sexta-feira, 28 de novembro de 2008

De falcões e pombos


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

NOVA YORK. Os ataques terroristas na Índia trouxeram novamente a questão da segurança nacional para o centro das preocupações dos americanos, que estariam sendo caçados em Mumbai e, no plano interno, de novo às voltas com ameaças de atentados no metrô de Nova York em pleno Dia de Ação de Graças. Assim, a apresentação da equipe que vai comandar a política de segurança nacional do futuro governo Barack Obama ganhou dimensões políticas maiores ainda do que normalmente já teriam, e as críticas de ambos os lados já cercam as escolhas, ainda não anunciadas oficialmente.

Os democratas mais empenhados no movimento pacifista vêem com desagrado escolhas como a de Hilary Clinton para a Secretaria de Estado, ou a permanência de Robert Gates na Secretaria de Defesa, que seriam sinais de que o espírito de "pombos" não estaria guiando a seleção do futuro gabinete.

A senadora Hilary Clinton, por exemplo, apoiou a Guerra do Iraque quando foi desencadeada, sendo inclusive criticada por isso por Obama durante a campanha, e também defende posições mais duras contra o Irã, aparentemente em desacordo com as idéias defendidas por Obama nos debates das primárias.

Ao mesmo tempo, republicanos belicosos criticam a ausência de "falcões" na equipe de Obama, no momento em que a ameaça terrorista já se mostrou novamente ativa. Se confirmar a manutenção de Gates à frente do Pentágono, o futuro presidente estará dando um caráter de urgência à primeira transição em tempo de guerra em 40 anos, optando por manter a operacionalidade do esquema de segurança já existente.

É inegável que uma transição desse nível, mesmo em tempos de paz, leva alguns meses para ser realizada com sucesso, e manter Gates significa que Obama não quer ficar um minuto de seu novo governo sem estar pronto para ações concretas contra o terrorismo.

Com uma longa carreira nos serviços de inteligência do governo dos Estados Unidos, sobretudo a CIA, Gates foi o primeiro nome cogitado para ocupar o novo ministério de segurança interna, criado logo depois dos atentados de setembro de 2001, mas recusou o convite para permanecer à frente de uma universidade no Texas.

Entrou para o governo Bush em 2006, depois de ter feito parte de um grupo de estudos bipartidário sobre a Guerra do Iraque, comandado pelo ex-secretário de Estado James Baker.

Gates tem condições de auxiliar o novo governo em duas políticas cruciais: o corte de programas militares não prioritários, na busca de equilibrar o orçamento interno, e ao mesmo tempo a retirada das tropas americanas do Iraque.

O cronograma de retirada dos 150 mil homens do Exército americano prevê um período de 16 meses, mas certamente esse projeto poderá ser ampliado caso as circunstâncias do momento indiquem a necessidade de um período maior.

Um dos principais objetivos do novo governo, o de transferir os esforços de guerra para o Afeganistão na busca dos terroristas da Al Quaeda, tem nos atentados da Índia talvez o primeiro sinal de reação na região.

Outros dois cargos de fundamental importância no esquema de segurança nacional já foram anunciados, e ambos mereceram críticas de republicanos mais radicais. A escolha da governadora do Arizona Janet Napolitano para o ministério da Segurança Interna foi vista como uma clara opção de dar prioridade às questões imigratórias, em detrimento à luta contra o terrorismo.

A governadora de um estado que faz fronteira com o México é vista como uma especialista na área de imigração, sem os conhecimentos necessários para atuar em outras áreas abrangidas pelo ministério, como a prevenção das drogas e o terrorismo.

Outra escolha criticada pelos republicanos foi a de Eric Holder para Ministro da Justiça, um antigo servidor do governo Clinton e ligado à senadora Hilary Clinton. Ele é acusado de ter ajudado Hilary na sua disputa pelo Senado em Nova York ao, como vice ministro da Justiça, ter apoiado o perdão dado pelo presidente Clinton a um grupo de terroristas de Porto Rico que colocou bombas em vários locais de Nova York, matando quatro pessoas em um restaurante.

O grupo Forças Armadas de Liberação Nacional (Faln) lutava pela independência de Porto Rico, que tem uma grande comunidade de residentes em Nova York. O fato é que os terroristas já estavam presos há 19 anos e uma comissão de prêmios Nobel da Paz, entre eles o ex-presidente Jimmy Carter, pediu a clemência, alegando que as penas eram muito maiores do que as normalmente atribuídas ao tipo de crime que haviam cometido.

Hilary, na sua campanha para o Senado, apoiou o perdão, mas depois retirou o apoio por que uma das condições da Casa Branca era de que os terroristas abdicassem da violência, o que eles se negaram a fazer depois de libertados.

O futuro ministro da Justiça, Eric Holder, foi um dos primeiros apoios na campanha de Obama dentro do Partido Democrata, assim como a governadora Janet Napolitano, e as duas nomeações estão sendo tratadas mais como uma recompensa política do que uma escolha técnica.

A verdade está no meio termo, e a de Obama não será uma equipe nem de "falcões" nem de "pombos", assim como a política de segurança nacional não será a continuação do espírito belicoso da era Bush, mas não será também dominada pela ingenuidade que muitos acusam Obama de ter.

O futuro das chuvas


Fernando Gabeira
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


RIO DE JANEIRO - Quando passou um furacão em Santa Catarina, por acaso, estava lá.

Constatei que havia infra-estrutura razoável e que a defesa civil era boa. Numa cidade como o Rio, 40 minutos de temporal bastam para inundar alguns dos seus principais bairros.

Isso significa que chuvas como as que caíram em Santa Catarina podem ser mais devastadoras ainda em algumas regiões do país. Lá mesmo, houve grandes chuvas em 1980 e 83. Não se falava ainda no processo de mudanças climáticas.

Metrópoles como Londres acreditam na possibilidade dessas mudanças. Têm estrutura e autoridade designada para realizar o que os debates internacionais recomendam diante do futuro: adaptação.

Não sei se o caminho no Brasil se resume em alertar para mudanças climáticas, nas quais muitos, apesar de 20 anos de alerta, não acreditam. Há coisas mais elementares que poderiam nos unir: limpar galerias, desentupir bueiros, recolocar pessoas que vivem em perigosas encostas ou, ilegalmente, próximas aos espelhos-d"água.

Durante algum tempo, fixei-me na idéia de adaptação e cheguei e prever no Orçamento uma verba para Petrópolis desenvolver um plano. A idéia era simples: se fizéssemos um plano numa cidade castigada por temporais, poderíamos oferecê-lo a outras cidades do mundo, respeitadas as singularidades.

Mas é preciso baixar a bola. Criar um mecanismo para avaliar se as cidades estão mesmo fazendo o trabalho subterrâneo. Nem sempre as empresas cumprem os contratos: algumas vezes, perto de eleições, o dinheiro poupado é dividido com os políticos.

Bastaria um robô para inspecionar as galerias. Com tanta ONG no Brasil, por que não criar uma para fazer o que os governos desprezam? Não importa se as mudanças climáticas virão. Estamos indefesos diante das chuvas de verão.

Até debaixo d"água


Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - A humanidade não está brincando com fogo, está brincando com água. Já houve as tragédias da Índia, da China, da Tailândia, dos EUA, e chegou a vez do Brasil, o paraíso tropical onde faz sol de janeiro a janeiro, não há terremotos, maremotos, nem furacões. Pelo menos até agora.

A tragédia que afunda Santa Catarina em água, lama e uma centena de mortes não é uma questão política, nem de gerência, é um alerta da "Mãe Natureza". Está na hora de parar de achar que esse tal de aquecimento global e essa tal de mudança climática são devaneios de lunáticos que não têm o que fazer.

A natureza está mandando sinais de alerta, que o homem agrava ao desenvolver cidades e povoados perigosamente margeando os rios e desrespeitando o limite de 20% de inclinação das encostas para construir suas casas, pobres ou ricas, como surgem nas fotos de Santa Catarina agora.

Em todas as calamidades assim, possivelmente o maior número de mortos e desabrigados é justamente entre os que habitam as encostas.

A chuva excede a média, o rio transborda, a terra se afofa. As casas vêm abaixo junto com a água, a lama e os seus moradores. Até a próxima tempestade, os próximos desabamentos, as próximas mortes.

O caos em Santa Catarina é como se um dos mais bonitos cartões-postais brasileiros estivesse sendo rasgado, despedaçado, justamente às vésperas do seu período anual de glória: o verão.

Aliás, é uma trágica ironia que a mais nova edição da revista da Gol enalteça até na capa as belezas catarinenses, conclamando os viajantes a se deliciarem com suas praias e comidas.

É difícil escrever num momento assim, mas é impossível ficar indiferente e não escrever nada.


Até porque as chuvas passam e vêm o desabastecimento, a desordem, a falta de estradas, de água tratada e de luz e o imenso risco de doenças, até epidemias. Sem falar na dor de milhares, que fica para sempre.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Carta aberta ao Grande Chefe Branco


Demétrio Magnoli
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Prezado deputado Paulo Renato Souza (PSDB-SP):


No 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, a Câmara passou a lei de cotas nas universidades e instituições federais de ensino médio, que é a primeira lei racial na história da República. A aprovação se deu sem o voto dos deputados, por conluio entre lideranças. Você participou destacadamente daquele conluio, renunciando à posição contrária à inclusão da raça na lei que dizia sustentar.

Arlindo Chinaglia (PT-SP), o presidente da Câmara, celebrou o desenlace e ofereceu um diagnóstico: “Os que têm opiniões divergentes cederam, o que resultou em um grande avanço.” Traduzo a frase do seguinte modo: nada é impossível, nem mesmo derrubar o princípio da igualdade perante a lei, quando a oposição abdica de seus deveres básicos. Estou errado?

Serei franco. Surpreendeu-me a sua colaboração, sem a qual o projeto teria de aguardar uma sessão com quórum e ser votado nominalmente pelos deputados. Li num jornal a sua justificativa. De acordo com ela, o projeto não é ruim, pois estabelece cotas raciais proporcionais à composição “racial” da população de cada unidade federativa, de modo que, nas suas palavras, nos Estados com predomínio demográfico de brancos, eles terão chances maiores de ingressar nas universidades. Se entendi, você negociou e aprovou o projeto pois não viu nele desvantagens para a “raça branca”. Posso, então, intitulá-lo Grande Chefe Branco?

Não há ironia nisso, acredite. Os patrocinadores de projetos de cotas no ensino e no mercado de trabalho almejam a condição de líderes negros. Eles usam o fruto envenenado da raça para impulsionar carreiras políticas ou conquistar posições de prestígio em ONGs muito bem financiadas. Mas é claro que a construção de identidades raciais oficiais no Brasil abre possibilidades inusitadas. Se há líderes negros, por que não líderes brancos? (Veja que para isso nem se precisa de algo tão aparente quanto a cor da pele: em Ruanda a vida política girava em torno de líderes tutsis e líderes hutus, ao menos até o genocídio).

Não nos enganemos. Políticos oportunistas em busca da condição de líderes negros (ou brancos) são elos instrumentais na passagem de leis de raça, mas a concepção de tais leis se deve aos doutrinários racialistas, que são pessoas dotadas de princípios - e o xis do problema reside no conteúdo desses princípios. Racialismo é a doutrina baseada numa dupla crença: 1) raças existem, se não na natureza, ao menos na história; 2) “a história do mundo não é a história de indivíduos, mas de grupos, não a de nações, mas a de raças”. Empreguei, para expor a segunda crença racialista, uma citação de William Du Bois (1868-1963), o pai fundador da doutrina. Toda a lógica das políticas de cotas raciais se encontra delineada na obra desse americano. Seria inoportuno sugerir que a lesse?

Du Bois era um racialista, não um racista, pois não acreditava em noções de superioridade racial. Ele visitou a Alemanha nazista e gostou do orgulho de raça promovido pelo regime, mas confessou sua repulsa com a perseguição aos judeus. Bem antes, em 1903, escreveu Os talentosos dez por cento, em que expunha a tese de que, por meio de uma criteriosa seleção educacional, um negro em cada dez poderia converter-se em líder mundial da raça negra. O artigo começa assim: “A raça negra, como todas as raças, será salva por seus homens excepcionais. O problema da educação entre negros, então, deve antes de tudo concentrar-se nos 10% talentosos...” Entendeu, agora, a proposta de cotas? Percebeu que ela nada tem que ver com um programa de redução de desigualdades sociais?

Nos EUA, as leis de segregação racial definiram quem era branco e quem era negro. Du Bois falava para uma raça oficializada pela discriminação. Por aqui, os racialistas lamentam a ausência de leis desse tipo no nosso passado, pois recaiu sobre os ombros deles a missão de fabricar, na mente das pessoas, a consciência racial e o orgulho de raça. Fico um tanto triste ao perceber que se procura realizar essa obra a partir da escola. Tarso Genro, na sua passagem pelo Ministério da Educação, ordenou que todas as escolas associem nominalmente cada aluno a uma raça. Você, um ex-ministro da Educação, e Paulo Haddad, o atual titular da pasta, articularam juntos o projeto de cotas raciais aprovado na Câmara. Vocês não são três, mas uma tríade. Juntos, por cima de diferenças partidárias, invadem as aulas de História e Biologia para apagar a lousa onde está escrito que raças humanas não existem, a não ser como invenção do racismo. Mas você liga para o que está escrito na lousa?

Já notou que os brasileiros sentem uma certa repugnância diante da idéia de serem divididos oficialmente em raças? Por coincidência, no mesmo dia em que vocês aprovavam uma lei que faz exatamente isso, divulgou-se uma pesquisa de opinião pública sobre atitudes diante do tema racial. Encomendada pelo Cidan, uma ONG racialista, a pesquisa fez perguntas viciadas, tendenciosas, a uma amostra da população carioca. Mesmo assim, 63% declaram-se contra as cotas raciais. Mais interessante é que as posturas diante das cotas raciais não variam em função da cor autodeclarada das pessoas. Entre os “brancos”, 63,7% rejeitam essa política; entre os “pardos”, 64%; entre os “pretos”, 62,2%. Eu interpreto isso como uma opção identitária: as pessoas, independentemente da cor da pele, querem ser cidadãos iguais perante a lei. Estou errado?

Não há motivo para imaginar que os demais brasileiros pensem diferente dos cariocas. Apesar da maciça propaganda racialista veiculada pelo Estado, os cidadãos percebem o mal que a pedagogia das raças faz aos jovens estudantes. A coincidência entre a divulgação da pesquisa e a aprovação por conchavo da lei de cotas coloca uma pergunta constrangedora: onde está a representação parlamentar da maioria que rejeita as leis raciais?

Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP.

De mau a pior


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A Câmara dos Deputados passou o ano todo indo, voltando, virando e mexendo no projeto de emenda constitucional que altera o rito de tramitação das medidas provisórias. Embromando, seria o termo mais exato.

Na semana passada o presidente do Senado, Garibaldi Alves, deu um susto geral devolvendo de forma unilateral a MP de anistia às entidades filantrópicas, na terça-feira o Parlamento resolveu simular uma providência aprovando uma emenda que, na essência, não muda coisa alguma.

Ou, por outra, piora o que já estava ruim: conserva o poder de interdição da pauta do Legislativo nas mãos do Executivo, cria uma zona franca para o pedido de créditos suplementares e ainda livra o Congresso da responsabilidade constitucional de examinar os preceitos de relevância e urgência das MPs.

Hoje, uma medida provisória passa na frente de todos os outros projetos 46 dias depois de editada e paralisa a agenda até ser aprovada ou rejeitada. Pela nova regra, uma MP ganha prioridade no 16º dia de edição, mas pode perder essa condição se a maioria absoluta dos parlamentares (257 deputados ou 41 senadores) concordarem em inverter a ordem dos assuntos em pauta.

Em tese, o Congresso recupera a iniciativa e o poder sobre o andamento dos trabalhos. Na prática, fica tudo como está. O Executivo continua dono da chuva e do sol dentro do Parlamento.

Tendo a maioria e sendo ela ora subserviente ora fisiológica, de duas, uma: ou o governo sempre conseguirá mobilizar naturalmente sua base para impedir a inversão da pauta ou fará isso movimentando mais instrumentos de negociação caso a caso para assegurar a fidelidade da tropa.

Se o objetivo do Legislativo era reequilibrar a correlação de forças com o Executivo, o texto aprovado pela Câmara não dá motivo para comemoração. O Planalto ganhou mais uma vez.

Pode ser que venha a perder quando a emenda for a exame no Senado, onde a maioria governista é mais estreita e menos cordata. Mas, por enquanto está em vantagem.

No início, jogou duro contra qualquer mudança. A Casa Civil chegou a mandar uma proposta aumentando a validade de uma MP de 120 para 240 dias. Provocação pura.

Alertado para a necessidade de falar sério se não quisesse assistir a uma reforma para valer, o governo aceitou dar prosseguimento ao assunto, mantendo, porém, o trancamento da pauta como ponto de honra. Cláusula pétrea.

Pelo seguinte: se as medidas provisórias de alguma forma não paralisassem a pauta de votações não poderiam mais ser aprovadas em bloco e por acordo como ocorre atualmente. Nesse caso, o Executivo seria obrigado a tratar de cada medida em separado negociando a entrada na pauta e a aprovação do mérito.

Ou, então, diminuir o número de medidas provisórias. Como isso estava fora de cogitação, criou-se o inócuo atalho.

Essa é a parte, digamos, boa da história. A ruim impõe dois retrocessos: abre uma brecha para o pedido de créditos suplementares por meio de medida provisória para fugir das sentenças de inconstitucionalidade dadas pelo Supremo Tribunal Federal e extingue a exigência do exame de admissibilidade das MPs por uma comissão especial com poder de devolvê-las.

A comissão nunca se reúne, mas a prerrogativa de fazê-lo está lá, lembrando ao Congresso que ele não cumpre suas obrigações. Agora as medidas precisam de um parecer da Comissão de Constituição e Justiça que, seja qual for, não impede o curso da MP até o plenário.

Quer dizer, para o Executivo a situação é a mesma e para o Legislativo ficou bem mais confortável.

Honra da firma

O clima no governo não corresponde ao otimismo exibido depois da reunião ministerial de segunda-feira, da qual resultou uma "determinação" do presidente Lula para que os ministérios gastassem o dinheiro em caixa a fim de combater preventivamente os efeitos da crise econômica mundial.

A atmosfera tampouco é de pessimismo. Prepondera, na realidade, a incerteza. Ninguém sabe o que vem por aí em 2009. Por via das dúvidas, a ordem geral é manter o moral da tropa nacional elevado enquanto não se desenham com exatidão as conseqüências internas da crise externa.

O objetivo do encontro foi puramente virtual. Até porque os investimentos em questão não dependem da palavra do presidente. Quem não gastou recursos previstos no Orçamento (menos da metade até novembro) não o fez por falta de "autorização" de Lula, mas por insuficiência de desempenho.

É inócuo também o incentivo governamental ao consumo porque no cotidiano ninguém organiza as respectivas despesas conforme orientação do Palácio do Planalto.

Na política, contudo, o otimismo serve como antídoto ao baixo-astral que, como bem sabe o PT, quando se alastra pelo ambiente tende a desgastar o governo e favorecer a oposição.

E, se o ambiente é de mandato em reta final, com mais velocidade as más profecias se tornam o motor de sua própria realização.

Crise e oportunidade


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. A dívida externa americana, que chegou a US$10 trilhões antes da crise financeira iniciada no meio de setembro, está a ponto de atingir 100% do PIB com os sucessivos pacotes de liquidez já aprovados no valor total de cerca de US$2,5 trilhões, e mais um provável programa de US$700 bilhões para a criação de 2,5 milhões de empregos em obras de infra-estrutura a ser anunciado pelo presidente Barack Obama em seus primeiros dias na Casa Branca. E é previsível que outros pacotes de estímulos ainda virão. O outro déficit, o público, se ampliará para o recorde de aproximadamente US$490 bilhões no ano que vem, e caberá ao novo diretor de Orçamento, Peter Orzag, fechar o grande buraco orçamentário que será herdado.

Será possível à nova administração democrata montar uma arquitetura financeira que combine uma política monetária bastante frouxa no curto prazo, e que em longo prazo mantenha o interesse dos investidores nos papéis do Tesouro, diante de um déficit dessa magnitude? É real a possibilidade de os títulos do Departamento do Tesouro sofrerem uma desvalorização por conta do agudo crescimento do endividamento do governo?

As agências de classificação de riscos, das grandes culpadas pela crise financeira, considerarão rebaixar a classificação dos Estados Unidos, hoje considerados AAA? Se isso vier a acontecer um dia, o reflexo se verificará por toda a economia globalizada, já que os títulos do Tesouro americano são a referência internacional e o dólar é o padrão monetário.

O economista Paulo Rabello de Castro lançou um livro ontem cujo título já diz tudo: "A grande bolha de Wall St. - Como ela pegou o mundo, como ela pode afetar você". Ele está convencido de que "as autoridades estão perdidas diante de uma economia real que se dissolve". Paulo Rabello acha que "estamos diante de uma completa dissolução dos princípios econômicos. Será que serão torneiras de liquidez abertas que darão mais competição e competitividade à economia norte-americana?", pergunta, cético.

Ele vê "um excesso de questões mal respondidas pelo governo dos EUA", e ressalta que o "caminho para o qual estão levando a confiança no dólar é trágico". Por isso, ele diz que "é preciso acompanhar de perto a trajetória do Federal Reserve, com total atenção".

Os pacotes multibilionários de ajuda, neste caso, analisa Paulo Rabello, podem ter efeito contraditório, voltando-se contra o regime monetário dos países, expondo a fragilidade de suas moedas. "O grande desafio hoje é como reverter a grande fragilidade do regime monetário norte-americano. Para o resto do mundo, a pergunta é: haveria um substituto claro a ocupar o lugar de lastro internacional de transações?".

Ele diz que "o uso e abuso do suprimento de liquidez já tem sido a arma secreta desde Greenspan (Alan Greenspan, ex-presidente do Banco Central dos Estados Unidos), cuja escola é a mesma do (Ben) Bernanke e agora de (Tim) Geithner e Larry Summers".

Paulo Rabello ressalta que a liquidez abusiva até funciona enquanto a demanda por títulos públicos é grande e crescente, como ocorreu enquanto a China, Brasil, Índia, os países árabes "compravam literalmente trilhões em bônus dos EUA, os quais assim financiavam a guerra de 2003, a redução de impostos dos ricos, os programas eleitoreiros domésticos do Bush, etc etc". Mas ele crê, "com realismo", que essa demanda "secou ou vai secar feio" devido ao ajuste, "que demandará que os chineses poupem menos e que os americanos poupem o que nunca pouparam antes".

Para ele, existe em marcha "um choque de riqueza com sinal trocado que é monstruoso" com a percepção de todo americano de que "seu fundo de pensão foi parcial ou totalmente para o brejo". Paulo Rabello dá o exemplo da fábrica de carros GM, "que não consegue mais arcar com contribuições, ao mesmo tempo em que o valor dos ativos da reserva do fundo caem de valor drasticamente". E também o do Estado de New Jersey, que não poderá pagar as pensões integrais.

Para ele, este é o "efeito-pobreza", que é agravado pela noção do contribuinte de que "a torneira fiscal de hoje é o imposto amanhã, e que, assim, ele tem que poupar mais para enfrentar o imposto", anulando o esforço de convite ao gasto feito pelos pacotes de estímulos econômicos dos governantes.

O economista acha que a solução dependeria "de fazer os credores privados afoitos pagarem ao descontar seus créditos radicalmente, mas, se o governo estatiza o crédito, livra o prejuízo de credores e acionistas". Ele considera essa situação espantosa e intrinsecamente má, "pois prolonga o custo total do ajuste em cima das classes menos favorecidas, bem ao contrário do que faz crer a sabedoria e a mídia convencionais".

Paulo Rabello de Castro acha que, dessa crise, a preferência pelo dólar vai recuar e novos regimes monetários poderão surgir com papéis relevantes, e o Real poderá ser um deles, dependendo das decisões a serem tomadas pelo governo brasileiro.

Uma política de fortalecimento do Real teria que atender aos seguintes princípios, segundo Paulo Rabello:

1- Redefinição e contenção de despesas públicas.

2- Reforma tributária arrojada

3- Política fiscal neutra


Alguns objetivos de longo prazo deveriam também ser definidos:


1- Déficit nominal zero


2- Aumento de 10% da Produtividade Pública


3 - Meta de 30% de carga tributária em 2020


4- Fim da indexação pelo IGP


5- Aumento da Poupança Previdenciária


6 - Taxa de investimento de 25% do PIB em 2011.

Desastres conservados


Janio de Freitas
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Já falam nos bilhões do prejuízo com a atual calamidade. Mas o que valem em comparação com uma casa perdida?

HÁ EXATOS 25 anos, um dos governadores recém-vitoriosos na primeira eleição sem restrições, ao apagar da ditadura, irrompeu na notoriedade nacional com o espetáculo de sua ação em uma calamidade feroz. Era a nova figura de Esperidião Amin, que se deparou, mal estreara, com os horrores da enchente gigantesca no mesmo Vale do Itajaí e cercanias agora vitimados. As providências de engenharia, para prevenir o desastre das vazantes excessivas, começaram a ser definidas ainda antes de baixadas as águas e logo asseguradas pelo governo federal (Santa Catarina não teria recursos para tanto).

No quarto de século decorrido desde então, as enchentes cumpriram com regularidade a sua programação anual, concedendo apenas na intensidade variável das suas perversidades. Mas, sempre, cada uma delas configurando a advertência do que poderia vir no ano seguinte. Assim atravessaram os dois anos finais da ditadura com Figueiredo, os dois anos de Collor, o mesmo de Itamar, cinco de Sarney, oito de Fernando Henrique e, já se pode dizer, seis de Lula.

Os ministérios incumbidos das obras mudaram de nome, cresceram nos bilhões das moedas que mudaram de nome, o regime mudou de nome, mudaram dezenas de nomes de ministros como se não houvesse nem um. E o legado de tudo isso foi manter em perfeitas condições as características topográficas, geológicas, fluviais e habitacionais adequadas a novas calamidades.

Já falam, por aí, nos imaginados bilhões do prejuízo com a atual calamidade. Mas o que valem esses bilhões em comparação com a casa perdida por uma família que dedicou tanto da vida a consegui-la, a dar-lhe os bens simplórios que nunca se completam? O custo da orfandade daquela criança, de qualquer criança, cabe nos bilhões do prejuízo citados pelos técnicos e pelos governantes? E os filhos esmagados, sufocados na lama, sumidos nas águas, que valor os técnicos e governantes dão à sua perda pela mãe, pelo pai? Ou não pensaram nisso?

Em proporções que só representam calamidade para os atingidos, e apenas um registro rápido nos noticiários, os desatinos da natureza repetem-se pelo país todo, o ano inteiro. Grande parte seria evitável ou poderia ser atenuada, muitos são objeto de velhos projetos preventivos, mas seguem se repetindo como se fossem uma fatalidade acima do poder humano. É que estão abaixo do poder dos interesses. Eleitorais, comissionais, negociais. Lidam com vidas irreconhecíveis, por não terem presença social, como classe.

No atual desastre catarinense, duas ilustrações resumem o governo. O ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, a quem caberia rápida reação já aos primeiros sinais da calamidade, foi de uma lerdeza muito expressiva, digna de um garçom baiano como ele. É até improvável que soubesse o que é e onde é o Vale do Itajaí. Lula, por sua vez, só ontem se dispôs ao esforço de dar um pulo em Santa Catarina. E assim mesmo porque também ontem recebeu duras críticas por sua distância apática. Críticas acompanhadas da observação de que essa é a sua conduta costumeira nas calamidades e tragédias.

O "homem do saco" e a crise


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - Quando do lançamento do Plano Cruzado (1986), o então deputado Antonio Delfim Netto produziu uma daquelas suas corrosivas frases: "Se inflação não tem causa, então o plano dará certo".

Como inflação tem causas, e como as causas não foram atacadas, o plano malogrou, depois de nove mágicos meses.

A frase de Delfim me volta à mente agora toda vez que leio sobre o tsunami de ajudas que os governos do mundo todo estão concedendo ao setor privado.

Se todos os problemas do mundo pudessem ser resolvidos nessa base, nunca haveria problemas no mundo. Bastaria, como agora, privatizar o dinheiro público e estatizar o risco. Bastaria botar para funcionar as máquinas impressoras das casas da moeda -e pronto, nunca haveria crise. Mas é como diz clássico refrão da economia que ninguém, a não ser por birra, é capaz de contestar: Não há almoço grátis.

Algum dia, os zilhões de ajuda serão pagos, ou na forma de déficit público cada vez maior, que, por sua vez, tende a gerar inflação, que tende a gerar contração da economia ou desorganização; ou na forma de endividamento desorbitado, que, não custa lembrar, é a causa original da presente crise.

O que torna a situação ainda mais dramática é a pergunta que James Horney, diretor de política fiscal federal do Center on Budget and Policy Priorities, de Washington, fez ao notável Sérgio Dávila: "Qual é a alternativa? Se o governo não se mexer para estimular a economia, o resultado poderá ser pior".

Quando era criança, me diziam que, se não me comportasse, viria o "homem do saco" e me pegaria. Hoje, vivem me dizendo que, sem esses pacotes todos, vem a "crise sistêmica" e me pega.

Nunca vi o "homem do saco". Alguém aí paga para ver se a "crise sistêmica" existe?

Em 2010, sob o império do cinza


César Felício
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Não resta dúvida sobre a influência de uma crise econômica de grandes proporções no resultado final de uma eleição, evidentemente um fator que ajuda a quem está na oposição. Mas na política o cinza impera sobre o preto e o branco e não existe uma variável que se imponha de maneira definitiva sobre todas as outras. Há exemplos que se deslocam no tempo e no espaço mostrando vitórias do situacionismo no contexto de graves crises econômicas.

Em 1998 o Brasil teve o menor índice de crescimento do PIB desde a introdução da nova moeda, com um percentual muito próximo de zero por cento. A taxa média de juros Selic foi de 31,2%. A fatia do desemprego aberto sobre a população economicamente ativa beirou os 12%. Quase 800 mil vagas no mercado de trabalho formal foram fechadas, número maior que a soma dos três anos anteriores. A única grande conquista que o então presidente Fernando Henrique Cardoso podia apresentar na esfera econômica era o estrangulamento da inflação - quase zero por cento - produzido pelo câmbio virtualmente congelado na paridade com o dólar. Não era pouca coisa, mas obviamente não estava na economia a razão que motivou a maioria absoluta dos eleitores a conceder ao tucano um segundo mandato presidencial já no primeiro turno, façanha não atingida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A reeleição de então foi construída no cenário político. O Palácio do Planalto minou o controle de Paulo Maluf sobre o então PPB - partido que chegou a reunir 88 deputados federais, embalado na perspectiva de o malufismo suceder Fernando Henrique - enquanto tucanos e petistas faziam vir à tona a ciranda dos precatórios na Prefeitura de São Paulo, que recolocou Maluf e seu à época herdeiro Celso Pitta na trilha dos escândalos. Os operadores de Fernando Henrique ainda conseguiram impedir que o PMDB lançasse a candidatura de Itamar Franco, em uma convenção movida a cadeiradas e palavreado chulo. E isolaram a oposição, ao cooptarem os governadores pedetistas Jaime Lerner (PR), Dante de Oliveira (MT) e até o petista Vitor Buaiz (ES), colocando a dupla Lula e Brizola caminhando sozinha pelo Brasil afora.

No começo de 2003, a crise do corralito ainda devastava a Argentina, então em "défault" e com a economia retrocedendo à razão de 10% ao ano. "Que se vayan todos" era um lema insistentemente repetido nas manifestações, em um sinal de repúdio à classe política. Na eleição presidencial, os dois principais candidatos que sinalizavam com mudanças radicais, o conservador José Lopez Murphy e a esquerdista moderada Elisa Carrió, ficaram em terceiro e quarto lugar. Nos dois primeiros lugares, classificados para um segundo turno que não chegou a se realizar, ficaram o ex-presidente Carlos Menem e o preferido do então presidente Duhalde, Néstor Kirchner.

Tanto o resultado no Brasil em 1998 quanto o da Argentina em 2003 não constituíram surpresas e se explicam pela conjuntura política própria de cada tempo e lugar. Indicam que a derrota do governismo em uma circunstância de crise econômica está longe de ser uma equação matemática.

Dilma Rousseff e José Serra, que hoje compõem a mais provável polarização em um segundo turno presidencial em 2010, possuem características semelhantes: radicalismo de esquerda na juventude, formação econômica e a imagem de que preferem a disputa política à composição. Um marketing eleitoral bem feito pode convencer os espectadores do processo de que estamos diante de duas pessoas preparadas para conduzir o Brasil em cenário adverso. Mas forjar alianças amplas talvez seja um atributo que falte a ambos.

Em nove eleições presidenciais democráticas realizadas no país, apenas em uma- a primeira, em 1945- houve a eleição de um ex-ministro do governo anterior, novato em disputas pelo voto: no caso, o marechal Eurico Dutra. Caso vença, Dilma seria o segundo caso em 65 anos. Serra conta hoje com um apoio à sua candidatura mais sólido dentro do parceiro DEM do que em seu próprio partido. Para a eleição de 2010, terá que se defrontar com o rival Aécio Neves. Na eleição municipal recém-terminada, precisou travar um embate surdo com o seu antecessor Geraldo Alckmin.

Se o agravamento da crise econômica diminuir o espaço de Lula para organizar a campanha de sua preferida, estará aberto o caminho para uma eleição pulverizada em 2010, em que não será impossível candidaturas próprias do bloco de esquerda e do PMDB.

Pode parecer desnecessário frisar a imensa quantidade de situações que ainda podem surgir nos próximos dois anos e direcionar o quadro eleitoral para um lado ou para o outro. Mas este é um exercício útil para exorcizar dois riscos: o de despolitizar um processo que é essencialmente político e de tornar a-histórico o que faz parte da história.

César Felício é repórter de Política. A titular da coluna, às quintas-feiras, Maria Inês Nassif, está em férias

Os “arranhões” da crise e os testes das disputas travadas no Congresso

Jarbas de Holanda

Em meio a dados contraditórios sobre os efeitos da crise global no Brasil – destacando uma melhora das operações de crédito no mês de novembro em relação a outubro e ignorando indicadores negativos, como a queda de 18% neste mês da rolagem de empréstimos para os setores privado e público e as férias coletivas de várias grandes empresas – o presidente Lula utilizou a reunião ministerial da segunda-feira sobretudo como cenário de campanha publicitária a ser lançada em dezembro com a dupla finalidade de motivar a população a continuar consumindo e de mostrar a eficácia das respostas do governo a tais efeitos. Apenas lembrando que poderá tomar novas medidas anticrise se ela se agravar (como a redução do IOF admitida como possibilidade pelo ministro da Fazenda), Lula reduziu a “alguns arranhões” as conseqüências que deverão ocorrer e voltou ao otimismo inicial reafirmando a crença num crescimento de 4% do PIB em 2009, ou seja, numa queda bem menor que a prevista pelo conjunto de analistas.

Disputas no Congresso – No aquecimento dos trabalhos dos senadores e deputados neste novembro pós-eleições municipais, destacam-se os seguintes temas ou questões: 1 – A ameaça de conflito entre o Legislativo e o Palácio do Planalto gerada pela devolução da MP das fi (ou pi) lantrópicas, que dá anistia a todas as entidades do gênero devedoras da Previdência. A inesperada devolução dela ao Executivo pelo presidente da Casa, Garibaldi Alves – um ato inédito de protesto do Congresso contra o uso abusivo de MPs – terá de ser submetida ao plenário. Paralelamente ao esforço que o governo faz para anular o ato de Garibaldi, o líder de sua bancada, Romero Jucá, prepara projeto de substitutivo que exclui anistia as entidades suspeitas de desvio de recursos públicos e de outras irregularidades. 2- A verdadeira declaração de guerra do governador de São Paulo,José Serra, ao projeto federal da reforma tributária, às vésperas da votação no plenário da Câmara do parecer do relator, Sandro Mabel, já aprovado na Comissão Especial que trata da matéria. “O que o relatório propõe – afirmou o secretário da Fazenda do governo Serra, Mauro Ricardo Costa, numa entrevista ao Estado de S. Paulo, de ontem – é a destruição da indústria paulista”. Enfrentando resistência também do governador mineiro Aécio Neves – embora menor e aberta a possível negociação -, o projeto (que inclui a fusão do PIS, da Cofins e do Salário-Educação no IVA, novo Imposto de Valor Agregado), terá ou teria a vigência de suas mudanças em janeiro de 2011, constituindo a única reforma econômica tentada no segundo governo Lula. Com forte empenho do deputado e ex-ministro Antonio Palocci, que preside a Comissão Especial. E 3– Por um lado, o aprofundamento das articulações do comando da bancada do PMDB no Senado com vistas à preservação da presidência da Casa no início de 2009 e, por outro, as reações da bancada e da direção do PT contra isso, e para a conquista do cargo, com apoio cauteloso do presidente Lula.

As tensões políticas em torno desses temas, além de relacionar-se a conflitos específicos neles contidos, constituem testes do equilíbrio ou do reequilíbrio de forças no Congresso – num plano, entre as bancadas governista e da oposição e, noutro plano, entre o Planalto e um PMDB tendente a terminar com o alinhamento automático ao governo Lula. Tudo, em crescente medida, voltado para a sucessão presidencial de 2010.

O QUE PENSA A MÍDIA

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quarta-feira, 26 de novembro de 2008

MUSEU DA HISTÓRIA DA IMPRENSA COMUNISTA!

DEU NO EX-BLOG DO CESAR MAIA
A casa na Gamboa onde ficava a imprensa do partido comunista brasileiro, onde rodavam seus jornais e os livros da editora Vitória, será recuperada pelo PPS e transformada em Museu da História da Imprensa Comunista. A casa foi adquirida pelo PCB em 1950. Nos anos de repressão foi "empastelada" e fechada. A prefeitura encaminhará à Câmara Municipal projeto de lei de remissão de suas inevitáveis dívidas, pelas razões.
Clique abaixo e veja as fotos na Rua Leôncio de Albuquerque numero 34 -Gamboa- que será restaurado.
IDÉIAS INICIAIS PROPOSTAS PARA O PROJETO DO MUSEU DA HISTÓRIA DA IMPRENSA COMUNISTA!
Clique abaixo.

A AUSÊNCIA

EDITORIAL
GAZETA DO POVO (PR)
26/11/2008


Quando alguma nação é atingida por grandes tragédias, uma presença comum, principalmente nos países desenvolvidos, é a do chefe de Estado ou de governo. Presidentes, primeiros-ministros ou monarcas visitam a área atingida e manifestam solidariedade às vítimas. Um exemplo de como este comportamento virou a regra é a crítica a George W. Bush, que em 2005 agiu de forma considerada insensível após a passagem do furacão Katrina por Nova Orleans.

Em 1961, durante uma das várias enchentes que atingiram a cidade de Blumenau (SC), o então presidente João Goulart sobrevoou a cidade para determinar as medidas de recuperação da área. Quase três décadas depois, o presidente da República praticamente não se pronuncia sobre a calamidade que volta a atingir Santa Catarina. Lula limitou-se a pedir um minuto de silêncio durante um evento e a mandar para lá alguns ministros. É a mesma atitude tomada há um ano, na tragédia com o Airbus da TAM. E o descaso em relação aos compatriotas fica ainda mais evidente quando comparado à atitude de Lula em setembro, após a passagem dos furacões Gustav e Ike por Cuba. Na época, houve reunião de emergência com sete ministérios e a criação de um grupo de trabalho para envio imediato de ajuda humanitária. Era de se esperar que Lula demonstrasse pela dor dos catarinenses uma consideração ao menos equivalente à exibida diante dos cubanos.

De papel passado


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Se havia alguma dúvida de que Cássio Cunha Lima é um político capaz de abusar de suas prerrogativas quando lhe convém, ele mesmo tratou de dirimi-la no epílogo do exercício de seu mandato como governador da Paraíba.

Na quinta-feira, 20, o Tribunal Superior Eleitoral decidiu por unanimidade cassar Cunha Lima por uso dos recursos do Estado para obtenção de benefícios eleitorais.

Na segunda-feira, 24, a maioria governista na Assembléia Legislativa de João Pessoa fez dez sessões extraordinárias e aprovou um festival de aumentos nos gastos do estado.

Reajustou salários do funcionalismo (em alguns casos à razão de 100%), autorizou contratação de novos servidores, adiantou a aprovação do Orçamento de 2009 e, como já havia anunciado a antecipação do pagamento do 13º, deixou toda a bomba armada para estourar na mão do sucessor.

Um gesto realmente à altura do veredicto do TSE. Em português rude, o governador foi condenado à perda do mandato porque, no entendimento da Justiça, usou dinheiro público para comprar votos.

Na campanha pela reeleição, em 2006, a Fundação Ação Comunitária distribuiu 35 mil cheques no valor total de R$ 4 milhões, a título de benemerência social. Cunha Lima defendeu-se alegando completo desconhecimento a respeito da distribuição do dinheiro, uma iniciativa da diretoria da fundação ligada ao governo do Estado.

Os ministros do TSE não acreditaram na independência da entidade, cujos propósitos fizeram-se ainda mais suspeitos quando se descobriu que os recursos não se destinaram necessariamente a minorar as agruras da pobreza.

Foram achados rastros da verba no pagamento de planos de saúde, na contratação de artistas, no pagamento de TV a cabo (algo aqui soa familiar), uma situação elegantemente definida pelo ministro Eros Grau como de “marcante descontrole na distribuição de valores financeiros na proximidade do pleito”.

Ainda assim, no fim de semana, entre a decisão judicial e a farra final da abertura dos cofres às corporações amigas, Cássio Cunha Lima deu entrevistas dizendo-se injustiçado: “Fui condenado pelo que não fiz.”

Recebeu a solidariedade dos companheiros de partido, o PSDB, foi simbolicamente abraçado da tribuna do Senado por parlamentares de muitas agremiações, correlatas e adversárias.

Todas deixadas com cara de tacho diante do monumental recibo que Cássio Cunha Lima resolveu passar, corroborando que de fato não tem pudor em usar a máquina pública como propriedade privada.

Aproveitou os últimos momentos de posse da prerrogativa de manipular verbas públicas para armar um legado em forma de arapuca ao substituto - o segundo colocado na eleição, ex-governador José Maranhão, também alvo de processos na Justiça Eleitoral - e preparar as bases para a campanha de senador em 2010.

Pela sentença, fica inelegível só até 2009.

Popular, Cássio Cunha Lima certamente terá a legenda do PSDB garantida, votos a mancheias assegurados, cabos eleitorais desde já arregimentados entre os favorecidos pelos aumentos, um mandato praticamente conquistado e nenhuma responsabilidade sobre as contas públicas estouradas.

Seu partido, o legítimo dono do mandato, conforme recente determinação judicial, não impôs nenhum reparo. Isso a despeito de ter sido o inventor, fiador, propagador e guardião da responsabilidade fiscal.

Mas, como na política vale a regra da aplicação da lei a cada um de acordo com suas amizades, o tucanato fez-se de morto. Não deu sinal de considerar a folia paraibana nem de longe parecida com a gastança patrocinada pelo governo federal.

Quando a coisa se refere ao PT é chamada de irresponsabilidade, aparelhamento, aproveitamento, ultraje ao pudor e qualificativos assemelhados. Bem merecidos, note-se.

Agora, quando um governador do partido faz o que fez Cássio Cunha Lima pelo pior dos motivos (porque quis, podia, tinha a caneta, o Diário Oficial e a maioria na Assembléia) à disposição na praça, o PSDB chama de injustiça e presta solidariedade.

No partido que se pretende em breve de volta à Presidência da República, há os esforços dos governadores José Serra e Aécio Neves para construir a imagem de responsabilidade e eficiência. Mas há o empenho de um Cássio Cunha Lima em alimentar a face do atraso que, não tendo o repúdio da direção, lícito concluir que mereça dela aprazível acolhimento.

Quase garoto, 24 anos, Cunha Lima chegou à Assembléia Nacional Constituinte, em 1987, como uma grande promessa da nova geração de líderes. Vinte anos depois, é a materialização do espírito carcomido da velhíssima política em sua mais anacrônica expressão.

Em 1988 nascia o PSDB, produto da revolta dos modernos contra os retrógrados do PMDB. Chegou ainda verde ao poder, produziu os grandes avanços da estabilidade, das privatizações, das regras de Estado acima das circunstâncias de governo, mas quando o assunto é prática política, reza pela cartilha arrivista dos velhos coronéis.

Por onde o PT se renova


Rosângela Bittar
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Aguerrido, como se sabe, no presente, mesmo sem muitas opções à escolha, o PT, ao contrário de seus principais adversários, preocupa-se, sim, com o futuro, e tem permitido que novas lideranças, insinuadas nas duas últimas eleições majoritárias, desenvolvam suas chances. Exemplo puro desta situação é o da paranaense Gleisi Hoffman, 43 anos, dois filhos, duas campanhas eleitorais - candidata a senadora, teve 2,3 milhões de votos (começou com 2%) quando o vencedor ganhou com 2,5 milhões, e candidata a prefeita de Curitiba, recebeu 18% porcento dos votos - é atualmente presidente do PT do Paraná.

Vestida com elegância clássica, bastante articulada e pensamento organizado para o perfil do meio em que vem galgando degraus, Gleisi, depois de transitar dois dias em Brasília para contatos no governo e no partido, exibiu, docemente mas firme, uma avaliação resumida e realista sobre a política, tal como praticada no seu Estado e no seu partido, mostrando como vê o futuro e as tarefas mais urgentes.

"Não estou pensando em mim ou em 2012, o foco é 2010, para construirmos um bom palanque para a Dilma no Paraná", afirma, referindo-se ao objetivo imediato, a candidatura da ministra chefe da Casa Civil a presidente da República, com apoio do presidente Lula. Neste palanque a que se refere há, para governador do Estado, dois nomes também em processo de construção. Um, Jorge Samek, presidente de Itaipu Binacional, e o outro o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, seu marido. Não está definido qual deles será o candidato do PT nem as alianças que serão firmadas com outros partidos para as demais candidaturas, mas é o trabalho a partir de agora

"Vamos fortalecer o projeto local com a consciência de que precisamos dar muita atenção ao projeto nacional", assinala, indicando qual é a sua expectativa política, no momento: "Ter feito o Presidente da República, ter mudado tanto o país, e não conseguir manter isto"...Não pode, subentende-se de suas reticências.

Há algo com que Gleisi convivia mal, uma estranheza imposta a uma técnica formada na política pela prática eleitoral, mas que agora, como presidente do partido, terá que enfrentar, além de procurar formas de mudar as regras não escritas de que não gosta: a articulação política, interna, no PT, e com partidos aliados. "Estas articulações são conversações sem nenhum resultado concreto, articulações abstratas, e a vida está correndo", traduz. Se há algo que a mobiliza é o desejo de levar a vida real para a política, interferir de forma direta no seu conteúdo. Destaca, por exemplo, que recentemente o Paraná registrou o assassinato brutal de cinco meninas, e o assunto ficou confinado à segurança. "Temos que trazer isso para a política, não adianta ficar só na polícia".

Outro exemplo de quem reconhece ser a articulação política seu papel, mas pretende reinventá-la, é a questão agrícola. "O Paraná é um estado agrícola, o futuro da economia e da solução da crise está no agronegócio. Enfrentamos problemas sérios, como a crise do álcool, temos grandes produtores no Paraná, precisamos dar respostas".

Gleisi se volta também para seu partido, o PT, que, segundo identifica, sofre um vácuo no planejamento do futuro. "Éramos um partido de esquerda, ganhamos as eleições em um país continental, passamos a administrar com uma coalizão de forças que não tinham a mesma visão dos problemas, isto gerou uma crise no partido. Quando nos preparávamos para viver este debate, veio outra crise, a do mensalão, e gastamos nossa energia nisto em vez de discutir os grandes temas. Chegou a reeleição do presidente, e nós não paramos para pensar".

Afastando o conformismo com o que está posto, Gleisi dá indicações de que vai mudar, a começar do discurso. Política substantiva, não usa adjetivos para o governo, para a oposição, nem mesmo para os adversários locais. A análise é objetiva: "Beto (Richa) fez mais que (Cássio) Tanigushi, capitalizou bem os investimentos federais e nós não conseguimos capitalizar para o PT". Ou: "As pessoas estavam indiferentes, não estavam querendo discutir política e não conseguimos politizar a campanha". Richa, do PSDB, foi reeleito com quase 80% dos votos no primeiro turno, e Gleisi diz que, quem via a campanha de perto, imaginava que a disputa estava equilibrada. As pessoas me cercavam e diziam: "Estou em dúvida, gosto muito de você, mas gosto muito do Beto, por que te colocaram nisso logo agora?" Na campanha para o Senado, Gleisi viajou todo o Estado, saiu mais conhecida mas com idéias mais diluídas. Na campanha municipal acredita ter sido possível expor melhor as idéias e explicar quem é, de onde veio e para onde quer ir.

Militante do PT desde 1989, Gleisi, formada em Direito, Administração Financeira e Gestão Pública, fez sua carreira, em alguns momentos, de forma paralela à de Paulo Bernardo. Foi Secretária de Reforma do Estado no Mato Grosso do Sul quando ele assumiu lá a Secretaria da Fazenda. Em outra fase, transferiram-se para Londrina, onde Paulo Bernardo foi Secretário de Fazenda e, ao deixar o governo para ser candidato a deputado, Gleisi se viu compatibilizada a assumir a Secretaria de Administração e Gestão. No Congresso, em Brasília, onde viveram outro período, trabalhou com Orçamento, área em que permaneceu quando integrou a equipe de transição para o governo Lula. Foi, no primeiro mandato do presidente, Diretora Financeira de Itaipu, de onde saiu para as recentes candidaturas.

Hoje, é presidente do PT no Paraná, e tem muitos planos. "Estamos fazendo uma intervenção política conjuntural. Isto nunca foi do PT". Seu desafio é levar o partido à reflexão sobre seu papel meio a campanhas, eleições e sucessão. "Esta análise é que aproximará o partido da sociedade". O que acha mais que necessário, principalmente em se tratando de um estado conservador, berço do MST onde, até por isto, o PT ainda inspira alta rejeição e onde, em 2006, o popularíssimo Lula foi derrotado no primeiro turno e só conseguiu empatar com seu adversário no segundo.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

No limite da irresponsabilidade


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

NOVA YORK. O presidente Lula tem reafirmado em privado o que vem fazendo em público: vai tentar manter de todas as maneiras o ritmo de crescimento da economia brasileira em meio à crise econômica internacional. O crescimento de 4% do PIB no ano que vem, reafirmado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, é o número mágico com que o governo sonha, e as medidas anunciadas têm o objetivo básico de destravar o crédito tanto para as empresas quanto para o cidadão comum, a quem o presidente tem transferido, de maneira nada sutil e no limite da irresponsabilidade, parte da culpa por uma crise de desemprego que pode acontecer no próximo ano: "Ele corre o risco de perder o emprego se não comprar, porque daí o comércio não encomenda para a indústria, que não produz e aí não tem emprego".

Embora pareça haver um consenso entre os economistas de que a situação brasileira é melhor do que em crises anteriores, e melhor também do que a dos demais países da América Latina e até mesmo de alguns do mundo - a revista inglesa "The Economist" diz neste último número que com um pouco de sorte o crescimento dos emergentes do Bric será menos espetacular, mas continuará robusto - a tentativa do governo Lula de manter o ritmo a qualquer custo parece perigosa a médio e longo prazo.

Um exemplo do tamanho do problema é como foi afetado o crescimento industrial do país. A indústria automobilística sozinha responde por 26% do crescimento industrial neste ano, e a de máquinas e equipamentos, por outros 14%; juntas, as duas indústrias explicam 40% da expansão do setor. Foram atingidas em cheio, pela falta de crédito e, sobretudo no segundo caso, já pela deterioração das exportações.

O ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, embora considere muito difícil traçar um cenário completo para o final do ano que vem, diz que dá para dizer que os riscos são muito grandes: "Mais do que uma previsão pontual, que não me arrisco a fazer, o certo é que a distribuição de possibilidades inclui alguns cenários bastante preocupantes".

Para ele, o governo tem que ter isso presente e dar uma resposta "que não nos exponha demais". Armínio diz que "a economia não é muito diferente de quase tudo na vida. Com vento a favor você anda mais rápido, não tem muito mistério nisso não. Pode tentar compensar um pouco, e até deve, em algumas dimensões, proteger talvez o investimento".

Ele lembra que já vínhamos crescendo "acima da nossa capacidade, o crédito vinha crescendo a uma taxa muito acelerada, e os riscos existem. Estamos em melhor situação que em outros momentos, mas não estamos invulneráveis".

No Brasil, diz ele, "está claro que está havendo uma desaceleração, mas não está claro que haverá uma recessão", como previu o relatório da Morgan Stanley. "Recessão no Brasil seria crescer 1% ao ano no trimestre, perto de zero. É possível, vai depender do andar da carruagem pelo mundo, que está com uma pinta ruim. Nessas horas, se não houver um pouco de prudência, os riscos aumentam".

Armínio não acha que o governo deva ficar de braços cruzados, mas adverte que "se errar a mão em outra direção, é ruim. Estão falando em 4% no ano que vem, acho difícil". Os riscos dessa política seriam dois: a inflação e o balanço de pagamentos. "Acho que há um pouco mais de risco hoje do lado do balanço de pagamentos, a conta de capital não está com a cara muito boa", analisa Armínio.

Já o economista José Roberto Afonso ressalta desde o início da crise que o problema no Brasil estava mais no setor real do que no bancário. Ao contrário do que diz a teoria e do que ocorreu nos EUA e na Europa, José Roberto Afonso acha que a demanda não é a origem da crise do setor real brasileiro.

Sua tese é que a nossa é muito mais uma crise de oferta: o empresário parou de investir e, também, de produzir. "Parou antes mesmo que os seus compradores diminuíssem os pedidos, que o povão sumisse das lojas". Aumentar o gasto governamental seria a solução para quando a demanda privada caiu, o que não é o nosso caso segundo ele, que considera que "crédito e governo" são as razões da crise de confiança, que leva o empresário a parar ou a produzir menos. "No primeiro caso, o crédito sumiu e, agora, voltou aos poucos, com custo impossível - taxas superiores a 100% quando o mundo vai para deflação. No segundo caso, e mais importante (porque o crédito é muito baixo), o empresariado, até mesmo a banca, já percebeu que a política econômica precisa ser mudada. Mais do mesmo é pouco".

José Roberto Afonso avalia que o empresariado, não vendo "vontade política e capacidade técnica no governo para promover essa travessia, não se arrisca, ou seja, não investe e começa a se retrair. Não quer abrir mão de seu caixa, começa a comprar menos, a produzir menos, a oferecer menos para venda, depois começará a demitir".

O economista Claudio Contador, da empresa de consultoria Silcon, acredita que uma recessão no Brasil "não deve acontecer nem em 2009. Mas a taxa de crescimento cai". Na sua avaliação, este ano o crescimento do PIB do Brasil ficará nos 4%, portanto abaixo dos 5% que o governo prevê, e em 2009 deve ficar nos 2,8 a 3 %.

O problema sério que ele antevê, e que na sua opinião vai arranhar a popularidade do Lula, é a queda do salário real: "O IPCA, que corrige salários, está crescendo menos, praticamente a metade do que o IGP-DI, que dá a média dos preços em geral. A massa de rendas caindo e os juros altos devem desaquecer o consumo do mercado interno".

Contador considera que o governo manter e reforçar uma política de estímulo a gastos e aumento de impostos é "suicida para o médio e longo prazos".

Saída à francesa


Nas Entrelinhas :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


É por causa do satélite de comunicações e do submarino nuclear que o presidente Lula prefere a parceria com a França, em detrimento dos Estados Unidos e da Rússia

Não existe nada que deixe um russo mais satisfeito com a hospitalidade brasileira do que um bom rodízio de churrasco regado a caipirinha. O risco é o convidado passar mal de tanto comer e beber. Nada mais natural, portanto, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ofereça um banquete à gaúcha ao jovem presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, sob a guarda do Cristo Redentor, no Palácio Guanabara, no Rio, tendo como co-anfitrião o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB).

Rússia

Por trás da gastronomia, porém, há dois recados: o Brasil pretende comprar os “soviéticos” helicópteros de ataque MI-35, verdadeiros tanques voadores, mas quer que os russos ampliem as cotas de exportação para os produtos brasileiros, principalmente a carne. Ou seja, a cooperação militar com a Rússia depende da ampliação das relações comerciais de US$ 5 bilhões para US$ 10 bilhões e, principalmente, de uma política de transferência de tecnologia na área militar, à qual os russos são reticentes. Eles argumentam que isso exigiria uma escala de compras de armamentos semelhante às da China e da Índia, o que não é o caso brasileiro.

Oficialmente, no Ministério da Defesa, essa é a razão de o Brasil ter desclassificado os mais versáteis aviões de caça da atualidade, o Sukhoi SU-35, na licitação para renovação da esquadrilha de ataque da Força Aérea Brasileira. Os helicópteros russos, porém, são eficientes e robustos, têm tecnologia menos sofisticada e servirão de pau para toda obra na Amazônia. Além disso, os russos topam produzir no Brasil as peças de reposição. A compra dos aviões russos, diga-se de passagem, foi uma das causas da queda do ex-ministro da Defesa José Viegas Filho.

O governo brasileiro acendeu uma vela para Deus e outra para o diabo. Ao rejeitar os Sukhoi na habilitação para a licitação, sinalizou aos norte-americanos que vai manter a cooperação com os russos em termos moderados, ao contrário da Venezuela de Hugo Chávez ; ao mesmo tempo, abriu a porta para a compra de novos caças franceses Rafaele F 3 em substituição aos velhos Mirages. O problema é que os pilotos brasileiros preferem os F-18 E norte-americanos. Aliás, recentemente, com os F-5 recauchutados da FAB, deram um baile nos pilotos franceses durante exercícios aéreos conjuntos da Cruzex IV em que derrubaram os Mirage2000 baseados na Guiana Francesa. O ministro da Defesa, Nelson Jobim, por razões geopolíticas, não esconde a torcida pelo Rafaele; o comandante da Aeronáutica, Junit Saito, por razões militares, prefere os aviões ianques.

França

No governo, quem defende maior cooperação com a Rússia é o ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, por causa do futuro da Amazônia, da qual os russos estão mais distantes. Mas o que avança mesmo é a cooperação militar com a França (que tem um pedaço do território no subcontinente), na qual Jobim aposta todas as suas fichas. Haveria de parte dos franceses mais disposição para a transferência de tecnologias do que revelam norte-americanos e russos. Além dos aviões, os franceses querem nos vender um novo satélite de comunicações, que deixaria o Brasil livre da dependência em relação aos norte-americanos nessa área. Em tempos de “guerra eletrônica”, durante visita à França, Jobim se encantou com o projeto de “soldado do futuro” (infantaria com comunicação e equipamentos integrados), utilizando veículos blindados leves de transportes de tropas como ponto de apoio para “guerra em rede”.

Porém, a menina dos olhos da cooperação militar Brasil-França é a transferência de tecnologia para a construção do submarino nuclear que está sendo desenvolvido pela Marinha brasileira.

Em termos doutrinários, para os militares, nosso país não terá “poder de dissuasão” para defender a plataforma continental e a chamada “Amazônia Azul” sem esse submarino, capaz de submergir por longos períodos e atacar de surpresa à longa distância da costa. Os ciclos de construção do seu reator nuclear e do combustível (urânio enriquecido) estão dominados, mas falta o principal em qualquer embarcação: o casco. O Brasil precisa construir os enormes anéis do casco e soldá-los; a França se dispõe a fazer isso por aqui, num estaleiro preparado para transferir tecnologia. É por causa do satélite e do submarino nuclear que o presidente Lula prefere a parceria com a França, em detrimento dos Estados Unidos e da Rússia. De quebra, deixaria o Brasil de fora da histórica rivalidade entre os dois protagonistas da antiga Guerra Fria.

Tudo isso, é claro, se uma recessão mundial não atrapalhar.

A crise, Lula e a realidade


Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Enquanto Lula manda seus ministros dizerem que o Brasil vai crescer 4% em 2009, no mundo real fica cada vez mais claro como está distante o fim da atual crise. O salvamento do Citibank é a demonstração acabada sobre a gravidade do momento. Pela concordância tácita, também indica a intenção de Barack Obama de utilizar a mesmíssima política do atual ocupante da Casa Branca: despejar toneladas de dinheiro público na economia.


George W. Bush titubeou em setembro. Sua equipe econômica piscou na hora de salvar o Lehman Brothers da falência. O banco evaporou. Depois, a crise foi ladeira abaixo.Engenheiros de obras feitas no Brasil -e nos Estados Unidos- criticaram a decisão da equipe de Bush. O Lehman era muito grande para quebrar, disseram. Alguns desses críticos eram os mesmos que antes reclamavam dos socorros estatais a bancos privados -como ocorrera no início do ano com o Bear Stearns.


Depois da vacilada, a política econômica ficou clara como nunca.


Haverá dinheiro estatal de sobra para salvar tantos quantos forem os bancos ou empresas em dificuldades por causa de barbeiragens com derivativos e outros ativos tóxicos.


A lógica toda será usar a confiança ainda existente na maior reserva de valor do planeta: o dólar. Mais adiante, quando a inflação brotar por causa da emissão de moeda sem lastro, assistiremos à pior parte da crise, com uma brutal alta dos juros.


No Planalto, mesmo vendo a degradação do cenário, Lula parece comandar um bloco do auto-engano. Repete um mantra sobre a solidez do país. Fará uma propaganda na TV a respeito. Ou o petista enxerga o que ninguém vê ou prepara o país para uma das maiores decepções recentes ao longo do ano de 2009. A ver.

O QUE PENSA A MÍDIA

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terça-feira, 25 de novembro de 2008

Entrevista com Werneck Vianna


Maria Alice R. de Carvalho
Novembro 2008
Fonte: GRAMSCI E O BRASIL


Luiz Jorge Werneck Vianna nasceu no Rio de Janeiro, em 1938. Graduou-se em Direito, em 1962, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, antiga Universidade do Estado da Guanabara — UEG, e em Ciências Sociais, em 1967, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Fez doutorado em Sociologia pela Universidade de São Paulo – USP. Há 28 anos é professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro – Iuperj, 9 dos quais como professor titular em Sociologia. Presidiu a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) e atualmente coordena o Centro de Estudos Direito e Sociedade – Cedes, no Iuperj, instituição de pós-graduação que ele também já presidiu. Lecionou ao longo de sua vida em mais de dez universidades brasileiras e suas linhas de pesquisa mais constantes são: intelectuais e modernização no Brasil, relação entre os poderes republicanos, institucionalização das Ciências Sociais, Magistratura como estrato intelectual, organização e funcionamento do Poder Judiciário, direito, sociedade e política.

Entrevista concedida ao Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio aos professores Ângela Paiva, Maria Alice Rezende de Carvalho e Marcelo Burgos, em 17 de julho de 2008.

Maria Alice – Werneck, como você pensa a sua formação, seus primeiros passos na vida universitária, sua geração?

Eu nasci em 1938, em pleno Estado Novo. Logo depois eclode a Segunda Guerra Mundial, que me alcança no primeiro período formativo da minha vida e me deixou marcas na memória. Vivi blackout na cidade, tive um vizinho de origem germânica que ouvia, à noite, emissões radiofônicas da Alemanha. Ouvia alto... São recordações. Aos sete anos, esse mundo se altera muito fortemente. Os aliados vencem as potências do Eixo, como se dizia, e o Brasil se redemocratiza. Eu penso que de algum modo isso foi processado por mim. Logo, as lutas pela Petrobrás – a questão nacional foi uma questão que marcou profundamente a minha geração. E a presença dessas lutas e campanhas nos bancos escolares, vinha, freqüentemente, de professores. Esse mundo, como não podia deixar de ser, encontrava forte ressonância na literatura a que a gente estava exposto. Em particular, a de Monteiro Lobato, a que tive acesso logo que alfabetizado. Estavam lá a luta pelo petróleo, tal como na famosa história do poço do Visconde, uma visão libertária do mundo, anti-autoritária, uma posição de ojeriza em relação à burocracia... Essa paisagem moral criou em mim uma base preliminar de convicções, a que se agregaram Eça de Queiroz, primeiro, e depois os russos, muitos, quase todos, com ênfase em Dostoiévski, que teve lugar especial na minha vida. Em seguida vieram os americanos Steinbeck, Faulkner, Sinclair Lewis, Upton Sinclair, a literatura de esquerda americana; depois os franceses e a literatura do entre-guerras, Roger Martin du Gard, Eric Maria Remarch, entre outros, que, para mim, continuaram a compor o mesmo enredo a que fui exposto na infância. Isso não me deu nenhuma inclinação científica. Carreiras científicas, nessa época, eram aquelas destinadas à física, à química, um pouco à medicina. O meu mundo não era o da ciência. Era o dos valores, valores de igualdade, liberdade e justiça. A sociedade brasileira, a partir dos anos 50, vivia momentos muito estimulantes e uma parte da juventude, da qual fiz parte, sentiu-se vocacionada para a participação na vida pública. Mas os caminhos para a intervenção não eram claros. Havia alguma coisa na universidade, mas nos colégios, por exemplo, não havia muito movimento. Na universidade sim, existiam grupos, existiam orientações até divergentes, existia um clima de compromisso político que contaminava parcela importante da universidade.

Maria Alice – Esse clima do pós-guerra foi muito importante do ponto de vista da disseminação de ideais humanistas pelo mundo. E a França era uma espécie de centro da cultura intelectual que considerava humanismo e comunismo quase como sinônimos, não? Esse clima deve ter aportado no Rio de Janeiro no momento em que você cursava o Clássico, um pouco antes, portanto, do seu ingresso na Universidade. A cidade da sua juventude respirava essa cultura?

Que me chegasse não. Porque passei minha infância e juventude em Ipanema, e Ipanema era o lugar da classe média alta, embora essa não fosse a situação da minha família. De qualquer modo, do ponto de vista de uma problemática cultural como a que você descreve, Ipanema era um lugar rústico. Isso era facilmente percebido na minha convivência com meus colegas de bairro. Tínhamos uma turma grande, que durou muito tempo. Nós nos conhecíamos muitíssimo bem e esses interesses culturais mal chegavam. O que chegava para nós era basicamente esporte, muito esporte...

Maria Alice – Cinema...

Cinema. Cinema americano e ponto.

Marcelo Burgos – Música, talvez.

Livro não chegava. Eu era, nesse território, até uma presença exótica...

Maria Alice – ...civilizatória... [risos]

Exótica. Eu sabia que em outros cantos de Ipanema, outros lugares, havia jovens como o Leandro Konder, que eu já conhecia de vista, de referência também... A turma dele, na Montenegro, era uma turma mais sofisticada, mais letrada, digamos assim, menos rústica, do que a minha. Montenegro, como vocês sabem, é, hoje, a Rua Vinícius de Morais...

Marcelo Burgos – E a turma da bossa nova?

Isso é depois.

Marcelo Burgos – É um pessoal um pouco mais velho do que você, não? Jobim, os músicos de Ipanema...

Mas não havia bossa nova ainda. O próprio Jobim, quando jovem, estava envolvido, se você quiser saber, com um grupo praticante de artes marciais, que se reunia em torno do Sinhozinho, famoso capoeirista do Rio de Janeiro. Do grupo participava o Rudolf Hermany, que foi campeão e, ao que parece, tinha uma irmã que acabou casando com o Jobim, uma coisa dessas... Você encontra fotografia do Jobim levantando peso, fazendo halteres. É claro que lá, à noite...

Maria Alice – Ele estudava um pouco de música.

Ele estudava música, tinha outras inclinações. Então...

Marcelo Burgos – Era o esporte que dominava.

Era o esporte que dominava. Nossas inclinações culturais eram coisas quase clandestinas. E nos colégios não havia nada, era uma educação puramente instrumental. Enfim, o colégio não era um lugar de formação, pelo menos aqueles em que estudei, que foram muitos. Inclusive o Colégio Pedro II, aqui na Zona Sul. Nele, a dimensão formativa era pouco visível, salvo nas aulas de latim, cujo professor era o Paulo Rónai, um humanista muito bem formado, que tentava, com muito esforço pessoal, nos ensinar a traduzir Ovídio, Horácio, com algum sucesso em casos raríssimos entre os meus colegas e no meu caso com pouquíssimo êxito. Aprendi rudimentos do latim. Mas creio que alguma coisa do Paulo Rónai ficou. Não tanto pelas aulas, mas pela posição dele no mundo. Àquela altura, apesar de eu ser inteiramente isolado do ponto de vista político, já me sentia um socialista, um comunista.

Maria Alice – Um menino comunista.

Um menino. Eu estava em busca de um lugar onde pudesse exercer essa missão que abrigava, secretamente, em mim, como um destino, um mandato, algo que eu tinha que fazer.

Marcelo Burgos – Estamos falando de um período que antecede a sua chegada à universidade, não é isso?

É.

Marcelo Burgos – Você já se sentia comunista. Entretanto, Ipanema era um lugar dos esportes, não era um lugar propriamente...

A política não chegava lá.

Marcelo Burgos – Quer dizer que essa sua adesão valorativa ao comunismo veio pela literatura?

Veio. Esse é o itinerário que eu tentei apresentar até agora, não? Uma coisa livresca.

Marcelo Burgos – Mas algum tipo de sinalização, de articulação com a sociedade...

Para mim, tudo era política, tudo estava na política. A questão nacional, a luta contra o imperialismo. Também o que se lia – Josué de Castro, Geografia da fome... E a política, ela mesma: a campanha da UDN, a campanha de Lacerda contra Getulio, o suicídio de Getulio. O suicídio de Getulio foi um divisor de águas muito poderoso na minha geração. A partir daí ficou claro, pelo menos para o tipo de personagem de que eu era um exemplar, que a hora da ação tinha chegado. A mobilização efetivamente começou a se intensificar. Em agosto de 1954, eu tinha 15 para 16 anos e sentia que não havia mais porque ficar em casa, embora eu ficasse. E o que me prendia ali era o fato de não haver nenhuma trilha visível: não havia partido, não havia vida associativa, não havia lideranças intelectuais próximas, no colégio ou fora dele, que pudessem apontar aos jovens um caminho. Então, eu cheguei à política com uma concepção muito romântica, muito livresca, muito exaltada, mas sem nenhum conhecimento das circunstâncias, de como o mundo da política é quadriculado, de quais eram os comportamentos desejáveis, o que se pode, o que não se pode falar. Eu, por exemplo, falava em nome de uma ética de convicção puramente. Lembro-me que na primeira vez em que falei na universidade, fiz um discurso – muito aplaudido, aliás, pela assembléia – do qual eu me arrependo de corar, de ficar...

Maria Alice – Rubro...

Rubro. Cada vez que me vem essa cena à memória... Uma ética de convicção sem pesar as conseqüências, porque eu não conhecia, realmente não conhecia, não tinha experimentado os caminhos práticos que levam as convicções às suas possíveis realizações.

Maria Alice – Você estava na UEG?

Sim, estava estudando Direito. Em uma paralisação que fizemos, a polícia invadiu e, enfim, eu me levantei e fiz esse discurso descabelado, muito aplaudido, mas inexeqüível, porque a minha proposta era que permanecêssemos ocupando a Universidade. A polícia invadindo e eu propondo que ali ficássemos... Fui ovacionado, mas, evidentemente, ninguém ficou na universidade. Aquela foi a primeira vez em que falei em público... A renúncia de Jânio foi outro momento importante. Foi uma forte sinalização para que os mobilizados se mobilizassem ainda mais e para que os ainda relutantes chegassem ao movimento. O que não quer dizer que isso tenha atingido toda a minha geração, pois não atingiu. Mas siderou os que estavam envolvidos. A marca daquele tempo era, de fato, a política. Valores e política. Esse foi o meu caminho: convicção, e depois o aprendizado da política. Aprender, por exemplo, que a esquerda tinha que apoiar Juscelino Kubitschek em 1955, quando parcela considerável dela defendia o voto nulo. Aprender isso significou para mim um avanço imenso. Significou entender a importância de se circunstanciar a convicção. Isso me foi bem explicado por meu pai e era a posição do Partido Comunista Brasileiro que eu namorava à distância. Não conhecia o Partido Comunista Brasileiro, embora já me dissesse comunista desde os 16 anos. Cheguei a ser expulso de um colégio após ter sido denunciado ao diretor pelos pais dos meus colegas, que temiam a influência que eu poderia exercer sobre seus filhos. É uma história com sabor, eu diria, quase medieval, a desse intelectual solto, com as suas convicções, querendo participar de alguma cruzada. O meu espírito era de cruzada. E como a cruzada não passava eu, afinal, tive que procurá-la. Entrei no Partido Comunista por imperativos absolutamente pessoais. Bati à porta de um médico, Milton Lobato, que eu sabia que era do PCB, e falei a ele da minha vontade de aderir e tal. Ele, então...

Maria Alice – Espantadíssimo!

É... Imagino que tenha reagido assim, pois me conhecia desde menino. Éramos vizinhos. Ele me orientou a procurar o Leandro Konder. Mas, dias depois, recebi o recado de que iria ser procurado por um outro jovem, o José Salles, com quem, então, eu finalmente estabeleci contato com o Partido Comunista. Eu já estava na universidade.

Maria Alice – Por que Direito?

Porque me pareceu, sobretudo, uma profissão masculina... A minha inclinação natural seria estudar neolatinas... Por gosto, eu teria estudado literatura, neolatinas, mas isso não me parecia uma opção masculina, nem aparentava dar a mim credenciais para fazer um caminho afirmativo no mundo. E eu precisava disso, porque minha família não tinha recursos. Eu precisava pensar em algo, em uma ocupação que fosse afirmativa. O Direito me pareceu ser isso, embora não sentisse nenhuma vocação especial, salvo essa de defender...

Maria Alice – Os fracos.

Os fracos, os oprimidos. O velho espírito de cruzada. Então, dir-se-á: “um quadro juvenil quase, ou completamente, patológico”. Eu concordo. Uma vida de sonho, uma vida de fantasia, muito livro, uma coisa quixotesca. E não é à toa que, dos clássicos, meu primeiro herói, o primeiro grande romance que me ganhou foi Dom Quixote. Só que a minha leitura de Dom Quixote era muito particular. Ele para mim era um herói verdadeiro.

Marcelo Burgos – Você parece se ver como um jovem sem escoras na sociedade e na política reais. Insistindo ainda na questão sobre a década de 1950, pode-se dizer que o Rio de Janeiro se caracterizava pela forte clivagem entre PTB x UDN, Vargas x Lacerda. Essa polarização não chegava à sua geração?

Chegou, chegou. Ipanema era lacerdista, completamente lacerdista.

Marcelo Burgos – Foi o que imaginei...

E eu era getulista. Só isso dava uma marca, uma separação, uma estranheza muito grande. Meu colégio era lacerdista, menos eu.

Marcelo Burgos – Minha questão é: Getúlio e o PTB, de alguma maneira, pavimentaram seu caminho até a esquerda?

Getulio nem tanto. Talvez apenas a sua morte. O Getulio real para mim foi o Getulio que se matou, o Getulio de agosto e da carta testamento, que foi uma revelação. Uma revelação. Vocês vão encontrar relatos semelhantes em várias pessoas da minha geração. Todas entendem, como eu, que o suicídio e a carta testamento definiram caminhos, trajetórias para o país. Não se pode esquecer que, logo depois, vem o período Juscelino, um período marcado pela política, por Jacareacanga, Aragarças, sublevações militares, a idéia de conquista do Oeste, Brasília, a modernização do país, a indústria. Foi um momento de afirmação nacional. A Copa do Mundo de 1958 foi simbólica. O Brasil era possível, era viável. Mais à frente veio o Jânio, e, com a renúncia de Jânio, a Junta Militar. Então, o caminho da luta pela legalidade, que veio do Rio Grande do Sul, nos mobilizou muito, mobilizou a universidade, mobilizou a juventude. Eram dois campos muito bem definidos: os amigos e os inimigos. Ficou claro também que aquele era um mundo de impasses, que não era um mundo ao alcance da mão, que uma simples cruzada pudesse resolver. Era preciso entender. A literatura que vai atiçar a nossa imaginação era vasta. Cito alguns autores na ordem da lembrança, sem nenhum outro critério: Josué de Castro, Celso Furtado, Nelson Werneck Sodré, Edison Carneiro, Alberto Passos Guimarães, com Quatro séculos de latifúndio...

Maria Alice – Caio Prado...

Caio Prado, no meu caso, menos. Mas Caio Prado também. E àquela altura, na passagem dos anos 50 para os 60, o Iseb dava seus primeiros passos. Foi um grande marcador, uma clara passagem, para ficar na metáfora anterior, da ética da convicção para a ética da responsabilidade, encontrar um itinerário prático e concreto possível. Então, uma boa parte da juventude intelectual acorreu ao Iseb. Fiz um ano de curso lá. Vieira Pinto, Nelson Werneck Sodré e outros tantos... Isso deve ter sido em 1962, talvez. Aquele foi um momento em que a cultura das Ciências Sociais brasileira desce até a juventude e tenta encantá-la, articulando-se com outros setores da intelectualidade. O Teatro de Arena teve, em São Paulo, uma importância fundamental. Seus ecos vão chegar ao Rio e o eco maior veio a ser a dissidência encabeçada por Oduvaldo Vianna Filho e outros, levando à fundação do Centro Popular de Cultura, bem no território da UNE. Cultura e política. CPC e Iseb. O CPC era fortemente orientado pelo que o Iseb produzia. Embora tudo isso me chegasse de maneira um tanto confusa, enfim, chegava.

Maria Alice – Você ainda fazia o curso de Direito nessa época.

Sim, estava terminando. Mas esse mundo da explicação, do entendimento, esse mundo da reflexão vinha se impondo. Em parte porque, do ponto de vista da sociedade em que vivíamos, a solução não parecia à vista. Aquele não era um processo para transcorrer ao sabor da vontade. Isso estava claro. Mesmo o Partido Comunista Brasileiro, um partido revolucionário, via-se, naquele momento, sob a orientação geral da Declaração de Março de 1958, um documento mais interpretativo do que normativo, que chamava a atenção para o caráter longo do processo da revolução brasileira, longo e esticado no tempo.

Maria Alice – Desdramatizado, enfim...

Desdramatizado. O que o texto afirma é que a vontade, aqui, pouco vale. Em uma formulação anacrônica: “No Brasil, os fatos falam mais do que o ator. A força dos fatos aqui é maior do que a do ator”. Nesse sentido, deslindar os fatos era essencial. E as Ciências Sociais começam a se tornar um instrumento absolutamente relevante para o entendimento a ação política. O espírito de cruzada e a ética da convicção tinham que ceder. Essa foi a minha travessia. Minha chegada às ciências Sociais. Eu desejei e ainda desejo entender o país, participar da construção do entendimento da sociedade sobre si mesma.

Marcelo Burgos – Só para enfatizar essa passagem do Direito para as Ciências Sociais, aquele foi um período em que o movimento estudantil estava muito forte, não? A UEG era um lugar animado, desse ponto de vista?

Mais ou menos. Não era muito não. Tinha lá uma organização comunista, lideranças democráticas presentes, mas a Faculdade Nacional de Direito era mais animada.

Marcelo Burgos – Você já fazia parte do CPC nesse momento?

Já fazia. De modo que a faculdade, para mim, era uma atividade, digamos, perfunctória, burocrática, a que não me dedicava, porque já tinha descoberto o meu caminho. E não era aquele. Eu tinha que terminar o curso, mas estava claro para mim que meu caminho não era o do exercício de uma profissão liberal. Então, antes do golpe de 1964, eu faço vestibular para o curso de Ciências Sociais. Tomei essa decisão antes do golpe, pois havia percebido que a nossa sociedade possuía uma temporalidade que impunha limites à nossa vontade. Em 1959, porém, eclode a revolução cubana, que repunha, muito claramente, o tema do herói político, do voluntarismo... Assim a geração universitária imediatamente posterior à minha, constituída por jovens estudantes com três, quatro anos a menos do que eu, será de adesão cubana. O elemento “vontade” recupera sua força. E aquilo que era tido como um grande movimento de interpretação do país passa a ser denunciado como fraqueza, como incompreensão dos verdadeiros mecanismos que devem orientar a ação política. Como se responde a isso? No meu caso, resistir ao impacto da revolução cubana ainda mais aprofundou a decisão tomada anteriormente, o caminho da interpretação.

Maria Alice – Entendo, perfeitamente, como uma geração vai para o exercício da reflexão e descobre, nessa ida, uma disciplina, uma universidade, um curso universitário. Em São Paulo, porém, você diria que a sua geração conheceu caminho similar, da política às Ciências Sociais? Ou experimentou outro tipo de trajetória, mais comprometida, desde o início, com a idéia de ciência?

É verdade. A Sociologia, aqui no Rio, estava em formação. E o golpe de 1964 arruinou a experiência que vinha se sedimentando. De qualquer forma, o pensamento, no Rio, encontrava lugar fora da universidade. O Iseb, por exemplo, não fazia parte da estrutura universitária, mas possuía um pensamento persuasivo sobre o Brasil, uma interpretação sobre o país. Agora, aquela ciência social do projeto uspiano, isso não havia aqui.

Maria Alice – Então, durante um certo tempo você trabalha como advogado, mas já está totalmente inclinado a se tornar um cientista social.

Um pensador social...

Maria Alice – E aí, por vicissitudes da vida – você pode, se preferir, não se referir a elas – você vai para São Paulo. A chegada a São Paulo e a chegada, especialmente, no Cebrap representou o quê para você?

Posso dizer que houve momentos luminosos, intelectualmente falando, na minha vida: o CPC, o primeiro deles, muito forte; o Iseb; e, em seguida, o Cebrap e as Ciências Sociais que se praticavam lá. Não havia propriamente um projeto de ciência social no Cebrap. Havia pesquisa aplicada e havia, sobretudo, a busca por interpretações sobre o que estava acontecendo no país, sobre a natureza da nossa sociedade, no eixo que Florestan Fernandes, num certo momento, pensou como sendo a missão do departamento de sociologia da USP...

Marcelo Burgos – Voltando um pouco atrás, até que você chegasse a São Paulo, seu curso de graduação em Ciências Sociais foi concluído, em 1967. Você sente que, de alguma maneira, ele preparou sua inserção profissional?

Obtive uma credencial, não é?

Marcelo Burgos – Você chegou a fazer pesquisa no curso de Ciências Sociais?

Não. Eu entrei para o mestrado do Iuperj em 1969, cursei o mestrado de 1969 a 1970, mas, em 1970, fui obrigado a correr...

Marcelo Burgos – Quem foi o seu orientador?

Não, não cheguei a ter. A repressão andava me caçando aqui na PUC, porque eu acabara de me tornar professor, em 1970, e terminou entrando no Iuperj para me prender...

Marcelo Burgos – Foi aí que você foi para São Paulo?

Não. Daqui eu fui para o exílio. Não foi direto. O cerco foi se tornando mais fechado, outros professores daqui já tinham sido presos. Um deles era o Sul Brasil, que participava da política comigo. Dirigentes universitários da PUC foram, então, ao DOI-Codi em busca de informação sobre ele e receberam uma camisa ensangüentada como recado. Esse episódio vocês podem conhecer melhor se entrevistarem os dirigentes da PUC, àquela época. De modo que não havia jeito. O que me esperava, caso preso, era a camisa ensangüentada. Eu tinha que fugir. Fiquei fugindo um bom tempo, abrigado na casa de amigos em São Paulo. Esse período foi importante para mim; fiz amizades que me auxiliaram muito, quando decidi cursar o doutoramento em São Paulo. De São Paulo, então, eu fui para o exílio, no Chile. Quando retornei ao Brasil, em 1971, fui preso. E, da prisão, saí direto para São Paulo, com o objetivo de cursar o doutorado.

Maria Alice – E foi nesse contexto que você entrou em contato com o Cebrap?

Exatamente. Toda essa trajetória foi facilitada por alguns colegas, que já estavam em posição influente. O primeiro de todos, Carlos Estevam Martins, que me recebeu em São Paulo e me levou à casa de Fernando Henrique e Ruth. Fui apresentado ao Fernando e logo fui levado por ele ao Cebrap, para participar de pesquisa para uma enciclopédia sobre religiões. Esse trabalho me garantiu durante algum tempo. Carlos Estevam também me apresentou ao Weffort, que me aceitou prontamente como orientando no doutorado e me fez as cartas necessárias para a obtenção de uma bolsa na Fapesp. A bolsa da Fapesp, naquela época, dava para uma pessoa se sustentar perfeitamente bem. Sentia-me, portanto, estável e tudo que importava era, então, escrever a tese de doutorado. Do Cebrap eu fui para a Unicamp, mais uma vez por gestões do Carlos Estevam, onde fui contratado como professor. Essa experiência durou cerca de um ano, um pouco mais, talvez. Novamente, as circunstâncias políticas me fizeram largar tudo...

Marcelo Burgos – Explorando um pouco mais essa tensão entre o caminho institucionalizado das Ciências Sociais e a militância política, de certa maneira essa fase da sua vida é uma fase em que essas duas identidades...

Em mim, essas duas dimensões estiveram sempre articuladas, completamente misturadas.

Maria Alice – Mas, em alguns momentos, elas ficavam excessivamente pouco tensionadas, não? Havia exigências da política, como, por exemplo, sair de São Paulo, voltar para o Rio, enfrentar a luta interna do PCB, não?


Nessa época menos. A disputa no interior do Partido Comunista vai pegar fogo mais à frente, em 1977. Até lá, não. Havia a esquerda, a luta pelas liberdades – e, nisso, o Cebrap era um lugar muito afável, porque congregava esse tipo de resistência democrática à ditadura. O Fernando Henrique me abrigou bastante bem. Inclusive porque havia no Cebrap uma ala muito radicalizada que ele precisava conter. Eu era um contraponto a ela. O Cebrap não era um lugar como é hoje, um centro profissional. Era um lugar que mobilizava dezenas de pessoas, dezenas de intelectuais. Alguns de modo permanente, outros flutuantes. Era uma instituição absolutamente central. Sua revista, quando saía, tinha um papel organizador fortíssimo, porque vinha com análises e apresentava alternativas. O Cebrap não era apenas um lugar de resistência abstrata, em nome de valores. Era isso e mais: uma resistência fundamentada empiricamente, digamos assim. O Fernando, de certo modo, me escorava, porque eu resistia à ala radicalizada. De modo que, quando eu disse que ia sair do Cebrap, ele lastimou: “Logo você? Eu queria que você ficasse”. E era verdade. Mas aí a dissidência do Cebrap tinha se tornado muito forte e era comandada pelo Weffort, que estava organizando uma outra instituição. Eu era orientando do Weffort. Ele havia me aceito no doutorado de uma forma tão generosa, que eu não podia fechar os olhos a isso e optar por permanecer onde estava. Eu queria ficar no Cebrap, eu não queria sair, mas eu me achei moralmente obrigado a sair.

Maria Alice – Daquela época você lembra de diferenças muito evidentes entre o Cebrap e o Iuperj? O que era o Iuperj no começo dos anos 70? Era alguma coisa totalmente diferente do Cebrap?

Ah, era. Eram instituições polares. No Iuperj, você encontrava, sim, uma aposta forte na ciência social institucionalizada, uma ciência social menos aplicada ao mundo. Se você fizer uma leitura comparada dos números iniciais da Dados e da revista Estudos Cebrap, você vai perceber que são dois mundos absolutamente distantes.

Maria Alice – Mas o Iuperj não nasceu com a marca da pesquisa empírica também? Aliás, a revista Dados não se chama “dados” porque era uma publicação voltada à veiculação de resultados de pesquisas?

Isso mesmo. Mas não estava dirigida à intervenção. Não tinha esse caráter de envolvimento com a vida pública, que era a marca originária do Cebrap.

Marcelo Burgos – Werneck, não ficou clara a sua saída do Cebrap.

Meu orientador, Francisco Weffort dissentiu da orientação do Cebrap e resolveu criar um novo centro. O Cedec, se eu não me engano

Marcelo Burgos – E você foi para o Cedec?

Fui. Sou, aliás, um de seus fundadores. Se ainda existir algum papel, algum documento daquele ato, meu nome estará lá.

Marcelo Burgos – E essa dissensão foi o que? Uma guinada mais à esquerda?

É, o grupo do Weffort era mais à esquerda. O Weffort foi para o PT em seguida. O grupo que o Weffort dirigia dentro do Cebrap era sobre movimento operário e sindical, do qual eu fazia parte.

Marcelo Burgos – E no Cedec você trabalhou como pesquisador?

Não, no Cedec eu tive uma experiência breve. Participei apenas de grupos de discussão, de poucas discussões. Foi uma passagem rápida. Logo depois aquilo toma outro rumo. O fato é que, em meados da década de 1970, eu era professor da Unicamp e me encontrava vinculado ainda ao Cebrap.

Marcelo Burgos – Fazendo a tese?

É. Elaborando a tese. E para esse ponto, foram fundamentais aqueles relatórios que a Fapesp cobrava. Eu tive que fazer um relatório e aí me dediquei muito a ele. O relatório acabou publicado, com poucas alterações, na revista Estudos Cebrap, “Sistema Liberal do Direito do Trabalho”, e nele já estava presente o argumento da tese, embora a operação que a porá em pé tenha sido posterior. Eu gostaria, aqui, de aduzir as razões. Estávamos reduzidos – nós da esquerda, comunistas – a tal impotência, que uma forma de luta que nos pareceu interessante foi a organização de um grupo de estudos em torno de O capital. O grupo contava com intelectuais do Rio e de São Paulo; eram dois grupos, na verdade. Do grupo do Rio faziam parte Carlos Nelson Coutinho, a mulher dele, Aloísio Teixeira, Maria Teresa, e mais uns outros, que eu não estou me recordando, um economista do BNDES que fez carreira lá e tal. E do grupo de São Paulo, eu, Maria Lúcia, Braz Araújo, José Sales, Marly, e mais uns poucos. Essa atividade durou cerca de 2 anos e, de quando em quando, fazíamos reuniões conjuntas. Estudávamos aquilo, disputávamos interpretações dos capítulos como se fossem torneios mortais... Ao fim desses dois anos, o José Sales, que era um dirigente do Partido Comunista Brasileiro, da nossa idade, intelectual como nós, aparece com a proposta de que os estudos tivessem prosseguimento na União Soviética, na Escola de Quadros, com o professor Anastacio Mansilla. E fomos todos. Uns com passaporte forjado, outros de forma legal, fomos lá fazer o curso, onde, mais uma vez, relemos O capital, página a página, em reuniões diárias, sob a supervisão de Anastacio Mansilla, um professor fantástico!!!

Maria Alice – Anastacio já era conhecido aqui no Brasil?

Não. Mas Anastacio Mansilla era nada mais, nada menos, do que o homem que os soviéticos enviaram para cuidar da formação de Fidel e Guevara, logo após a revolução. Ele era espanhol, filho de uma família de republicanos exilada na União Soviética. Lá ele se educou e veio a se tornar um soviético, embora espanhol. A leitura de O capital, com Mansilla, fez com que eu fosse descobrindo soluções e caminhos para a minha tese. Mas essa também não foi a operação final. A operação decisiva veio da leitura dos textos de Lenin sobre a questão agrária, quando, então, me senti pronto para resolver o problema da tese. Eu tinha dominado as linhas gerais do argumento, tinha lido muita coisa sobre o período Vargas, eu dava cursos sobre o período, mas não era capaz de produzir uma explicação sobre o que tinha sido aquele período. Então, essas leituras contribuíram para que as coisas fossem fazendo sentido: O capital, os textos agrários do Lenin e, finalmente, a leitura do Gramsci, que foi uma leitura da minha geração. Gramsci começa a existir no Brasil a partir da minha geração e, para mim, seu texto mais influente foi Americanismo e fordismo, uma reflexão sobre o corporativismo na Itália, que acabou entrando como um fiat lux na minha tese. A partir daí, eu me tornei capaz de falar sobre o período Vargas com propriedade. Eu podia entrar por onde eu quisesse, que o argumento armava. Restava, portanto, apenas a redação. Eu escrevi a tese em cinco meses. Ela foi escrita e reescrita à mão, e tinha 550 páginas. Concluí a tese em 1975 e a defendi em 1976.

Ângela Paiva – Final dos anos de 1970, você já é Doutor em Ciências Sociais e enfrenta uma luta interna no PCB. Como você caracterizaria a década de 80, rica em questões políticas, como a democratização, as eleições para a Assembléia Constituinte, a reorganização dos partidos etc e, ao mesmo tempo, um momento especial da sua profissionalização. Você foi logo para o Iuperj?

Não, não. Eu fiquei solto. Concluído o doutorado, o que consegui, profissionalmente falando, foi, ainda, via São Paulo. Obtive recursos para pesquisar sobre o Partido Democrata-Cristão, quando o Cândido Procópio, que era do Cebrap e sempre me protegeu lá, inclusive me acolhendo em sua casa em momentos difíceis, me conferiu uma bolsa para realizar esse trabalho. Fiz, terminei e publiquei. É um Caderno Cedec, se eu não me engano. Depois disso, nada. Fiquei sem coisa alguma até que me apareceu, não sei por onde e como, um convite para dar aula na Faculdade da Cidade, que funcionava lá em Jacarepaguá, e que veio a se converter na atual UniverCidade.

Ângela Paiva – Era com a Amélia Lacombe, não era?

Sim. E lá estávamos Luis Eduardo Soares, Luiz Costa Lima, Beatriz Resende, Yvonne Maggie, Gilberto Velho... Eles pagavam direito. Era um projeto interessante, mas um público muito massificado, turmas com 120 alunos. Enfim, a faculdade faliu e foi, então, comprada por esse grupo que a trouxe para Ipanema e mudou sua orientação. Era, originalmente, uma experiência muito bacana... Mas em 1978 eu fui convidado para ser professor visitante da UFMG. Fiquei um ano e meio lá. Fui também professor visitante do Departamento de História da UFF. Não lembro o período certo, se em 1978, 1979, porque, na medida em que eu não podia fazer concurso, eu atendia às solicitações dessas pós-graduações, que precisavam contar com doutores em seus quadros. Em 1979, ofereci um curso no Iuperj, a pedido dos alunos. Fiquei nessa andança e dava para sobreviver. Até que veio a anistia. A Unicamp, então, me telefonou para que eu, anistiado, fosse assinar minha contratação. Mas, por aqueles dias, o Iuperj havia me convidado para fazer uma palestra e, quando terminei, fui convidado a integrar seu corpo docente. Fiquei, então, durante algum tempo, nas duas instituições. E, logo, em três, pois fui trabalhar também na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Fiquei com as três.

Maria Alice – E foi um contexto de muita política também, de organização dos intelectuais comunistas em torno da revista Presença, de luta interna no PCB...

É, a relação intrínseca entre política e Ciências Sociais finalmente tinha encontrado um caminho ordenado de ser. Eu tinha um grupo político em São Paulo e outro no Rio. Então, quando eu ia dar uma aula em Campinas, já passava uma noite em São Paulo, na casa, em geral, do David Capistrano Filho, pois fazíamos parte da redação da Voz da Unidade, que era o jornal do Partido Comunista.

Marcelo Burgos – E aqui no Rio?

Aqui no Rio havia uma sucursal da Voz da Unidade no começo dos anos 80. Formávamos um grupo de intelectuais reformadores da esquerda, digamos assim, na afortunada circunstância em que a direção do Partido Comunista Brasileiro estava no exílio. Assim pudemos montar, com base em nossas concepções, um veículo, com grande aceitação pública. O projeto de reforma podia ter dado certo. Mas, foi golpeado pela ditadura militar. As bancas de jornal que vendiam o Voz da Unidade passaram a ser dinamitadas, embora a Voz da Unidade não chamasse ninguém para a luta revolucionária. Era um jornal de esquerda, inteligente, esperto, renovado.

Ângela Paiva – Isso foi na época das bombas, do Riocentro, por volta de 1980, 1981?

Isso mesmo. É quando a direção do PCB volta para o Brasil. E na medida em que nós não conseguíamos vender o jornal em bancas, porque seus donos se sentiam ameaçados, nós nos fragilizamos e passamos de uma posição de autonomia em relação ao Partido a uma relação de dependência, porque não tínhamos recursos para continuar a publicá-lo. Começamos então a criar festas. Fizemos uma festa importante no bairro de Vila Isabel, Rio de Janeiro. Foram centenas de pessoas e a organização foi muito boa, com barraquinhas e tal. Concebemos, então, um megaevento, a ser realizado no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, para um público estimado em milhares de pessoas. Era a possibilidade de nós termos recursos para enfrentar, com autonomia, a direção do PCB, que queria impor a linha, o caminho. No dia marcado, a repressão impediu a festa. Isso foi uma morte. A partir daí, o Partido intensifica sua pressão sobre a direção do jornal e nós acabamos saindo. Saímos, primeiro, do jornal, e depois do Partido.

Ângela Paiva – E então?

Alguns irão para o PT, como foi o caso do David, que se tornou um político importante do Partido dos Trabalhadores, tendo sido eleito para a Prefeitura de Santos. Ele era médico, aliás, uma das melhores expressões do movimento sanitarista brasileiro, e participou da gestão de Serra, quando Ministro da Saúde. Antes, porém, de sua ida para o PT, David teve um último gesto de resistência ainda, que foi a criação da Revista Presença. Mas a Presença, com seu grupo, durou muito pouco tempo, pois o David era o grande dirigente desse movimento e estava de saída, rumo ao PT.

Ângela Paiva – E quem constituía esse grupo?

Aqui no Rio, o Ivan, Carlos Nelson, Leandro, Gazzaneo... Em São Paulo, Gildo Marçal Brandão, Marco Aurélio Nogueira... Com esse grupo originário, a Presença emplaca uns dois ou três números apenas, até que David abandona o projeto. Nós, então, trouxemos o projeto Presença para o Rio de Janeiro e passamos a operar, daqui, a tentativa de mudança da cultura de esquerda no Brasil. Já aí, com os personagens que ficarão na Presença até o fim, como a Maria Alice, Maria Lúcia, Brossard...

Marcelo Burgos – Fiz, recentemente, um inventário da revista Presença e constatei que foram editados 18 números, ao longo de uns dez anos. E o que me chamou a atenção foi a freqüência com que o embaixador José Guilherme Merquior foi publicado. Presença foi uma tentativa de diálogo da esquerda reformadora com o campo liberal, não?

Ah, sim. O Merquior inclusive disse que uma das melhores críticas que lera acerca de um de seus textos havia sido publicada por um intelectual da Presença, Rubem Barbosa Filho. Ele teve a iniciativa de responder ao artigo e o Rubem publicou uma tréplica. O debate é sobre o marxismo ocidental e é muito interessante.

Marcelo Burgos – Esse processo de construção da revista Presença é homólogo à própria transição democrática, não?

É. A Presença antecede a Constituição. E, desde o início, estava claro que ela teria que ser um projeto artesanal, para o que, inclusive, as minhas múltiplas ligações universitárias muito contribuíam, porque eu viajava bastante, nessa época, e saía montando grupos políticos em torno da revista. A rede que montamos chegou a ser impressionante: Juiz de Fora, Campinas, Vitória, no Espírito Santo, Araraquara, Salvador, Campina Grande, na Paraíba, e por aí afora...

Marcelo Burgos – É daí que surge a idéia da sua candidatura como parlamentar constituinte?

Minha candidatura foi uma tentativa de fazer com que essa identidade tivesse projeção no mundo da política. Parecia que ia ser fácil encontrar esse caminho de afirmação pública dos intelectuais da renovação da esquerda. Os primeiros atos da minha candidatura reuniram centenas de pessoas. Mas logo em seguida houve uma animação entre os intelectuais para se tornarem candidatos também. Avançaram multidões. Aí foi fragmentando, minguando, minguando... Foi uma votação pouco expressiva, tive 4.500 votos em um pleito em que necessitava de 19, 20 mil votos para me eleger. Fez-se uma campanha, mas disso não ficou fruto, não ficou nada. Acho que esse foi um dos últimos momentos em que essa combinação entre política, universidade e ciência social andaram tão juntas. A partir daí veio uma diferenciação e eu também fui me encaminhando mais e mais para as Ciências Sociais.

Ângela Paiva – Por que você acha que houve, logo no momento de redemocratização, esse afastamento dos intelectuais?

Isso foi em todo o país. Nós perdemos. A esquerda perdeu. Quem ganha a primeira sucessão presidencial, não esqueçamos, é o Collor. A esquerda não foi capaz de extrair da sua história os elementos que a impulsionassem. Basta pensar o que foi o Partido Comunista. Principal responsável pela linha da resistência democrática à ditadura, quando essa linha se torna vitoriosa, ele desaparece, se extingue. Quer dizer, ele ainda está aí, virou PPS, mas perdeu a energia, perdeu a força. Além disso, surgiram agremiações novas, vindas da sociedade: o PSDB e o PT. O Partido dos Trabalhadores, como sabemos, é inteiramente estranho a essa história anterior e mobiliza uma intelectualidade que tinha se confrontado, duramente, com a que defendera as liberdades democráticas. Grande parte dos intelectuais arregimentados pelo PT tinha vindo da luta armada e professara a crença de que “o povo armado derruba a ditadura”. Eles construirão esse partido de massas com uma postura absolutamente idiossincrática em relação à esquerda anterior, à esquerda do “povo organizado derruba a ditadura”. Daí essa configuração do PT, essa coisa quasimodal: uma liderança sindical, que vinha dos setores reformistas lá do ABC, com o Lula à frente, mais uma esquerda derrotada no caminho da luta armada e mais um pedaço da Igreja Católica, com as Pastorais da Terra e a Teologia da Libertação. Na medida em que esse caminho vai se afirmando, vai ejetando o outro, tira o lugar do outro. Bom, a indefinição desse Quasímodo, a ambigüidade dele, foi, paradoxalmente, a razão de seu sucesso. É por isso que o Lula pode falar: “Eu sou uma metamorfose ambulante”...

Ângela Paiva – E é mesmo...

Ele impôs ao partido a forma, o caminho da metamorfose. Não no começo do se mandato. Primeiro abrigou essa esquerda e deu posições muito proeminentes a ela, visto José Dirceu. A esquerda católica foi também contemplada: Frei Betto e tantos... Mas, na medida em que os impasses da vida foram se armando de outro jeito, ele foi se metamorfoseando. Ele foi permanecendo e ejetando o Dirceu, o Frei Betto... De uma forma tal, porém, que essa ejeção não parecesse radical, que fosse mantida uma relação lateral entre ele e essa esquerda, que, vez por outra, ameaça retornar à cena com seus inventários, idéias etc, embora sem os seus portadores originais...

Ângela Paiva – E já com uma outra forma.

A metamorfose ambulante... Essa, aliás, parece ser uma síndrome brasileira, a da decapitação permanente de lideranças, com a reciclagem e domesticação de suas idéias. As idéias ganham, tornam-se vitoriosas, às vezes décadas depois, mas sem os seus formuladores originais. Weffort, por exemplo, foi o primeiro secretário-geral do PT, peça fundamental na organização do partido e autor do que se poderia chamar de “percepção doutrinária” do PT a respeito do Brasil, que consistiu na teoria do populismo, na denúncia radical da era Vargas, da legislação sindical, etc. O PT cresceu assim, Lula se elegeu assim... Hoje, porém, Lula faz parte de um movimento de continuidade da era Vargas no Brasil: na questão do Estado, na questão dos sindicatos, na questão da nação. Há até mesmo um desenvolvimentismo à la Dilma Rousseff que está por aí. E o Weffort foi para o PSDB, sua teoria do populismo evaporou. Então, quando se analisam apenas as idéias no Brasil, tem-se que ter muito cuidado, pois elas sozinhas não explicam nada, a circulação delas está sujeita a muita variação... Se você tomar uma sociedade como a francesa, talvez faça sentido você começar a estudar as idéias de um determinado momento, porque encontrará explicação sobre como os atores se comportam, se orientam efetivamente. No Brasil, contudo, as idéias têm uso instrumental somente. A teoria do populismo teve um uso instrumental para o PT...

Maria Alice – Então, a década de 80 é um momento em que se separam os campos: a política, de um lado, as Ciências Sociais, de outro. E você faz, naquele contexto, uma opção por aprofundar seu investimento nas Ciências Sociais. No final dos anos 80 e durante a década de 90, qual foi a sua agenda intelectual no Iuperj? Seu tema era, então, o da institucionalização das Ciências Sociais, não é isso? Como esse tema chegou a você?

Veio pelo tema geral dos intelectuais, que, olhando bem, é o tema mais permanente em mim. Desde a primeira hora, é meu tema de estudo e minha reflexão sobre o que sou, sobre a minha vida. Participei de alguns dos mais importantes grupos intelectuais reunidos aqui no Brasil. Participei do Iseb, do CPC, do Cebrap, do Iuperj. Então, eu acho que esse é o meu tema. A partir dos intelectuais, sempre vi a possibilidade de mexer com o resto do mundo – uma idéia do Maiakovski, que sempre tive presente, uma idéia, aliás, que me devolve ao terreno da ética de convicção, que, olhando bem, talvez jamais tenha abandonado... A idéia de que o que importa é você criar um lugar de geração de energia. Pode estar circunscrito, mas a rede toda vai se abastecer daquilo. Não importa tanto que você chegue a muitos, mas que o seu pensamento tenha essa ponta de cristal.

Ângela Paiva – Werneck, ser professor foi importante para você, então?

É, eu nunca fui professor. Pode-se até encontrar testemunhos de pessoas que digam que eu fui professor, mas eu nunca me senti assim. Minhas aulas são o quê? Momentos de criação, não é isso?

Maria Alice – De interlocução...

De interlocução, sim. Eu ouço muito, dialogo muito. Eu não entro na sala de aula preocupado em transmitir um ponto. Posso levar anotações, mas não vou pegá-las, não vou mexer naquele papel. Vou falar, procurar criar o que eu conseguir, a partir do diálogo que estabeleço com os presentes. Isso pode ser entendido como atividade de professor, mas não como atividade de um professor que é um transmissor, apenas. Que leva um ponto e deixa aquele ponto com os alunos. Eu não tenho um ponto preciso, predeterminado a levar para os alunos. Eu tenho um diálogo aberto. E uma disputa também. A aula é um lugar de denúncia: dos alunos, da bibliografia, do mundo...

Maria Alice – E o tema dos juízes? Foi pensando aquela corporação específica que os temas do direito e da justiça entraram na sua agenda?

Os juízes foram pensados na chave de sempre: de como, por esses intelectuais, podem ser concebidas possíveis e eventuais mudanças. É sempre isso. É o intelectual como agente de mudança – intelectual coletivo e intelectual individual também, aquele que não se deixa corromper, aquele que não se deixa vencer, aquele que não está pensando na vitória fácil, no sucesso fácil. A sua convicção, aquela convicção tem que ser dita, tem que ser posta ali, numa rede transmissora. O que importa é ganhar a rede transmissora. Isso era Maiakovski. Quando li isso, há muito tempo – e bota tempo nisso –, eu me identifiquei muito.

Maria Alice – Já chegando ao fim dessa entrevista, quais seriam, para você, os desafios que estão postos para a reflexão social no Brasil? Quais seriam as linhas gerais dessa agenda futura? Uma agenda política, uma agenda científica...

Ângela Paiva – Eu destacaria, nesse caso, a produção das Ciências Sociais. Como é que você avalia o que está sendo produzido nas Ciências Sociais, hoje?

Eu acho que tem havido avanços significativos. Não se pode comparar as Ciências Sociais produzidas hoje com o que se produzia há 30, 40 anos atrás. É só ver a bibliografia. A bibliografia é, hoje, cosmopolita. O Brasil está no mundo. A ciência social brasileira está no mundo. Quer dizer, consultamos o mundo todo para poder avançar o nosso ponto. Isso não era assim. Também a chave comparativa está cada vez mais forte – o que é muito bom. Eu fico apenas pensando se a hiperespecialização que tem dominado o nosso campo não está subtraindo contundência de algumas construções anteriores, que eram mais expressivas. Penso que o caminho da especialização aponta para coisas importantes, mas também possui aspectos negativos. Aprisiona o seu ponto, lhe prende a mão, segura a sua cabeça, porque os territórios fora da sua especialização são considerados territórios que você não deve explorar. Agora, a questão que você formula, dos desafios a serem enfrentados pelas ciências sociais brasileiras... Acho que um deles é tentar entender a vida popular. Entender isso... Gramsci, em “A questão meridional”, formula uma explicação bastante persuasiva sobre o mundo popular. O que estará embaixo? Estará solto? Não, diz ele, nada está solto. Há uma rede muito poderosa de intelectuais que urde aquele mundo, assim como urde, organiza, o mundo da vida popular entre nós. Como é esse fenômeno, quais são as formas de domínio de que se vale? A arte, no que se refere a esse aspecto, a essas interrogações, está muito à frente da ciência social brasileira; sempre esteve, mas agora a distância é ainda maior. Essa filmografia nova, que procura dar conta desse tipo de problema, tem sido mais clarividente, mais generosa. A economia, a cultura e a política, como se tece a vida popular? Por que ela é tão pouco permeável ao que vem de fora? Essa é uma questão. Tome-se a escola, por exemplo. No que a escola consegue penetrar? Qual a resistência que existe, na vida popular, à escola? Por que tanta falta de adesão? Não dá para dizer que é a questão racial. No Rio de Janeiro, a questão racial disfarça muita coisa, mas se você vai para o Nordeste... Como é possível que se suporte tanta desigualdade sem uma rebelião, sem uma manifestação de descontentamento organizado, havendo liberdade para isso, havendo espaço para isso? Quais são as razões da servidão voluntária no Brasil? Não é a Igreja, que chegou lá embaixo. Qual é o papel dos intelectuais nisso? Chama a atenção a distância dos intelectuais brasileiros em relação à vida popular...

Maria Alice – Mas você não acha que a universidade está desempenhando esse papel, atacando esses temas?

Mas não chega... Eu estava ouvindo, outro dia, uma entrevista com aquele autor norte-americano Mike Davis. Vocês já o viram? É muito interessante. Tem uns cinqüenta e poucos anos, um sujeito forte, grisalho, enérgico, com valores até a medula. Ele faz um discurso forte, no mesmo sentido que eu há pouco falava. Denuncia a distância que os intelectuais mantêm em relação à vida popular. A minha geração tentou encurtar isso, o Movimento de Cultura Popular, no Recife, o CPC, no Rio... Alguns frutos foram imediatos e outros só mais tarde apareceram. Você não entende Caetano e Gil sem isso. Capinan, por exemplo, era o dirigente do CPC em Salvador e era uma liderança intelectual até para Gil, para Caetano...

Ângela Paiva – Mas você não acha que essa formação nova, universitária, dos jovens pobres das periferias urbanas vai modificar um pouco esse quadro? Meninas e meninos pobres que chegam às universidades e, muitos deles, concluem um doutoramento...

Você tem razão. Pode modificar... Se bem que algumas experiências são assustadoras, não é? Eles entram, chegam e assumem logo os temas mais aristocráticos já instituídos na universidade. Eles abdicam da sua posição e assumem a agenda do outro. Quando você olha, estão estudando um tema greco-latino. Não é verdade? Conheço muitos casos...

Marcelo Burgos – Na graduação, em geral, eles vêm com temas mais próximos das suas vidas, das suas angústias... Mas, quando chegam ao doutorado, como dispõem de um tempo maior para sua formação, pode ser que se vejam tentados a abdicar da reflexão que vieram buscar aqui. Mas, aproveitando o tema, gostaria de explorar uma questão de relevância para o nosso programa, um programa de pós-graduação jovem, que, do meu ponto de vista, deveria fugir da tentação de reproduzir modelos bem-sucedidos como o Iuperj e o Museu Nacional. Isso significa um desafio para nós e para o próprio campo das ciências sociais, na medida em que estaremos testando a capacidade de essas disciplinas estabelecerem nexos mais profundos com a sociedade. Penso que isso tem a ver com a sua trajetória. É algo, de certa forma, tributário da sua tentativa de aproximar, principalmente nos anos 80, a academia, o pensamento acadêmico, da cidade, do mundo público. A revista Presença, como sabemos, não pretendia ser uma publicação para a Capes. Era um veículo de comunicação com a sociedade, com poesia, literatura, crítica, que pretendia reunir, agregar todo tipo de pensamento, em vez de caminhar para a especialização. E essa experiência acabou desaparecendo com o aprofundamento da institucionalização acadêmica. Você mesmo, na sua própria trajetória, realiza isso. Afinal, nada mais sintomático do que a pesquisa sobre os cientistas sociais, realizada no começo dos anos 90. A pergunta que eu formularia então é: considerando esse ciclo, que é um ciclo de institucionalização bem-sucedida das ciências sociais, como ela poderia reencontrar alguns desses elementos que ficaram perdidos, o da comunicação com o mundo da política, por exemplo? Como é que essa ciência social poderá voltar a se comunicar com a vida pública? Poderá? Ou esse caminho é um caminho interditado...


Esse encontro tem-se dado via “especialista”. Os especialistas são mobilizados, quando são, e, se convocados, estabelecem a comunicação. Mas não é um movimento que parta do pesquisador. Mike Davis, por exemplo, especialista do mundo popular, não espera a convocação, não espera a mobilização. Ele tenta criar uma outra agenda, uma agenda para ele. Isso, entre nós, está sem caminho. Ou você é procurado e chega à vida pública, ou não chega. Não tem instância para que os intelectuais, eles mesmos, cheguem à vida pública.

Marcelo Burgos – Seriam os partidos que deveriam fazer essa mediação...

É, mas fazem? Eu continuo a acreditar que grupos de intelectuais têm lugar no mundo. Definem um programa para si, investem nele e procuram... Eu continuo a acreditar nisso.

Maria Alice – ONGs? Intelectuais coletivos desse tipo?

É... pode ser esse perfil também...

Marcelo Burgos – Recentemente você criou, junto com outras pessoas, o Cedes – Centro de Estudos de Direito e Sociedade.

Uma coisa bem dentro desse espírito, é verdade. Às vezes essa vocação parece estar muito distante dele, às vezes parece que é passível de realização. De certo modo, em quatro anos, atingimos com nossos cursos cerca de duas centenas de juízes de todo o país, atores que podem, sem dúvida, ajudar na construção de novos cenários para a democracia.

Maria Alice – Acho que poderíamos terminar a entrevista com a sua já conhecida sinalização para os que pensam o Brasil como aposta. Terminar falando um pouco disso que algumas pessoas chamam de otimismo, que eu não acho que seja...

Eu acho que o Brasil é uma mula-sem-cabeça. Anda, mesmo sem pensar. Ou, então, pensa com a cabeça do outro que rejeitou antes, mas anda. Anda, está andando agora. Está andando bastante, agora. Embora sem projeto. Qual é o projeto?

Maria Alice – Construir uma sociedade mais igualitária, talvez.

Isso está vindo aos pouquinhos, mas também, se vier com muita força, quebra, não agüenta, não tem força para passar. Quero fugir do otimismo dos tolos. Eu acho que está indo bem, embora o ator não pareça ser o senhor da sua circunstância. É claro que um ator muito desafiador, aqui no Brasil, tende a perder. Mas esse perfil que o Lula apresenta é um perfil puramente aceitável. É um ator fraco, que vai mudando com as circunstâncias. Ele é...

Maria Alice – Uma metamorfose ambulante.

Uma metamorfose ambulante. Mas se ele não for assim, se ele for duro, a possibilidade de ele não se segurar é muito grande. Getulio foi duro e não segurou. Covas foi duro e não segurou, ao jeito dele. O Jânio igualmente. Esse país é difícil, não é? Muito difícil de você conduzir para um lugar. Ele vai indo... O mundo hispânico é muito mais receptivo à épica, a comandos, a projetos. O nosso mundo é muito resistente a isso. O ator aqui tem dificuldade. É o mundo da circunstância, o mundo da fortuna, o mundo dos fatos o que comanda aqui.

Maria Alice – Você acha que a meta da igualdade está se cumprindo, não é?

Acho.

Maria Alice – E a da liberdade?

As tendências pela igualdade, manifestas agora na sociedade brasileira, são todas elas complicadas para a idéia de liberdade, inclusive a da luta contra a corrupção. Esse substancialismo que está presente sempre nas lutas igualitárias tem muita força no Brasil, e isso ameaça a agenda da liberdade. Agora, eu acho que o pior já passou, porque a agenda da igualdade está mais reverente quanto à força da outra agenda.

Ângela Paiva – E a gente precisa de tempo, não é, Werneck?

Tempo. Tempo. Tentar encurtar o tempo, aqui, por mais que seja cobiçado, desejado, desejável, apresenta riscos muito grandes para o ator, de não chegar até o fim do caminho. Isso é uma tragédia. É uma sociedade que obriga a paixão a se curvar diante da realidade. Isso é especialmente terrível para a juventude, que vê que seus ímpetos têm que ser refreados, para não serem nocivos, danosos. Isso limita também a criatividade, a inventividade, a inovação.