segunda-feira, 12 de outubro de 2009

REFLEXÃO DO DIA

Num partido democrático, deve-se poder pronunciar a palavra "esquerda". A esquerda contribuiu para o progresso da Itália, foi parte fundamental da Resistência e protagonista das grandes conquistas sociais e civis. Ser de esquerda significa ficar do lado dos últimos (palavra cara também aos católicos) e lutar pela igualdade e a liberdade. Ser de esquerda significa também apostar no mérito. Logo, o PD, que é um partido progressista, não pode deixar de ser de esquerda.


Pietro Spataro, L'Unità, 11 de outubro de 2009.

Pra casa, Ciro!

Ricardo Noblat
DEU EM O GLOBO


Nenhum chefe político gosta de ser contrariado. Chefes em geral não gostam. Lula desenhou a sucessão dele com régua e compasso. Mesmo assim deu errada aquela jogada do terceiro mandato consecutivo. Não convenceu nem seus aliados mais fiéis. Então ele inventou Dilma, sem passado dentro do PT, sem a mínima experiência eleitoral.

Se ela não emplacasse, quem sabe o terceiro mandato não ganharia as ruas e acabaria aprovado pelo Congresso? Por ora, Dilma de fato não emplacou. Mas a crise financeira internacional sepultou o sonho do terceiro mandato. Foi um vacilo de Lula concordar com o desejo de Ciro de se testar como candidato. Ciro logo passou Dilma nas pesquisas de voto.

Lula está sinceramente convencido de que a comparação dos resultados do seu governo com os resultados do governo de Fernando Henrique servirá de combustível para incendiar a candidatura de Dilma. E que sua presença ao lado dela dizendo a todo instante: “Minha candidata é Dilma”, derrotará José Serra sozinho ou ele com Aécio Neves de vice.

Marina Silva, candidata do PV? Lula não aposta um tostão furado na candidatura dela. Descarta que ela possa crescer o suficiente para provocar um segundo turno entre Dilma e Serra. Uma eleição plebiscitária, tal como ele a concebe, se esgotará no primeiro turno. Se Dilma perder... Lula terá feito tudo para elegê-la. E Serra não será assim tão mal para ele.

O que não dá é Ciro bater Dilma no primeiro turno e se classificar para concorrer com Serra no segundo. O mito Lula sairia afetado. Ele não teria demonstrado força sequer para garantir Dilma no segundo turno. Ouviria: cadê o poderoso cabo eleitoral ambicionado por 10 entre 10 candidatos às próximas eleições? O gato comeu. De resto, Ciro é imprevisível.

O que não murmuraria o PT, hein? Sim, porque diante de Lula só resta ao PT murmurar. Estrilar? Não. Espernear? Esqueça. Revoltar-se? Jamais! Mas o que murmuraria o PT? Forçado a ir com Dilma, o PT ainda se veria na humilhante situação de ter que sair gritando por aí: “Ei, ei, ei, Ciro é nosso rei”. Logo o PT que não engole Ciro nem em São Paulo...

Divirta-se Ciro enquanto puder como aspirante à vaga de Lula. O PSB, seu partido, prefere tê-lo como candidato à vaga de Serra. Ciro cometeu a bobagem de transferir seu título de eleitor para São Paulo. Mesmo que perca, ajudará à eleger deputados do partido. Para presidente, o PSB espera o momento certo de anunciar que é Dilma desde garotinho. PDT e PCdoB estão com Dilma. Com Ciro só tem ele e quase 20% do eleitorado.

O uso da popularidade

Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Lula tateou o terreno, mas parece ter abandonado de vez a espinhosa missão de corrigir a anômala invenção do capitalismo sem risco brasileiro chamada caderneta de poupança. Nenhum país do planeta consegue vencer completamente a inflação, os juros altos e a indexação quando o governo está obrigado a garantir a todos um rendimento de 6% ao ano, mais a variação da TR (Taxa Referencial). Tudo livre de imposto.

A medida é altamente popular. A menos de um ano da eleição, políticos não apreciam correr riscos. Taxar a poupança não rende votos. Esse episódio ilustra à perfeição como o Brasil está longe de se tornar de fato o que Lula e parte do PT acham que o país já é. As dezenas de reformas institucionais empacadas ficaram em segundo plano por causa da recuperação da economia. Sumiu da agenda do governo a urgência para melhorar a Previdência e o sistema tributário.

Aí vem o paradoxo. Lula é o presidente mais forte politicamente desde o fim da ditadura militar. Sua aprovação pessoal, na redondeza dos 80%, tem chance real de romper novos recordes em 2010. O filme sobre sua vida ajudará.

Rivaliza com o marketing antecipado de grandes produções de Hollywood. A economia, tudo indica, crescerá na casa dos 4% anuais ou mais no ano que vem.

Apesar de todo esse poder, Lula não se arrisca. É quase certo que seu sucessor terá menos força política, seja Dilma (PT), Serra (PSDB) ou Ciro (PSB). Em resumo, se o lulismo e seu ícone não tiveram coragem de implantar determinadas reformas, por que o próximo presidente teria? Não terá. Algum dia, o encanto se quebra. O Brasil perceberá quais são seus bolsões de atraso, embora pareça ser nula agora a disposição dos eleitores para ver a realidade. É mais cômodo acreditar no "Brasil Grande" da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016.

Bate-boca com fatos não leva a nada

Marco Antonio Rocha
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

É normal que políticos no auge de campanhas eleitorais, de cima de palanques ou arengando às massas, ajam como brucutus contra adversários, como cruzados de lança em punho contra os infiéis. Autoridades do governo, mesmo as que militam em partidos, o que precisam é convencer, e não derrotar.

Mas diversos petistas no governo Lula nunca depõem armas, militam a vida toda, em tempo integral.

No ano que vem o PT completa 30 anos. Qualquer jornalista não petista que esteja na profissão um pouco mais do que isso há de lembrar do espírito aguerrido do PT "de combate" nas redações. Era inimigo de morte quem não fosse petista de carteirinha, não cantasse loas a Lula, lançasse a menor dúvida sobre os elevados e puros propósitos do PT e dos líderes do partido ou sobre a capacidade técnica de petistas que exerciam cargos públicos. Pior, era inimigo do povo e lacaio do capitalismo. Era quase impossível, a quem divergisse do PT, argumentar em termos civilizados com o "bom petista".

Essa espécie de vírus xiita ainda não abandonou as veias de muitos petistas que estão em altas funções republicanas, são funcionários de Estado, e não mais militantes de comitês de agit-prop.

Marta Suplicy, depois de trombar com uma administração municipal destruidora de egos e de ser humilhada por uma derrota eleitoral que não esperava, percebeu que não era, afinal, a rainha da cocada preta e que o povo não a comprava pelo preço que ela pensava que valia. Melhorou, mas não se curou de todo da doença infantil do petismo. Ainda reage mal às contrariedades.

Um outro, esse um caso difícil porque junta "petistite" encruada com valentia gaúcha, é o ministro Tarso Genro. Dá a impressão de que todas as manhãs, na frente do espelho, enquanto faz a barba, só pensa nos dragões de tocaia lá fora para comê-lo e que vai ter de abater. Veste o paletó como couraça, pega o guarda-chuva como uma Excalibur e dispara por Brasília como se estivesse em Camelot. Está quase todos os dias nos jornais, "respondendo" a alguém com dois quentes e um fervendo, como diziam nossos avós.

Um terceiro ferrabrás petista, Marco Aurélio Garcia, diplomata - imaginem ! -, vê o mundo povoado por americanos canalhas e seus lacaios. Seu guru não parece mais ser o presidente Lula, e sim o fundador do socialismo bolivariano, ou socialismo do século 21, ou que outro nome tenha a estripulia político-caribenha, cevada em petrodólares, que Chávez perpetra do alto do seu trono na Venezuela. Onde quer que esteja um crítico da política externa do governo Lula, ali estará para combatê-lo o cavaleiro templário Don Diego Garcia, com seu feroz e desarrumado semblante.

Ao que tudo indica, a ministra-candidata, Dilma Rousseff, junta às sezões de agressividade petista o temperamento de praticante de kicking-box, sem nem um pingo do senso de humor do seu líder. Caso o suceda, teremos, provavelmente, a presidente mais ranheta do planeta.

Se na arena política esse comportamento é tedioso e canhestro, no terreno da economia só causa perplexidade, sobre ser inútil. No entanto, há petistas "de combate" também aí.

Acompanhamos todos, no momento, um debate sobre os rumos da economia brasileira que não é apenas acadêmico nem neutro, pois os argumentos, do governo e de analistas não-governo, porém experientes e respeitados na economia, influem em decisões empresariais de investimentos e nos movimentos dos mercados, particularmente os de ações e de futuros. Esse debate já produziu um consenso relativamente amplo de que o governo Lula enfrentou com competência a crise financeira internacional e conseguiu evitar para o Brasil o pior dos mundos, embora nem todos os efeitos negativos.

Mas o governo se mantém na defensiva agressiva. É que a discussão, agora, diz respeito a como retomar o crescimento econômico com políticas que evitem, mais adiante, o recrudescimento da inflação que, em consequência, imporá uma nova rodada ortodoxa na administração da moeda e do crédito.

Ora, a muitos analistas está parecendo que o esforço de investimento que o governo faz, e anuncia, com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com os preparativos para a Copa do Mundo e para a Olimpíada, com projetos de infraestrutura importantes, como o trem-bala, com a exploração do petróleo do pré-sal, etc., é maior do que o "Brasil S.A." pode atender. Tudo isso, aliado a gastos inevitáveis com a campanha eleitoral do ano que vem, com o aumento dos gastos de custeio da máquina pública que já ocorre desde o início deste ano, com o aumento do déficit do INSS e de outros déficits governamentais, cria uma expectativa de descontrole gradual das contas fiscais, de maior inflação, de elevação dos juros, etc. Expectativa que inquieta o mercado, eleva os juros futuros e se manifestou até no Relatório de Inflação do Banco Central (BC). Contra sua tradição de não se meter onde não é chamado, o BC advertiu sobre o risco de pressões inflacionárias, alinhando-se com as preocupações de analistas privados.

Foi o que bastou para os templários, aninhados no Ministério da Fazenda, saírem a combater moinhos de vento. Argumentos? - "imbecis", disse Paulo Bernardo, do Planejamento; "terroristas", acusou Nelson Barbosa, da Fazenda; "bobagens", murmurou Mantega. Argumentos bons para gerar manchetes, mas inúteis para amainar ou contraditar as expectativas dos especialistas, de investidores e de empresários. Como inútil foi o presidente Lula proclamar que fez o maior ajuste fiscal da história do Brasil... em 2003 ! Palmas para ele, mas o diabo é o desajuste de agora.

Cabe às autoridades criar fatos que amainem as expectativas e inquietações desfavoráveis. E não ficar batendo boca com os analistas
*Marco Antonio Rocha é jornalista

Sem crise à vista

Luiz Carlos Bresser-Pereira
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

A economia voltará a crescer, mas não se imagine que estaremos voltando ao desenvolvimento sustentado

QUANDO, EM outubro de 2008, explodiu a crise financeira global, previ que seus reflexos na economia real seriam menores do que os do crash de 1929 porque a reação monetária e fiscal dos governos seria muito mais forte e decidida do que fora 80 anos antes.

De fato, isso ocorreu, o desemprego aumentou muito menos do que nos anos 1930, e, agora, os países de renda média como a China e o Brasil já saíram da crise, enquanto os países ricos começam a sair. Ninguém, entretanto, está muito seguro do que acontecerá com a retomada. Nada indica que seja forte e firme; tanto poderá ser lenta e hesitante como poderá ser seguida de nova crise.

Aposto na primeira alternativa. Como os países ricos foram aqueles cujas empresas e famílias mais se endividaram, será necessário um tempo relativamente grande para que elas consigam se desalavancar. Enquanto for esse o quadro, o investimento e o consumo privado permanecerão deprimidos. O grande esforço fiscal realizado pelos países teve o efeito esperado de minorar a insuficiência de demanda agregada, mas não teve o condão de relançar o gasto privado, de forma que a recuperação deverá ler lenta, na forma de um "U" com ampla base.

Nos países ricos, portanto, a probabilidade de que nova crise se desencadeie é pequena. Os mercados de commodities e de ações estão se reaquecendo em consequência do grande aumento da liquidez internacional, mas esse aumento de preços dos ativos não é suficiente para criar uma nova bolha: nos Estados Unidos, o mercado acionário está apenas 15% acima do valor de setembro de 2008.

Já nos países de renda média, a retomada é mais forte. No Brasil, a ação do Ministério da Fazenda e dos bancos públicos foi bem-sucedida, a confiança foi retomada, e os investidores em ações já recuperaram boa parte de suas perdas. Não haveria, entretanto, espaço para nova crise financeira? No curto prazo, não creio. Bolhas especulativas são raras nos países de renda média e não chegam a ser suficientemente fortes para dar origem a crises bancárias, entre outras razões porque os bancos locais não se mostram dispostos a financiar a especulação necessária para que uma bolha de ativos resulte em crise desses mesmos bancos.

No Brasil, o que há a temer são as crises cambiais ou de balanço de pagamentos que decorrem de tentar crescer com poupança externa: foi assim em 1982 e em 1998. Como o financiamento dos deficit em conta corrente é feito em moeda estrangeira, o país fica sempre sujeito à perda da confiança dos credores externos e a uma "parada súbita" seguida de violenta depreciação da moeda local. Estamos caminhando nessa direção, já que a tendência à sobrevalorização da taxa de câmbio voltou a se manifestar e o país já voltou à situação de deficit em conta corrente, mas não há por que temer uma crise nos próximos dois anos porque as reservas brasileiras continuam muito elevadas. Pelo contrário, o que devemos esperar é que a economia brasileira volte a se aquecer e que, em 2010, tenhamos uma taxa de crescimento relativamente elevada, compensando a baixa expansão de 2009.

Não se imagine, porém, que estaremos voltando ao desenvolvimento sustentado. Nossas taxas médias de crescimento continuarão modestas -aproximadamente a metade do que poderiam ser se decidíssemos seguir o exemplo dos países asiáticos e combinássemos responsabilidade fiscal com uma política cambial que garantisse uma taxa de câmbio competitiva.

Luiz Carlos Bresser-Pereira , 75, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994".

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Com maior apoio político, neofascistas ganham espaço na Itália

DEU EM O GLOBO ONLINE

RIO - No país que inventou o fascismo e que sempre manteve - apesar da derrota na Segunda Guerra Mundial - um consistente núcleo saudosista e colecionador de brindes de Benito Mussolini, a volta dos seguidores do "Duce" assusta tanto quanto o retorno dos nazistas na Alemanha. Reportagem de Vera Gonçalves de Araújo, publicada na edição de domingo do GLOBO, mostra que o cenário é ainda mais complicado, já que alguns dos líderes da extrema-direita conquistaram cadeiras no Parlamento. E com o avanço político, mais doses de violência contra imigrantes, ciganos e homossexuais.

Alessandra Mussolini, neta do ex-ditador e sobrinha de Sophia Loren, foi eleita eurodeputada. A política, que subiu no palanque de Silvio Berlusconi no ano passado, é considerada um dos trunfos da coalizão Casa das Liberdades.

Um dos grandes motivos de preocupação está nas arquibancadas de estádios de futebol. Com a exceção da torcida do Livorno, tradicionalmente de esquerda, todas as outras torcidas organizadas têm em comum os símbolos, os gestos, os slogans fascistas.

Os neofascistas também são cada vez mais visíveis nas patrulhas metropolitanas, milícias legalizadas na semana passada pelo governo Berlusconi.

Oposição quer mudar ''lei da mídia'' de Cristina

Ariel Palácios
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Maioria opositora que assume o Congresso em dezembro promete revisar texto original

Líderes da oposição argentina anunciaram neste fim de semana que pretendem mudar a lei de radiodifusão aprovada pelos aliados do governo da presidente Cristina Kirchner na madrugada de sábado no Senado. O plano é alterar vários pontos polêmicos do pacote conhecido como "lei da mídia", a partir do dia 10 de dezembro, quando novos senadores e deputados assumem seus cargos, revertendo a maioria que o governo detém atualmente na Câmara e no Senado.

"Toda a lei estará sujeita a revisões e ao voto da maioria, que assumirá em dezembro", disse o senador Eduardo Sanz, chefe do bloco da União Cívica Radical (UCR). Os representantes do Partido Socialista, que votaram a favor da lei do governo de forma geral, também consideram que as normas precisam de várias modificações.

No entanto, representantes do governo afirmaram que pretendem resistir a eventuais mudanças. Para isso, Cristina poderia recorrer ao uso intensivo de vetos presidenciais.

A lei é vista como um golpe direto no principal conglomerado de comunicações da Argentina, o Grupo Clarín, com o qual a presidente Cristina e seu marido e ex-presidente, Néstor Kirchner, estão em pé de guerra desde o ano passado. O jornal Clarín tornou-se um dos principais denunciantes de casos de corrupção do governo.

A lei impede que um grupo de mídia possa ter ao mesmo tempo um canal de TV aberta e um canal de TV a cabo. Além disso, restringe a atuação de um canal de TV a apenas 35% da população do país.

Além dos novos deputados e senadores, os empresários da comunicação também prometem impedir a aplicação da lei, que obrigará, no prazo máximo de um ano, que cada grupo de mídia que possua um canal de TV aberta e um de TV a cabo de forma simultânea venda um dos dois canais.

O Grupo Clarín, por intermédio de seu diretor de Relações Externas, Jorge Rendo, anunciou que "recorrerá à Justiça para fazer valer seus direitos". Segundo Rendo, "existem artigos que são inconstitucionais". Ele também diz que a lei de mídia dos Kirchners possui pontos "insólitos" que "não existem em nenhum lugar do mundo".

O Grupo Uno também expressou sua intenção de ir aos tribunais para tentar impedir a aplicação da lei, que prejudicará a empresa. Segundo seu presidente, Daniel Vila, a lei, "além de estar mal redigida, fere a Constituição em vários artigos".

"O que poderia acontecer se daqui a um ano não vendo minha empresa?", perguntou. Segundo ele, será necessário "fechar as portas, pagar as indenizações e despedir" seus 16 mil empregados diretos.

''Estou numa prisão'', diz mulher de Zelaya

Lourival Sant'Anna
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Primeira-dama deixa para trás vida confortável, adota causa do marido e vira exemplo de luta na embaixada

A vida de Xiomara Castro de Zelaya tem sido uma montanha-russa desde que seu marido foi derrubado, na madrugada de 28 de junho. A primeira-dama, que coordenava os programas sociais do governo, assumiu a dianteira da "resistência", encabeçando as marchas que foram ao encontro de Manuel Zelaya nas duas tentativas frustradas de voltar ao país e na ocupação da embaixada brasileira. Há três semanas, Xiomara trocou o conforto da casa alugada no Valle de los Ángeles - ela não quis mais morar na sua casa, depois que o Exército a invadiu - pelo confinamento na missão brasileira em Tegucigalpa.

Xiomara é uma das pessoas mais bem-humoradas no sobrado, mesmo depois de uma semana de fracasso das negociações para a restituição do presidente deposto. "Por que estão desanimados?", perguntou aos jornalistas na manhã de sexta-feira. "Animem-se!" Xiomara diz que ela e o marido só souberam "por terceiros" do pleito do Brasil e da Organização dos Estados Americanos (OEA) para a remoção do casal da embaixada. Ela festejou os 49 anos no local e ainda não conheceu o neto Juan Manuel, que nasceu no dia 30.

"Desejávamos tanto o retorno de Mel", disse ela, usando o apelido pelo qual o presidente é conhecido. "Agora queremos que a família se junte de novo. Queremos voltar para casa, ter uma vida normal para nós e para o povo e queremos também que os criminosos tenham seu castigo. Aqui nos sentimos numa prisão."

Mas Xiomara não se queixa. Ela disse que a morte do jovem Isis Obed Murillo Mencía, de 19 anos, com um tiro de fuzil, durante manifestação contra o golpe em 5 de julho, e a reação de sua mãe, mudaram sua visão das coisas. "Fui visitar a mãe dele, e foi ela que me consolou", conta. "Ela me disse: "Tenho orgulho porque meu filho morreu para defender seus ideais. Vou voltar com meus outros filhos para apoiar a resistência"."

Segundo Xiomara, foi "a maior lição" de sua vida. "A partir desse dia, comprometi-me com a resistência. Meus filhos, minha mãe, a mãe de Mel e eu percorremos todo o país."

GUINADA

A primeira-dama, que conheceu Zelaya com 12 anos, começou a namorar com 15 e casou-se com 16, garante que seu marido, de 56 anos, nunca foi de esquerda. Seus críticos o acusam de ter abandonado os ideais de seu Partido Liberal e se convertido ao socialismo do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, depois de ter chegado à presidência de Honduras.

"O presidente sempre se preocupou com os mais pobres", disse. "Nesses três anos e meio, ele reduziu a pobreza, impulsionou o crescimento econômico e desenvolveu a infraestrutura." Ao mesmo tempo, garante ela, "nunca os empresários tiveram tantos lucros".

Berço do PT em pé de guerra

Tiago Pariz
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Lideranças que dominavam o comando do partido em São Paulo perdem terreno depois de escândalos e têm de disputar espaço com companheiros menos cotados

Em seu berço de nascimento, o PT está em processo de renovação e em briga deflagrada sobre quem é o nome mais importante do partido. Em São Paulo, lideranças que antes determinavam o rumo do partido estão em declínio e, nesse vácuo, emergem figuras capazes de questionar até interesses do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Essa deterioração dos proeminentes foi precipitada pelos recentes escândalos que chacoalharam o partido, como os episódios do mensalão, dos aloprados e do caseiro.

O PT tinha um grupo fechado de tomada de decisões inquestionável. Quando os ex-ministros José Dirceu, Luiz Gushiken, Antonio Palocci e o senador Aloizio Mercadante decidiam o rumo petista, a militância obedecia. Apesar de ter poder acumulado, esse grupo está enfraquecido e sofre para fazer valer sua palavra. Dirceu e Gushiken foram envolvidos no mensalão, e Palocci saiu do governo acusado de quebrar o sigilo funcional do caseiro Francenildo Santos Costa. Já Mercadante foi alvejado depois que seus principais assessores na campanha pelo governo paulista em 2006 foram envolvidos na compra de um suposto dossiê com informações sobre uma pretensa relação do atual governador José Serra com a máfia das ambulâncias. O grupo ficou conhecido como “os aloprados”.

“Antes o que eles falavam era lei. Hoje não é bem assim. Há um novo grupo mais disseminado de deputados que diluiu o poder”, afirmou uma liderança paulista. Ao custo dessa derrocada, surgiram novos nomes com potencial de ocupar esse vácuo. O prefeito de Osasco, Emídio de Souza, o líder da bancada na Câmara, Cândido Vaccarezza, o ministro da Educação, Fernando Haddad, e o deputado José Eduardo Cardozo. “Está havendo um processo de transição de liderança para pessoas que têm destaques em suas áreas, mas ainda não têm o mesmo peso na máquina que o antigo grupo tinha”, explicou outro nome do PT de São Paulo.

Emídio de Souza reconhece que os recentes tumultos dentro do partido ajudaram a acelerar a renovação. “(O surgimento de novos nomes) tem a ver com os escândalos, mas mesmo que não tivesse acontecido, teriam surgido novas lideranças”, disse o prefeito de Osasco, que disputa a possibilidade de concorrer ao governo.

Apoio a Ciro

Essa briga em torno da escolha do melhor caminho na eleição para o governo paulista no ano que vem é o exemplo mais claro dessa condensação de lideranças e briga por espaço. Hoje existem duas correntes de sobrevivência: uma que acha que, por falta de nomes, o melhor é apoiar o deputado pelo Ceará Ciro Gomes (PSB), e a outra, que defende que, mesmo com um concorrente pouco competitivo, é importante ser cabeça de chapa. A segunda ala é encabeçada pela ex-ministra Marta Suplicy, que depois de duas derrotas para o PSDB paulista (uma para o governo e outra na reeleição para a prefeitura) também está em declínio.

José Dirceu defende o acerto com Ciro Gomes. Mas, diferentemente de outros tempos, a tese de Dirceu encontra dificuldades. Marta bate na tecla de que é preciso candidato próprio para tentar se impor em cima de seus correligionários, mas ela depende de um apoio que o presidente Lula não está disposto a dar. Por isso, num processo de sobrevivência política depois de ser cassado, Dirceu estimula essa briga e está do lado dos deputados. E depois de muita briga e turras internas o presidente da legenda, deputado Ricardo Berzoini, também passou a jogar o jogo da nova turma em ascensão. Mercadante, antes de ser alvejado, buscou ocupar um espaço deixado pelo deputado João Paulo Cunha, também envolvido no mensalão, em Osasco. Não conseguiu e deixou a porta aberta para Emídio.

Lula gostaria que o PT apoiasse Ciro e desistisse de concorrer ao governo para que a ministra Dilma Rousseff tivesse um único palanque forte em São Paulo. Lula tem o apoio de parte do novo grupo petista e do ex-ministro José Dirceu. Hoje, se o PSB não concordar com a possibilidade e lançar o deputado cearense à Presidência da República, as novas lideranças estão fechadas com Emídio de Souza. Além de ser o nome de parte dos deputados federais paulistas, ele conta com o apoio de 14 dos 20 deputados estaduais. Essa conta é apresentada por deputados estaduais para tentar rejeitar a tese de que o nome de Palocci é o mais forte no estado. “Quem iria imaginar que um prefeito de Osasco poderia pleitear ser governador de São Paulo num partido que tem Marta Suplicy, Aloizio Mercadante e tantos outros?”, indaga outro petista.

Para não ficar na defensiva, parte do PT já tem antecipado conversas com potenciais aliados. Estão na mira PDT, PCdoB, PR e prefeitos do PMDB descontentes com o alinhamento do presidente regional da legenda, Orestes Quércia, com o governador José Serra (PSDB).

Novidade

Pré-candidato ao governo de São Paulo, o prefeito de Osasco, Emídio de Souza, disse que o PT vai montar um palanque forte para a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Ele afirmou que a manutenção dos candidatos petistas deve-se ao movimento dos outros partidos, sobretudo o PSB, que flerta com a possibilidade de Ciro Gomes ou Paulo Skaf como concorrentes. Souza ressaltou, no entanto, que a legenda não está fechada para composições e alianças. --> --> --> --

Rede de intrigas

Marta Suplicy

Tem o maior percentual de potenciais eleitores nas pesquisas de intenção de voto, mas teve seu poder enfraquecido no PT depois de duas derrotas seguidas para o PSDB. Decidiu apoiar a candidatura de Antonio Palocci ao governo estadual para tentar fortalecer seus militantes.

José Dirceu

Depois de ser cassado por envolvimento no mensalão, o ex-deputado passou a atuar nos bastidores em favor da candidatura da ministra Dilma Rousseff. É um dos defensores da tese de que é preciso abdicar do nome próprio e apoiar Ciro Gomes.

Aloizio Mercadante

Líder do PT no Senado, foi desautorizado publicamente pelo governo por não apoiar o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Perdeu uma eleição para o governo de São Paulo depois de seus assessores se envolverem no escândalo dos aloprados. Sua reeleição ao Senado não é tida como confortável.

Cândido Vaccarezza

Foi eleito líder do partido sem apoio de Ricardo Berzoini, do líder do governo Henrique Fontana (PT-RS) e do ex-líder Maurício Rands (PE). Ganhou espaço ao se aproximar de Dilma e de Lula, além de passar a negociar diretamente pelo governo na Câmara. É defensor da tese de subjugar o palanque estadual em favor da ministra da Casa Civil.

Antonio Palocci

Ex-ministro da Fazenda, saiu do governo pela porta dos fundos, mas ganhou fôlego político depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) o inocentou de qualquer envolvimento na quebra do sigilo funcional do caseiro Francenildo Santos Costa. Hoje é um dos nomes lembrados para disputar o governo paulista.

Emídio de Souza

Prefeito da quinta maior cidade de São Paulo, surgiu como concorrente ao governo estadual com a falta de opção entre os antigos medalhões petistas. Tem apoio da maioria dos deputados estaduais para sua empreitada.

Filho de Sarney interfere em agenda de Lobão

DEU EM O GLOBO

Gravação mostra que ele marca encontros e instrui ministro

BRASÍLIA e BELÉM. Diálogos gravados pela Polícia Federal (PF) revelam que o empresário Fernando Sarney, filho mais velho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), tem livre trânsito no gabinete do ministro de Minas e Energia, o aliado peemedebista Edison Lobão. Fernando interfere na agenda do ministro e até determina com quem Lobão deve se reunir. Silas Rondeau, que ocupou o mesmo cargo, também atua no ministério e marca audiências de empresários com o ministro. A ação dos dois foi noticiada ontem pela "Folha de S.Paulo".

Em algumas conversas, Fernando fala com Lobão sobre reuniões que ocorreriam no ministério e dá instruções ao ministro. Numa delas, em setembro de 2008, Fernando avisa a Lobão que agendou um encontro dele, ministro, com um grupo ligado à Associação Brasileira de Energia Eólica. Os empresários apresentariam projetos do setor.

Lobão disse que Fernando solicitava audiências, mas confirmou que recebeu empresários atendendo a um pedido de Rondeau. Fernando Sarney não se pronunciou. Rondeau negou interferência na agenda de Lobão. Para a PF, o conteúdo dos diálogos configura o crime de tráfico de influência.

Serra critica governo por falta de investimento

DEU EM O GLOBO

SÃO PAULO. Às vésperas da viagem do presidente Lula e da ministra Dilma Rousseff à região do Vale do Rio São Francisco, o governador José Serra (PSDB) visitou a região neste final de semana e criticou a falta de investimentos do governo em projetos de irrigação, o que, segundo ele, tem inviabilizado assentamentos do Incra na região do semi-árido brasileiro. O governador questionou a eficácia da reforma agrária.

Em mensagens postadas no Twitter, Serra explicou ontem que visitou um assentamento do Incra em Petrolina no sábado e constatou que as 600 famílias lá assentadas não tinham água para beber nem para plantar suas lavouras de subsistência.

- (As famílias) Têm de trabalhar fora ou se conformar com o Bolsa Família - disse Serra no Twitter, onde tem 112 mil seguidores. - Infelizmente, há anos não se investe mais em irrigação no semiárido. Grandes obras pararam. Pena. Cada hectare irrigado gera três empregos - disse o governador tucano, pré-candidato do PSDB à Presidência da República.

Serra visita assentamento no Sertão

Jorge Cavalcanti
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

A quarta visita deste ano do presidenciável do PSDB a Pernambuco foi a mais política de todas. Teve encontro com aliados, corpo-a-corpo na Festa da Uva e do Vinho e até discurso para os sem-terra

PETROLINA – A quarta visita deste ano do governador de São Paulo, José Serra (PSDB), a Pernambuco – que aconteceu no sábado passado, no Sertão, foi a mais política de todas. Com uma agenda extensa e eclética, o presidenciável tucano fez de quase tudo. Inclusive visitas a obras do governo federal que se arrastam há anos. Primeiro, esteve no projeto Pontal, de irrigação. Depois, no assentamento Catalunha, do Incra, o maior do Nordeste, no município de Santa Maria da Boa Vista. E foi ali que ele discursou como candidato para cerca de 500 trabalhadores sem-terra.

Diante da penúria do local, Serra se disse preocupado com a falta de água para as cerca de 600 famílias. “Sou governador de São Paulo. Não posso fazer nada por vocês”, esquivou-se ele. O assentamento fica a oito quilômetros do Rio São Francisco e a dois quilômetros da área irrigada. Inicialmente, Serra não queria discursar. Mas os agricultores insistiram e ele cedeu. Subiu em um degrau e falou aos acampados.

Apesar do estilo sisudo, o presidenciável até que se mostrou simpático – dentro do possível permitido pelo seu perfil. Sorriu, posou para fotografias e até contou piada sobre futebol para os senadores Marco Maciel (DEM) e Sérgio Guerra (PSDB), no Bodódromo, local em Petrolina que reúne restaurantes especializados em carne de bode.

Na noite do sábado, a Festa da Uva e do Vinho, em Lagoa Grande, fechou a programação do tucano em Pernambuco. O evento seria a última oportunidade de Serra testar o corpo-a-corpo com os potenciais eleitores. Mas, no segundo dia de feira, o público ficou abaixo do esperado. Mesmo assim, Serra visitou os estandes pacientemente e posou para mais fotos. Dessa vez, ao lado da rainha e da princesa da festa.

Na penúltima vez que esteve em Pernambuco, Serra visitou o Parque Aza Branca, em Exu, dedicado à memória de Luiz Gonzaga. Na ocasião, o tucano evitou o clima de campanha e a companhia de aliados, diferentemente da visita a Petrolina. Em junho, o governador esteve no arraial promovido por Sérgio Guerra na sua fazenda em Limoeiro, na Zona da Mata. A primeira visita do ano foi em março, para o lançamento do livro Daquilo que eu sei – Tancredo e a transição democrática, do ex-ministro da Justiça Fernando Lyra, no Paço Alfândega (Recife).

No Pará, Dilma defende PMDB e elogia Jader

Chico de Gois * e Gerson Camarotti
DEU EM O GLOBO


Em jantar com aliados de 9 partidos para costurar aliança, ministra diz que legenda é estigmatizada por querer cargos

BELÉM e BRASÍLIA. Mergulhada de cabeça na costura do apoio à sua candidatura à Presidência da República, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, saiu de jantar na noite de sábado no Pará com o deputado federal peemedebista Jader Barbalho e outros 24 aliados defendendo o PMDB. Para Dilma, o partido - principal parceiro da campanha de 2010, ocupando provavelmente o posto de vice na chapa - é estigmatizado em relação ao apetite por cargos. No encontro, do qual participaram ao todo nove legendas, Dilma citou o PMDB como o principal parceiro do governo, solidário com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A ministra lembrou ainda que o Palácio do Planalto tem retribuído esta solidariedade, em episódios como a defesa do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), nos recentes escândalos familiares e da própria Casa.

- Foi um sinal de reciprocidade, entrosamento e solidariedade do governo com o PMDB - enfatizou Dilma, segundo participantes do jantar, em referência ao partido, com o qual o PT vem se desentendendo no Pará.

Guerra entre PT e PMDB no estado preocupa Planalto

Ontem, antes de acompanhar o Círio de Nazaré, ela rebateu críticas sobre o fisiologismo que ditaria as alianças do PMDB:

- Podia fazer um comentário? Sabe o que acontece? Uma coligação tem de ter tempo de amadurecer. E às vezes você tem idas e vindas. Qualquer relação entre pessoas é assim. Acho que estigmatizam muito o PMDB porque o PMDB quer isso, quer aquilo, quer aquilo outro. Acho que ou a gente governa em conjunto ou a gente não governa.

Estiveram no jantar, no Centro de Convenções Hangar, representantes de nove partidos da base aliada: PT, PMDB, PRB, PR, PTB, PDT, PSB, PCdoB, PP e PSC. Muito simpática com todos, a ministra fez questão de fazer referências pessoais aos principais líderes e foi especialmente atenciosa com Jader Barbalho.

- Você não sabe como o conheci. Foi ouvindo você. Foi em 2005, no auge de mensalão, no Palácio da Alvorada. Estava numa sala ao lado e fiquei impressionada com o pragmatismo político e seu conhecimento para enfrentar aquele momento - elogiou Dilma, de acordo com os presentes.

Há forte preocupação no Palácio do Planalto com o clima de guerra entre aliados no plano nacional. Por isso, depois da passagem pela Bahia, onde tentou aproximar os grupos do governador Jaques Wagner (PT) e do ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB), Dilma aproveitou os festejos do Círio de Nazaré para tentar pacificar a disputa entre petistas e peemedebistas no Pará.

O grupo político de Jader ameaça fechar aliança no Pará com o PSDB, desembarcando da candidatura à reeleição da governadora Ana Júlia Carepa (PT). A ministra apelou a todos os partidos pela unidade em torno do projeto de 2010 no Pará:

- Quem está sentado nesta mesa decidirá a eleição do próximo ano. Se todo mundo estiver junto, já podemos saber qual será o resultado de 2010 - afirmou a ministra, que comeu pato no tucupi.

* Enviado especial

'Ela está muito simpática', retribui Jader

DEU EM O GLOBO

No discurso que fez aos presentes, ela lembrou que a eleição de 2010 é uma disputa entre dois projetos: o do governo Lula contra a gestão tucana do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Segundo os presentes, a participação direta de Dilma nas articulações está cada vez mais cristalizada na estratégia da campanha petista.

- Ela está muito simpática. Isso permitiu criar um ambiente de absoluta confraternização política. Ela foi cheia de gentilezas com o PMDB - comentou Jader Barbalho.

No Pará, embora o PMDB de Jader Barbalho participe do governo de Ana Júlia, com o controle de dois terços das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no estado, como disse a própria governadora, há dificuldades para que o partido apoie a petista na reeleição. O PMDB chegou a propor que o filho de Jader, o prefeito de Ananindeua, Helder Barbalho, seja vice na chapa de Ana Júlia. Mas ela resiste e, por isso, a aliança está difícil.

Dilma disse que vê sinais positivos para que a aliança se concretize no Pará e também em nível nacional. Ela fez a ressalva de que não gostaria de "meter a colher de pau" em assuntos locais, porque não conhece a realidade do estado.

O ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, que acompanhou Dilma, disse que o jantar serviu para solidificar o apoio do PMDB paraense à candidatura petista.

Stedile chama Lula de "mal informado"

Eduardo Scolese
Da Sucursal de Brasília
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Líder sem-terra discorda de presidente, que considerou "vandalismo" a ação do movimento que destruiu laranjal em Iaras (SP)

Economista e líder sem-terra afirma que pedido de abertura de CPI por parte de congressistas da oposição tem motivação eleitoral


João Pedro Stedile, 55, da direção nacional do MST, afirma que o movimento não perdeu o foco, que condena todo o tipo de "vandalismo" e que o presidente Lula está "mal informado", numa referência à declaração do petista na qual chamou exatamente de "vandalismo" a ação do movimento numa área de plantação de laranja no interior de São Paulo. Em entrevista à Folha Stedile minimiza a derrubada dos pés de laranja na área da Cutrale, pois, segundo ele, a produção seria destinada à exportação, e não para a mesa dos brasileiros.

FOLHA - Independentemente da situação da propriedade [o Incra diz que está ocupada de forma irregular, o que é negado pela empresa], a ação chama a atenção pela destruição deliberada de alimentos. Foi um erro destruir aqueles pés de laranja?

JOÃO PEDRO STEDILE - O fato de a área ser grilada, confirmado pelo Incra, não é algo secundário. Esse é o fato. Um dos princípios que o MST respeita é a autonomia das famílias de nossa base. A distância, a população pode achar que derrubar pés de laranja foi uma atitude desnecessária. A direita, por meio do serviço de inteligência da PM, soube utilizar [as imagens] contra a reforma agrária, se articulando com emissoras de TV para usá-las insistentemente. Nunca essas emissoras denunciaram a grilagem nem a superexploração que a Cutrale impõe aos agricultores.

FOLHA - Ao destruir alimentos, o MST não teme perder o apoio das camadas mais pobres da população, como das 12 milhões de famílias que dependem do Bolsa Família para comprar sua própria comida?

STEDILE - Cerca de 98% da produção de suco no pais é exportada. Esse suco não vai para a mesa dos pobres, com ou sem Bolsa Família. Já o nosso modelo para a agricultura brasileira quer assegurar produção de alimentos, a geração de emprego e renda no meio rural. Queremos produzir comida e, inclusive, suco de laranja para chegar à mesa de todo o povo brasileiro. Não para o mercado externo. Mesmo assim, a área de exploração da laranja [no país] diminuiu em 400 mil hectares nesses dez anos, pela exploração que a Cutrale impõe aos agricultores.

FOLHA - O presidente Lula chamou a ação de "vandalismo". O MST ainda o enxerga como aliado?

STEDILE - Nós também condenamos o vandalismo. Usar 713 milhões de litros de venenos agrícolas por ano, que degradam o meio ambiente, também é vandalismo. Nesse caso, o presidente está mal informado, pois as famílias acampadas nos disseram que não roubaram, não depredaram nada. Depois da saída deles e antes da entrada da imprensa, o ambiente foi preparado para produzir imagens de impacto. Propomos que uma comissão independente investigue a verdade.

FOLHA - É correto hoje dizer que a conjuntura nacional, principalmente de estabilidade econômica e de assistência oficial aos pobres do país, é desfavorável ao MST?

STEDILE - Os dados do censo [agropecuário] revelam que menos de 15 mil latifundiários são donos de mais de 98 milhões de hectares. A renda média dos assalariados do campo é menor que um salário mínimo. Diante disso, reafirmamos que é fundamental democratizar a propriedade da terra, como manda a Constituição, e mudar o modelo agrícola, para priorizar a produção de alimentos sadios para o mercado interno. Quem acha que a reforma agrária não é necessária está completamente alheio aos problemas e aos interesses do povo.

FOLHA - Essa conjuntura deixa o MST sem foco?

STEDILE - Ao contrário. Nunca foram tão necessárias essas mudanças. Bancos e empresas transnacionais controlam a agricultura. E, quando ocupamos uma terra para pressionar a aplicação da reforma agrária, enfrentamos todo esses interesses. O Brasil precisa de um projeto que combata as causas da desigualdade social e garanta o acesso a terra, educação, moradia e saúde a todos, e não apenas a uma minoria.

FOLHA - Algum nome para as eleições de 2010 anima o movimento?

STEDILE - O MST preserva sua autonomia. Nossos militantes participam das eleições como qualquer cidadão. Infelizmente, cada vez que chega o período eleitoral, a direita se assanha para enquadrar as candidaturas contra o MST e a reforma agrária. Esse pedido de CPI tem apenas motivação eleitoral. O [deputado Ronaldo] Caiado [líder do DEM na Câmara] confessou que o objetivo da CPI é provar que o governo repassa dinheiro para o MST fazer campanha para a Dilma [Rousseff], o que é ridículo.

Mulheres e minorias para trás

Gilberto Scofield Jr.
DEU EM O GLOBO

Brasil é um dos países com maior disparidade salarial da América Latina, diz BID

Afalta de projetos educacionais com foco em mulheres e minorias, especialmente entre os mais pobres, além da discriminação pura e simples, colocam o Brasil na incômoda posição de um dos mais desiguais da América Latina se levadas em consideração as defasagens salariais de gênero e entre brancos e outras raças/minorias, diz estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), ao qual o GLOBO teve acesso com exclusividade e que será divulgado hoje.

No Brasil, as mulheres ganham, em média, 29,7% menos do que os homens, a maior diferença encontrada entre os 18 países avaliados pelo BID e quase o dobro da média da região (17,2%). A defasagem salarial por raça no Brasil é ainda maior, de 30%, e também a mais gritante entre as nações que estão no estudo do BID.

O relatório, intitulado "Novo século, velhas disparidades: diferenças salariais entre gêneros e etnias na América Latina", preparado pelos economistas Hugo Ñopo, Juan Pablo Atal e Natalia Winder, mostra que, na média da região, negros e indígenas ganham 28% a menos que os trabalhadores brancos, enquanto homens ganham 17,2% a mais que mulheres. Isso considerando grupos com a mesma idade e nível de instrução.

- A desigualdade salarial por gênero não chega a ser um problema grave em países desenvolvidos da Europa ou nos Estados Unidos, mas é uma realidade grave no Oriente Médio e, num segundo patamar, na América Latina, que é uma das regiões mais desiguais, do ponto de vista econômico, do mundo. O Brasil não tem tantas etnias diferentes como as 21 da Guatemala, mas, nem por isso, é menos desigual quando comparamos a remuneração de brancos com negros e descendentes de índios - comenta o economista Hugo Ñopo.

Diferença é maior no topo da pirâmide

O modelo de comparação salarial foi criado por Ñopo há sete anos, mas os dados dos 18 países latino-americanos envolvidos na pesquisa começaram a ser cruzados efetivamente há dois anos e tomaram como base, no Brasil, a Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar (Pnad) e levantamentos semelhantes em outros países.

O relatório mostra que a defasagem salarial por gênero é alta, a despeito de as mulheres serem mais instruídas. As trabalhadoras têm, em média, 0,8 ano a mais de estudo do que os homens na América Latina, o que não impede que elas recebam bem menos mesmo em cargos semelhantes.

A defasagem salarial por gênero também é mais alta entre trabalhadores autônomos, em comparação com os que mantêm vínculos empregatícios formais nas empresas. A autonomia, dizem, é um ponto positivo e negativo neste caso. É bom porque dá flexibilidade para as mulheres dedicarem mais tempo aos filhos, mas, sem o apoio do parceiro, é também uma forma de afastá-las do mercado de trabalho, reduzindo sua renda.

No caso das etnias e raças, o BID incluiu no estudo apenas sete países onde havia informações étnicas disponíveis em suas pesquisas domiciliares: Brasil, Bolívia, Chile, Equador, Guatemala, Peru e Paraguai. Segundo as estatísticas, há entre 28 milhões e 34 milhões de indígenas na América Latina (cerca de 10% da população) e, em todos os países, este grupo representa a maior fatia entre os pobres e miseráveis, apesar de todos os avanços sociais dos últimos anos.

Porém, curiosamente, as maiores diferenças salariais estão nos extremos da distribuição de renda, ou seja, entre os maiores e menores salários. E entre os homens, os mais velhos e os moradores de áreas rurais. O Equador é o país com menor diferença salarial: apenas 4%.

De certo modo, o estudo do BID evidencia, dentro dos países latino-americanos, o mesmo padrão de uso de mão de obra de minorias de países desenvolvidos. Esses trabalhadores estão empregados em ocupações de baixos salários. O que os economistas chamam de "segregação ocupacional" permeia o mercado de trabalho latino-americano, onde as minorias estão em posições de chefia ou de empregadores, que recebem os maiores salários.

- No caso de raça e etnia, o diferencial é notadamente a educação. E o que se diz aqui é a qualidade da educação, porque a má qualidade educacional das minorias, uma fatia da população mais pobre, dá a negros e índios menos condições de competir no mercado de trabalho - explica Ñopo.

Na política, pouca presença das brasileiras

Vivian Oswald e Fabiana Ribeiro
DEU EM O GLOBO

Mulheres são só 9% dos parlamentares, pior representatividade da América Latina

BRASÍLIA e RIO. Não é só na renda que a desigualdade de gênero no Brasil salta aos olhos. A despeito das pré-candidaturas da ministra Dilma Rousseff (PT) e da senadora Marina Silva (PV) à presidência da República, por exemplo, o Brasil é o país em que as mulheres têm a menor representatividade no Congresso e na vida política da América Latina.

A constatação é do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), no seu último relatório sobre o desenvolvimento humano no mundo. O estudo mostrou que apenas 9% dos assentos da Câmara e do Senado são ocupados por parlamentares do sexo feminino.

O problema de gênero no país é um fato, segundo o economista sênior do organismo internacional, Flavio Comim. As brasileiras vivem mais e têm mais anos de estudos no país. Porém, elas ganham pouco mais de US$7 mil por ano, em média, segundo o estudo do Pnud. Já os homens têm rendimento médio de US$12 mil.

- Isso é um indicador revelador. A melhora do mercado de trabalho não é acompanhada pela vida política - disse Comim.

Entre os países latino-americanos, Cuba tem o maior número de parlamentares mulheres (43%), sendo seguido por Argentina (40%). No ranking mundial, a Suécia é o país com maior número de mulheres no Legislativo, com 47% dos assentos totais. A Finlândia, que tem uma mulher como presidente, Tarja Halonen, vem em seguida com 42%.

No Brasil, a participação das mulheres em cargos ministeriais também está entre os piores: 11%. O Chile, cuja presidência é ocupada por uma mulher, Michelle Bachelet, é o campeão neste quesito na América Latina, com 40%, sendo seguido de Trinidad e Tobago (36%).

IBGE: mulheres ganham menos em todos os tipos de ocupação

Novos cruzamentos da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), divulgada na última sexta-feira pelo IBGE, também confirmam, mais uma vez, a desigualdade existente entre homens e mulheres no mercado de trabalho. Apesar de a escolaridade feminina ser maior (em média 9,2 anos de estudo) do que a masculina (8,2), a presença do homem em cargos de chefia é bem maior do que a das mulheres. A proporção de mulheres dirigentes (4,4%), por exemplo, ainda é inferior à participação dos homens (5,9%) na mesma função.

- O preconceito é ainda uma realidade no mundo do trabalho. Sem falar que a mulher ainda carrega o peso dos cuidados com a família e, é claro, não abre mão disso - disse Hildete Pereira, professora da UFF, acrescentando que, a despeito de resistências, a mulher avança em setores masculinos, como o da construção civil.

Não há sequer uma posição da ocupação pesquisada pelo IBGE em que a mulher apareça com remuneração superior a do homem. Até na função de empregador, os ganhos são menores: o dos homens é R$3.161, já o das mulheres, R$2.497 - 22% a menos. Mesmo no conjunto de trabalhadores domésticos - atividade tipicamente feminina - o homem ganha mais. O rendimento médio das trabalhadoras domésticas sem carteira é R$298, enquanto a média dos homens é de R$404.

- Nunca foi tão atual a bandeira feminista de 1975 que dizia "trabalho igual, salário igual". Infelizmente, as mulheres ainda ganham menos do que o homem. E isso não é só aqui, ainda que seja uma comportamento forte por aqui. No mundo inteiro, as mulheres ocupam apenas 17% dos cargos de gerente - disse Hildete.

Não deixe o samba morrer e Sufoco

Alcione e Beth Carvalho
Bom dia!
Vale a pena ver o vídeo

Clique o link abaixo
http://www.youtube.com/watch?v=j8OxmjUcytI

domingo, 11 de outubro de 2009

Dois prêmios, uma escolha

Alberto Dines
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)


Ele não conseguiu ganhar as Olimpíadas, porém uma semana depois, na mesma Escandinávia, foi empurrado para o Olimpo, como um dos campeões da paz. Barack Obama não é um sortudo, nem é engraçado, nem é "o cara". É a quintessência da fé: o visionário, o homem que acredita. Sonha e mostra que o sonho é possível.

Mal começou a sua jornada, ainda não completou um ano na Casa Branca, mas os seus compromissos com o desarmamento nuclear, com a paz no Oriente Médio, com o policentrismo, a distensão e as instituições internacionais, estão na ordem do dia. Suas bandeiras foram desfraldadas por inteiro, tremulam inconfundíveis, transformadas em convocações para aquela parte da humanidade que não esqueceu os 70 anos do início da Segunda Guerra Mundial e não deseja repeti-la.

Desta vez, o Nobel da Paz está conectado ao Nobel da Literatura anunciado um dia antes. A ficção e a biografia da romeno-alemã Herta Müller escancaram os dois totalitarismos que flagelaram o mundo – o nazifascismo e o stalinismo – e cujos herdeiros estão ativíssimos em todos os quadrantes e sob inúmeros disfarces.

O pai de Herta foi soldado das temidas SS (Schutzstafell, de Himmler), permaneceu na Romênia ocupada pelos soviéticos e sua mãe (da minoria romena de fala alemã), passou cinco anos num campo de trabalhos forçados na União Soviética. A própria escritora foi perseguida e censurada por recusar-se a colaborar com o regime do ditador Ceausescu, escapou com o marido para a Alemanha pouco antes da queda do Muro de Berlim. Herta é a Segunda Guerra e a Guerra Fria juntas e redivivas, simbiose do terror político que marcou grande parte do século 20.

Barack Hussein Obama é o símbolo do mundo liberado das algemas do rancor ideológico. Pós-racial, pós-capitalista, pós-socialista, negro, tem nome árabe, seus auxiliares mais próximos são judeus e representa como ninguém o sonho americano – isso explica a ferocidade da minoria direitista americana e dos seus vitriólicos blogueiros.

O Comitê Nobel e a Real Academia Sueca desta vez anteciparam-se. Ao invés de consagrarem um saldo de façanhas já realizadas, preferiram sancionar intenções, fortificar promessas, reforçar esperanças e estabelecer uma ousada agenda mundial que poucos ousarão contestar.

Este Nobel da Paz diferencia-se nitidamente dos 100 anteriores porque foi alçado da esfera do evento que se assiste passivamente para converter-se num movimento galvanizador do qual todos gostariam de participar. Ao menos como testemunhas. A era da globalização econômica está sendo promovida à era do internacionalismo. O sinal já foi dado, basta segui-lo.

Assim como reacende antigos preconceitos em seu país, Barack Obama estimula admirações no resto do mundo. E os seus conterrâneos, aparentemente, ainda não aprenderam a conviver com esta sua nova contribuição à humanidade. Em 12 de Outubro de 1492, o genovês Cristóvão Colombo chegava a uma terra que não sabia onde ficava.

Barack Obama, 517 anos depois, tenta reavivar a noção de Novo Mundo com a decisiva ajuda do sueco Alfred Nobel. O inventor da dinamite, não poderia imaginar que o seu legado em algum momento conseguiria implodir com tamanho ímpeto as xenofobias e ressentimentos que alimentam as guerras. Inclusive as xenofobias e ressentimentos fomentados pelo fanatismo religioso.

O Nobel é uma escolha, conjunto de círculos, espiral. Não é casual, pode ser causal.

» Alberto Dines é jornalista

A "mãe" das reformas

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


O livro “Brasil pós-crise”, coordenado pelos economistas Fabio Giambiagi e Otavio Barros, está sendo publicado exatamente um ano antes das eleições, com o objetivo de estimular o debate sobre o governo que começa em 2011. Multipartidário, num sinal de que pode haver diálogo entre pessoas educadas, na definição de Giambiagi, o livro tem entre suas atrações um capítulo do presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, e a orelha com um texto do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, além do prefácio de Luiz Carlos Mendonça de Barros e artigos de autores ligados ao governo FH.

O ponto central é um grupo de capítulos sobre as diversas reformas estruturais que precisariam ser feitas pelo futuro governo, mas que dependem de uma delas, a reforma política, considerada “a mãe” de todas as reformas, mais complexa e delicada, que pode colocar a perder o clima político que permitiria a aprovação das demais.

A característica do artigo do economista político Alexandre Marinis, da Consultoria Mosaico, é exatamente tratar dessas delicadezas de “timing” e procedimentos para se atingir os objetivos de uma verdadeira reforma política: “O timing de uma reforma política é extremamente importante, determina na verdade o seu êxito. Nenhuma proposta é de fácil implementação e garante os frutos prometidos. Muitas vezes podem até mesmo jogar contra a intenção inicial, e ficarmos até pior do que estamos”, analisa Marinis.

Ele chama a atenção para a concentração de poderes nas mãos do presidente da República, gerando um hiperpresidencialismo de fato, um fenômeno não apenas brasileiro, mas que se espalha pela América Latina.

“A perspectiva de reformas estruturais passa a depender da figura central, que é o presidente da República.

Se ele não tiver a intenção de promover as reformas, o processo não deslancha”, ressalta o autor, lembrando que no governo Lula aconteceu justamente isso: logo no início ele aprovou uma reforma tributária “cujo único objetivo era fazer com que a CPMF se tornasse permanente, e depois nunca regulamentou a reforma previdenciária”.

A lógica do nosso sistema político, segundo Marinis, permite que haja uma coalizão para dar sustentabilidade ao governo, com os líderes partidários tendo força para negociar as reformas, mas sem poder suficiente para levar adiante as reformas sem o apoio do Executivo.

“O objetivo central de uma reforma política deve ser o de conciliar representatividade e governabilidade a fim de impedir que parlamentares, governantes e os três principais lobbies rentistas (corporativista, político e empresarial) se comportem de maneira oportunista e personalista”, escreve Marinis em seu texto.

Para ele, “é preciso encontrar meios para superar esses grupos que hoje capturaram o orçamento público para aprovar projetos que os favorecem: representantes de grandes corporações, empreiteiros, funcionalismo público”.

Outra peculiaridade do sistema representativo brasileiro, segundo Marinis, é o que define como “desequilíbrio representativo dos estados na Câmara dos Deputados”.

Estando a maioria eleitoral nas regiões Sul e Sudeste, os presidentes quase sempre saem dessas regiões, com raras exceções como a eleição de Collor, que Marinis considera “uma anomalia”.

“Mas, na hora de implementar as reformas, esse presidente vai ter que lidar com um Congresso baseado nas outras regiões do país, especialmente Norte e Nordeste”, comenta Marinis, para quem, embora considere “simplismo” resumir a questão a disputas regionais, “elas são estruturalmente importantes”.

A reforma política a ser feita, por isso, “vai muito além das soluções anunciadas, como o voto distrital misto, a fidelidade partidária; é muito mais complexa”.

Para Marinis, é preciso “quebrar esse paradigma para que sejam aprovadas as reformas estruturais de que precisa o país”.

Ele chama a atenção em seu texto para “as possíveis implicações que mudanças no processo decisório político podem ter sobre a capacidade de os futuros presidentes construírem coalizões majoritárias no Parlamento e retomarem o processo de reforma estrutural do país”.

Como a dinâmica de funcionamento do atual sistema político faz com que a coalizão majoritária no Congresso seja crescentemente formada por parlamentares avessos à mudança do status quo, “a priorização de uma reforma política poderia adiar indefinidamente a retomada do processo de outras reformas estruturais, pois parte das mudanças sugeridas pode dificultar a capacidade de o presidente cooptar parlamentares para a sua coalizão e reduzir o predomínio do Executivo sobre a produção legislativa”.

Dependendo da maneira como for feita, adverte Marinis, “a reforma política pode criar dificuldades para o próximo presidente fazer uma coalizão majoritária no Congresso”.

Sem partidos solidamente comprometidos com programas, “teríamos vários PMDBs”. Ele não afirma em seu texto, mas está implícita nele uma ideia que desenvolveu em conversa comigo: a saída para superar esses impasses poderia ser a convocação de uma Constituinte específica para a reforma política.

Para evitar surpresas, a convocação seria limitada a temas específicos, e as reformas só valeriam para o próximo governo. “Desse modo, poderiam ser eleitos representantes da sociedade civil que contornariam esses grupos de pressão que dominam hoje o Congresso”, sonha Alexandre Marinis.

Dou um descanso aos leitores até o dia 27, quando a coluna volta a ser publicada.

Fora do foco e de propósito

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


A imagem da derrubada do laranjal da Cutrale no interior de São Paulo conseguiu tirar da toca o presidente Luiz Inácio da Silva, que, loquaz para questões que o interessam, sabe ser discreto quando o assunto não lhe convém.

Invasões e toda sorte de transgressões cometidas pelo dito movimento social dos sem-terra, por exemplo.

"Todo mundo sabe que sou defensor das lutas sociais e de que o povo se manifeste. Agora, entre uma manifestação para reivindicar alguma coisa e aquela cena de vandalismo feita na televisão. Obviamente que não posso concordar com aquilo, porque não tem explicação para a sociedade você derrubar tantos pés de laranja apenas para mostrar que você está reivindicando", disse o presidente.

Como se vê, a imagem não foi suficiente para que o presidente abordasse o problema em sua real dimensão: a da opção pela transgressão à lei feita pelo MST, de forma premeditada desde o momento em que optou atuar sem ter configuração jurídica.

Lula, assim como seus ministros - à exceção do titular da pasta da Agricultura, Reinhold Stephanes -, continua fazendo de conta que não estamos diante de um problema de criminalidade.

Para o presidente, o problema reside na forma, não no conteúdo. Enquanto o MST invadiu, depredou, feriu, houve casos em que matou, tudo certo. No momento em foi flagrada uma imagem que - como reza o lugar-comum - fala por mil palavras, a coisa passou do limite. Ou seja, o problema não é o MST desrespeitar a lei, mas fazê-lo de maneira acintosa, taticamente incompetente. E mais grave: em pleno Jornal Nacional.

O fato de a transgressão ser sustentada com dinheiro público tampouco entra no rol de preocupações de Lula e seus ministros.

Ao contrário, esse aspecto é liminarmente condenado. Na teoria, o governo critica o recurso ao vandalismo. Na prática, porém, protege os vândalos quando mobiliza os partidos governistas no Congresso para impedir a instalação de uma CPI para investigar os repasses de verbas públicas ao MST.

Entidades como o Ministério Público e o Tribunal de Contas da União falam em transferências de milhões, mas ninguém sabe ao certo o que se passa nessa relação entre os cofres do Estado e o MST.

Antes da divulgação das imagens que provocaram as declarações de Lula, a "base" foi mobilizada para enterrar a CPI. Depois disso, a oposição voltou a coletar assinaturas, mas o governo não mudou de posição.

O líder na Câmara, Henrique Fontana avisa que continua contra, o ministro da Reforma Agrária, Guilherme Cassel, tergiversa: "Se quiserem uma CPI geral sobre a agricultura, incluindo os repasses à CNA, tudo bem. Mas, uma CPI contra um movimento social, acho perseguição."

Não sendo ignorância, é má-fé. Contra o Estado de Direito.

Fino trato

O presidente licenciado do PMDB informa: não briga com Orestes Quércia, muito menos cogita de intervenção no diretório paulista por causa do apoio do ex-governador à candidatura presidencial do PSDB.

Não porque não desejasse um enfrentamento que pudesse levar São Paulo para o lado dos defensores da aliança com o PT. O problema é falta de condições objetivas para tal.

Antes de vencido o prazo de filiações partidárias, Temer até tentou convencer o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, a se candidatar a governador pelo PMDB e enfrentar o grupo de Quércia na convenção.

Skaf medrou, foi para o PSB e a chance passou. Agora, Temer reafirma o acordo fechado há dias com Quércia: cada um cuida do respectivo rebanho e, lá na frente, voltam a conversar sob a luz das circunstâncias.

Segundo a direção do PMDB, os apostadores do conflito ou não pertencem ao partido ou estão sendo mais realistas que o rei.

200%

O presidente do PT, Ricardo Berzoini, avisa que Dilma Rousseff deve deixar o governo em fevereiro para se dedicar "100%" à campanha presidencial.

Não informou quem, atualmente, se dedica 100% aos afazeres da Casa Civil enquanto Dilma roda o País em campanha.

Em cena

Avaliação do cineasta Fernando Meirelles de que o presidente Lula é o "maior ator do Brasil" não significa necessariamente um elogio.

Emblema

A propósito da leniência do poder público com as invasões o MST, o leitor S.P. conta a seguinte história: "Sete anos atrás, pedi à Prefeitura de São Paulo que cortasse um "ficus", que eu mesmo plantei e que destruía minha calçada, meu muro e parte da rua. Passaram-se três anos e ninguém apareceu.

"Resolvi acabar com o problema, pois a árvore crescia. Cortei a árvore e 15 dias depois recebi da prefeitura uma multa de R$ 289.

"Quanto ao MST, nem Ministério Público nem os defensores do meio ambiente nem ninguém causa dano algum."

A Belíndia sem Índia

Suely Caldas
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Os índices sociais e de distribuição de renda têm melhorado nos últimos 20 anos, mas o Brasil ainda está muito longe de deixar de ser uma Belíndia, ficar com sua porção Bélgica e eliminar a porção Índia. Os indicadores do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Humano (Pnud), divulgados na segunda-feira, mostram que desde o Plano Real o País tem trabalhado para reduzir as desigualdades sociais, mas ainda é lento o deslocamento da renda dos mais ricos para os mais pobres.

No epicentro dessa melhoria está a maneira de distribuir a renda por meio de programas sociais. Ao transferir dinheiro público diretamente para as famílias mais pobres, o Bolsa-Família (nascido Bolsa-Escola no governo FHC) eliminou a intermediação de governadores, prefeitos e deputados em programas politicamente manipulados do tipo Vale-Leite (do governo Sarney), em que o político distribuía o benefício para quem nele votasse, e não para quem dele precisasse. Com seu cartão magnético a mulher pobre recebe o dinheiro no banco e ponto final, não há político enganando.

Mas, para suprimir a porção Índia e continuar a avançar na porção Bélgica, o Brasil tem de investir muito em educação, saúde e tratar de manter a inflação bem baixinha. A ação da hiperinflação sobre a renda dos mais pobres foi destruidora no passado, sobretudo no governo Sarney, quando ela chegou a 80% ao mês. Espécie de imposto perverso pago pela população pobre, a inflação destrói tudo o que encontra, desorganiza a economia, impede planos de investimento, arruína a moeda, promove o caos.

O poder da queda da inflação sobre a renda fica evidenciado nos números do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Pnud. O período em que o Brasil mais acelerou seu IDH se deu entre 1995 e 2000, em que foi mais forte o impacto do Plano Real sobre a queda da inflação e seus efeitos econômicos e sociais. Nesses cinco anos o IDH avançou de 0,734 para 0,790 e começou a caminhada para classificar o Brasil entre os países de desenvolvimento humano elevado, consolidada em 2005. Nesse período todos os indicadores sociais avançaram: a expectativa de vida do brasileiro saltou de 68,2 para 70,3 anos; a taxa de matrícula escolar evoluiu de 74,4% para 90,2%; a taxa de alfabetização dos adultos, de 84,7% para 86,9%; e o PIB per capita cresceu de US$ 7.798 para US$ 8.085.

Inflação quietinha, combinada com políticas públicas eficientes nas áreas de educação e saúde, faz a diferença na eliminação da pobreza.

Na educação o progresso maior se deu no ensino fundamental e no governo FHC, quando a taxa de matrícula acelerou e, segundo o IBGE, 96% das crianças entre 7 e 14 anos frequentavam a escola em 2002 (hoje essa taxa subiu para 98%). Nessa faixa etária o investimento agora deve focar a qualidade do ensino, qualificar e remunerar professores, reduzir o analfabetismo funcional e criar políticas para o pré-escolar - crianças entre 4 e 7 anos. Um bom preparo nessa fase diminui muito o analfabetismo funcional adiante. No ensino médio, o governo Lula tem investido com sucesso na criação de escolas técnicas voltadas para qualificar a mão de obra - de operários da indústria a operadores de serviços (comércio, informática e bancos). E nas universidades a ação do Estado tem se voltado para obrigá-las a melhorar a qualidade do ensino. Em educação a evolução tem sido lenta, mas contínua e sem retrocessos.

O drama maior é na saúde. É onde as políticas públicas não funcionam - os hospitais vivem desaparelhados; o déficit de leitos é enorme; é cruel e por vezes inútil o prazo de espera por uma cirurgia ou uma simples consulta; o sistema de emergência nos hospitais é inoperante e o doente morre sem atendimento. Essa situação é amplificada e piora muito em regiões mais pobres, justamente as que mais precisam de saúde pública e gratuita.

Não há políticas comuns nem conexão entre o governo federal, Estados e prefeituras. O Sistema Único de Saúde (SUS) foi bem concebido, mas pessimamente implementado, não funciona, o dinheiro é mal aplicado, quando não é desviado. E há ainda um criminoso déficit em saneamento básico, que faz com que só metade da população tenha água e esgoto tratados, com efeito destruidor na saúde humana. Enquanto o governo federal aumenta os gastos com novas contratações e aumento de salários, o Senado tem centenas de funcionários fantasmas e cresce o repasse de verbas para ONGs suspeitas, os gastos com saúde estão limitados a 7,2% do PIB e não há um sistema eficaz de fiscalização que elimine a corrupção e impeça a ação de quadrilhas, como as dos vampiros e sanguessugas.

É isso, leitor, falta muito para tirar a Índia de nossas vidas.

Os Brics - Os números do IDH mostram que não basta crescimento econômico para fazer avançar o progresso social. É verdade que o crescimento gera empregos, expande e melhora a renda assalariada. Porém, países onde o analfabetismo e outros indicadores de pobreza ainda são marcas fortes precisam de políticas sociais, sobretudo na área da educação, para levar progresso à população marginalizada.

China e Índia têm em comum populações gigantes, com parcelas expressivas vivendo em péssimas condições (sem serviços públicos, sistema de saúde precário e enorme déficit previdenciário) e um crescimento econômico elevado e contínuo há mais de uma década. Mas, como é lenta a ação da expansão econômica na superação da pobreza, os indicadores sociais são muito baixos, o que leva a China a ocupar a 92ª posição e a Índia, o 132º lugar no ranking de países do Pnud. Enquanto Brasil e Rússia são classificados como nações de desenvolvimento elevado, China e Índia estão na lista de desenvolvimento médio.

A China vive uma situação de contraste inusitada no mundo. No mercado financeiro é vista como potência econômica com poder de desafiar os EUA. Dentro do país, potente ainda é a pobreza.

*Suely Caldas é jornalista e professora de Comunicação da PUC-Rio

Socorro, começou a campanha

Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


SÃO PAULO - Promete, ah como promete, a campanha eleitoral de 2010. A julgar pelo que estão dizendo os principais potenciais concorrentes, será de primeira classe.

De um lado temos Ciro Gomes, com sua habitual boca mole, dizendo que José Serra é mais feio na alma do que no rosto. Tem até alguma graça, mas com esforço, muito esforço, Ciro será capaz de dizer alguma coisa inteligente sobre os problemas da pátria, que, obviamente, não serão resolvidos com uma plástica n"alma de Serra.

Do outro lado, temos o PSDB dizendo que Ciro é "nanico de Dilma". Também é engraçado, mas, se Ciro crescer, o país fica melhor?

Aliás, não me parece que o tamanho de Ciro ou de Dilma, ou de quem quer que seja, esteja na lista dos problemas que puxaram o Brasil para o vexatório 75º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas.

Até porque, enquanto esteve no governo, o PSDB fez muito pouco para melhorar a classificação do pobre país tropical.

No meio desse tiroteio verbal de grande lucidez, coragem e inteligência, vem Dilma Rousseff, outra potencial candidata, para propor mais um PAC, desta vez para a Copa e para a Olimpíada. Beleza: o PAC original não conseguiu gastar nem a metade da verba prometida e à sua "mãe" não lhe ocorre mais do que mais do mesmo?

Não tem obra ou tem pouca obra?

Não importa. Chama um bom marqueteiro e tome PAC para cá, PAC para lá.

E olhe que nem apareceram, ainda, os nanicos de verdade, se é que é justo com eles chamá-los depreciativamente quando os "grandes" parecem tão pequenos.

Todos os envolvidos nesses episódios têm formação universitária.

Vai ver que é por isso que o país supostamente de primeira classe não consegue colocar uma só universidade, umazinha só, no ranking das 200 melhores do mundo.

A outra Olimpíada no Rio

Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Serra tem São Paulo, e Aécio, Minas. Candidatos e Estados, somados, têm uma força enorme. Mas o Rio tende para Dilma. Como Paris, o Rio é uma festa.

Considera-se a cidade mais maravilhosa do mundo, adora novidades e modismos, faz e desfaz carreiras políticas em ritmo meteórico.

Entra década, sai década, em São Paulo lá estavam ou estão, com suas qualidades e defeitos, Lula, FHC, Covas, Maluf, Marta, Serra, Alckmin. As exceções dos que ficaram pelo caminho confirmam a regra, como Pitta (aliás, carioca).

Já no Rio há um rastro de políticos que chegaram ao pico da onda e morreram na praia no dia seguinte: Brizola, Marcello Alencar, Moreira Franco, Miro Teixeira, Garotinho, Rosinha Matheus, Luiz Paulo Conde. Todos tiveram grandes votações. Todos minguaram, recolheram-se à Câmara ou a prefeituras do interior, como Rosinha.

A novidade no Rio é a Olimpíada, que, subjetivamente, torna o clima mais favorável a Lula-Dilma. E, objetivamente, eles podem ter quatro palanques no Rio em 2010.

O governador Sérgio Cabral, candidato à reeleição, foi do PSDB e é amigo pessoal de Serra, mas está no PMDB e tem bajulado o Planalto e sido bajulado por ele. Como o prefeito Eduardo Paes, que tem a mesma trajetória e também estava na festa de Copenhague com Lula.

Há ainda as pré-candidaturas do prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias (PT), de Garotinho (PR) e de Wagner Montes, deputado estadual e homem de comunicação, que é do PDT, partido disputado por todos os demais e cada vez mais pró-Lula, ops!, pró-Dilma.

Do outro lado, o PSDB não tem para onde correr nas praias cariocas depois que o PV de Fernando Gabeira passou a ter uma candidatura própria, a de Marina Silva. O DEM não está em forma para a corrida, e o jeito pode ser montar um palanque mambembe para o prefeito de Duque de Caxias, o tucano Zito. Chance zero de medalha e pódio.

Metódica descontinuidade

Rubens Ricupero
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

A crise fez do pecado de gastar uma virtude redentora; legitima arquivar a receita de Palocci para zerar o deficit

ISOLADA do resto do governo, a recente deriva da política externa não parece fazer muito sentido. Por que afagar o Irã e hostilizar a Colômbia? Por que tentar constranger Obama como réu em encontro da Unasul e armar o circo da embaixada em Honduras?

As fichas começam a cair quando se constata que, de oito meses para cá, o governo se empenha em sistemática afirmação de uma identidade própria. Ficaram para trás os incertos tempos do começo do primeiro mandato. Mesmo a contragosto, o presidente tinha então de resignar-se aos elogios ambíguos de que só acertava porque dava continuidade à obra do antecessor.

Forte agora de popularidade inabalável, inebriado pelo êxito contra a recessão e pelo aplauso internacional, Lula vê chegada a hora de imprimir à sua herança marca pessoal inconfundível. Se a privatização se tornou a ideia-força de Fernando Henrique Cardoso, o retorno do Estado e a criação de estatal para o pré-sal darão o tom do governo atual.

O pré-sal e a crise financeira fornecem as duas oportunidades para justificar a descontinuidade em relação ao período anterior. O primeiro permite revogar toda a política de concessões, leilões e reforma da Petrobras. De sobra, promete recursos para viabilizar o fator previdenciário, a consolidação dos programas sociais contra retrocessos, a redução da semana de trabalho.

A crise fez do pecado de gastar uma virtude redentora. Legitima arquivar em definitivo a receita vinda de Palocci e Delfim para aumentar o superavit primário até zerar o deficit nominal. A nova política econômica, que mercados financeiros e agências de risco confundem com a antiga, consiste no crescimento puxado pelas despesas do governo e pelo consumo de massa.

Até os leilões de rodovias federais, que serviram para projetar a candidata oficial, tornaram-se vítimas do temor da detestada privatização. As Parcerias Público-Privadas, de que se falou tanto, foram juntar-se ao Fome Zero, ao Primeiro Emprego, ao etanol talvez, no cemitério dos slogans abandonados. Os heróis do agronegócio terão de exercitar o heroísmo cumprindo os índices de produtividade desejados pelo MST.

Fiquemos por aqui. A cara definitiva da era Lula não é a dos amargos cortes da gestão Palocci. O presidente se sente bem mais à vontade banhado no suculento caldo de benesses que lhe assegure, como admite, um lugar ao lado de Vargas no panteão dos benfeitores.

Para isso, já reconstituiu a velha e provada aliança das massas urbanas com as chefias tradicionais, do PT-PTB com o PMDB-PSD. Afinal, basta deslocar umas poucas letras... Não se trata apenas do desejo de emancipação da tutela do passado governo, do anseio da glória própria.

Como preparar melhor a iminente campanha sucessória do que oferecendo ao eleitor a possibilidade de uma escolha nítida entre dois projetos de país? Se a oposição não quiser se associar ao do passado recente, terá de construir uma visão de futuro com apelo para neutralizar a formidável multidão dos pequenos e grandes que dependem não do setor produtivo privado, mas das transferências e rendas do Estado.

A diplomacia é um dos elementos que se encaixam nesse conjunto. Para quem acha que algumas dessas mudanças não fazem sentido, é bom lembrar a reação de Polônio ao desvario de Hamlet: embora seja loucura, existe nela boa dose de método.

Rubens Ricupero , 72, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco). Escreve quinzenalmente, aos domingos, nesta coluna.

Marx no tempo da dispersão

José Arthur Giannotti*
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO / ALIÁS

Autor vê nas teses do filósofo um sistema aberto: não foi por falta de tempo que O Capital ficou inacabado

Minha obsessão em estudar Marx como clássico sempre esteve ligada ao projeto de examinar suas teses em vista das aberturas teóricas e práticas que propiciam. Nunca as vi como um sistema fechado, até mesmo O Capital, sua obra máxima, atira em várias direções, e tenho fortes suspeitas de que não foi por falta de tempo que restou inacabada.

O próprio Marx se recusava a ser identificado como marxista. Suas teses valem antes de tudo para serem prosseguidas. É sintomático que, analisando os Grundrisse, Antonio Negri tenha escrito Marx Oltre Marx. Meu novo título, Marx - Além do Marxismo, obviamente inspirado neste último, tenta sublinhar que a base a ser negada é o marxismo cristalizado numa profissão de fé ou numa corrente de pensamento que não se deixa correr. Se a obra de Marx procura desvendar os meandros das estruturas capitalistas de produção, é seu próprio equipamento intelectual que precisa ser renovado, na medida em que o objeto de estudo explode em várias direções.

Meus críticos irão dizer que tento confinar o marxismo aos muros das universidades, que apenas sublinho o lado filosófico da obra de Marx, quando a tarefa, antes de compreender, é transformar o mundo combatendo o capital. O conhecimento não se integra numa práxis? Mas tanto o capital como o mundo explodiram em várias direções, de sorte que nem mesmo podemos falar deles se não levarmos em conta essa dispersão. Além do mais, como detectar o empuxo transformador quando, hoje em dia, o que se tomou como motor da história, o proletariado, não encontra a unidade do capital social total para se contrapor como classe unificada? Não é por isso que as lutas de classe de hoje se fazem por direitos, por conseguinte, repondo o Estado em vez de contestá-lo?

"Marxismo" e "socialismo" se tornaram palavras equívocas. Enquanto havia Estados e partidos que se diziam marxistas, a adesão a ambos tinha, ao menos, um sentido político razoavelmente determinado. Na medida, porém, em que a revolução desaparece do horizonte efetivo da política, que sentido pode ter se assumir como marxista ou socialista? Não somos todos social-democratas nos seus mais variados sentidos? Diante da obra de Marx, sobra apenas tentar pensá-la pela raiz, vale dizer, a partir dela, como somos obrigados a fazer quando procuramos entender Aristóteles ou Kant, ou até mesmo Wittgenstein. Quando alguém ainda se identifica como marxista ou socialista, sem explicar o sentido dessa invocação, logo desconfio que está querendo fazer política sem sujar as mãos no seu jogo efetivo, muitas vezes contentando-se em votar num candidato cuja irrelevância parece ser compensada pela vácua sonoridade de seu discurso.

A crise econômica atual recoloca o problema do automatismo do capital e das contradições do sistema capitalista de produção. Depois de uma longa hegemonia do pensamento liberal, volta-se a falar em Keynes, e Marx passa a ser olhado sob novas perspectivas. Não é significativo que este opúsculo venha a ser reeditado neste momento? Essa crise atualiza certos conceitos marxistas, em particular aquele de um modo de produção cuja reposição passa por crises específicas. Não sei como as ciências sociais contemporâneas lidarão com esse tópico. Mas não vejo como escapar desse conceito de modo de produção, a não ser deixando de lado a específica historicidade de nosso modo de se repor em sociedade. Não é o próprio conceito de história que precisa ser considerado, nos seus dois vetores, história categorial, de um lado, a história do vir a ser, de outro. Esta me parece a primeira grande contribuição de Marx para o pensamento social.

O sistema capitalista se mostrou muito mais lábil do que se imaginava. Por certo essa maleabilidade não apagou suas contradições, continua sendo um extraordinário processo de criação de riqueza e de miséria, mas desapareceu de cena aquele vetor da história, o proletariado, que poderia contestá-lo pela raiz. Além do mais, as experiências do socialismo real mostraram a impossibilidade de uma produção da riqueza social sem as informações produzidas pelo mercado. Para Marx, dado o mercado, ele naturalmente se desdobraria no sistema do capital. Nosso desafio é impedir essa continuidade, por conseguinte, dar liberdade suficiente para que os agentes marquem os preços de seus produtos, sem que sejam levados pelo automatismo de um sistema produtivo, que se transforma num robô visando produzir e acumular riquezas em vista da simples acumulação.

Diante da tarefa de conciliar dois processos contraditórios, uma economia de mercado e uma política que se legitime na medida em que impeça a alienação desses mesmos mercados, pouco vale lamentar-se diante da miséria criada pela exploração capitalista. Mas qual seria a prática adequada para lidar com esses processos contraditórios? Creio que, nessa explosão dos mercados e na necessidade de repô-los num patamar mais humano e racional, no fundo se percebe a urgência de uma política capaz de se controlar a si mesma, em resumo, uma política democrática.

Se a questão é política, então façamos política. Mas eficaz, que tome como ponto de partida as condições dos sistemas políticos atuais, e examinemos teórica e praticamente suas possibilidades de mudança. Foram desmoralizados os arautos do novo homem, ou políticos que imaginavam suprimir o Estado à medida que o reforçavam. Marx desconfiava da democracia formal e, depois da Comuna de Paris, acreditou que uma ditadura do proletariado seria mais democrática do que ela. Mas esse conceito de ditadura serviu para justificar o lema "Todo poder aos sovietes", e hoje sabemos o golpe que ele significou na democracia russa.

Não me parece mais adequado pensar numa política que desemboque numa negação política, a partir da qual uma nova história teria início. Desconfio dos profetas do "novo homem" ou dos Zaratustras da vida. Aceito a política como ela é, mas sempre procurando seu dever ser. Por conseguinte, política democrática, sempre inacabada, precisando começar de novo.

Sob esse ângulo privilegio os textos de Marx que mostram como ações humanas terminam tendo consequências imprevistas e até mesmo indesejadas por elas enquanto atos individualizados. Sob esse aspecto, interessa-me particularmente o conceito hegeliano de alienação, mas torcido de tal forma que escape dos perigos do idealismo absoluto. Daí a necessidade de ler esses textos com lupa fina, cuidando de detectar as torções por que passam os conceitos quando tratam de configurar uma nova forma de práxis dialética. Por isso, depois de minha introdução, achamos conveniente apresentar alguns textos do próprio Marx, mas traduzidos de tal forma que pelo menos deixam transparecer essas torções conceituais. É o que procura fazer a tradução de Luciano Codato. Tarefa difícil, a ser retomada pelos leitores, porque o próprio Marx, numa carta ao tradutor d"O Capital para o francês, aconselha que deixe de lado essas nuances, pois os franceses não são dados a elas. Espero que os leitores de língua portuguesa compreendam a importância filosófica dessas torções.

*Professor emérito de filosofia da USP e pesquisador do Cebrap. É autor, entre outros, de Trabalho e Reflexão e Origens da Dialética do Trabalho. Este texto é o prefácio à segunda edição do livro Marx - Vida e Obra, agora renomeado Marx - Além do Marxismo (L&PM Pocket)