

Ela cresce no vácuo. Se os demais deixarem, a disputa enveredará por caminhos que não interessam à democracia.

Cientista político e professor da teoria política na UNESP

Merval Pereira - Sem tranquilidade

- O Globo

Tendo ainda pela frente mais alguns meses do primeiro mandato, e outros quatro anos de um segundo, a presidente Dilma não conseguiu ainda sair das cordas, apesar de vitoriosa nas urnas. Para seu azar, vai terminar o ano com um crescimento pífio, talvez abaixo de 0,5%, e engatar outro ano de economia débil, faça ou não as mudanças necessárias.

Mesmo se as fizer, vai aprofundar a recessão da economia e terá que conviver com pelo menos mais um ano ou dois de crise para tentar chegar ao final do mandato com a situação mais ou menos controlada. A herança maldita que herdou de si mesma afetará não apenas o seu governo, mas os projetos futuros de Lula e do PT, especialmente se Dilma quiser dobrar a aposta em seus métodos. Se por um lado não tem o que perder nesse segundo mandato, pois não alimenta nenhum projeto político futuro, a presidente reeleita terá que lidar com as angústias de seu partido de adoção e, sobretudo, com um Lula disposto a mudar o jogo para não afundar o projeto de poder que tanto alimenta, com ou sem ele no governo.

A insistência de Lula para que Dilma coloque no Ministério da Fazenda Henrique Meirelles ou o presidente do Bradesco, Luiz Trabuco, mostra que o ex-presidente sabe exatamente o tamanho da encrenca em que o governo petista está metido, e sabe também o caminho a ser seguido, como fez em 2002 ao ser eleito pela primeira vez. Como Dilma não é Lula, nem na capacidade de negociação nem na arte da dissimulação, é improvável que nomeie para a Fazenda alguém com luz própria. Lula ter á então a possibilidade de se afastar de sua protegida com boas razões para criticá-la, surgindo como uma alternativa em 2018 para o PT.

Dilma ter á que tourear neste 2º mandato um Congresso muito mais inquieto, até mesmo pelas ameaças que as delações premiadas estão produzindo, com uma base aliada muito mais infiel, e uma oposição re forçada pelas urnas. Pela primeira vez em 12 anos, o PT ter á uma oposição sistemática ao seu governo, sem re ceio de ser jogada contra "a vontade popular". Simplesmente por que essa oposição atual representa quase tantos eleitores quantos os que votaram na continuidade do governo Dilma. O maior aliado do PT no governo é o PMDB, também seu pior adversário.

Saído das urnas com boa parte de seus quadros trabalhando com a oposição em diversos estados do país, o PMDB chega ao segundo mandato disposto a assumir o papel de fiel da balança, colocando-se mais como um contraponto do que um aliado do PT. Lula, como sempre, atua dialeticamente, tentando levar a economia para o campo ortodoxo, mas propondo uma guinada à esquerda na política, inclusive para suprir uma eventual falta dos partidos de centro-direita que, mesmo na base aliada, já sentem o vento soprar em outra direção.

O PMDB já anunciou que apresentará sua versão da reforma política, o que prenuncia um embate dentro da base aliada em torno de temas fundamentais, como financiamento público de campanha, constituinte exclusiva, democratização da mídia, conselhos populares, tem as caro s aos petistas que encontram no PMDB forte resistência. Por isso, não se sabe a quem a presidente Dilma enviou uma mensagem cifrada em sua fala de ontem, quando afirmou quer "há de saber ganhar , há de saber perder.

A atitude do ganhador não pode ser de soberba, nem pretensão de ser o último grito em matéria de visão política. Saber perder é saber em que ponto você está e não significa que vamos construir um muro no Brasil". Palavras ponderadas de quem vê dificuldades pela frente. Já o PT, num documento de sua Executiva Nacional, deixou de lado as sutilezas para abrir o jogo: "É urgente construir hegemonia na sociedade, promover re formas estruturais, com destaque para a re forma política e a democratização da mídia" (...)

"Para transformar o Brasil, é preciso combinar ação institucional, mobilização social e revolução cultural". São palavras de um partido que quer retomar seu viés revolucionário, depois do susto de ser quase derrotado nas eleições presidenciais. Diante da disposição da oposição de não dar trégua aos petistas, no Congresso e nas ruas , pode-se prever os "tempos interessantes " da maldição atribuída a Confúcio, em que os riscos e os sofrimentos não cessam, impedindo a tranqüilidade.

Dora Kramer - Ao perdedor, o festejo

- O Estado de S. Paulo

Mesmo depois de virar água passada, a eleição de 2014 continua produzindo fatos inusitados. Passado o baque daquela noite de domingo (26), em que o PT mais uma vez tirou o PSDB da rota de volta da planície ao Planalto, a oposição não faz outra coisa a não ser comemorar a derrota.

O entusiasmo, a unidade de ação e o pensamento dos perdedores contrastam com os reclamos, as divergências e a desorientação dos vencedores que ficaram com o governo, mas herdaram uma oposição cujos primeiros acordes sinalizam que será completamente diferente daquela que saiu das três eleições anteriores.

E a razão não está apenas no aumento do número de votos. Inclusive porque não foi assim tão significativa: José Serra teve 44% em 2010 e Aécio Neves, 48,4% agora.

A diferença está no entendimento por parte dos oposicionistas de que a eles cabe o papel de vocalizar o contraditório e se expressar em nome de parcelas da sociedade não apenas nos momentos em que precisam de votos.

A volta do senador Aécio Neves à cena, com seus discursos ontem na reunião da Executiva do PSDB e na tribuna do Senado, resume o que já vinha sendo dito e escrito por lideranças do partido: a oposição promete ser combativa, vigilante, contundente, incansável e não se limitar ao ambiente do Congresso.

Aécio deixou isso muito claro quando alertou ao governo para que não olhasse a oposição apenas pela ótica do tamanho de suas bancadas no Parlamento, mas na perspectiva dos 51 milhões de cidadãos que optaram pela candidatura dele e em nome dos quais, anunciou, "vamos fazer a mais vigorosa oposição que este Brasil já assistiu".

A cena fez lembrar outra, cerca de quatro anos atrás, quando Aécio Neves recentemente eleito senador subiu à mesma tribuna para fazer um discurso a fim de se apresentar (era a expectativa) como líder da oposição. Palavras brandas, foi aparteado por senadores do PT um após o outro em saudações elogiosas, no tom algo irônico de quem recepciona o oposicionista que pediu a Deus.

Retraído, pouco combativo, assim se comportou. É possível que isso tenha feito a diferença agora entre a vitória e a derrota. E por isso a entonação ontem foi outra: a começar por lembrar que a presidente Dilma Rousseff está tomando medidas que durante a campanha dizia que o adversário iria tomar.

Discurso que ela agora gostaria que fosse esquecido.

Extremos. Os protestos pós-eleitorais que degeneram para a defesa da volta dos militares são a outra face da moeda de gestos, tais como a recente assinatura de convênio entre o MST e o governo da Venezuela para troca de conhecimentos sobre os fundamentos da "revolução social".

Os primeiros foram repudiados pela oposição; de bom alvitre seria que, em relação ao intercâmbio bolivariano, o governo brasileiro pudesse dizer que não tem nada com isso.

Nada impede. Passada a eleição, perdeu a validade o argumento do ex-presidente Luiz Inácio da Silva para não atender ao convite da Polícia Federal que, desde fevereiro, tenta ouvi-lo sobre um depoimento de Marcos Valério de Souza apontando a interferência de Lula e de Antônio Palocci em repasse de R$ 7 milhões da empresa Portugal Telecom ao PT.

O inquérito foi aberto em abril de 2013 e a PF aguarda o depoimento do ex-presidente (como testemunha) para concluí-lo. O convite foi feito reiteradas vezes, mas só respondido de forma indireta pelo advogado Márcio Thomaz Bastos dizendo que iria tentar marcar uma data.

Quando o assunto veio a público, em setembro último, a alegação foi a de que no curso da campanha eleitoral não seria o período mais conveniente.

Eliane Cantanhêde - O último bastião

- Folha de S. Paulo

Se eu fosse a presidente Dilma, acenderia dezenas de velas no Palácio da Alvorada para o emprego não começar a cair. Todos os indicadores econômicos, ladeira abaixo, ameaçam puxar também esse último bastião da campanha e do primeiro mandato de Dilma.

Nem o combate à miséria resistiu a esses quatros anos. Curiosamente atrasada, nos chega agora a notícia de que, pela primeira vez em dez anos, há uma interrupção na redução do total de miseráveis. O número caía ano a ano, mas passou a apresentar um leve movimento de alta. Os 10,08 milhões de brasileiros que em 2012 não tinham renda suficiente nem para uma cesta mínima de alimentos cresceram 3,7% e passaram a 10,45 milhões em 2013.

Trata-se de notícia oficial, de órgão oficial (Ipea), baseada em dados oficiais (do IBGE). Mas foi adiada para depois das eleições, sabe-se lá por quê. Ou será que a gente sabe? Em 2010, quando eram bons para Lula, os dados foram anunciados no meio das eleições. Em 2014, quando são ruins para Dilma, só são depois, e discretamente.

O quadro é o seguinte: estagnação da economia, alta dos juros, inflação no teto --ou acima do teto-- da meta, contas públicas no vermelho pela primeira vez em décadas, contas externas muito desfavoráveis ao Brasil, redução de importações de máquinas e equipamentos essenciais à indústria --que vem caindo.

Era óbvio, portanto, que o número de miseráveis pararia de cair, indicando que pode até subir. Como é óbvio que os empregos --que se seguram com os menos qualificados, que menos colaboram para o aumento da produtividade-- também deverão sofrer os efeitos dessa confluência nefasta na economia.

Depois de ouvir Lula longamente, Dilma defendeu nesta quarta (5) que é hora de todo mundo descer do palanque. É mesmo, tem toda razão, até porque ganhar a eleição já não foi fácil, mas corrigir rumos e tirar o país do buraco vai ser mais difícil ainda.

Luiz Carlos Azedo - Os Miseráveis

• Ontem foram revelados os dados da pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que o Palácio do Planalto proibiu que fossem divulgados antes das eleições: a extrema pobreza voltou a subir

- Correio Braziliense

Obra monumental do escritor francês Victor Hugo, Os Miseráveis (Saraiva, 2 volumes) foi um sucesso literário desde o lançamento simultâneo, em 1862, nas cidades de Paris, Leipzing, Bruxelas, Budapeste, Milão, Roterdã, Varsóvia e Rio de Janeiro. Narra a corrupta política francesa entre a derrota de Napoleão em Waterloo, em 1815, e os motins de junho de 1832, no conturbado reinado de Luís Felipe, início da uma crise que resultou na brevíssima Segunda República e, depois, no 18 Brumário de Luís Bonaparte (1851), a grande farsa restauradora da aristocracia francesa, já ultrapassada pela burguesia e pelo capitalismo.

Os Miseráveis rasga ao véu que encobria a pobreza, a miséria, a exploração da criança, o abandono dos idosos. É um livro triste, constrangedor, que mostra a pobreza de forma nua e crua e transforma em grandes personagens da saga humana pessoas que viviam na ignorância, sem possibilidades de estudos nem oportunidades de trabalho, numa monumental descrição do outro lado de uma sociedade que gostava de opulência e ostentação, mas dava os primeiros passos para a modernidade, no rastro das ideias do Iluminismo e da Revolução Francesa de 1789.

O herói do livro é Jean Valjean, um homem muito pobre que para salvar a família da fome é forçado a roubar um simples pão. Desde então é condenado e preso pela polícia. Porém, quando está terminando de cumprir a pena, ele foge e acaba sendo condenado novamente. Fez isso algumas vezes e acaba passando 19 anos preso por ter roubado apenas um pão.

A saga de Valjean pautou a questão social para sempre e o tema da miséria passou a ser um dos eixos da luta política até os nossos tempos. Na recente disputa eleitoral, toda a estratégia de campanha da presidente Dilma Roussff apostou na contradição entre pobres e ricos e na bandeira do combate à miséria, que o PT procurou monopolizar, com um discurso no qual acusava a oposição de apresentar propostas que aumentariam os indicadores de pobreza no país.

A miséria censurada
Ontem foram revelados os dados da pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que o Palácio do Planalto proibiu que fossem divulgados antes das eleições. Após uma década de queda na miséria, o número de brasileiros em condição de extrema pobreza voltou a subir em 2013. O país tinha 10,08 milhões de miseráveis em 2012, contra 10,45 milhões um ano depois, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O aumento é de 3,7%.

Durante a campanha, Dilma vetou a divulgação dos resultados porque isso poderia desconstruir seu discurso eleitoral e desnudar o fato de que o baixo índice de crescimento econômico pode colocar em risco as conquistas sociais proporcionadas por programas de transferência de renda do governo, como o Bolsa Família. O fato provocou uma crise no órgão.

O cálculo leva em conta o número de indivíduos extremamente pobres com base nas necessidades calóricas — aquelas com renda insuficiente para consumir uma cesta de alimentos com o mínimo de calorias para suprir uma pessoa de forma adequada, com base em recomendações da FAO e da OMS. Essa é a primeira alta da série histórica do indicador, com início em 2004. Desde 2003 — quando o Brasil possuía 26,24 milhões de pessoas na miséria, o número de miseráveis caía continuamente, chegando a uma queda de 61% até 2012.

No decreto do plano Brasil sem Miséria — nele, a renda familiar de até R$ 77 por mês, per capita, é o limite da extrema pobreza no país. Por esta estimativa, os dados do Ipea mostram que a proporção de miseráveis, em relação a outras faixas, cresceu de 3,6%, em 2012, para 4% no ano passado. Em compensação ao aumento da miséria, o número de pessoas pobres caiu de 30,35 milhões em 2012 para 28,69 milhões em 2013 — uma redução de 5,4%. Esse é o lado bom, pois revela que uma parcela da população, aquela que consegue manter algum nível de atividade produtiva, consegue escapar da iniquidade social. Uma parte dos que deixaram de ser pobres, porém, pode ter voltado à miséria, mas a pesquisa não esclarece isso.

O principal fator de redução da pobreza no Brasil não é o Bolsa Família, é a recuperação do salário mínimo, que serve de referência para mais 45 milhões de pessoas no Brasil e deve passar de R$ 724 para R$ 779,79 a partir de janeiro de 2015. O percentual de correção do salário mínimo, pela proposta do governo, será de 7,71% no próximo ano. O governo previa que o salário mínimo superasse a barreira dos R$ 800 em 2015, mas o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ficou abaixo do que se esperava. É mais um resultado negativo do primeiro mandato de Dilma.

Demétrio Magnoli - A imprensa e o segredo

• O jornalismo livre não produz discursos monocórdicos, como fazem as agências estatais e as assessorias de imprensa

- O Globo

Dilma e Lula sabiam de tudo sobre o escândalo de corrupção na Petrobras, teria declarado o doleiro Alberto Yousseff na moldura da delação premiada. A notícia bombástica, publicada por "Veja" na antevéspera do segundo turno, não apareceu nos telejornais da Globo daquela sexta, mas ganhou manchete da "Folha de S. Paulo" no dia seguinte. Você pode interpretar as diferenças de comportamento entre os três veículos sob as lentes da disputa partidária, mas apenas se apreciar teorias conspiratórias ou estiver a serviço de uma agenda política.

Na "Folha", um jornalista enveredou pela trilha minada, atribuindo o silêncio da Globo ao "medo" do governo. A resposta, assinada por Ali Kamel, diretor de Jornalismo da emissora, transferiu a polêmica para o campo da ética jornalística: "A Globo (...) não faz política, faz jornalismo. (...) só repercute denúncias de outros veículos se puder confirmá-las por meios próprios". O princípio parece ter orientado a própria "Folha", quando publicou a denúncia de Yousseff junto com a explicação de que a confirmara com suas fontes. A revista e o jornal não estavam noticiando que Dilma e Lula sabiam do desvio de somas astronômicas da estatal para o PT, o PMDB e o PP. Contudo, empenhavam a sua reputação na informação de que Yousseff declarou isso às autoridades judiciais. Fizeram jornalismo ou política?

Naquele sábado, véspera da eleição, militantes da União da Juventude Socialista (UJS), um tentáculo do PCdoB, promoveram atos de vandalismo diante da sede da Editora Abril, acusando a revista de conspirar contra a candidatura de Dilma Rousseff. À noite, os telejornais da Globo noticiaram o evento e o contextualizaram. "O ataque ao prédio da Editora Abril, um ataque à liberdade de imprensa, não poderia ser ignorado", argumentou Kamel, para concluir: "E ao ser noticiado, era preciso explicar que ele fora motivado por uma reportagem, sem endossá-la". Na celebração da vitória de Dilma, militantes petistas entoaram palavras-de-ordem contra a Globo. Dias depois, Lula qualificou a edição de "Veja" como "um panfleto da campanha do Aécio", mas não se referiu à "Folha". É política contra política ou política contra jornalismo?

A expressão "guerra midiática" alcançou estatuto oficial na Venezuela de Hugo Chávez. O ex-presidente "bolivariano" chegou a promover um encontro latinoamericano destinado a consagrar a tese de que a imprensa é um instrumento de potências estrangeiras ou de elites nacionais contra governos "populares". Na Argentina, no Equador e na Bolívia, a tese sustenta campanhas estatais contra a liberdade de imprensa. No Brasil, desde o escândalo do mensalão, foi abraçada por setores do PT e encampada por Franklin Martins, que trocou a posição de comentarista político da Globo pela de ministro da Comunicação Social de Lula. Em seu primeiro mandato, Dilma afastou-se do rumo esboçado nos anos anteriores, congelando as propostas de "controle social da mídia" que se articulavam sob o comando do ministro. Hoje, contudo, no rastro dos vazamentos do escândalo na Petrobras, multiplicam-se os indícios de ressurreição do projeto engavetado. O tácito respaldo de Lula às arruaças da UJS não é um raio no céu claro.

O colunista Janio de Freitas, da "Folha", definiu a reportagem de "Veja" (e, talvez, a confirmação da mesma "Folha"...) como uma "investida originada na imprensa para interferir na disputa eleitoral", sugerindo paralelos entre a publicação da denúncia e o golpe militar de 1964. A senha do "golpismo midiático", utilizada pelo PT na hora do mensalão, disseminou-se pela rede de blogueiros patrocinados pelas estatais. Mas as acusações à revista revelaram-se inconsistentes. O depoimento de Yousseff aconteceu na terça, apenas três dias antes da sua publicação: era notícia nova. "Veja" não operava segundo um critério partidário: como em eleições anteriores, a revista organizara com larga antecedência um programa de circulação antecipada. A imprensa não tem o direito ético de sonegar informações relevantes em função do calendário eleitoral. Nem o de julgar o interesse público de uma notícia na balança de suas hipotéticas consequências políticas.

Segundo a tese chavista, a "mídia" é uma entidade monolítica, que opera como "partido da burguesia". O cenário descortinado a partir da reportagem de "Veja" não se encaixa nessa interpretação caricatural. Na sua réplica ao jornalista da "Folha", Kamel esclareceu que, "na sexta", a Globo "não confirmou com suas fontes o sentido do que fora publicado por "Veja"" e, ainda, que as fontes da emissora "classificaram de distorcida" a manchete da edição de sábado da "Folha". O "não confirmou" não significa que as fontes da Globo desmentiram as da "Veja", mas a palavra "distorcida" sugere algo mais. À primeira vista, a apuração da Globo indicaria que as fontes da emissora interpretam como de segunda mão as informações da "Veja" e da "Folha". A revista e o jornal teriam se baseado em fontes com acesso às gravações, mas não nas próprias gravações.

O jornalismo livre não produz discursos monocórdicos, como fazem as agências estatais e as assessorias de imprensa. "Veja" e "Folha" arriscaram sua credibilidade pois acreditam nas suas fontes. A Globo, que também acredita nas suas, diferentes, preferiu adotar postura mais cética. Nenhum dos veículos, porém, questionou o princípio jornalístico de que a missão da imprensa é dar notícias de interesse público, mesmo se oriundas de vazamentos judiciais: nas democracias, a proteção do segredo de Justiça não é responsabilidade de jornalistas, mas de policiais e juízes.

Sob o influxo da tentação autoritária de "controle social da mídia", o episódio converteu-se em nova plataforma de ataque contra os princípios do jornalismo. Não fosse isso, estaríamos discutindo o que, de fato, interessa: a excessiva amplitude do instituto do segredo de Justiça no sistema judicial brasileiro.

Demétrio Magnoli é sociólogo

Sergio Fausto - Pós-eleições - o diálogo que interessa

- O Estado de S. Paulo

Já no dia seguinte ao pleito o ex-presidente Lula pôs seu bloco na rua com vista a 2018. Depois de dizer o diabo na eleição, ele ressurge conciliador em vídeos postados na internet, nos quais se dirige fundamentalmente às "classes médias" (velhas e novas) para recompor uma interlocução que se deteriorou nos últimos quatro anos. Dirige-se também à militância de seu partido, aconselhando-a a não se deixar levar pela "campanha de ódio contra o PT", um recado aos jovens radicalizados que emporcalharam a sede da Editora Abril. Enfim, um primor de astúcia política e desfaçatez (o ex-presidente chega a invocar a si próprio como exemplo de político que não se vale de ofensas para combater os partidos adversários).

Lula sabe que o discurso do "nós somos pelos pobres e eles pelos ricos" não o levará à vitória em 2018. Se o País retomar o crescimento, as novas "classes médias" voltarão a se expandir, com ainda maiores expectativas de ascensão social, e o número de pessoas realmente pobres se reduzirá a um contingente menos expressivo eleitoralmente. Se o crescimento continuar rastejando, as novas "classes médias" estarão frustradas em suas expectativas de maior ascensão ou iradas com a condição de "novos pobres", prontos a castigar o governo de turno.

Os desajustes produzidos pela "nova matriz econômica" são tantos que o cenário mais provável aponta para a continuidade do crescimento medíocre com inflação incômoda. A diferença está em que, de agora em diante, haverá aumento do desemprego. Acabou o vento de cauda da economia internacional e se esgotaram os motores do consumo público e privado, que puxaram o crescimento brasileiro nos últimos anos. Sobrou uma agenda de problemas provavelmente maior que a capacidade do "novo" governo de solucioná-los, agravados por uma crise política latente. Tem razão Lula quando diz: "Mais quatro anos como estes e estaremos perdidos" - frase citada na imprensa. A questão é que não será nada fácil tornar substancialmente melhor o próximo período presidencial.

Fiar-se nessa previsão, porém, é o maior erro que poderá cometer a oposição. O PSDB fez sua melhor campanha desde que deixou o poder, em 2002. O campo das oposições ampliou-se, com o PSB e a firme posição assumida por Marina Silva. Nunca o PT esteve tão perto de ser derrotado, nos últimos 12 anos. Mas a força política das oposições ainda é uma incógnita. Entre outras coisas, ela dependerá da articulação de um discurso que permita disputar, com vantagem, corações e mentes das classes médias baixas e intermediárias, que compõem o grosso do eleitorado. O mesmo contingente eleitoral em que o PT perdeu terreno nesta eleição e para o qual Lula começou a acenar mal terminada a apuração. Trata-se de pessoas e famílias que vivem tensionadas entre o medo de retroceder e a aspiração de ascender socialmente. Estão integradas ao mercado, mas não podem dispensar serviços públicos, como o fazem, em maior medida, as classes de renda mais alta. Nas novas classes médias, os jovens têm mais educação que seus pais. Muitos se endividaram para cursar o ensino superior privado. Terão de pagar a dívida em meio às incertezas de um mercado de trabalho bem mais apertado do que até aqui.

A oposição precisa falar para esse eleitor. Ele não tem dono. Não é movido por fúrias ideológicas, votou majoritariamente no PT nas duas eleições anteriores, mas nesta deu sinais de estar mudando de posição. O desafio é ampliar e consolidar esse movimento. Confrontar a propagação de inverdades é o primeiro passo nessa direção. Exemplo típico é a afirmação - repetida diversas vezes por Lula nos vídeos pós-eleitorais - de que antes do PT os "pobres estavam fora do orçamento do governo federal". Ora, quem pôs os pobres no orçamento federal - mais bem dito, quem fincou os alicerces dos direitos sociais para todos - foi a Constituição de 1988, ao estabelecer a saúde como direito universal e definir a educação fundamental como dever do Estado, além de prever a Lei Orgânica da Assistência Social. Tais conquistas continuariam letra morta não fosse o Plano Real, que debelou a hiperinflação. Quem pôs em marcha os programas para torná-las viáveis foi o governo FHC. Antes de chegar ao poder o mérito do PT, apesar de votar contra todas essas medidas, consistiu em organizar movimentos de reivindicação de direitos sociais e deslocar a competição política para a esquerda.

Tão ou mais importante que pôr os pingos nos is é elaborar um discurso político que supere a dicotomia entre o "econômico" (o mercado, essa entidade mal afamada no Brasil) e o "social" (produto da ação de um Estado benfeitor). Falta ainda articular um discurso que, sem ser populista, não seja tecnocrático; sem ser "de confronto", seja político, no sentindo de explicitar conflitos distributivos que se dão pela alocação de recursos públicos. Por que a campanha de Aécio Neves não politizou o tema da "bolsa empresário", por exemplo?

A tarefa das oposições é escrever uma partitura que convença o eleitor médio de que um Estado fiscalmente equilibrado, ativo, mas não discricionário, um mercado mais livre e mais bem regulado e uma sociedade civil autônoma são não apenas a melhor combinação possível para a realização de suas expectativas de progresso individual e familiar, mas também o caminho certo para um País mais rico e mais justo. Nessa partitura o meio ambiente deve ser uma nota dominante. Para dizer o óbvio, o "ambiental" é constitutivo do "social" e do "econômico". Agora num sentido mais radical do que jamais foi na história da humanidade, já que a natureza, em desarranjo provocado pelo homem, ameaça transformar definitivamente as condições de vida no planeta.

O mandato recebido das urnas é inquestionável. A hora não é de deploráveis passeatas. É da disputa de projetos, com respeito à democracia, patrimônio comum de todos nós.

*Sergio Fausto é superintendente executivo do iFHC, colaborador do Latin American Program do Baker Institute of Public Policy da Rice University e membro do Gacint-USP.

Míriam Leitão - Uma nova oposição

- O Globo

Os ingleses chamam de shadow cabinet e funciona assim: a oposição monta núcleos de especialistas que acompanham assuntos de cada área para fiscalizar o governo, uma espécie de governo paralelo. É isso que o PSDB vai fazer. Esta eleição deu ao partido a derrota e uma nova força. Foi com essa força que o senador Aécio Neves entrou ontem no Senado para falar.

Para que a democracia funcione bem, o papel da oposição é fundamental. Afirmações como as que o senador Aécio fez durante o debate, como o fato de que o empréstimo para o porto de Cuba tem como garantia pesos cubanos depositados em bancos de Cuba, passarão a ser feitas mais assiduamente. No caso em questão, as condições do empréstimo são sigilosas, mas ele conseguiu o documento do Ministério do Desenvolvimento e denunciou durante a campanha. Ao falar ontem no Senado, o candidato derrotado fez mais do que lamentar. Fez um discurso vigoroso mostrando os erros dos métodos de campanha escolhidos, como as mentiras que foram ditas, uso "despudorado" da máquina e a manipulação da informação econômica.

Principalmente ele denunciou a "intimidação" dos pobres de perda dos benefícios sociais caso votassem nos candidatos de oposição. Em alguns pontos, foi mais enfático ao dizer o que a oposição combaterá. Um exemplo, a corrupção na Petrobras. Quando foi respondido pelo líder do PT, Humberto Costa, lembrou que o próprio senador governista tinha chamado as denúncias que levaram à criação da CPI de "factoide". Não se discutiu muito política externa durante a campanha, mas, ontem, o senador criticou o isolamento do Brasil no mundo e a ligação com governos ideologicamente próximos. O país tem, de fato, perdido relevância no diálogo diplomático global, tem deixado de fazer acordos comerciais, está perdendo espaço no comércio mundial.

Ao falar que "comunga" com Marina os ideais da transição para uma economia de baixo carbono, que Aécio definiu como um "imperativo " no mundo de hoje, o senador tenta manter parte do apoio dos eleitores da ex-candidata. Ao mesmo tempo, atualiza o discurso do PSDB na área ambiental e climática. Voltou a falar de Marina no final, quando diz que ela ter á sempre seu protagonismo. No discurso, Aécio pesou bem racionalidade e emoção. Com indignação, reagiu ao documento oficial do PT que chamou a sua candidatura de incorrer nas práticas de "racismo, machismo, preconceito, ódio, intolerância e nostalgia da ditadura militar".

Lembrou que era documento oficial e disse que essas ofensas o partido está jogando aos 51 milhões de eleitores que votaram em sua chapa. Deixou claro que não quer recontagem de votos, nem discute o resultado das urnas, e repudiou as ofensas do documento do partido. No plano racional, ele mostrou como a negação da crise econômica vem sendo desmontada diariamente pelos números e decisões do governo, mal foram fechadas as urnas. E, de fato, há uma coleção impressionante de índices que comprovam os problemas que ele apontou: a inflação que levou a juros mais altos, o rombo fiscal, o déficit comercial, a produção industrial, apenas para ficar nos dados que foram anunciados nos últimos dias.

Com o gabinete paralelo, o que a oposição quer fazer é acompanhar as ações do governo atentamente para criticar com dados e informações concretas. Durante a campanha, o senador Aécio Neves teve a assessoria de um grupo grande de especialistas que tornaram mais exatas e bem informadas as críticas que ele manteve no debate. É com essa disposição que o PSDB quer trabalhar nos próximos quatro anos para fazer, como disse o senador, uma oposição incansável e intransigente.

César Felício - A herança do vendaval de junho

• Quando há disputa pela liderança, a moderação é vítima

- Valor Econômico

Para "venezuelanizar" o cenário político brasileiro, a visita do ministro chavista Elias Jaua na semana do segundo turno à escola de formação do MST foi o dado que faltava. O episódio em que a babá da família do ministro foi presa no aeroporto de Guarulhos por levar um revólver do chefe em uma valise gerou reações tanto na oposicionista Ação Democrática, em Caracas, quanto na bancada do PSDB na Câmara em Brasília. Ambas as siglas exigiram explicações de seus governos em nota oficial.

A ação antibolivariana dos tucanos, quatro dias depois do presidente venezuelano Nicolás Maduro festejar a reeleição da colega brasileira em uma cerimônia militar, não é isolada, como provou a vaia recebida ontem pelo petista Arlindo Chinaglia ao sair em defesa do convênio entre a Venezuela e o MST, durante um evento da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

O alerta ao perigo caribenho unifica o antipetismo e embute, do ponto de vista retórico, o ataque a aspectos autoritários da prática política de esquerda. Dá o tom radical a uma oposição que quer se mostrar pronta para o combate nas ruas e nas tribunas. Ou, nas palavras de Aécio Neves em seu discurso de ontem da tribuna do Senado, uma oposição "incansável, inquebrantável e intransigente".

Os vínculos entre o PT e seus apoiadores e o regime chavista são óbvios, como ficou claro com a trapalhada de Jaua. O mesmo ocorre entre as oposições em um e outro país. Ao passar pelo Brasil, em abril, a oposicionista Maria Corina Machado, deputada cassada pelos chavistas, teve tratamento de gala dado pela cúpula tucana. Corina não reconhece como legítima a reeleição de Maduro e junto com outras lideranças da oposição venezuelana participou de protestos marcados pela repressão que matou 41 pessoas, sendo 27 por arma de fogo. Denuncia o regime chavista como antidemocrático e controlado pela ditadura castrista.

A política venezuelana descambou para a briga de rua ainda nos anos 90, e o Brasil flerta com a prática desde o vendaval de junho. O caldo de cultura "black bloc" que emerge das redes sociais e das praças esteve presente em todo o processo eleitoral, ganhou um aditivo com a campanha de ataques sem freios do marketing da presidente e deixou as portas abertas para um protofascismo que incomoda os próprios dirigentes da oposição.

Nos últimos dias, Dilma parece empenhada em seguir o enredo clássico dos governantes que fazem um ajuste após as eleições, depois do mascaramento da realidade durante a campanha. A bola da radicalização foi deslocada para a cúpula do PT, que tenta se apropriar de maneira exclusiva e excludente da vitória, e para a luta pelo comando dentro do PSDB. Em ambientes onde há disputas pela liderança, o espaço da moderação diminui, porque não há força unitária capaz de bancar o custo de um movimento em direção ao centro. A moderação aliena apoios preciosos na demarcação de posições.

Aécio teve uma semana apoteótica em Brasília, com direito a aplausos dos colegas antes de discursar, nesta quarta. O tucano sempre poderá argumentar que está no jogo sucessório de 2018 porque fala com a autoridade de, com 51 milhões de votos no segundo turno, ser o tucano mais votado de todos os tempos. Mencionou esta circunstância três vezes em seu discurso. Mas sempre poderá ser lembrado que São Paulo, terra do rival Geraldo Alckmin, respondeu por 30% deste contingente e por 14 dos 54 deputados eleitos do partido. Se Aécio tivesse em Minas Gerais os mesmos 64% de votos válidos que obteve em São Paulo no segundo turno, ficaria com 50,1% da votação nacional. Essa conta já foi feita pelos tucanos paulistas. Também foi feita pelos mineiros, que passaram a apostar na agitação e propaganda.

"Recuperamos o caminho das ruas. Estamos fazendo manifestações de caráter democrático. Nosso pessoal não sai das redes sociais. Estamos enfoguetados", disse o deputado mineiro Marcus Pestana. O radicalismo das manifestações no último sábado, marcadas aqui e ali por desvarios de extremistas, tornou evidente que há um debate sendo feito dentro do PSDB. Em órbitas mais distantes do mineiro, as manifestações foram recebidas com frieza.

"O impacto do resultado está gerando sinais de inconformismo", disse o senador paranaense Alvaro Dias, rechaçando a comparação com a Venezuela. "Existe uma diferença abissal entre as realidades e os setores radicais não têm no Brasil a força que possuem lá. Temos instituições sólidas e o que se manifesta nas redes sociais não reflete o quadro nacional. Não são parâmetro", afirmou.

A referência à cizânia tucana foi feita ontem de modo elíptico pelo líder do PT no Senado, Humberto Costa, ao apartear Aécio. O petista lembrou que Alckmin foi enfático em condenar o extremismo. Em seguida, elogiou Aécio por também fazê-lo, ainda que sem veemência. O mineiro respondeu que o PSDB está comprometido com a democracia e que a vinculação da sigla com a extrema-direita é outra aleivosia lançada para desacreditar a oposição.

Na Venezuela, é a disputa pela liderança, dos dois lados da arena, que mantém o incêndio. A enorme votação obtida por Henrique Capriles em 2013 fez com que Corina e outros oposicionistas buscassem as ruas e colocassem em cheque a coalizão de 26 partidos que formam a Mesa da Unidade Democrática. Sem o carisma e o respeito que Hugo Chávez infundia, Maduro tornou-se a caricatura de seu inspirador para deter o avanço da ala militar do PSUV. Uma parte do ministério viaja pelo mundo acenando com a racionalidade econômica, outra confraterniza com o MST, enquanto o presidente conversa com passarinhos. É voz corrente que o Palácio de Miraflores é um campo de batalha.

A disputa também está dentro da campanha do coração valente. O último documento da Executiva Nacional do PT fala por si: "É urgente construir hegemonia na sociedade", afirma o texto. "Será necessário, em conjunto com partidos de esquerda, desencadear um amplo processo de mobilização (...) para transformar o Brasil, é preciso combinar ação institucional, mobilização social e revolução cultural". Seria oportuno saber o que o vice-presidente Michel Temer e o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles pensam sobre o tema.

Juan Arias - PT terá que aprender a conviver com a nova oposição

• A rua não tem dono nem ideologia. Todos têm direito de ocupá-la democraticamente

- El Pais

O Partido dos Trabalhadores (PT) que acaba de ganhar as eleições com sua candidata Dilma Rousseff deverá aprender desta vez a conviver com a oposição, algo que não estava acostumado. O Brasil viveu sem ela nos últimos 12 anos de Governo petista. O carisma de Lula e suas conquistas econômicas e sociais, principalmente em seu primeiro mandato, tinham emudecido a oposição.

Se a ausência de um partido opositor – como existe em todas as democracias maduras dos países desenvolvidos – trouxe vantagens aos três mandatos do PT, é possível que a história descubra que também pode ter tido seu lado negativo.

Nem as melhores democracias sobrevivem imunes à corrupção e às tentações autoritárias sem uma oposição democrática, real, concreta, capaz de exigir que o Governo exerça a função concedida pelos eleitores. Nem mais, nem menos.

Como em uma família cujos filhos acabariam perdendo a identidade sem uma ação vigilante dos pais, também os governos podem se esquecer de sua função se não possuem o ferrão de uma oposição que os faça lembrar do que prometeram ao se eleger e os estimule ao cumprimento. E que os façam prestar contas.

O Partido dos Trabalhadores foi mestre na arte da oposição antes que o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva o levasse ao poder. Sabiam como ninguém ocupar as ruas e exigir. Fizeram oposição até ao texto da Constituição. Ninguém melhor do que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que sabe por experiência o que foi ter o PT como oposição, que gritava nas ruas e praças “Fora FHC!”. Aquela que, embora às vezes dura ao extremo, serviu de antídoto aos governos e até derrubou um deles do pedestal.

Ao chegar ao poder, o PT, que tinha até então vocação de dissidente e não de Governo federal, teve sorte não apenas de poder governar sem oposição, mas também de contar com um líder com grande força de atração nacional e internacional.

Nem sequer no momento crucial do escândalo de corrupção do mensalão, que foi o único momento dramático para Lula, a oposição quis endurecer e nunca pediu sua saída do Governo.

Agora, pela primeira vez, o PT pode começar a experimentar na própria carne o que significa uma oposição de verdade, que o novo líder Aécio Neves, forte com seus mais de 50 milhões de votos, afirmou que fará “sem adjetivos”, mas também com “total espírito democrático”.

Será uma experiência nova para o segundo mandato de Dilma Rousseff. Até ontem, a rua, com suas manifestações e protestos, às vezes democráticos e às vezes nem tanto, era exclusiva do PT e dos movimentos sociais. O protesto tinha sempre o DNA da esquerda.

Após as últimas eleições, pela primeira vez depois das manifestações de junho de 2013, as ruas começaram a ser tomadas não apenas pelos trabalhadores mas também pela classe média (filha às vezes daqueles trabalhadores de outrora), que possuem valores para reivindicar e queixas a apresentar.

As manifestações de junho foram abortadas pela infiltração do movimento dos violentos Black blocs, que fizeram com que a classe média voltasse a se recolher em suas casas.

Hoje essa classe média começa a querer defender seu direito de ser oposição e gritá-lo em público. E, imediatamente, novos infiltrados que a oposição oficial do PSDB de Aécio já repudiou tentam, conscientemente ou não, novamente abortar esse desejo legítimo da “não esquerda” de se manifestar. É justo negar-lhe esse direito?

Em todas as manifestações, no mundo inteiro, existem abusos e exageros; reúnem os verdadeiros amantes dos valores democráticos e os que se aproveitam da ocasião para barrar o direito sacrossanto de manifestação e de protesto. O direito de governar de quem ganha as eleições é tão sagrado quanto o daqueles de exercer sua função de oposição. São as duas pernas com as quais a democracia caminha. Sem uma delas andará sempre manca.

A rua não tem dono nem ideologia. Todos têm direito de ocupá-la democraticamente para reivindicar o que conscientemente consideram seus direitos e suas justas reivindicações.
Aprender a viver com os instrumentos da democracia não é sempre fácil mas, sem isso, até o melhor dos governos pode cair na tentação de transgredir.

O que é o que é - Roberta Sá, Diogo Nogueira, Alcione e Martinho da Vila

Ascenso Ferreira - Noturno

Sozinho
nas ruas desertas
do velho Recife
que atrás do arruado
moderno ficou...
criança de novo
eu sinto que sou:

— Que diabo tu vieste fazer aqui, Ascenso?

O rio soturno,
tremendo de frio,
com os dentes batendo
nas pedras do cais,
tomado de susto
sem poder falar..
o rio tem coisas
para me dontar:

— Corrre senão o Pai-do-Poço te pega, condenado!

Das casas fechadas
e mal-assombradas
com as caras tisnadas
que o incêndio queimou
pelas janelas esburacadas
eu sinto, tremendo,
que um olho de fogo
medonho me olho:

– Olha que o Papa-Figo te agarra, desgraçado!

Dos brutos guindastes
de vultos enormes
ainda maiores
nessa escuridão...
os braços de ferro,
pesados e longos,
parece quererem
suster-me no chão!

Ai! Eu tenho medo dos guindastes,
Por causa daquele bicão!

Sozinho, de noite,
nas ruas desertas
do velho Recife
que atrás do arruado
moderno ficou...
criança de novo
eu sinto que sou:

— Larga de ser vagabundo, Ascenso!