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O Globo
O
Antônio Maria que se vai louvar aqui não é o padre, sucesso dos livros, discos
e missas da auto-ajuda moderninha. Hoje é o centenário de Antônio Maria, o
pecador.
O
pernambucano Antônio Maria foi nos anos 50 o grande cronista dos costumes
amorosos pela noite de Copacabana, o rei do samba canção triste em que sempre
havia alguém indo embora, alguém pedindo para voltar ou alguém garantindo que,
se morresse amanhã de manhã, sua falta ninguém sentiria. Sofria-se, maldizia-se
a sorte nesta existência.
Pois
Maria, infelizmente, parecia estar certo nessa letra de auto-desengano. Os
editores não sentiram sua falta. Este seu centenário vai encontrar as livrarias
sem qualquer livro de sua larva incandescente, nenhuma linha nova daquele que
um dia escreveu “a verdadeira espiritualidade começa na fadiga da carne
confortada”. Todas as coletâneas de suas crônicas estão genialmente esgotadas.
A
editora Todavia promete uma antologia para novembro, um prazo aflitivo pela
falta da garantia sanitária de que novembro e leitores ainda estarão por aqui.
“Ninguém me ama, ninguém me quer”, dizia Maria no seu samba canção mais
dolorido – os editores parecem de acordo.
Nenhum
livro a comemorar o centenário de um craque do mais brasileiro dos gêneros, a
crônica de jornal, aquele papo que parece furado, uma borboleta amarela que
passa aqui, um homem que nada ao fundo de Ipanema, e de repente ergue-se um
clássico das letras nacionais. Parece fácil, poucos conseguem. É uma pena que
ninguém possa comemorar o centenário de Maria lendo seus textos. Uma vez, aqui
no GLOBO, onde publicou a coluna “Mesa de Pista” entre 1954 e 1959, Maria
escreveu: “O que atrapalha minha vida foi ter visto e feito muita coisa desde
pequenino”. Pode ter sido isso.
Até
pouco tempo, qualquer escalação da seleção nacional de melhores cronistas
escalaria Rubem Braga, Carlinhos de Oliveira, Fernando Sabino, Verissimo, Paulo
Mendes Campos, João do Rio, Stanislaw Ponte Preta, Nelson Rodrigues e, vá lá,
Drummond. Maria é o nome mais recente nesse panteão. Todos os demais,
consagrados pelos anos, são fartamente editados e disponíveis, agraciados com
baús abertos e a descoberta milagrosa de novos textos a cada efeméride. A
exceção é o ora centenário.