segunda-feira, 30 de outubro de 2017

A traição original- Editorial: O Estado de S. Paulo

Uma característica bastante lembrada do sr. Lula da Silva - que muitos ingênuos chegam a considerar um “talento político” do ex-presidente - é a desfaçatez com que ele procura se desvencilhar de membros de seu mais íntimo círculo relacional sempre que, por imposição das circunstâncias, eles venham a representar um embaraço às suas pretensões de poder, estas postas sempre à frente de quaisquer laços que venham a ser estabelecidos com o ex-presidente, sejam pessoais ou políticos.

O caso mais recente desse esquecimento seletivo de Lula envolve a presidente cassada Dilma Rousseff, alguém que simplesmente não existiria na vida político-eleitoral não fosse a ação direta de seu inventor.

Diante do desastre que foi a passagem de Dilma Rousseff pelo Palácio do Planalto, cuja irresponsabilidade no trato das contas públicas, a frouxidão no combate à inflação, a profunda recessão econômica e o desemprego representam um legado indefensável até mesmo para os padrões do Partido dos Trabalhadores (PT), a presidente cassada vem sendo sistematicamente tratada como um estorvo pelo chefão e pelo partido que com ele se confunde.

Em recente entrevista ao jornal espanhol El Mundo, Lula da Silva disse que os eleitores de Dilma Rousseff “sentiram-se traídos” em virtude da agenda econômica adotada por ela após a vitória na eleição presidencial de 2014, agenda esta diametralmente oposta ao discurso da candidata durante aquela campanha.

Blusa fátua: Maiakóvski

Costurarei calças pretas
com o veludo da minha garganta
e uma blusa amarela com três metros de poente.
Pela Niévski do mundo, como criança grande,
andarei, donjuan, com ar de dândi.

Que a terra gema em sua mole indolência:
“Não viole o verde de as minhas primaveras!”
Mostrando os dentes, rirei ao sol com insolência:
“No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!”

Não sei se é porque o céu é azul celeste
e a terra, amante, me estende as mãos ardentes
que eu faço versos alegres como marionetes
e afiados e precisos como palitar dentes!

Fêmeas, gamadas em minha carne, e esta
garota que me olha com amor de gêmea,
cubram-me de sorrisos, que eu, poeta,
com flores os bordarei na blusa cor de gema!

(Tradução: Augusto de Campos)

Zubin Mehta with Khatia Buniatishvili - Schumann: Piano Concerto in A Minor, Op. 54

domingo, 29 de outubro de 2017

Opinião do dia: Hannah Arendt

“Quando, à luz do perigo que os acontecimentos expuseram a humanidade, nos perguntamos se a política ainda tem algum significado, estamos também levantando - em termos vagos e sem levar em conta seus vários possíveis significados – várias outras questões. As perguntas que acompanham a pergunta que foi o nosso ponto de partida são: primeiro, terá a política afinal algum propósito, algum fim? E esta pergunta significa: os fins que a ação política podem buscar valem os meios que, sob certas circunstâncias precisam ser empregados para alcança-los? Segundo, existirão, dentro da esfera política, objetivos pelos quais podemos nos orientar com segurança? Se sim, não serão seus parâmetros totalmente ineficazes e, portanto, utópicos? Será que todo empreendimento político, uma vez colocado em movimento, não deixa de se importar com objetivos e parâmetros e passa a seguir o curso que lhe é inerente, não podendo ser detido por nada for dele? Terceiro, não será característico da ação política, pelo menos em nossa época, ser destituída de qualquer princípios, de modo que, em vez de brotar das muitas fontes possíveis da comunidade humana e se alimentar dessas profundidades, ela se aferra oportunisticamente à superfície dos acontecimentos cotidianos e se deixa jogar em várias direções, de modo que o que se alardeia hoje sempre contradiz diretamente o que aconteceu na véspera? Não terá a ação chegado ao absurdo e enterrado os princípios, ou fontes, que um dia talvez a tenham colocado em movimento? “

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Hannah Arendt (1906-1975), ‘A promessa da política’, p.260, Difel, 2008.

O filho de Cesar Maia: Eliane Cantanhêde

- O Estado de S. Paulo

Temer desce, Rodrigo Maia sobe. Cresceu, encorpou e está cheio de minhocas na cabeça

Michel Temer foi o grande vencedor na votação das duas denúncias de Rodrigo Janot, certo? Nem tanto, porque Temer vem encolhendo a cada pesquisa, a cada delação e a cada ginástica para salvar o pescoço na Câmara. E, quanto mais ele encolhe, mais Rodrigo Maia infla.
Derrotada a segunda denúncia na Câmara, quem ocupou os espaços na mídia não foi Temer, foi Maia. Isso diz muito. Diz, por exemplo, que Temer venceu, mas está em contagem regressiva para virar passado, enquanto Maia afirma-se no presente e se lança para o futuro.

Há uma fatalidade histórica nessa balança entre Temer e Maia: presidentes fracos, Congresso forte. Foi assim com Sarney e Ulysses o tempo todo, com Fernando Henrique e Antônio Carlos Magalhães em alguns momentos e com Dilma e Eduardo Cunha, principalmente no fim da era PT.

Como o próprio Maia repete, por mais fraco que seja, um presidente sempre é forte, porque tem os “instrumentos” – a caneta, por exemplo. Mas, se a principal meta de Temer é a reforma da Previdência, ele só tem alguma chance se Maia usar seus próprios “instrumentos”.

É Maia quem define a pauta, “esquece” ou não pedidos de impeachment, articula com os líderes, conhece cada deputado, sabe ler (e, quando necessário, manipular) o regimento. Temer tem o pão e quer fazer um sanduíche, mas é Maia quem está com a faca e o queijo na mão.

O tempo na política: Vera Magalhães

- O Estado de S. Paulo

Ele não é linear e, se não é usado com sabedoria, pode ser fatal para reputações e pretensões

Michel Temer ganhou tempo. É provável que a decisão apertada da Câmara pelo arquivamento da segunda denúncia de Rodrigo Janot tenha lhe garantido a conclusão do mandato, em dezembro de 2018. Mas esse tempo é suficiente para que o vice que ascendeu ao poder após a queda de Dilma Rousseff deixe algum legado capaz de apagar a impopularidade recorde e o “feito" de ter sido o primeiro e único presidente denunciado por crimes supostamente ocorridos no exercício do mandato? Difícil.

Um ano é pouco para pôr em marcha uma agenda legislativa ambiciosa e uma administração eficiente e inovadora. Por outro lado, pode ser uma eternidade para alguém que terá de monitorar o humor de aliados de toda uma vida que estão presos e podem resolver falar.

O tempo na política não é linear, e, se não é usado com sabedoria, pode ser fatal para reputações, mandatos e pretensões eleitorais. Temer não é o único político a ter a ampulheta como ameaça. Basta ver o exemplo de Aécio Neves. Saiu fortalecido das urnas em 2014, com mais de 49 milhões de votos, disposto a levar a cabo uma ação para cassar Dilma Rousseff e credenciado para liderar a oposição.

Nas mãos do TRF-4: Merval Pereira

- O Globo

As decisões do Tribunal Federal de Recursos da 4ª Região chamam a atenção pelo rigor que sua 8ª Turma utiliza na reavaliação das condenações em primeira instância dos casos da Operação Lava-Jato, mas também dão margem a esperanças por terem absolvido, em duas ocasiões, o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, depois de condenado pelo juiz Sérgio Moro.

O ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha teria recuado de sua disposição de fazer uma delação premiada por, entre outras coisas, ter esperança de que o TRF-4 de Porto Alegre o absolva. Está nas mãos também dos três juízes da 8ª Turma — os desembargadores João Pedro Gebran Neto, Leandro Paulsen e Victor Laus — a candidatura de Lula à presidência da República em 2018.

Condenado em segunda instância, o ex-presidente ficaria inelegível pela Lei da Ficha Limpa, mas haverá uma ampla batalha judicial para tentar mantê-lo na disputa. Como já ressaltei aqui mesmo na coluna, além de não ser automática, dependendo da decisão do colegiado, segundo o Superior Tribunal de Justiça, a condenação de segunda instância, se não for por unanimidade, não se encerra antes que embargos sejam julgados.

O direito ao delírio: Fernando Gabeira

- O Globo

Nos últimos anos de vida política em Brasília, disse a amigos que queria incluir uma nova bandeira entre as lutas cotidianas: o direito ao delírio. Sabiam que a palavra delírio não designava alteração da consciência, produzida por drogas. Ainda assim, não entendiam bem. Minha referência eram as alucinações que épocas, partidos, grupos e indivíduos cultivam sobre si próprios e, na maioria dos casos, são dissipadas pelo curso dos fatos.

Agora, posso voltar ao tema e avançar um pouco na explicação sucinta daquele momento. Pressinto que o próprio país caminha, depois de tantos embates, para uma fase que chamo de pós ideológica, consciente da precariedade do termo.

As duas correntes que as pesquisas indicam como as preferidas, no momento, são as que travam um debate ideológico. Minha própria ideia de que se caminha para uma fase pós ideológica também é uma dessas ilusões que precisam ser testadas na prática. O problema não é ter ilusões, mas sim buscar a maior proximidade com os fatos. Tanto o marxismo, de certa forma herdeiro do iluminismo, como os liberais conservadores partem do que pode ser um erro fundamental.

Não me interessam aqui as explosões radicais, as brigas cotidianas em si próprias. Mas sim o nobre fundamento sobre a qual estão apoiados os contendores. Ambos os lados procuram, através do diálogo e dos confrontos, um consenso sobre a melhor maneira de viver bem. Nesse sentido, perseguem uma ilusão inalcançável. Nas sociedades complexas e diversificadas, o consenso não existe, nem está no horizonte. No seu lugar, é preciso introduzir a ideia de convivência pacífica, o que alguns autores chamam também de modus vivendi.

Supremo constrangimento: Bernardo Mello Franco

- Folha de S. Paulo

O barraco que parou o Supremo Tribunal Federal na quinta-feira não foi um incidente isolado. O ministro Luís Roberto Barroso apenas expôs em público o que outros juízes da corte já diziam em privado. O incômodo com as práticas de Gilmar Mendes chegou ao limite.

O copo transbordou quando Gilmar abandonou o tema em julgamento para ironizar uma decisão de Barroso em outro processo. Deu-se o seguinte bate-boca: "Não sei para que hoje o Rio de Janeiro é modelo". "Vossa Excelência deve achar que é Mato Grosso, onde está todo mundo preso". "E no Rio, não estão?". "Nós prendemos. Tem gente que solta".

Irritado com a lembrança, Gilmar acusou o colega de ter soltado o ex-ministro José Dirceu, que ele próprio libertou há seis meses. Barroso perdeu a paciência e reagiu. Sem quebrar o protocolo, chamou Gilmar de mentiroso ("Vossa excelência normalmente não trabalha com a verdade"), parcial ("Vai mudando a jurisprudência de acordo com o réu") e defensor de corruptos ("Não transfira a parceria que vossa excelência tem com a leniência em relação à criminalidade do colarinho branco").

Tempos de histeria: Hélio Schwartsman

- Folha de S. Paulo

Vivemos tempos histéricos. Não que isso seja o fim dos tempos. A democracia liberal permite aos cidadãos serem tão hiperbólicos quanto desejarem.

Apesar de o exagero ser permitido, não creio que seja bom conselheiro. Ao contrário, penso que uma análise equilibrada dos fatos é o ponto de partida necessário para decisões sábias. Assim, hesito entre a frustração e o divertimento (não podemos perder o bom humor) ao ver gente protestando contra a "pedofilia em museus, a "ração humana para pobres ou a "revogação da Lei Áurea.

O Congresso andou endurecendo as leis de crimes sexuais, mas, até onde sei, levar filhos a uma exposição que mostre nus ainda é uma atitude legal, assegurada pelo princípio da liberdade de expressão e pelas normas que dão à família o direito de educar rebentos segundo seus próprios valores, não os do MBL.

Mentiras convenientes: Míriam Leitão

- O Globo

Na era da pós-verdade, é bom o retorno a algumas realidades: a ex-presidente Dilma provocou surto inflacionário, recessão e desrespeitou as leis fiscais. Mereceu o impeachment que sofreu. Seu vice foi escolhido por quem formou a chapa e votou nela. Dilma e Temer são frutos da mesma escolha partidária e eleitoral. Criticar um não é apoiar o outro, e vice-versa.

O ex-presidente Lula, que escolheu Dilma sem ouvir o partido, usando seu poder majestático, diz agora que o povo se sentiu traído quando ela fez o ajuste fiscal e quando aprovou as desonerações para as empresas. Está querendo se descolar da ex-presidente, que deixou o governo com baixo nível de popularidade. Como a aprovação do presidente Temer é ainda mais baixa, muita gente esqueceu que ela chegou a ter apenas 10% de ótimo e bom.

Lula conhece esses números e estava esperando um bom momento e lugar para fazer essa separação de corpos entre ele e a sua sucessora. Escolheu um jornal estrangeiro, para ter menos contestações às suas invenções. Escolheu criticar dois pontos que acha que são antipáticos: o ajuste fiscal e a transferência de dinheiro para empresários. Ajuste, como as dietas, ninguém gosta de fazer. É apenas necessário quando há um descontrole como o criado pela Dilma. Ela recebeu o país com 3,5% do PIB de superávit primário, entregou com 2,4% de déficit e colocou a dívida pública numa rampa na qual ela continua subindo.

Dois importantes pronunciamentos: Bolívar Lamounier*

- O Estado de S.Paulo

O do primeiro-ministro chinês Xi Jinping e o do deputado federal brasileiro Tiririca

Na semana passada e na anterior tivemos dois importantes pronunciamentos: o de Xi Jinping, primeiro-ministro chinês, e o de Tiririca, deputado federal brasileiro. A importância do primeiro decorreu mais do peso econômico e político da China no mundo que de seu conteúdo. Afirmo isso porque a substância do pronunciamento é bem conhecida.

Em sua fala de três horas e meia, o mandatário chinês reafirmou que a China é hoje uma superpotência econômica e política e fadada a um importante protagonismo no cenário mundial. E não precisou bater no peito para indicar que ele, como líder do Partido Comunista, está próximo de atingir uma estatura política comparável à de Mao Tsé-tung e Deng Xiaoping.

Mantidas as devidas proporções, Tiririca também disse uma coisa relevantíssima, embora desconhecida da maioria dos brasileiros. Anunciando que não pretende se recandidatar no ano que vem, ele afirmou: “Vim para cá pensando em aprovar projetos, mas a coisa aqui é muito complicada”. Para bom entendedor, pingo é letra.

A hora da social-democracia: José Roberto Mendonça de Barros *

- O Estado de S.Paulo

Do ponto de vista político, será essencial a eleição de um candidato reformista

Martin Wolf, o mais importante colunista econômico do mundo, analisando um possível governo trabalhista inglês, liderado por Jeremy Corbyn, nos lembrou recentemente que o socialismo não é exatamente uma ideia nova. Ele já foi experimentado mais de uma vez em três variedades: autocracia, populismo e social-democracia. O socialismo autocrático foi o da União Soviética e de Mao Zedong. Mostrou-se uma catástrofe. A social-democracia dos países nórdicos ou da Holanda, em contraste, tem sido um triunfo. Esses países estão entre as sociedades mais bem-sucedidas do planeta: ricas, dinâmicas e estáveis. Finalmente, o populismo socialista, tão característico da América Latina, nunca funcionou economicamente.

Por que a social-democracia europeia tem sido um sucesso?, pergunta Wolf. A resposta é que ela entende as restrições fundamentais para desenhar um programa que dê certo, especialmente para quem acredita em um governo ativo. Antes de tudo, é preciso aceitar que os recursos são finitos e que existem restrições orçamentárias ao gasto público a serem respeitadas. Em segundo lugar, o papel central do crescimento está no desempenho do setor privado, tanto na liderança da economia quanto no investimento e na introdução do progresso tecnológico. Por isso, são decisivos incentivos adequados, respeito às leis e estabilidade institucional. Como resultado, as coisas funcionam não porque o governo comanda, mas porque o governo motiva.

O futuro em São Paulo: Geraldo Alckmin

- Folha de S. Paulo

Em relatório recente sobre mudança tecnológica e emprego, o Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês) cita a estimativa de que 65% das crianças que ingressam hoje na escola vão trabalhar, no futuro, em profissões que ainda não existem.

Vivemos o tempo da mudança e da velocidade da mudança, e os estudiosos já têm nome para ele: Quarta Revolução Industrial. Ela funde métodos de produção com as tecnologias de informação e conecta os domínios físicos, digitais e biológicos. Cria, assim, interação direta entre pessoas, equipamentos, sistemas e produtos.

Para tratar dos impactos dessa revolução inédita em profundidade e amplitude, o Fórum Econômico Mundial escolheu o Estado de São Paulo para sediar sua 13ª edição latino-americana, que acontecerá na capital paulista nos dias 13, 14 e 15 de março de 2018.

Em janeiro, em preparação para o evento, eu irei a Davos para a reunião anual de líderes que tratam de temas de interesse global, em especial os econômicos.

A escolha do WEF é motivo de orgulho para nós. Síntese das potencialidades do Brasil, o Estado de São Paulo é o maior centro econômico e industrial do continente e tem também o maior parque tecnológico, algumas das melhores universidades da América Latina e institutos de pesquisa reconhecidos por contribuições científicas nas mais diversas áreas de conhecimento.

Aqui, temas como inteligência artificial, internet das coisas, robótica, nanotecnologia, engenharia genética, veículos autônomos, aplicações das impressoras 3D e muitos outros que já se anunciam como realidade serão apresentados e discutidos pela comunidade científica, líderes políticos e representantes de organizações internacionais.

Não é o que parece: Luiz Carlos Azedo

- Correio Braziliense

O presidente Temer comemora a rejeição da segunda denúncia de Janot, mas quem emerge com uma “sombra de futuro” para além de 2018 é o presidente da Câmara, Rodrigo Maia

Um dos erros mais crassos na política brasileira é confundir a força do governo — qualquer governo, inclusive o pior deles — com o poder pessoal do governante ou do partido. O governo será sempre a forma mais concentrada de poder, como ensinou Norberto Bobbio, porque arrecada, normatiza e coage, mesmo quando nada mais funciona a contento numa administração. Isso cria uma ilusão, uma espécie de autoengano, que muitas vezes acaba numa grande derrocada, como aconteceu com a ex-presidente Dilma Rousseff, ou leva ao progressivo enfraquecimento, até que o governante perca qualquer capacidade de influir na própria sucessão, o caso do ex-presidente José Sarney.

Esse força é exacerbada pelas características do Estado brasileiro, que se antecipou à nação, e os laços tecidos com as oligarquias e corporações em razão de nosso velho iberismo. A elite brasileira é dura na queda quando está unida, mesmo que contra ela se oponha a maioria do povo. Historicamente, sempre foi pelo alto que se deu a modernização. O grande problema é que o moderno na economia manteve a exclusão social e as desigualdades regionais, embora a sua força avassaladora se impusesse sempre que um ciclo econômico se encerrava para dar lugar a outro, esgotado um determinado modelo. Em todos esses momentos, houve forte conexão com os fluxos da economia mundial, agora ainda mais acentuada pela globalização.

Mudar as regras do jogo: Cacá Diegues

- O Globo

Tenho torcido para que as eleições de outubro de 2018, daqui a menos de um ano, representem uma refundação do país, com novas ideias, políticas e pessoas públicas, com novos projetos capazes de reinaugurar o Brasil. Mas, pelo jeito, está difícil. Ainda não vi um só movimento nessa direção.

Do ponto de vista dos atores do drama, ainda não ouvimos falar de um só nome que não esteja comprometido, de algum modo, com o passado perverso da vida pública nacional. Ninguém representa alguma coisa que já não esteve ou ainda está instalada nos palácios de Brasília. Até agora, ninguém teve coragem de dizer que não quer nada disso que está aí, seja do governo ou da oposição.

Aquilo que se considera de direita, que sempre foi raivosa e sem charme, se organiza defendendo uma economia liberal, sob controle de política autoritária. A esquerda, cada vez menos charmosa e mais raivosa, defende uma economia sob o controle do Estado, com uma política liberal para os museus de todo o país. E tome porrada de um lado e de outro, sem um minuto sequer de reflexão sobre o que está se tornando o mundo de hoje.

Ao lado de Alckmin e Doria, Roberto Freire convoca “frente democrática” para 2018

- Fábio Matos/Assessoria do Parlamentar/ Portal do PPS

Em um auditório completamente lotado que contou com significativa participação da militância de todo o estado, o PPS de São Paulo realizou neste sábado (28) o seu Congresso Estadual. Durante o encontro, realizado na capital paulista, o deputado federal Roberto Freire (SP), presidente nacional do partido, defendeu a unidade de todas as “forças democráticas” para as eleições de 2018.

O evento também contou com as presenças do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e do prefeito João Doria (PSDB), que saudaram os militantes, vereadores, prefeitos e as demais lideranças do PPS. Ambos também corroboraram a necessidade de união do campo democrático para que seja evitada uma polarização entre os extremos do espectro político, sobretudo na disputa presidencial do ano que vem.

“Temos de buscar a unidade de todos aqueles que conosco concordam que o Brasil precisa mudar. E não seremos nós, isolados, que faremos o país mudar”, disse Freire. “Precisamos enfrentar esse atraso e os extremos, seja à direita ou à esquerda, ambos descompromissados com o processo democrático. 

Não são movimentos que integram e unificam o Brasil. Precisamos construir uma frente democrática, que também pode ser chamada de centro democrático ou qualquer outra denominação, que reúna todos aqueles que lutaram pela liberdade e foram vitoriosos, pelo bem e pelo futuro do Brasil”, prosseguiu o parlamentar.

Durante o seu pronunciamento, o presidente do PPS comparou o momento atual a outras situações vivenciadas pelo partido no passado. “Lá atrás, já percebíamos que a luta tinha que ser com outras vertentes para integrar um maior número de pessoas e não nos isolarmos”, afirmou. “Naquele momento, também era uma hora em que tínhamos de enfrentar uma nova realidade. Estamos hoje vivendo um momento como esse.”

Maia quer se aliar a PSDB para isolar Temer em 2018

Marina Dias, Bruno Boghossian / Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Somente quatro convidados ocupavam a sala de estar da residência oficial de Rodrigo Maia (DEM) momentos antes da votação que selaria o destino político de Michel Temer na quarta-feira (25).

Ao contrário do habitual séquito que costuma desfrutar de café da manhã, almoço e jantar à sua mesa, o presidente da Câmara dos Deputados limitou sua audiência a um marqueteiro, um consultor e só dois deputados, ambos do PSDB.

Conversavam com desenvoltura sobre o projeto que hoje mais interessa à classe política: as eleições de 2018.

Antes de abrir a sessão que sepultaria a segunda denúncia contra o presidente –por obstrução da Justiça e organização criminosa–, Maia conversou com os deputados Jutahy Júnior (PSDB-BA) e Carlos Sampaio (PSDB-SP), os dois contrários a Temer, e, por mais de uma hora, discutiu uma possível aliança para o próximo ano entre seu partido, o DEM, e o PSDB.

A avaliação ali foi consensual: com baixíssima popularidade e denunciado duas vezes pela Procuradoria-Geral da República, Temer se tornou "radioativo" na disputa de 2018 e, assim, o PMDB não estaria apto a compor um possível arco com tucanos e democratas.

Presidente da Câmara, Rodrigo Maia diz que pedidos de impedimento de Temer serão arquivados

Igor Gadelha, Daiene Cardoso, Isadora Peron / O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou em entrevista ao Estadão/Broadcast que vai rejeitar todos os 25 pedidos de impeachment contra o presidente Michel Temer que estão parados em sua gaveta. Segundo a sua argumentação, após ter sido leal a Temer nas duas denúncias, não faz sentido agora atuar contra o governo. Maia também disse que o presidente tem que "agradecer muito" o fato de ele não ter agido para derrubá-lo do Palácio do Planalto.

Como fica a sua relação com o Palácio do Planalto no pós-denúncia?

Minha origem na Presidência da Câmara foi independente e o Michel tem de agradecer muito de eu ter sido eleito e não ter feito o que eu podia ter feito. Eu poderia, na minha primeira legislatura, ter trabalhado dizendo o tempo todo que o governo não me ajudou, porque ele só apoiou a minha candidatura nas últimas 24 horas. Mas eu abracei a agenda do governo porque eu acredito na agenda da equipe econômica. Não foi uma questão de “eu sou governo”. Agora, eu não misturo as coisas: o presidente da República e o presidente da Câmara têm uma relação institucional muito boa e essa relação se mantém boa. Mas, o que eu estou dizendo, como presidente da Câmara, é que a relação não será uma relação amanhã igual a que foi antes das duas denúncias se o governo não reorganizar a base.

E como faz para reorganizar a base?

Tem vários caminhos para resolver. O que você não pode é achar que o resultado da denúncia gerou uma base de 250 votos. Ter base é ter base que confia no governo, na agenda do governo, mesmo quando vem uma pauta árida para a Câmara. Acho que numa pauta árida, o governo hoje não tem maioria.

Desaprovação a políticos para de crescer

Segundo pesquisa mensal do instituto Ipsos, após ápice, taxas de reprovação de agentes públicos ofreram redução ou oscilaram negativamente

Daniel Bramatti / O Estado de S.Paulo

A onda de rechaço aos políticos começa a dar sinais de refluxo, depois de atingir o ápice nos últimos meses. Entre setembro e outubro, as taxas de desaprovação de quase todos os prováveis candidatos a presidente caíram ou oscilaram para baixo, segundo o Barômetro Político, pesquisa mensal realizada pelo instituto Ipsos.

Em alguns casos, a redução da desaprovação foi significativa, como nas taxas de Geraldo Alckmin (PSDB) e Marina Silva (Rede). Em outros, a diminuição se deu dentro da margem de erro. A desaprovação de todos continua alta, mas retrocedeu para níveis detectados em levantamentos anteriores.

Danilo Cersosimo, diretor do Ipsos, ressalta que só as próximas pesquisas indicarão se de fato há uma mudança de tendência ou se este é um resultado pontual. Mas ele tem uma hipótese a testar: a de que esse refluxo na rejeição aos políticos está relacionado à percepção de que serão mesmo esses os nomes na disputa presidencial de 2018.

“Nos últimos anos, as pessoas demonstravam não querer (como candidato) ninguém do mundo político, estavam esperando um messias”, afirma Cersosimo. “Mas não surgiu o salvador da pátria.” O resultado, segundo o diretor do Ipsos, é que o sentimento de indignação começa a ser substituído pelo de resignação.

De olho em 2018, Alckmin tenta desfazer imagem de político 'frio'

- Folha de S. Paulo

A equipe de comunicação do governador Geraldo Alckmin (PSDB) reconhece internamente que um dos maiores problemas de marketing do tucano, senão o principal, é a imagem de político "frio" e "distante das pessoas".

Em conversas privadas, assessores elaboram estratégias para torná-lo um líder mais próximo do povo, com mensagens acessíveis e sem empolamento. Um auxiliar usou a gíria "tamo junto" para definir a linguagem ideal.

O tucano trabalha para viabilizar sua candidatura à Presidência no ano que vem.

Seus auxiliares propõem explorar em peças publicitárias do governo a gestão econômica do Estado como comprovação de sua capacidade para administrar o Brasil.

Acham necessário, no entanto, reforçar a ideia de que São Paulo não quer se isolar do resto do país com sua potência econômica nem se coloca como superior a outras regiões menos desenvolvidas.

Ao contrário, dizem os assessores, é preciso enfatizar a miscigenação presente no Estado, com a presença de pessoas e características de todas as regiões do país.

Se quer fazer populismo, não seja juiz, diz Alexandre de Moraes

Daniela Lima, Letícia Casado / Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - "A imprensa quer, o povo quer e o Legislativo pede que o Supremo decida tudo. Mas isso é perigoso. Qualquer juiz que vota pensando em popularidade é um perigo."

A avaliação é do ministro Alexandre de Moraes, do STF. Há sete meses na corte, ele critica o que chama de extravagâncias da Justiça, diz que o Congresso se enfraquece ao despachar seus conflitos internos para o tribunal e defende "autocontenção".

Moraes falou com a Folha na manhã de quinta-feira (26), em seu gabinete –antes do bate-boca entre os colegas de corte Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso, no mesmo dia.

Para ele, delação só deve perder o sigilo após o recebimento da denúncia. "Se o delator mente", explica, "a vida do delatado já acabou".

Folha - Muito se fala hoje sobre a proeminência do Judiciário. Há uma hipertrofia?

Alexandre de Moraes - No momento, sim. Da Justiça, das carreiras jurídicas. O grande responsável pela redemocratização foi o Legislativo. Depois, houve um desgaste grande. Há alguns anos, o Executivo entrou em crise. Não há vácuo de poder. O STF passou a ter atuação mais positiva.

E isso é bom?

Não. Bom é o equilíbrio entre os Poderes. Com a eleição em 2018 e a posse em 2019, tende a voltar ao equilíbrio. Até lá, haverá superexposição do Judiciário. E não é só culpa nossa. Tudo o Legislativo traz para cá. Se o Congresso delega ao Judiciário questões políticas, o Judiciário vai discutir. E pior do que a judicialização da política é a politização da Justiça. A reforma mais importante para o país é a política.

A responsabilidade do voto – Editorial: O Estado de S. Paulo

No Fórum Mãos Limpas & Lava Jato, promovido pelo Estado em parceria com o Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP), Gherardo Colombo, juiz aposentado italiano que participou das investigações da Operação Mãos Limpas, fez um alerta. “Hoje a corrupção na Itália é a mesma do que quando começou a Mãos Limpas”, disse Colombo. Explicitava, assim, a constatação de que uma megaoperação judicial, que durou 13 anos e investigou cerca de 4 mil pessoas, não foi suficiente para diminuir a corrupção em seu país.

A análise de Colombo não representa um atestado de inutilidade da Mãos Limpas, até mesmo porque, se a operação não tivesse existido, talvez a corrupção estivesse hoje num estágio bem pior do que o verificado no início dos anos 90, quando a Mãos Limpas começou. O que a experiência italiana revela de forma cristalina é a incapacidade de a Justiça, sozinha, pôr fim a esse mal que tanto prejudica o desenvolvimento econômico e social de um país. Ainda que seja intenso e duradouro, o esforço para perseguir e punir judicialmente os políticos corruptos não é suficiente para eliminar a corrupção da política e muito menos da vida nacional.

Lições ainda não aprendidas da Revolução Russa – Editorial: O Globo

Apesar do fracasso do movimento que tomou o poder em 1917, a alma autoritária do bolchevismo ainda encanta políticos brasileiros ditos de esquerda

A força da efeméride do centenário da Revolução Russa, neste mês de outubro, inundou os meios de comunicação no mundo de reportagens e análises. De forma merecida. A ruptura de séculos da monarquia czarista, no decorrer de 1917, retirou a Rússia de uma longa hibernação e a tornou um símbolo da promessa de um novo tempo em que haveria justiça e igualdade social.

Não deu certo, mas, mesmo como eixo de um império, o soviético, mantido sob a força das armas, a Rússia, polo aglutinador da União Soviética, e o comunismo continuaram a ser referência para forças políticas no Ocidente, não apenas partidos comunistas. O aceno da igualdade tornou-se mais forte que os anseios milenares de liberdade.

Sinais de arbítrio – Editorial: Folha de S. Paulo

Conforme se desenvolve, o processo de combate à corrupção no Brasil vai acumulando seus paradoxos e contradições.

De um lado, notam-se claros sinais de um arrefecimento dos espíritos –o que permitiu a figuras como o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e o próprio presidente da República sobreviverem a um conjunto de suspeitas e evidências que, em outro momento, teria motivado um cataclismo em suas bases de sustentação parlamentar.

Num movimento simétrico e inverso, verificam-se sintomas de arbítrio e exagero persecutório por parte de algumas autoridades, não por acaso algumas das mais cortejadas pela opinião pública.

Já condenado por três vezes, em processos que envolvem corrupção e lavagem de dinheiro, o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB-RJ) não teve até agora, certamente, sucesso nas tentativas de se dizer vítima inocente de um complô de autoridades mal-intencionadas.

Essa tradicional elaboração retórica seria especialmente inconvincente no caso do ex-governador, cujo rastro de dólares, carros de luxo e pedrarias não tinha como desviar as autoridades do caminho da certeza e da punição.

Relação entre intelectuais e o poder é analisada por Mark Lilla

'A Mente Imprudente' e 'A Mente Naufragada' chegam ao País avaliando os "filotiranos" e os conservadores quixotescos

Martim Vasques da Cunha*: Aliás/ O Estado de S. Paulo

“No eros começam as responsabilidades.” Eis a grande lição filosófica que nos ensina a obra de Mark Lilla, autor de dois livros fundamentais para se entender o que está a acontecer agora no Brasil e no mundo – A Mente Imprudente: Os Intelectuais na Atividade Política e A Mente Naufragada: Sobre a Reação Política, lançados recentemente pela editora Record (o segundo título sairá no início de 2018).

A frase acima é uma referência irônica a dois sujeitos que sempre viram como óbvia a relação entre a vida política e a vida do espírito. O primeiro era W.B.Yeats que, com seu famoso bordão “Nos sonhos começam as responsabilidades”, foi, além de poeta, senador na Irlanda independente em 1922, e sabia claramente que a confusão do parlamento era mais uma amostra daquele “fascínio pelo o que é difícil” típico de quem gosta de se intrometer nos assuntos dos homens. O segundo era ninguém menos que Platão, o filósofo a quem todos os filósofos posteriores devem se curvar, e que afirmava que o ser humano era dominado por uma paixão demoníaca – o eros – que o elevava às alturas ou, se não possuísse autodomínio suficiente, fazê-lo se comportar como o mais vil dos animais.

Mark Lilla narra a tensão erótica que existe quando os intelectuais praticam duas coisas extremamente perigosas – e que sempre foram as preocupações de um Yeats ou de um Platão, ambos, por coincidência, possuídos por seus demônios autoritários. Ela se manifesta no momento em que esses guardiões do “anseio pelo Belo” esquecem-se das suas responsabilidades concretas ao defenderem, direta ou indiretamente, tiranos de esquerda ou de direita, destruidores de vidas humanas – e também ao resolverem, justamente para permanecerem nessas realidades alternativas, enquadrar todo o curso da História em uma única corrente narrativa que reduziria a complexidade da nossa experiência neste mundo.

Tristeza – Graziela Melo

A tristeza
vem do mar
e deixa a alma
nebulosa...

Vem do vento
vem das sombras,

vem por vias
tortuosas!

A tristeza
que me aflige,
é inquilina
de minh’alma!

Vem da própria
alegria,

vem das mesas
do bar,

vem da noite
vem do dia

vem do sofrimento
e da poesia...

vem do
sentimento,
do arrependimento,
do viver
do dia-a-dia!!!

A tristeza
é solidária,
é triste,
é solitária,

Irmã gêmea
da agonia!!!

Russian Philharmonic: Libertango / A. Piazzolla

sábado, 28 de outubro de 2017

Opinião do dia: Fernando Henrique Cardoso

“É tarde para chorar por impeachments perdidos ou por substituições que nada mudam. É hora de sonhar com 2018 e deixar de lado o desânimo. Preparemos o futuro juntando pessoas, lideranças e movimentos políticos num congraçamento cívico que balance a modorra dos partidos e devolva convicção e esperança à política.

O polo progressista, radicalmente democrático, popular e íntegro precisa se “fulanizar” em uma candidatura que em 2018 encarne a esperança.”

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Fernando Henrique Cardoso, sociólogo e ex-presidente da República, ‘Convicção e esperança’ O Estado de S. Paulo, 6/8/2017

Políticos imperfeitos : *Marco Aurélio Nogueira

- O Estado de S.Paulo

Crítica a Temer deve ser bem calibrada. Ele é produto do quadro político atual...

Na conhecida conferência A política como vocação, proferida em 1919, o sociólogo alemão Max Weber sugeriu que o verdadeiro homem político deveria possuir ao menos três qualidades essenciais: precisaria combinar a paixão por uma causa, o sentimento de responsabilidade e o senso de proporção. Poderia ter uma dessas qualidades em maior dose, mas não poderia deixar de ter as três. Com elas, entre outras coisas, haveria como controlar a vaidade, o desejo de permanecer sempre no primeiro plano, e dar o devido peso à missão política propriamente dita.

A sugestão é útil para que se discuta, por exemplo, a conduta de parlamentares e governantes, seu maior ou menor sucesso, seu estilo de liderança, as razões que os fazem mais eficientes na representação política e na gestão e lhes dão maior capacidade pedagógica de interagir democraticamente com as massas.

Há governantes que se seguram tão somente na paixão pela causa, conseguindo compensar a ausência (relativa) das outras qualidades mediante a organização de uma boa equipe de auxiliares. Enquanto o chefe faz política e enfatiza sua causa, os assessores cuidam da administração e garantem alguma margem de responsabilidade e senso de proporção no processo de tomada de decisões. Lula pode ser aqui tomado como exemplo positivo. Dilma seria um exemplo negativo.

Filosofia da construção | Cristovam Buarque

- O Globo

Até recentemente, havia filosofias que empolgavam os debates políticos

Todo político sem causa é um corrupto em potencial: usa o poder para enriquecer ou para ficar no poder. Por isso, a escassez de bons filósofos é tão grave quanto o excesso de maus políticos.

Até recentemente, havia filosofias que empolgavam os debates políticos: capitalismo, socialismo, comunismo, liberalismo, desenvolvimentismo, nacionalismo, oferecendo bases filosóficas que justifiquem as causas das lutas dos políticos.

Com a globalização, robotização, comunicação instantânea, crise ecológica, pobreza persistente, desigualdade crescente, migração em massa, fracasso do socialismo e injustiças do capitalismo, essas filosofias ficaram ultrapassadas, sem bandeiras claras no horizonte filosófico e político.

Sociedade em movimento: Dora Kramer

- Veja

Excesso de ceticismo faz o jogo de filhos e viúvos do imobilismo

“Vejam, não há povo nas ruas”, apontam com um quê de alívio aqueles avessos a mudanças que lhes possam alterar as rotinas de desfaçatez. “Por que não há povo nas ruas?”, perguntam-se os inconformados com o atual clima de apatia em tudo destoante da ebulição que permeou o país de 2013 a 2016 e arrefeceu após o impeachment de Dilma Rousseff, não obstante o ambiente na política continuar indo de mal a pior.

Sim, não há povo nas ruas, mas nem só de passeatas e panelaços vivem as insatisfações sociais. Nem só nas manifestações estrondosas e volumosas são gestadas as transformações. Nem tudo é quantidade e/ou estridência. Valorosos também são os conceitos, os propósitos, a consistência das ações e a persistência dos agentes dos atos. No caso, os cidadãos de cuja percepção não parece fugir a evidência de que há a hora de gritar e a hora de providenciar uma solução com a cabeça bem equilibrada no pescoço e os pés firmes no chão.

Aposentadoria e liberdade: Sérgio C. Buarque

- Revista Será?

Embora extremamente relevante do ponto de vista fiscal, a discussão em torno da reforma da previdência, incluindo a idade mínima para aposentadoria, passa ao largo de uma questão de fundo: a distribuição entre tempo de trabalho (necessidade) e tempo livre (liberdade) na sociedade moderna. A aposentadoria é apenas o direito ao tempo livre remunerado que o trabalhador recebe após anos dedicados à labuta de várias horas por dia durante a sua vida produtiva. O trabalho ao longo da vida difere no tempo com as condições econômicas e políticas que definem a jornada de trabalho, sendo a aposentadoria o repouso no período que resta de vida ao trabalhador. No início da revolução industrial, quando o operário trabalhava 16 horas por dia em sete dias da semana, a expectativa de vida flutuava em torno de 35 anos, de modo que, mesmo que tivessem aposentadoria, conquista bem posterior aos anos iniciais do capitalismo, não tinham mais energia e saúde para, digamos, “gozar a vida”. Os trabalhadores praticamente não tinham tempo livre ao longo da vida e menos ainda depois da curta e prematura velhice.

Os grandes avanços tecnológicos ao longo de dois séculos do capitalismo levaram a uma redução continuada e significativa da jornada de trabalho; de mais de 100 horas semanais, no início da revolução industrial, chegamos às 44 horas atuais, e muitas categorias em vários países já trabalham apenas 40 ou, até mesmo, 35 horas semanais, na França. Mesmo sem considerar as férias remuneradas, o tempo médio de trabalho atual é menos da metade do que era despedido por um trabalhador no início de revolução industrial. Esta redução da jornada de trabalho, disponibilizando um maior tempo livre aos trabalhadores ao longo da vida, não teria sido possível sem o excepcional aumento da produtividade do trabalho decorrente das ondas de inovação tecnológica nos duzentos anos de história.

Corrupção e democracia: Merval Pereira

- O Globo

“O que coloca em perigo a sociedade não é a corrupção de alguns, é o relaxamento de todos”. A frase do pensador político e historiador francês do século XIX Alexis de Tocqueville, criador da definição de social-democracia na análise das democracias ocidentais modernas, nunca esteve tão em voga quanto hoje, e não apenas na América Latina, que, pela primeira vez nos últimos 22 anos, pôs o problema da corrupção como o mais importante, segundo pesquisa do Latinobarômetro divulgada ontem.

ONG sediada no Chile que faz pesquisas regularmente sobre valores e opiniões na América Latina, o Latinobarômetro, em pesquisa que já comentei aqui na coluna, já havia detectado que a confiança na democracia está em declínio na região desde 1995. Comparados com outros nacionais consultados em países da América Latina, os brasileiros são os segundos menos dispostos a apoiar a democracia.

Há pesquisas que mostram que a democracia era um valor muito mais respeitado entre as gerações mais velhas, ao passo que na dos millenials, os que chegaram à fase adulta na virada do século XX para o XXI, apenas 30% nos Estados Unidos consideram que a democracia é um valor absoluto.

Data venia, excelências: João Domingos

- O Estado de S.Paulo

Conquistar credibilidade, todo mundo sabe que é muito difícil. Perdê-la, é fácil

Instituições como o Supremo Tribunal Federal (STF), que são parte dos pilares do estado democrático de direito, têm por obrigação zelar por sua credibilidade. Quem está lá na condição de ministro tem mais do que a função de magistrado. Tem uma missão, que é a de zelar pelo equilíbrio entre os Poderes, interpretando, com base na Constituição, qual é a função de cada um numa sociedade democrática, de forma que todos sigam harmônicos e independentes.

Se o STF perder a credibilidade, com ela vai junto a última esperança do injustiçado que busca Justiça, das minorias que brigam pelo direito de se fazer ouvir, do cidadão de bem que deseja contribuir para o crescimento do País.

Os 11 ministros que estão lá foram escolhidos entre brasileiros natos de reputação ilibada e de notório saber jurídico para, numa espécie de função sacerdotal, com toga e tudo, zelar para que o País seja mais justo, para que as desigualdades sejam menores, para que os privilégios desapareçam.

Conquistar credibilidade, todo mundo sabe que é muito difícil. Perdê-la, é fácil. Basta uma atitude errada aos olhos da sociedade para que isso ocorra.

O tamanho da liberdade: Hélio Schwartsman

- Folha de S. Paulo

A melhor vacina contra o cinismo é encarar o mundo como um grande laboratório, no qual testamos continuamente nossos semelhantes com o propósito de conhecer melhor a natureza humana e revelar suas incoerências.

Digo isso para justificar o texto de hoje, no qual vou me indispor com a esquerda e com a direita. Há pouco defendi enfaticamente o direito da mãe que levou a filha à performance "La Bête", na qual a garota interagiu com um artista nu, de educar a menina como preferir, sem dar satisfações às patrulhas moralistas. Recebi elogios de leitores de esquerda.

O que eles talvez não tenham percebido é que, ao comprar minha tese, que tem como alicerce a ideia de que existe uma esfera de privacidade que é indevassável, precisariam colocar-se também contra iniciativas caras à esquerda, como o projeto de lei que pretende punir pastores que pregam contra o homossexualismo.

Maia prioriza lei de abuso de autoridade

Presidência da Câmara cria comissão especial para avaliar projeto que estava parado havia quase seis meses; CCJ vai analisar o fim do foro

Daiene Cardoso e Igor Gadelha | O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - Passada a votação que suspendeu a denúncia contra o presidente Michel Temer, a Câmara deve se debruçar sobre temas que podem afetar diretamente as investigações envolvendo políticos. O presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), criou uma comissão especial para analisar projeto de lei que trata do abuso de autoridade, enquanto a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) deve pautar nas próximas semanas a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com o foro privilegiado.

Após deixar a proposta parada na Casa por quase seis meses, Maia assinou, na quinta-feira, 26, o ato que cria a comissão especial que vai analisar o projeto que trata de abuso de autoridade. Pelo despacho, a proposta deverá tramitar com “prioridade”, como exige o regimento interno da Câmara em caso de propostas que vêm do Senado.

A comissão deverá ter 34 integrantes titulares e igual número de suplentes. As vagas são distribuídas proporcionalmente ao tamanho das bancadas das siglas. O presidente da Câmara negou que a instalação da comissão seja uma retaliação ao Judiciário. “A comissão foi um pedido de associações de juízes e procuradores para garantir o debate. O mesmo pedido foi feito e atendido no PL do teto (salarial)”, afirmou.

Procurador da Lava-Jato vê ataque do governo contra Judicário e MP

Para Carlos Fernando, lei de abuso de autoridade será usada contra juízes

Thiago Herdy | O Globo

SÃO PAULO -A criação de uma comissão especial para apreciar o projeto de lei sobre abuso de autoridade, anunciada na quinta-feira pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), gerou críticas de um dos coordenadores da Lava-Jato em Curitiba. Em suas redes sociais, o procurador da República Carlos Fernando dos Santos Lima se manifestou contrário à ideia de Maia (DEM-RJ), de apressar o seguimento da proposta.

Para o procurador, em publicação na qual compartilhou matéria do GLOBO, “está em andamento um ataque coordenado contra o Poder Judiciário e o Ministério Público por parte deste governo”.

Segundo ele, “Rodrigo Maia quer discutir apressadamente um projeto que VAI ser usado contra juízes como (Sergio) Moro e (Marcelo) Bretas para constrangê-los”.

“Trata-se de mais um exemplo do descasamento entre os legisladores, incluindo Maia, e os desejos da população. Enquanto isso, as 10 Medidas contra a Corrupção continuam engavetadas”, escreveu Carlos Fernando Lima.

Reformas devem ficar para 2018

O calendário imposto pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, será curto para a votação das reformas, o que deverá empurrá-la para 2018. Maia iniciou tour de 9 dias no exterior, com diárias de US$ 550.

Calendário apertado

Com folgões no Congresso e base fragilizada, governo tem pouco tempo para reformas

Cristiane Jungblut | O Globo

BRASÍLIA - Apesar do discurso em defesa de uma reforma da Previdência mais enxuta, a Câmara terá na prática quatro semanas até o fim do ano para votações importantes. O “folgão” a ser dado aos deputados na semana de 13 a 17 de novembro e dois feriados — 2 e 15 de novembro — encurtam ainda mais o calendário, O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse ao GLOBO que na semana de 13 a 17 não haverá votações e que a anterior (6 a 10) será dedicada ao pacote de Segurança. Aliados dizem que, quando há vontade política, se consegue votar em 24 horas, mas o governo precisa de tempo para recompor a base, hoje muito fragilizada. Caso contrário, mudanças só em 2018 — ano eleitoral, quando a margem de negociação com o Congresso diminui.

A próxima semana será curta pelo feriado de Finados (dia 2), e sem a presença de Rodrigo Maia, que iniciou ontem uma viagem de nove dias a Israel, Palestina, Portugal e Itália. Ele voltará apenas no dia 5, a tempo de comandar as votações do pacote de Segurança Pública, que começará a ser analisado no dia 6. Na comitiva de nove deputados que acompanha Maia na viagem, está Baleia Rossi, líder do PMDB, partido do presidente Michel Temer, que tem a reforma da Previdência como prioridade, nem que seja uma proposta enxuta, focada na adoção de uma idade mínima para a aposentadoria.

Cármen Lúcia evita pautas polêmicas no fim de ano

Judiciário. Ministra Cármen Lúcia dá prioridade em novembro a casos de repercussão social ou ambiental e deixa de lado temas que podem interferir em inquéritos da operação

Breno Pires Rafael Moraes Moura / O Estado de S. Paulo.

BRASÍLIA - A presidente do STF optou por apresentar pautas de repercussão social e ambiental, sem relação com a Lava Jato, para novembro. Cármen Lúcia deixa de fora da agenda da Corte a discussão sobre foro privilegiado, que pode influenciar no cenário eleitoral de 2018, e a que trata da possibilidade de a PF fechar acordos de delação. A agenda foi divulgada no dia em que ministros bateram boca durante sessão.

Em uma tentativa de evitar mais desgastes à imagem do Supremo Tribunal Federal (STF), a presidente da Corte, Cármen Lúcia, optou por uma pauta de julgamentos no próximo mês que não inclui ações que podem afetar as investigações da Operação Lava Jato e até mesmo influenciar o cenário eleitoral de 2018. Aintençãoé retirara Suprema Corte do foco das polêmicas que envolvemos processos criminais.

Há cerca de duas semanas, a própria presidente do Supremo se tornou alvo de críticas por ter dado o voto que permitiu ao Senado reverter o afastamento do senador Aécio Neves (PMDB-MG).