quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Vinicius Torres Freire - Senado quer limitar carga de imposto sobre consumo, mas Congresso libera gasto

Folha de S. Paulo

Prévia do texto da mudança nos impostos amplia favores para empresas e dificulta gestão das contas públicas

Na versão do Senado para a Reforma Tributária, há um limite para a carga de impostos sobre o consumo de bens e serviços. Não é boa ideia, piorada ainda pelo cálculo desse teto de impostos, baseado na média de receita de 2012 a 2021.

Nesses anos, houve quedas na arrecadação por causa de anos de recessões medonhas (2015, 2016, 2020) e crescimento pífio do PIB. O cálculo prejudica em particular o governo federal.

Não é o único e talvez não venha a ser nem o maior problema da reforma do Senado. Mas é novidade ruim. De ruindades velhas ampliadas, temos mais regimes especiais. Quer dizer, redução de alíquota de impostos para certo tipo de empresa ou setor, o que eleva a alíquota do imposto médio geral. Por exemplo, benefícios para empresas ricas de advogados, médicos e outros profissionais. Qual o motivo da distinção?

Conrado Hübner Mendes - Generais não cometem crimes

Folha de S. Paulo

Só resta ao governo apaziguar relações com os heróis da sobrevivência democrática

Generais não cometem crimes. Nem contra humanos, nem contra a humanidade. Muito menos contra não humanos e o ambiente natural. Nem crimes contra criações filosóficas como o bem público.

Militares não praticam corrupção. Não enriquecem ilicitamente. Não estimulam filhas a ficarem solteiras para acumular aposentadorias vitalícias. Nem falseiam sua própria morte para que esposa receba pensão. Nem usufruem de apartamentos funcionais ilegalmente.

Militares não erram, não traficam, não torturam. Não mentem e dispensam apuração da verdade. Substituem verdade pela honestidade. Se dizem que não mataram, assunto encerrado. Não há mortos e desaparecidos. Não seriam anistiados se não por honra ao mérito. Não teriam inocentado ex-capitão por planejar atentado se ele não tivesse vocação para a Presidência.

Thiago Amparo - Milícia no Rio, algumas perguntas

Folha de S. Paulo

Tática bangue-bangue não combaterá a milícia porque é, ela mesma, uma tática miliciana

"O crime organizado que não ouse desafiar o poder do Estado", disse Cláudio Castro enquanto 35 ônibus e um trem eram incendiados no Rio de Janeiro. À realidade coube consumar a ironia: é como se os fatos expusessem a inevitabilidade do caos que a falta de política de segurança já anunciara. Lembro de García Márquez em "Cem Anos de Solidão": "O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo"; apontar, sim, mas na cara de quem?

O governador quer que acreditemos que é uma luta de mocinhos contra bandidos; ele, claro, do lado dos primeiros. Quem dera a realidade fosse tão simples quanto sugere o maniqueísmo. Se fosse, a caça à cúpula de milicianos resolveria. Eis algumas questões. Pergunta 1: as autoridades fluminenses, de hoje e outrora, precisam explicar como permitiram que as milícias crescessem 387% em 16 anos, ocupando uma área de 64 Copacabanas. A resposta é que milícia lucra a partir e para o Estado. Sem desvendar os laços econômicos e sem controlar acesso a armas, nada será resolvido.

Ruy Castro - A seguir: milícias nacionais

Folha de S. Paulo

Com tanta facilidade para operar, surge um novo e promissor mercado para seus negócios: o Brasil

As milícias nasceram modestas. Eram policiais e bombeiros empenhados em combater por conta própria o tráfico em comunidades da Zona Oeste do Rio. Vendo-se prestigiados pelos cidadãos, dedicaram-se à oferta de "serviços" de combustível, transporte e comunicações. Com a adesão de civis, passaram a vender "proteção" contra violências perpetradas por eles próprios. E, agora, aderiram à venda das drogas que diziam combater. Devido à grande rentabilidade, suas atividades se tornaram de risco, sujeitas a divergências pontuais com milícias concorrentes, traficantes profissionais e até com sua eventual aliada, a polícia.

Poesia | "Certezas" - Mario Quintana

 

Música | Geraldo Vandré - Pra não dizer que não falei das Flores

 

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Rio carece de nova estratégia para segurança

O Globo

Governo tem procurado agir, mas medidas adotadas não têm sido suficientes contra crime organizado

A urgência de o Rio adotar uma nova política de segurança pública ficou evidente na noite de segunda-feira. Depois da morte de um miliciano em confronto com agentes da Polícia Civil no bairro de Santa Cruz, Zona Oeste da capital, pelo menos 35 ônibus, um trem e quatro caminhões foram incendiados. A tensão atingiu sete bairros, onde moram mais de 1 milhão. Escolas fecharam. A população sofreu para chegar em casa.

Outubro já havia trazido más notícias. No último dia 5, quatro criminosos executaram três médicos e feriram outro num quiosque da Barra da Tijuca. Menos de 24 horas após a execução, os assassinos foram encontrados mortos na Zona Oeste, provavelmente por ordem da facção a que pertenciam. Em todo o episódio, a polícia foi mera espectadora. Na última quinta-feira, equipes da Polícia Federal e do Ministério Público do Rio prenderam quatro agentes da Polícia Civil, sob a acusação de tráfico de drogas e corrupção.

Elio Gaspari - O Rio pede uma Polícia Federal

O Globo

Nos EUA um sujeito detestável derrotou as quadrilhas

No mesmo dia em que as milícias do Rio dominaram parte da cidade e queimaram pelo menos 35 ônibus, o terceiro homem da Agência Brasileira de Inteligência revelou que os US$ 171.800 que tinha em casa eram uma poupança familiar. A segurança pública nacional está bichada. Como disse Ricardo Cappelli, secretário executivo do Ministério da Justiça, esse problema não será resolvido com uma “bala de prata”.

Do jeito como estão as coisas, talvez seja melhor esperar por um armeiro capaz de fabricar uma bala parecida. Ela poderá vir da valorização da Polícia Federal e da paulatina federalização de alguns crimes.

O exemplo viria do Federal Bureau of Investigation (FBI) americano. À primeira vista, é um mau exemplo. Ele nasceu numa repartição de polícia política, entregue a um sujeito detestável que ficou à sua frente por 37 anos, até sua morte, em 1972. J. Edgar Hoover perseguiu negros e esquerdistas. Grampeou centenas de personalidades. Com seus dossiês, intimidava artistas e políticos (inclusive presidentes). Ele fez tudo isso, mas profissionalizou sua polícia e quebrou a espinha dorsal de quadrilhas que assombravam os Estados Unidos. Mestre da manipulação política, em 1934, no governo de Franklin Roosevelt, Hoover ampliou sua jurisdição, federalizando crimes que estavam nas esferas estaduais. Quando morreu, os Estados Unidos tinham uma Polícia Federal, e ela se livrou de suas obsessões.

Bernardo Mello Franco – Perdidos no tiroteio

O Globo

Presidente disse que "está pensando" em recriar Ministério da Segurança Pública; ideia foi anunciada na campanha e descartada após a eleição

Em junho de 2000, um assaltante fez reféns num ônibus da linha 174. O país parou para acompanhar o drama carioca pela TV. Depois de quatro horas e meia de tensão, o cerco terminou em tragédia. O ladrão matou uma passageira grávida e foi estrangulado num camburão da PM.

Na semana seguinte, o presidente Fernando Henrique Cardoso convocou a imprensa e anunciou o primeiro Plano Nacional de Segurança Pública. O Planalto prometia sair do imobilismo e ajudar os estados a combater o crime. O roteiro se repete há 23 anos, com muito estardalhaço e pouco resultado efetivo.

A nova crise de segurança no Rio reacendeu os apelos por algum socorro federal. Há um problema: o presidente Lula não parece seguro do que pode e do que pretende fazer.

Na semana passada, o governo começou a enviar soldados da Força Nacional de Segurança para agir no patrulhamento em vias expressas. Os homens ainda chegavam à cidade quando a milícia incendiou 35 ônibus e um trem na segunda-feira.

Luiz Carlos Azedo - O pacto perverso com as milícias no Rio de Janeiro

Correio Braziliense

Castro fez um pacto perverso com as policias civil e militar e aboliu a Secretaria de Segurança Pública, sem a qual é impossível coordenar a ação do governo nessa área

A história trágica do Doutor Fausto (1604) é uma peça teatral de autoria de Christopher “Kit” Marlowe, um dramaturgo inglês que fez muito sucesso nos reinados de Elizabeth I (1558-1603) e James I (1603-1625), no período de surgimento de comédias e tragédias psicológicas e sobrenaturais. Com base numa lenda alemã sobre um alquimista da Idade Média, o Fausto de Marlowe era um acadêmico altamente respeitado, cuja sede de conhecimentos o levou um pacto mortal com Mefistófeles, após ser corrompido pelo poder. Quando percebeu que atraíra para si um grande mal, já era tarde demais.

A temática do pacto diabólico entre Fausto e Mefistófeles foi retomada pelo alemão Wolfgang von Goethe entre 1808 e 1812 na cidade de Weimar, na qual protagonizava a efervescência do classicismo, ao lado de seu amigo Friedrich von Schiller. Ambos retomaram aos clássicos gregos e rejeitaram a ideia da perfeição estética, em favor do equilíbrio entre inspiração, conteúdo e forma. Graças à insistência de seu amigo, Goethe revisitou a lenda de Fausto e Mefistófeles, dando-lhe a profundidade que tornou sua dramaturgia um clássico da literatura universal.

Lu Aiko Otta - Tributação em padrão mundial fará bem ao país

Valor Econômico

Elaboração da legislação complementar é complexa e exigirá atenção e comprometimento de Congresso, governo e sociedade

O senador Eduardo Braga (MDB-AM) apresenta hoje seu relatório para a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 45. Em comparação com a versão aprovada em julho pela Câmara dos Deputados, deverá trazer duas grandes alterações.

A primeira é o estabelecimento de um teto para a carga tributária incidente sobre o consumo. A regra limitará o espaço disponível para a União incrementar suas receitas por meio dos novos tributos. Ou seja: o governo precisará olhar também para o lado das despesas na sua gestão orçamentária.

O teto será estabelecido como percentual do Produto Interno Bruto (PIB) numa média móvel, adiantou Braga. A tributação sobre o consumo ficou em 13,44% do PIB em 2022, segundo dados do Ministério da Fazenda.

Nilson Teixeira* - Maior controle das emendas é necessário

Valor Econômico

É preciso garantir que os recursos públicos escassos sejam mais bem utilizados em benefício da população

A influência dos parlamentares sobre os gastos da União tem crescido desde o início da década passada devido, basicamente, à fragilidade da base de apoio no Congresso de todos os governos do período. A aprovação de políticas públicas e de medidas de interesse de cada governo exigiu, muitas vezes, a contrapartida do aumento do montante de emendas parlamentares como percentual das despesas discricionárias. Ao mesmo tempo, o Congresso tem aumentado a parcela dessas emendas com caráter obrigatório e com monitoramento mais difícil.

Com o fim das emendas do relator (RP9), há, atualmente, três tipos de emendas parlamentares no orçamento federal: individuais (RP6), de bancada (RP7) e de comissão (RP8). As emendas individuais são as de maior vulto - dotação de R$ 21,3 bilhões em 2023, sendo dependentes apenas da decisão dos parlamentares. Em relação às emendas de bancada, os congressistas de cada Estado organizam reuniões, em geral em outubro e novembro, para a escolha das propostas, que obtiveram dotação de R$ 7,7 bilhões neste ano. Do mesmo modo, as emendas de comissão, com dotação de R$ 7,6 bilhões em 2023, são escolhidas pelas comissões técnicas da Câmara e do Senado e pelas mesas diretoras das duas Casas.

Fernando Exman - A verdadeira prioridade do governo na Câmara

Valor Econômico

Aprovação da MP 1185 significaria, segundo estimativas da Fazenda, uma arrecadação de R$ 128,9 bilhões

Um líder governista dimensiona a importância que o Executivo dá ao projeto de lei que servirá de barriga de aluguel para a contestada medida provisória que mudava as regras de tributação dos incentivos fiscais de Imposto sobre Circulação de Mercadoria e Serviços (ICMS). A meta é aprová-lo na Câmara nas próximas semanas. “As duas maiores brigas até agora foram a PEC da Transição e a MP 1185”, diz o deputado. “A PEC da Transição e essa MP são dinheiro na veia.”

Traduzindo: a proposta de emenda constitucional aprovada no período de transição viabilizou a decolagem do governo. Não foi à toa que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começou a gastar seu cacife político antes mesmo de tomar posse.

Martin Wolf* - A pior ameaça à expansão da China é política

Valor Econômico

A pergunta ainda mais relevante é se a China ultrapassou o ponto no qual a relação entre o Partido Comunista e o capitalismo funciona

Três colunas recentes perguntavam se as altas aceleradas do Produto Interno Bruto (PIB) e do PIB per capita da China estariam ou não chegando ao fim, como muitos acreditam (ou esperam). A primeira argumentou que a China tem potencial para crescer aceleradamente por ser ainda tão pobre: segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o PIB per capita da China foi apenas o 76º entre os mais elevados do mundo em 2022. A segunda examinou o problema maior da economia interna chinesa - a absorção dos crônicos excedentes de poupança por um surto de crescimento imobiliário insustentável, alimentado por dívidas, que está chegando ao fim. A terceira considerou as limitações impostas pela queda da população. A conclusão foi a de que essas eram dificuldades graves, mas administráveis.

Vera Magalhães - Eleição verde-amarela na Argentina

O Globo

Qualquer um dos dois que vença, a dependência econômica em relação a Brasília se manterá

Nada como uma crise sem precedentes para aplacar a rivalidade histórica — no futebol, na cultura, na influência geopolítica sobre o continente e na economia — entre Argentina e Brasil e fazer desta não só a mais imprevisível, como a mais “abrasileirada” eleição do país vizinho.

A influência brasileira no pleito argentino se mostra em vários aspectos concretos e simbólicos. Representa ao mesmo tempo alguns dos maiores trunfos e as principais fraquezas dos dois candidatos que foram ao segundo turno.

O peronista Sergio Massa não só se valeu da proximidade de seu grupo político — o do presidente Alberto Fernández — com o governo Lula e o presidente brasileiro, como importou os marqueteiros do PT e algumas teses bem-sucedidas usadas pelo partido em diferentes disputas presidenciais por aqui.

Zeina Latif - Não chore por nós, Argentina

O Globo

A Argentina tornou-se um país ingovernável, no sentido não haver sustentação da política econômica, independentemente da alternância de poder

Sabemos que o grande nó que precisa ser desatado para o avanço de reformas e ajustes na economia é de ordem política. Claro que isso não dispensa a necessidade de programas econômicos bem estruturados, baseados em diagnósticos corretos e propostas bem fundamentadas. No entanto, sem lideranças capazes, dispostas à negociação e ao enfrentamento de grupos organizados, os avanços tendem a ser tímidos. As propostas viram utopia.

A polarização extrema da política é um grande dificultador, pois pode inviabilizar a construção de consensos. O problema é ainda maior quando prevalece o populismo nos dois polos, que gera ganhos de curto prazo, mas hipotecando o futuro. A saudável concorrência na política perde seu poder de evitar cenários extremos.

Wilson Gomes* - Por que Lula e a esquerda não estão alinhados na questão Israel-Palestina?

Folha de S. Paulo

Entre a convicção do grupo e a posição oficial do presidente, desta vez o petista de fé parece preferir manter a sua crença

Diz-se frequentemente que o grosso da esquerda brasileira tende a acompanhar diligentemente a posição de Lula sobre qualquer questão. Não é que a esquerda seja monolítica, ao contrário. Há verdade no ditado segundo o qual a esquerda se divide por qualquer razão – valores, ênfases, interpretações – enquanto a direita se une por interesses.

O fato, porém, é que a percepção da importância e do carisma de Lula, além da constatação de que sem Lula a esquerda não teria a mínima chance eleitoral de governar o país, parece levar a militância a um alinhamento automático com o seu maior líder. Mesmo em questões penosas, como quando Lula coloca interesses políticos pragmáticos acima da pauta identitária.

Vinicius Torrres Freire - Lula corre para conseguir que o Congresso aumente receita do governo

Folha de S. Paulo

Ano legislativo termina em dois meses e Congresso vai dando prioridade para aumento de gasto

Faltam menos de dois meses para o fim do ano legislativo. Nesse tempo, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva pretende aprovar no Congresso leis que podem render dinheiro suficiente para pagar até metade da redução de déficit prevista para o ano que vem —sendo otimista.

Além da resistência contra impostos, há os embaraços políticos de sempre. Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, e turma querem a direção inteira da Caixa Econômica Federal. Querem mais rapidez na liberação de emendas parlamentares.

Nos últimos dias, o centrão e petistas amigos (sic) andam vazando por aí que querem até uma reforma ministerial, fritando outra vez o ministro Alexandre Padilha (Relações Institucionais) e mesmo Rui Costa (Casa Civil), entre outros menos políticos. É ameaça e barganha. Depois de um longo recesso informal na política politiqueira, voltamos ao "business as usual".

Hélio Schwartsman - Depois da guerra

Folha de S. Paulo

É improvável que premiê israelense, Binyamin Netanyahu, sobreviva à crise

Um dos apelidos do premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, é "mestre da sobrevivência". Não foram poucas as ocasiões em que sua carreira política foi declarada morta, mas ele deu a volta por cima. Sei que corro o risco de ter de morder a língua, mas penso que, desta vez, ele sucumbirá.

Netanyahu terá firme apoio dos israelenses para conduzir a guerra contra o Hamas, mas, assim que a situação estiver mais estabilizada, haverá cobranças. Israelenses podem até fazer vistas grossas para as acusações de corrupção que pesam sobre o premiê, mas, quando o assunto é segurança, a população costuma ser implacável na responsabilização de líderes. Nem Golda Meir, figura muito menos divisiva do que Netanyahu, sobreviveu ao fiasco dos serviços de inteligência em se preparar para a guerra de 1973.

Bruno Boghossian - Crise econômica virou paisagem e mudou eleição na Argentina

Folha de S. Paulo

Ciclo anestesiou parte da população, mas também criou demanda por remédios alucinantes

Uma questão recorrente nos estudos eleitorais envolve as razões pelas quais, em alguns casos, a população vota contra seus interesses econômicos. A dúvida costuma surgir quando o partido que governa durante uma recessão consegue permanecer no poder ou quando grupos mais pobres apoiam um candidato que promete cortar gastos sociais.

A votação na Argentina representa um desafio para a análise do comportamento do eleitor. O governista Sergio Massa assumiu a liderança da votação de um país sob inflação desenfreada. O artista da motosserra Javier Milei acumulou simpatia em regiões de baixa renda e, depois, esbarrou num ponto de estagnação.

Marcelo Godoy - O depoimento do general

O Estado de S. Paulo

Comandante pode contar por que os planos de Bolsonaro o fizeram cancelar o desfile no Rio

Passava das 13 horas de 7 de setembro de 2022 quando o general André Luiz Novaes chegou ao Forte de Copacabana. Cruzou os jornalistas a passos largos pouco depois da salva das baterias dos canhões de 105 mm. Dali, o comandante militar do Leste ia presidir o palanque montado – pela primeira vez – na Avenida Atlântica. Dias antes, ele teve de cancelar o desfile tradicional na Avenida Presidente Vargas. Tudo porque Jair Bolsonaro exigia que o evento cívico-militar do ano do Bicentenário da Independência acontecesse na orla marítima, onde pretendia reunir seus apoiadores em um gigantesco comício.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Marco Temporal: Livrando a cara do presidente

Os 34 vetos do Presidente Lula ao projeto de lei do "marco Temporal”, aprovado pelo Congresso, e com opinião formalizada, por antecipação, no Judiciário, não impede a exploração do gás e do petróleo na Amazônia, muito menos a mineração do potássio (95% importado) em reservas indígenas (11%).   Além disso, o PL 490-07 chegou ao Planalto cheio de jabutis:  interesses privados ou coletivos embutidos no último momento, como a indenização pela devolução aos índios da terra invadida e apropriada; e para as benfeitorias feitas. Não é uma decisão fácil. Coloca-se a cabeça a prêmio.

Todas as políticas públicas tem poderosas interfaces incidindo sobre o centro de sua configuração (caput). É aí que entram os jabutis. Há pelo menos seis temas que atravessam transversal e politicamente todos os projetos de lei - energia, trabalho, equidade, multiculturalidade, saúde, educação e meio ambiente - com reflexos diretos no PIB- Produto Interno Bruto: R$ 9,9 trilhões, ou US$2,6 trilhões, em 2022.

Poesia | "José" - Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Casuarina - Senhora Liberdade (Com Wilson Moreira)

 

terça-feira, 24 de outubro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Renovação da desoneração é medida urgente

O Globo

Adiamento de projeto fundamental para criar postos de trabalho já prejudica planejamento de empresas

A Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) voltará a analisar hoje o Projeto de Lei (PL) que prorroga até o final de 2027 a desoneração da folha de pagamento de 17 setores caracterizados por empregar grande volume de mão de obra. Estão em jogo perto de 9 milhões de empregos gerados diretamente, sem contar aqueles distribuídos pelas cadeias produtivas. Para a programação orçamentária e de investimento das empresas brasileiras, é fundamental a aprovação célere do projeto que substitui a contribuição previdenciária de 20% da folha salarial por outra que varia de 1% a 4,5% do faturamento.

Um governo que quer estimular emprego não deveria mais perder tempo diante das evidências. A redução de encargos trabalhistas, em vigor há mais de dez anos, contribuiu para aumentar a arrecadação previdenciária, enquanto as empresas foram liberadas para investir mais em inovação e tecnologia, ganhando competitividade. É um caminho seguro para o crescimento sustentado de toda a economia.

Merval Pereira - Efeito Orloff reverso

O Globo

O problema da eleição presidencial argentina é saber para onde vai o eleitorado da terceira colocada, Patricia Bullright, apoiada por Mauricio Macri

Se é verdade que o presidente Lula aconselhou o candidato oficial do governo da Argentina, o atual ministro da Fazenda, Sergio Massa, a parar de “contar dólares” e ganhar as eleições, é mau sinal. Que os assessores petistas, inclusive os de marketing político, foram fundamentais na virada de Massa, nisso a imprensa argentina é unânime.

Mas o conselho de Lula corresponde, a ser verdade, aos gastos que o candidato oficial fez a partir das primárias para reverter a corrida presidencial, que devem tornar mais caótica ainda a economia do país, onde a inflação anual é de 140%, 40% estão abaixo da linha de pobreza (desses, 10% são considerados indigentes), e o PIB caiu 5%.

Massa anunciou bônus para diversos grupos sociais: os aposentados (7,8 milhões) ganharam 37 mil pesos por mês, ao custo de 234 milhões de pesos; trabalhadores de empresas privadas (5,5 milhões) ganharam 30 mil pesos, pagos compulsoriamente pelas próprias empresas; os funcionários públicos (390 mil) receberam bônus de 60 mil pesos; aposentados e pensionistas com renda mensal de até 1,5 salário mínimo (3 milhões) ganharam um vale-alimentação de 45 mil pesos. Outros 2,4 milhões de beneficiados pelo programa Tarjeta Alimentar, cartão para compra de alimentos, receberam reajuste de 30% no valor mensal creditado pelo governo.

Míriam Leitão - Força e risco de Massa e Milei

O Globo

Economia ruim da Argentina é terreno fértil para ultradireita, e próximas semanas serão longas em um país polarizado

A Argentina terá dificuldades seja qual for a decisão das eleições de 19 de novembro. A crise econômica não terá solução fácil, portanto quem assumir o país em 10 de dezembro administrará um pesadelo econômico com inflação alta, recessão, falta de dólares e déficit fiscal.

A vantagem do candidato oficial, Sergio Massa, é ao mesmo tempo sua maior fragilidade. Ele está no comando da economia, saberá que passos dar e conhece a natureza do buraco em que o país se meteu. Ao mesmo tempo, ele tem que carregar o ônus de ser a pessoa que comanda essa economia em frangalhos. A vantagem de Javier Milei é ao mesmo tempo a sua fragilidade. Ele não tem programa, pode adaptar as suas propostas a quaisquer circunstâncias. Esse vazio o trouxe até aqui, mas o medo das suas falas incendiárias pode impedir que ele vá adiante.

Uma análise que ouvi no governo brasileiro define bem o extremista de direita, Javier Milei.

– Ele faz parte dessa novidade na política que já vimos em vários países, em que um candidato se diz anti-sistema, mesmo não sendo, e que com falas radicais tem tido sucesso mundo afora em monopolizar os descontentes. A Argentina tem tido momentos tão difíceis nos últimos governos que a insatisfação levou-o a obter todo esse espaço nas eleições. Milei usa essa tecnologia de reunir ideias que chegam com muito apelo às pessoas, mas que nem sempre correspondem à verdade, ou representam um programa. A ideia é mobilizar descontentes, com o discurso de ser contra tudo e todos, enquanto a política tradicional tenta convencer as pessoas em torno de um programa de governo — disse uma autoridade que acompanha o assunto.

Luiz Carlos Azedo - Entre o peronismo e o anarco-capitalismo

Correio Braziliense

A redemocratização da América Latina, após a derrocada dos regimes militares, produziu uma espécie de “revanche do populismo“

O que não falta são tangos para embalar os corações argentinos na sucessão do presidente Alberto Fernández. No segundo turno, terão que escolher entre Volver — Volver con la frente marchita/ Las nieves del tiempo platearon mi sien/ Sentir que es un soplo la vida/ Que veinte años no es nada (Voltar com a testa franzida/ As neves do tempo pratearam minhas têmporas/ Sentir que se é um sopro de vida/ Que vinte anos não são nada) —, clássico de Carlos Gardel e seu parceiro paulista Alfredo Le Pera, e Balada para un loco — Loco! ¡Loco! ¡Loco!/ Como un acróbata demente saltaré/ sobre el abismo de tu escote/ hasta sentir que enloquecí/ tu corazón de libertad… (Louco! Louco! Louco! Como um acrobata demente saltarei/ sobre o abismo do teu decote/ até sentir que enlouqueci/ o teu coração de liberdade…), de Astor Piazzolla e o poeta uruguaio Horácio Ferrer.

Carlos Andreazza - Estado de Sérgio Cabral permanente

O Globo

José Renato Torres estava a serviço do Tribunal de Contas do Município; de onde sairia para ser — por menos de três semanas — secretário de Polícia Civil. Começou prestigiado, pinçado pelo governador para trabalho de longo prazo. (Para o mesmo cargo, Cláudio Castro já selecionara delegado que seria preso, investigado por envolvimento com o jogo do bicho.)

A indicação de Torres foi apoiada pelo presidente da Alerj — presente à posse — e seus amorins. Não era a primeira opção dos bacellares, afinal admitido sob compromisso de partilhar as divisões da Polícia Civil entre apadrinhados dos projetos de Picciani. Havia um acordo. Que Torres não cumpriria. Sua cabeça ofertada pelo mesmo governador que o empossara convicto:

Andrea Jubé - Volta de Lula joga luz sobre ministros em alta

Valor Econômico

Simone Tebet tem sido elogiada pelo empenho, lealdade e estilo “low profile”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia encomendado aos auxiliares um megaevento para marcar o seu retorno ao Palácio do Planalto três semanas após a cirurgia para colocar uma prótese no quadril, e a blefaroplastia, que retirou o excesso de pele nas pálpebras. Lula queria proclamar, em grande estilo, que voltou com fôlego renovado e disposição para pilotar o governo.

“Eu estou de volta”, comemorou, em transmissão ao vivo do Palácio da Alvorada. Lembrou que a cirurgia completou 21 dias, permitindo seu retorno aos despachos presidenciais. Para viajar de avião, todavia, ainda terá de esperar mais seis a oito semanas, dado o risco de trombose. Do contrário, admitiu a interlocutores, gostaria de viajar para o Amazonas ou Pará, a fim de visitar as regiões devastadas pela seca na Amazônia.

Pedro Cafardo - Multidão de informais encheria 600 Maracanãs

Valor Econômico

Informais de aplicativos são minoria; a maior parte são pessoas espalhados pelo país, aos milhões, nas mais diversas ocupações, desde pequenos prestadores de serviços, que se viram recebendo Pix aqui e ali, até profissionais com formação superior

A geração de emprego e renda é o grande objetivo de qualquer política econômica séria, seja qual for o país. Olhando por esse aspecto, o Brasil não vai mal neste início de governo. A quantidade de trabalhadores com carteira assinada aumenta desde o início do ano, mantendo tendência de 2022. Em agosto, havia 37,2 milhões de pessoas com vínculo na CLT, 422 mil a mais do que três meses antes.

Esse número (37,2 milhões) é o maior desde fevereiro de 2015, indicando que o país se recupera da grande crise econômica iniciada oito anos atrás e ampliada durante a pandemia.

Aqui vale abrir um parêntese. Tirando a questão do déficit zero previsto pelo governo para 2024 e contestado pelos economistas de mercado, o país está em boa situação econômico-financeira. Mesmo em um ambiente global com duas guerras e com o cenário mais fraco no terceiro trimestre, a previsão de crescimento econômico deste ano foi elevada para 3,1%, índice modesto, mas em linha com a expansão média mundial projetada pela OCDE. Com juros básicos em queda, embora ainda em 7% reais, a inflação segue controlada e deve fechar o ano abaixo de 5%. O superávit da balança comercial atingirá US$ 90 bilhões, um dos maiores do mundo. O déficit previsto para as transações correntes caiu para US$ 35 bilhões e será facilmente compensado pelo investimento estrangeiro direto da ordem de US$ 65 bilhões. Com isso, as reservas cambiais do país podem ficar acima dos US$ 350 bilhões.

Eliane Cantanhêde - Entre os males, o menor

O Estado de S. Paulo

Entre o certo e o incerto, o ruim e o pior, o Brasil ficou com o certo e o ruim na Argentina

Todas as vezes que a política falha aparece um outsider como salvador da pátria, cavalgando ideias extravagantes, falso moralismo, patriotismo tosco e populismo barato, tudo assim, recheado de adjetivos. É o caso de Javier Milei, o “fenômeno” – ou seria “mito”? – na Argentina. A surpresa no Brasil foi a dianteira de Sergio Massa no primeiro turno, mas a eleição ainda vai dar o que falar – e o que escrever.

O mais estratégico parceiro brasileiro está entre o certo e o incerto, o ruim e o pior, um “anarcocapitalista” defensor não de um Estado mínimo, mas de zero Estado, e um ministro da Fazenda especialista em bater recordes, com cerca de 140% de inflação ao ano e mil pesos por um dólar. É fantástico. As pessoas devem andar nas ruas não com carteiras, mas com sacolas. O resto está em dólar mesmo, debaixo do colchão.

Hélio Schwartsman - Paradoxo argentino

Folha de S. Paulo

Duelo de rejeições explica em parte bom resultado de candidato governista

Como o ministro da Economia de um país com inflação de quase 150% consegue sair na frente numa disputa presidencial que foi para o segundo turno? É fácil. É só colocar Javier Milei como adversário a derrotar. Foi assim que o candidato governista Sergio Massa, contrariando o resultado das prévias (Paso) e as pesquisas, abriu uma dianteira de quase sete pontos percentuais sobre o postulante anarcocapitalista, cujo apelido, "El Loco", fala por si.

Os números das Paso, como escrevi aqui em agosto, deveriam ser vistos com um grão de sal. As exóticas prévias argentinas, um pleito antes do pleito cujo valor é principalmente indicativo, são, afinal, um convite ao voto de protesto. À medida, porém, que as eleições se presentificam e o eleitor começa a considerar suas consequências, ele fica mais cauteloso.

Dora Kramer - Real tamanho

Folha de S. Paulo

Soaram exageradas algumas análises sobre o papel do Brasil no Conselho de Segurança da ONU

Daqui a uma semana o Brasil deixa a presidência temporária do Conselho de Segurança da ONU. O fim do mês de outubro marca também a volta do país à sua real dimensão no contexto da guerra entre Israel e o Hamas, num cenário de muitas incertezas sobre a possibilidade da expansão do conflito na região.

Sem dúvidas há tratativas importantes das quais o Itamaraty e o presidente Luiz Inácio da Silva, ao lado do conselheiro e ex-chanceler Celso Amorim, participam, bem como é de se reconhecer o incansável esforço diplomático. Sem nos esquecermos de dar os méritos devidos à operação de resgate dos brasileiros de solo israelense.

Joel Pinheiro da Fonseca - É graças às redes que descobrimos a verdade sobre a explosão do hospital palestino

Folha de S. Paulo

Conforme o debate público se debruçava sobre a explosão, cada elemento ficava mais dúbio

"Israel bombardeia hospital em Gaza e mata 500." Variações deste tema foram manchete pelo mundo todo, inclusive no Brasil. Líderes do mundo todo reagiram. Então, o governo israelense não é melhor do que os terroristas do Hamas?

Era impossível? Vejam: Israel vinha lançando mísseis em Gaza sem parar, com milhares de civis mortos. Hospitais na região haviam recebido ordem de evacuação. Sabe-se que o Hamas já utilizou hospital como base de operações no passado. Então, era completamente inverossímil que Israel bombardeasse um hospital? Não.

Tanto não era inverossímil que um influenciador israelense e militante pró-Netanyahu, Hananya Naftali, foi um dos primeiros a confirmar a notícia, dando a ela um viés favorável a seu lado: "URGENTE: Força Aérea Israelense acertou uma base terrorista dentro de um hospital em Gaza. Muitos terroristas morreram."

Alvaro Costa e Silva - Exército vai da popularidade ao escândalo

Folha de S. Paulo

Mesmo assim ainda sobrevive o conceito de militares na política

O triplo assassinato dos médicos no quiosque da Barra mal acabara de chocar o Brasil quando Valdemar Costa Neto encontrou munição para levar adiante sua ideia fixa: fazer de Braga Netto candidato à prefeitura carioca em 2024 com ênfase na segurança pública. Na avaliação do cacique, general dá voto.

Ao ouvir a proposta pela enésima vez, o vice de Bolsonaro desconversou. Um dos oito generais do Exército indiciados no relatório da CPI do golpe, Braga Netto tem outro pepino para descascar. Desde setembro ele é investigado na operação Perfídia, da PF, que apura fraudes e compras sem licitação durante a intervenção no governo do Rio. É uma história cabeluda e confusa que mistura um doleiro de apelido "Macaco" com sicários colombianos em ação no Haiti.

Edgar Morin - O dever de rejeitar o ódio

Revista IHU On-Line

23 outubro 2023

Jerusalém "Não é impossível que o conflito se alastre, abrangendo e incendiando uma nação após outra. Há que se temer o pior", escreve o filósofo e sociólogo francês Edgar Morin, em artigo publicado em La Repubblica, 20-10-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Os monstruosos massacres cometidos pelo Hamas contra os judeus israelenses em 7 de outubro causam-me profundo horror. Nada justifica esses ataques fanáticos, muito menos a questão do povo palestino, cuja justa causa é dissimulada por esses atos bárbaros. O terrorismo do Hamas ocultou e está ocultando para muitos o terror de um Estado que respondeu a esses impiedosos fanáticos de forma impiedosa contra dois milhões de habitantes de Gaza, causando já três mil mortes. E como Netanyahu anunciou, isso é apenas o começo.

O ódio não é novo. Mas agora está vindo de ambos os lados. Gera o delírio da culpa coletiva do povo inimigo, que conduz às piores crueldades e aos massacres, atingindo também mulheres, idosos e crianças.

A contextualização dos horrores do 7 de outubro, indispensável para qualquer entendimento, coloca-os, em primeiro lugar, na longa história do povo israelense, vítima milenar do antijudaísmo cristão, depois do antissemitismo racial que visava o seu extermínio, e cuja pátria israelense viu-se por muito tempo ameaçada por Estados hostis. Israel não foi um oásis de refúgio, mas uma cidadela em guerra.

Poesia | "Poética" - Manuel Bandeira

 

Música | Orquestra Sinfónica Infantil de México - Popurrí de Mambo de Pérez Prado