quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Ex-diretor culpa conselho por mau negócio

• Segundo Costa, órgão que foi chefiado por Dilma na estatal é 100% responsável por compra de refinaria nos EUA

• TCU condenou 11 diretores e ex-diretores da Petrobras pela aquisição, mas livrou membros do conselho

Gabriel Mascarenhas e Gabriela Guerreiro – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa afirmou nesta terça-feira (2) à CPI da Petrobras que o Conselho de Administração da estatal não pode ser isentado de responsabilidade pela polêmica compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, em 2006, que resultou em prejuízo de US$ 792 milhões.

À época, o colegiado era presidido por Dilma Rousseff, então ministra da Casa Civil do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

"A responsabilidade final pelo estatuto da Petrobras de aprovar uma compra como Pasadena é 100% do Conselho de Administração. [...] A diretoria da Petrobras não tem autonomia [para a compra]. Eximir o conselho é um erro", afirmou, durante sessão de acareação com o também ex-diretor da estatal Nestor Cerveró, no Congresso.

Em 2006, o Conselho de Administração da Petrobras, à época presidido por Dilma, autorizou a aquisição de 50% da refinaria, que pertencia à belga Astra Oil.

Oito anos depois da compra da primeira metade do empreendimento, nota do Palácio do Planalto revelou que o negócio foi referendado pelo conselho com base num documento "técnica e juridicamente falho". Dilma afirmou que não conhecia cláusulas essenciais do contrato.

No final de julho, depois de meses de investigação, o TCU (Tribunal de Contas da União) condenou 11 diretores e ex-diretores da Petrobras a devolver R$ 1,6 bilhão por prejuízos gerados pela compra de Pasadena. Eles tiveram seus bens bloqueados.

A presidente da estatal, Graça Foster, não estava nesta lista, mas, logo depois, o relator do caso no TCU, ministro José Jorge, disse que foi um erro excluí-la. O tribunal voltou a analisar a questão, mas ainda há uma divergência sobre o tema. O Conselho de Administração também não foi responsabilizado pelo TCU.

Empreiteiras
Costa contou durante a sessão desta terça da CPI mista da Petrobras que o colegiado responsável por administrar a Petrobras também foi alertado sobre os altos valores cobrados por empreiteiras.

Ele citou um caso ocorrido em Pernambuco, em que uma licitação foi refeita quatro vezes para atender às empresas.

O ex-diretor de Abastecimento da Petrobras disse que comentou o tema com Dilma à época. "Eu alertei no Conselho de Administração da dificuldade de se conseguir preço competitivo no Brasil. Determinado período, ainda era a presidente Dilma a presidente do conselho."

De acordo com o relato do próprio Costa ao Ministério Público Federal, nove grandes construtoras formaram um cartel para arrematar licitações da Petrobras, com a anuência de parte da diretoria da empresa.

Ministro do STF manda soltar ex-diretor da Petrobras Renato Duque

• Ele é apontado como um dos participantes do esquema de desvio de recursos da estatal

Cleide Carvalho – O Globo

BRASÍLIA - O ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), revogou nesta terça-feira, por liminar, a prisão preventiva do ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque, e determinou que ele seja solto. Duque foi preso, junto de 22 executivos e funcionários de empreiteiras, em 14 de novembro, durante nova etapa da Operação Lava-Jato, da Polícia Federal. Segundo a PF, ele era o operador do PT no esquema de corrupção na estatal.

O grupo é investigado por participação no esquema que envolvia formação de cartel entre empresas, fraude em licitações, obras superfaturadas e pagamento de propina a agentes políticos em contratos da estatal. Duque foi apontado por Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, e pelo doleiro Alberto Youssef, como participante do esquema de desvio de dinheiro.

Segundo os delatores, a Diretoria de Serviços cobrava propinas de até 3% sobre o valor total de uma obra, e os recursos eram repassados para o PT e para operadores do esquema. Segundo Paulo Roberto Costa, Duque foi indicado para a diretoria pelo ex-ministro José Dirceu, condenado pelo Supremo no julgamento do mensalão do PT.

Ao converter a prisão temporária de Duque em preventiva, o juiz Sérgio Moro, da Justiça Federal no Paraná, disse que havia risco de fuga e que o ex-diretor mantém “verdadeira fortuna" em contas bancárias fora do país.

No dia 20 de novembro, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), com sede em Porto Alegre, já havia negado um habeas corpus para Duque. Na ocasião, o desembargador federal João Pedro Gebran Neto, relator do pedido, rejeitou o pedido de liberdade sob o argumento de que havia “risco de reiteração criminosa”.

O ex-diretor de Serviços negou a participação no esquema em depoimento à Polícia Federal. Ele disse desconhecer casos de corrupção na Petrobras e duvidou das afirmações de Paulo Roberto Costa.

Serviços de consultoria
Em outro momento, confirmou ter recebido R$ 1,6 milhão da construtora UTC, cujos sócios também foram detidos, mas disse que o valor era referente a pagamentos por serviços de consultoria que prestou após deixar a Petrobras.

Duque também negou ter conhecimento de que um subordinado dele na estatal, Pedro Barusco, tivesse recebido propina ou mesmo que mantivesse contas bancárias no exterior. Barusco assinou um acordo de delação premiada no qual se compromete a devolver mais de US$ 100 milhões. (Com site G1)

Barusco delata cartéis na administração pública

André Guilherme Vieira - Valor Econômico

SÃO PAULO - As declarações de Pedro Barusco, ex-gerente da Petrobras, nos depoimentos de sua delação premiada foram "muito além" do que a força-tarefa da operação Lava-Jato esperava. As informações repassadas pelo braço direito do ex-diretor de Serviços da estatal Renato Duque apontam para um sistema "quase endêmico" de cartelização que começa a ser desvelado em praticamente toda a estrutura da administração federal, apurou o Valor PRO, serviço de informações em tempo real do Valor.

"O depoimento dele [de Barusco] está impressionante. Excelente mesmo. Várias coisas novas que a gente não sabia. A investigação continua sendo ampliada. Não está indo para um rumo de finalização, de aparar arestas, mais. Nada disso. Está é ampliando. O caso está crescendo", garante uma fonte diretamente envolvida nas investigações da Operação Lava-Jato.

A delação premiada de Barusco já foi concluída e aguarda homologação do juiz federal Sergio Moro, da 13ª Vara Criminal da Justiça Federal de Curitiba. Nela, Barusco assinou termo de compromisso para devolver US$ 97 milhões que reconheceu manter em contas no exterior, e que confessou ter origem em desvios da Petrobras.

Fazem parte da colaboração vários depoimentos prestados por Barusco, além de grande quantidade de documentos: contratos, aditivos contratuais, registros contábeis, controles de fluxo de caixa da propina que teria sido paga a agentes públicos e políticos; e ainda comprovantes bancários, nomes de instituições financeiras, de operadores financeiros e de contas no exterior com seus respectivos titulares.

O ex-gerente Barusco confirmou e apresentou provas que, para os investigadores, ratificam o que já havia sido delatado por Julio Camargo e Augusto Mendonça Neto, da Setal: que a "regra do jogo" que exige das empreiteiras o pagamento de propinas para formalização dos contratos públicos é recorrente nas empresas geridas pelo governo federal.

Também impressionou os investigadores a minuciosa organização de informações e dados mantidos por Barusco em seu escritório. O material amplia "exponencialmente" os detalhes contados por Camargo e Ribeiro. Ambos "narram com riqueza de detalhes todo o esquema de cartelização, corrupção, desvio de dinheiro, pagamentos de dinheiro da corrupção no exterior, manutenção de dinheiro ilegalmente no exterior (pois não declarados), lavagem de ativos (decorrentes da utilização de contas em nomes de offshores, contratos fictícios etc.), bem como verifica-se presentes os elementos de uma organização criminosa voltada à prática de crimes contra a administração pública", escreveram os procuradores da República responsáveis pela acusação na Lava-Jato, em suas manifestações enviadas à Justiça Federal.

Barusco também prestou informações sobre a offshore Drenos, mantida no banco Cramer, na Suíça. A empresa já havia sido mencionada por Julio Camargo.

Segundo Camargo, uma conta da Drenos recebeu parte dos cerca de R$ 12 milhões que teriam sido pagos como propina pelo Consórcio CCPR-Repar para obra de construção de unidade de recuperação de enxofre com valor estimado em R$ 2,4 bilhões em Araucária, no Paraná. A obra data de 2009 e fez parte dos empreendimentos para a Refinaria Getúlio Vargas (Repar).

Camargo disse que Barusco e Duque ordenaram que ele fizesse pagamentos no exterior e indicaram contas nos bancos Winterbothan, no Uruguai e no Credit Suisse e no Banque Cramer na Suíça. Todas titularizadas por empresas offshore, afirmou.

Com as informações da Suíça, o MPF espera identificar também operadores financeiros que podem ter atuado em outras empresas públicas, além da Petrobras.

Barusco é o sexto delator da Lava-Jato. Antes colaboraram o operador de câmbio Luccas Pace Junior; o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa; os executivos da Setal, Camargo e Mendonça Neto; e o doleiro Alberto Youssef.

A defesa de Renato Duque informa que o ex-diretor "nega o recebimento de vantagens indevidas em contas no Brasil ou no exterior" e "qualquer participação em práticas criminosas envolvendo fornecedores da empresa".

Gilmar Mendes inicia devassa nas contas de Dilma

• Ministro solicita ao Banco Central e à Receita análise das doações da campanha à reeleição

Adriana Mendes – O Globo

BRASÍLIA- O ministro Gilmar Mendes, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), fez uma série de pedidos para averiguar as contas de campanha da presidente Dilma Rousseff.

Ele pediu à Receita Federal uma análise dos dados declarados na prestação de contas e solicitou ao Banco Central o extrato das transferências eletrônicas disponíveis, referentes ao período de 1º de julho a 30 de novembro de 2014.

Em despachos publicados anteontem, o ministro solicitou que a Receita informe se as empresas extrapolaram o limite de doação e se o faturamento é compatível com o valor doado.

Os dados constam nas informações da Assessoria de Exame de Contas Eleitorais e Partidárias (Asepa). A Receita deverá analisar os dados das empresas sem registro de empregados no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho.

Relatoria em debate
O ministro também solicitou que o Conselho Federal de Contabilidade indique um representante para acompanhar a análise das prestações de contas da presidente.

No mês passado, o Ministério Publico Eleitoral apresentou recurso ao TSE, pedindo que o processo de prestação de contas da campanha da presidente Dilma Rousseff fosse redistribuído a um outro ministro.

Gilmar Mendes tornou- se relator das contas da presidente Dilma no mês passado, depois que o ministro Henrique Neves deixou a Corte sem ter seu sucessor definido. O presidente do TSE, Dias Toffoli, determinou então o sorteio do novo relator , e as contas acabaram ficando com Gilmar .

O Ministério Público Eleitoral apresentou recurso ao TSE contra a decisão, alegando que, pelo Regimento Interno do tribunal, quando houver vaga na Corte , os processos devem ser redistribuídos a outro ministro da mesma classe, mais antigo . Neves integra o TSE na cota reservada à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Gilmar chegou ao TSE por ser ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Portanto, os processos de um não poderiam ser transferidos para o outro. O ministro advogado mais antigo é Admar Gonzaga.

Após confronto, Congresso adia votação da manobra fiscal

• Polícia Legislativa entra em confronto com manifestantes, congressistas se xingam, e sessão é encerrada

• Nova tentativa de aprovar projeto que permite ao governo fechar suas contas neste ano é marcada para hoje

Márcio Falcão, Sofia Fernandes – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Apesar de ter negociado a liberação de recursos e montando uma força-tarefa para garantir apoio dos aliados, o governo sofreu nesta terça-feira (2) nova derrota na tentativa de aprovar a manobra fiscal para fechar as contas deste ano. O motivo: o plenário do Congresso virou um ringue, e a votação foi adiada.

A sessão foi marcada pela violência da Polícia Legislativa contra manifestantes nas galerias do plenário e congressistas da oposição que saíram em sua defesa.

A confusão começou no início dos trabalhos, quando a oposição tentava liberar o acesso dos mais de 200 manifestantes que queriam acompanhar a votação. Foi autorizada a entrada de 50 pessoas na parte superior do plenário.

Em meio à ofensiva da oposição para adiar a análise do projeto de lei que permite ao governo descumprir a meta de economia para pagar juros da dívida pública em 2014, o chamado superavit primário, parlamentares da base aliada começaram a reclamar do protesto, que tinha gritos de "Fora PT", o "PT roubou" e "vá para Cuba".

A temperatura subiu quando a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) disse que a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), que discursava, foi chamada de "vagabunda". O presidente do Congresso, Renan Calheiros (PMDB-AL), suspendeu a sessão para a retirada dos manifestantes.

Um grupo de 15 deputados da oposição decidiu impedir a saída e foi para as galerias fazer um cordão de isolamento. Mesmo assim, a Polícia Legislativa partiu para cima, com empurrões e truculência. Ruth Gomes de Sá, 79, ligada ao PSDB, levou uma gravata de um segurança.

Um agente chegou a atirar com um taser (arma de descarga elétrica não letal) no professor de história Alexandre Seltz. Ele desmaiou por alguns segundos e foi carregado por parlamentares. No tumulto, o deputado Mendonça Filho (DEM-PE) chegou a rolar as escadas.

Ao longo de mais de uma hora, os manifestantes gritavam "Fora Renan" e "O Congresso é um curral", além de ataques ao governo. Ele se identificaram como integrantes do Movimento Brasil Livre e Democracia Já e reconheceram que foram mobilizados por oposicionistas.

A confusão se estendeu ao plenário, de onde congressistas assistiam à confusão, quando o deputado Felipe Maia (DEM-RN) foi "peitado" pelo colega Assis Melo (PCdoB-RS), que defendia Grazziotin. Aos gritos, o deputado Amauri Teixeira (PT-BA) chamou o colega Domingos Sávio (PSDB-MG) de "seu merda".

Com o impasse, Renan encerrou a sessão e convocou nova votação para hoje.

Governo em alerta
O novo adiamento colocou o governo em alerta. Os trabalhos do Congresso se encerram em 20 dias.

Antes de analisar a manobra fiscal, deputados e senadores terão que deliberar sobre vetos presidenciais. A oposição vai tentar usar manobras regimentais para prolongar essas votações.

Calheiros disse que a oposição instrumentalizou os manifestantes.

O senador Aécio Neves (PSDB-MG) rebateu o presidente do Senado. "Isso é uma bobagem. A população brasileira acordou. As pessoas estão participando do que está acontecendo no Brasil."

A oposição anunciou que irá ao STF para suspender o decreto no qual o governo promete a liberação de R$ 444 milhões para verbas de congressistas para seus redutos eleitorais, caso a manobra seja aprovada.

Tumulto no Congresso adia votação de manobra

Tumulto suspende votação sobre meta fiscal

• Pancadaria nas galerias da Câmara interrompe sessão; após decreto, PMDB decide apoiar proposta do governo

Cristiane Jungblut, Júnia Gama, Maria Lima e Isabel Braga – O Globo

O governo fracassou ontem na sua quarta tentativa de votar a proposta que permite o descumprimento da meta fiscal de 2014. Um clima de guerra se instalou na sessão do Congresso, com brigas e xingamentos entre manifestantes, parlamentares e seguranças nas galerias da Casa, o que levou o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) a suspender os trabalhos.

Após dias de rebeldia entre os aliados, os principais partidos da base entraram em acordo para ajudar o Palácio do Planalto a aprovar a medida. Porém, a oposição, com ajuda de um grupo que acompanhava a sessão nas galerias da Câmara e gritava palavras de ordem contra parlamentares da base, conseguiu impedir a análise do projeto.

Após mais de uma hora de confusão, Renan interrompeu os trabalhos e remarcou a sessão para as 10h de hoje. O cancelamento foi uma vitória da oposição. Como faltam ser apreciados os vetos presidenciais, há o risco de a votação da mudança da meta fiscal só ocorrer no dia 9.

- Vinte e seis pessoas instrumentalizadas, provocando o Congresso, tumultuando. Não dá para trabalhar e conduzir a sessão dessa forma - disse Renan.

PMDB muda de opinião, de olho em ministérios
Na semana passada, os deputados peemedebistas, junto a outros partidos da base aliada, esvaziaram a sessão que apreciaria a medida e impossibilitaram a votação. A mudança de postura que levou os peemedebistas a se mobilizarem para a sessão de ontem, favoráveis ao governo, se deve a três fatores: distribuição de espaços na reforma ministerial em curso, liberação de verbas para estados e municípios (sobretudo através de emendas parlamentares) e a campanha pela eleição de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para a presidência da Câmara.

O plenário da Câmara, onde ocorrem as sessões do Congresso, virou um verdadeiro ringue. Enquanto nas galerias havia enfrentamento entre seguranças, manifestantes e parlamentares da oposição, alguns deputados e senadores trocavam xingamentos no plenário, a poucos metros de Renan, que parecia atônito com o tumulto. A confusão começou quando ele mandou esvaziar as galerias, por volta das 19h45m. Nesse momento, os manifestantes gritavam palavras de ordem contra Renan e o PT.

- Ditador (para Renan)! O PT roubou! Vai para Cuba! - gritavam os cerca de manifestantes nas galerias.

A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) e a senadora Vanezza Grazziotim (PCdoB-AM), que estavam discursando, entenderam que foram xingadas de vagabundas. Jandira exigiu providências.

- Não ouvi, mas a deputada disse que estavam nos chamando de vagabundas. E a deputada Manoela D´Ávila (PCdoB-RS) contou que havia uma manifestante nos chamado de safadas - disse Vanessa.

- Chamar de vagabunda é inadmissível! Minha proposta é que se esvaziem as galerias. Que se respeitem os parlamentares! - disse Jandira.

Os seguranças foram às galerias para retirar os manifestantes, a maioria ligada ao PSDB, e usaram até uma arma que dá choque. Os líderes dos partidos de oposição, então, subiram para proteger os manifestantes, e começou a briga. Os mais exaltados eram os deputados Ronaldo Caiado (DEM-GO), líder da Minoria no Congresso, Onyx Lorenzoni (DEM-RS), Fernando Francischini (SD-PR) e Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP) - este, o mais irritado, que chegou a empurrar e dar cotoveladas num segurança:

- Me solte que eu sou deputado! - gritava.

Uma idosa de 79 anos, Ruth Gomes de Sá, afirmou ter sido agredida pelos seguranças.


- Eles me deram uma gravata! - disse a aposentada, que disse ser ligada ao PSDB.

Num dos momentos mais tensos , os deputados Felipe Maia (DEM-RN) e Assis Melo (PCdoB-RS) trocaram acusações e empurrões. Assis teve que ser contido por colegas do partido e Maia, pelos correligionários democratas, inclusive seu pai, o senador Agripino Maia (DEM-RN). Outro embate ocorreu entre Domingos Sávio (PSDB-MG) e Amauri Teixeira (PT-BA).

- Disse ao Amauri que ele era gordo, mas não era dois! - contou Sávio, que está usando muletas por ter operado um dos joelhos.

Os manifestantes, parte deles convocada pelo deputado Izalci (PSDB-DF), registraram boletim de ocorrência por terem sido agredidos.

O governo terá dificuldade para conseguir quorum hoje.

- Foi uma vitória nossa (da oposição) - admitiu o líder do PSDB, Antônio Imbassahy (BA).

Em campanha, Cunha quer evitar confronto
Na reunião de segunda-feira no Palácio do Planalto, a presidente Dilma Rousseff deixou claro que, se o Congresso não aprovar a mudança na meta fiscal, estados e municípios sofrerão as consequências, até com corte de verbas para obras já em andamento, o que prejudicaria as bases políticas dos deputados.

Em reunião da bancada do PMDB, ontem, houve críticas ao decreto editado por Dilma, que condiciona a liberação de emendas parlamentares à aprovação desse projeto. No entanto, os deputados mostravam-se dispostos a apoiar o governo e cobraram a definição dos nomes e ministérios a serem ocupados pelo partido no segundo mandato presidencial.

Outro motivo para a decisão de cooperar com o governo é a campanha pela presidência da Câmara, iniciada oficialmente ontem por Eduardo Cunha. O deputado sofre fortes resistências do Palácio do Planalto e quer amparar arestas para melhorar suas chances de ser eleito.

Anteontem à noite, durante a reunião das lideranças da base com Dilma, o deputado sugeriu que fosse reeditado o compromisso de não se votar projetos da chamada pauta-bomba, com forte impacto nos cofres públicos.

Oposição vai ao STF para tentar derrubar decreto sobre verbas

• Para Aécio, condicionar liberação de recursos à mudança na meta fiscal é "chantagem explícita"

Cristiane Jungblut e Maria Lima – O Globo

A oposição adotou ontem medidas para tentar suspender o decreto da presidente Dilma Rousseff que condiciona a liberação de verbas do Orçamento da União - inclusive emendas parlamentares - à aprovação da proposta que muda a meta fiscal de 2014. Um dia após classificar a manobra de "chantagem", o DEM decidiu recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) com uma arguição de descumprimento de preceito fundamental (ADPF) para suspender o decreto presidencial. Em outra frente, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) apresentou projeto de decreto legislativo (PDL) com o mesmo objetivo e disse que Dilma "oficializou o toma lá dá cá".

O projeto de Simon precisaria ser aprovado na Câmara e no Senado. Há pouco tempo, os parlamentares aprovaram um PDL suspendendo outro decreto de Dilma, que tratava da criação de uma superestrutura de conselhos populares.

- O toma lá dá cá agora é lei. Coloca-se na lei a determinação. Se tu votares com o governo, levas o dinheiro. Se tu não votares, não levas o dinheiro. Que bela política do Partido dos Trabalhadores neste final de governo e início de outro - disse Simon.

Na última sexta-feira, Dilma publicou decreto ampliando a margem de gastos do governo em R$ 10,032 bilhões e destinando uma cota de R$ 444,7 milhões diretamente ao pagamento de emendas individuais dos parlamentares. No texto, o governo condiciona a liberação dessa cota à aprovação do PLN 36/2014, que permite ao governo descumprir a meta fiscal deste ano. Simon disse que a medida do governo é inédita:

- Confesso, com profunda tristeza, que nunca desejaria fazer este pronunciamento que vou fazer agora, principalmente depois de 65 anos de vida pública, 32 anos nesta Casa, às vésperas de sair, sobre um projeto com o qual não recordo ter acontecido algo igual. Não lembro que esse projeto tenha copiado algo que tenha acontecido. Nós sabemos, e sabemos bem, que lamentavelmente nos últimos tempos a política no Brasil não é uma política baseada em princípios. São arranjos que se fazem. Então, esta é a realidade: troca-troca; é dando que se recebe.

O DEM, por sua vez, ingressará no STF argumentando que a norma do governo carrega um "desvio de finalidade", já que o instrumento do decreto, que deveria regulamentar uma lei, está sendo usado para pressionar a aprovação de uma norma ainda inexistente.

- O STF não fechará os olhos para esse abuso de direito que está sendo praticado pela presidente. Para legitimar a fraude fiscal que tenta impor ao Congresso, Dilma assinou esse decreto que eleva para R$ 10,032 bilhões a liberação de recursos, com aumento de R$ 444,7 milhões para as emendas parlamentares individuais. Se o PLN 36 tivesse sido aprovado, e Dilma baixasse o decreto, seria algo questionável, mas dentro da lei. Agora, baixar decreto sem existir lei é no mínimo inconstitucional - disse o líder da minoria no Congresso, Ronaldo Caiado (GO).

Para Caiado, o governo faz chantagem com a base aliada:

- É o balcão de negócios a todo vapor. Para o alto clero governista, Dilma distribui ministérios. Para o seu baixo clero, compra apoio por meio de emendas parlamentares. É de uma promiscuidade ímpar. Dilma dissolve e prostitui o Congresso Nacional. Não vamos aceitar esse mercado persa - disse Caiado.

O senador Aécio Neves (PSDB-MG) fez um vídeo, distribuído pelo Whatsapp, no qual conclama a população a acompanhar a sessão do Congresso e chama o decreto de "chantagem mais explícita que já se viu no país".

- O governo vai tentar votar o projeto de modificações na Lei de Diretrizes Orçamentárias, que significa anistiar a presidente da República dos crimes de responsabilidade cometidos. Mas o que é mais grave, o que é inaceitável, é que o governo federal acaba de publicar um decreto que vincula a liberação das emendas parlamentares à aprovação desta violência. Essa é a chantagem mais explícita que já se viu no país - afirmou Aécio.

Parlamentares afirmam que vão prestar queixa contra Renan

• Presidente do Congresso é apontado com responsável por violência contra manifestantes e deputados durante sessão

Daniel Carvalho e Isadora Peron - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Sob os gritos "Amanhã vai ser maior"e "Fora Renan", numa referência aos protestos de junho de 2013, parlamentares deixaram o plenário na noite desta terça-feira, 3, dizendo que prestariam queixa contra suposta violência praticada contra manifestantes e até deputados que acompanharam o protesto nas galerias.

Parlamentares e populares celebraram quando o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), encerrou a sessão por causa da confusão que se instalou nas galerias do Congresso. O deputado Mendonça Filho (DEM-PE) considerou o novo adiamento da votação da mudança na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), que permite a flexibilização da meta de superávit primário, para a manhã desta quarta-feira (3) "uma vitória do povo".

O deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO) convocou uma mobilização maior para a nova votação. "É inaceitável, é inadmissível, eles acharem que vão transformar isso aqui num parlamento bolivariano. Isso aqui não é Venezuela. Não é Alagoas. Isso aqui é o Congresso Nacional", afirmou.

Aécio: oposição estará atenta contra modificações na LDO

• "Esta é a chantagem mais explícita que já se viu no País", disse o candidato derrotado à Presidência em vídeo divulgado na sua página oficial do Facebook

Elizabeth Lopes - O Estado de S. Paulo

O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG), candidato derrotado nas eleições presidenciais de outubro, divulgou na tarde desta terça-feira, 2 um vídeo em sua página oficial do Facebook para falar sobre a tentativa do governo Dilma Rousseff em aprovar as modificações na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) - o que na prática flexibiliza a meta de superávit primário.

"Estou chegando ao Congresso Nacional, com muita chuva hoje na capital, mas as trovoadas vamos ouvir no plenário do Congresso, a partir das 6 da tarde, quando o governo vai tentar votar as modificações na Lei de Diretrizes Orçamentárias, o que na prática pretende anistiar a presidente da República dos crimes de responsabilidade cometidos", diz o tucano no vídeo.

Aécio diz também aos internautas que "o mais grave, o inaceitável" é a publicação de um decreto do governo federal que vincula a liberação das emendas parlamentares à aprovação das modificações na LDO. "Esta é a chantagem mais explícita que já se viu no País e eu tenho a convicção de que podemos com argumentos, com firmeza, com clareza, mostrar que o Congresso Nacional não pode se subordinar aos interesses do governo federal como vem fazendo", destacou o senador tucano.

No vídeo, Aécio garante que "a oposição, portanto, vai estar atenta, vigilante para impedir essa violência contra a própria democracia brasileira e que, em última instância pode significar menos investimentos e menos empregos para os brasileiros."

Merval Pereira - Os sem-noção

- O Globo

Certos setores da esquerda estão convencidos deque os mais de 54 milhões de brasileiros quere elegeram a presidente Dilma Rousseff são de esquerda, e que a vitória significou uma autorização para aprofundamento de um programa socializante no país, com uma Constituinte convocada por "plebiscito popular" (como se fosse possível outro tipo de plebiscito, palavra originada do latim plebiscitu — decreto da plebe) para realizar uma reforma política, instituição de mecanismos de participação popular — já derrotados no Congresso — e a inevitável "democratização dos meios de comunicação", que nada mais é do que o controle , pelo governo, dos órgãos independentes de informação.

Por isso, as primeiras nomeações do segundo governo Dilma estão provocando grande decepção e divisões na esquerda, que constatam com pesar que, reeleita, a presidente leu com mais pragmatismo o resultado das urnas e foi buscar nas hostes adversárias o homem adequado para estabilizar a economia que ela conseguiu desestabilizar nos primeiros quatro anos. A nomeação de Joaquim Levy para a Fazenda está sendo digerida com muito custo, mas as pressões maiores estão voltadas para os novos ministros da Agricultura, Kátia Abreu, e do Desenvolvimento, Armando Monteiro, dois dirigentes de associações patronais. Politicamente mais frágeis, tornaram- se exemplares de como o Ministério tem uma tendência nada revolucionária, e que poderia bem ter sido escolhido por Aécio Neves.

A análise está correta, mas a ignorância que essa esquerda demonstra das raízes profundas que ancoram as nomeações mostra que um governo que se guiasse por suas obsessões não teria muito futuro. Foi assim também no primeiro governo Lula, que nomeou Roberto Rodrigues para a Agricultura e Luiz Fernando Furlan para o Desenvolvimento, além de colocar o banqueiro internacional e deputado federal tucano Henrique Meirelles no Banco Central. Dilma repete a dose, claramente influenciada pela experiência de seu tutor Lula, mas com diferenças contra si importantes. A começar porque quem estava no comando era Lula, a única liderança incontrastável no PT. Quem ousou confrontá-lo, como Cristovam Buarque ou Suplicy, ou saiu do partido ou ficou nele sem importância.

Sem falar que os tempos econômicos no mundo são outros, muito adversos. Na economia, Lula tinha um petista de alta estirpe no comando da equipe, Antonio Palocci, e estava, portanto, blindada a movimentação conservadora da nova política econômica para colocaras contas nos trilhos. Para melhorar a situação, Palocci convenceu-se mesmo de que o caminho ortodoxo era o único possível para o crescimento do país, depois de longas trocas de ideias com Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central que o PT demonizou na eleição presidencial passada. Mas foi para Arminio que Levy telefonou antes de aceitar a proposta de trabalho petista, pois ele integrou a equipe que preparava o programa econômico para eventual governo do PSDB.

Os economistas que Palocci acolheu em sua equipe foram permanentemente perseguidos por setores petistas que não se conformavam comas novas orientações. Marcos Lisboa, Murilo Portugal e o próprio Levy só permaneceram no ministério enquanto Palocci lhes dava respaldo. Com sua saída, no segundo governo Lula, abriu-se espaço para que a dupla Dilma Rousseff, na Casa Civil, e Guido Mantega, na Fazenda, fosse desmontando as conquistas feitas pelos "conservadores", preparando a derrocada que seria o primeiro governo Dilma.

Nem mesmo os fatos negativos produzidos nos últimos quatro anos são suficientes para convencer esses grupos esquerdistas de que sua receita de aumento de gastos sem base na arrecadação — gerando déficit primário em vez de superávit ; aumento da dívida bruta com a utilização dos bancos públicos como biombos; descontrole da inflação; e balança de pagamentos negativa — levou o país a uma situação de descontrole que só mesmo um salto triplo carpado como o dado por Dilma poderia mudar a perspectiva do país.

Eles ainda acreditam que os eleitores da classe média emergente e os pobres que recebem o Bolsa Família votaram em Dilma ideologicamente , e não entendem que o que esses eleitores fizeram foi votar a favor do conservadorismo , acreditando erradamente que estavam ajudando a manutenção do emprego e do salário . A permanecer essa disputa ideológica contra a realidade que se impõe, vai ser muito difícil Joaquim Levy levar adiante seu projeto. E o escorpião, fiel à sua natureza, vai ferrar quem poderia levá-lo a atravessar o rio a salvo da correnteza.

Dora Kramer - De papel passado

- O Estado de S. Paulo

Era líquido e certo que custaria caro ao Planalto convencer a maioria governista no Congresso a salvar o Executivo de transgressão à lei no manejo das contas públicas, tornando extinta a meta de superávit fiscal para 2014. Até aí, nada de novo.

Inclusive porque nesse aspecto não se pode acusar a presidente Dilma Rousseff de ter tido comportamento contraditório na campanha eleitoral. Foi a única a não prometer mudar a metodologia das relações com o Legislativo, não falar em nova política nem impor reparos ao loteamento partidário da administração pública.

Questionada, desviava-se do assunto. Portanto, nesse ponto já se sabia que continuaria tudo como dantes.

De onde partidos da base aliada, como PTB e alas do PMDB, aderiram com tranquilidade à candidatura de oposição. Vencendo a situação, era só dar meia-volta que ficaria o dito pelo não dito. Pois aí estão os petebistas representados no Ministério do Desenvolvimento por Armando Monteiro e o PMDB unido reivindicando seis cadeiras no ministério.

No caso da meta fiscal, a oposição avisou desde o começo que daria uma canseira no governo usando todos os instrumentos de obstrução regimental para obrigá-lo ao menos a deixar claro que o que pedia ao Congresso era uma transferência de responsabilidade pelos erros cometidos na condução da economia.

A vitória final, entretanto, estava prevista no roteiro. Tudo transcorreu relativamente bem até a tramitação na Comissão de Orçamento, a derrubada dos vetos presidenciais no plenário, mas a coisa complicou quando boa parte dos aliados se ausentou das sessões e o projeto-manobra não pôde ser votado.

Aí bateu o desespero e deu-se o inédito: o toma lá dá cá por decreto. Algo tão inusitado quanto a propina com recibo noticiada dias atrás no bojo das investigações da Operação Lava Jato. O governo autorizou a liberação de R$ 444,7 milhões em emendas dos parlamentares ao Orçamento (R$ 748 mil para cada um) e condicionou o pagamento à aprovação da alteração na Lei de Diretrizes Orçamentárias que extingue a meta fiscal de 2014. Simples e claro assim.

A oposição recorreu ao Supremo Tribunal Federal alegando que o decreto que deveria regulamentar uma lei está sendo usado para pressionar deputados e senadores a aprovar a norma que ainda não existe. Haveria no ato "desvio de finalidade". Para dizer de maneira amena. Dizem que o Congresso costuma chantagear o Planalto, exigindo liberação de verbas e ocupação de verbas, mas o que vemos aqui é o contrário.

Os líderes governistas, evidentemente, negam. Dizem que nada foi feito além do "corriqueiro" e que a liberação já estava prevista. Sim, então por que fazê-la na sexta-feira depois de uma semana de tentativas inúteis de votar o projeto, com publicação extra no Diário Oficial e na condição de ser aprovada?

Nova votação estava marcada para ontem à noite. Para o mesmo horário previsto para o lançamento da candidatura do deputado Eduardo Cunha à presidência da Câmara com uma plataforma cujo ponto central é a "independência" do Poder Legislativo em relação ao Executivo.

Antes desse decreto até seria aceitável a alegação de que a aprovação da mudança na LDO pelos governistas seria motivada pelo convencimento de conteúdo - evitar desemprego, cortes de repasses de verbas para os Estados, inutilidade de chorar sobre o leite derramado, o risco de se sujeitar a presidente a punições legais, sinalização de nova conduta no manejo das contas daqui em diante.

Com a cláusula em forma de trato, no entanto, o voto dos parlamentares ficou maculado e os expõe à avaliação de que a independência tem limite e o "sim" ao Planalto tem um preço. Mesmo aqueles sinceramente convencidos na conveniência da aprovação serão jogados à vala comum daqueles que só o fizeram mediante a promessa de liberação das emendas.

Luiz Carlos Azedo - À siciliana

• O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, porém, está com um tijolo quente nas mãos: o que fazer com as empreiteiras envolvidas na Operação Lava-Jato, se elas forem denunciadas por seus executivos?

- Correio Braziliense

A palavra máfia, de origem siciliana, mafiusu, tem suas raízes no árabe mahyas, que significa alarde agressivo, jactância ou marfud, que significa rejeitado. Mafiusu, no século XIX, significava alguém ambíguo, arrogante, mas destemido; empreendedor; orgulhoso.

Em 1863, com a peça I mafiusi di la Vicaria, Giuseppe Rizzotto e Gaetano Mosca, que trata de gangues criminosas na prisão de Palermo, houve a primeira associação com gangues criminosas. O termo máfia apareceu oficialmente pela primeira vez em 1865 em um relatório do prefeito de Palermo, Filippo Antonio Gualterio.

Com o tempo, mafiosos, empresários, políticos formaram um sistema poderoso na Itália, contra o qual era perigoso resistir. Mas a máfia conquistou fama e poder quando passou a atuar nos Estados Unidos, para onde migraram integrantes da família Cordopatri, que disseminou os métodos da organização pelo país, até ser quase exterminada em 1980 numa “guerra” entre famílias.

Na Itália, o poder da máfia somente foi contido depois de dura repressão. Durante a Operação Mãos Limpas, centenas de mafiosos foram presos, levados a julgamento e condenados. O primeiro-ministro Giulio Andreotti foi acusado de envolvimento com mafiosos, mas acabou absolvido em 1995. A investigação, porém, custou a vida de 24 juízes e promotores.

Formada pelas famílias Basso, Bortoletto, Cicca, Camolese, Corleone, Gattone, Gava, Giorlanno, Peruzzo, Nadai, Rosolen, entretanto, a Cosa Nostra ainda é muito poderosa. Tem ramificações nos seguintes países: Albânia, Alemanha, Argentina, Áustria, Bélgica, Bósnia e Herzegovina, Brasil, Bulgária, Chile, Croácia, Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Estados Unidos, França, Grécia, Holanda, Hungria, Kosovo, Macedónia, México, Monte Negro, Paraguai, Polônia, Portugal, República Checa, Roménia, Sérvia, Suíça, Uruguai.

Lava-Jato
O escândalo da Petrobras tem todos os ingredientes do que seria a formação de uma grande organização mafiosa, menos dois até agora: a queima de arquivo e o envolvimento de uma das famílias no escândalo. No mais, tem todas as características de uma máfia envolvendo políticos, empresários, executivos e achacadores.

A formação de cartéis era o método adotado pelos mafiosos para atividades econômicas que dependem dos recursos do Estado. Ontem, na CPI mista da Petrobras, Paulo Roberto Costa, ex-diretor de abastecimento da estatal, disse que o esquema de desvios na Petrobras repete-se no Brasil inteiro. Costa foi submetido a uma acareação com Nestor Cerveró, ex-diretor da área internacional da empresa.

Segundo Costa, todas as indicações de diretores da Petrobras, desde o governo de José Sarney (1985-89) até a gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), foram políticas: “Isso aconteceu em todos os governos. Todos! Com todos os diretores da Petrobras. Se não tivesse apoio político, não chegava a diretor”. Disse, ainda, que há esquemas semelhantes ao da Petrobras: “Não se iludam. Isso que acontece na Petrobras acontece no Brasil inteiro. Em ferrovias, portos, aeroportos. Tudo.”

Costa prestou cerca de 80 depoimentos sob juramento, disse que provas estão aparecendo e que, na época oportuna, outros envolvidos no esquema serão conhecidos. Costa e o doleiro Alberto Youssef, que também reivindica a delação premiada, afirmaram que o esquema de desvios na Petrobras beneficiava partidos da base aliada, como PT, PMDB e PP, e as maiores empreiteiras do país, que montaram um cartel para controlar as licitações. Os desvios chegavam a 3% dos contratos, segundo ambos.

Já foram presos 24 diretores e executivos de empreiteiras e um agente da Polícia Federal. Parlamentares e governadores de vários partidos estão sendo investigados pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, porém, está com um tijolo quente nas mãos: o que fazer com as empreiteiras, se elas forem denunciadas por seus executivos?

A turma do deixa disso está em campo para evitar que as grandes empresas sejam declaradas inidôneas, o que poderia paralisar as grandes obras do país. Ontem, o presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), Vinícius de Carvalho, deu um chega pra lá na tese com cheiro de orégano. Segundo ele, as empresas envolvidas merecem ser severamente punidas. Ou seja, Janot está numa saia justa.

Elio Gaspari - Aécio e a "organização criminosa"

• As petrorroubalheiras levaram o governo e a oposição a dançar conforme uma coreografia da insinuação

- O Globo

Na sua entrevista ao repórter Roberto D"Ávila, o senador Aécio Neves disse o seguinte:
"Eu não perdi a eleição para um partido político. Perdi a eleição para uma organização criminosa que se instalou no seio de algumas empresas brasileiras, patrocinada por esse grupo político que aí está."

Dias antes, a doutora Dilma dissera o seguinte:

"Esses golpistas (...) não nos perdoam por estar tanto tempo fora do poder."

O hábito petista de associar denúncias a golpismo vem de longe. Em 2007, quando faltavam duas semanas para que o Supremo aceitasse o processo contra a turma do mensalão, José Dirceu falou em "tentação golpista". O procurador-geral da República dissera que havia ali uma "organização criminosa". Dirceu foi para a Papuda, agora dorme em casa, e as instituições democráticas vão bem, obrigado.

Na sua entrevista, Aécio reconheceu expressamente a legitimidade do resultado das urnas. Portanto, o adjetivo de Dilma não se aplica ao senador. Muito menos o vitupério do ministro da Justiça, segundo o qual busca-se um "terceiro turno". Ouvindo-se as palavras duras de Aécio, percebe-se que ele parou a milímetros da fulanização do PT como "organização criminosa". Numa outra referência, deu um passo à frente: ela não opera apenas em "algumas empresas", mas "se estabeleceu no Estado brasileiro" e mencionou referências conhecidas, relacionando o tesoureiro do PT, João Vaccari, com petrorroubalheiras. (Seu antecessor, Delúbio Soares, foi para a bancada da Papuda.) O PT anunciou que interpelará Aécio judicialmente.

Está em curso uma dança na qual o governo e a oposição seguem uma coreografia de insinuações, como se soubessem que vem algo por aí. Um fala em "organização criminosa" e o outro denuncia "golpistas", pedindo uma reforma política e o eterno plebiscito, com militância na rua. À primeira vista, é um diálogo de surdos, mas é provável que se esteja diante de um jogo no qual cada lado se move antecipando o próximo lance. A oposição espera por fatos que sairão de uma investigação policial e do rito judicial. Já o comissariado responde com qualificativos genéricos e apocalípticos. Ambos sabem que, diante das petrorroubalheiras, o mensalão foi coisa de trombadinhas.

Na mesma entrevista a D"Ávila, o senador lembrou que é um discípulo do avô, Tancredo Neves. Há algumas semanas ele contou que em 1984 "pregaram uns cartazes em Brasília com o símbolo do comunismo" e um desenho com o rosto de Tancredo: "Era um movimento radical, para dizer que ele era comunista." Com o avô, aprendeu a não contar tudo o que sabe.

Aécio referia-se a um episódio ocorrido em agosto de 1984, no qual dois sujeitos foram presos em Brasília colando cartazes vermelhos com a sigla do Partido Comunista e a legenda "Chegaremos lá". Semanas depois, quando pouco se sabia do caso, Tancredo disse: "Tenho outras informações." Quais? "Ah... agora fica entre nós."

Não era coisa de um genérico movimento radical. Havia sido uma operação clandestina do Centro de Informações do Exército e, com uma carteirada, um coronel libertara os soldados presos. Tancredo sabia e não disse uma palavra. Ele mostrou que sabia mais.

Elio Gaspari é jornalista

Rosângela Bittar - O que for, será

• Para enjeitadas da Esplanada, dúvida já é expectativa

- Valor Econômico

Não se encaixam em nenhum dos critérios até agora conhecidos duas escolhas da presidente Dilma, se verdadeira a especulação de auxiliares próximos: o governador cearense Cid Gomes (Pros), convidado a comandar o Ministério da Educação, e Arthur Chioro (PT), convidado a permanecer no Ministério da Saúde. São cotações vigentes que, para desgosto dos apaixonados pelas duas fundamentais questões, são justificadas sob primárias e desanimadoras alegações. A saber: Gomes porque largou o candidato a presidente do seu penúltimo partido, Eduardo Campos, do PSB, para ficar com Dilma. Além disso, numa jogada de mestre contra aliados-adversários, impediu o apoio do governo federal à candidatura ao governo do Ceará do pemedebista, governista e líder Eunício Oliveira (PMDB), mas levou o PT à vitória com Camilo Santana.

Quem cita o encanto de Dilma com o desempenho dos dois nas suas cidades, para dar um lustre, não consegue citar um só resultado concreto.

Até o PT, numa espécie de gratidão eterna, abriu mão do Ministério da Educação se for mesmo para dar a Cid Gomes. Nenhuma palavra sobre por que o Brasil poderia se dar bem com um e outro.

Na Saúde ocorre desapreço pior até. Se tem uma área em que o PT não deu a menor contribuição ao Brasil, seja à solução dos problemas, à manutenção do que funciona, ao conserto de equívocos, foi a de Saúde. Lula nada apresentou mas a presidente Dilma também deve ao país um plano para a Saúde. O ex-ministro da Pasta, Alexandre Padilha, saiu para candidatar-se ao governo de São Paulo sem ter um resultado a apresentar, e foi substituído por Arthur Chioro, o único ministro nomeado por um prefeito, Luiz Marinho, de São Bernardo do Campo, terra do Lula, onde todos se encontram, sempre, para fazer girar a política, não a Saúde.

O partido, seria razoável admitir, deve demais ao seu eleitorado nessas duas políticas públicas às quais devotou enorme descaso.

Às pressas, já quase soando o gongo da primeira rodada, inventou-se a farta distribuição de diplomas do ensino técnico, um acontecimento em matéria de solenidades de entrega do canudos país afora, filme bom para campanha eleitoral, sem dúvida. Com quais consequências?

O Ciência Sem Fronteiras, que promove bolsas de pós-graduação no exterior, foi instituído antes e parecia uma boa ideia, até cair na vala dos assuntos eleitorais sobre os quais o governo não admite revisão para corrigir erros.

A presidente poderia dizer também que aumentou as verbas da Educação dando-lhe percentual do pré-sal, mas nem isso foi possível já que, com o petrolão, foi lembrança proibida no palanque.

Às pressas ainda criou-se o Mais Médicos, na Saúde, programa atacado por todos os flancos, ainda eivado de defeitos e em litígio, inclusive, com o Tribunal de Contas da União e com a Receita Federal, que vem travando com o Ministério da Saúde um embate em torno do recolhimento da previdência e dos impostos que o governo finge não notar. Mas, classificado entre os intocáveis, tendo em vista os serviços prestados na campanha.

O governo Dilma, seus ministros e executivos não aceitam críticas, não ouvem reparos de qualquer espécie, rebatem denúncias, estão sempre na defensiva e qualquer avaliação negativa atribuem à disputa de poder. Assim, caíram no vazio sinais de que o Ciência Sem Fronteiras estava mais turístico que científico; o Mais Médicos um negócio bilateral com Cuba; as críticas ao desempenho em Educação e Saúde, coisa de adversários.

Dilma deixou a essas áreas a incumbência de prestar serviço de fornecimento de munições ao marqueteiro de campanha, enquanto os ministros saíam a campo para duplicar os esforços da presidente candidata. Chioro chegou, em plena refrega eleitoral, a convocar a imprensa para discorrer sobre o ebola, mal que, ainda bem, não acometia o Brasil.

O fracasso na Educação e na Saúde é visível, os dramas dos hospitais, dos pronto-socorros e suas macas de corredor, dos ambulatórios, dos remédios, das licitações, da qualidade do ensino, do aproveitamento escolar, das distorções de idade, são mais evidentes ainda.

A presidente tem como medir tudo isso tecnicamente, mas prefere combater o órgão regulador e pressioná-lo a se adequar aos desígnios governamentais a aceitar a fotografia que lhe apresenta.

O Tribunal de Contas da União mostrou, há dez dias, os primeiros resultados do novo tipo de auditoria, controle e fiscalização que vem empreendendo nos programas da área social do governo. Além de infraestrutura, o TCU vem implantando instrumentos de avaliação da execução de políticas públicas.

Na saúde, os três principais problemas são recorrentes em todos os Estados e tomam cada vez mais distância do velho diagnóstico da falta de recursos. Donde se conclui que a ressurreição da CPMF, agora voltando via governadores do PT do Nordeste, é para dar às verbas do imposto redivivo o destino de antes, fazer superávit fiscal, e não promover a saúde. O que falta mesmo, como sempre faltou, é gestão eficiente dos recursos humanos e materiais. Há, também, falhas na regulação dos preços de medicamentos, e forte desigualdade na prestação de serviços de saúde no Brasil.

Na educação, aos eleger os três problemas principais dos sistemas de ensino, o TCU citou as deficiências no aparelhamento (no bom sentido) da rede pública de educação infantil, falta de definição de padrões mínimos de qualidade para o ensino médio, e evasão na educação profissional.

Essas dificuldades se desmembram em várias outras para significar, no final, que a educação sofre problemas tão ordinários que um plano mínimo, mas sério e bem executado, poderia superá-los. O que não ocorrerá enquanto as duas áreas forem consideradas prêmios para políticos ou plataformas de lançamento de candidatos.

Se tiver êxito no propósito de cobrar da presidente Dilma o desconvite à senadora Kátia Abreu, fica logo estabelecido que quem manda e desmanda no Ministério da Agricultura tem nome e endereço conhecidos: Joesley Batista, o principal financiador de sua campanha eleitoral.

Vinicius Torres Freire - Dilma fala com a finança: 2010 e 2014

• Presidente ratifica plano de novos ministros em mensagem a investidores estrangeiros e brasileiros

- Folha de S. Paulo

Dilma Rousseff não escreveu uma "Carta ao Povo Brasileiro", tal como o ainda candidato Lula o fez, em 2002, mas enviou uma missiva a investidores em que tratou de mudanças na política econômica. Confirmou o plano que Joaquim Levy, futuro ministro da Fazenda, e Nelson Barbosa, futuro titular do Planejamento, apresentaram na semana passada.

Foi na "Carta" que o PT trocou de roupa ideológica em público, roupa que Dilma aposentou em 2012 e parece agora tirar do armário.

A mensagem da presidente foi lida em encontro de investidores estrangeiros e brasileiros promovido ontem em São Paulo pelo banco JPMorgan. Luciano Coutinho, presidente do BNDES, leu a mensagem, representando a presidente.

Talvez seja apenas curiosidade histórica, mas os planos anunciados por Levy e Barbosa equivalem ao que Dilma disse em maio de 2010 a investidores em Nova York (ler mais abaixo).

Segundo participantes do encontro, a mensagem reafirma que o governo Dilma 2 pretende reduzir aos poucos a dívida pública. Mais importante, que planeja limitar o aumento do gasto público ao ritmo de crescimento da economia (isto é, em termos relativos, como proporção do PIB, o gasto permaneceria estável). Nos anos Dilma 1, o gasto federal como proporção do PIB cresceu tanto quanto sob Lula 1 e 2 juntos.

A carta não cita bancos públicos, mas a intenção de limitar o crescimento da dívida pública implica dar cabo dos empréstimos do governo para bancos estatais (o governo não tem esse dinheiro. Toma emprestado a uma taxa de juros alta e o reempresta baratinho para bancos públicos, em particular o BNDES).

Ao se apresentarem, na semana passada, os ministros-indicados Levy e Barbosa disseram que planejam tomar medidas para fazer com que o mercado de capitais cada vez mais se encarregue de financiar o investimento de longo prazo (no lugar do BNDES, subentende-se).

Na mensagem, Dilma lembrou que não atingiu a meta de contenção de despesas deste ano porque a receita caiu devido ao baixo crescimento; mas reafirmou que a in- flação tem ficado na meta (isto é, não estoura o limite de tolerância. Com mágicas e milagres, fica ali na beirinha).

Em agosto de 2010, quando estreava como candidata a presidente, Dilma disse em resumo o seguinte, numa reunião em Wall Street (o colunista pede licença para reproduzir parte do que então escreveu):

"1) a política macroeconômica ainda será orientada pelo objetivo de reduzir a dívida pública, por meio de superavit primários relevantes, e de diminuir os juros, por meio da política de metas de inflação, as quais seriam gradualmente reduzidas;

2) a dívida líquida cairia para 30% do PIB em 2014 [mesmo maquiada, chegou a 36,1% do PIB em outubro], o que é bem factível. Em conversa reservada, disse que gostaria de baixar a taxa real de juros básica para perto de 3%, mas sem fazer mágica";

3) o Banco Central continuará operacionalmente autônomo.

4) o aumento do crédito por meio de bancos públicos chegou ao limite"; é preciso estimular o crédito de longo prazo por meio de incentivos a fundos de pensão e ao mercado de capitais".

Recordar é viver.

Celso Ming - Mais uma estocada

- O Estado de S. Paulo

Desta vez não haverá surpresa se o Comitê de Política Monetária, o Copom, decidir nesta quarta-feira por mais um aperto dos juros. A melhor aposta é a alta de meio ponto porcentual, que eleve os juros básicos (Selic) a 11,75% ao ano.

Na reunião anterior, que se realizou três dias após o segundo turno das eleições, sem prévio aviso e para sobressalto geral, o Banco Central não vacilou em puxar os juros em 0,25 ponto porcentual.

Agora, há pelo menos dois avisos claros do que fará. No dia 13, em Florianópolis, o diretor de Política Econômica do Banco Central, Carlos Hamilton Araújo, passou o recado claro de que o Copom seria especialmente duro com a inflação. 

Na semana passada, na apresentação da nova equipe econômica, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, que será reconduzido ao cargo, também fez questão de enfatizar que a autoridade monetária será implacável com os efeitos colaterais da inflação produzidos pelo atual processo de realinhamento de preços.

Com isso quis dizer que há uma inflação causada tanto pelos reajustes dos preços administrados (energia elétrica, combustíveis e transportes urbanos) como pela alta do dólar no câmbio interno. Essa inflação tem de ser combatida com reforço da política dos juros, disse Tombini.

Isso não é tudo. Este é o momento de inflexão e de retorno à ortodoxia, desdenhada pelo governo ao longo de todo o primeiro período Dilma. Seria incompreensível se o Banco Central desafinasse agora e deixasse os juros de fora do programa de ajuste.

Na última segunda-feira, o ex-ministro Delfim Netto advertiu que as políticas fiscal, monetária e cambial têm de ser harmonizadas para ganhar eficácia não apenas contra a inflação, mas, também, para combater as distorções que emperram a economia. Esse movimento também sugere uma dose maior dos juros básicos (Selic), de 0,5%, nesta última reunião do ano.

O Brasil vai na contramão do que acontece nos demais países ricos e até mesmo nos países emergentes, onde os juros vêm caindo. Quando entendeu que devia explicar o mau desempenho da economia brasileira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, invariavelmente responsabilizou a crise global. Isso talvez pudesse explicar os maus resultados da balança comercial, mas não o comportamento da inflação. 

No mundo inteiro, os preços estão caindo e os grandes bancos centrais enfrentam risco de deflação, ou seja, risco de queda constante de preços. Aqui aconteceu o contrário, porque a política econômica descuidou das contas públicas e, com isso, provocou aumento desproporcional da demanda.

Enfim, o Banco Central trata agora de afastar quaisquer impressões de vacilação e de fraqueza diante das inevitáveis pressões heterodoxas. Precisa retomar o controle das expectativas perdidas ao longo da primeira administração Dilma, não só quando derrubou prematuramente os juros entre agosto de 2011 e abril de 2013, mas, também, quando fraquejou diante da flácida política fiscal do governo.

José Nêumanne - Palmas para Vaccari, que ele não merece

- O Estado de S. Paulo

O secretário nacional de Finanças do Partido dos Trabalhadores (PT), João Vaccari Neto, foi ouvido, anistiado, aplaudido e blindado pelos integrantes do Diretório Nacional de seu partido na última sexta-feira em reunião num hotel em Fortaleza, à qual compareceu a presidente Dilma Rousseff em pessoa. Idêntico comportamento tiveram os petistas quando seu antecessor no posto de tesoureiro do partido no poder no País, Delúbio Soares, foi processado pela Polícia Federal (PF), acusado pelo procurador-geral da República e condenado pela maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Tanto Delúbio quanto outros dirigentes do PT e da cúpula do primeiro governo federal petista cometeram os graves crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. E eles ainda cumprem pena.

Ao contrário do antecessor, é bem verdade, Vaccari ainda não foi condenado nem sequer indiciado ou chamado a depor pelos agentes e procuradores que devassam a roubalheira na Petrobrás, apelidada de petrolão. Este nome guarda relação com mensalão, denominação pela qual se tornou célebre o escândalo da compra de apoio de pequenas bancadas no Congresso Nacional pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva e pelo partido dele e de Dilma Rousseff. Mas se tomaram conhecimento do que foi noticiado pelos meios de comunicação ao longo deste ano, nem a presidente nem o ex, muito menos o alto comando do PT, podem alegar desconhecimento das inúmeras vezes que o nome de Vaccari foi citado nas delações premiadas do ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa, que Lula chamava de Paulinho, e do doleiro Alberto Youssef, chamado de Beto até mesmo por companheiros que dizem nunca tê-lo visto.

Como Luiz Gushiken e Ricardo Berzoini, Vaccari é egresso do Sindicato dos Bancários de São Paulo. Como sindicalista ocupou a presidência da Bancoop, cooperativa acusada por mutuários de ter vendido moradias que não entregou ou, quando o fez, não ter cumprido o que foi acertado e pago. E a Justiça acatou as denúncias.

Costa e Youssef acabaram de contar a policiais e procuradores federais que participam da Operação Lava Jato que o tesoureiro recebia a parte que cabia ao PT na propina de 3% da roubalheira na Petrobrás destinada a três partidos (os outros, também da base aliada, claro, seriam o PP e o PMDB). A hipótese de que os delatores premiados tenham mentido, seja por que razão tiverem, é injustificável.

Com o farto noticiário a respeito do escândalo protagonizado pela dupla, acusada de ter lavado R$ 10 bilhões, qualquer um sabe que só é reduzida ou cancelada a pena do delator quando o que ele contou pode ser comprovado nas investigações ou com documentação. Caso minta, perde o prêmio.

Três procuradores federais foram à Suíça para de lá repatriarem, com autorização do Paulinho do Lula, dono das contas sigilosas, quase R$ 100 milhões, mais do que receberam os ganhadores da Mega Sena acumulada na semana passada. Devem trazer também os extratos das contas, que darão a agentes e promotores novas pistas para desvendar outros tentáculos do funcionamento do esquema, definido pelo ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Newton Trisotto como "uma das maiores vergonhas da humanidade". Isso dará razão ao colega dele no STJ Félix Fischer, segundo quem nenhum outro país viveu "tamanha roubalheira". É pouco?

A bagagem dos viajantes poderá confirmar ainda que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) não exagerou quando declarou, em entrevista a Roberto D'Ávila na GloboNews, que não perdeu a eleição presidencial para um partido, mas, sim, para "uma organização criminosa que se instalou no seio de algumas empresas brasileiras patrocinadas por esse grupo político que aí está". A exceção da verdade deve bastar para livrar Aécio de processo do PT. O Gávea Golf Club do Rio já expulsou o ex-gerente da Petrobrás Pedro Barusco, que confessou ter roubado US$ 100 bilhões da estatal. E o PT expulsou quem?

Em Fortaleza, Vaccari jurou que nada fez de errado, nada tem a temer, e alegou ser alvo sistemático de "injustiças", que não teriam razão de ser. Que ofensas teria feito a mutuários da Bancoop, que presidiu de 2004 a 2010, para que o processassem?

Que motivos pessoais teriam os promotores para o denunciarem em 2010 por estelionato, formação de quadrilha, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro?

Quais razões ocultas teriam os ministros do STJ que permitiram acesso à movimentação de suas contas bancárias nos dez anos anteriores? Diz o tesoureiro que nada foi encontrado que o desabonasse, como se a quebra de sigilo bancário, fiscal e telefônico bastasse para inocentá-lo. Como se não conhecesse o tal do caixa 2!

Quebrado seu sigilo telefônico, os investigadores tomaram conhecimento das conversas que manteve com os protagonistas da Lava Jato. Mas ele garantiu à "companheirada" que apenas marcou ao telefone encontros para captar recursos legais para as campanhas do partido. A revelação dos grampos ter-lhe-ia causado "constrangimentos familiares". Mais constrange as famílias honestas do Brasil saber que ele e seu partido nunca agiram como se tivessem aprendido algo com os erros do mensalão. Nem se corrigiram. As evidências trazidas a lume não pela oposição nem pelo Partido da Imprensa Golpista (o PIG), mas pela PF e pelo Ministério Público Federal, é que a punição de Dirceu, Genoino, Delúbio e João Paulo Cunha não serviu de exemplo para seu estilo de gestão financeira nem para o presidente do PT, Rui Falcão, que puxou as palmas do Diretório para ele.

A cúpula petista nunca recuou da convicção de que os réus do mensalão são heróis nacionais, e não delinquentes, como foi determinado pelo STF. A presidente Dilma Rousseff nunca a desautorizou nem pediu desculpas à Nação pela participação de seu partido no mensalão e no petrolão. Isso leva a deduzir que o PT só quer a democracia para chegar ao poder, mas não aceita as regras do Estado Democrático de Direito para gerir o bem público.

*José Nêumanne é jornalista, poeta e escritor

Teias da corrupção – Folha de S. Paulo

• Somente com fiscalização implacável e punições severas o país conseguirá refrear a bandalheira que permeia a administração pública

Há pouco mais de duas semanas, sem indicar que estivesse escarnecendo das circunstâncias, um dos advogados encarregados de defender empreiteiras investigadas na Operação Lava Jato começou a difundir uma ideia bastante conveniente para suas clientes.

A sanção conhecida como declaração de inidoneidade --pela qual a companhia fica impedida de fechar negócios com o poder público por um prazo determinado-- não poderia ser aplicada às empresas suspeitas de participar do esquema de corrupção na Petrobras.

Segundo o raciocínio, a punição, se aplicada nesse caso específico, levaria o Brasil a parar, dado o peso econômico dessas construtoras e sua importância para as obras de infraestrutura do país.

Estão sob escrutínio, de fato, gigantes do setor. Juntas, faturaram mais de R$ 30 bilhões no ano passado, quase um terço do que ganharam as 300 maiores empresas desse ramo; passam de 200 mil os funcionários empregados por elas.

São números grandiosos, sem dúvida. O tamanho das companhias, porém, não pode servir de salvo-conduto para que se envolvam em negociatas --muito menos num escândalo como esse, capaz de apequenar as cifras conhecidas durante o processo do mensalão.

Disso parece ter clareza Vinicius Marques de Carvalho, presidente do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). "Se criarmos um ambiente em que grandes empresas não necessariamente seriam punidas porque teria um impacto X na economia, seria um incentivo para manter essas condutas", declarou a esta Folha.

Nada mais evidente. Se comprovados os atos lesivos aos cofres públicos, as empreiteiras --bem como funcionários, diretores e políticos que tenham se beneficiado da pilhagem-- não podem se safar com a mera devolução do butim e o pagamento de multas moderadas.

Somente com fiscalização implacável e punições severas o país refreará a bandalheira que permeia o Estado. "De cada dez processos que o Cade abre relacionados a possíveis cartéis em licitações, há condenação em nove. Acho que posso dizer que é comum esse tipo de conduta", afirma Carvalho.

"Comum" é pouco, a julgar pelo que disse ontem (2) Paulo Roberto Costa. Em sessão da CPI mista criada para apurar os desvios na Petrobras, o ex-diretor de Abastecimento da empresa sustentou que o esquema se repete "no país inteiro: portos, aeroportos, hidrelétricas, ferrovias e rodovias".

A acusação é gravíssima; "estarrecedora", para usar termo caro à presidente Dilma Rousseff, cujo partido, o PT, comanda o governo federal há 12 anos. Será possível que, nesse tempo, só Costa e o doleiro Alberto Youssef tenham se dado conta de processo tão amplo de dilapidação do patrimônio público?

Tanto quanto o argumento em favor da impunidade das empreiteiras, essa ideia beira o escárnio.

Chantagem por decreto - O Estado de S. Paulo / Editorial

A sutileza não é mesmo o forte da presidente Dilma Rousseff. Se essa inaptidão se manifestasse apenas no seu, digamos, estilo, o problema se restringiria ao trato pessoal, como sabem todos quantos arcam com a servidão de serem seus subordinados. A questão muda de figura quando a sua predileção pela borduna, em lugar do florete, transborda para a esfera institucional. É o que cabe dizer, antes de mais nada, do decreto curto e grosso assinado por ela na última sexta-feira e publicado em edição extraordinária do Diário Oficial. O documento trata da ampliação dos gastos públicos previstos pelo Ministério do Planejamento. Já no primeiro de seus cinco artigos, autoriza o desbloqueio de R$ 10,032 bilhões previstos no Orçamento de 2014. A maior parte desse montante irá para educação e saúde.

Em princípio, o valor inclui ainda R$ 444,7 milhões para a cobertura de emendas parlamentares individuais. A cifra resulta do aumento de R$ 10,9 milhões para R$ 11,6 milhões da fatia que cabe a cada um dos 531 deputados e 81 senadores, destinada a obras em seus redutos eleitorais. "Em princípio", porque a liberação desse adicional depende do comportamento dos mandatários na votação do projeto palaciano que na prática desobriga o governo de cumprir a meta mínima de superávit primário (poupança para o pagamento de juros da dívida pública) de R$ 49 bilhões fixada na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2014. A proposta indecente, apresentada em novembro, viola a Lei de Responsabilidade Fiscal ao remediar a farra que abriu um rombo bilionário nas contas federais.

Na semana passada, depois de uma sequência de percalços na Comissão Mista de Orçamento do Congresso, o projeto enfim acolhido deixou de ser votado em plenário por falta de quórum. Deputados e senadores, notadamente do PMDB, se ausentaram para ver, primeiro, se e como o novo Ministério atendeu aos seus desejos. Com isso, a presidente entrou em pânico. Afinal, se não vingar o golpe contábil que exclui do cálculo do superávit os dispêndios com o PAC e o valor das desonerações tributárias autorizadas pelo Planalto, ela terá incorrido em crime de responsabilidade. Eis a origem do despudorado decreto da sexta-feira. Em vez de buscar uma negociação com os seus aliados no Legislativo, Dilma optou pela chantagem nua e crua.

No artigo 4.º, o texto condiciona explicitamente a liberação das verbas acrescidas para as emendas parlamentares à aprovação do monstrengo que acaba com qualquer resquício de integridade no manejo dos recursos do Executivo para cumprir a lei orçamentária. A admissão de derrota se soma à truculência no único parágrafo em que o artigo se desdobra. Estipula que, se o projeto em causa não passar, a área econômica preparará "novo relatório de receitas e despesas" e encaminhará "nova proposta de decreto" (sic). Para ficar na seara da presidente, é impossível imaginar o seu patrono Luiz Inácio Lula da Silva fazendo uma enormidade do gênero. Ele decerto não deixaria que as coisas degringolassem na undécima hora do ano.

Em vez de emitir o seu diktat, Dilma poderia ter se limitado ao apelo enfático aos líderes da base aliada nas duas Casas do Congresso, com os quais se reuniu, pela primeira vez desde a reeleição, na segunda-feira à noite. Não que ela tivesse assumido as devidas culpas pelo desarranjo fiscal impossível de varrer para debaixo do tapete mesmo com a famigerada contabilidade criativa em que o seu pessoal se empenhou, manuseando as contas oficiais maltratadas pelo "novo marco macroeconômico" - a herança maldita que ela deixa para o sucessor do lamentável Guido Mantega. A anfitriã tratou de compartilhar com os políticos a responsabilidade pela ampliação do número de setores beneficiados pela renúncia fiscal que, de janeiro a outubro, já somava cerca de R$ 85 bilhões. (No período, o déficit acumulado pelo governo era de R$ 11,6 bilhões.)

Não ficou nisso. Segundo relatos de participantes do encontro, ela recorreu até ao terrorismo. Se o projeto de manobra fiscal fracassar, afirmou, haverá desemprego, perda de renda familiar, recessão e contingenciamento dos repasses da União a Estados e municípios. É a sutileza padrão Dilma.

Novo livro sobre 1964 - Raimundo Santos, professor da UFRRJ

Ao se encerrar 2014, vem em boa hora o lançamento, no final de outubro passado, na reunião anual da Anpocs (Associação Nacional de Pós-graduação em Ciências Sociais), da coletânea chamada 1964 – As armas da política e a ilusão armada, sob o selo da Fundação Astrojildo Pereira, de Brasília.

O livro, de 505 páginas, tem como foco principal a natureza política da resistência à ditadura e o seu objetivo de recuperar as liberdades democráticas. Muitos dos seus textos versam sobre os anos do governo de João Goulart e, depois de 1964, sobre o caráter do regime ditatorial; e discutem a eficácia da estratégia de luta contra a ditadura por meio da política e o equívoco da luta armada daquele tempo.

[Cf. Os 50 anos do golpe de 1964, Rural Semanal, UFRRJ, 1-7 de dezembro de 2014

Chico Buarque - Comício em Mangueira (Wilson Batista, 1945)

Carlos Drummond de Andrade - A Bomba

A bomba
é uma flor de pânico apavorando os floricultores
A bomba
é o produto quintessente de um laboratório falido
A bomba
é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles
A bomba
é grotesca de tão metuenda e coça a perna
A bomba
dorme no domingo até que os morcegos esvoacem
A bomba
não tem preço não tem lugar não tem domicílio
A bomba
amanhã promete ser melhorzinha mas esquece
A bomba
não está no fundo do cofre, está principalmente onde não está
A bomba
mente e sorri sem dente
A bomba
vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados
A bomba
é redonda que nem mesa redonda, e quadrada
A bomba
tem horas que sente falta de outra para cruzar
A bomba
multiplica-se em ações ao portador e portadores sem ação
A bomba
chora nas noites de chuva, enrodilha-se nas chaminés
A bomba
faz week-end na Semana Santa
A bomba
tem 50 megatons de algidez por 85 de ignomínia
A bomba
industrializou as térmites convertendo-as em balísticos
interplanetários
A bomba
sofre de hérnia estranguladora, de amnésia, de mononucleose,
de verborréia
A bomba
não é séria, é conspicuamente tediosa
A bomba
envenena as crianças antes que comece a nascer
A bomba
continnua a envenená-las no curso da vida
A bomba
respeita os poderes espirituais, os temporais e os tais
A bomba
pula de um lado para outro gritando: eu sou a bomba
A bomba
é um cisco no olho da vida, e não sai
A bomba
é uma inflamação no ventre da primavera
A bomba
tem a seu serviço música estereofônica e mil valetes de ouro,
cobalto e ferro além da comparsaria
A bomba
tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis, etc.
A bomba
não admite que ninguém acorde sem motivo grave
A bomba
quer é manter acordados nervosos e sãos, atletas e paralíticos
A bomba
mata só de pensarem que vem aí para matar
A bomba
dobra todas as línguas à sua turva sintaxe
A bomba
saboriea a morte com marshmallow
A bomba
arrota impostura e prosopéia política
A bomba
cria leopardos no quintal, eventualmente no living
A bomba
é podre
A bomba
gostaria de ter remorso para justificar-se mas isso lhe é vedado
A bomba
pediu ao Diabo que a batizasse e a Deus que lhe validasse o batismo
A bomba
declare-se balança de justiça arca de amor arcanjo de fraternidade
A bomba
tem um clube fechadíssimo
A bomba
pondera com olho neocrítico o Prêmio Nobel
A bomba
é russamenricanenglish mas agradam-lhe eflúvios de Paris
A bomba
oferece de bandeja de urânio puro, a título de bonificação, átomos
de paz
A bomba
não terá trabalho com as artes visuais, concretas ou tachistas
A bomba
desenha sinais de trânsito ultreletrônicos para proteger
velhos e criancinhas
A bomba
não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer de câncer
A bomba
é câncer
A bomba
vai à Lua, assovia e volta
A bomba
reduz neutros e neutrinos, e abana-se com o leque da reação
em cadeia
A bomba
está abusando da glória de ser bomba
A bomba
não sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba
o instante inefável
A bomba
fede
A bomba
é vigiada por sentinelas pávidas em torreões de cartolina
A bomba
com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve
A bomba
não destruirá a vida
O homem
(tenho esperança) liquidará a bomba.