quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Perda de hegemonia petista será lenta, diz pesquisadora

Por Cristiane Agostine - Valor Econômico

CAXAMBU (MG) - Em meio à crise política enfrentada pelo PT e pelo governo federal, ainda não surgiu nenhuma força política ou partido capaz de atrair o contingente eleitoral dependente de programas sociais como o Bolsa Família, nem a classe média que ascendeu nos governos do PT. Dessa forma, a perda da hegemonia petista sobre esse eleitorado tende a ser lenta, analisa a cientista política Marta Arretche, diretora do Centro de Estudos das Metrópoles da USP.

O processo de identificação do eleitorado com um partido é lento, diz Marta, e apesar do desgaste do PT com o mensalão, petrolão e o ajuste fiscal implementado pela presidente Dilma Rousseff, "nenhum agrupamento político está vocalizando o mal-estar" da população mais vulnerável.

"O espaço político que o PT poderá vir a perder terá que ser ocupado por uma força política que vocalize os problemas desse contingente, que hoje não tem", afirma Marta. "Podemos ter um processo de acomodação e de realinhamento de forças partidárias que dure uma, duas, três eleições. 

Esses processos não são movimentos rápidos, porque dependem da identificação do eleitorado com forças políticas, com grupos que venham a se viabilizar ou não. O fato é que a preferência do eleitorado por ter alguma proteção social não vai desaparecer", diz. "É um contingente importante e não está claro qual será a força política que ocupará a preferência desse eleitorado num curto espaço de tempo. É muito pouco provável que ocorra no espaço de uma eleição".

O próprio PT levou de 1980 até 2002 para se viabilizar como alternativa eleitoral da esquerda, afirma Marta, em entrevista ao Valor, durante encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), em Caxambu (MG), na semana passada.

Nas mobilizações de rua, o que sobrou das jornadas de junho de 2013 foram grupos sociais mais conservadores, mobilizados pelo impeachment de Dilma e que deixaram de lado as demandas dos mais pobres e da nova classe média. O PSDB, com forte atuação anti-petista, tem dificuldade para atrair esse contingente. A ala mais ativa do partido, representada pelo senador Aécio Neves (MG) e pelo líder da bancada na Câmara, Carlos Sampaio (SP), tem buscado o eleitor anti-PT, que têm críticas ao Bolsa-Família.

O impacto eleitoral das denúncias, no entanto, deve ser sentido com força pelo PT nas urnas próximas eleições e mesmo o eleitorado beneficiado diretamente nas gestões petistas, como a nova classe média, tende a "punir" o partido pelo fato de Dilma ter trocado sua política econômica, além dos escândalos. "A inclusão social que tivemos recentemente tem um custo também para a chamada classe média, formada por pessoas com grau de vulnerabilidade social. Eles culpam o Bolsa Família porque acreditam que os que ganham o benefício estão melhores do que eles. O preocupante é que não tem nenhum agrupamento político que está vocalizando o mal-estar e as preferências políticas desse contingente", diz.

O desgaste eleitoral do PT poderá ser diluído pelo fato de os escândalos atingirem também PSDB. PMDB, PP e DEM. "É possível que o eleitor assuma que todos são igualmente corruptos e vote naquele do qual ele tem algum registro que tenha melhorado no seu bem-estar", afirma.

O cenário a médio prazo, no entanto, é diferente e a crise enfrentada pelo PT poderá abrir espaço para que outra força política ocupe o espaço que hoje é da sigla.

Marta analisa que no centro da crise está a disputa sobre quem pagará pelo ajuste fiscal. A tensão social deve durar enquanto o ajuste for a aposta do governo. "Enquanto imperar o ajuste fiscal - e vai imperar por um longo tempo-, a temperatura dos conflitos será alta", diz. "Teremos disputas políticas pesadas em torno de quem pagará tributos e quem receberá benefícios".

Para Marta, a manutenção de programas sociais está garantida por uma questão eleitoral, apesar do desgaste do PT. "O contingente eleitoral beneficiado pelas políticas sociais é um colchão político importante para impedir a retração dos programas sociais", diz. "Votar medidas que afetem negativamente esses setores têm custo eleitoral importante".

Caminhoneiros ameaçam greve e preocupam governo federal

Valdo Cruz, Marina Dias e Gustavo Uribe – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff está preocupada com uma nova ameaça de greve dos caminhoneiros, programada inicialmente para a próxima segunda-feira (9), e orientou sua equipe a monitorar e iniciar conversas com líderes do movimento para tentar evitar a paralisação.

O Planalto teme que a greve cause desabastecimento no país, o que pode agravar ainda mais o quadro de recessão econômica.

O ministro Ricardo Berzoini (Secretaria de Governo) já conversou com alguns líderes do setor e obteve deles a informação de que a tentativa de greve está sendo comandada por grupos independentes, o que diminuiria a força do movimento.

O ministro José Eduardo Cardozo (Justiça), a quem é subordinada a Polícia Rodoviária Federal, também participa do grupo de assessores encarregado de criar uma estratégia para evitar que a paralisação de caminhoneiros ganhe força e crie dificuldades de abastecimento no país.

O tema foi objeto de discussão em reunião, nesta terça-feira (3) em Brasília, da presidente com ministros e líderes do governo no Congresso Nacional.

A mais recente manifestação do caminhoneiros ocorreu em abril deste ano e durou cinco dias, gerando bloqueios em estradas e prejudicando o abastecimento em algumas cidades.

Na ocasião, o movimento perdeu força após o governo prometer intermediar a negociação, com o setor contratante, de uma tabela referencial de preços do frete.

Desta vez, a ordem da presidente é monitorar os movimentos para que nenhuma paralisação desse tipo pegue o governo de surpresa.

No final de outubro, o Comando Nacional do Transporte, grupo de caminhoneiros que se declara independente de sindicatos, divulgou nota em seus perfis nas redes sociais prometendo greve geral para o dia 9.

Segundo o comunicado, os principais movimentos que pedem o impeachment da presidente Dilma Rousseff, como o Vem Pra Rua, o Revoltados Online e o MBL (Movimento Brasil Livre), apoiam a paralisação da classe.

Esse apoio é outra preocupação do Planalto, porque pode gerar uma agenda política negativa no momento em que perdeu força, dentro do Congresso, a estratégia da oposição para tentar abrir um processo de impedimento contra a presidente .

Reivindicação
O grupo de caminhoneiros reivindica desde o início do ano a redução do preço do óleo diesel, a criação do frete mínimo, salário unificado em todo o país e a liberação de crédito com juros subsidiados no valor de R$ 50 mil para transportadores autônomos. Querem também ajuda federal para refinanciamento de dívidas de compra de seus veículos.

A página do Facebook do Comando Nacional do Transporte conta hoje com cerca de 25,5 mil seguidores.

Greve já reduz produção de petróleo e gás natural, diz Petrobras

• Estatal afirma que paralisação vai afetar arrecadação de tributos

Bruno Rosa - O Globo

A greve de trabalhadores da Petrobras já afeta em cheio a produção de petróleo da estatal. Em comunicado enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a companhia destacou que anteontem deixou de produzir 273 mil barris de petróleo por dia, o que equivale a uma queda de 13% na sua produção no país. Além disso, houve recuo de 14% na produção de gás natural. “Adicionalmente, 7,3 milhões de metros cúbicos de gás natural deixaram de ser disponibilizados”, disse a estatal em nota.

Ontem, segundo estimativas da própria companhia, a produção de petróleo foi reduzida em mais 8,5%. No caso do gás natural, o recuo chega a mais 13%, se comparado com o que estava sendo produzido antes do início da greve, na última quinta-feira.

O recuo ocorre em um momento de queda na produção e de pesados cortes de investimento para manter o caixa da empresa. Em meados de outubro, a Petrobras havia informado que a produção em setembro registrou queda de 6,7% em relação ao mês anterior, para 2,06 milhões de barris por dia de petróleo, devido a paradas programadas de plataformas.

Perda de US$ 25 milhões por dia
Ontem, a Petrobras destacou que o recuo de produção, com a greve, vai afetar a “arrecadação de tributos recolhidos em favor da União Federal, estados e municípios, como os royalties e a participação especial”. A Petrobras, no entanto, descartou o risco de desabastecimento do mercado.

Cálculos da Federação Única dos Petroleiros (FUP), porém, indicam que a greve de trabalhadores da Petrobras reduziu a produção de petróleo da empresa em cerca de 25% entre domingo e segunda-feira. Nas receitas da estatal, o óleo que deixou de ser produzido significa menos US$ 25 milhões por dia. A estimativa de perda de receita foi feita por consultores, considerando o preço do barril de petróleo Brent, referência no mercado, a US$ 50.

— (Nesse cálculo) estamos falando só sobre o que ela deixou de arrecadar pelo valor da mercadoria, fora as margens, que são difíceis de calcular, porque dependem de cada produto, mas no mínimo foi isso — afirmou o sócio-diretor da consultoria DZ Negócios com Energia, David Zylbersztajn.

De acordo com o coordenador-geral da FUP, José Maria Rangel, nas primeiras 24 horas, a greve fez com que a Petrobras deixasse de produzir 500 mil barris de petróleo, 450 mil só na Bacia de Campos. Rangel ainda não tinha um levantamento do avanço da paralisação ontem. Segundo o sindicalista, também há relatos de adesão à greve nas refinarias da Petrobras de Cubatão (São Paulo) e na Bahia, mas não foram registrados problemas com distribuição.

A paralisação dos funcionários filiados à FUP tem como principal objetivo protestar contra o corte no plano de desinvestimentos da Petrobras. A Federação congrega 12 sindicatos e diz representar 70% da categoria.

Zylbersztajn questionou a atitude dos sindicalistas:

— Essa greve não é nem um tiro no pé, é um tiro na cabeça.

Indústria recua 10,9% em um ano, pior queda desde abril de 2009

Produção industrial cai 1,3% em setembro e tem recuo de 7,4% no ano

Por Robson Sales – Valor Econômico

RIO - (Atualizada às 9h54) A produção industrial diminuiu 1,3% em setembro na comparação com o mês anterior, na série com ajustes sazonais. Foi o quarto resultado negativo seguido da indústria, que acumulou nesse período perda de 4,8%. Em agosto, a produção caiu 0,9% ante julho (dado revisado). As informações são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os 22 economistas consultados pelo Valor Data esperavam retração de 1,4%, em média. O intervalo das estimativas era de recuo de 2% a retração de 0,4%.

Na comparação com setembro de 2014, a produção industrial brasileira caiu 10,9%. É a primeira redução de dois dígitos no ano e a maior nessa comparação desde abril de 2009, quando a atividade nas fábricas recuou 14,1%. Nessa comparação, é também o pior setembro da série, iniciada em 2003. Na média, os economistas esperavam queda de 11,2%.

Ainda nesse tipo de confronto, 24 de 26 segmentos da indústria registraram baixa. Houve recuo em 68 dos 79 grupos e em 76,8% dos 805 produtos pesquisados.

"Os índices do setor industrial foram negativos tanto para o fechamento do terceiro trimestre de 2015 (-9,5%), como para o acumulado dos nove meses do ano (-7,4%), ambas as comparações contra iguais períodos do ano anterior. A taxa anualizada, indicador acumulado nos últimos 12 meses, com o recuo de 6,5% em setembro de 2015, assinalou a perda mais intensa desde dezembro de 2009 (-7,1%) e manteve a trajetória descendente iniciada em março de 2014 (2,1%)", destacou o IBGE em nota.

Categorias econômicas
A comparação entre setembro e agosto mostrou alta de 1% na produção de bens de capital, já com ajustes sazonais. Na mesma base de comparação, a produção de bens intermediários caiu 1,3%, enquanto a de bens de consumo duráveis recuou 5,3% e a de semi e não duráveis avançou 0,5%.

Em relação a setembro de 2014, a produção de bens de capital recuou 31,7%, a de bens intermediários caiu 7,2%, ao passo que a produção de bens de consumo duráveis recuou 27,8% e a de semi e não duráveis caiu 7,4%.

Veículos
A produção de veículos automotores, reboques e carrocerias teve forte queda em setembro e influenciou o resultado médio da indústria brasileira, segundo o IBGE.

Ante agosto, o recuo nesse segmento foi de 6,7%, o segundo consecutivo, acumulando nesse período perda de 15,9%. Na comparação com o setembro do ano passado, o tombo foi de 39,3%.

Também influenciou, na comparação, anual, o fato de setembro de 2015 ter tido um dia útil a menos (21) do que igual mês do ano anterior (22).

Economistas veem inflação a 10% este ano

• Pesquisa do BC mostra que, para bancos, índice só volta à meta em 2019

Gabriela Valente – O Globo

-BRASÍLIA- Após o Banco Central (BC) abandonar o compromisso de levar a inflação para o centro da meta em 2016, o mercado financeiro piorou as expectativas para o controle de preços no Brasil. O grupo de economistas consultados para o boletim Focus que mais acerta as apostas, o chamado “Top 5”, prevê inflação de dois dígitos este ano, o que não acontecia desde 2002. Na visão geral, o índice só atingirá o centro da meta, de 4,5%, em 2019. Segundo a pesquisa semanal do BC, a estimativa para o IPCA, o índice oficial de inflação, este ano subiu de 9,85% para 9,91%, a sétima deterioração consecutiva. Para o “Top 5”, o IPCA ficará em 10,03%. Até a semana passada, o esperado era 9,95%.

Remédio amargo para inflação
Para 2016, o “Top 5” vê uma inflação resistente, em 7,33%. O boletim mostra que este grupo está um pouco mais pessimista que as demais instituições. Na mediana, os economistas esperam um IPCA de 6,29% para o próximo ano, contra 6,22% na semana passada.

Pesa nas estimativas a avaliação de que o tarifaço deste ano terá impacto bem maior na inflação do que o projetado anteriormente. Só em 2015, a inflação dos preços administrados (como água e energia) deve ser de 16,5%. O percentual foi revisado após o BC projetar um aumento de mais de 50% na conta de luz este ano. Em 2016, as tarifas públicas devem ter alta de 6,75%.

O pessimismo contaminou outras projeções. A economia deve encolher 3,05% neste ano (a aposta anterior era de 3,02%) e 1,51% em 2016 (1,43% anteriormente). Esse é um argumento favorável para a convergência da inflação para a meta em 2017: com menos renda e emprego, o brasileiro deve consumir menos, e os empresários não elevarão mais os preços.

— Com a recessão de 1,5% no ano que vem, é possível que haja convergência para a meta em 2017. Serão dois anos de recessão, coisa que não acontece desde a crise dos anos 1930. A inflação será controlada por uma situação terrível. É um efeito positivo de uma situação dramática — afirmou Alcides Leite, professor da Trevisan.

Merval Pereira - Circo armado

- O Globo

“Vou provar que não faltei com a verdade na CPI”, afirmou o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, diante da abertura do processo de cassação de seu mandato por quebra de decoro parlamentar. Como as contas na Suíça que ele nega serem suas, mas têm sua assinatura e até foto do passaporte para não deixar dúvidas, têm data muito anterior ao depoimento de Cunha na CPI da Petrobras, meses atrás, é difícil imaginar um truque que permita a ele provar que à época da declaração as contas não existiam e que, portanto, não mentiu.

O ex-presidente Clinton, dos Estados Unidos, alegou que não mantivera relações sexuais com a estagiária da Casa Branca porque não considerava nessa categoria o sexo oral. O deputado Paulo Maluf ficou indignado por ter sido comparado a Cunha, alegando que nunca encontraram uma assinatura sua, muito menos registros de seu passaporte, nas contas no exterior que ele continua dizendo que não são suas.

As provas já vazadas das investigações da Procuradoria-Geral da República, com base nas informações vindas da Suíça, são tão avassaladoras que, a princípio, parecia questão de tempo para a clássica saída dos políticos enrascados apanhados com a boca na botija: renúncia à presidência da Câmara e negociação para não perder o mandato no Conselho de Ética.

Mas Eduardo Cunha é mais ousado do que o senador Renan Calheiros, que abriu mão da presidência do Senado numa negociação em que preservou seu mandato e ganhou tempo para voltar à presidência do Senado anos mais tarde. O processo de que era acusado ainda está em curso.

Cunha é mais ousado que Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho, que também renunciaram à presidência do Senado a seus tempos. Quer repetir a façanha do ex-senador José Sarney, que se manteve firme na presidência do Senado mesmo sendo julgado pelo Conselho de Ética pela edição de decretos secretos.

Mas aquela era uma questão que poderia ser tratada como administrativa, e Sarney era um ex-presidente da República que tinha todo o apoio do então popular presidente Lula, que considerava que ele não podia ser tratado como “uma pessoa comum”.

Eduardo Cunha tem o apoio disfarçado do PT e de áreas da oposição, e até mesmo apoios declarados, como o de Paulinho da Força Sindical, que vai assumir a vaga do Solidariedade no Conselho de Ética com a disposição declarada de ajudar Cunha a se livrar das acusações.

Arma-se um circo no Conselho de Ética que pode levar até mesmo ao arquivamento do processo antes do que a opinião pública imagina, a começar pela escolha do relator, que pode nem mesmo iniciar o processo com a sugestão de arquivamento dentro dos próximos 10 dias.

Entre os três sorteados para a função, todos são ligados de uma maneira ou outra a Cunha, que já fez uma declaração que tem cheiro de ameaça. Segundo ele, cerca de 150 deputados respondem a processo neste momento, e todos deveriam ser submetidos ao Conselho de Ética se prevalecesse a tese que vingou para ele.

É uma versão reduzida dos “300 picaretas” que Lula identificou no Congresso quando lá esteve como deputado constituinte. É o caso de dois deles: Vinicius Gurgel, do PR, é investigado por crimes eleitorais e contra a ordem tributária. Fausto Pinato, do PRB, é acusado de falso testemunho. Já Zé Geraldo, do PT, tem proximidades ideológicas com Cunha, pelo menos em relação ao juiz Sérgio Moro, a quem acusa de “trabalhar fortemente para desestabilizar nossa democracia”.

O petista acha que a Lava-Jato “vem causando prejuízos enormes ao país, quebrando empresas, produzindo um exército de desempregados e desfalcando dia a dia um dos nossos maiores patrimônios, a Petrobras”.

Como o ex-deputado André Vargas conseguiu levar por oito meses seu processo na Comissão de Ética até ser condenado, o mais provável é que Eduardo Cunha, antes de ser cassado por seus companheiros, terá que prestar contas mesmo é à Justiça.

Dora Kramer - Léguas a percorrer

- Estado de S. Paulo

Politicamente baleado, o deputado Eduardo Cunha segue inabalável na presidência da Câmara mantido pelas mesmas circunstâncias que levarão o processo contra ele por quebra de decoro se arrastar ao máximo no Conselho de Ética da Casa antes de ir à votação no plenário. Isso se chegar até lá.

As referidas circunstâncias se resumem à conjugação de interesses de parlamentares de oposição e de situação, aliada ao fato peculiar de que o denunciado desta vez é o dono da faca e do queijo. A fim de facilitar o entendimento, note-se o seguinte: a representação do PSOL e da Rede foi levada à Corregedoria da Câmara no dia 7 de outubro. De acordo com levantamento do jornal O Globo, a Secretaria-Geral da Mesa (presidida por Cunha) reteve o documento por 21 dias, a pretexto de conferir assinaturas.

Ontem o caso finalmente chegou ao Conselho de Ética. O presidente do colegiado, José Carlos Araújo, promete escolher o relator ainda hoje. Feito isso, os “conselheiros” deverão se manifestar sobre a admissibilidade do pedido. Caso aceito, Eduardo Cunha será notificado e, no prazo de dez dias úteis, deve apresentar defesa. A partir daí, correm 40 dias úteis para investigações.

O Congresso entra em recesso no dia 17 de dezembro, daqui a um mês e poucos dias. Portanto, antes de março ou abril de 2016 nada se resolve no âmbito do Parlamento. O ano que vem é eleitoral. Prefeitos e vereadores vão precisar de dinheiro para as campanhas eleitorais que, segundo as novas regras, não poderão ser financiadas por pessoas jurídicas.

A pessoa física de Eduardo Cunha deu ajuda substanciosa a vários deputados federais. De muitos partidos, incluído aí o maior de oposição: PSDB. Eleição de deputados tem correlação direta com eleição de prefeitos e vereadores. São preciosos sustentáculos. Em ano de pleito municipal, toda ajuda será celebrada. E provavelmente recompensada.

Quero dizer o quê? Que os fatos conspiram contra o andamento do processo de cassação. Cunha provavelmente vai se safar. Com a ajuda de deputados de oposição que a direção do PSDB não consegue controlar. E por quê? Porque fala mais alto o dinheiro das respectivas campanhas.

No pulo. Há cerca de 40 dias, o vice-presidente, Michel Temer, e o presidente do PSDB, senador Aécio Neves, tiveram uma conversa sobre um eventual governo de transição. O encontro aconteceu na casa do senador Romero Jucá, em condomínio nos arredores de Brasília.

O assunto não prosperou, inclusive porque nesse meio tempo entrou em cena o fator Eduardo Cunha. O vice-presidente quase foi pego de calças curtas em pleno exercício da “conspirata” por um dos agentes de sua equipe de segurança que, preocupado com o sumiço, conseguiu falar com ele por telefone, mas não obteve a localização exata do chefe.

Balzaquiana. Tantas falas desprovidas de sentido comete a presidente Dilma Rousseff que algumas passam batidas. Não mereceu destaque a consideração feita por ela semanas atrás a respeito da democracia brasileira, uma “adolescente” a ser preservada na figura da manutenção de seu mandato.
Sempre é tempo de observar: a democracia no Brasil tem 30 anos de idade. Uma adulta, cuja maturidade se expressa justamente na independência dos Poderes e no estrito cumprimento da lei. Práticas que Luiz Inácio da Silva e companhia condenam com veemência.

Hélio Schwartsman - Contra a civilização

- Folha de S. Paulo

Qual a melhor coisa que aconteceu à humanidade? Embora eu padeça de simpatias anarquistas, não hesito em responder que, historicamente, a maior bênção que caiu sobre nós foi o surgimento de Estados fortes, com aparelhos repressivos. Foi isso que fez com que as pessoas contivessem drasticamente o pouco civilizado hábito de matar umas às outras.

Em tempos modernos, um dos primeiros proponentes dessa teoria foi o sociólogo Norbert Elias, em "O Processo Civilizatório" (1939). Para Elias, à medida que o Estado passou a exercer o monopólio da violência, indivíduos foram se autodomesticando. Aos poucos, foi deixando de ser uma reação normal assassinar o rival por causa de um insulto, por exemplo. Esse processo de autocontrole não se limitou à violência, atingindo também outros aspectos da vida, como o comportamento sexual, as funções corporais e até as maneiras à mesa.

Nos últimos anos, o fulcro da tese de Elias, que passara décadas em semiesquecimento, vem ganhando adeptos, com destaque para autores como Steven Pinker, Michael Shermer, Ian Morris, e algum apoio empírico. Evidências arqueológicas apontam que as taxas de homicídio de sociedades pré-Estado tendem a ser bem maiores que as observadas atualmente até nos países mais violentos do planeta. Em alguns sítios pré-históricos, 60% das ossadas pertencem a pessoas que foram assassinadas. Morris estima índices na escala dos 10% a 20% para a Idade da Pedra, 2% a 5% para os grandes impérios da Antiguidade e de 1% a 2% para o século 20, com suas duas guerras mundiais e inúmeros genocídios. Em países ultracivilizados como a Dinamarca, ele está hoje em 0,027%.

Ao tentar decepar o Estatuto do Desarmamento, norma que consubstancia o monopólio estatal da violência, a bancada conservadora esboça um movimento contrário àquele que possibilitou a mais importante conquista da civilização.

Eliane Cantanhêde - 'Mais liberdade'

- O Estado de S. Paulo

A presidente Dilma Rousseff tinha dito que não, mas o ministro Joaquim Levy diz agora que sim, é preciso mudar as regras para a exploração do pré-sal para que haja “mais liberdade” e a coisa comece a andar. Com tantas crises, tantos Cunhas e tantos Lulinhas, esse assunto passa sempre batido pela maioria e é tratado como questão ideológica pelo PT e setores da “esquerda”, mas é da maior importância.

O objetivo de projetos em tramitação, como o do senador tucano José Serra, é simplesmente inverter a lógica: a Petrobrás não será proibida de ser a operadora única do pré-sal, mas deixará de ser obrigada a sê-lo. Tudo passará a ser uma questão de opção, não de obrigação. Quando for do interesse estratégico da Petrobrás e do País, ela será; quando for um empecilho para a empresa e para o País, não será mais. A Petrobrás terá sempre a preferência, mas outras poderão participar.

Isso significa parar de engessar e de achatar o plano de investimentos da maior e mais simbólica companhia brasileira, tão machucada nos anos Lula, pelo assalto de partidos, de empreiteiras e de diretores inescrupulosos, que precisa desesperadamente se recuperar. Não é questão ideológica, mas estratégica.

“O meu projeto não discute o regime de exploração, só faz uma única coisa: retira da Petrobrás a obrigatoriedade de estar presente em todos os poços e de bancar 30% do investimento”, diz Serra, lembrando que, neste momento, a Petrobrás não tem como sustentar todo esse porcentual de investimento. Sem contar, cá para nós, os bilhões em refinarias como Abreu e Lima e Pasadena, envoltas em intensas suspeitas de desvios e má-fé.

A Petrobrás passou a ser o principal alvo da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça e trocou a condição de maior vitrine pela de maior vidraça do Brasil no exterior. De empresa exemplar, orgulho de gerações, virou a mais endividada do mundo, tendo que cortar investimentos e vender ativos e áreas de operação. O resultado é em cadeia, em todos os setores que dependem da Petrobrás, e desemboca nos índices crescentes – e preocupantes – de desemprego.

Enquanto precisa tanto do que o pré-sal pode oferecer à Petrobrás e ao País, fica-se nesse lengalenga de “nacionalismo” à antiga, muito apropriado aos anos 50, não mais a um mundo global, dinâmico, em que a perda de um minuto hoje pode significar anos de atraso amanhã. Ao invés de privilegiar o interesse realmente nacional, discutem-se velhas ideias populistas.

Segundo ainda Serra, desde a descoberta do pré-sal até a implantação do modelo de partilha, foi realizado apenas um leilão e, desde 2010 até meados deste ano, a produção de petróleo no País cresceu apenas 12,6%. Ou seja, o setor está parado. É preciso revigorá-lo, arejá-lo, concordam o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, e os governadores peemedebistas Paulo Hartung (ES) e Luiz Fernando Pezão (RJ) – que defendem mudanças para a retomada dos investimentos no setor, tão fundamental a seus Estados e para o País.

Ok. Então, por que essa correção não anda? Porque, além da resistência de setores ditos de “esquerda”, que equivocadamente se imaginam defendendo a Petrobrás, há um obstáculo ainda mais subjetivo: a resistência da presidente Dilma Rousseff.

A troca do regime de concessões pelo de partilha, com a obrigação da Petrobrás de estar em todos os consórcios e entrar com 30% do investimento é de... 2010. Ou seja, foi uma outra bandeira defendida com unhas e dentes pela campanha do PT e de Dilma, que, como se sabe, é dura na queda, detesta reconhecer erros e raramente volta atrás. Mas vamos ser otimistas. Se Dilma cedeu a Lula, empurrou Mercadante para a Educação e engoliu o baixíssimo clero do PMDB no ministério, quem sabe não decide agora ouvir o seu próprio ministro da Fazenda?

Luiz Carlos Azedo - Mais perto do perigo

• Enquanto Dilma faz todos os esforços para se manter longe das investigações e é supostamente blindada por Cardozo, as investigações se aproximam de Lula

- Correio Braziliense

As pressões do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que a presidente Dilma Rousseff substitua o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, vão recrudescer. No xadrez de sua estratégia para voltar à Presidência, está convencido de que o ministro é um cavalo que se movimenta apenas para proteger a rainha, embora o futuro político do PT esteja umbilicalmente ligado ao rei, ou seja, à sua candidatura em 2018.

Lula não engoliu a visita de agentes da Polícia Federal à casa de seu filho Luís Cláudio, no último dia 27, às 23h, para entregar uma intimação. Ele acabara de sair da sua festa de aniversário, no Instituto Lula, à qual compareceu a presidente Dilma Rousseff, que estava empenhada em livrar a cara de Cardozo em outro episódio que desagradou o ex-presidente: a operação de busca e apreensão realizada na empresa do filho.

O ex-presidente da República já andava cabreiro com a Operação Lava-Jato, a cargo do juiz federal Sérgio Moro, de Curitiba; e descobriu que a juíza federal substituta Célia Regina Ody Bernardes, da 10ª Vara Federal de Brasília, especializada em crimes financeiros e lavagem de dinheiro, responsável pela Operação Zelotes, também tem a mão pesada.

Os altos índices de desaprovação da presidente Dilma Rousseff e a paralisia de seu governo, num contexto de recessão — a maior desde 1930, que deve se aprofundar em 2016 —, fazem com que a expectativa de poder em relação ao PT sobreviva apenas em função do prestígio de Lula. Ao mesmo tempo, porém, enquanto o petista for um candidato competitivo, Dilma terá melhores condições para manter sua coalizão de governo.

Do ponto de vista político, portanto, ambos estão no mesmo barco. O problema é que a Lava-Jato e a Zelotes alteram a situação. Enquanto Dilma faz todos os esforços para se manter longe das investigações e é supostamente blindada por Cardozo, as investigações se aproximam de Lula. Parece um cerco se fechando: aliados políticos, empresários amigos e dois filhos do ex-presidente da República já estão enrolados.

O cerco
A Operação Zelotes investiga pagamentos recebidos por Luís Claudio, filho do ex-presidente, e a suspeita de que seu ex-chefe de Gabinete, Gilberto Carvalho, posteriormente ministro da Secretaria-Geral da Presidência na gestão Dilma, tenha supostamente atuado para tráfico de influência e corrupção com empresas do setor automotivo.

A Lava-Jato investiga o caso do navio-sonda da Petrobras Vitoria 10.000, entregue para operação da Schahin sem licitação, supostamente por intermediação do pecuarista José Carlos Bumlai, amigo de Lula. Como contrapartida, o banco Schahin teria quitado a dívida de R$ 60 milhões da campanha de Lula de 2006. O empresário é acusado de ter solicitado R$ 2 milhões ao lobista Fernando “Baiano” Soares para uma nora de Lula, o que deixou o petista indignado. Bumlai nega a acusação.

Os pagamentos de empresas investigadas à LILS, de propriedade do ex-presidente, e ao Instituto Lula, entidade mantida pelo ex-presidente “para o desenvolvimento nacional e a redução de desigualdades” e dirigida por Paulo Okamotto, ex-presidente do Sebrae, também são investigados. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) do Ministério da Fazenda identificou movimentações de cerca de R$ 300 milhões consideradas atípicas, em transações bancárias de Lula e dos ex-ministros Antônio Palocci (Fazenda), Erenice Guerra (Casa Civil) e Fernando Pimentel (Desenvolvimento).

Um procedimento investigatório criminal (PIC) foi aberto no Distrito Federal sobre suposto tráfico de influência internacional de Lula em favor da Odebrecht. Em 15 de outubro, Lula prestou depoimento espontâneo ao MPF do Distrito Federal, dando a sua versão dos fatos. O Tribunal de Contas da União (TCU) questiona a regularidade do crédito de quase US$ 750 milhões concedido pelo BNDES à Odebrecht. A empreiteira, descrita pela Lava-Jato como à frente de suposto cartel na Petrobras, pagou cerca de R$ 4 milhões a Lula por 10 palestras

As investigações são mais traumáticas do que as delações premiadas, cujas denúncias são contestadas e ironizadas por Lula. É que as operações de busca e apreensão, condução coercitiva e prisões de pessoas próximas, que acabaram associadas ao seu nome, são corrosivas para sua imagem e vão criando um ambiente de suspeita na opinião pública, mesmo que não obtenham provas robustas de seu envolvimento. Além disso, são pessoas que não têm direito a foro privilegiado. O próprio ex-presidente, sem mandato, começa a passar pelo constrangimento de ter que comparecer ao Ministério Público para prestar esclarecimentos.

Rosângela Bittar - Não foi bom para ninguém

• Informação óbvia das pesquisas: Lula, hoje, é inviável

- Valor Econômico

Intrigante como já se passou quase um ano de exercício do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, num governo claudicante, ameaçado de impeachment sem ter tido, na verdade, a oportunidade sequer de começar, e ainda não apareceu um sucessor bem situado e com perspectiva de se colocar na disputa de uma forma segura. Os três anos que faltam para a campanha formal são um tempo longo demais para deixar candidatos na rua, expostos às intempéries, mas se o governo continuar neste funcionamento vazio, uma engrenagem que só faz ratear, será inevitável que a escolha do próximo presidente da República tome conta do espaço político do país e nem a crise econômica mobilizará eleitos e eleitores.

Isso só não aconteceu, ainda, porque não há um nome em nenhum partido com o seu destino ligado a esta cadeira. As legendas, também, como o governo, soluçam, e não conseguem informações precisas sobre quem e o quê quer o eleitorado.

As pesquisas de opinião mais recentes mostraram o cenário oco do momento, em que todos os possíveis candidatos, do governo ou da oposição, estão mais ou menos situados no mesmo patamar de intenção de voto e de rejeição.

O cientista político e sociólogo Antonio Lavareda desestimula, nos seus estudos, que se considere, nas vastas listas submetidas ao eleitorado nesses levantamentos, os nomes que não participaram da última eleição. "Os que não foram candidatos, independentemente de a pesquisa dizer que o eleitor o conhece bem, não são conhecidos", afirma. Na maioria das vezes, submetem-se ao eleitor os nomes em lista estimulada, e em seguida pergunta-se se conhece aquelas figuras. Ora, quem respondeu à intenção de voto estimulada acabou de conhecer, não fazem nem três minutos, aquele candidato, portanto é uma resposta inócua para referência.

No caso das pesquisas deste fim de ano, seria necessário então, por esse princípio, separar o senador José Serra e o governador Geraldo Alckmin, ambos do PSDB. Foram citados pelo nível de conhecimento mas já vai longe o ano em que foram candidatos a presidente.

Restaria considerar, no grupo do governo, o candidato Luiz Inácio Lula da Silva, e no da oposição, Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (Rede). A única constatação, óbvia, que as pesquisas permitem fazer, é que os dados apurados mostram que a candidatura do ex-presidente Lula é inviável, hoje, e o PT bem faria se começasse a testar outros nomes, de preferência escolhendo-os entre os seus filiados que não participaram da cúpula partidária, nos últimos anos, por razões evidentes por si.

Por que a candidatura Lula se mostra inviável? O ex-presidente está com uma rejeição inédita, até mesmo no Nordeste, seu reduto mais fiel. Hoje, 55% do eleitorado diz que não votaria em Lula de jeito nenhum. Esse percentual era de 33% em maio do ano passado, uma queda vertiginosa para alguém carismático que cultiva a fama de pai dos pobres, que se vitimiza ainda com sucesso a qualquer obstáculo com que se depara na sua carreira política.

Só a rejeição, porém, não é tudo. Lula aparece nas respostas de 67% dos eleitores como tendo responsabilidade nos fatos criminosos em investigação na operação Lava-Jato.

São, então, 55% de rejeição, 67% que o responsabilizam pelo maior escândalo que sangrou a maior estatal brasileira. Um veredicto que torna inviável sua candidatura, hoje. A Lava-Jato, bem como agora a Operação Zelotes, no caso do Lula, constituem o fato político, jurídico, policial mais importante dessa conjuntura que vai empurrar o país até a sucessão e sobre ela exercer uma influência decisiva. As duas taxas combinadas são mortais para Lula, mas não o tirarão da campanha que se desenvolve hoje até que possa trabalhar por alguém. Vai ficar reservando lugar até o fim. Quem sabe não fica? Tudo depende.

Há, na cúpula do PT, com todas as ressalvas de que esse quadro pode mudar a partir do ano que vem, se houver recuperação econômica do país, quem defenda que, se o PT quiser ter a chance de manter o poder federal, melhor faria se encontrasse um nome, ou alguns nomes para serem testados desde já. Alguém, inclusive, a ser adotado pelo ex-presidente num grupo de petistas insuspeitos, fora da máquina partidária e do governo.

Da oposição são dois os candidatos que participaram da eleição do ano passado, e as pesquisas têm respostas diferentes para Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (Rede).

Aécio teve 33,55% dos votos válidos no primeiro turno e 48,36% dos votos válidos, no segundo turno. Houve um crescimento substantivo do primeiro para o segundo turno. As pesquisas deste mês, contudo, mostram o senador Aécio Neves reduzido à votação do primeiro turno que, de resto, é a votação padrão do PSDB em eleições presidenciais, seja quem for o candidato.

Na pesquisa MDA/CNT, Aécio aparece com 32% das intenções de voto, provando que tudo o que agregou em outubro de 2014, cerca de 15 pontos percentuais, ele não conseguiu reter.

É fato que na disputa do segundo turno o candidato recebe parte da votação do terceiro lugar e a adesão de quem não vota no seu adversário de jeito nenhum. Mas não conseguir agregar um votinho desses, conquistados fora do eleitorado do PSDB, é um fenômeno altamente negativo, cujas causas é preciso procurar. O senador Aécio Neves, que quase venceu a eleição presidencial, teve mais de 51 milhões de votos, e num espaço de um ano não conseguiu construir uma relação com esse eleitorado.

Marina Silva, outra candidata de 2014 no campo da oposição, terceiro lugar no primeiro turno, não está bem, mas em melhor situação que seus adversários, por enquanto na pesquisa, não se sabe se na eleição. Talvez até pelo silêncio que se impôs (ganhou com isso), só quebrado para revelar posições inaceitáveis para os eleitores, como condenar o impeachment (perdeu com isso), tornou-se incompreensível e no lusco fusco manteve-se em equilíbrio. No primeiro turno de 2014 teve 21,32% dos votos, e na pesquisa de agora 21,3% das intenções de voto.

O fato de não assumir posições e manter-se discreta por algum tempo pode tê-la ajudado a escapar da implacável opinião pública.

Elio Gaspari - A fábrica de trapalhadas da doutora

• O governo botou no ar um sistema sinistro e autoritário para o cadastramento dos empregados domésticos

- O Globo

Simples Doméstico é autoritário e sinistro. Quando o governo da doutora Dilma parece ter esgotado seu arsenal de encrencas, ele inventa uma nova. A última chama-se “Cadastro de Empregados Domésticos” e atende pelo apelido de “Simples Doméstico”. Os çábios de burocracia da Receita Federal e do Ministério da Previdência puseram no ar um sistema de cadastramento que obriga as vítimas a padecer num processo com pelos menos 15 etapas, lidando com siglas como CPF, CEP, NIT, GRF, DIRF, DAE, PIS, e FGTS.

Se o CPF de um empregado estiver suspenso, ele deverá ir a uma agencia do Banco do Brasil, da Caixa ou dos Correios e a audiência custará R$ 7. As agencias do Poupa Tempo não fazem esse serviço. Claro, o cidadão não tem o que fazer e, portanto, não há por que lhe poupar o tempo.

O empregador deve ter à mão suas declarações de Imposto de Renda de 2014 e 2015. O empregado que já estiver registrado no FGTS deve informar a data em que se inscreveu. Para os çábios, essa é uma data inesquecível, como o 7 de setembro.

Mesmo que o infeliz tenha a sua vida organizada, ao preencher os formulários pode receber a seguinte mensagem:

“Ocorreu um erro, informe o ticket do erro aos administradores.”

Afora o mau português, o tal ticket podia ser o seguinte: “2015110113714DU1WTPZGE4” Noutra travada, a mensagem disse: “Não foi possível efetuar a operação. Por favor, tente de novo mais tarde. Anote o número do ticket, ele será solicitado pela Central de Atendimento.”

Em muitas ocasiões a Central simplesmente não atendia.

O sistema encrencou desde o primeiro dia. O sujeito fazia tudo direito, recebia uma senha, e ela era imprestável.

Toda essa burocracia derivou da inépcia, da megalomania e do autoritarismo. Da inépcia porque trava. Da megalomania porque embutiram um censo socioeconômico dos trabalhadores domésticos no que deveria ter sido um simples cadastro. Do autoritarismo porque o çábios tiveram 18 meses para organizar o site e deram seis dias aos cidadãos para cadastrar os empregados. (Se alguém estiver de férias, dançam todos.) A doutora já deixou 28 embaixadores estrangeiros na fila para a cerimônia de entrega de credenciais. Alguns esperaram por mais de um ano, mas na hora de botar os outros para trabalhar, os prazos do seu governo são curtos, com direito a multa.

Encrencas com sistemas fazem parte da vida. Em 2013, o presidente Barack Obama passou pelo vexame de ter colocado no ar um site bichado. Humildemente, pediu desculpas.

O governo não pode dizer que a lambança é coisa da elite ou de Eduardo Cunha. Não se deve esperar que a doutora peça desculpas, mas seria razoável que, já na segunda-feira, tivesse estendido o prazo para preenchimento do cadastro. Só um doido poderia pensar que os çábios trabalham num feriado.

Dilma Rousseff deve reler o que diz. Em junho de 2014 (ano eleitoral) ela informou:

“A burocracia distorceu as necessidades do Estado brasileiro por mais de 50 anos. Para avançarmos, é necessário tornar o Estado brasileiro não um Estado mínimo, como querem alguns, mas um Estado eficiente, transparente e moderno".

Eleita, retomou o tema em janeiro passado. Prometia ação:

“Lançaremos um Programa de Desburocratização e Simplificação das Ações do Governo. Menos burocracia representa menos tempo e menos recursos gastos em tarefas acessórias e secundárias.”
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Elio Gaspari é jornalista

José Nêumanne - No cavalo de Agamenon,às portas de Troia

- O Estado de S. Paulo

Na quinta-feira 29 de outubro, em Brasília, onde assumiu a Presidência de fato no segundo mandato de sua substituta conveniente e conivente, Dilma Rousseff, Luiz Inácio Lula da Silva divertiu sua claque no Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) com as metáforas de hábito e a grosseria de praxe. Nesse discurso, confessou que a afilhada praticara estelionato eleitoral na campanha vitoriosa da reeleição em 2014. “Tivemos um problema político sério, porque ganhamos a eleição com um discurso e depois das eleições tivemos que mudar o nosso discurso e fazer aquilo que a gente dizia que não ia fazer”, disse.

Na ocasião, proibiu investidas do PT contra o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), tido como o maior desafeto de Dilma e do partido. “Tudo o que interessa à oposição é que a gente arrume quinhentos pretextos para discutir qualquer assunto e depois não discutir o que interessa, que é aprovar o que a Dilma mandou para o Congresso Nacional. A não ser que tenha alguém aqui que ache que isso não é importante. Primeiro, vamos tentar derrubar o Eduardo Cunha, depois derrubar o impeachment e, depois, se der certo, a gente vota nas coisas que a Dilma quer”, ironizou. E recuou das rudes críticas que antes fazia ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

Nunca antes em sua vida pública, desde que assumiu a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, em 1975, Lula foi tão claro, estratégico e cuidadoso em qualquer discurso. Fez-se muito barulho em relação ao reconhecimento do estelionato, crime definido no Código Penal. Com a agravante de ter sido um estelionato que vitimou a Nação, em especial o eleitorado que não anulou voto, votou em branco ou se absteve de votar e, em particular, os brasileiros mais pobres e menos esclarecidos que acreditaram em sua candidata. E daí? Qualquer advogadinho do PT sabe e, na certa, lhe informou que estelionato não basta para abrir processo de impeachment contra a presidente.

Além disso, Lula recebe de novo inestimável apoio de quem se apresenta à cidadania como adversário. Há um vácuo jurídico na Constituição de 1988: inexiste lei que regulamente o impedimento de presidente. O texto legal de 1950, aos 65 anos de vigência, serviu de base para levar Collor a renunciar. Mas não é suficiente para depor Dilma de forma democrática. E é nesse argumento incontestável que os dependentes da miríade de boquinhas do governo lulodilmopetista se apoiam para chamar de “golpista” quem não suporta mais a presidente (7 em 10 brasileiros). A Constituição vige há 27 anos, o oitavo mandato presidencial está começando e nunca parlamentar algum cuidou desse detalhe.

Este não é, definitivamente, um pormenor para a oposição, que não encontrou até agora base jurídica séria para fazer o que a Nação quase inteira exige: retirar a estelionatária de palanque do cargo poderoso do qual comanda esta nossa marcha da insensatez para monumentais crises moral, econômica, política e quase à beira de outra, a institucional. Lula sabia disso quando confessou o delito da preposta. Os adversários, tudo indica, não.

Em relação à reeleição, recorde-se ainda que o líder do PSDB na Câmara, Carlos Sampaio (SP), requereu recontagem dos votos para verificar se não houve fraude na vitória da presidente sobre o senador Aécio Neves (PSDB-MG) no segundo turno do pleito de 2014. Qualquer usuário de computador em jardim de infância sabe que, no sistema de coleta e contagem de votos no Brasil, recontar votos é simplesmente impossível. Um ano depois, com a vencedora enredada em outras suspeitas, Sua Excelência disse o que todos já sabiam: não dá para recontar. Não contou, porém, por que, do alto de sua sapiência legislativa, não empreendeu alguma lei que ao menos dificultasse as fraudes que qualquer hacker iniciante pode praticar no Brasil.

O pior é que, mesmo sem o haver dito explicitamente, o ex no poder avalizou o mais asqueroso pacto de conivência criminosa de nossa História. Nele, a primeira mandatária da República e o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, dois degraus abaixo dela na escada sucessória, achincalham as instituições garantindo um a impunidade da outra, e vice-versa. Em sua frase aqui citada, Lula não precisou de nenhum argumento para mandar seus asseclas evitarem incômodos a Cunha, fazendo ouvidos de mercador às evidências que brotam no seu prontuário policial como capim em pasto farto. A aceitação muda e mansa dos petistas à ordem do chefe, que, tal qual um Ulysses Guimarães do século 21, passou a comandar o governo federal, o partido e a oposição, é a maior prova de que apenas emudeceu o óbvio que, apud Nelson Rodrigues, ulula.

E se havia alguma dúvida de que o ex resolveu assumir, mantendo a preposta como rainha da Inglaterra de plantão, esta foi dirimida por sua guinada de 180 graus ao apoiar os ajustes e o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. O padimaceitou outro óbvio – de que a cabeça de Dilma está sob a espada de Dâmocles, suspensa pelo fio do rabo de um cavalo. O fio é dos bancos, que com a crise têm lucrado como nunca ninguém lucrou. Nisso ele é craque: há 40 anos o clã Lula da Silva morava numa vila operária e hoje se espalha em apartamentos de luxo, até na praia, mercê de sua carreira de palestrante para empresas acusadas de delinquir – o que lhe permitiu movimentar R$ 52,3 milhões em quatro anos, conforme o Coaf.

O descalabro de quatro desgovernos do PT, delatado nas Operações Lava Jato e Zelotes e com 3 mil brasileiros perdendo o emprego todo dia, mostra que o cavalo de cujo rabo pende a espada, e que Lula monta, após destruir tudo ao redor – empresas, empregos, crédito de agências de risco, honra e pudor –, não é de Átila, mas de Agamenon. Pois, às portas de Troia, abertas com a conivência de adversários néscios, ele planeja invadir-lhe as ruínas.
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José Nêumanne é jornalista, poeta e escritor

Zuenir Ventura - Por que Lula e FH não se falam?

• Estranha é a atitude do líder petista rejeitando o diálogo, ele que sempre ganhou usando a palavra, desde as históricas greves do ABC Paulista

- O Globo

A exemplo de muitos leitores, estou cansado de ouvir falar de crise — das causas, dos culpados, dos sintomas — e pouco das soluções. Temo que do fastio se passe à anestesia, à medida que o mal ameaça tornar-se crônico e incurável. Por isso, recebi com otimismo (talvez exagerado) sinais de que o diagnóstico pode estar dando lugar ao prognóstico, ou seja, às providências para o tratamento e a cura. Paradoxalmente, os acenos à paz vêm de lados opostos: um, do PMDB, através do documento “Uma ponte para o futuro”; e outro, de um dos mais importantes representantes do PSDB, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, por meio de uma entrevista ao programa “Conexão Roberto d’Ávila”, da GloboNews. Em ambos, a saída seria pelo mesmo caminho, apontado pelas mesmas palavras ou por sinônimos: busca da conciliação, do entendimento, do consenso, do pacto. É como se dissessem: já que o desacordo nada resolveu até agora, por que não experimentar o acordo e, em vez da troca de ofensas, a troca de ideias?.

“O país clama por pacificação”, afirma a principal sigla de apoio ao governo, depois do PT, no seu pacote de propostas e críticas, enquanto FH, por sua vez, diz: “Não se sai de uma encalacrada do tamanho da nossa se um fica acusando o outro”. Para ele, é indispensável uma “autocrítica coletiva”, além de posições novas. “O PT foi engolido por uma utopia regressiva”, que se caracterizaria pela simpatia por modelos que estariam falidos, como o da Venezuela.

O líder tucano se diz disposto a se sentar com os adversários para discutir alternativas, tendo se mostrado “mordido” por Lula não ter respondido a seus convites de encontro, “o que não justifica que agora não se tente ver como sair de onde estamos”. Ele acredita que está na hora de conversar, “desde que tudo seja público”, embora não tenha esperança de que isso aconteça com a presidente: “Ela não tem a vocação para a conversa, não só comigo, mas com o país, com o Congresso”.

Estranha é a atitude do líder petista rejeitando o diálogo, ele que sempre ganhou usando a palavra, desde as históricas greves do ABC Paulista, quando, em plena ditadura, aquele torneiro mecânico ensinou a classe operária a negociar com os patrões. Os dois rivais políticos têm uma trajetória de luta do mesmo lado contra o regime militar e, no fundo, se admiram, com um pouco de inveja mútua. No meio de tanta baixaria e coisa ruim na política, uma pergunta sem malícia, até ingênua, para tentar decifrar o mistério: por que o silêncio de Lula aos convites de FH?

Vinicius Torres Freire - Precisamos falar sobre câmbio

- Folha de S. Paulo

"O Brasil está em liquidação", "muito barato para investidores de fora". O ataque comprador desta terça-feira nos mercados financeiros daqui faz lembrar dessas frases de segunda-feira de Abílio Diniz, presidente do Conselho da BRF.

Diniz acredita que o real a R$ 4 estaria desvalorizado além da conta; melhor a R$ 3,50. Com dólar na estratosfera, quem tem dinheiro "lá fora" (brasileiro ou não) compra um Brasil mais barato, óbvio, de empresas a serviços para turistas.

Dados o desânimo, a taxa de juros e o estado avariado de várias empresas, fica ainda mais barato comprar Brasil (e estão comprando, mas aos poucos, pelas bordas. Sim, o nacionalismo dilmiano deu numa xepinha).

Ontem foi dia de xepa, de comprar banana e verdura baratas no fim da feira? Pode ser, um tanto, como já houve dias recentíssimos de "família põe tudo a venda", com brasileiros e "estrangeiros" dando o fora. Parece que o mercado daqui seguiu na onda de mercados emergentes primos e de outras volubilidades dos donos do dinheiro pelo mundo, animados desde segunda. Isso tudo é especulativo, proteste-se.

Mais importante talvez seja observar a descabelada volatilidade dos preços de ativos financeiros no Brasil, do dólar em particular, em especial desde finais de 2014. A balbúrdia global nos contamina, mas nos destacamos em termos de preços que se agitam como loucos.

O Ibovespa subiu 4,76%. O dólar caiu 2,36%, com a ajuda do Banco Central, decerto. A Petrobras meio arruinada virou brincadeira de cassino. Ainda assim: variar mais de 10% em um dia? Um banco enorme e estável como o Itaú subir 6,5%, sem haver grande notícia (lucrou bem? Bidu!)?

Se a política do BC é evitar solavancos excessivos no câmbio, parece não dar lá muito certo ou, então, sem a intervenção cambial estaríamos em um "segura, peão!" ainda maior, sinal de transtornos de fundo mais graves.
Talvez a desvalorização extra represada esteja batendo à porta e estejamos gastando dinheiro à toa com cabrestos para o dólar.

Há queixas sobre a volatilidade do câmbio, que dificultaria a retomada regular de exportações, pois não se sabe bem o preço do comércio exterior. Há temores talvez ainda maiores de que, se o BC não tentasse domar o dólar, a quantidade de empresas no brejo seria enorme, crise indomável, com impactos ainda maiores do que o das perdas do BC com swaps cambiais (equivalentes a um seguro contra a desvalorização do real).

Como se sabe, o pessoal do BC acha absurda a ideia de que existam perdas. Quando o dólar se desvaloriza, diz, as reservas internacionais inflam em reais, mais que compensando as perdas com swaps. Faz sentido, mas, se não houvesse swaps, o ganho seria ainda maior.

Nada disso é simples. Uma quebradeira de empresas, estatais inclusive, poderia levar além da Lua o risco de investir no Brasil e, pois, as taxas de juros, provocar estiagem de crédito para o país.

Ainda assim, por quanto tempo e em qual volume haverá esse seguro público para o setor privado, seguro que começou a ser oferecido em meados de 2013? Quais os efeitos colaterais? Precisamos falar sobre swap cambial e dólar.

Cristiano Romero - Uma proposta para desinterditar o debate

• Com documento, Temer apresentou-se como alternativa

- Valor Econômico

O aspecto mais relevante do documento "Uma Ponte para o Futuro", lançado na semana passada pelo PMDB, é que ele trata, de maneira lúcida, de temas interditados no debate econômico brasileiro. A interdição foi promovida pelo discurso e a prática dos governos do PT desde a ascensão de Luiz Inácio Lula da Silva ao poder, em 2003. O documento é, por isso mesmo, um manifesto contra a forma como a presidente Dilma Rousseff governa o país. É, claramente, um aceno do vice-presidente Michel Temer, que se apresenta como alternativa diante de um possível impeachment da presidente.

Nos piores momentos da atual crise política, Temer conversou com empresários em São Paulo. Seu perfil é o de um político conservador, mas, ainda assim, os interlocutores tinham dúvidas sobre o que ele faria se assumisse a presidência. Ademais, um de seus aliados no meio empresarial - Paulo Skaf, presidente da Fiesp - faz campanha aberta pela demissão do solitário integrante do governo Dilma - o ministro da Fazenda, Joaquim Levy - interessado em realizar o ajuste fiscal, único caminho possível para tirar a economia brasileira da crise em que se encontra.

"Uma ponte para o Futuro" cumpre o papel de dar uma agenda não só a Temer, mas também ao país. É uma agenda esquecida, ou melhor, abandonada. Nos primeiros três anos de poder, Lula, pragmático, aceitou a herança de Fernando Henrique Cardoso e fortaleceu o arcabouço econômico encontrado. Paralelamente, realizou reformas que nem seu antecessor ousou fazer - a da previdência do setor público, por exemplo, igualou as regras de aposentadoria do funcionalismo às do trabalhadores do setor privado e obrigou os inativos a contribuírem para a previdência.

Lula abraçou uma agenda na área econômica que pouco diferia da de FHC. Com a eclosão do mensalão em 2005, fragilizou-se politicamente e começou a promover uma inflexão no ideário econômico. O marco do início daquele processo foi a derrubada, pela então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, da proposta de déficit zero feita pelos ministros da área econômica - Antonio Palocci (Fazenda) e Paulo Bernardo (Planejamento). Contrária a tudo o que Dilma pensa, a proposta foi tachada por ela de "rudimentar".

Dois dos formuladores do documento do PMDB participaram daqueles momentos. Marcos Lisboa, hoje presidente do Insper, foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda entre 2003 e 2006 e o principal formulador das reformas microeconômicas da gestão Palocci. O ex-ministro Delfim Netto, juntamente com o economista Fábio Giambiagi, do BNDES, foi um dos idealizadores do projeto "déficit zero" - a lógica da ideia era que, tendo superado a severa crise de confiança de 2002/2003, o país reunia as condições para dar o passo seguinte e, assim, eliminar o déficit público, problema que está na origem de muitos males da economia (juros altos, dívida elevada, inflação renitente, baixo nível de poupança doméstica etc).

O fracasso retumbante da política econômica do governo Dilma e a resistência da presidente a mudá-la criaram espaço para o retorno de agendas como a preconizada em "Uma Ponte para o Futuro". Embora não responsabilize Dilma pelos desequilíbrios existentes na economia, o documento do PMDB, que contou também com a contribuição de especialistas como Paulo Rabello de Castro e José Márcio Camargo, deixa claro que o atual governo vai na direção contrária do seu enfrentamento.

Alguns exemplos são notáveis:

1) o documento recomenda o fim de todas as vinculações e indexações que engessam o Orçamento. No governo, Dilma superindexou o salário mínimo ao atrelar sua correção à variação da inflação e do PIB. Ela também rejeita qualquer proposta para desvincular o mínimo do piso da previdência. Além disso, jamais aceitou estabelecer um limite legal para as despesas de custeio. Dilma é contra, também, acabar com as vinculações para gastos com saúde e educação, uma regra da Constituição que, na prática, estimula a ineficiência e não ajuda a resolver os problemas dos dois setores;

2) o PMDB propõe a volta do regime de concessão na exploração do petróleo da camada pré-sal. Dilma é a mentora do regime de partilha, que está na origem da ruína da Petrobras e é uma das sementes, com o forçado gigantismo da estatal, do ruidoso esquema de corrupção a cujo desbaratamento a sociedade brasileira assiste perplexa. A exigência de conteúdo nacional, que está na raiz da ineficiência do setor, é cara à presidente;

3) o texto recomenda a inserção plena do Brasil no comércio internacional, com maior abertura e fechamento de acordos regionais (uma vez que os multilaterais estão bloqueados na OMC). Desde que chegou ao poder, Dilma elevou as tarifas de importação de vários setores e deixou o país fora de todas as negociações relevantes, criando um perigoso isolamento que nos custará caro (o desvio de comércio está fazendo o Brasil perder espaço em mercados tradicionais). O governo petista é contrário também à negociação de acordos sem a presença da Argentina e, agora, também da Venezuela;

4) o documento sugere que as agências reguladoras tenham independência e sejam despolitizadas. Dilma, assim como seu antecessor, acha que as agências devem ser instrumento de políticas públicas, portanto, não podem ser autônomas. Em seu governo, a maioria das agências funciona de forma precária, sem que sequer as diretorias sejam preenchidas;

5) a proposta fala em redução da relação dívida/PIB e cumprimento da meta de inflação. Na gestão Dilma, isso nunca foi prioritário. O IPCA esteve sempre acima da meta de 4,5% e, neste ano, deve chegar a 10%. Já a dívida pública se deteriora rapidamente, o que já fez o país perder o grau de investimento.

"É dever do governo e da sociedade manter baixa a inflação porque não apenas servidores públicos e beneficiários da previdência e da assistência social merecem a preservação do seu poder aquisitivo, mas todos os brasileiros em geral", diz o documento, referindo-se à indexação da despesa previdenciária e assistencial. "Se para manter o poder de compra dos que recebem rendas do Estado deixamos a inflação fora de controle ou muito alta, estamos penalizando a grande maioria da população, que não tem a seu favor mecanismos automáticos de indexação."

Míriam Leitão - Os sinais da balança

- O Globo

O Brasil vai bater recorde na exportação de milho. Nunca produziu tanto. Todo o agronegócio tem conseguido compensar em parte a queda dos preços com o crescimento da quantidade exportada. O excelente saldo de outubro, de quase US$ 2 bilhões, foi influenciado por este aumento do volume de vendas, mas foi resultado principalmente da forte queda das importações.

O superávit é muito dependente da queda nas importações, é isso que explica em grande parte o saldo positivo de 2015, que está em US$ 12,2 bilhões. O economista José Roberto Mendonça de Barros acredita que no ano que vem o superávit deve dobrar, indo dos US$ 14 bilhões a US$ 15 bilhões de 2015 para cerca de US$ 30 bilhões em 2016.

— O Brasil vai exportar este ano 27 milhões de toneladas de milho, uma montanha nunca vista. O clima esteve no ponto certo. Agora é que o excesso de chuva começou a afetar o plantio no Rio Grande do Sul, o que afetará a safra do ano que vem de soja, milho, arroz. Nas exportações agrícolas está havendo aumento da quantidade, e queda nos preços —, diz José Roberto.

É a soja, e não o milho, o nosso principal produto agrícola. Mas na maioria das culturas tem havido aumento de volume, explica o economista.

— Numa escala bem menor aconteceu com o arroz, que nós nunca exportamos e estamos vendendo este ano. A maior explicação para o resultado de outubro foi que a média diária de importação despencou 21,1%, frente a outubro de 2014. O saldo é positivo porque as exportações caíram menos, 4,1%. O dólar alto explica parte do cenário. Mas a diminuição na demanda por importados está acontecendo num ritmo forte.

Até quem acompanha de perto o movimento da balança comercial se assustou. Nas primeiras quatro semanas de outubro, o superávit acumulado no mês estava em US$ 880 milhões. Na última semana, saltou para US$ 1,996 bi. José Augusto de Castro, presidente da Associação do Comércio Exterior do Brasil (AEB) explicou que a média diária das importações encolheu para US$ 500,3 milhões.

— Em janeiro e fevereiro, o país importava mais de US$ 800 milhões ao dia. Em março, a média caiu para US$ 700 milhões. Recuou para US$ 600 milhões ao dia em agosto e agora diminuiu mais, para US$ 500 milhões. A média na última semana é similar ao que o país registrava em 2007. É muito pouco —, diz Castro.

José Roberto Mendonça de Barros explica que há anos a importação não cai de forma tão acentuada. E a queda é provocada por dois fatos: a alta do dólar e a diminuição da demanda interna pela recessão.

— Há um efeito de substituição de importações por causa do dólar alto que tem ajudado alguns setores, como o de têxtil e confecção, que além de vender para o mercado interno projeta um aumento da exportação de 10% no ano que vem — diz Mendonça de Barros.

O presidente da AEB, José Augusto de Castro, lembra que parte dos produtos consumidos no Natal é importada, mas nem as festas de fim de ano estão influenciando a balança em 2015.

No ano, as importações caíram 22,4%; as exportações recuaram 15,2%. Nesses 10 meses, o país comprou US$ 148,3 bilhões do restante do mundo, e vendeu US$ 160,5 bi. A soma desses valores é a corrente de comércio. Ela encolheu 18,8% na comparação com 2014.

— Estamos formando superávit, mas o que vale é a corrente de comércio. Ela indica como está a atividade da economia. A corrente está recuando. É bom ter superávit da balança comercial. Mas este resultado foi conquistado porque as exportações caíram menos que as importações. É o que chamo de “superávit negativo” —, lamenta Castro.

A participação do país no comércio global, que era de 1,19%, deve terminar o ano abaixo de 1%. Com a queda forte das importações, a AEB vai revisar novamente sua projeção para o superávit do ano. Em julho, a expectativa era de resultado positivo de US$ 8 bi. Agora deve chegar a US$ 13,5 bi.

José Roberto Mendonça de Barros continua achando que a recessão será profunda, porém curta. Ele não aposta num encolhimento do PIB do ano que vem na mesma intensidade de 2015. E acredita que, com o dólar alto, pode haver um grande movimento de consolidação na economia, repetindo eventos como o do Hypermarcas e Coty, que animou a bolsa ontem.

Um legado do lulopetismo – Editorial / O Estado de S. Paulo

Não deveria espantar a projeção, publicada pelo Estado, de que 3,3 milhões de famílias que haviam chegado à classe C entre 2006 e 2012 farão o caminho de volta para a base da pirâmide até 2017. Também não deveria causar surpresa a previsão segundo a qual o PIB per capita brasileiro terá em 2020 o mesmo nível de 2010, afetando drasticamente o padrão de vida da festejada “classe média emergente”. Trata-se da confirmação das advertências que há tempos vêm sendo feitas a respeito da fragilidade dessa ascensão social, tratada na última década pelo governo petista como a prova do acerto de sua política econômica.

Em meio a uma recessão que promete ser longa e dolorosa, ficaram claros os erros grosseiros dessa política, em especial aqueles que arrebentaram as contas públicas em nome do assistencialismo travestido de redistribuição de renda e que construíram a tal “nova classe média” com base exclusivamente no aumento do poder de consumo, garantido pelo crédito farto que só existia em razão da conjuntura externa favorável. Na época de ouro do lulopetismo, no entanto, quem quer que ousasse apontar a vulnerabilidade dessa nova classe média era logo classificado de “pessimista” – ou, pior, inimigo do povo.

No décimo aniversário do Bolsa Família, em outubro de 2013, quando a tempestade que se aproximava ainda era confundida com chuva de verão, o ex-presidente Lula caprichou na retórica divisiva, atribuindo as críticas à política petista a uma certa “elite” incomodada pela “ascensão do pobre”. “O cidadão vai para o aeroporto, chega lá e vê a empregada dele com a família no avião, pegando o lugar dele. Eu sei que é duro”, discursou Lula. No mesmo embalo, durante a campanha de 2014, a presidente Dilma Rousseff disse que “33 milhões viajaram de avião em 2002, hoje são 113 milhões e, em 2020, serão 200 milhões” – algo que, segundo ela, “incomoda muita gente”.

Ao final de 2015, o sonho da classe C que viaja de avião se transformou no pesadelo dos pobres que mal conseguem pagar a passagem de ônibus para ir atrás de um emprego. “Estamos vivendo, infelizmente, o advento da ex-nova classe C”, resumiu o economista Adriano Pitoli, responsável pelo estudo da Tendências Consultoria Integrada que mediu o impacto da crise nessa faixa socioeconômica.

A pesquisa levou em conta uma projeção segundo a qual a economia deverá recuar 0,7% ao ano entre 2015 e 2017 e a massa real de rendimentos cairá 1,2% ao ano, ao mesmo tempo que o desemprego deverá chegar a quase 10%. Nesse cenário de dificuldades, emergem os problemas estruturais que tornam difícil para os que chegaram à classe C lá permanecer: baixa escolaridade, que limita a possibilidade de obter empregos de melhor remuneração; acesso a trabalho apenas no mercado informal, com escassa proteção social; e nenhuma poupança, já que, graças ao estímulo oficial ao consumo, a pouca renda acabou sendo comprometida integralmente na aquisição de bens, geralmente por meio de forte endividamento.

A situação calamitosa da economia afeta especialmente a base da pirâmide, mas será sentida em quase todas as outras faixas de renda. “É uma década perdida em termos de padrão de vida”, disse ao jornal Valor o pesquisador Armando Castelar, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre-FGV).

E a perspectiva é sombria para os próximos anos: segundo o economista Antonio Corrêa de Lacerda, também ouvido na reportagem, o PIB per capita em dólares deve cair de US$ 11.566 em 2014 para US$ 8.490 neste ano e para US$ 7.900 em 2018. Isso significa que a renda dos brasileiros estará cada vez mais distante do padrão de países desenvolvidos – mesmo aqueles que enfrentam brutais dificuldades, como a Grécia, cujo PIB per capita é de US$ 21.682.

Esse é, pois, em resumo, um dos grandes legados do lulopetismo, que será sentido por gerações, e que só poderá ser superado por meio de uma grande mobilização nacional em torno de um projeto de país radicalmente distinto das fantasias irresponsáveis criadas por Lula e companhia bela.

Bumlai joga suspeitas sobre o BNDES – Editorial / O Globo

• O banco, instrumento essencial na industrialização do país, passou também a aparecer em histórias nada edificantes de favorecimentos a empresas próximas ao Planalto

Fundado em 1952, no segundo governo Vargas, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), ainda sem o “S”, de Social, se mistura à história da industrialização brasileira e da expansão da infraestrutura do país. Já há algum tempo um dos maiores bancos de fomento do mundo, a instituição é ator de primeira grandeza em bons ou maus momentos da economia.

Mas, nestes últimos tempos, sob controle petista, tem aparecido também em crônicas de relações “não republicanas" entre o Planalto, o partido e o mundo dos negócios.

Instrumento usual de intervenção do Estado na economia — foi assim no regime militar, no governo Geisel, na fracassada substituição de importações de máquinas, equipamentos e insumos básicos —, o banco também seria usado pelo PT com objetivos semelhantes. Um desses programas de pedigree “Brasil Grande”, típico da ditadura militar, foi a tentativa de criação de “campeões nacionais”, com apoio maciço, por meio de dinheiro público, a empresários escolhidos para serem grandes e fortes também no exterior. Alguns se tornaram generosos financiadores de campanhas políticas de petistas e oposicionistas. Mais de petistas.

O banco aparece também no meio de relacionamentos perigosamente próximos de Lula, na Presidência e fora dela, com empreiteiras, a Odebrecht a mais destacada delas.

O Ministério Público Federal de Brasília investiga o assunto. Há o entendimento de que Lula teria feito gestões impróprias junto ao banco para que ele financiasse obras da empreiteira em Cuba e outros países.

Estourou no fim de semana outro caso, de grande poder corrosivo — da imagem de Lula e do banco —, revelado pela “Folha de S.Paulo”, em que está envolvido o amigo do ex-presidente, o pecuarista José Carlos Bumlai.

A história é simples, mas bombástica: o empresário amigo, em dificuldades, já com pedido de falência na praça, conseguiu em 2012 do BNDES R$ 101,5 milhões para a São Fernando Energia 1, geradora a partir de bagaço de cana. Nove meses depois, a empresa entrou em concordata, e mais tarde o próprio BNDES requereu sua falência.

É razoável imaginar-se que uma análise cuidadosa do banco evitaria o problema. Ele, por sua vez, explica que quem responde pela avaliação do pedido de crédito é o banco intermediário (BB e BTG). Ora, e esses, principalmente o Banco do Brasil, não seriam permeáveis a pressões de gente ilustre na hierarquia petista?

O caso é típico da privatização maligna do Estado por meio do aparelhamento de estatais e da administração direta. Há uma CPI do BNDES instalada. Deveria investigar este escândalo e outras ocorrências suspeitas.

Mas como ela está paralisada pela luta político-partidária, resta confiar no MP, Justiça e Polícia Federal para mais uma empreitada moralizadora.

Beethoven - Silence

Graziela Melo - O canto do rouxinol

Se arrastam
os dias,
as vezes!

Outras,
loucos
se vão!

E vem
o medo
da morte

e se esconde
no coração!!!

Manhã bela!
Nuvens
tímidas,

me ofuscam
os raios
do sol!

Nas árvores
o doce
gemido

do canto
do rouxinol!!!!