quarta-feira, 17 de março de 2021

Luiz Carlos Azedo - Apagão logístico na Saúde

- Correio Braziliense

Queiroga assume o ministério deslumbrado com o cargo e alinhado com Bolsonaro, mas completamente perdido diante da gravidade da crise sanitária

O novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, assume o cargo em meio a um apagão logístico: faltam vacinas, mesmo com o escalonamento da programação, leitos, respiradores, oxigênio, material para intubação, sedativos e pessoal treinado em várias regiões do país. Em São Paulo, o estado com mais recursos, maior rede hospitalar e principal produtor de imunizantes do país, a situação é dramática, com uma morte a cada dois minutos. Queiroga fez, ontem, um discurso ambíguo, no qual defendeu a “política de saúde do presidente Jair Bolsonaro” e, ao mesmo tempo, destacou a importância das “evidências científicas” na condução da pasta, o que é uma contradição. Bolsonaro é contra as medidas de governadores e prefeitos para conter a propagação do vírus e evitar o colapso do Sistema Único de Saúde (SUS). Está deslumbrado com o cargo, mas completamente perdido diante da gravidade da situação.

Ricardo Noblat - Acuado pelo vírus, Bolsonaro assiste Lula atrair velhos aliados

- Blog do Noblat / Veja

Versão Lulinha paz e amor de volta à cena

De Guilherme Boulos a Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda na ditadura entre 1967 e 1974, passando por José Sarney (MDB) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB), todos admitem votar em Lula se ele disputar com Bolsonaro o segundo turno da eleição do próximo ano. É o tal “arco da sociedade” de antigamente.

Boulos e Delfim são os mais entusiasmados. O primeiro ainda não explicitou seu apoio a Lula porque tem antes de convencer o seu partido. A tarefa de Delfim é mais hercúlea – abrir trincas no paredão do mercado financeiro que resiste a Lula e ainda põe um resto de fé em Bolsonaro à espera das reformas.

Na eleição de 2018, quando o candidato do PSDB a presidente obteve no primeiro turno apenas 5% dos votos válidos, Fernando Henrique, embora amigo de Fernando Haddad (PT), preferiu não votar em ninguém no segundo turno. Arrependeu-se, como admitiu ontem em entrevista a Tales Faria, do UOL:

– Se ficar Lula e Bolsonaro, faço minha culpa, minha culpa e voto no menos ruim.

José Nêumanne - O bafo da mentira e o beijo da morte

- O Estado de S. Paulo

Ao levar o rebanho para o abismo da morte, mentindo, Bolsonaro é o Anticristo da pandemia

 “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida”, disse Jesus (João, 14; 6). João Evangelista, xará de meu avô paterno, era um marqueteiro de gênio: o slogan, composto em tríduo, como convém a apelos que vão ao coração e de lá à razão, resume bem a mensagem, que, creia-se ou não nela, é a mais completa tradução da busca da civilização na demolição da barbárie: a imunidade do espírito pela união do rebanho, com a busca permanente do conhecimento para retardar o fim pela sabedoria. Em três anos de seminário menor, preparei-me em orações, meditações e leituras para encarar o destino, não com trapaças e rixas, mas com resignação e fé. Ou seja, uma mistura de coragem e prudência, preservando o medo, forma imperfeita do cuidado.

Elio Gaspari - Bolsonaro fritou o bode

- O Globo / Folha de S. Paulo

O presidente e Pazuello encarnam um tipo de comando primitivo

Quando se acha que aconteceu de tudo, o capitão consegue mais uma. Fritando o general que transformou em bode expiatório, chamou a Brasília a médica Ludhmila Hajjar para convidá-la.

Bolsonaro e Pazuello encarnam um tipo de comando primitivo, às vezes confundido com o folclore da caserna. O general entrou no Ministério da Saúde com uma tropa de ocupação. Colocou 25 oficiais da ativa e da reserva em posições de comando. Um tenente-coronel cuidava das aquisições de insumos estratégicos; outro, de sua logística. Deu no que deu. O coronel secretário-executivo usava um brochinho com uma caveira atravessada por uma faca.

Afora isso, o próprio general dirigiu-se a parlamentares como se fosse um sargento falando a recrutas: “Não falem mais em isolamento social”.

Bruno Boghossian – A pandemia furou a blindagem

- Folha de S. Paulo

Morticínio abala tentativa do presidente de preservar força para reeleição

Quando a pandemia deu as caras, Jair Bolsonaro apostou todas as fichas em seu projeto de reeleição. O presidente sacrificou os esforços mais urgentes de contenção do vírus e tentou fazer com que a economia continuasse girando à força. A estratégia acentuou a tragédia no país e, agora, ameaça seus próprios planos políticos.

Até a virada do ano, Bolsonaro sustentou sua popularidade com base nesse discurso. O comportamento conflituoso manteve sua base eleitoral coesa, enquanto o pagamento do auxílio emergencial criou um colchão de aprovação ao governo. O morticínio que essa plataforma produziu, no entanto, começa a cobrar um preço do presidente.

A nova pesquisa do Datafolha indica uma tendência continuada de piora nos índices de avaliação de Bolsonaro. Ele nunca teve aprovação significativa durante a crise, mas agora 54% dos brasileiros consideram seu trabalho na pandemia ruim ou péssimo. A reprovação subiu tanto entre os mais pobres (que tiveram o auxílio) como entre os ricos (que já foram o núcleo de sua base de apoio).

Hélio Schwartsman - Aritmética vacinal

- Folha de S. Paulo

Se há benefícios, não vejo como ser contra a compra de vacina por empresas

Sou um entusiasta do SUS, em especial do Programa Nacional de Imunizações. Mas tenho certa dificuldade em colocar-me contra a aritmética. Se a liberação da compra de vacinas pela iniciativa privada trouxer para o Brasil doses que de outra forma não chegariam e ainda diminuir o tamanho da fila pública, não vejo como ser contra.

O sujeito que se vacina contra a Covid-19 produz dois benefícios, um para si mesmo, já que reduz significativamente a chance de se contaminar e desenvolver um quadro grave da moléstia, e outro coletivo, já que contribui, ainda que mais difusamente, para reduzir a circulação do vírus e evitar a superlotação da rede hospitalar.

Isso cria uma situação interessante sob a perspectiva da teoria dos jogos. Estamos num jogo de soma positiva (no qual cada membro da sociedade ganha com a imunização do próximo), mas em que ainda há incentivo a passar na frente do outro (o benefício individual supera o coletivo).

Ruy Castro - Abominável senhor dos destinos

- Folha de S. Paulo

Nunca a vida de tantos brasileiros esteve nas mãos de tão poucos, garantidos pelas instituições

Um encontro numa sala reservada do Palácio do Planalto, no último domingo (14), reuniu quatro pessoas. Em jogo na conversa, a vida de centenas de milhares de brasileiros. O resultado da reunião, inevitável pelas circunstâncias, parece indicar que esses brasileiros perderam —muitos que acompanharam o caso pelo celular ou pela televisão talvez não estejam vivos daqui a um mês. Esse desfecho terá as digitais de três dos presentes na sala: Jair Bolsonaro, o general Eduardo Pazuello e o deputado Flávio Bolsonaro. Já a quarta pessoa, a médica Ludhmila Hajjar, poderá dormir em paz.

O encontro, todos sabemos, referia-se ao convite de Bolsonaro para que ela aceitasse a suposta pasta do Ministério da Saúde no lugar do pesado, mas invertebrado, Pazuello. Para isso, teria de declarar sua sujeição às ordens do verdadeiro ministro, que é Bolsonaro, e assumir a co-autoria na chacina da população pela Covid. Co-autoria esta já garantida a Pazuello, cujos netos lerão nos livros que o vovô foi cúmplice na morte de 265 mil brasileiros pela pandemia. O que a dra. Ludhmilla recusou não foi um convite, mas uma intimação.

Yascha Mounk – Como conter a onda autocrática

- Folha de S. Paulo

Ordem do dia é a proteção da democracia, e não a promoção da democracia

Nos últimos dez anos ou mais, populistas autoritários vêm conquistando uma vitória inesperada após a outra pelo mundo afora. Eles chegaram ao poder na Índia e no Brasil, nas Filipinas e nos Estados Unidos.

E, embora Jair Bolsonaro e Rodrigo Duterte tenham inicialmente sido ridicularizados como líderes incompetentes que não tardariam a perder o poder, eles vêm se mostrando surpreendentemente hábeis em conservar sua popularidade ou em concentrar o poder em suas próprias mãos.

Nos últimos dez anos, os exemplos de políticos populistas sendo afastados de seus cargos por meio de eleições livres e justas têm sido escassos. Foi isso que fez da derrota de Donald Trump para Joe Biden um motivo tão forte para otimismo. Pela primeira vez em uma década, os cidadãos de uma democracia poderosa olharam a política populista de perto e decidiram que haviam visto o bastante. Parecia que a maré poderia estar virando, finalmente. O contra-ataque democrático estava prestes a começar.

Agora, quatro meses mais tarde, está ficando claro que o inimigo poderoso continua forte diante de um contra-ataque hesitante. A democracia americana continua frágil. Trump conseguiu convencer dezenas de milhões de americanos que a eleição foi fraudulenta e ajudou a inspirar um ataque sem precedentes contra o Capitólio. Ainda é muito possível que em 2024 Trump ou um sucessor escolhido a dedo se erga como ameaça populista renovada às instituições do país.

Vinicius Torres Freire – Sem vacina, país vai tomar juros amargos

- Folha de S. Paulo

BC não tem alternativa no país que Bolsonaro sabota a saúde e a economia

O Banco Central vai aumentar a taxa básica de juros em sua reunião desta quarta-feira (17). Caso não o fizesse, provocaria um tumulto final na economia sob o desgoverno de Jair Bolsonaro. Não importa o que a leitora, que é perspicaz, ache do regime de metas de inflação, da autonomia do BC ou do “neoliberalismo”: haveria tumulto. A curto prazo, não há solução alternativa.

Caso o BC se fingisse de morto, o dólar iria muito além dos R$ 6, de imediato e para começar. A inflação, que já está marcada para ir a perto de 7% anuais lá por junho, por aí ficaria. Esses seriam os primeiros sintomas de coisa ainda pior.

Isto posto, a alta da Selic não vai sair barato, talvez para o crescimento de 2022 e com certeza não para o controle da dívida pública, um problema central do país, qualquer que seja a solução que se imagine para um endividamento ainda sem limite.

Por falta de crédito, taxas de juros de longo prazo muito salgadas, o governo do Brasil se endivida ou rola sua dívida cada vez mais a curto prazo. Uma taxa Selic real (descontada a inflação) em zero ou perto disso até o fim do ano que vem daria um refresco. Não, não é solução. O país está tão arrebentado que dependemos dessas coisas marginais para não afundarmos de vez.

Roberto DaMatta - Viramos jacaré?


- O Globo / O Estado de S. Paulo

Meu senso de antropólogo cultural antigo e de não especialista (hoje, o Brasil é a pátria desses maravilhosos profissionais) prevê que teremos múltiplas vacinas contra o competidor biológico maior, a Covid-19, com suas famílias e linhagens que o governo Bolsonaro incrementa por meio de um pueril negacionismo e por uma adulta e criminosa sabotagem.

O vírus, não custa repetir, além de ser um agente epidêmico mortal e sem intenções (exceto sobreviver), é — tal como as nossas elites, de que somos parte e parcela — um predador invisível e solerte.

Aliás, conforme escreveu um “especialista” chamado Charles Darwin, no mundo natural, além de uma perturbadora ausência de intenção (ou causa final) e de uma óbvia presença de oportunidade, quem melhor se adapta e mais se reproduz triunfa.

O significado dessa desgraçada vitória, devo logo dizer antes que me levem à guilhotina moral, é a grande questão do nosso mundo, já que, de modo claro, ela suprime um outro mundo, uma outra vida e — quem sabe? — engendra uma história alternativa...

Cristiano Romero - Subestimar Jair Bolsonaro é um erro

- Valor Econômico

Negacionismo do presidente tem cálculo político

Jair Messias Bolsonaro não é o primeiro presidente brasileiro cuja habilidade política é subestimada pela maioria dos analistas. Durante um bom tempo, duvidou-se da capacidade de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de governar o país. Antes do petista, era quase unânime a opinião de que Itamar Franco, o vice que assumiu o cargo em decorrência do primeiro impeachment da história do país _ de Fernando Collor de Mello, em 1992 _, de tão “incompetente”, “tolo” e “turrão” acabaria de afundar a nação no caos iniciado por seu antecessor.

Bolsonaro passou 28 anos na Câmara dos Deputados com apenas uma preocupação: reeleger-se a cada quatro anos. Não foi difícil, afinal, sua bandeira, única, sempre foi defender privilégios e vantagens das corporações militares, o que, evidentemente, significou apoiar, de um modo geral, os interesses da burocracia estatal, o Estado dentro do Estado, o poder autóctone deste país, patrimonialista por definição.

O atual presidente defendeu os soldos dos militares durante o período, provavelmente, de maior arrocho salarial do funcionalismo na história _ os primeiros anos de estabilização da economia, após o lançamento do Plano Real, em 1994. Com a queda abrupta dos índices de preços de cerca de 2.800% para 50% ao ano, o enorme desequilíbrio das contas públicas apareceu instantaneamente nos orçamentos, uma vez que, antes, a inflação crônica corroía o valor real da despesa, criando a ilusão de que o setor público não gastava mais do que arrecadava.

Joaquim Ferreira dos Santos - O centenário de Antônio Maria. Não é o padre. É o pecador

- O Globo

O Antônio Maria que se vai louvar aqui não é o padre, sucesso dos livros, discos e missas da auto-ajuda moderninha. Hoje é o centenário de Antônio Maria, o pecador.

O pernambucano Antônio Maria foi nos anos 50 o grande cronista dos costumes amorosos pela noite de Copacabana, o rei do samba canção triste em que sempre havia alguém indo embora, alguém pedindo para voltar ou alguém garantindo que, se morresse amanhã de manhã, sua falta ninguém sentiria. Sofria-se, maldizia-se a sorte nesta existência.

Pois Maria, infelizmente, parecia estar certo nessa letra de auto-desengano. Os editores não sentiram sua falta. Este seu centenário vai encontrar as livrarias sem qualquer livro de sua larva incandescente, nenhuma linha nova daquele que um dia escreveu “a verdadeira espiritualidade começa na fadiga da carne confortada”. Todas as coletâneas de suas crônicas estão genialmente esgotadas.

A editora Todavia promete uma antologia para novembro, um prazo aflitivo pela falta da garantia sanitária de que novembro e leitores ainda estarão por aqui. “Ninguém me ama, ninguém me quer”, dizia Maria no seu samba canção mais dolorido – os editores parecem de acordo.

Nenhum livro a comemorar o centenário de um craque do mais brasileiro dos gêneros, a crônica de jornal, aquele papo que parece furado, uma borboleta amarela que passa aqui, um homem que nada ao fundo de Ipanema, e de repente ergue-se um clássico das letras nacionais. Parece fácil, poucos conseguem. É uma pena que ninguém possa comemorar o centenário de Maria lendo seus textos. Uma vez, aqui no GLOBO, onde publicou a coluna “Mesa de Pista” entre 1954 e 1959, Maria escreveu: “O que atrapalha minha vida foi ter visto e feito muita coisa desde pequenino”. Pode ter sido isso.

Até pouco tempo, qualquer escalação da seleção nacional de melhores cronistas escalaria Rubem Braga, Carlinhos de Oliveira, Fernando Sabino, Verissimo, Paulo Mendes Campos, João do Rio, Stanislaw Ponte Preta, Nelson Rodrigues e, vá lá, Drummond. Maria é o nome mais recente nesse panteão. Todos os demais, consagrados pelos anos, são fartamente editados e disponíveis, agraciados com baús abertos e a descoberta milagrosa de novos textos a cada efeméride. A exceção é o ora centenário.  

Música | Maria Bethania "- Frevo Nº 1 Recife ( Antonio Maria )

 

Música | Mariana Aydar + Fejuca | Nunca vi você tão triste

 

Poesia | Quando ficares velha (William Butler Yeats)

 

terça-feira, 16 de março de 2021

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

Bolsonaro, ministro da Saúde – Opinião / O Estado de S. Paulo

Malgrado tenha cometido inúmeros erros, Pazuello foi sabotado por Bolsonaro nas escassas ocasiões em que tentou acertar

A incompetência do intendente Eduardo Pazuello para exercer o cargo de ministro da Saúde, algo especialmente grave em meio à pandemia de covid-19, já está sobejamente comprovada. Portanto, sua substituição, cogitada no fim de semana, tornou-se há muito tempo um imperativo. Em defesa de Pazuello, contudo, deve-se enfatizar que, assim como jabuti não sobe em árvore, sua presença no Ministério da Saúde, a despeito de seu evidente despreparo, só se materializou porque o presidente Jair Bolsonaro o colocou lá.

Mais: malgrado tenha cometido inúmeros erros de sua própria lavra, Pazuello foi sabotado por Bolsonaro nas escassas ocasiões em que tentou acertar – como quando se dispôs a assinar um protocolo de intenções com o governo paulista para aquisição de vacinas produzidas pelo Instituto Butantan e foi desautorizado publicamente, de forma humilhante, pelo presidente. Qualquer um com amor próprio teria pedido as contas no ato; mas não Pazuello, que se limitou a admitir que estava no cargo apenas para cumprir ordens.

O intendente é o terceiro ministro da Saúde de Bolsonaro, colocado ali depois que os dois anteriores se recusaram a fazer o triste papel que lhes atribuía o presidente. Bolsonaro é, na prática, o ministro da Saúde.

Merval Pereira - Catch-22

- O Globo

A escolha do substituto do general Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde é uma situação típica de Catch-22, expressão muito usada nos países de língua inglesa, especialmente nos Estados Unidos, oriunda de uma lei militar. Dá nome a um livro de Joseph Heller, “Ardil-22” na versão brasileira, que se passa no final da Segunda Guerra Mundial. Segundo o dicionário, caracteriza um problema cuja solução é negada por uma circunstância inerente ao próprio problema. No livro, o piloto que pede uma avaliação psicológica para escapar de missões perigosas de bombardeios estará mostrando sua sensatez e será considerado apto às mesmas missões perigosas.

É preciso mudar a política sanitária devido à repulsa provocada na população, fazendo cair a popularidade do presidente Bolsonaro. Mas como mudar a política sanitária, se o responsável por ela, o próprio presidente, não mudou a maneira de pensar em relação ao distanciamento social, ao uso da máscara ou à vacinação?

Se Bolsonaro escolhesse uma médica como Ludhmila Hajjar, estaria admitindo uma mudança de comportamento. Como não é esse o caso, a indicada pelo Centrão desistiu, incentivada por uma brutal guerrilha digital bolsonarista. O presidente Bolsonaro sempre alega que seus seguidores nas redes sociais são autônomos, não obedecem às suas ordens, o que é meia verdade. Veja-se a atuação do gabinete do ódio de dentro do Palácio do Planalto.

Carlos Andreazza - O movimento pendular

- O Globo

Bolsonaro não muda. Não foi mudado pelo fator Lula; não em seu comportamento frente à peste. (Será matéria para outro artigo; mas, à sombra do ex-presidente, responderá sobretudo na economia, com uma derrama populista de dinheiros, com Guedes, com tudo, para financiar a reeleição e pagar o preço do Centrão, que subiu.)

Frente à pandemia, rara escada para a agitação reacionária, Bolsonaro será ainda mais radicalmente Bolsonaro; um mentiroso, investidor no sectarismo, que prospera no choque, mas que sabe se moldar — poucos alcançam distorcer a própria palavra como ele — ante a imposição do mundo real.

Irá assim até o final, aquele que disse nunca ter se referido à peste como “gripezinha”. Não nos iludamos com um baile de máscaras à tarde. A noite vem. E, ao ato que pareceu indicar moderação, logo corresponderá a forja de novos inimigos. E, do gesto que pareceu considerar uma médica séria para o Ministério da Saúde, logo emergirá a intenção de pazuellizá-la.

Bolsonaro é Bolsonaro. Não importa, pois, o futuro de Pazuello no governo, se fica ou cai; ministro da Saúde que nunca foi, cavalo — no sentido espiritual — para que Bolsonaro o fosse. Bolsonaro é. Outros pazuellos virão. Hajjar não topou. Haverá quem tope. E Bolsonaro continuará sendo.

O padrão está dado. Aqui e ali, quando já sem alternativa, cederá ao mundo real. Ou não terá sido ele a se sentar com a Pfizer depois de desqualificar por meses o laboratório? Ou não terá sido ele a comprar uma vacina, a CoronaVac, que tratara como inimiga e jurara jamais adquirir?

Eliane Cantanhêde – Muda? Muda o quê?

- O Estado de S. Paulo

Médico sério defende o que Bolsonaro condena e condena o que ele defende. E Queiroga?

A médica cardiologista Ludhmila Hajjar é o oposto do general da ativa Eduardo Pazuello e deixou a demissão dele do Ministério da Saúde ainda mais humilhante. Ela conhece profundamente a situação da pandemia e tem noção clara não só do que fazer, mas sobretudo do que não fazer. E ele? O homem errado, na hora errada, passando vexame. Mas a grande diferença entre os dois nem é essa. É que ela tem brios.

Ao ser chamada a Brasília pelo presidente Jair Bolsonaro, Hajjar já tinha estratégia, equipe e estava pronta para a guerra – diferentemente do general. “Mas foi só um sonho”, desabafou a doutora, depois do encontro com Bolsonaro. O mais surpreendente é que ela sabia exatamente o que o presidente pensa da pandemia, mas ele nem sabia com quem estava falando. Só aí soube que os dois são como azeite e água.

Luiz Carlos Azedo - A crise continua

- Correio Braziliense

A troca de ministro não está ocorrendo para mudar a política sanitária ou porque Bolsonaro estava insatisfeito com Pazuello, mas para evitar a instalação de uma CPI na Saúde

O presidente Jair Bolsonaro indicou o médico paraibano Marcelo Queiroga, presidente da Associação Brasileira de Cardiologia, para o cargo de ministro da Saúde, no lugar do general de divisão da ativa Eduardo Pazuello, que deve voltar à caserna. Foi o desfecho de três dias de muita confusão e intensa fritura do militar, que atuou de forma desastrada à frente da pasta, seguindo cegamente a orientação do presidente da República durante a pandemia da covid-19. Queiroga assumirá o cargo sob forte desconfiança, depois da recusa da médica goiana Ludhmila Hajjar, que fora convidada por Bolsonaro, mas recusou o convite por discordar da orientação do chefe do Executivo.

O convite à cardiologista e intensivista do Hospital das Clínicas foi um tiro no pé. Hajjar pretendia promover um choque de gestão à frente do Ministério da Saúde, defendendo a criação de leitos e preparação das equipes de atendimento à covid-19; o apoio ao lo- ckdown decretado por governadores e prefeitos; a formação de um comitê de crise 24 horas para apoiar as demais autoridades do Sistema Único de Saúde (SUS); e mobilização das sociedades médicas, a rede de saúde privada e as empresas para combater a pandemia. A médica também é contrária ao uso de cloroquina e outros medicamentos sem eficácia comprovada no “tratamento precoce”, defendendo um protocolo unificado de atendimento aos pacientes de covid-19 que adote as melhores práticas comprovadas.

Ricardo Noblat - Queiroga, o novo testa de ferro de Bolsonaro na Saúde

- Blog do Noblat / Veja

Os filhos zero ajudaram o pai a ganhar mais uma vez

Despenca o grau de segurança dos ministros e demais auxiliares de Jair Bolsonaro quanto à permanência de cada um deles no governo. E por uma simples razão: se você faz algo no cargo que desagrada a Bolsonaro, pode ser demitido a qualquer momento. Se você obedece a todas as ordens dele, arrisca-se a ser demitido.

Tem mais: se você cair na mira de fogo de alguns dos filhos zero do presidente, seu emprego não vale nada. Foi assim que Gustavo Bebianno, então ministro da Secretaria-Geral da presidência, acabou dispensado. Carlos Bolsonaro, o Zero Três, sentia ciúmes de sua aproximação excessiva com o pai. Daí…

Outro ministro, esse tido como poderoso porque amigo há mais de 40 anos de Bolsonaro, também desagradou a Carlos e dançou. O filho convenceu o pai de que o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, ministro da Secretaria do Governo, conspirava para derrubá-lo. Valeu-se para isso de uma notícia falsa.

A insegurança dos que servem a Bolsonaro aumentou depois que ele demitiu o ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, cujo erro foi ter cumprido todas as vontades do presidente sem nem pestanejar. A ponto de humilhar-se certa vez ao dizer com um sorriso amarelo: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Não bastou para Pazuello ter juízo. Ele foi obrigado a ceder o lugar a um cardiologista que nunca ocupou um cargo público e que deve sua indicação a Flávio Bolsonaro (Republicanos), conhecido como Zero Um e às voltas com a justiça desde que foi denunciado por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Cristina Serra - Boiada, 'correntão' e motosserra

- Folha de S. Paulo

A investida contra o ambiente mudou de patamar

Em abril de 2020, Salles, o ministro do zero ambiente, exortou a passagem da boiada para derrubar regras e normas ambientais que dependiam apenas do Executivo, já que era bem mais difícil mudar leis no Congresso. Quase um ano depois, a conjuntura nunca esteve tão favorável para, agora sim, sob o comando do centrão na Câmara, passar não apenas a boiada, mas também o "correntão" e a motosserra.

O que vem por aí é um ataque sem precedentes às leis que há décadas tentam consolidar a proteção ambiental no Brasil. Projetos à espera de análise na Comissão de Meio Ambiente pretendem enfraquecer a lei da mata atlântica, a que criou o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, o Código Florestal e até a lei de Proteção à Fauna, de 1967.

Hélio Schwartsman - Efeito Lula derruba Pazuello

- Folha de S. Paulo

É improvável que Bolsonaro deixe Queiroga fazer o que tem de ser feito

Quanto medo Bolsonaro tem de Lula? Bastante, já que o capitão resolveu demitir o general e se esforçou para convidar gente com qualificação técnica para exercer o cargo. A primeira cotada, Ludhmila Hajjar, recusou; o segundo, Marcelo Queiroga, aceitou.

As coisas, porém, são mais complicadas do que parecem. Ninguém com diploma de medicina e familiaridade mínima com o método científico pode aceitar o posto se não arrancar de Bolsonaro a promessa de que poderá mudar a política sanitária até aqui adotada, o que inclui licença para impor medidas de distanciamento social, para aposentar os delírios cloroquínicos e para investir pesadamente na vacinação. E, para o presidente fazer uma concessão dessas, ele precisa estar aterrorizado com Lula e sob muita pressão do centrão.

Joel Pinheiro da Fonseca* - Mudar de ministro não adianta; o problema é o presidente

- Folha de S. Paulo

Mudar o rumo do governo seria admitir que Bolsonaro foi diretamente responsável por dezenas de milhares de mortes

Os protestos pró-Bolsonaro que tomaram o Brasil neste domingo foram marcados por muito fanatismo, muitos pedidos de golpe militar e muita teoria da conspiração.

O sentimento de revolta que movia os participantes, contudo, é em parte compreensível. Voltar a fechar grande parte da economia —o que significa falir negócios, destruir empregos, desamparar famílias, aumentar o estresse doméstico— é desesperador. Só uma situação muito crítica justifica esse tipo de medida drástica.

Se ainda não está claro para alguém, a situação está crítica. O estado de São Paulo, por exemplo, triplicou os leitos de UTI disponíveis, e mesmo assim os internados logo excederão a capacidade do sistema.

Outros estados vivem situação similar. Dos pacientes de Covid-19 que são internados em UTI, mais da metade sucumbe. O único jeito de impedir essa tragédia de aumentar ainda mais é reduzir as aglomerações e, paralelamente, acelerar o tanto quanto possível nossa única porta de saída: a vacinação em massa.

Murillo Camarotto - Crítica e autocrítica, uma escolha difícil

- Valor Econômico

Lava-Jato poderia aproveitar a chance para fazer mea culpa

No seu abrupto retorno à primeira divisão da política nacional, Lula fez o que dele se esperava: defendeu a vacina, atacou Bolsonaro e flertou com o Centrão. Se a mensagem ficasse por aí, jogo jogado, mas o ex-presidente também mandou um forte abraço para Nicolás Maduro e jurou que, nos anos petistas, a Petrobras foi um exemplo de gestão. “E a autocrítica?”, perguntarão, imediatamente, muitos dos que sonham em ver Lula ajoelhar no milho e confessar o inconfessável à nação.

Sob a ótica da psicologia (simplificada, no caso em tela), a crítica é um ato público, enquanto que a autocrítica tem caráter mais particular e solitário. Ao atacarmos, olhamos para fora, normalmente com apoio da plateia - ou da claque, se preferirem. Já o mea culpa, uma vez externado, atinge de certa forma os nossos pares, os mais próximos, que provavelmente vão insistir em dizer que “não foi tão grave assim”, que “é assim mesmo”, que “tá tudo bem”.

Para visualizar melhor o raciocínio, é só deslocar a perspectiva para a Lava-Jato - cuja missa de sétimo ano será celebrada neste mês de março. Desde que as mensagens trocadas entre os procuradores vieram a público, aguarda-se a autocrítica da República de Curitiba. Mesmo nas forças-tarefa do Rio de Janeiro e de São Paulo (já devidamente carbonizadas), não se encontra um mísero procurador disposto à autopenitência.

Míriam Leitão - Em reunião difícil, BC deve subir juros

- O Globo

O Banco Central começa hoje a reunião mais difícil feita no atual governo. A inflação de fevereiro foi mais alta do que o previsto e pode chegar perto de 8% em junho, em 12 meses. A expectativa é que caia depois, mas ontem a sondagem do BC mostrou que, de uma semana para outra, as projeções para o ano saíram de 3,98% para 4,6%. Os juros estão em 2%. A maioria dos economistas de bancos e consultorias acha que o Copom subirá a Selic em meio ponto percentual. O problema é que a economia ainda está em ambiente recessivo e o desemprego aumentou. Desapareceram em um ano 8,4 milhões de postos de trabalho. Se os juros não subirem, confirma-se a expectativa de alta da inflação. Se eles subirem, pode-se esfriar ainda mais a economia.

A inflação atual é bem complicada. Sobem alimentos, produtos industriais e há falta de algumas peças e insumos na indústria. Tudo ao mesmo tempo e no meio de uma recessão. Os alimentos e bebidas subiram 15% nos últimos 12 meses. Alguns itens deram saltos enormes, como as carnes, com alta de 29%, e frutas, 27%. Os combustíveis subiram 9,37% nos dois primeiros meses deste ano. A produção industrial está sendo atingida por gargalos e choques de preços. Aço subiu 30%. O gás natural, 40%. O setor de plásticos só tem conseguido entregar 50% dos pedidos. Algumas indústrias estão parando por falta de peças. Há dificuldades na compra de resinas e na produção de papelão. Isso afeta as embalagens, o que faz com que vários setores tenham dificuldades de produção.

Edmar Bacha* - Abertura já!

- Valor Econômico

O país tem uma conta de capital aberta, mas uma conta de comércio fechada. É uma receita pronta para o crescimento empobrecedor

É significativa a alta dos preços das mercadorias desde o início da pandemia. A causa principal é a forte desvalorização do real. Os preços dos serviços, que embutem basicamente o custo da mão de obra, nem de perto sobem na mesma proporção. A razão é o enorme desemprego provocado pela pandemia.

Não obstante o alto desemprego, são frequentes as demandas para que o Banco Central comece a “normalizar”, ou seja, a aumentar a taxa de juros para combater a alta de preços. Será que devia mesmo?

O que se observa é um aumento dos preços das mercadorias em relação aos dos serviços. Essa mudança de preços relativos pode gerar um surto de inflação ou não, ainda não sabemos. A indexação impulsiona, mas o desemprego segura. Por isso, não é claro que essa mudança deva ser combatida com um aumento preventivo da taxa de juros, que não diferencia mercadorias de serviços. Juros mais altos reduzem igualmente a demanda por mercadorias e por serviços, agravando o desemprego.

Há outros instrumentos à mão. O mais interessante seria uma redução de impostos sobre as mercadorias importadas e de outras barreiras (antidumping e sanitárias, por exemplo) que impedem que as importações possam fazer baixar os preços no mercado interno. Deixem entrar o aço da Argentina, as bananas do Equador, a carne do Paraguai, o café robusta da África.

Essa redução das barreiras à importação uniria o útil ao agradável. Pois contribuiria para o tão necessário aumento da produtividade, além de reduzir as pressões inflacionárias.

Entrevista | Monica de Bolle: Pandemia é chance para país desenvolver tecnologia de saúde

Para economista, Brasil tem potencial para ser referência em mundo no qual convivência com vírus será permanente

Eduardo Cucolo / Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - O Brasil tem potencial para desenvolver uma indústria de ponta na área de saúde e utilizar a pandemia para se tornar um player global nessa área, de forma a se destacar em um “novo mundo pandêmico”, no qual a convivência com o novo coronavírus seria permanente.

Essa é a visão da economista Monica de Bolle, professora da Johns Hopkins University (EUA). Com especialização em Escola de Medicina de Harvard, de Bolle afirma, em entrevista à Folha, que não voltaremos à normalidade pré-pandemia e que a convivência com o vírus irá alterar a forma de funcionamento da economia global.

Mundo pandêmico
A realidade que a gente tem pela frente não é uma realidade em que vai poder declarar um fim da pandemia. A fase aguda da pandemia vai passar, a gente não vai ficar no estágio em que está agora, mas esse estado de alerta permanente vai continuar conosco. Isso tem implicações em como os países, as pessoas e a economia vão se adaptar. Mercado de trabalho, ambiente de trabalho, aglomerações de todos os tipos, como eventos esportivos, viagens, todas essas coisas estão alteradas, e a gente não vai voltar ao que tinha antes.

No segundo semestre de 2021, a gente vai relaxar medidas restritivas, medidas sanitárias, em várias partes do mundo. Mas, supondo que todas essas vacinas deem conta dessas variantes, as que existem e as que vão surgir, a gente só consegue ter um contingente no mundo vacinado em quantidade suficiente para conseguir respirar com algum alívio, com certo otimismo, lá para o final de 2022.

Eu passei os últimos dois anos fazendo uma série de especializações em medicina em Harvard e calhou da pandemia acontecer. Para mim, pela natureza desse vírus, ele vai permanecer entre nós. A gente vai ter de se adaptar a conviver com isso, passar por surtos, por várias vacinas que vão ter de ser atualizadas recorrentemente e continuar com algum grau de cautela nas nossas vidas. Você vai ter sempre um repositório de Sars-Covid-2 em algum lugar do mundo sofrendo mutações.

Pedro Fernando Nery* - O que o PIB não vai contar sobre a realidade do País

- O Estado de S. Paulo

Crescimento em 2021 não vai refletir situação material de boa parte da população nos próximos meses

Brasil deve crescer em 2021. Possivelmente a alta do PIB será a maior em mais de dez anos. Entretanto, de forma incomum, o crescimento do PIB nos próximos meses deve coincidir com elevações do desemprego e da pobreza – a recordes. O PIB não vai contar boa parte da história.

Vale entender melhor como o PIB tem se comportado. A atividade econômica no Brasil, em 2020, sofreu uma queda menor que a de outros países – em boa parte pelos efeitos do auxílio emergencial. O País chegou a subir posições na lista de maiores economias do mundo, para o 8.º lugar – segundo os dados do Fundo Monetário Internacional (FMI)

A imprensa deu grande ênfase a outro resultado, o de que o Brasil teria na verdade perdido posições nesse ranking, e inclusive saído do top 10. Isso só ocorre em uma comparação menos apropriada, que refletisse menos a variação do PIB e mais a forte queda do real, que diminuiria o valor do nosso PIB em outras moedas.

A comparação mais comum, porém, levando em conta o poder de compra das moedas, teria o Brasil ganhando posições – como nas estimativas do FMI em que supera França e Reino Unido. Afinal, em um dia em que o dólar sobe muito os brasileiros não ficam necessariamente mais pobres.

Se o Brasil ganhou posições na comparação internacional do PIB em 2020, e em 2021 deve crescer bem mais do que na média da última década, qual é então o problema? 

Felipe Salto* - Remendo novo em tecido velho

- O Estado de S. Paulo

É a PEC Emergencial. Tempo perdido em meio à emergência da crise sanitária

No melhor cenário, a chamada PEC Emergencial mudará muito pouco a gestão das contas públicas. Costumo dizer que o Brasil é pródigo em criar regras fiscais, mas nem tanto em cumpri-las. Desta vez, nem mesmo a criação foi promissora. Eventual ajuste decorrente da proposta de emenda à Constituição só virá em 2025. No caso dos Estados e municípios, as medidas serão facultativas e sua aplicação, incerta.

O teto de gastos foi mantido, mas ficou sem sanção para o caso de burla. Rompê-lo poderia ensejar, a partir de agora, crime de responsabilidade. Os gatilhos – medidas automáticas de ajuste –, que já estavam previstos na regra do teto, serão acionados quando as despesas obrigatórias superarem 95% das despesas primárias (não incluem juros da dívida), ambas sujeitas ao teto. Os gatilhos impedem reajuste salarial a servidores, criação de despesas, correção do salário mínimo acima da inflação e contratação de pessoal (a não ser para repor aposentadorias).

As contas da Instituição Fiscal Independente (IFI), contudo, mostram que os 95% só seriam atingidos em 2025. Em 2020 o indicador ficou em 92,6% e em 2021 a projeção é de 93,4%. Assim, levando em conta que o objetivo era tomar medidas “emergenciais”, o porcentual proposto foi mal calibrado. Algumas áreas poderão acionar gatilhos mais cedo, já que a regra será aplicada por Poder e por órgão, mas sem efeito agregado relevante.

César Mortari Barreira / Marcelo de Azevedo Granato* - Fascismo e antifascismo

- Folha de S. Paulo

Antifascismo de hoje deve ser democrático para que a democracia sirva à sociedade

As palavras fascismo antifascismo não tiveram descanso em 2020: por quase todo o ano, foram tema de diversas notícias e interpretações. A invasão do Congresso dos Estados Unidos, por exemplo, abre nova ocasião para análises sobre o significado dos termos fascismo e antifascismo e sua possível atualidade no espectro político brasileiro.

Nesse contexto, deve-se perguntar: se o fenômeno fascista remete aos 20 anos que caracterizaram a Itália após a 1ª Guerra Mundial, de que modo fascismo e antifascismo continuariam conceitos presentes e relevantes?

Para Norberto Bobbio, que viveu o fascismo italiano, esse regime representava uma mistura de decadentismo, irracionalismo e adoração à violência, alimentando o “culto ao herói, ao déspota, ao aristocrata de gosto exigente” ("O regime fascista"). O fascismo era antidemocrático, pois exaltava a hierarquia contra o princípio da igualdade; o poder vindo de cima contra o poder vindo de baixo; a autoridade contra a liberdade; a fé cega contra o espírito crítico; o conformismo de massa contra o princípio de responsabilidade individual.

Bobbio sugere que o fascismo possuía “duas almas”: o fascismo conservador e o fascismo subversivo. Este desejava uma nova ordem, aquele desejava pura e simplesmente a (restauração da) ordem, ambos tendo como elemento comum “o ódio à democracia” ("Fascismo e antifascismo").

Música | Roberta Sá - Samba de amor e ódio

 

Poesia | Fernando Pessoa - Mestre

   

Mestre, meu mestre querido! 
    Coração do meu corpo intelectual e inteiro! 
    Vida da origem da minha inspiração! 
    Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida? 

    Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada, 
    Alma abstrata e visual até aos ossos, 
    Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo, 
    Refúgio das saudades de todos os deuses antigos, 
    Espírito humano da terra materna, 
    Flor acima do dilúvio da inteligência subjetiva... 

    Mestre, meu mestre! 
    Na angústia sensacionista de todos os dias sentidos, 
    Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser, 
    Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos, 
    Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim! 

    Meu mestre e meu guia! 
    A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou, 
    Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente, 
    Natural como um dia mostrando tudo, 
    Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade. 
    Meu coração não aprendeu nada. 
    Meu coração não é nada, 
    Meu coração está perdido. 
    Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu. 
    Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi! 
    Depois tudo é cansaço neste mundo subjetivado, 
    Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas, 
    Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas, 
    Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente. 
    Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao relento 
    Pela indiferença de toda a vila. 
    Depois, tenho sido como as ervas arrancadas, 
    Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido. 
    Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça, 
    E eu, por minha desgraça, não sou eu nem outro nem ninguém. 
    Depois, mas por que é que ensinaste a clareza da vista, 
    Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver clara? 
    Por que é que me chamaste para o alto dos montes 
    Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar? 
    Por que é que me deste a tua alma se eu não sabia que fazer dela 
    Como quem está carregado de ouro num deserto, 
    Ou canta com voz divina entre ruínas? 
    Por que é que me acordaste para a sensação e a nova alma, 
    Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de sempre a minha?